The Project Gutenberg EBook of Os fidalgos da Casa Mourisca, by Jlio Dinis

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Title: Os fidalgos da Casa Mourisca
       Chronica da aldeia

Author: Jlio Dinis

Release Date: August 4, 2005 [EBook #16428]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA




OS FIDALGOS

DA

CASA MOURISCA

CHRONICA DA ALDEIA

POR


*JULIO DINIZ*


*VOLUME I*


*PORTO*

TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31

1871




OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA




I


A tradio popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, no se
remonta alm do periodo da dominao arabe nas Hespanhas.

Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. ,
porm, entre elle noo corrente que, em outros tempos, fra este paiz
habitado por mouros, e que s  fora de cutiladas e de botes de lana
os expulsaram os christos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
poca, ainda no desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
publicos das villas e aldeias, por occasio das principaes solemnidades
do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christos.

Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de sero
se reune a familia rustica, ou s rapidas horas d'uma noite de estio, na
soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
silenciosa carreira por um co sem estrellas, avulta uma creao
extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paos
invisiveis,  espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
palavra magica.

Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que 
propria a uma arreigada crena, de thesouros enterrados, que os mouros
por ahi deixaram, na esperana de voltarem um dia a resgatal-os, e j
no tem sido poucas as escavaes emprehendidas no vido intuito de os
descobrir.

Esta mesma noo historica do povo  a que d logar a um outro frequente
facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se no se guarda ahi memoria
da sua fundao, a chronica lhe assignar infallivelmente como data a
lendaria e mysteriosa poca dos mouros.

Era o que succedia com o solar dos senhores Negres de Villar de Corvos,
que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
Fidalgos da Casa Mourisca.

No se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feio
pronunciadamente arabe, que justificasse a denominao popular, ou que
mos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
denominada assim. s pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
e janellas, s estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
familia tentou dar aos paos de sua residencia senhoril, devra ella a
qualificao de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
Nenhum estylo architectonico fra na construco escrupulosamente
respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
 traa e execuo da obra; no ha pois exigencias artisticas que me
imponham a obrigao de descrevel-a miudamente.

Diga-se porm a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha 
aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
uma exclamao de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.

Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no co azul, alumiado
pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.

Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
fortalecer esta primeira impresso. O tempo no se limitra a colorir o
velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocra-lhe aqui e
alm uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilra-lhe a cruz da
capella, desconjunctra-lhe a cantaria em extensos lanos de muro,
abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetao parasita:
e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
serie de melancolicas reflexes.

E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhana informaes sobre a
familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
primeiros e espontaneos juizos.

Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
Jorge, ainda no completra vinte e tres annos.

A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
embaraar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
os muros de circunscripo das quintas.

Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fra
pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da crte.

Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
fidalgo provinciano um grau de illustrao e de tracto do mundo, um
verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moo se creasse
para morgado.

Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
podia considerar-se, graas  occupao dos seus primeiros annos de
mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
o tractavam com uma deferencia excepcional.

Ainda depois da morte do irmo, D. Luiz, costumado ao viver da grande
sociedade e  esplendida elegancia das crtes estrangeiras, no
abandonou a carreira que encetra. Secretario de embaixada em Vienna,
casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que ento residia n'essa
corte, encarregado de negocios politicos.

Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
revoluo, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
logo hostil ao movimento nascente, e abandonando ento o seu logar
diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
scenas politicas d'essa poca.

Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
amarguraram o resto da vida.

Os parentes de sua esposa abraaram a causa liberal.

D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
relaes com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o corao entre as fortes e
irreconciliaveis paixes dos que ella com igual affecto amava.

O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o 
perseguio.

O irmo mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e 
vehemencia de uma convico sincera, sustentra com a penna, e mais
tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
generosos e juvenis.

Sobre a bella e arrojada cabea d'aquelle adolescente pesaram as sombras
das suspeitas e das vinganas politicas; e D. Luiz, cego pela paixo,
no duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.

Este era o irmo querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a fora d'aquelle
rancor.

O imprudente moo viu-se perseguido, prso, processado e em quasi
imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar  furia dos seus
perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
expedio, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
emancipao politica.

Guerreiro to fogoso, como o fra publicista, o pobre rapaz no assistiu
porm  victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
inscrever o seu nome.

A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
Luiz. O corao amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu ento um
golpe decisivo; das consequencias d'aquella dr nunca mais podia ella
convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.

Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
ento a vida da crte e veio encerrar no canto da provincia os seus
despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
tinham resolvido pedir  natureza conforto contra os suppostos delictos
da humanidade.

O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
organisao social.

Instituiu-se alli uma pequena crte na aldeia, uma especie de assembleia
ou conventiculo politico, que no poucas vezes attrahiu as vistas dos
liberaes desconfiados e as ameaas dos mais insoffridos. Havia alli
homens de todas as condies, e alguns de illustrao e sciencia.

A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
no querer saber, qual o preo por que ella lhe ficava. Indifferente a
tudo, dir-se-ia sl-o tambem  ruina da sua propria casa, que apressava
assim.

A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentena fatal; o receio
pela vida dos outros; a tristeza e doena progressivas da esposa, a quem
aquelles odios e luctas tinham despedaado o corao; s vezes uma vaga
consciencia da sua situao precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde ento comeou a
mostrar-se taciturno e descorooado. A prova evidente de que alguns
remorsos tambem lhe torturavam o espirito fra a insolita generosidade,
com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
encarnira o odio do implacavel realista.

Viera o soldado entregar  esposa do fidalgo uma medalha, ultima
lembrana do irmo que lh'a envira, quando j agonisante no campo do
combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse quella, a
quem tanto queria.

D. Luiz no s permittiu que o soldado fizesse a entrega em mo propria
da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, no querendo que
a sua presena a reprimisse na ancia natural de saber as menores
particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fra
companheiro inseparavel. No se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
Viu, sem a menor reflexo, que o mensageiro se demorava alguns dias na
Casa Mourisca, e no oppz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelo
que fallecra.

Este facto insignificante foi de no pequena influencia nos destinos
d'aquella familia.

Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa crte de provincia,
cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
os seus caracteres infantis.

No lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
descontentes. Graas a estas especiaes condies, puderam os dois
rapazes receber uma educao, difficil de conseguir em um canto to
retirado da provincia, como aquelle era.

Mas, ao lado da lio dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
esforavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
atinham como a artigos de f, havia uma outra lio mais obscura, mas
por ventura mais efficaz. Era a lio da me e a do veterano.

A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educao e de um
profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
o impelliam as suas opinies politicas. Educada no seio de uma familia
liberal, possuia sentimentos favoraveis s ideias novas; mas sabia
guardal-os no corao, para no despertar conflictos na familia.

Porm, no tracto intimo entre me e filhos, trahia-se muita vez essa
prudente discrio, e as fidalgas crianas iam recebendo a doutrina, de
que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
vontade o corao, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
dos mestres.

Demais, ouviam tantas vezes a me fallar-lhes do irmo que perdra, dos
seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicao
heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
martyr e a vl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.

Para isto porm concorreu mais que outrem o hortelo.

O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e faanhas d'aquelles
tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
ultimo suspiro recolhra.

As crianas sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
velho, em cujas narraes pintorescas e vivamente coloridas achavam um
encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
elle fallava dos trabalhos da emigrao, dos episodios do cerco do
Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecra
de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.

As crianas no se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
de tantos feitos heroicos.

E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
encarregados da educao dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
affeioados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
os amarem de reflexo.

Mas dias de maior provao estavam reservados para esta familia.

A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
desterro, a que se condemnou, obrigra-o a enormes e perigosos
sacrificios.

D. Luiz nunca propriamente se occupra da gerencia dos seus bens. Fiel
aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixra desde muito a
procuradores todos os cuidados de administrao, e de quando em quando
recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
se lembrasse de perguntar a si proprio se no seria possivel oppr um
obstaculo quella ruina.

O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
letras gordas, que se estabelecra commodamente n'aquella acastellada
residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.

Faa-se justia ao padre, que no era de m f, nem em proveito proprio,
que elle apressava, com mo poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
sob condies de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
que era de esperar. Dispersou-se a crte de D. Luiz. Por muito que
fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
esplendor, cdo principiaram a transparecer os signaes da declinao.
Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
que o fidalgo j luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; 
certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
s.

Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.

Depois veio a doena e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
to fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, at escondia as
lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dr atribular-lhe
ainda mais a existencia. E ainda no haviam acabado as provaes! No
fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.

D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
misso consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se no
havia de querer! O corao rido d'aquelle velho e o tenro corao
d'aquella criana procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.

O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
presena da sua Beatriz. Aquelle desgraado corao, vazio de affectos,
queimado de odios e de paixes esterilisadoras, sentia um grato
refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
criana, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
desafogo dissipavam a cerrao que ia na alma d'aquelle homem, que com
tanta fora sabia odiar.

E no era s o pae que experimentava essa influencia.

Jorge, que de pequeno fra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
bondade e ternura de Beatriz. Criana ainda, tinha ella, quando a ss
com o irmo, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
espirito para communicar  vontade com o seu. Ella parecia comprehender
o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
lembrando-se de que seria sua misso na vida proteger aquelle anjo.

Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica represso que o
continham nos desvarios.

Pois at n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancio.

Criana mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
labios, e prostrou-a exanime no tumulo.

Fez-se ento devras escuro no espirito do pae.

Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma viso
vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
vida era to outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
seus pensamentos mais constantes, desapparecra, e elles olhavam-se
assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
que os alumiava; sentiam a indeciso do homem, a quem no meio da estrada
fulmina inesperada cegueira.

Passada a violencia da primeira dr, em todos ficou a saudade, negra e
concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordao dos seus gestos,
das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
alma d'aquelle anjo assistia ainda  familia, que o chorava, e  sua
mysteriosa direco obedeciam todos, sem o perceberem.

Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.

Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes d uma quasi
immortalidade,  maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
ns, depois de aniquilado o fco que a emittia.

O padre Januario tornou-se desde ento a creatura indispensavel, e a
companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
sua antiga crte.

Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe no ser possivel
enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixes
do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
o tempo entre duas occupaes exclusivas: comer e esperar com
impaciencia as horas da comida.

Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presena na
Casa Mourisca do hortelo, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capello ia aconselhar ao
fidalgo a demisso d'aquelle homem, que ameaava infectar de liberalismo
a familia inteira.

D. Luiz porm, apesar de nunca fallar com o hortelo, no attendia
n'estas reclamaes o padre. Conservando no seu servio o veterano,
satisfazia a um pedido da esposa, e no teria coragem para fazer o
contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
remoques encapotados do procurador.

Tal era a situao da familia da Casa Mourisca na poca em que vae
procural-a a nossa narrao.

J se v quo mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
D. Luiz. A educao que elles haviam recebido no tendra a fim algum
prtico.

D. Luiz no podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profisso. A
nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
pelas ultimas evolues politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
Negres de Villar de Corvos no eram para se assalariarem em defeza dos
principios e das instituies que abalaram os velhos thronos, firmados
no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
se D. Luiz estava persuadido de que j no havia religio n'este
territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
mallogro de longas pretenes s honras de umas meias vermelhas, que s
se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
cavalgando e caando nas immediaes, e fruindo em sancto ocio uma vida,
cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.

Deve porm dizer-se que no caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
porque de criana era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
mais a differena se pronunciava.

Jorge, na infancia como na juventude, fra sempre grave e reflectido.
Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
saudao affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
quando as encontrasse a ss nas veredas mais solitarias das devezas ou
pinheiraes. Ellas habituaram-se quella juvenil seriedade, saudavam-n'o
como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasio precisa, mas nunca
um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
intelligente expresso d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
para o vr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
debaixo do brao ou a cavallo pelos caminhos do campo.

As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor s
mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
podem vir perigos desconhecidos.

Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetra o seu
primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturra j uns arremedos de
galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
ento nunca lhe andou o corao devoluto, ainda que tambem nunca to
tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
elle a todas designava por os nomes. A todas no, que para as feias
tinha uma memoria ingrata.

Alm d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
a livraria da casa. A educao esmerada da me e bom gosto litterario
tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelo guardra como
reliquia, furtando-os ao auto de f a que os condemnaria inevitavelmente
a indignao do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
instituies, e a fazer a justia devida a muitos preconceitos, que lhe
haviam imposto como dogmas.

A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, no podiam
passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
ao espirito uma secreta apprehenso pelo seu precario futuro.

Mauricio, imaginao mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
das suas dissipaes, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
fantasia, e no profundava os olhos at o seio obscuro das realidades. A
sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginao nimiamente
inquieta, razo por indolencia inactiva, no via, nem quereria vr, o
espectro, que s vezes apparecia aos olhos do irmo.

Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a appario
d'esse espectro, que,  semelhana da sombra do rei da Dinamarca, em
Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

Esta circumstancia no era s para elle manifesta. Ao viajante, que j
suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, no
passaria ella tambem desapercebida.

Na raiz da collina fronteira quella, onde o solar dos fidalgos erguia
as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.

O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.

Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
aproveita, que no dorme, que no descana; a economia, a previdencia, o
futuro: do outro, o passado, a tradio esteril, o silencio, a incuria,
o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
construces; aqui desmoronava-se um pavilho, alli levantava-se um
celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, s heras
vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallarias do
palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
raas, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
bom sangue, cujo sacrificio a economia no exigira ainda; nas mais
modestas cavallarias do casal, duas eguas robustas, promptas para o
servio, e domaveis por uma criana, preparavam-se em fartas mangedouras
para frequentes e longas excurses; e ao entardecer abriam-se os curraes
a numerosas cabeas de gado, cujos mugidos chegavam at o alto da Casa
Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
melancolico.

Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
espirito de Jorge o espectro que o entristecia.

O dono da Herdade fra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
passra depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendra uma
fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornra-se em pouco
tempo possuidor de extensos bens, e era j o chefe d'uma familia
numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.

Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de to
pouco se chegra a tanto, como se podia cahir de tanto em to pouco?

Taes eram, em summa, as vagas reflexes que se assenhoreavam do espirito
de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animao, a vida da
propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
silencioso e como adormecido do velho pao dos seus maiores.




II


Por uma manh de setembro, limpida e serena, como s vezes so na nossa
terra as manhs do outomno, Jorge sahiu a p, a passear pelos campos.
Errou ao acaso por bouas e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
cedida ao transito pela sfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
ps, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
de que j fallamos.

Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mos de
fundibularios gigantes, empenhados em encarniada lucta. Os olhos
dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
se com fora irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

Era a poca de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se alm em montes as
cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
series de mdas elevavam-se mais longe,  maneira de tendas em um
arraial de campanha; juntas de bois, j livres do jugo, repousavam das
fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moos da
lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
do dia deixavam chegar distincto at o alto da collina.

O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia quellas
tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
robustas crianas, com quem brincava um formidavel rafeiro.

E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em to profundas
meditaes parecia absorvl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que to
desapercebidamente lhe ia correndo a manh.

Voltando-se, viu seu irmo Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
petrechos de caa, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres ces de boa raa,
que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
latidos e cabriolas.

Mauricio, assim avisado e conduzido pelos ces, veio ter com o irmo,
exclamando jovialmente  distancia de alguns passos:

--Em flagrante delicto de meditao poetica, o snr. Jorge! Bravo! J no
desespero de te vr um dia fazer versos.

Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
d'elle sem parar, pde fazl-o simplesmente com o prosaico intento de
tomar flego. Se isto fosse symptoma de poesia, ento...

--Pois sim, mas j isso de subir o monte com as mos vazias, como ests,
sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio,  um symptoma
importante. Quem  que se d ao incommodo de uma ascenso d'essas,
quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe no compensa as
fadigas? E quem tem d'essas compensaes seno os poetas, que so os
unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?

     Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
     Mont sur la montagne en presence des cieux?

E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
do irmo, pousava a espingarda, e descobrindo a cabea, sacudia aos
ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
cuidados seus.

Os ces andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
monte.

Interrompendo de subito a recitao, Mauricio proseguiu:

--Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
Que escrupulos pde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como 
bem talhado aquelle crte alm, no monte; parece feito de proposito para
deixar vr no plano posterior aquella povoao distante, que no sei que
nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
inspirao de o assentar to bem? Onde  que elle ficaria melhor? Parece
que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

E acrescentou, suspirando:

--Ai, na aldeia o scenario bem est, pouco tem que se lhe diga; mas os
actores e a comedia que aqui se representa  que so de uma insipidez!

Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava 
simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamaes.

Jorge, que escutra o irmo sob uma meia distraco e sem desviar os
olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

--Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que no tinha
notado uma s d'essas particularidades da paisagem que descreves.

--Gostas mais da contemplao em globo. At isso  de poeta. Analysar
minuciosamente as impresses recebidas no  o seu forte.

--Enganas-te ainda; no era tambem o conjuncto da paisagem que eu
observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

--Qual era ento?

--Olha alli para baixo; a Herdade de Thom, aquella azafama, aquella
gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!

--Ora adeus!--exclamou Mauricio-- justamente o que me no roubaria um
momento de atteno. No te estou a dizer que para mim o que ha de
insupportavel no campo  a gente que o habita, a vida que n'elle se
passa? Faz pena vr que especie de contempladores tem a natureza para
estas maravilhas. A indifferena com que estes selvagens encaram tudo
isto! Repara, v aquelle labrego passar l em baixo na ponte; olha l se
elle desvia a cabea para algum dos lados, ou se pra um momento para
gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
Selvagem! Pergunta ao Thom ou a toda essa gente que l anda em baixo a
trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pr do sol lhes produz alguma
sensao na alma, a no ser a lembrana de que vo sendo horas da ceia.

Jorge sorria ao ouvir o irmo, e tornou placidamente:

--Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faa;
e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
entendem. Esta pobre gente do campo  uma parte integrante d'elle; no o
contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu at,
para que te diga a verdade, estou persuadido de que no encontraria
encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
allemes passeiam, soltando exclamaes polyglotas, e onde o nosso
enthusiasmo nos  prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
torna os lavradores poeticos  a inconsciencia com que elles o so.

--Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
muito longe.

--Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
muitos d'esses prados so pantanos mal cheirosos, que infectam, e
mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
prejudica a belleza d'esta paisagem?

--Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
fundo que lhe fazem os castanheiros!

--Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha l tristes e prosaicas
realidades--observou Jorge, suspirando.

Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmo o
fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

--Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
ns l temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
celleiros em ruinas? Querers encontrar poesia na nossa pobreza,
Mauricio?

--Pobreza?!

--Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
pao acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
chronica do nosso capello; compara ainda, Mauricio, compara a
desafogada alegria de Thom com a tristeza sem conforto do nosso pae.

Mauricio curvou a cabea, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, at
ento fascinados pelo fulgor de lisongeiras illuses.

Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmo:

--Pois bem, ser como dizes. Creio at que seja essa a verdade. A
riqueza est alli, a pobreza do nosso lado; porm a poesia... oh! essa
deixa-nol-a ficar, que bem sabes que no  ella a habitual companheira
da opulencia.

--Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que no; mas da
opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
civilisa o povo, oh! d'essa  a poesia companheira tambem. Se o castello
arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
enthusiasmo e de f no futuro.

Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmo, exclamou
erguendo-se e com affectado estouvamento:

--Ests enganado, Jorge, o que reina alli em baixo no  a poesia, ...
...  a economia. A poesia no assiste ao edificio que se levanta, mas
ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
passado  que a encontras, melancolica, que  o ar que lhe convm. E
ella tem razo; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! No sei quem
foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
vae por l destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
emmudecer dentro em pouco os cros das aves; os rebanhos, que d'antes
pastavam pelas campinas verdes, hoje j prosaicamente se vo engordando
nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
musicas ruraes ho de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choas ficar
o co coberto de fumo negro e espesso do carvo de pedra. Que modelo de
aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

--No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!--acudiu Jorge--Mas
antes l  que bem se comprehende a poesia da vida rural, que at a
nobreza a no despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassido.

--No o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
qu de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
ser a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.

--O peior, Mauricio,  que um dia vir talvez em que o tremendo
prosaismo da completa miseria dissipar esse tenue perfume que dizes.

--Safa! Ests hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa l;
lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
o achar, ficando fabulosamente rico. Que essa esperana dissipe o humor
negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caar. 
bom para dissipar vises.

--No estou hoje para caar.

--Ento vaes reatar aqui o fio das tuas cogitaes?

--No, vou reatal-o acol.

--Vaes  Herdade?!

--Vou.

--Fazer o qu?

--Vr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

--Sabes que o pae no gosta que lidemos muito de perto com o Thom?

--Sei.  um preconceito. Elle no o saber.

--Um preconceito! Bom! Ests hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
vr-te ao jantar de melhor aspecto.

--Adeus, Mauricio.

E os dois irmos separaram-se. Mauricio, precedido pelos ces, seguiu em
direco dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
Herdade.




III


Thom da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que pde
desejar-se.

Alma s em corpo so: esta phrase do poeta  a que descreve melhor o
homem; no physico, a fora e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
alegria.

Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, no descanava elle.
Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
com nunca desmentida coragem. Na abastana conservava os costumes
laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mos, a tudo
superintendia. Antes de almoar j elle havia passado revista  Herdade
toda. No decurso do dia montava a cavallo e l ia inspeccionar uma ou
outra propriedade mais distante, que no deixava entregue  discrio
dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excurses at o
Porto, chamado por negocios relativos  lavoura.

Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
contractos, no se lhe limitava o credito  circumscripo da sua
aldeia, estendia-se at  cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
certas transaces, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
lembrana de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
desalentos.

Quando Jorge se dirigiu  Herdade, presidia ainda Thom aos diversos
trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manh.

No havia alli braos quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
o trabalho no distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
familiarisam com elle. D-se o mesmo que se d com o tracto dos bois;
smente na cidade  que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
s mulheres e s crianas; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
eiras e quinteiros da Herdade.

E Thom, centro d'aquelle movimento, lanando os olhos a tudo, dirigindo
a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu brao robusto; e
da porta da casa, assistindo tambem quella scena rural, a boa e sancta
mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

--Olha l esse carro que no est bem seguro,  Manoel. V l se me
arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraa...  meu maluco, no
reparas que me vaes semeando as espigas pelo cho? Salta, apanha-me tudo
isso, que eu no quero nada desperdiado... Est quieto, Joo, vae para
casa, agora no se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao p dos bois,
menino! Ai que tu...  Luiza, olha se mandas dar uma pinga quelles
homens.... Que quer voc, tio? Cubra-se, ponha o seu chapo. Ai, vem por
causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte c manh. Hoje
no posso olhar por isso...  Chico Engeitado, que diabo ests tu
fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
milho que eu te disse; corre... O moleiro j veio? Pois as azenhas j
moem, e o homem no tem desculpas que d pela demora...  Manoel, arreda
esse carro mais para o meio, seno no pde entrar o outro, homem de
Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
Que m'o no v cortar antes do tempo. Eu sempre quero l ir primeiro;
elle no apodrece na terra.  mulher, chama para l esses pequenos, que
podem aleijar-se por aqui. Vae, Joosinho, vae para casa e leva o mano.
Olha, queres uma espiga assada?  Chico, escolhe ahi duas espigas para
os pequenos. Que demonio anda aquelle co a fazer atraz das gallinhas?
Aqui j, atrevido! V, v, rapazes! Vocs n'esse andar no acabam hoje.
D c um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observaes foi
Thom da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

--Ai,  Thom, olha quem alli est!

O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do porto do
quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmo, contemplar o mesmo
espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
ainda se no costumra  prosperidade do homem que fra seu criado. A
granja era como que uma censura pungente  sua imprevidencia; era uma
lio muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
orgulho e pungia-lhe o corao de remorsos.

Thom no se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
e respeito, que se ressentiam ainda da passada posio do fazendeiro em
casa do fidalgo.

Este porm procurra o primeiro pretexto para interromper as relaes
com Thom. Uma questo de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se ento muito cioso de
seus hypotheticos direitos, e, no obstante a nenhuma animosidade que
houve da parte do lavrador, desde essa poca nunca mais conviveu com
elle.

Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
trouxera ao collo e que lhes queria devras, receberam ordem para no
voltarem l.

Thom da Povoa sentiu-se com este proceder, que no tinha merecido; mas
possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritao do
fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
mulher:

--Ento que queres tu que eu lhe faa? assim nasceu, e assim ha de
morrer.

Eis a razo porque a presena de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
signaes de estranheza, caminhou para elle com as mos estendidas e o
rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

--Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui est tudo uma desordem, mas
emfim  casa de lavrador, e em setembro no ha maneira de a ter asseada.
 Luiza, manda para aqui uma cadeira... ou deixa estar,  melhor entrar
l para dentro.

--No, Thom, eu prefiro ficar aqui. E no se incommode. Olhe, j estou
sentado.

--Ora! n'um carro! Isso  que no. Nada, no tem geito. Luiza, manda
ento a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

--Agradecido, Thom; no tenho sde. Appeteceu-me vir vr de perto esta
lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
de cima: por isso desci.

--Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me d alegria ver aquelles
meninos, que conheci to pequerruchos como estes.

E apontava para as crianas que, agarradas s pernas do pae, olhavam com
grandes olhos para Jorge.

--So todos seus?--perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
joelhos.

--E aquelle que a me traz ao collo e a pequena que est na cidade.

--Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

--Est crescidita, est. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
vinho  puro e no faz mal de qualidade alguma. Aquillo  sumo de uva e
nada mais.

--Obrigado, obrigado; mas no bebo agora. Peo-lhe que continue com o
seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso  que vim.

--Ai, isto est a acabar. Vae no meio dia--acrescentou olhando para o
sol--d'aqui a nada vae esta gente jantar e... Para onde levas tu esse
carro,  desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos... Eu
attendo-o j.

E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio  frente dos bois, e
encaminhou o carro na direco conveniente.

--Vocs juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limes
este anno, que  uma coisa por maior, snr. Jorge--disse elle,
regressando ao seu posto com um enorme limo, que mostrava com orgulho.

Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

--Como est crescido e fero--dizia ella, olhando-o com curiosidade e
complacencia--e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

--E como est seu pae, snr. Jorge?--perguntou Thom gravemente.

Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
criados da lavoura, a quem de quando em quando Thom dava ordens e fazia
recommendaes, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

Luiza, com o filho ao collo, no abandonou tambem a scena, seno quando
o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
fieis a orao do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
curta reza, no fim da qual a mulher de Thom, depois de dar aos
presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

--Venham jantar.

Todos obedeceram immediatamente  agradavel ordem, e em pouco tempo
ficou s e silenciosa a scena, havia pouco to ruidosa e animada.

--So horas do seu jantar, Thom--disse Jorge, levantando-se para sahir.

--Depois d'esta gente acabar,  que eu principio. A Luiza no pde
attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu no lhe
offereo do meu jantar, porque no  feito para si; mas se quizer dar
uma volta por os campos emquanto elles jantam...

--Se lhe no causar incommodo...

--Nenhum; at preciso de ir vr o que elles hoje trabalharam no poo que
mandei abrir l em baixo.

E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thom
obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcra uns
pecegueiros, o resultado que tirra do enxoframento das vinhas, a
quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendra na
construco do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
amanho das suas terras, das quaes nem um s palmo se poderia encontrar,
onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

Jorge escutou-o com uma atteno e interesse, que estavam causando
grande estranheza a Thom, pouco acostumado a vr as pessoas da
categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
lavoura.

E as perguntas do joven fidalgo no eram vagas e ociosas, como essas que
por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
proprietario. Havia n'ellas uma preciso, uma minuciosidade;
acompanhavam-n'as reflexes to acertadas, duvidas to racionaes, que
Thom no podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
Negres de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

Esta convico enthusiasmava Thom, que proseguia com ardor as suas
informaes.

Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

Thom era forte na especialidade dos oramentos; por isso deu com a
melhor vontade a Jorge as informaes que este lhe pedia.

A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabea, a
fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

--E porque ser que s os campos que nos pertencem esto cheios de
ortigas e saramagos, Thom?

Thom da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
penetrante. Porque o fazendeiro tinha s vezes um certo olhar, que ia
at o fundo do pensamento de uma pessoa.

--Quer que lhe diga porque , snr. Jorge?--perguntou elle logo depois,
com um tom de voz serio e quasi triste.

--Quero, sim.

-- porque o dono d'elles  o snr. D. Luiz Negro de Villar de Corvos, o
fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

Jorge olhou interrogadoramente para Thom, que continuou:

-- pela mesma razo porque chove nas salas do morgado do Penedo e
porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, at hoje, o
menino no me perguntava depois porque os seus campos esto cheios de
serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, no  s com agua
que se regam estas terras para as ter no ponto em que as v;  com o
suor do rosto de um homem.  preciso que o dono vigie por ellas, sem
confiar em ninguem, como um pae vigia pela educao dos filhos. Ora ahi
est. As benos de um padre capello no do adubo s
terras--acrescentou Thom com um sorriso epigrammatico a commentar a
alluso, que no escapra a Jorge.

--Mas como se explica isto, Thom?--continuou Jorge com a docilidade de
um discipulo--os meus avs nunca se occuparam muito com a lavoura;
passaram a vida quasi toda na crte e nas embaixadas, e raras vezes
visitaram as suas terras, onde s vinham para caar, e comtudo a nossa
casa era ento uma das mais ricas da provincia, e hoje...

--Isso l... Olhe, snr. Jorge, se elles se no occuparam dos seus bens e
no sentiram o mal,  porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
est pagando  seu pae e amanh sero os meninos. Isto  como uma pessoa
robusta que leva vida extravagante. Emquanto  nova e tem muitas foras,
no d por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega l a um
certo ponto e de repente acha-se fraca e ento  que considera o damno
que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

--Entendo, Thom, entendo, e creio que  essa a verdade. Alm de
que--proseguiu Jorge pensativo--n'aquelles tempos, as classes
privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
dissipao, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
desvarios; adormeceram n'essa confiana e no sentiram que tinham mudado
as condies sociaes, e agora ao acordarem...

Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

--E no ser ainda possivel sustentar aquella casa na sua quda?

Thom da Povoa sorriu com uma expresso de intelligencia.

--Entregue-a s mos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
dispr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e ver.

--Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
arvores--observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

--Talvez deitasse--disse Thom--pde bem ser que o fizesse, porque l
amor a essas coisas no teem elles, no. Mas no seria necessario. Eu,
que tambem lhes tenho affeio, quelle arvoredo e quellas paredes
negras, porque alli passei um tempo... mau era elle de certo... mas
emfim... sempre tinha vinte annos..., eu, que me no atreveria a
deitar-lhe o machado... ainda me aventurava a pr aquillo no p em que
esteve.

Jorge no pde tirar s suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thom, exclamou voltando-se
para a Casa Mourisca:

--Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
teus tectos e te abra as portas  familia de um lavrador abastado, para
vres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
Deus d a esse homem um pouco de amor s coisas velhas, para te no
destruir na reforma.

Thom, que percebeu a occulta expresso d'estas palavras, replicou com
dignidade:

--Porque no ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
olhos para os teus achaques e os cure por suas mos?

--Os remedios so caros na botica, Thom. Os pobres vem s vezes morrer
um doente, porque no podem comprar a droga que o salvaria.

--Senhor Jorge--acudiu Thom com um ar quasi solemne--resolva-se devras
a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
do corao fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
ou bem, conforme puder, porque isso  l com Deus e elle, faa tudo isto
e os capitaes no lhe faltaro. O homem que principiou a ganhal-os
n'aquella casa ser um dos que no por duvida em empregal-os, at onde
chegarem, para a sustentar e no deixar cahir; e onde no chegarem os
capitaes, chegar o credito.

-- uma esmola que me offerece, Thom?--perguntou Jorge, mas sem o menor
signal de irritao.

--No, snr. Jorge, no . Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
fazl-a, sem prejudicar meus filhos. No  uma esmola,  um emprestimo,
menos perigoso do que os arranjados pelo padre capello. No  vergonha
um emprestimo, quando se faz em condies de poder por elle alliviar-se
um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
mas a taes portas tem ido bater e to mau uso tem feito do pouco e caro
que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. No fica
mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
os compromissos que se ajustaram. Ento no v que at os governos pedem
emprestado?

--Mas quando, como no meu caso, no ha garantias a offerecer, o
emprestimo  bem parecido com a esmola, deve confessar.

--No ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?...
Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e ver depois
se tenho razo no que digo.

E Thom da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

--Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, s vezes bem doida,
que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
que juntra, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
romper do dia at  noite, tirava quando muito o preciso para no morrer
de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao p dos
audes e o palheirito que fica ao lado?

--Bem sei.

--Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relao do Porto.

--Ainda tenho uma ideia de o vr.

--No havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e at sempre
prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
novidade. Foi uma coisa de fazer d. Nem gota de agua, as fontes scas,
as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
mos na cabea e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

--Succedeu-lhe o mesmo a si? Est visto.

--A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
para fra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
caso de uma doena; mas no era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
no ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
diz: No te afflijas, homem; ahi vo as minhas arrecadas, pega, e
atirou-m'as para cima dos cruzados. L me custava o servir-me das
arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas no
houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
Menezes.

--E elle?

--Parece-me que ainda o estou a vr no seu quarto de estudo, com as
pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: Ento
o que o traz por c, Thom? Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.
sabe. Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau. Ora
se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
vir melhor. E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
vr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
disse-me: Ento est ahi tudo? Est, sim senhor, v. s. no viu? E
voc quer-me dar tanta coisa? D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
elle admirado. Ento no  este o preo ajustado no arrendamento? 
celebre, disse o snr. doutor abanando a cabea,  o primeiro rendeiro
que me paga to prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
coisa, vista a escassez da estao. Onde foi voc buscar esse dinheiro,
 Thom? Voc  o mais pobre dos meus caseiros e eu l vi o estado do
seu campo. Eu no tive remedio seno contar-lhe tudo. Elle nem me
deixou acabar. Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
sua mulher. Eu no sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
proximo.

--Bella alma!--exclamou Jorge commovido pela narrao.

Thom continuou:

--Em todo o caso--disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor--voc fez hoje
um grande negocio sem o saber. Voc  trabalhador, que isso tenho eu
visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
capital e hoje arranjou-o.

--Que queria elle dizer n'isso?

--Foi o que eu lhe perguntei. Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que voc fez,
mostra-me o de que  capaz. Apparea manh por aqui, porque temos que
tractar.

--E que lhe queria elle?--perguntou Jorge, cada vez mais attento.

--No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: Ora venha c, Thom,
sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer. E, obrigando-me a
sentar ao lado d'elle, continuou: Vocemec vae assignar-me um escripto
de arrendamento da minha propriedade das Barrocas. Ora faa ideia o
menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
Barrocas? aquillo  um condado, se pde dizer. Como havia eu de
arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
No lhe parea isso uma coisa por ahi alm. Ns ajustamos a renda e
voc vae tomar conta d'aquillo. A quinta est bem educada e nutrida, e
estou certo de que no o deixar ficar mal no fim do anno. Mas,
disse-lhe eu, v. s. bem v que uma pea d'aquellas precisa de braos
para ser bem trabalhada, de braos e de certas despezas. Mas, homem,
torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe l que eu a deixe ao
desamparo, para voc m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
caseiros as entregam aos senhorios. Mas  bem feito, que elles tambem
fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
no esfomeassem a terra.

--Mas esse homem era um grande philosopho!--observou Jorge.

--V voc para l--continuou elle--tracte-me bem d'aquillo, e os
capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
obras, eu lh'os adiantarei. Voc  trabalhador, a terra  boa, ia
apostar que ambos havemos de lucrar.

--E o Thom foi?

--Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abenoada! e
depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
terra, produz dinheiro, senhor. Eu l o vi, que quanto mais se gastava
com a terra, mais ella produzia. Foi l que eu aprendi a ser lavrador.
Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. Anda para diante Thom,
dizia-me elle. Se queres que o cavallo te no deite a terra e te leve a
longa jornada, d-lhe bem de comer; a rao de aveia que lhe furtares da
mangedoura  a que mais cara te sahe. Mais tarde, quando eu, com a
ajuda de Deus, j ia, alm de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: No
abafes o dinheiro, Thom. Pe-n'o ao ar para elle se no estragar; tudo
quer ar n'este mundo. E ahi me animei eu, ao principio com mdo, que
fui perdendo depois, a dar emprego s minhas economias; e era um gosto
vr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que j eu pensava
em comprar umas terras, que era c o meu sonho. Foi elle ainda quem me
tirou isso da cabea. No tenhas pressa de ser proprietario, prgava-me
elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
comprar qualquer leira de terra, no correspondem ao gostinho de te
chamares dono d'ella. No te afogues em pouca agua. Se comprares um
cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, v l que
negociarro; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber. E o
caso  que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

--Mas a final sempre comprou?

--Quando elle mesmo m'o disse. Foi  praa esta granja, que no era
ainda o que  hoje. V agora se ficas com aquillo, disse-me o snr.
doutor. A propriedade era de valor e eu no queria empregar na compra
todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
propriedade passou para as minhas mos. Ento trabalhei mais do que
nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
emquanto o no fizesse, parecia-me que no podia chamar ainda meu a
isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
gado, pude, mais cdo do que esperava, pagar a minha ultima prestao e
remir a divida.

Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thom
da Povoa de um claro de enthusiasmo e com as faces cradas e os olhos
radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

--Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
Eu sei l?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitao
no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o corao como o de uma
criana; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e ssinho, como
um ladro, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
quasi louco. At fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vr-me c
dentro: Isto  meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
coisa tudo isto. Meu! eu no me fartava de repetir esta palavra! Meu!
Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, at estes passaros,
que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me  sombra d'essas
arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final.... quer que lhe
diga? No tive mo em mim que no ajoelhasse para beijar esta terra!
beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhra  custa de muito
trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
cumprir a minha palavra. Eu no me recordo de ter um contentamento assim
na minha vida, a no ser no dia em que estreitei nos braos a Luiza, e
que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
soube o que  ter amor  terra. Desde a sementeira  colheita era um
cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
causava-me tanto prazer como vr o crescer dos filhos; cada novo rebento
era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. J v, snr.
Jorge, que quem deve o que  a ter sido honesto, no pde recusar o seu
pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como  o menino.

Jorge estendeu a mo a Thom, dizendo-lhe sensibilisado:

--Fez-me bem ouvil-o, Thom. A sua vida  um exemplo,  uma lio, e
n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
dia eu tambem abraaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
Mas no sei se a empreza estar ao alcance das minhas foras.

--Est. Eu lhe digo. Ha aqui s uma difficuldade a vencer. Empregue toda
a sua fora para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
futuro e da sua dignidade.  preciso que o pae lhe d licena para o
menino administrar a casa e que o padre capello se contente com dizer
missas, porque depois...

--Ainda quando vencesse essa difficuldade, que  grande, Thom, porque
meu pae ainda v em mim uma criana, surgiria outra. De si nunca meu
pae...

Thom da Povoa no o deixou concluir.

--Eu sei, mas o snr. D. Luiz no se mette por miudo nos negocios da
casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
ponha em si a confiana que to mal emprega no padre, e eu lhe prometto
que o mais se far. Eu no exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia  pouca,
eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae no
gosta de que o menino venha por aqui, vir sem que elle o saiba. Os
seres de inverno so longos, ns conversaremos algumas noites.

Jorge disse finalmente com resoluo:

--Aceito, Thom. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
ruina me dar coragem. Aceito, porque tenho f em que me no ser
impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

--E eu tenho f em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
n'aquella triste casa. No  verdade que se diz que ha l um thesouro
escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
jantar esperava por elle.

Jorge sahiu d'alli com o corao palpitando de esperanas e de commoo,
que lhe estava j causando a ideia da entrevista que precisava de ter
com o pae.

Thom jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa aco e
realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
voltou para a eira, cantando.

Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.




IV


Em uma das espaosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
capello-procurador frei Januario dos Anjos.

No foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima orao.

Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
occupao dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
amarguras d'estas longas expectaes. Eram ellas talvez que no o
deixavam medrar na proporo dos alimentos consumidos, porque frei
Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda no era
para se devassar de prompto.

D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituies
liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas--a liberdade de
imprensa--; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
approvao ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
pelo governo, que nunca tinha razo.

Frei Januario secundava, com toda a fora do seu obscuro credo politico,
as reflexes de s. exc., e requintava na intensidade dos anathemas, com
que eram fulminados os homens da poca.

Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamaes,
voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bca, a suspirar; dava
dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
Os intervallos das refeies eram para elle seculos!

--Humh!--disse D. Luiz n'aquella manh, poisando a folha, como enojado
com o que lra--L foi concedido um subsidio para a construco do lano
de estrada de Valle-escuro!

--Fartos sejam elles de estradas!--acudiu logo frei Januario--Para esta
gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
diligencias, e acabou-se. Olhem l se elles levantam sequer uma igreja?
Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena no tero
por no deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
tempo tempo vem. Vontade no lhes falta.

No sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
elle no faltava vontade... de comer. O certo  que, mudando de tom,
acrescentou:

--Querem vr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto so quasi
duas horas, e eu no ouo tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
coisa. Com licena, eu vou vr e volto j.

E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez  cozinha, que
elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
familia toda ameaada com a tremenda catastrophe d'uma retardao do
jantar.

D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo at  volta do
padre, que entrou indignado.

--Eu que dizia?! Posto  taramela com o hortelo, sem se lembrar do
jantar? Olhem se eu l no ia! No que dizem que uma pessoa pde
descanar nos criados. Ha de poder! So uma corja! E, v. exc. no quer
crr, aquelle excommungado d'aquelle hortelo ha de ser a ruina d'esta
casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
libertino d'aquelles, mao nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
errado... Aquillo  um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc. em
que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
quinhentos bravos que vieram pr fra da cidade os oitenta mil lobos que
andavam l, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leito
a queimar-se e a spa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
cheirou a esturro.  preciso que v. ex. d as providencias, quando
no...

D. Luiz, tomando menos a peito do que o capello os destinos do jantar e
da spa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
hortelo, no respondeu e proseguiu a leitura das folhas.

D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasio
abatra, resultando muitas victimas.

A indignao do padre exaltou-se.

--Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que no se
importam com as vidas dos cidados! Em que paiz do mundo se vem
estradas assim arruinadas como as nossas? So os bens que nos trouxeram
os homens da Carta! Isto  bonito!

E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
crime de desleixo e de falta de proteco  viao publica, os mesmos
governos que, momentos antes, accusra de conceder para esse fim
subsidios e de lhe dar importancia demasiada.

A politica de frei Januario  vulgar na nossa terra.

D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pl-a de lado e resumiu a
serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
contrahida synthese:

--Isto vae cada vez melhor, frei Januario.

--Isto vae bonito, no tem duvida nenhuma--secundou o padre.

--O peior  o futuro--tornou o fidalgo, assombrado.

--Ai, o futuro ha de ser fresco!--repetiu o procurador, fungando uma
pitada.

--Emfim, quem viver ver aonde isto vae parar, onde nos leva esta
torrente.

--E no  preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
hespanhoes, ou ento passamos a ser inglezes. No ha que vr; da maneira
por que vo as coisas...

--Ai, pobre Portugal!--exclamou melancolicamente D. Luiz.

--Que vaes  vela--concluiu o padre.--Desde que puzeram a cabea  roda
a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos
mandam, todos fallam, e no ha quem governe. Isto de no haver um que
governe... Estes patetas no se desenganam de que um paiz  como uma
casa. Ora deixem  vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
vigie, e vero o que vae! esperem por o jantar, que ho de achar-se
servidos!

O simile fra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupao.

--O que me custa  lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes est reservada,
aos pobres rapazes!--disse o fidalgo, suspirando com escuras
apprehenses sobre a posio precaria da familia.

--Os filhos de v. exc. no devem transigir em caso algum com estes
homens!--exclamou com vehemencia o padre-- no fazer como a sobrinha de
v. exc., a snr. D. Gabriella, que j  baroneza das feitas por elles.
Quando se  fidalgo  preciso ser fidalgo.

-- bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
em parte preparado por ns--insistia o fidalgo.--Tambem peccamos.

--Pois  uma triste verdade, mas isso no  razo para que os que
nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
nasceram. Deixe v. exc. medrar quanto quizer o Thom da Herdade, que no
fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalo em criana e que foi
levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que no d o
dinheiro.

--O Thom da Herdade!--repetiu D. Luiz com amargura--Esse  que
prospra, os tempos esto para elle. Quem viu e quem v aquillo!

--Ento que quer? Inda mais havemos de ver. E ento no sabe v. ex. que
o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
alguem?

--A Bertha?

--Sim, a que  afilhada de v. exc. Com que fim faz aquelle toleiro uma
coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. No repara na posio
falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabea que
ainda a casava com algum fidalgo! Pde ser. Veja v. exc. se ella serve
para algum dos seus filhos.

D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

--Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que  a final o que ella
tem de ser, das prendas e da educao que o pae lhe mandou dar? No me
dir v. exc.?

--Todos hoje teem aspiraes a subir--reflectiu D. Luiz com ironia.--A
mar sbe.

--Eu bem sei o que  que d causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
barulhada que estes liberales fizeram na sociedade. Tudo est remexido
e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
parece um visconde. Onde isso  bonito, segundo dizem,  em Lisboa. Hoje
todos por l tem excellencia!

N'estes sedios commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
os dois por muito tempo, desafogando assim a sua m vontade contra as
instituies modernas. O padre Januario porm no perdia com isto a
ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
cujos lentos ponteiros no correspondiam nunca  impaciencia dos seus
desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
para ir vr se o jantar estava servido.

Passado pouco tempo tocava a sineta, to grata aos ouvidos do reverendo.
Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
esplendida crte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava j o
capello.

Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
melancolicas impresses. Nunca se lhe anuviava tanto o corao como ao
sentar-se  cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
conhecidos e amigos, hoje to solitaria e abandonada.

D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

--Ento os senhores no ouviram a sineta?

--Os senhores ainda no vieram.

--Nem Jorge?--perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
Mauricio.

--Nem um, nem outro.

--O snr. D. Mauricio--observou o padre, que temia um adiamento do
jantar--sahiu para a caa; quando vir elle agora?

E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

--E Jorge?--insistiu o pae.

--O snr. D. Jorge... esse no sei... talvez esteja ahi por alguma parte.

O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
ainda mais augmentava a solido d'aquella sala, resignou-se a principiar
a jantar sem elles.

O jantar correu em silencio.

O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro no davam azo
ao dialogo.

Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

D. Luiz no lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
silencioso.

Frei Januario, tendo j satisfeito as primeiras e mais urgentes
exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:

--Com que vem do seu passeio, hein? A manh estava bem bonita. E ento o
que viu por esses campos?

--Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural--respondeu Jorge.

--Sim, agora  o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.

--Mas porque , snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa no
vejo o movimento dos outros?

A imprevista interpellao do adolescente ia entalando o padre.

--Causou-me sensao isto hoje--proseguiu Jorge.--Quem subir ao alto do
outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de l, em roda de si, para o
valle, pde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.

--No  tanto assim...  verdade que... meu rico filho, que quer? depois
que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
mudaram. Quem no est por o que elles querem...

--No vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
pr homens a trabalhar n'essas terras incultas?

--O que os outros fazem, diz elle! Os outros... os outros... e quem so
os outros? Uns miseraveis que eu conheci de p descalo, a limpar os
cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.

--Tanto mais para admirar e para louvar o esforo que os tirou d'essa
posio humilde e os elevou quella, que hoje occupam.

--Olhem que grande milagre! Homens que no devem respeito a si mesmos,
para quem todo o trabalho est bem, como no ho de enriquecer? Ora essa
 muito boa!

--E os que devem respeito a si mesmos esto pois condemnados  miseria?

-- miseria...  miseria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi to accsa! O menino
ainda  muito criana para pensar n'estas coisas. Coma e beba e...

As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
energia e irritao:

--No sou criana, frei Januario; acredite que o no sou. Tenho mais de
vinte annos e estou resolvido a ser homem. Cro da minha ociosidade,
quando vejo que smente as nossas terras fazem vergonha  actividade
d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
dia aos seus compromissos.  por isso que fallei e que desejo que me
responda, snr. frei Januario.

--Ai, menino, menino; isso no  seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
cheiro-a a distancia de legoas. Ento quando o senhor seu pae me honra
com a sua confiana,  acaso justo,  acaso bonito que eu seja
suspeitado e interrogado por uma criana, que ainda nada sabe do mundo?

--E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
por ahi se arruinam?

--Mas que quer o snr. Jorge a final? Ento no sabe que desde que os
lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro est
de l; para l vo os trabalhadores, senhor. Ora  boa! Eu acho graa a
certa gente!

--O dinheiro est de l! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois no
diz que eram uns miseraveis?

--Ah! ento quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
enxada todo o dia e furtando  bca para juntar ao canto da caixa com o
fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.

--No principiavamos de to longe como elles, escusavamos de tantos
sacrificios. Bastava que olhassemos com atteno para o muito que temos
ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
nos enleia e que nos ha de afogar a todos.

--Ora  boa! E ento o que  que eu fao, o que  que estou fazendo ha
quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
confiana? Mas a coisa no  to facil, como lhe parece.  boa!

--Mas quaes so os seus planos, padre Januario, qual  o seu systema de
administrao?

--Os meus planos?!... Ora essa!... Ento que planos quer que sejam os
meus? Systema de administrao!... isso  phrase de crtes... Humh!
tenho entendido...  o que eu digo...  snr. Jorge, ora falle-me a
verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manh?
ora diga.

--Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questo 
que ellas sejam boas. Eu no tracto de liberaes nem de absolutistas
agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
grandeza do mal que nos opprime.

--E se fr grande o mal, o que quer que se lhe faa?

--Quero que se trabalhe para remedial-o; que se faam sacrificios uteis,
que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
hoje ainda uma vida que no  d'estes tempos. Desenganemo-nos; a poca
no  de privilegios nem de isenes nobiliarias,  de trabalho e de
actividade. Plebeu  hoje s o ocioso, nobre  todo o que se torna util
pelo trabalho honrado.

--Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
costa! Isso  to certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!

--Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.

--Que vae fazer, snr. Jorge?

--O meu dever. Eu e meu irmo seremos um dia os representantes da nossa
familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos,  necessario que
esse nome no tenha manchas e que ns lh'as no lancemos.

--Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora... ora... ora... ora
esta no est m!

--Frei Januario, eu no sou criana, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje no
o sou j. Faa de conta que o sol d'esta manh me amadureceu. Por isso
no me illudo emquanto  natureza dos meios com que se sustenta ainda
n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
comer em loua nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
que ainda temos, para comprar dois bois.

--Mas...

--At logo, frei Januario, conversaremos mais de espao sobre isto.

--Mas...

Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
assustado, o chamou.

--Mas venha c. Oua-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
razo no que diz. Sim, senhor. As coisas no vo bem. Hoje no  hontem;
e esta casa j viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem  a
culpa?  de mim ou do senhor seu pae? Pois no foste! Para remediar o
mal trabalhamos ns ha muito. A culpa  d'esta gente que nos governa,
d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem 
vontade fazer das suas, sem ter quem lhe v  mo. Percebe agora? Desde
que os liberaes...

--Por quem , frei Januario, no me venha outra vez com os liberaes. Eu
tenho a razo bastante clara para vr as coisas como ellas so, e no me
deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!... Os liberaes o
que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
pesavam sobre ella e que no a deixavam prosperar, foi crear leis e
instituies que facilitassem os esforos dos laboriosos e castigassem
severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmisses da
propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
na poca em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
prosperar como tantas, v apressada a sua decadencia,  porque tem em si
um velho e incuravel cancro a rol-a. E  esse cancro que eu quero
conhecer, para extirpal-o, se ainda fr possivel.

--Eu estou pasmado! Pelo que ouo, acha o menino que todas essas
fornadas de leis, que esta gente tem feito, so muito boas e que a sua
casa devia ser muito bem servida com ellas?

--Essas leis de que se queixa, so racionaes; uma casa racionalmente
administrada no pde pois perder com ellas.

--Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vr
acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas so to boas, havia
de gostar--argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
apanhava em falso o seu adversario.

Jorge respondeu serenamente:

--E porque no? A abolio dos morgados acho eu que foi um grande acto
de justia e de moralidade; alm de ser uma medida de longo alcance
politico.

--Ai... ai... ai... O que mais terei de ouvir! O menino est perdido!...
Pois j me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
illustres do reino... Ai, como elle est!...

--Deixe-se d'isso. A abolio dos vinculos s trouxe a morte s casas
que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
familias deve ficar smente ao cuidado dos membros d'ellas e no da lei.
Quando esses no tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo  que
elle se apague, e que o nome dos antepassados no continue a ser
deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
d'estas discusses, frei Januario. O meu partido est tomado. Mais tarde
saber das consequencias d'elle.

E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

--Que anda aqui liberalismo, isso para mim  de f. Mas que mosca o
morderia? Querem vr que j fizeram do rapaz mao? Pois olhem que no 
outra coisa. Eu quando os ouo fallar muito do trabalho... j estou de
p atraz. Tem graa! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho  um
prazer. Ora adeus! O trabalho  uma necessidade, o trabalho  um
castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Ado no paraizo? E no lhe
chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o po com o suor
do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas  a
cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho 
uma coisa muito appetitosa... Ser, ser, mas eu, por mim, se pudesse
deixar de trabalhar... Ah! ah! ah.

Aqui bocejava o egresso.

--Mas que alli anda liberalismo, isso  to certo como eu estar onde
estou. Como elle fallou nos morgados!... Provar que  to pateta que,
sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae... No
declara nada. Um crianola que no sabe seno passear. Tomra elle que o
deixem... O ocioso  que  o plebeu, o nobre  o que trabalha. Sim, sim,
contem-me d'essas. Aquillo  musica de anjos. Diga-se o que  verdade,
quem puder deixar de trabalhar...

Frei Januario, n'estas graves ponderaes, deixou-se a pouco e pouco
invadir pelo somno, e acabou por adormecer  mesa, sonhando-se em uma
especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Ado, cuja
ociosidade sempre fra objecto muito dos seus enlevos.

Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
angulos da Casa Mourisca.




V


Jorge continuou no seu quarto a serie de meditaes com que trouxera
occupado o espirito toda a manh. Abria alguns livros, consultava-os com
atteno, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
responder cabalmente s mudas interrogaes que elle lhes dirigia.

A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
applicao pratica qualquer.

Jorge tinha o gosto bem educado e no era indifferente s obras de pura
arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
necessarios para a realisao da grande obra em que meditava. Algumas
arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pde encontrar e que
consultou, sem que o satisfizessem as noes rudimentares que n'elles
lia. A pequena livraria do tio,  qual devra grande parte dos seus
avanados principios sociaes, estava j esgotada por elle; alm de que
no abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver s por elle
os problemas, cuja soluo em vo procurra na leitura. E a razo de
Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
consultava.

A estas cogitaes veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, j quasi
ao fechar da tarde.

Mauricio, logo que transpz a porta, arremessou o chapo sobre a mesa
com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitao.
Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mo por a fronte,
sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
irmo, interrogou-o:

--Que  isso, Mauricio? Que  o que tens? Que te succedeu l por fra?

--Deixa-me, Jorge--respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
pondo-se a passear no quarto.--Se soubesses como eu venho suffocado de
raiva?

--Contra quem?

--Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
que lanam a lama suja, onde nasceram e vivem,  face da gente com o
mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

--Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
hoje so de mau gosto, Mauricio. Olha que j passou o tempo d'elles.

-- sempre tempo de castigar um insolente. O essencial  que se tenha
sangue nas veias e pundonor no corao.

--E sangue tambem no corao--emendou Jorge, sorrindo.--Olha que tambem
 l preciso.

--No rias, Jorge! Por quem s!--tornou o irmo despeitado.--Bem vs que
fallo seriamente.

--Ento conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exageraes.

--No exagero. Esta manh fui caar, como sabes. Corri o monte com pouca
felicidade; os ces pareciam ter perdido o faro. Voltava j para casa
sem esperana, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direco
das azenhas, atravessam os campos que esto em baixo e vo poisar no
pinhal que fica para l da prsa do Queimado. Sabes? Eu deso com os
ces, e, para no dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
grosseiro do matto, aquelle villo infame sahe da casa da eira, aonde
andava com os criados, e berra-me: Ol,  fidalguinho, isto aqui no 
terra baldia, nem roupa de francezes. Eu olhei para elle, mas no lhe
respondi e continuei andando; elle tornou de l, e j caminhando para
mim: Menino, no ouviu? Eu no quero os meus campos trilhados. O que
estragar, pagarei, respondi-lhe j azedado. O estupido soltou uma
risada insolente, e disse-me: Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
que l tem chega para pagar o que devem j. Ouvindo isto, perdi a
cabea e corri para o homem, exclamando: Para que no duvides da minha
palavra, eu te vou j pagar uma divida, canalha. Elle estava desarmado,
mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
primeiro que me ameaasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
gritos por detraz de mim. Era o Thom da Povoa que passava e que correu
a separar-nos. Fez-nos um sermo e trouxe-me quasi  fora d'alli. Ahi
tens como est esta gentalha. J no podemos sahir sem nos arriscarmos a
ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
de fallar nas dividas da nossa casa?

--Quem as contrahiu e no procura pagal-as--respondeu, triste mas
placidamente, Jorge.

E logo depois acrescentou:

--Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. J vs
agora que eu tinha razo no que te dizia esta manh.

--O que foi?

--Isto no pde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
para soffrer humilhaes, e ellas so inevitaveis.

--Inevitaveis?! Eu te juro...

--No jures; no  pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
que lhes despertarmos, sero para ns igualmente humilhantes. Ha muito
que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
que me fez pensar.

--Mas que intentas fazer ento? Qual  o teu plano?

--Fazer-me respeitado; mostrar que no sou inferior a elles.

--Sim, mas de que maneira?

--Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bca d'esses credores
insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

--Queres ento fazer-te lavrador?

--Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regenerao depende de nos
despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
perda  uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avs?
Qual foi a aco nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
familia, que se no possa apagar esse esplendor com a vida de
ociosidade, de desleixo e de dissipao ingloria que levamos? A chronica
no  clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
patria,  nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros no existiram
entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, to heroes
como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais servios 
religio do que o nosso parente mitrado; mas no lhes deu isso nobreza.
O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse servios
particulares a algum rei benevolente, que em compensao o fez nobre por
toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
genealogicas; desengana-te.

--Ests eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que no
sei onde te levar, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

--Resolvo no continuar a merecer essas humilhaes, que no posso
deixar de reconhecer que so justas. Elles teem mais direito de nos
desprezar do que ns a elles.

--Desprezar-nos!--repetiu indignado Mauricio.

--Sim, sim; desprezar-nos. E seno repara. A nossa casa deve muito.
Grande parte dos nossos bens esto hypothecados. O nome da nossa familia
no  j segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
dias os nossos procuradores contrahem, so obtidos por um preo que em
pouco tempo nos levar  miseria. Na aldeia todos sabem isto. No queres
pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
em passeios e em caadas, olhando por cima do hombro para esses homens
que talvez manh, authorisados por a lei, nos viro pr fra de nossas
casas e tomar posse d'ellas?  acaso nobre este nosso proceder,
Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
precipicio, no merece pelo menos um sorriso de compaixo?

--Tu exageras, Jorge. Acaso teremos j chegado a taes extremos, que...

--Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
salvar, se quizermos ser homens.

--E como?

--Mudando de vida, applicando-nos devras  restaurao d'esta casa.

--Mas...

--D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administrao das
nossas propriedades, que nas mos de fr. Januario caminham a uma perda
certa.

--Mas que entendes tu de administrao?

--Aprenderei. O interesse  um grande mestre. No tiveram outro esses
rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

Mauricio ficou pensativo.

A ideia do irmo parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, no tendo
o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
vida guiado mais pela imaginao do que pela razo. Se uma causa o
seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se 
primeira intuio lhe desagradasse. Era to facil de se enthusiasmar por
o que ao principio repellira, que no se podia ter muita confiana
n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
durao.

Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
uma impetuosidade juvenil:

--Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
e de inutilidade.  assim.  preciso que sejamos homens. Temos uma
misso a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
a alma do que trabalha, porque v que cumpre um dever. O que se nos
figura fadiga  prazer. Pois no te parece que um escriptor, por
exemplo, deve ser feliz nas horas de composio? e que o artista curvado
sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razo, trabalhemos,
a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e no nos deixar
sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

Jorge escutava o irmo com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
e commentava com um movimento de cabea uma e outra d'estas estrophes em
honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
habitual serenidade:

--Valha-te Deus, Mauricio, que ests tu ahi a dizer? No sonhes nem
adoptes uma resoluo sria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
illuses. V as coisas como ellas so. O trabalho  nobre por certo, mas
a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
fadigas. No vs seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
desanimaria um cruel desengano.  preciso entrar n'isto guiado pela
razo, e no por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
composio, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
mister, no teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
que a poesia,  o dever. Recompensas ha, no nego que as haja, alm das
materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: Tambem tenho direito a
viver. Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra,   maneira
d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
que protegiam. Estars sob a influencia d'elle, mas no o vers. Se a
contemplao d'essa divindade  a recompensa que esperas, deixa-te antes
ficar a montear por estas aldeias.

Mauricio sorriu, objectando ao irmo:

--s suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando
trabalhares, porque ainda a no viste, aonde todos a vem, ahi por essas
devezas, valles e ribeiras.

--Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu  que
no a vias l.

--Ah! ento j confessas que ella est com os que trabalham?

--Mas no a vem esses. No a viu Thom, nem nenhum dos seus criados;
vi-a eu que estava de fra.

--E quem deu a Thom sentidos para a vr?

--A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro
ardor, a viso encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem
presente, to namorado est d'ella, que o assaltam as distraces dos
namorados. E o trabalho  exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos,
impertinentes, prosaicos, de que elle no prescinde. s vezes  util at
certa irritao provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle
suscita; instigam, estimulam brios para vencl-o.

Continuaram os dois irmos este dialogo e assentaram emfim na resoluo
de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter,
e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo
momento a D. Luiz.

A occasio era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto
o fidalgo devia estar s no seu quarto.

Era j noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira 
Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul
pallido do co sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua
nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas
sombras da quinta.

Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo  janella do quarto. A
fronte encostada  mo, os olhos fitos nos pontos illuminados da
perspectiva, e o pensamento... ai, quem sabe porque melancolicas
paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias,
festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida
n'esta habitao hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a
pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao
desapparecer lh'a deixou escura e desencantada... que outras podiam ser
as vises presentes quelle espirito sombrio?

Pobre velho!

Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmos.




VI


Ao chegar  porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira
hesitao.

D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira to austera,
abria-se-lhes to pouco em confidencias, mostrava to m vontade ao ter
com elles longas e srias conversaes, que Jorge precisava de exercer
um grande esforo sobre si mesmo para dar aquelle passo to fra dos
seus habitos.

Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto
d'elle; a estranheza do facto seria pois j uma razo bastante para os
perturbar, ainda quando no concorresse para o mesmo effeito a natureza
do assumpto da conferencia, que no podia ser mais solemne.

A resoluo de Jorge era porm muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio
muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi
instinctiva timidez.

Jorge bateu  porta com intimo sobresalto.

Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.

Os dois irmos impelliram diante de si a porta, e afastando o
reposteiro, entraram.

Os raios do luar tinham j principiado a penetrar na sala, desenhando no
pavimento as projeces das janellas ogivaes, que a pouco e pouco
cresciam para o interior.

Do lado da porta eram porm ainda espessas as sombras, e D. Luiz no
podia pois conhecer quem entrava.

A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a
impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar
onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem
poder conjecturar de quem fossem.

A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes
silencio.

A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella
mysteriosa luz uma singular expresso de gravidade.

D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e
perguntou-lhes admirado:

--O que  que pretendem?

Jorge foi o que respondeu.

--Se v. exc. nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.

--Fallar-me?!--repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.

--Sim, senhor.

-- singular! E a proposito de qu?

--Do nosso futuro.

--Ah!--exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua
crescente irritao.--Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.

--Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me
inquieta.

D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a
interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:

--Tambem te atacaram as mesmas inquietaes pelo futuro?

--Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez--respondeu-lhe com
firmeza o filho interrogado.

D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:

--Ento vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.

E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braos da cadeira.

--Meu pae--principiou Jorge--perdoe-me a liberdade que tomo de fallar
n'isto a v. exc.; mas  o empenho que fao em que o nome e o credito de
nossa familia se conserve sem mancha... que...

O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.

--E quem o manchou?--rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho
com um olhar, cujo fulgor at  claridade tibia da lua se percebia.

--At hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez manh, quando no puder
satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater
 porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a
sciencia do trabalho--respondeu placidamente Jorge  violenta
interpellao do pae.

--Ento j sabes que te bater  porta a miseria?--inquiriu o fidalgo
amargamente.

D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:

--Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos
um mestre, e as crianas por ahi j sabem dizer que os fidalgos da Casa
Mourisca esto empenhados.

D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro
candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:

--No meu tempo pagavam-se essas lies bem caras! Para isso serviam
ento, pelo menos, os rapazes das nossas familias.

--Tambem ns as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a
consciencia que no ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e
a vingana estariam satisfeitos; mas a razo e o dever,
no--contestou-lhe Jorge.

--Ento queiram dizer-me o que lhes manda a razo, e... e o que mais?...
Ah, sim... e mais o dever.

Jorge, sem se perturbar, acudiu:

--Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade
d'estes bens, que so nossa herana, augmental-os antes se fr possivel;
mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento,
destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razo, meu pae,
diz-nos que  uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida
ociosa e inutil que passamos aqui.

--Muito bem; querem ento meus filhos que eu lhes d um modo de vida;
veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os...
arrumar?

O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase
sarcastica, que lhe inspirava a sua irritao e orgulho aristocratico.

--No, meu pae--insistiu Jorge--vimos apenas lembrar a v. exc. que
chegamos a uma idade em que j nos no satisfazem os gozos da vida de
rapaz, de que o muito amor de v. exc. nos tem permittido saciar. Vimos
pedir-lhe que nos conceda agora licena de nos occuparmos de outra ordem
de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em ns desejos
novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc. e rogar-lhe a
permisso para realisal-os.

D. Luiz sorriu ironico, porque no podia ainda tomar a serio a resoluo
dos filhos, em quem s via duas crianas; e continuou zombando:

--Est bem. Ento tu o que queres ser?

Jorge respondeu promptamente:

--Procurador de v. exc. na administrao da nossa casa.

D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe
causra impresso a firmeza e promptido da resposta, em vez das
titubeaes que esperava. Convenceu-se de que Jorge no procedia
levianamente de todo, e que n'elle havia uma teno formada. Voltando-se
para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principira:

--E tu? Queres ir para o Brazil?

Mauricio no tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o
projecto era apenas uma resoluo vaga e mal definida, e no um plano
fixo e meditado como o do irmo. Era n'essas frmas vagas que elle mais
o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar
as primeiras repugnancias e desilluses.

D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas,
como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:

--Ainda no pensaste n'isso. Bom. Ouamos ento primeiro teu irmo.
Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administrao de nossa
casa prosperaria?

--Creio que no iria peor conduzida do que vae. V. exc. conhece
perfeitamente que no ser grande faanha ir to longe como frei
Januario.

-- um homem experiente.

--Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que ns,
saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que no me
enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vo. Pedir
emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, no para melhorar o
que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos
improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com
que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras no
arrendadas,  a pratica at hoje seguida, to facil como funesta.

--E quem te disse que  possivel fazer outra coisa?--objectou j sem
ironia o pae.--Os tempos actuaes so de prova para familias como as
nossas, a mar que sobe traz  flr da agua o que era ldo em outros
tempos.

--Deixe-me tentar, meu pae.

--Tentar o que? criana. Queres ser enganado e escarnecido por esses
manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de
lidar? Que sabes tu da administrao dos bens ruraes?

--Aprenderei. A sciencia, patente s faculdades de frei Januario, no 
defeza a ninguem.

--Nem tu sabes o que pedes. No crarias de vergonha no tracto familiar
a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes,
miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram  cara com a sua riqueza?

--Procuraria d'entre esses os de mais educao.

O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:

--Educao! Elles!

--Porm, meu pae--argumentou Jorge com mais vehemencia-- uma triste
necessidade esta. Pense bem. Se  vergonha, como diz, procural-os para
tractar negocios, maior vergonha ser que elles nos procurem para nos
expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por
ella, peor e menos decoroso lhe ser ter de deixar esta terra, onde j
no possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraa seno 
sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrer menos se
um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da
destruio e de mos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se
contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir
e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradies que a
illustravam.  pouco para ambicionar-se esta fama.

--E depois, meu pae--acudiu Mauricio--que dr no seria o vr devassado
por invasores o quarto em que morreu minha me, esta sala, o salo onde
brincavamos em criana, e at os aposentos de nossa irm, da sua querida
Beatriz?

A memoria da filha morta commovia sempre o corao d'aquelle velho, que
ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabea
assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:

--No; a nossa miseria no ir to longe. Creio que Deus no me
reservar esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.

--E ns, se lhe sobrevivermos, senhor, no soffreremos tambem? Querer
legar a seus filhos uma herana d'essas?--interpellou-o Jorge.

O pae escondeu a cabea entre as mos, j sem signaes da rispidez com
que principiara a scena, e no pde responder a esta interrogao de
Jorge.

Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestao de dr,
que observava no pae, na presena d'elles de ordinario to reservado.

--No--acudiu elle impellido por aquelle sentimento--o interior da nossa
casa no ser devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem
depois da sua morte. D-nos apenas permisso para trabalharmos, e ns
juramos evitar essa humilhao.

D. Luiz ergueu finalmente a cabea e pela primeira vez fez signal aos
filhos para que se sentassem junto de si.

Depois, dirigindo-se ao mais velho, j em tom menos severo:

--Jorge--ponderou elle--a tarefa que queres emprehender no  facil. 
verdade que no teem corrido pelas minhas mos esses negocios, mas sei
d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias.
Frei Januario no  um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia
e boa vontade de nos servir, e ainda assim no prospra esta casa, que
foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma
criana que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo
d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus
planos so vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos at hoje, dos
que nas excellencias dos teus.

--Perdo, meu pae, mas no so to vagos como os suppe. Pensei j muito
n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditao espero
resolvl-as; alm d'isso... auxiliado... quando necessario fr... dos
conselhos de frei Januario, espero que me ser possivel realisar o meu
intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.

Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a
exposio dos seus projectos economicos.

No o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmo escutaram admirados
de to inesperada sciencia. De facto, as informaes de Thom, os
fructos da propria reflexo, as ideias adquiridas na leitura meditada
dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o
espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um
completo systema de administrao, que, se tinha defeitos, no eram para
ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fra dado a esses exames. A
exposio clara, o tom de convico, o calor do quasi enthusiasmo com
que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma
profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.

D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fra destinado
pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.

E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle no
mencionra. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos
maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel
um capital inicial no pouco avultado, e Jorge no dissera como havia de
obtl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja meno
bastaria para desvanecer toda a boa impresso produzida no animo de D.
Luiz.

O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thom
da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operao era
indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros
capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e
por isso smente emprestavam sob condies onerosissimas e perigosas.

Mas o orgulho de D. Luiz no lhe deixaria aceitar favores de Thom;
nunca elle consentiria na menor transaco com o que fra seu criado.

Por isso Jorge guardou para si smente esta parte das suas projectadas
operaes, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos
pontos de questes d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o
pae acabou por dar o consentimento pedido.

--Seja; no me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro
em pouco tempo ser vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que
eu julgava; comtudo marco duas condies; a primeira  que nunca faas
contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.

--Prometto-lhe que no o envergonharei.

--A segunda  que no desprezes os conselhos de frei Januario.

--Por certo que no prescindirei das suas informaes.

--Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora...--acrescentou D.
Luiz--vamos ao resto... E Mauricio?

Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas
difficuldades para responder  interpellao, se Jorge no respondesse
por elle:

--Tambem pensei em Mauricio.

--Ah! tambem?--disse o pae, no podendo occultar a quasi admirao, que
lhe estava impondo Jorge.

Mauricio interrogou tambem com a vista o irmo.

--Se Mauricio confia em mim,  inutil a sua permanencia aqui na aldeia,
onde no tem em que se occupe.

--Tens a minha plena confiana, Jorge. E a no me quereres para teu
guarda-livros...

--Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. L poder ser mais
util a si e a nossa casa.  verdade que no  essa por ora uma medida
economica; antes obrigar a alguns sacrificios. Far-se-ho porm, se
precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para no os deixar ficar
improductivos.

D. Luiz fez um gesto de duvida.

--Humh!--objectou elle--que carreira pde n'estes tempos seguir na
capital um filho meu? Queres acaso que elle v renegar da causa, que a
nossa familia sempre abraou, e fazer pacto com essa gente que hoje
governa?

--Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convir seguir; mas
smente l  que  possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se
poder trabalhar e ser util  patria, que  sempre a mesma, qualquer que
seja o partido que a governe. Mas o caso no urge. V. exc. poderia
escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem
poder fornecer-nos valiosas indicaes.

--Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou
sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida...

--Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por
occasio do fallecimento de Beatriz...

--Sim, bom corao tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que
casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da
poca. No se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as
armas na mo a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos
entre a gente, que a fez orph.

--Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella no tem corao para
odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias
frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde pde sahir um aproveitavel
conselho. Falle-lhe v. exc. com franqueza, diga-lhe quaes as condies
sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem
apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o
comprehender e lhe dar as informaes pedidas.

Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge
sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e
elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse
aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraariam o orgulho
e a paixo partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado
que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.

Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus
artigos sanccionado o projecto de Jorge.




VII


Frei Januario, dormida a sua regalada ssta, dispoz-se a fazer horas
para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposies de
espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.

Ainda D. Luiz meditava nas mudanas que ia soffrer o regimen economico
da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a
voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir  porta, articulando o
costumado--_licet_?--E sem esperar resposta o padre frei Januario foi
entrando.

--Ainda s escuras, snr. D. Luiz?!

--Nem sempre temos para nos alumiar luzes to bellas como esta;
respondeu o fidalgo, designando o luar que j lhe inundava o quarto.

--Quer no; isto de luar no  l das melhores coisas e depois o ar da
noite...

--A noite est que parece de maio.

--Sim? mas sempre os vapores dos campos... Eu acho mais prudente
accender luz e fechar as janellas.

--No me opponho, frei Januario, at porque temos que fallar.

--Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.

--Pois, muito bem. Vamos a isso.

Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a
conferencia.

D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.

--Visto isso, principiarei, e o que sinto  que seja para dar a v. exc.
noticias assustadoras--preludiou o egresso.

--Assustadoras! Que  a final? Alguma insolente exigencia de credor.

--Nada, nada; a coisa  outra. Tracta-se do filho de v. exc.

--De Mauricio? Que fez elle?

--No, senhor; no  do snr. D. Mauricio, que eu fallo.

--Ento?  de Jorge?

--Justamente. Eu conto a v. exc.

E frei Januario principiou a expr ao fidalgo os pormenores da discusso
que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexes proprias.
Horas antes, esta communicao teria talvez produzido o effeito
estupendo, que o egresso calculra; mas a prvia entrevista de D. Luiz
com os filhos tirra toda a importancia  revelao. D. Luiz apenas
franziu o sobrolho  parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas
esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador
acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignao e do espanto,
com que esperava vl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras,
pronunciadas com a maior fleugma:

--E ento que pensa d'isso, frei Januario?

L de si para si o padre replicou  pergunta com a sua expresso
favorita de desapontamento--Lrias!--mas em voz alta no foi to
expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:

--O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc. o que pensa? Eu por mim
penso que anda aqui febre liberal; o veneno j est no sangue. To
certo! Aquillo d logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me
ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botes: Pois sim,
sim, ests arranjadinho. O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum
mao. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que esto na estalagem do
Manco. Isto de engenheiros  gente que se no confessa; ou ento so
coisas do hortelo, que eu no seja quem sou se ainda no ha de dar que
fallar n'esta casa; mas o certo  que lhe metteram na cabea essas
caraminholas e se v. exc. no olha por isso, eu lhe protesto que do
com o rapaz mao, o que  uma pena, porque  um bom rapazinho. Mas
quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, toro-lhe
logo o nariz.

--Parece-me que d'esta vez so sem fundamento os seus receios, frei
Januario. A final, pondo de parte alguma expresso menos sensata, e que
o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz so razoaveis.

--Razoaveis?

--Pois porque no? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que
perde na ociosidade. Est canado da vida de rapaz.  natural e 
louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que manh ser constrangido
a fazer, com peior resultado; no que eu devra ter feito na idade
d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale ento que
principie j, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que
tarde, s cegas e sem uma pessoa de confiana a encaminhal-o.

--Pois  verdade, mas...

--Elle fallou-me n'isso ha pouco.

--Ah! pois sempre fez o que disse?!

--Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no
caso e dei-lhe a permisso que elle pediu. Era at o que eu tinha para
dizer-lhe.

--Ento, visto isso, de hoje em diante?...

--De hoje em diante, Jorge se entender comsigo. O frei Januario precisa
de descanar tambem.

--Eu ainda no estou canado--resmungou o padre.

--Espero que dar a meu filho todos os esclarecimentos de que elle
precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.

--No seja essa a duvida; mas, na verdade...

O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a
phrase ao egresso.

Pelos modos a ceia ia tardando.

--Com licena--disse elle, levantando-se--eu vou vr como correm as
coisas na cozinha.

Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:

--No tem que vr. Filho mao, pae idiota... casa perdida.

Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos
attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, p ante
p,  cozinha, a fim de surprendl-o em flagrante.

Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate s suspeitas um acalorado travar de
vozes, que de l vinha.

Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelo, o inimigo
irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais
attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com
uma perna atravessada sobre a outra e as mos a segurarem o joelho, nem
ouvia o chiar das caarolas, nem se lembrava da ceia.

O padre fumou com a descoberta.

O hortelo dizia:

--Foi ento que o imperador... oh aquillo  que era um homem!... foi
ento que elle fez aquella falla que l est toda na memoria do
Mindello, que foi onde ns desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832,
alli pela tardinha.

E o hortelo, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, comeou
recitando oratoriamente:

--Soldados! Aquellas praias so as do malfadado Portugal; alli, vossos
paes, mes, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa
vinda e confiam...

Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamao de D.
Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que no era poucas
vezes, graas ao enthusiasmo do hortelo. Cedendo pois ao seu animo
indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:

--Ento que pouca vergonha  esta? O fidalgo  espera da ceia, e esta
sucia de mandries aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!

Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroo e tomaram os seus
postos. O hortelo reagiu, como era seu costume.

--Patranhas? Isso l mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e
ouo a vocemec, e muito me honro em dizl-o. Patranhas! Quem quizer,
pde lr tudo isso nas gaztas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do
imperador e...

--Est bom, est bom: pouco fallatorio. Voc o que ,  hortelo; e o
logar dos horteles no  na cozinha.

--L se vamos a isso, tambem o do capello no  ao p das panellas, e
comtudo vocemec pde dizer-se que no tem outro posto, onde esteja mais
firme.

--Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e
depois no se queixe.

--No se metta o snr. padre commigo, se no quer ouvir. Olhe que eu fui
soldado, e no  um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos
teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o
convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco
que no morriam queimados todos os meus camaradas de caadores 5. Hein?
que diz vocemec quella caridade?

--Voc no se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que voc
tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religio e da igreja.

--Quem fallou em tal? Eu em quem fallo  nos frades, que  coisa
differente.

A desavena terminou com a subita sahida do padre, que perdia as
estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas,
e o hortelo passou a contar por miudo como tinha sido o caso do
incendio do convento dos Franciscanos.

O padre, na presena do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa
contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua
immediata demisso. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o
silencio do costume.

D'ahi a momentos estava o procurador aplacado..., porque ceiava.

 ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.

Ninguem fallou durante a refeio nocturna. O padre estava amuado, D.
Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre
o aspecto carrancudo do padre.

Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:

--O snr. frei Januario j est informado do que hoje se combinou. manh
elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.

E depois de uma sca boa noite, D. Luiz sahiu da sala.

Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.

Jorge interrogou o padre:

--A que horas quer que o procure manh, snr. frei Januario?

--A que horas?... Ah!... sim... isso... eu sei?... A coisa no  de
pressa... Se no fr manh...

--Ha de ser manh--atalhou Jorge.

--Ha de ser! Essa  boa! Sabe l da minha vida? Ha de ser! Tem graa.

--No lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero s que me passe os livros
e os papeis.

--Os livros!... e os papeis... Mas para que?

--Porque d'manh em diante tomo conta d'elles.

--Eu no me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o
que eu nunca esperei d'elle.  bem custoso receber tal paga no fim de
tantos annos de servio! E ento que patetices! Attender aos caprichos
de uma criana em coisas to srias como estas! E sabe que mais, snr.
Jorge? Eu no tenho vagar nem paciencia para me pr agora a ensinar
meninos.

Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o,
dizendo:

--Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lio ou conselho?

--Ento para que me procura manh?

--Para que me d os livros e mais documentos relativos  gerencia da
casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. No so perguntas
de discipulo...

--Percebo o que quer dizer na sua, so de juiz.

--No. Quem o suppe ro? No, senhor.  apenas uma curta conferencia,
como o trocar da senha entre a guarda que se rende.

--Ento o snr. Jorge est seriamente resolvido a tomar conta d'isto?

--Muito sriamente.

--Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto  at um caso de
consciencia, e eu no sei se devo...

--Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um
procurador expira no dia em que a procurao lhe  retirada pelo
constituinte. At manh. No se esquea de me apresentar todos os
livros da sua escripturao.

--E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei l de livros e de
escripturao, homem?  boa! Isto no  nenhum armazem.

--Ento geria de cabea, frei Januario?--perguntou Mauricio, rindo.

--Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas l de
parlapatices e espalhafatos  que nunca fui.

--Bem; manh examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei
Januario--concluiu Jorge.

--Snr. frei Januario, muito boa noite--secundou zombeteiramente
Mauricio.

--Ide com nossa Senhora--murmurou o padre irritado.

Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.

Este ficou s, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa
ceia, ia resmungando:

--Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o crianola... E como elle
falla?! Parece j um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me
faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da
casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o
nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega manh. Em elle vendo como a
casa est embrulhada, perde logo o furor com que est de a administrar.
Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho
ha de ir dizer ao pap que no quer saber de contas. Ora deixa estar!
Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vr o sarilho, em que isto
tudo est mettido, que nem eu sei j como sahir d'elle, ento  que ha
de dar vivas, e gritar aqui d'el-rei. Ora deixa estar.

E o padre ria, ria de boa feio, ao pensar no logro que havia de pregar
a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vl-o.

Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados
baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.

Jorge no dormiu, como o padre; velou at alta noite, lendo, calculando,
combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou
igualmente no futuro, na revoluo que ia operar-se na sua vida, mas de
um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso.
As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem
que se fixasse uma s d'ellas. Era um succeder de ideias to rapido, que
parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o
viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.

No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.

Frei Januario tentou realisar a traa que com applauso proprio delinera
na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem
classificao nem escolha, procuraes, recibos, contas, contractos de
arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitao com a
fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a
inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspiraes ambiciosas.

Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto
successor, o padre, encostando os braos  banca, apoiou o queixo entre
as mos, posio em que a bca repuxada lhe tomava um geito de
caricatura eminentemente comico, e ficou  espera do resultado das suas
manhas com um sorriso de malicia e triumpho.

Jorge porm no desanimou. Com um rapido lanar de olhos julgava da
importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha
de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.

Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais
minuciosa revista.

Frei Januario j se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia
vendo s coisas, e insensivelmente foi tomando uma posio mais discreta
e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que at alli observra Jorge.

O peior no tinha principiado ainda.

Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de
importancia, de uma serie de perguntas, que embaraaram sobre maneira o
padre. Reconheceu ento que o filho de D. Luiz no era a criana que
elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle
proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual
esperava dar uma memoranda lio ao impertinente discipulo, podia muito
bem terminar com notavel desvantagem do mestre.

Ao principio do fogo cerrado de questes e objeces, o padre tentou
entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas
teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade
varonil, com que Jorge lhe insinuou:

--Snr. frei Januario, eu no vim aqui para brincar, nem o assumpto da
nossa conversao  digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros
herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada at
agora.

O padre experimentou a arma da dignidade offendida.

--Ento quer dizer que desconfia de mim?... e instaura-me um processo?

--Peo-lhe por favor que no venha com isso outra vez. Ninguem o accusa,
j lh'o disse. Peco-lhe s esclarecimentos sobre o passado, para poder
caminhar para diante.

Frei Januario acabou por se convencer de que no havia fugir 
sabbatina. No lhe foi suave tarefa aquella.

Jorge pela primeira vez lhe fazia vr os erros de officio que elle
commettra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo
em que deixra outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que
puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a
testa, entrava em explicaes confusas d'onde com muito custo sahia,
titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio
cos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro  paciencia e
fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observao
que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do
padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o
opposto ao que frei Januario prognosticra. Quem d'elle sahiu atordoado,
desgostoso e disposto devras a no querer saber mais da administrao
da casa, foi o padre e no o rapaz.

Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia,
em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao
simples spro de uma criana. A impresso que lhe ficou d'este apertado
inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mdo
de Jorge, e a empallidecer s com a lembrana de uma scena como aquella.

Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, j o padre
previa com terror uma interpellao e ficava nervoso! Muito mais se D.
Luiz estivesse presente.

Assim pois, graas a estes mdos, frei Januario em vez de tornar-se
vigilante em relao aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto,
quanto podia.

O desgraado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua
administrao, que o seu desejo era vr passar j sobre ellas muitos
annos para desvanecer-lhes os vestigios.

Jorge ficou pois completamente  vontade. D. Luiz, interrogando o
capello, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para
administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar
cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos,
como por tantos annos fizera aos do padre.

Portanto, sem desconfiana de pessoa alguma, pde Jorge combinar com
Thom, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de
administrao. Thom era n'estas coisas um prudente e avisado
conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas
commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro,
por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas
as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre
que pde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do
emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thom da Povoa.

Causou espanto na terra a revoluo administrativa da Casa Mourisca. Os
que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que,
movidos por ellas entravam em transaces com a casa, conceberam ao
principio lisongeiras esperanas, vendo que tinham a tractar com um moo
inexperiente. Cdo porm se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso
e perspicaz, graas  intelligencia propria e aos conselhos do
previdente Thom, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado
sequer.

As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite,
como j dissemos.

Jorge sahia de casa quando j todos dormiam menos Mauricio, unico que se
recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmo.

Thom da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo
mysterio, e s vezes prolongavam-se at altas horas estes conciliabulos
economicos.

N'elles, ambos aprendiam. Thom abria a Jorge os thesoiros da sua muita
experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um so juizo e
uma natural lucidez. Jorge, que j enriquecra a sua bibliotheca de
novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava
a Thom dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes
estrangeiros, e eram para vr a atteno e o enthusiasmo com que o
lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e
supersticioso amor pelas praticas velhas, Thom tomava nota de muitas
d'essas innovaes, para as experimentar, praticando-as nas suas
proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisao
no planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura
nos paizes mais adiantados, onde  exercida por homens intelligentes e
instruidos!

Passado pouco tempo Jorge gozava j na aldeia de uma fama de fino
administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.

Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos
ressentimentos de frei Januario.

Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito
inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu
despeito, tentra o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.

Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,
que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperana d'ellas, e
depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo
sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da
casa, no era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas
atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do
snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte
lavava as mos de tudo.

A estas palavras, levantou-se murmurao entre alguns criados, que no
tinham grande confiana no novo gerente e que reclamavam do padre o
pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por
esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administrao.

--No quero saber de contos--insistia o padre.--Por feliz me dou eu em
me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como
puderem.

A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelo, que declarou
que pela sua parte estava satisfeito com a mudana, porque o snr. Jorge
era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para
cumprir a sua palavra.

Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as
modificou.

Foi o apparecimento de Jorge.

A scena passra-se em uma sala contigua  do cartorio da casa, onde
desde pela manh Jorge se encerrra a examinar uns papeis de
importancia. O padre suppunha-o fra, e por isso promovra aquella
reunio, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pde Jorge ouvir tudo.

Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e
terminal-a airosamente, embora  custa de algum sacrificio. N'esta
resoluo levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual
communicavam as duas salas.

Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.

Jorge dirigiu-se placidamente quelles.

--Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem
pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e no
levantassem esse clamr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou
para lhes fazer contas.

E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no
gabinete, occultando-se uns com os outros.

--Entre tambem, frei Januario--disse Jorge ao padre, que procurava
retirar-se sorrateiramente da sala.

O padre teve de obedecer, a seu pesar.

Jorge sentou-se  mesa e principiou a interrogar os criados, um por um,
sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois
de obtida a informao.

Assim os correu e satisfez a todos,  excepo do hortelo, que o estava
a observar calado e com os olhos humidos.

Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:

--Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes
desconfiados. Tu s dos que esperam com esta garantia.

E estendeu-lhe a mo francamente aberta.

O hortelo quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.

-- snr. Jorge! A maior paga que me pde dar ... no me pagar nunca.

Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra
vez o dinheiro recebido.

--L por isso... ns tambem esperamos...

Jorge restituiu-lhes o dinheiro.

--No  necessario... Levem-n'o.

E depois acrescentou:

--As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanas
no servio. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar
os de lavoura. Por isso, vosss quatro, Francisco, Loureno, Pedro e
Romo, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois.
Vosss, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que
pretendam empregar-se aqui no mesmo servio, mandem-nos ter commigo. E
agora podem ir.

O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observao.
Sahiram todos.

--Frei Januario--acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava
meio aparvalhado--podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de
casa. Apesar d'isso agradeo-lhe o ensejo que me deu de a pagar!

O padre resmungou no sei o qu, e sahiu cada vez com mais medo de
Jorge.

--Onde foi o diabo buscar j tanto dinheiro?--pensava elle.--No pde
deixar de ser da maonaria.

O hortelo ficou s com Jorge.

O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distinco que
recebra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge
como  que se tinha dado o ataque do monte das Antas.

Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para
augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.




VIII


Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que
j temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de meno.

Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que at alli,
porque no se obtivera ainda da prima baroneza a resposta  carta de D.
Luiz.

Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraar os nobres
projectos do irmo, exige a verdade que se diga que elle soffria com
demasiada resignao as delongas da empreza, na parte que lhe dizia
respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caadas
e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.

Jorge, esse deitra-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no
gabinete, discutia nas conferencias com Thom, e principira j a
realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.

Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam j permittido libertar a
casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo
morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se j por l
as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas
estereis; j se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios,
aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer
aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescena de uma
longa enfermidade.

Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito,
murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.

--Muito havemos de rir a final--dizia elle.--Entradas de leo; agora as
sahidas...

No communicava porm as suas reflexes ao fidalgo, porque tinha mdo de
Jorge.

D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado
de escudeiro,  distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasio
de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que
aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo no
procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegra a realisar o
milagre. Cresceu a confiana no filho e de olhos fechados entregou-se a
ella.

No pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como j dissemos,
luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir
do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de
uma marcha morosissima, tomra ultimamente uma feio pouco favoravel
aos fidalgos da Casa Mourisca.

Frei Januario j prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.

Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou
documentos, a seu vr importantes e at alli no aproveitados, por
incuria do padre-capello. Mostrou-os a Thom, que experiente n'estes
negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do
achado, e ambos resolveram remettl-os a um novo advogado, a quem se
entregou a direco do litigio.

Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o
seu pensamento da realisao completa. O que havia por fazer era muito
mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.

Por este tempo porm sobreveio um acontecimento, que algum tanto
transtornou a face d'estes negocios.

Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.

Preciso  porm dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de
a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita j que vae chegar a
final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos
inteiros talvez no tenha j sido pouco estranhada.

Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thom.

Nascida na poca em que o fazendeiro no era ainda o homem abastado em
que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para
assegurarem o futuro da pequena.

Thom obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar
a criana  pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu
identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito
tempo lavra, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.

A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revolues, alterou a
posio relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros
annos de Bertha.

J sabemos como, em virtude d'esta revoluo, Thom subiu gradual e
incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo
succedeu  tal senhora, cuja indole bondosa e timida no soube oppr
estorvos s prodigalidades de um irmo perdulario; vendo-se em
consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que
tinha, para ir para Lisboa educar meninas.

A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambies por a
filha e queriam dar-lhe a educao de uma senhora, aproveitando e
cultivando n'ella as boas disposies que j adquirira na convivencia
com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Alm
d'isso, outra e mais generosa inteno levou-os a darem aquelle passo.
Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que
sempre na opulencia os auxilira e estimra. Possuiam porm bastante
delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os.
Pediram-lhe pois que tomasse conta da educao de Bertha, e assim, alm
da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes 
mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle
proceder.

Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que no provocou escassos
commentarios na aldeia, onde se disse que o Thom da Herdade se
afidalgava, e que j no queria ter filhos lavradores.

O senhor da Casa Mourisca no viu tambem com bons olhos aquelle passo de
Thom, cujo engrandecimento havia j muito tempo que principira a
incommodal-o.

Bertha, que fra at ento a companheira de brinquedos dos meninos da
Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criana, que temos visto
viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma
madrugada com lagrimas e soluos.

Desde ento conservou-se em Lisboa, onde s o pae a foi vr, por duas
vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe
ganhra affeio, cada vez mais funda.

Bertha crescra; as graas infantis foram a pouco e pouco perdendo
n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas
mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que no empanam
a belleza, antes lhe do mais e mais seductor relvo. Bertha no era j
a criana que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um
sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou
timido, sem uma dr que se no manifestasse em lagrimas; era j a virgem
de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do corao, e
portanto sujeita a todas as subtis impresses, dominada por todos os
impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspiraes d'aquella
quadra magica.

A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que to sem razo
anda confundida com a elegancia, apurra-lhe a delicadeza feminina,
desenvolvra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para
os prazeres do espirito.

Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por
ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a
permanencia de uma razo clara no meio dos attractivos e seduces, com
que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava,
mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as
prendas de educao que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia
do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o
seu. Se tinha sonhos de juventude... e quem os no tem n'aquella idade?
sabia que sonhava e no se distrahia a procurar no mundo real as vises,
que n'elles lhe appareciam.

A lembrana da sua origem modesta no a fazia melancolica, mas prudente.
No era aquella ideia uma sombra negra, que no lhe deixava vr a luz;
simplesmente um como crystal crado, que lhe permittia fital-a, sem mdo
de offuscao e cegueira.

Assim, no meio das suas effuses, das suas melancolias e at dos seus
pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga
de juizo.

A educao de collegio no produzira n'ella a adocicada pedantaria de
algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia
uma phrase que elles no entendessem, uma palavra que os embaraasse e
lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educao. Revelava-se n'isto
um natural instincto de delicadeza, que Thom, por um instincto analogo,
sabia apreciar.

Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e me 
boa Luiza, e esta convico no o deixava arrepender de a haver educado
com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os
affectos da rapariga!

As cartas de Bertha eram escriptas de frma, que no smente aos paes
agradavam, mas a quantos as liam.

Thom mostrara-as a Jorge, e este no pde deixar de apreciar a redaco
singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza
d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar to
acertada, vistas to despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado
com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que so o maior achaque
nas cartas de mulher; transpareciam to distinctamente os suaves e
generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge
sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas
ligeiras manifestaes, se revelava to irmo seu.

A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que s vezes se originam no
corao, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixes,
despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando
muito uma feio, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no corao
de Jorge. Era um sentimento, que no o inquietava ao principio, nem lhe
perturbava o espirito, por isso no se acautelou d'elle; deixou-se
repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a
natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.

Um dia mostrou-lhe Thom o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as
feies que conhecra infantis, animadas agora pela vida da
adolescencia. Pareceu-lhe no haver contradico entre aquella
physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga
comeou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.

Jorge ento assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de
que a razo lhe no dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma
fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencl-a.

Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que
apparecessem fra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel
prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de
experimental-o. Esta conteno forada acabou por produzir no espirito
de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritao, revelado em uma
especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe
a limpidez de corao, que tivera at alli, e fazer-lhe pela primeira
vez vacillar a razo, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder
dizer-se, em estylo de conceitos: queria-lhe mal por lhe querer bem.
Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impresso por
que se sentia dominado.

Taes so as indicaes que julgamos dever dar a respeito de Bertha,
antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.

Esta no era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a
filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo
os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella
uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.

A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente
fallecido.

Bertha escrevia assim ao pae:


    Meu querido pae.

    Escrevo-lhe a chorar e com o corao a partir-se-me de dr. A minha
    madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem  noite esteve a
    conversar e a rir comnosco, e tinhamos at combinado para hoje um
    passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para
    ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vr expirar;
    custou-lhe j a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como
    estou! Ns todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho!
    Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez
    mais feliz!... Peo-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu
    sei que o pae j uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se
    por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porm lembrar-lhe
    algumas coisas, e depois decida. Eu no quero dizer que tenha uma
    educao perfeita; mas, como no conto, nem desejo, viver nas salas
    d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam
    precisos. Muito tem j o pae feito por mim;  preciso agora olhar
    por meus irmos, e alguns esto em idade em que ainda podem
    agradecer-me alguns servios, que eu ahi consiga fazer-lhes.
    Mande-me ir. A me deve ter muito trabalho em olhar por tudo em
    casa.  tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos 
    uma vergonha no o fazer.  uma parte da minha educao que posso
    concluir ahi e que me ser bem necessaria. Demais confesso-lhe que,
    depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em
    Lisboa. Peo-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as
    saudades, que j tenho de todos e de tudo.

    Muitas lembranas  me, muitos beijos aos pequenos.

    Sua filha, que espera muito cdo abraal-o,

    _Bertha_.

    P.S. Que no esquea dar muitos recados  Joanna, ao Manoel da Costa
    e  filha, assim como  tia Euzebia e s mais pessoas amigas.

Thom leu  mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido
que conviria adoptar.

Saudades maternas e paternas, desejos de vr de perto e abraar a filha
dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das
vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor
de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos,
resolveram a questo no sentido indicado por Bertha; e para assim a
resolver, quasi bastava que ella o indicasse.

Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.

D'ahi os necessarios preparativos para a accommodao da filha, cujos
habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que
era justo attender.

O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas
necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto
preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e
jornaleiros.

Jorge encontrou uma noite Thom ainda empenhado n'esta labutao
caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroo.

O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.

Parecia prever a aproximao d'um perigo, que mal ousava definir.

Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thom e a Luiza os parabens
pela proxima chegada da filha, e at os auxiliou com o seu alvitre na
resoluo de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete
destinado a Bertha.

Sahiu porm da Herdade debaixo de estranhas impresses moraes.
Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de
desgosto.

Thom resolvra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.

Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas
da Herdade.

A demora de Thom no foi longa.

Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.

Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excurso pelos campos, quando,
ao descer por entre os pinheiros de uma boua cerrada, viu passar, em um
curto lano de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam
patentes, o vulto de dois cavalleiros.

Attrahiram-lhe naturalmente a atteno e esperou, para melhor os
reconhecer, que chegassem a outro lano mais proximo e mais descoberto
da estrada que seguiam.

De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que
cavalgavam a par.

No homem reconheceu Thom; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.

Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente
para elles.

Perto principiou a divisar na dama, que Thom acompanhava, feies
conhecidas.

Antes porm que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feies lhe iam
suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mo:

--Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha c, que me volta
ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.

Mauricio acabou por corroborar a suspeita que j tivera.

Era Bertha a amazona.

Bertha, a pequena alde com quem brincra em criana no pateo e na
quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irm Beatriz, a afilhada
de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava j ento os seus
galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas
transformaes que opra o sangue da juventude na formosura de criana,
com todo o realce e prestigio que d  belleza a educao.

Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bca graciosa, onde
fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade.
Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura
de uma criana e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a
falta de dissimulao, que  propria dos caracteres generosos, e ao
mesmo tempo uma natural dignidade, que impe respeito aos menos
reverentes.

Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thom.

--Bertha!--exclamou elle, sem disfarar a sua surpreza, nem desviar os
olhos da rapariga, que o saudra crando.--E  certo que  Bertha!
Conheo ainda o sorriso, que  o mesmo de outros tempos. Mas que
differena em tudo o mais!

Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expresso dos de Mauricio, e
dominando a custo a commoo conseguiu dizer:

--Fiz-me mais velha, no  verdade?

--No, Bertha, fez-se um anjo--acudiu Mauricio.

--Isso  que no--atalhou Thom--anjo era d'antes. Hoje j no
repicariam os sinos, se ella morresse.

--A terra teria bem razo para lamentar-se. Ao co  que competiriam as
festas--atalhou, galanteando, Mauricio.

--Tambem eu encontro mudana em si, snr. Mauricio--observou
Bertha.--Quando o deixei, no dizia ainda d'essas coisas.

E a mesma intima turbao tirava-lhe ainda a firmeza  voz e ao olhar.

--Porque no as sentia, Bertha--redarguiu Mauricio.

Bertha abanou a cabea com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou
sobresaltada:

--Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas so os que menos
sentem.

--Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?

-- to facil ensino! Cada um aprende por si.

--Vamos--interrompeu Thom--nada de estar parados no meio da estrada.
Lembra-te, Bertha, de que tua me a estas horas no faz outra coisa mais
do que espreitar da janella a vr se te v chegar.

--Vamos l.

Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim
entre o fidalgo e o pae.

--Que saudades me esto fazendo estes sitios!--dizia Bertha, suspirando
e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.--Tudo me  to
conhecido ainda!

--Lembra-se d'aquelles freixos, l em baixo, ao descer para os Palheiros
Queimados?--perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.

--Bem sei.  onde est a fonte da Moira.

--E aonde ns um dia fomos com a Anna do Vdor colher agries. Est
certa?

-- verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um co
grande que l havia, e que se atirou a mim com uma furia!

--E no se lembra de quem lhe acudiu?

--Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Vdor, que se
no fosse ella, vamos, no sei o que seria.

--Ainda assim no impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda
conservo a cicatriz. Olhe.

E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o
vestigio d'aquelle episodio de infancia.

-- verdade--proseguiu Bertha, j mais  vontade--e a boa ti'Anna do
Vdor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas
ainda  o que era d'antes? alegre, robusta, franca?...

--Quem? a ti'Anna?!--acudiu Thom--vers, Bertha, que ainda te parece
mais nova. Aquillo  que  mulher de casa!  um gosto vl-a, no meio dos
campos, de mangas arregaadas e chapo de palha na cabea e de enxada ou
mangoal na mo. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma
eira?

N'este ponto Thom deu um assobio, que exprimia a grande conta em que
tinha o trabalho de Anna do Vdor.

--O filho est regedor.

-- uma boa e generosa alma--tornou Mauricio, com uma expresso de
sincera sympatia.--E quer-nos como a filhos.

--Isso quer--confirmou Thom--quando falla nos seus meninos que trouxe
ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.

--E tambem me ralha com uma severidade!

--Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Ento pensa que no lhe merece
ainda mais?

--No digo que no. S me queixo de certa parcialidade que manifesta por
Jorge.

--E como vae o snr. Jorge?--perguntou Bertha.

--Muito bem. Fez-se caixeiro. No sabe? Atirou-se aos livros e 
papelada da casa, como um homem, e j no ha de tirar-lhe palavra que
no seja de contas e de negocios.

--E  um homem s direitas--disse Thom, com gravidade.

--Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas ento? Deu-lhe
Deus aquelle genio frio como glo!...

--Eu no sei l se  frio ou se  quente. O que sei  que  um rapaz de
juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e
moderna, que ha l por casa.

--A moderna  commigo, aposto. No tem razo. Eu tambem estou decidido a
trabalhar. Se ainda aqui me v, a culpa no  minha.

--Ento vae partir?--perguntou Bertha.

--Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o corao por aqui,
acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras... Mas
que lhe hei de fazer?

--E para onde vae?

--Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thom ri-se! Seu pae
ri-se, Bertha!

--Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte
devras e que lhe custa immenso a partida.

--E ento?

--A mim j me custa a crr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso
succeder, no ha de ser a chorar que arranjar as malas.

-- injusto com o meu corao.  o que se segue.

--No, senhor; no sou; mas sei o que  ter vinte annos, e sei o que 
essa cabea. E agora o nosso caminho  por aqui. O snr. Mauricio, se
quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa
para o receber, seno...

--Agradecido, Thom. Outro dia ser. No quero perturbar com a minha
presena as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os
amigos que eramos d'antes, no  verdade?

--Porque no, Mauricio... snr. Mauricio?

E Bertha, com um sorriso de generosa confiana, estendeu a pequena e
delicada mo  que Mauricio lhe offerecia.

Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida,
levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as cres
nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu
a galope.

Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois
que o perdeu de vista.

Thom, que notra tudo isto, no deixou passar muito tempo que no
admoestasse a filha.

--Olha c, Bertha, tem cautela com o teu corao, que no v elle por
ahi deixar-se prender. Eu no sei como  costume viver-se hoje l na
cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, no ponhas muita confiana
n'estas amizades de Mauricio. No digo que elle seja mau rapaz, mas a
cabea  que  assim no sei como. E n'isso mesmo  que est o perigo.
Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle;  bem feito, vivo,
esperto, generoso... Na tua idade, e com a educao que tens, no era
para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto 
tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te
deixavas enfeitiar. Elles so os fidalgos que sabes, e mais fidalgos
ainda se julgam do que so. Tu, rapariga, s minha filha, e eu sou um
lavrador, que j servi n'aquella casa. Entendes?  Bertha, por quem s,
no me faas arrepender da educao que te dei. Porque eu, s vezes,
tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: Faria eu bem em educar minha
filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha
de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de
ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalos, que lhe
andassem pelos campos e apegados  saia de bata; mas assim... Quem
poder costumal-a a isso? Mas que outro marido pde ella escolher?

Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que no
annullava a expresso melancolica e pensativa, que conservavam o resto
das feies. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cdo adquiriu
a serenidade habitual.

N'este ponto atalhou-o, dizendo:

--So prudentes os conselhos que me d. Farei por no os esquecer. Mas
no se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que
a sua bondade me teem permittido gozar na vida; no perdi de vista o que
sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por no collocar a felicidade
muito acima do alcance de meu brao. Na amizade de Mauricio creio que
no haver perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes.
Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa;
quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.

--L de Jorge nada temas.  um caracter serio aquelle. Se disser que 
teu amigo,  teu amigo devras; seno, no t'o diria; mas este...

--Jorge  ainda o que sempre foi. J em criana era o mesmo. Sempre to
serio!

--Agora ainda mais. Elle hoje no pensa seno nos negocios da casa, que
tomou a seu cuidado e que levar a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as
noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho no
tem cura, a querer-me mal.

--Sim?! Mas que pena!

--Deixal-o l, que eu em vingana hei de fazer-lhe o bem que puder.

Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi
recebida nos braos da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de
lagrimas generosas; os irmos pequenos olhavam espantados para Bertha
que no conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados
felicitavam-n'a tirando o chapo e murmurando phrases incompletas.

Bertha no meio d'aquella effuso, d'aquelle cordial acolhimento,
d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas,
sentia-se feliz.

Debalde Thom, um dos mais folgados coraes alli presentes, bradava que
era tempo de pr termo  festa, que cada um tinha a sua vida a tractar,
e que Bertha precisava de descano; os abraos succediam-se, os beijos
estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.

Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroo, que produz a
chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo
esquece; a manifestao  ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica.
Smente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, 
que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.

Succedeu d'esta vez que s passada meia hora Luiza notou que tinham
estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de
proposito e to anticipadamente preparra para a recepo.

A familia recolheu-se ento, principiou mais regular e ordenada conversa
entre me e filha, e prolongou-se at tarde.

Thom foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que
era seu costume.

Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que  inutil descrever,
porque no ha expresses que bem traduzam o que se sente ento.
Suppram-n'as as recordaes do leitor; e muito sem conforto deve ter
sido o seu passado, se no lhe d elementos para conceber alegrias
d'estas.




IX


Duram pouco as effuses, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros
instantes, em que tornamos a vr scenas e pessoas conhecidas, de que por
muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire
gradualmente a serenidade do costume; e o corao, que julgava saciar
emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece
que ainda no chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas
e inquietadoras aspiraes que sentia.

 grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se
experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um
prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis
expanses, desvanece-se a illuso em que se vinha; como sempre, como em
toda a parte, o vazio sente-se no corao, que nenhum gozo enche, e ahi
se volta a aspirar sem saber a qu, e a aguardar uma nova aurora sem
saber d'onde.

Quando,  noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia j
satisfeito a sde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.

O corao batia-lhe com o rithmo normal, habitura-se de novo a sua
sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da
impresso que o primeiro olhar que lanou sobre elles lhe produzira, j
nem indicios restavam.

O passado, resuscitando, perdra j o prestigio e a poesia, que s como
passado tem.

 feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos,
devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque
to depressa nos abandonaes  chegada? Porque dissipaes os vapores
inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos
fascinados, e nos fazeis vr a realidade como a viamos d'antes?

Bertha, s no remanso e solido do seu quarto, sentiu uma profunda
melancolia tomar-lhe o corao. Os cuidados e disvelos de Thom e de
Luiza no tinham sido sufficientes para transformar completamente
aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que
respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.

A este desconforto relativo no podia ser de todo insensivel a
organisao feminil de Bertha.

Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse
effeito, sentia-se com uma disposio para lagrimas, que a surprendia.

O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns
indistinctos murmurios, que so o mysterio das noites campestres,
conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.

Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de ns o
corao, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a
existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade
estreitam cada vez mais a suffocar-nos.

No accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o
corao na propria noite, em que voltra  casa paterna. No duvidem por
isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.

Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que
algumas a tudo se amoldam. Ha-as to delicadas, que a menor mudana
resentem.

Os coraes que se prendem depressa com raizes onde se demoram, so os
que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantao.

No era isto em Bertha pezar por ser to modesta a casa dos seus paes; a
sua tristeza era mais de instincto que de razo. E pelas impresses que
vem do instincto, ninguem  responsavel; s  razo ha direito de pedir
contas, e a de Bertha no recearia prestal-as.

Como para fugir  estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou 
janella do quarto, que deitava para os campos.

Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de
pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fra um
silencio que amedronta, uma escura vastido que apavora, silencio que s
vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha,
e no sei que outros ruidos vagos; escurido, onde parece distinguir-se
o movimento de umas frmas estranhas e monstruosas.

Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplao por algum tempo, j no
a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa
interrupo vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos
no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que
aquella paz, que aquella quietao, que aquella treva nos absorve, que
nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte
integrante de si mesma.

Opera-se em ns uma quasi magnetisao. Adormece a sensibilidade que nos
revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda
d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses
momentos, Sancto Deus! Como a imaginao vagueia, como parece que
d'aquellas confusas sombras, que temos diante de ns, nos surjem as
memorias do passado e veem, em silencioso vo, adejar sobre as nossas
cabeas e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.

O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes
affectos. No havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil
claro da aurora que os precede, essa mysteriosa vibrao de alma, que
sente nascer em si faculdades novas.

Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.

Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a
delicada criana, que parecia ter vivido smente para semear de saudades
o corao de quantos a conheceram.

Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas
com ella; os jogos, os folgares e at as lagrimas, choradas em commum.

Que tempos!

E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras
duas crianas, seus irmos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual j
ento havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se
Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou
reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que
todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinio; e a
contrastar com esta serena imagem, esboava-se a do inquieto, vivo e
estouvado Mauricio, criana prompta nos risos e no chro, violenta nas
expanses, to amoravel como colerica, e em cujo corao infantil
ferviam j nascentes as paixes de homem. Era esta talvez de todas a
imagem que avultava mais distincta nas recordaes de Bertha. Que de
episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmos
fra este o predilecto; o seu corao de criana abrira-se mais 
franqueza de Mauricio, do que  seriedade de Jorge; havia no olhar
d'este uma expresso grave que a intimidava. Depois a differena da
idade concorria para augmentar esse effeito.

E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.

Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros
enormes, que guardavam os jardins encantados.

De repente o monstro abriu um olho.

Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.

Era a unica que divisava em toda aquella escurido.

Bertha no pde mais desviar os olhos d'ella.

De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem
passeiasse diante. Depois fixou-se, e smente mais de espao a espao se
eclipsava, para surgir mais viva.

Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.

--Ser o snr. D. Luiz?--perguntava a si mesmo Bertha, observando a
luz.--Em que pensar elle a estas horas? Pobre velho, alli s, n'aquella
casa deserta!...  em Beatriz de certo que pensa como eu... Ou, quem
sabe? talvez no seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio,
provavelmente... Sim, alli deve ser o quarto d'elles...

E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo
da viso de Bertha.

As palavras que trocra com elle aquella tarde, a maneira como a olhra,
e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia
reflectir.

Adivinharia Thom com o seu bom instincto de homem do campo?

Haveria para o corao de Bertha perigos na presena de Mauricio?

Era to natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que,  similhana
da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de
puros aromas, o noivo que tarda; encontra to facil asylo a imagem de um
adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das
saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si
umas pueris paixes, com que se illudiu a infancia, que razo tinha
Thom para receios e razo tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar
com inquieta apprehenso o sanctuario dos seus mais intimos affectos.

Prolongou-se esta contemplao em Bertha, e succederam-se-lhe no
espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na
luz da Casa Mourisca. S muito tarde desappareceu subitamente essa luz.
Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se ento para o interior do
quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.

A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito
que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstraco.

A vista dos objectos do quarto evocou-a  realidade. Passou as mos pelo
rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a
opprimiam, sacudiu a cabea suspirando, e procurou serenar o espirito,
para dormir.

-- necessario ter juizo--murmurava ella, soltando as tranas--e soprar
quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vr, como elle , o
sol da realidade.  tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida
que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os
annos de criana passaram.

E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resoluo.

Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das
janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella
uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha no se
perdra no espao, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns
raios na passagem.

Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do
fidalgo.

Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da
noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no
quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.

Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a
momentaneamente.

Esta noite havia porm mais agitao em Jorge do que lhe era habitual;
os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril;
concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais
frequentemente.

As vigilias de Mauricio no eram mais curtas do que as de Jorge, mas
consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas
digresses pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das
circumvisinhanas, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de
fogo, animado pelo sorriso das damas.

Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmo estudando, e era de
costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.

N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge,
que passeiava no quarto, sentou-se depressa  banca, e inclinou a cabea
sobre um livro que tinha aberto diante de si.

 entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mo, e proseguiu ou
fingiu que proseguia na leitura que encetra, at terminar a pagina.

--Boas noites, nigromante--saudou-o Mauricio.--A estas horas, n'esta
torre,  luz mortia d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti,
representas admiravelmente um astrologo.

Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.

Mauricio chegou-se  janella:

--Mas  preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E
ellas hoje que esto to scintillantes! Ah! grande novidade no nosso
firmamento! Graas a Deus que, alm de ns, ha j mais alguem na aldeia
que no dorme a estas horas!

Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmo  janella.

--Que queres dizer?--perguntou aproximando-se.

--Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!

--Uma luz?!

--Sim, e  em casa de Thom.

Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo
calado; depois murmurou:

--Thom ainda de vela a estas horas!  singular!

--Faz-lhe mais justia--tornou Mauricio.--Thom dorme ha boas quatro
horas. A gente do campo  incapaz do extravagante delicto de
escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios
de habitos cidados. Quem vela  a filha, com certeza.

--Ah! sim... Bertha... esquecia-me de que tinha voltado--acudiu Jorge,
esforando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.

--Voltou, e bem outra do que foi!--advertiu Mauricio.

--Em qu?--perguntou Jorge, olhando para o irmo.

--Foi d'aqui uma criana agradavel, e veio uma encantadora mulher!

--Ah! ah; j notaste?--disse Jorge, com um sorriso contrafeito.

--Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vl-a, que fosse a
filha do Thom. Um ar to delicado, umas maneiras to distinctas, to de
cidade!...

--Olha se te deixas apaixonar por ella; anda l!--continuou Jorge, ainda
no mesmo tom.

--No seria prova de mau gosto, afiano-te. Que superioridade, comparada
a todas as nossas primas d'estes arredores! O que  a educao!

Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:

--Provavelmente no produzir em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza
de que hei de sentir saudades, ao vl-a, da Bertha, que conheci pequena.

--No duvido, porque s bastante philosopho para isso. Eu por mim
confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que
tenho por crianas, no me sinto com disposies para repetir as
palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para
mim... as grandes...

--Em vez da criana alegre e innocente--proseguiu Jorge com
acrimonia--da criana que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz,
preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda,
com um pouco de geographia e de historia na cabea e deixando cahir da
bca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a
heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E  isto o que
te encanta?... Pois olha, eu at j no gosto de vr aberta aquella
janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e  nas raparigas
uma doena impertinente, insupportavel.

E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.

--Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime
que dizes, at tu, o homem menos capaz de commettl-o que eu conheo,
poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha  realmente adoravel.
Vers. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais
depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem
suspeitar, ao vr Bertha, a origem alde que ella teve. A mim
parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que to airosamente
cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thom da Povoa e d'aquella
excellente Luiza.

--Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? J?!--notou Jorge, em um tom de
acerba ironia, que era novo n'elle.

--Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. No a conheci ao
principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E
depois tinha no olhar tantas promessas!

Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.

-- o que eu digo--murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:

--Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Pde ser de
mais srias consequencias do que as duzias de paixes que tens tido por
as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam
conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco
illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de
uma spa igualmente ante-diluviana.

--Ahi ests tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheo-te,
Jorge. Realmente no sei d'onde te veio essa febre democratica e
philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.

Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente no lhe era inspirada
pelo assumpto:

--No sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexo por dia.  o
que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se
deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que
resista  sua inutil ociosidade; e que ho de ficar muito admirados
quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os
no tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.

Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na
vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito
de facticio; como se procurasse desviar a atteno do verdadeiro motivo
do seu estado nervoso.

--No estou disposto a discutir a legitimidade das pretenes
aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por
Bertha. Reconheo a prudencia do conselho. Porque  certo que ha
n'aquella rapariga um no sei qu to superior ao que por ahi vejo que,
se eu no tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para...
arranjar um modo de vida... no juro que pudesse ser indifferente
quelles encantos. Demais ha entre ns recordaes de infancia e quer
parecer-me que ella ainda as no esqueceu.

Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

--Mas aquella luz no me sahe do pensamento--proseguiu Mauricio.--Que
estar fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? No te parece
que est alguem  janella?

--Mal se pde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo
que sim.

--Pobre pequena! Alli, s, n'esta aldeia. Est scismando em como podero
ter realidade as vagas aspiraes do seu corao.

Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

--Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que
deixou suspirando em Lisboa.

--Ests insupportavel, Jorge.

--Uma experiencia!--exclamou, passados alguns momentos de silencio,
Jorge, voltando  janella, onde permanecia ainda Mauricio.--Tu ests
dando tractos  imaginao para adivinhares qual ser o pensamento de
Bertha. Eu aventuro uma supposio. Assim como ns vimos aquella luz,
ella v esta, e talvez a nossa sombra na janella.  natural que supponha
que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que
fallamos d'ella. Sabendo-se observada, no ousa apagar a luz, por querer
mostrar que tambem prolonga as suas _rveries_ por noite alta.

--Ora! deixa-me com as tuas observaes!

--Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.

Mauricio condescendeu.

A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da
noite.

Como o leitor j sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.

--Eu que dizia?--exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se
aquelle rir lhe fizesse mal.

--Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor--disse Mauricio, despeitado.

--Tanto melhor?!

--Sim. Porque no hei de eu vr, n'este proposito de acompanhar a nossa
vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje
tornou a vr?

--Ah! ah! Pensas n'isso?

--Porque no? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do corao proprias
do sexo no  uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos c por este mundo,
anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapo,
benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma orao, mas afiano-te que no
os amava.

--Boa noite, Mauricio. Olha que so duas horas.

--Adeus, Jorge.

--No sonhes com Bertha.

--No sonhes tu com a arithmetica, que  peior pesadlo.

E os dois irmos separaram-se, rindo.

A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.

Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto
podia, no proprio conceito, esforando-se por convencer-se de tudo
quanto a respeito d'ella dissera ao irmo, para diminuir assim a
impresso, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.

Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fra sensivel ao seu galanteio,
e esta ideia torturava o espirito de Jorge.

Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposio de que a vigilia
de Bertha lhe fra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso
e sonhou... sonhou... Oh! quem pde exprimir o longo romance dos sonhos
de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginao como a de
Mauricio!




X


Bertha acordou firme no proposito que formra na vespera, de aceitar com
coragem de mulher as suas novas condies de vida, e de entregar-se de
alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para
isso a indocil imaginao de rapariga.

Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia,
avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a
resoluo de vl-a e de fallar-lhe.

Jorge levantou-se cdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella
noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questo agronomica, em que
meditava havia muitos dias.

Veremos o que as diversas disposies de animo d'estes tres personagens
deram de si no decurso do dia.

O aspecto risonho da manh dissipou as nuvens, que de noite se haviam
accumulado sobre o espirito de Bertha. J lhe parecia, quella suave e
vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e no podia perdoar a si
mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a me nas occupaes
domesticas, encontrava n'isso uma distraco poderosa e quasi um intimo
prazer. As caricias dos irmos commoviam-n'a, e foi j com desassombrada
alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mo ao outro,
atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e
foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta
entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella
parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo
orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do cho, e cahia em
gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!

Os irmos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flres campestres que
iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e
ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os
presenteava depois.

Entregue toda a esta tarefa, sentia-se to do intimo contente, que se
pz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.

Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas
julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos
silvados, e no lhe deu maior atteno.

D'uma vez porm, em que os irmos corriam para ella com uma regaada de
flres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a
separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direco d'aquelle olhar, e
descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava
observando.

A filha de Thom da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar
de todo a confuso que experimentava com o inesperado encontro,
interrogou sorrindo:

--Estava ahi ha muito?

--Ha alguns momentos, ao que me parece.

--A fazer o qu?

--A vl-a e a ouvil-a.

--Com to pouco se entretem!

--Ento parece-lhe que no ser novo para mim o espectaculo?

--Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianas? Ora essa!

--Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa 
que est a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras
femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso
bello paiz?

-- muito injusto com as suas patricias.

--Oh! no as lisongeie.

--N'isso interesso eu tambem, bem v.

--Poupe-lhes a humilhao de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que,
indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua
natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resoluo espontanea, ao
mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma fora occulta que
assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde
smente encontrava ambiente apropriado.

--Engana-se; v? Achava-me desterrada alli at, e, desde que voltei,
sinto um bem-estar, que me prova que  esta a minha verdadeira patria,
que estes so os ares, em que respiro  vontade.

--Esse bem-estar no tardar que se transforme em fastio.

--No, no, no creio.

--Eu  que no creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as
aspiraes naturaes a um espirito como o seu.

--Mas,  meu Deus, que qualidade de espirito me suppe ento? Que
aspiraes so essas que diz?

--Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da
immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?

--E espero que ha de satisfazer-me.

--E que ha de fazer da sua imaginao? Sim, que ha de fazer d'isto que
se sente na nossa idade, quando se no nasceu Manoel do Portello, ou
Maria da Azenha?

--Perdo, ser por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que no
me incommdo com isso.

--No me entendeu, Bertha. No havia nas minhas palavras a menor
baforada aristocratica; d'essa ridicula mania no padeo eu, graas a
Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores,
posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se
assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha...

--Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. No me supponha o que eu
no sou, ou ento no diga o que no sente. Acredite; as minhas
aspiraes so to leves, to realisaveis! Satisfazem-se com estes
cuidados caseiros; e fra d'isto, no me sinto bem. Para fazer a vontade
a meu pae, segui a educao que elle desejou que seguisse; mas nunca
senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos
trabalhos aldeos...

--Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem j sentidos
educados para a poesia que ella rescende.

--A poesia!--repetiu Bertha, com um forado gesto de desdem, encolhendo
os hombros.

Mauricio percebeu-o.

--Ri-se?--interrogou elle.

-- que ouo fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade,
ainda no pude saber bem o que seja.

--No sabe o que  a poesia?!

--A que se escreve nos livros sei, mas fra d'ahi...--disse Bertha,
simulando um tom de completa ingenuidade.

A chegada das crianas, pedindo  irm que as conduzisse a casa,
interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de
Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.

--Ser possivel que eu me engane?--pensava elle.--Ser a final de contas
uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradies da familia?
No creio. Antes  astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza
de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou no
 indifferena o que ella sente, quando me falla.

E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.

Bertha, rindo e brincando com os irmos, pensava tambem:

--Parece-me que alguma coisa conseguiria.  preciso desvial-o d'este
proposito;  preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me
aborrea. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e
de entendl-o. Que eu no posso ficar pelo meu corao, que ainda no
experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero no luctar.
Chamam-me uma rapariga de juizo. No sei, no sei se o sou, no o posso
saber nem quero. s vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me.
Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me to facil dominar-me!...
Hoje... No quero, no quero tentar; no quero expr a tranquillidade do
meu corao. Eu no me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla.
 preciso acabar com isto, antes que augmente.

O dia passou sem outro episodio para Bertha, alm da visita de algumas
relaes da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do
venturoso casal.

Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que
a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

Luiza no se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e
no fazia seno alternar a vista entre o rosto de Bertha, que to grata
perspectiva era para o seu amor de me, e o dos seus interlocutores,
onde espiava o reflexo da admirao, de que ella propria se sentia
possuida.

Assim correu o dia.

O principio da noite foi consagrado  familia. Ento  que chegou a vez
a Thom de perguntar, de querer saber, de fazer reflexes sobre o que
ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha,
como quem j se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

Era j um pouco tarde e Thom admirava-se da demora de Jorge, a quem
mandra aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que
communicar-lhe a respeito de negocios que tractra no Porto e Lisboa.
Ouviu-se porm o ladrar dos ces no quinteiro, o som da aldraba no
porto e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao
patamar.

--Ahi vem o snr. Jorge--disse Luiza para o homem.--Conheo-o j pelo
andar.

-- elle, ; e temos hoje bastante que fallar.

--Eu vou accender o candieiro no quarto--acrescentou Luiza, que sahiu a
preparar a sala das conferencias.

Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficra Thom com a filha.

Jorge no era superior a uma occulta commoo, ao entrar alli. Ia
encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegra
emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas
apprehenses. Era to forte a sua turbao, que lhe tremiam as pernas ao
transpr a porta da sala.

Na presena de Bertha, Jorge lanou para ella um olhar rapido, mas
penetrante, e desviou-o logo. O espirito no serenou com o resultado
d'esse primeiro exame.

Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.

Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, to
differente do do irmo, acolheu-o com mais franqueza e menos precaues
do que tivera com Mauricio. Contra Jorge no precisava de acautelar o
corao.

O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de
galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse,
quasi sem olhar para Bertha:

--Bem vinda, Bertha; estimo vl-a restituida aos seus. Espero que ainda
se lembre de um antigo conhecido.

--No costumo esquecer-me, snr. Jorge--respondeu Bertha, sem poder
deixar de examinal-o com curiosidade.

Jorge proseguiu no mesmo tom:

--Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero
acreditar que a sua memoria desmentir o dito. E que lhe parece agora
esta terra?

E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas
desviou-os ao encontrar os d'ella.

--A mesma que deixei--respondeu Bertha--a aldeia guarda melhor as
memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na
volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flres, que nos
despediram, nos do as boas vindas outra vez. Se alguma mudana ha  nas
pessoas.

--Encontrou mudana n'essas?

E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
Bertha.

--Nem podia deixar de ser--tornou esta--para ns no ha estaes; as
folhas que vo cahindo, no vem primavera renoval-as.

Jorge pz-se a folhear, com apparente distraco, um livro que encontrou
sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse
ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.

Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a
curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga
aquelle caracter serio de rapaz.

Thom propz a Jorge principiarem os seus trabalhos.

Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a me.

--Ento que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?--perguntou o
enlevado Thom.

Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.

--Olhe o que  a educao--insistiu Thom.--Quem ha de dizer que foi
nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda
um pouco peior do que hoje?!

--Ah! sim... a educao... vale muito, mas  preciso que os dotes
naturaes a auxiliem--murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o
assumpto da conversa.

--Sim; tambem me parece que se a pequena no tivesse quda... Mas o que
ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu!  d'uma pessoa ficar a
ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!

Um ligeiro sorriso, no de todo despido de ironia, encrespou os labios a
Jorge, que nada respondeu d'esta vez.

Thom interpretou o silencio do rapaz como uma manifestao dos seus
desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vr
aquella noite, e por isso abriu a sesso.

Antes porm teve de ir em procura de uns papeis necessarios.

Jorge ficou s por um instante, e deu alguns passeios no quarto.
Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou
machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a
arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto
elegante da encadernao, conhecia-se pertencer tambem  filha de Thom.

Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos
amores de Paulo e Virginia.

Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho
sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.

--L romances--murmurava elle.--A estas horas phantasia-se a heroina de
algum. Est apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo
mundo a realisao d'esse ideal. A final  o que eu digo.  como as
outras.  uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco
pedante...  o resultado do systema de Thom... Fazer viver estas
mulheres em um mundo de phantasia, e trazl-as depois para a realidade,
que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar
esposas e mes!

E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritao, que elle proprio
no podia justificar.

Depois proseguiu, com crescente malignidade:

--E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou
proposito?  natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de
espirito adquiridas no collegio, e ha to pouca gente no caso de as
apreciar n'esta aldeia, que no admiro que seja eu um dos eleitos.
Emfim, so vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser
indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se
quizer. Est no gosto d'elle...

Thom voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou
comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais
desattento do que de costume.

No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro
aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianas:

  Quando uma criana dorme,
  Veem os anjos a sorrir
  Abrir as portas do co,
  Para Deus as vr dormir.

--Escute--disse Thom, apurando o ouvido-- a minha Bertha a adormecer o
irmo.

E Thom pz-se a escutar, com fervor paternal.

Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz
juvenil, que continuava cantando:

E um d'elles  terra desce Junto do bero a velar Para longe do menino
Os sonhos maus afastar.

--Ento? No tem uma linda voz a rapariga?--continuava Thom, olhando
para Jorge, que no respondeu.

A voz continuou:

  Dorme, dorme, meu menino,
  Que  alegre o somno teu.
  E emquanto na terra dormes
  Folgam os anjos do co.

Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o
canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica
melopa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianas.

Thom, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia
encontrar um caminho direito para o corao d'aquelle pae extremoso, e
commovl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas
consoladoras.

Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.

Era tarde j e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas
n'este movimento de Jorge actura uma outra ideia.

Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento.
Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os
artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge
suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitra de proposito o ensejo
de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e
sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do
rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a
tactica tivera effeito. A preveno hostil, de que  fora queria
armar-se, no era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.

Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se
sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede
quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue,
annullava-se o esforo que fazia para quebral-o, e a seu pezar
permanecia no perigo.

Desconhecia-se, sentia uma turbao indefinivel, parecia-lhe que o ar
livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um
corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um
quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto
do bero de uma criana, e por o espao entreaberto appareceu a figura
de Bertha, com o cabello j meio despenteado e solto, e tendo nos labios
o mais suave e affectuoso sorriso.

--Boa noite, snr. Jorge--disse ella, estendendo-lhe a mo, com uma
expresso de voz cheia de cordial franqueza.

Jorge estremeceu quella vista inesperada, mas, dominando-se,
correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mo:

--Adeus; boa noite, Bertha.

--Ento o pequeno j dorme?--perguntou Thom da Povoa, procurando sondar
com a vista a meia claridade do quarto.

--Psiu!--disse a filha, pondo um dedo nos labios--socegou por fim.
Trouxe-o para o meu quarto, porque no deixava dormir a me. Boa noite,
meu pae.

E tomando a mo do lavrador, beijou-a com affecto.

--Deus te faa feliz, minha filha--tornou-lhe este, exultando com
aquella simples aco.

E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos
de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.

Jorge, ao vr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite,
como para libertar-se de uma oppresso que o angustiava. Descobriu a
fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli at 
Casa Mourisca.

--Eu estou doido!--murmurou elle--que tenho eu com esta rapariga? Era o
que me faltava! que me entrasse na cabea uma doidice d'estas! Estou
vendo que no  to facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com
Mauricio no admirava! E ento uma criana de collegio... provavelmente
estouvada... Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.

Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta
meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criana  meia luz
da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada  entrada,
com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal,
no se lhe tiravam da ideia. Era como a viso de um paraizo que sonhra.

Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho,
entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado
proximo da janella, com a cabea sobre o brao dobrado, que repoisava no
peitoril, e to absorto, que quasi no deu pela aproximao do irmo.

Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:

--Que fazes ahi?

Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:

--Julgo que dormia.

--N'esse caso farei outra pergunta--que vieste para ahi fazer?

--Tinha calor... cancei-me de lr... vim tomar ar. Ha um instante.

--Ha um instante? No diz isso aquella luz, que parece de casa
mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com
outro; porm em ti  para estranhar a menor irregularidade de habitos.

--Tambem eu me estranho.  certo porm que esta noite no me sinto
disposto para estudar.

--Pois aproveita essas felizes disposies, e descana, descana. Que
diabo! Parece-me que ds  administrao da nossa casa mais importancia
do que ella merece. A final de contas sempre  tarefa que o frei
Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite est agradavel!
No esteve de todo m a partida em casa dos Curujes.

--Ah! vens de l?--inquiriu Jorge, com indifferena.

--Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna
cantando a _Norma_ da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com
a cabea cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do
Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem no est feia  a Dres,
a pequenita do Joo Tavares; dois mezes que passem mais por aquella
infancia e estar alli uma bella mulher. Mas que noite to sombria! Nem
a luz de hontem em casa do Thom! Hoje nem Bertha nos faz companhia.
Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Est
provado que a vigilia de hontem foi consagrada  prosaica tarefa de
arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus.  verdade, j a viste?...

--No... J.

--No? J? Que diabo de distraco  essa? E que te pareceu?

Jorge esteve algum tempo antes de responder:

--Bem.

--To scamente bem? Devras?!

--Ento que queres que te diga? Sabes que no tenho o teu genio, para
esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me
apparea.

--E a respeito das tuas prevenes?

--Nada pude decidir.

--Pois eu j decidi. Acho-a cada vez mais adoravel.

--Ah!

--Sabes que estive com ella esta manh?

--Sim?! Hum!--disse Jorge com evidente constrangimento.

-- verdade. Fallei-lhe e, j se sabe, no me descuidei de advogar a
minha causa.

--Ah! sim? E ento?...

--E ento..., apesar de uma certa esquivana nas respostas que obtive,
quer-me parecer que no tenho razo de queixa.

--Bem, bem.

--Emfim, certas recordaes de infancia... como sabes...

--Ah! ella recorda-se da infancia?

--Ora, como queres que ella se no recorde?

--Sim,  natural--concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas
contraces nervosas.

E estendendo subitamente a mo ao irmo, acrescentou:

--Boa noite, Mauricio.  tarde e eu tenho somno. Adeus.

E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que
costumava. Se dormiu  que no sabemos.

Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle.

Embalava-o a vaidosa persuaso de que havia impressionado Bertha. Tinha
Mauricio este defeito de suppr que eram promptas e profundas as
impresses que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e
que ainda no  dos que do de si mais serias consequencias.




XI


Pela manh do dia seguinte recebeu Jorge um recado do pae, para ir
fallar-lhe.

Apressou-se em obedecer. Foi encontrar D. Luiz a passeiar no quarto, e
manifestamente irritado. Vendo entrar o filho, mostrou-lhe uma carta
aberta, que estava em cima da mesa.

--Ah!  da prima?--exclamou Jorge, depois de examinar a
assignatura.--Finalmente escreveu!

--Podia dispensar-se de o fazer--resmungou o fidalgo e proseguiu:

--Parece-me que no foste muito feliz na lembrana de bater a essa
porta.

--Ento?!

--L e vers.

Jorge leu, a meia voz, a carta que era concebida n'estes termos:

    Meu bom tio.

    Tive, ao voltar a Lisboa de uma visita  Hespanha, a mais agradavel
    surpreza. Recebi, emfim, uma carta sua! A singularidade do facto no
    me inhabilitou para sentir no maior grau uma salutar alegria.
    Cuidava que me tinham esquecido. Convenci-me agora de que felizmente
    me enganra. Lisongeou-me ainda o vr que o meu bom tio se dirigia a
    mim, para me pedir conselho! Claro estava que j no era no seu
    conceito aquella doidivanas de outros tempos. Ainda bem que me faz
    um poucochinho de justia. No se arrependa; effectivamente hoje
    estou mais ajuizada. O meu caracter de viuva d-me um ar de
    respeitabilidade, que vae muito bem com os meus vestidos escuros,
    nos quaes a garridice no ultrapassa ainda os limites do roixo. Mas
    devo confessar-lhe que me incumbe de uma espinhosa tarefa! Descobrir
    a carreira mais adequada ao nosso caro Mauricio, que deve ser a
    estas horas um bonito e elegante rapaz, mas com tanto que,
    acrescenta o meu querido tio, elle no seja obrigado a _transigir_
    com as ideias do seculo,  devras uma misso difficil e para
    melhor engenho do que o meu. Principio por no saber bem quaes so
    as taes ideias do seculo, com que o priminho Mauricio no deve
    transigir. Eu, que sou a pessoa mais transigente d'este mundo, no
    posso assim de repente saber quaes so aquelles principios, com que
    os meus primos so incompativeis, ou que so incompativeis com os
    meus primos. Depois ha tantas ideias remoadas, que passam por
    novas, que j no  facil distinguir quaes so as do seculo e quaes
    no so. E deixe-me dizer-lhe, meu bom tio, que ha uma certa ordem
    de coisas, com que provavelmente, na sua opinio, Mauricio no deve
    transigir, mas sem transigir com as quaes no se d hoje n'este
    mundo um passo que tenha geito. Creia que nos nossos dias  pouca a
    gente que no est convencida disso, e raros os que ainda se
    contentam com ficarem sendo immoveis columnas do throno e do altar,
    emquanto os outros vo andando.

    Ahi est que me lembrava a mim arranjarmos, com tempo, para Mauricio
    um d'estes commodos circulos eleitoraes, por onde uma pessoa sahe
    deputado sem o sentir. A carreira  das melhores para rapazes de
    intelligencia e de aspiraes; mas a urna popular, provavelmente,
    figura no rol das coisas, com que Mauricio no deve transigir.
    Emfim, meu intransigente tio, apesar de todos os meus bons desejos,
    sinto-me devras com os braos atados, e tropeo a cada momento em
    uma incompatibilidade! Julgo preferivel conferenciarmos de viva voz.
    Tenciono visital-o brevemente. Preciso de revistar a minha quinta
    dos Bacellos, da qual j tenho saudade. Ahi irei pois, e de sua bca
    ouvirei aquillo com que pudemos, e aquillo com que no devemos
    transigir. At ento creia-me sempre sua muito transigente, mas
    affectuosa sobrinha

    _Gabriella_.

    P.S. Se um abrao cordial e bem intencionado de uma prima viuva 
    coisa com que Mauricio possa transigir, peo o favor de lh'o dar em
    meu nome e outro a Jorge, que, pelo que vejo, tem juizo aos vinte
    annos, facto que, seja dito entre ns, no tem sido frequente em
    nossa familia.

Esta carta, escripta  vontade e no tom familiar de uma mulher
caprichosa, costumada a no se constranger com pessoa alguma, e a vr
admittirem-lhe, como naturaes, todos os caprichos, no podia ser menos
accommodada ao genio sisudo e respeitador de etiquetas, que era uma das
pronunciadas feies do velho fidalgo.

A maneira por que a sobrinha lhe escrevia, a sem-ceremonia com que
parecia rir-se dos seus delicados escrupulos politicos, era to
subversiva da ordem estabelecida e respeitada nos usos tradicionaes da
familia, que D. Luiz escandalisou-se.

Jorge comprehendeu,  primeira leitura, qual o effeito que esta carta
deveria ter produzido no animo do pae, mas procurou dissimular.

--Uma vez que ella vem, esperemos--disse em tom indifferente.--De viva
voz tracta-se melhor d'estes negocios.

--Que hei de eu tractar com uma doida d'estas? Tomra que ella me
deixasse socegado!

--So maneiras de Gabriella, mas nem por isso deixar de olhar com
seriedade por este assumpto.

--So maneiras?... Tudo tem limites. Isto no  carta que uma rapariga
escreva a um velho, que  seu tio.

E D. Luiz, ao dizer isto, pegava na carta por uma ponta e arremessava-a
sobre a mesa, como se fra um objecto que lhe inspirasse repulso.

--Costumes do tempo--aventurou timidamente Jorge.

--Bons costumes! Pois, embora ella o diga zombando, no transijo com
elles, no senhora; nem filho meu, emquanto quizer que eu por filho o
tenha, ha de transigir tambem.

--Esperemos, at que ella venha.

--J sei que de nada servir a conferencia. Essa porta podes
consideral-a fechada.

Jorge, depois de mais algumas tentativas para acalmar a irritao
paterna, voltou para o quarto, intimamente satisfeito com a carta da
baroneza, em cujo auxilio confiava para vencer as reluctancias do velho.

Augmentaram-lhe ainda mais as esperanas, quando leu um laconico
bilhete, em que a prima lhe respondia tambem, assegurando-lhe que viria
breve, e que trabalharia com empenho no sentido que elle lhe indicra.

Meia hora depois, dava Jorge a novidade a Mauricio, que encontrou
descendo as escadas com elegante e caprichoso traje de cavalgar e
cantarolando despreoccupado:

  Dae-me uma casa na aldeia,
  Casa rustica, isolada,
  Que mostre por entre verdes
  A sua frente caiada.

--Esse desejo vem fra de proposito--disse Jorge, sorrindo--porque
justamente hoje chegou a carta que esperavamos de Gabriella.

--Ah! chegou! E ento?--interrogou Mauricio um pouco sobresaltado.

--Promette vir aqui. Pede uma conferencia para breve, na qual se
discutiro as bases da reforma.

--Ai, ella vem c? Visto isso adiada toda e qualquer resoluo a meu
respeito?

--At que ella chegue.

--Ora ainda bem!

--Estimas?

-- que hoje qualquer ordem de partida encontrava-me pouco de animo para
deixar a aldeia.

E continuou a cantar:

  D'onde se eleve s trindades
  Um fumosinho cinzento
  Que se dissipe nos ares,
  Ao menor spro do vento.

--Ol! Como se desenvolveu assim em ti esse apgo s coisas
rusticas?--perguntou Jorge com ironia.

--Que queres tu? Caprichos!

--Caprichos!! mas  que no estamos no caso de os ter. Ai, Mauricio,
receio que ds em mau homem de negocios, se a conferencia decidir que o
deves ser--continuou Jorge no mesmo tom.

--A Gabriella ter o bom senso necessario para propr outra soluo ao
problema da minha vida. Creio...

E Mauricio desceu as escadas, exclamando alegremente:

--Adeus, adeus que vou vr quem tu sabes.

Jorge contrahiu a fronte ao escutar-lhe as palavras com que se despediu,
e conservou-se immovel ainda depois que o perdeu de vista, e j quando o
no ouvia, nem o bater das patas do cavallo no lagedo do pateo; a final
sacudiu a cabea, como para livrar-se de uma ideia importuna e murmurou:

--Ora! Tudo isto  natural... Vamos trabalhar!

E foi encerrar-se no quarto.

Mauricio sahiu a cavallo, mas no estendeu por muito longe o seu passeio
matutino. Parecia errar ao acaso, mas acaso era esse que por duas vezes
o conduzia na via da casa de Thom.

E de ambas as vezes uma cabea de mulher apparecia  janella, ao ruido
que faziam no caminho as patas do cavallo, o qual Mauricio obrigava a
evolues ao chegar quelle sitio.

Essa cabea era a de Bertha. Mauricio saudou-a com um sorriso e
dirigiu-lhe algumas palavras de galanteio. Bertha retirou-se para
dentro, depois de elle ter passado, dizendo comsigo:

-- uma imprudencia o que estou fazendo. Vamos;  preciso cautela.

E a terceira vez que o sentiu j no appareceu para o vr.

Mauricio porm estava contente com a manh; continuando no seu passeio,
dirigiu o cavallo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas enxurradas,
e depois de difficil e precipitosa descida por entre pinheiraes, veio
sahir a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma residencia
campestre de menos m apparencia.

Era uma casa branca, de um s andar e ao correr da rua, mas de solida
construco; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-se para
ella por um pateo coberto de ramada, cercado de um muro baixo e fechado
por uma meia cancella de castanho ennegrecido. Dentro d'este pateo pouco
espao havia desobstruido; aqui um monte de rama de pinheiro, alm duas
ou tres rimas de achas, acol um tronco de larangeira partido, uma m de
moinho, dois carros desapparelhados, dornas, arados, pipas, canastras,
escadas de mo, e varios outros utensilios de lavoura e de uso
domestico.

Mauricio prendeu o cavallo ao muro e entrou para o pateo.

Abria-se para este a porta da cozinha; vinha de l um grande rumor de
vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um claro
avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chamma.
Chegando-se mais perto, Mauricio contemplou por alguns momentos, sem ser
visto, o quadro que se lhe offerecia  observao. Era uma cozinha
alde, vasta, desafogada; immenso lar, compridos preguiceiros ao longo
das paredes, no alto prateleiros pejados de loua nacional, de panellas
e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada p
de presunto; o amplo frno vomitava lavaredas pela bca escancarada e a
cada instante engolia as novas e enormes dses de lenha que lhe
ministravam; na masseira fumegava j a farinha ainda no levedada para a
fornada da semana; e n'ella os braos valentes e rolios de duas frescas
moas do campo enterravam-se at os cotovlos; a um signal d'estas,
outras traziam da lareira grandes panellas de agua fervendo, com que
acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos vapores. Uma
peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o cinzeiro do
frno com a vara meia carbonisada; limpava esta a p grande para a
introduco das boras e aquella empunhava a pequena p de ferro de
rapar a masseira. No meio d'esta legio feminina assim atarefada, a
patra da casa, que, como Calypso sobre as nymphas que a serviam, ou,
segundo a comparao classica, como o elegante cypreste sobre as vinhas
rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho de
cada uma e distribuia as tarefas com methodo e intelligencia.

Era esta a ti'Anna do Vdor, em quem j ouvimos fallar, a que havia
creado aos seus vlidos e sadios peitos os dois meninos da Casa
Mourisca. Era ella enfarinhada, arregaada, afogueada, com os cabellos
escondidos debaixo do leno vermelho que atava sobre o occipital, com a
voz potente, o olhar fino e os movimentos faceis, apesar dos cincoenta
annos j contados.

 sua vista perspicaz no escapou por muito tempo a presena de
Mauricio; e logo que o viu, correu para elle com os braos abertos,
exclamando:

--Ai, o meu rico filho!

--Cautela, cautela, Anna, olha que me enfarinhas!--advertiu Mauricio,
tentando fugir-lhe.

--E que tem que te enfarinhe! Olh'agora? A farinha  po, e o po vem de
Deus.

E sem precaues nem reparos apertou o corpo delgado de Mauricio nos
seus robustos braos, deixando-lhe na roupa vestigios evidentes d'este
cordial amplexo.

--Vs, vs?--dizia Mauricio, sacudindo-se--olha em que preparo me
puzeste, ama! Estou asseiado!

--Sim? Pois melhor para ti, que j tens que fazer, e no me andas por
ahi a vadiar e a fazeres-me doidas as moas c da terra com as tuas
bregeirices. Sahiste-me boa rez! no tem duvida nenhuma!

E pronunciava isto com um modo, acompanhava-o com um olhar tal, que
fazia temer a imminencia de um outro beijo e de um outro abrao.

Mauricio continuava sacudindo-se.

--O mal que tenho, vem do leite que bebi--dizia elle no entretanto.

--Hum!--acudiu a ti'Anna com um gesto de soberba.--Conta-me d'essas! O
que vos valeu, meus fidalguinhos de torro de assucar, foi trazer-vos eu
a estes peitos, seno o que seria feito do vosso corpinho de vime?
Olh'agora! ieis como foram indo vossos irmos mais velhos, e aquelle
anjo de vossa irm, que ainda hoje me resta a pena de no ter creado
tambem. Mas quem adivinha vae para as casinhas.

--Aos preparativos que estou vendo--observou Mauricio--ha grande fornada
para hoje.

-- como vs. E no minguam bcas que a comam. Senhor nos no falte com
estas cdeas.

--E o bolo que no esquea.

--Eram bons tempos aquelles em que vocs ambos o comiam como se fosse
man! Esquecer! Olh'agora! No ha de esquecer, no, se Deus quizer, que
no falta por ahi gente necessitada, com quem se reparta. V, v,
raparigada! no se me ponham agora paradas a olhar para as moscas, que o
servio no espera! Olh'agora! Deita-me o centeio n'aquella massa,
pasmada, avia-te! Parece que nunca viram um rapaz! Bem tirado das
canelas  elle, salvo seja; mas isso no basta! Olh'agora! Mas que
milagre foi este que te trouxe por aqui a estas horas?

--Um passeio...

--Um passeio!... Hum! ahi anda moiro na costa. Olha l se me
desinquietas coisa que me pertena, que tens de te haver depois
commigo... Eu ainda tenho um par de sobrinhas que so moas de mo
cheia. Ora olha l. Quem te dsse o juizo de Jorge! Aquillo  outro
estfo!  verdade--continuou ella, dando emphase  interrogao com o
poisar das mos nos quadris--dizem-me que elle  quem dirige agora os
negocios l em casa.

--Ha muito tempo j.

--Pois foi bem pensado! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei
do frade, Deus me perdoe; e emquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, no
serve l muito para governar casa. E tu que fazes?

--Eu..., eu...

--Passeias; ora pois pudera! Se este senhor havia de fazer outra coisa.
Pois no fazes bem, que pelos modos isso l por casa no est para
graas.

--Que  do Clemente, Anna?--inquiriu Mauricio, mudando de conversa.

--O meu Clemente?  filho, nem eu sei. Se queres que te diga, o rapaz,
desde que o metteram na regedoria, no faz outra coisa. Isto , eu devo
dizer o que  verdade; o servio apparece feito, isso l apparece; mas a
gente nem sabe quando nem como. Mas, agora me lembro, elle pelos modos
est hoje para casa do Thom da Herdade. Chegou-lhe a filha da cidade,
sabes? A Bertha, a que brincava com vocs na Casa Mourisca, e que tu
dizias que era a tua namorada? garoto foste tu sempre desde criana. Diz
que vem uma senhora. Tolices do pae. Olh'agora! Mas o caso  que a
rapariga  geitosa e diz que muitas nadas e creadas na cidade dariam uma
orelha para apparecerem to bem como ella. Estou morta por a vr, mas
esta minha vida no  para vagares. Ento disse ao meu Clemente: Vae tu
a casa de Thom, rapaz, e faze-lhe l os meus cumprimentos. O caso 
que elle foi e...  raparigas, ento esse po ainda no est amassado?

E no lhe soffrendo a impaciencia de animo a inaco, aproximou-se da
masseira, e afastando as moas que lhe cederam o logar com deferencia,
remexeu, com o vigor de seus desenvolvidos musculos, a massa que, sob
to poderoso motor, cedo adquiriu a consistencia precisa.

Depois amontoou-a, alisou-a, traou-lhe em cima com a mo uma cruz e
murmurou:

  S. Vicente te acrescente
  S. Mamede te levede.

Cobriu-a com a baeta e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente:

--Ora ahi o tem; agora olhem-me por esse frno, que so horas.

E tornando a Mauricio, continuou, como se no tivesse havido
interrupo:

--Pois  verdade, elle foi e ainda no veio. Sabes tu que era esta a
mulher que ficava a matar para o meu Clemente?

Mauricio estremeceu, como se ouvira uma heresia.

--Quem? Ella? Bertha?

--Sim; ento que achas? Pois com quem queres tu que ella case c na
terra? Fidalgos no a querem; os rapazes por ahi so uns labrgos que
Deus nos acuda. O meu Clemente..., no  agora por ser meu filho, mas
no se lhe faz favor nenhum confessando que  mais geitoso do que elles.
E sobre tudo, depois d'isto da regedoria. Elle falla com o snr.
administrador e at com o governador civil, quando vae ao Porto, e a
cada passo est a escrever-lhes e a receber cartas d'elles, e  tudo:
Deus guarde a v. s. para aqui, Deus guarde a v. exc. para acol. Ora a
filha do Thom vem costumada a estas coisas l da cidade e emfim, sendo
de costume, j se no gosta de passar sem isso.

Mauricio no podia seguir placidamente as conjecturas da ama,
parecia-lhe uma profanao o que ouvia.

--No, no, Anna. Clemente no  marido que convenha a Bertha. De modo
nenhum. Desengana-te.

--E porque no? Ora essa  boa! Quem  ento que lhe convem? Olh'agora!

--Bertha tem... teve... ha de ter...

--Tem, teve e ha de ter, o qu?...

--Uma educao... gostos...

--Ora viva! J fazes a filha do Thom fidalga de mais para o meu rapaz!
Ora quem alli est. Olha que eu sou da creao de Thom, e conheci-o
rapazinho de p descalo, a guardar o gado... Olh'agora!

--No duvido, Anna, mas... Bertha j viu a cidade e...

--Toma! E o meu Clemente? Ora deixa-te de historias. Sabes que mais?...
No me andes tu j por ahi com o olho na pequena, que  o que me parece;
olha que no  nenhuma tola como as outras.

-- Anna, que ella no  como as outras sei eu. Nunca esta terra soube o
que era um anjo assim.

--Olhem, olhem!  o que eu digo. Temol-a travada! Eu logo vi.  filho,
que no sei a quem me sahes. Eu logo vi. Tu que te espinhavas todo por
eu querer a rapariga para o meu Clemente!... Mas, ol, snr. Mauricio,
veja o que faz. Lembre-se de quem ella  filha.  um homem serio e que
no gosta de quem no o tractar como homem serio... Mas ahi vem o meu
Clemente; elle  que me vae dizer da rapariga.




XII


Clemente, o filho unico da vigorosa matrona que to desenganadamente
fallava a Mauricio, era um sincero rapaz aldeo, de espirito pouco
desenvolvido, mas de excellente indole.

Tinha uma physionomia vulgar, d'estas que fogem da memoria, porque nem
as fixa um vislumbre de intelligencia que accentue alguma feio
predominante d'ellas, nem o cunho de estupidez, que as assemelha a
caricaturas.

S na bca e nos olhos  que havia um geito revelador da natural bondade
d'aquelle caracter; o mais nada exprimia.

Clemente aceitra com certo desvanecimento o cargo de regedor, e
exercia-o com a imparcial inteireza que deve ter o magistrado.

No obstante o genio brando, de que era dotado, ousava arcar, no
desempenho de seus deveres, com os privilegiados da terra, que ainda no
haviam perdido de todo os habitos de sobranceria e de desprezo s leis,
adquiridos por seus ascendentes nos tempos das regalias feudaes.

Clemente era supersticiosamente acatador do codigo administrativo, e
este fervor de funccionario dava-lhe coragem para a lucta, alis muito
contraria  sua indole pacifica e consiliadora.

Por vezes soffreu pelo seu muito amor de justia. Julgou elle, com
sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor,
quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus
deveres; com funda e amarga dr de corao viu pois, que tendo arrostado
com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurra
fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que
elle sob o thema de emancipao do povo, dos direitos do homem e da
igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as
quinas e os angulos agudos s suas theorias, tomava o partido dos
fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor.

Estas injustias sociaes principiavam j a inocular no animo leal e
sincero de Clemente o scepticismo a respeito dos homens e a preparal-o
talvez para vir a ser uma authoridade menos intractavel e de mais
condescendente consciencia; e por consequencia mais ao agrado dos
homens, no sei se diga praticos ou corruptos, que clamam contra a
absoluta inflexibilidade dos principios.

Achava-se o bom Clemente n'aquella desconsoladora phase de transio, em
que o funccionario novel principia a sentir que o deixa o ideal que
concebra da sua entidade civil, e que vae descendo pelo escorregadio
pendor das condescendencias mundanas para o nivel, onde redemoinham as
turbas, que ao principio fitra sobranceiro, de toda a altura da sua
dignidade moral.

Triste poca de desilluso e de desencantamento essa!

Clemente votava sincera affeio aos rapazes da Casa Mourisca, e sobre
tudo a Jorge, a quem cedra o seio de sua me.

Jorge nunca lhe dava motivo de colliso entre os seus deveres de regedor
e os impulsos do seu corao.

J no assim Mauricio, que no era de todo innocente de certas
infraces de lei e de desprezo pelo codigo administrativo, com que no
poucos somnos tinha afugentado ao honrado rapaz.

Clemente desculpava Mauricio, dizendo que eram as ms companhias que o
levavam quillo, mas promettia no ceder a consideraes, se o
encontrasse em flagrante.

Fosse porm acaso, fosse quasi insciente proposito de amizade em no
querer vr,  certo que nunca tal contingencia se deu. Apenas por vagas
denuncias lhe constava ter Mauricio uma ou outra vez quebrado o defezo
da caa, tomado parte em alguma rixa nocturna, quasi sempre em companhia
de seus primos, os fidalgos do Cruzeiro.

Estes sim, estes eram os mais rebelles d'aquelles arredores. Com elles
era que as mais das vezes tinham logar serios conflictos, em que os
cabos de Clemente nem sempre eram tractados com o respeito que para
elles a farda pedia.

Os fidalgos do Cruzeiro viviam ainda  moda antiga, como senhores
feudaes da terra, desconhecendo direitos de propriedade e calcando aos
ps dos seus cavallos todos os codigos, com que tentassem conter-lhes os
impetos nobiliarios.

Eram tres estes nobres senhores.

Um morgado e... morgado s direitas; outro doutor... por ter andado dez
annos em Coimbra para deixar incompleto um curso de cinco; o terceiro
abbade, escorraado pelo povo de uma freguezia que fra mandado
parochiar; ligavam-se todos tres, em temivel triumvirato, para invadirem
as propriedades, esgotarem as tavernas, insultarem as mulheres e
espancarem os homens d'aquelles sitios.

O povo ou por habito legado de submisso os deixava  vontade,
contentando-se com praguejal-os pela calada, desforo dos opprimidos em
todas as pocas da historia da humanidade, ou exasperado e descrendo da
efficacia da lei, recorria  defeza propria, e procurava manter em
respeito esses turbulentos vadios, que mais de uma vez sahiram mal
feridos da refrega.

Jorge afastra-se cada vez mais da companhia dos primos, cujos
asselvajados habitos lhe repugnavam; Mauricio frequentava-os ainda e era
de facto a companhia d'elles, que s vezes o impellia a passos
reprehensiveis.

Clemente vinha agitado quando entrou em casa aquella manh. Era evidente
que o regedor se tinha encontrado em uma das collises, a que a vida
publica o sujeitava.

A me, logo que lhe lanou os olhos ao rosto contrahido e levemente
purpureado, conheceu que tinha havido novidade e interpellou-o:

--Que tiveste tu l por fra, Clemente? Essa cara no  de quem vem
satisfeito com a sua vida.

--Deixe-me, minha me, deixe-me--rompeu o irritado rapaz.--Com'assim
emquanto no largar esta coisa da regedoria, no tenho um momento de
socego.

--Ento que foi?

--Que foi? Que havia de ser? O que foi hontem e que ha de ser manh, e
que ha de ser sempre, emquanto... Emquanto se no fechar os olhos e se
der para baixo, seja em quem fr. Parece impossivel que gente de
educao, gente que devia ter vergonha, e ser a primeira a mostrar o
exemplo, seja a que anda por ahi dando escandalo, sem fazer caso da
authoridade, nem da lei, nem de coisa alguma! E um padre ento! e um
doutor!...

--Pelo que vejo temos os do Cruzeiro fazendo das suas?

--Pois quem seno elles? Essa sucia de libertinos, de...

--Olha que est alli um primo d'elles, Clemente--admoestou a me,
sorrindo.

Clemente reparou pela primeira vez em Mauricio.

--Ah! desculpe, snr. Mauricio, que ainda agora o vejo. Mas isto  assim.
Aquelles senhores cuidam... Eu sei l o que elles cuidam? Cuidam talvez
que isto hoje  como d'antes, e que elles ho fazer a sua vontade...

--Mas a final de que se tracta?--inquiriu Mauricio.

--D'esta vez deram-lhe para metter em casa um refractario do servio
militar, contra quem ha um mandado de captura, e com o maior
descaramento o declaram por ahi. Temos outra como quando esconderam em
casa o assassino do reitor de Fieiras, e lhe deram escapula para o
Brazil. Mas eu no quero saber, a lei l est que diz bem claro o que
deve fazer-se, e o snr. administrador no  para graas.

--Fia-te n'elle! Olh'agora!--atalhou a me-- fresco! Vendo-te mettido
em talas, s se no puder deitar a mo  caravelha para te atenazar inda
mais. No te lembras do que elle fez quando foi da priso do morgado dos
Codeos, por causa das pancadas na feira? Ora bem me fio eu n'elle! Todo
collao com o Loureno do Cruzeiro, e companheiro de sucias d'elles
todos. Sabes que mais, meu filho? deixa-os l e no te consumas com
isso. Olh'agora!

Estas eram as maximas que o scepticismo inspirava j a Anna do Vdor.

Clemente encolheu os hombros.

--Ou hei de ser regedor, ou no hei de ser. Por isso  que eu digo que
vou pedir a demisso. Para injustias  que eu no sirvo. No quero que
se diga que quando um pobre homem faz alguma coisa j tudo so pressas
para o prender e castigar, e l porque uns senhores... Senhores? Melhor
tratassem de pagar o que devem a meio mundo, e no andassem por ahi a
fazer o que fazem.

--Vamos, Clemente, perdoa-lhes as rapaziadas, por que a final elles so
teus amigos--interveio Mauricio.

--Amigos elles?! Muito agradecido; mas nem acredito na tal amizade, nem
tambem a desejo; isto  para dizer o que  verdade.

Interromperam-n'o n'este ponto duas vigorosas vozes masculinas, que
bradavam da rua:

--Mauricio!  Mauricio! que diabo fazes tu ahi dentro, com o cavallo
prso  porta? Eh!

--Tu tambem pes mo na fornada?

--Parece-me mais certo que ponha mo nas forneiras.

A ti'Anna foi a primeira que tomou a palavra:

--Fallae no ruim... So os do Cruzeiro.

E chegando ao limiar da porta, exclamou com os seus modos desempenados:

--Que  l, que , meus fidalguinhos? Que temos ns que dizer das
forneiras? Em minha casa no ha monte para caadas de galgos, como
vocemecs. Entendem? Deixem socegado o Mauricio, que j no pouco mal
lhe teem feito com os seus conselhos e companhia.

Mauricio appareceu aos primos, rindo do sermo da ama.

Clemente permanecia carrancudo no fundo da cozinha.

Os primos do Cruzeiro, o doutor e o abbade, vestiam  maneira do campo,
de jaqueta de alamares, faxa vermelha  cinta, chapo de abas largas, de
espingarda ao hombro, ces em redor, e as victimas das suas faanhas
venatorias pendentes ao tiracolo, como tropheus de combate.

O padre respondeu  Anna do Vdor:

-- mulher, guarde l a sua lingua que no nos tira a sde que trazemos,
e d-nos antes uma pinga do verde, porque o nosso pichel vae vazio de
todo.

E com a maior sem-cerimonia entraram para o pateo, poisando as
espingardas e os apparelhos de caa.

O doutor sentou-se nos degraus da porta da cozinha, o padre na pilha de
lenha que havia no quinteiro.

A Anna do Vdor, com as mos na cinta, observava-os e proseguiu na
objurgatoria:

--Com que ento o snr. abbade, e o snr. doutor, e o snr. seu mano
entendem que as leis d'estes reinos no foram feitas para vocemecs?

--A que vem agora essa cantilena,  mulher? D-nos vinho--insistiu o
padre.

--A que vem?--tornou a ti'Anna--ahi est o meu Clemente que melhor o
pde dizer.

Os dois voltaram-se e viram Clmente que, pela sua vez, appareceu 
porta.

--Ah! ah! snr. regedor!

--Pelos modos o homem est zangado comnosco por lhe escondermos o filho
do soqueiro, queres tu vr?

Mauricio tomou o partido de Clemente.

--Bem sabem que  da responsabilidade d'elle.

--Ora deixa-te de contos--atalhou o doutor.

--O peior  que, vistos os autos, no temos vinho--fez notar o padre.

--Est enganado, snr. abbade--veio-lhe  mo Clemente--fosse um
criminoso que me pedisse de comer e de beber, quando passasse  minha
porta, eu, com ser regedor, no lh'o recusaria. O que a minha casa no
ha de ser, isso no,  escondrijo de ladres, de malvados e de
refractarios, nem sei que grande gloria venha d'ahi a quem tanto mal faz
 sociedade, no deixando que se cumpram as leis. O vinho ahi est.

Effectivamente appareceram dois rapazes, empunhando cada qual uma caneca
a trasbordar de purissimo vinho verde, que os dois caadores esvaziaram
de um flego.

--Ah!--disse o doutor, no fim da libao--No te arrenegues, Clemente,
que no s mau rapaz a final. Ests muito soberbo com a tua regedoria,
mas isso ha de passar-te. Ora agora fica sabendo que na quinta do
Cruzeiro, desde tempos immemoriaes, encontra asylo quem ahi se acolher.

--Mas o senhor sabe que a lei pune a quem der escondrijo a um
refractario. Parece-me que um doutor no pde deixar de saber estas
coisas.

--A lei diz muita coisa, que todos ns sabemos; mas deixa l a lei, que
est quieta.

--Mas se o snr. administrador ordenar uma busca na casa...

--Que veja se se mette n'isso--acudiu o abbade,
sorrindo ameaadoramente.

--Tem direito para o fazer--questionou Clemente.

--Pois que se contente com o direito.

Clemente ia-se irritando.

--Mas  preciso pr cbro a isto, meus senhores. No se pde soffrer que
em tempos de leis e de authoridades, haja uma casa onde nem lei, nem
authoridade entram.

--Pois tenta,  Clemente; quando te sentires de pachorra, manda-nos l o
exercito dos teus cabos e commanda o assalto. Ah! ah! ah! Havia de ter
graa!

--Pelos modos por que vejo irem as coisas, no direi que se no chegue
um dia a isso.

--Hei de gostar de vr.

--Pois eu no. Os meus desejos eram que todos vivessem em paz e socego.
E o que me custa  que partam os maus exemplos d'onde deviam vir os
bons.

--Ora sabes que mais, Clemente?--ponderou o padre.--Dou-te de conselho
que no puxes de mais pelo fiado. O mundo  assim em toda a parte,
rapaz; e  preciso fazer a vista grossa para certas coisas. As leis so
boas, mas no ha remedio seno soffrer de quando em quando que as no
cumpra, quem est no caso de ter vontade.

--Mas a vontade tira-se, se as authoridades forem o que devem ser.

--Viva, snr. regedor!

--Digo isto, snr. abbade, e...

--Um seu criado, snr. regedor!

--E um dia...

--s suas ordens, snr. regedor.

--Snr. regedor, sim! e honro-me d'isso muito. E emquanto fr regedor,
ho de me respeitar como tal. J disse. O seu tempo j l vae, snr.
abbade, e hoje a justia quando tem de entrar em uma casa, no repara no
brazo que est  porta... ou no deve reparar. Ninguem tem direito de
no respeitar a lei, e eu prometto-lhes, que j que assim o querem...

--Bem, bem--acudiu Mauricio, que receiou que a scena se tornasse mais
azeda--no prosigamos n'esta contenda. Venham vocs d'ahi, que temos que
conversar. Clemente, socega, que tudo se ha de arranjar. Adeus, Anna.

--Vamos l, vamos l--concordaram os dois primos, empunhando outra vez
as espingardas--deixemos o snr. regedor que est hoje muito zangado.

E ao atravessarem o quinteiro o doutor e o abbade abraaram, cada um por
sua vez, uma das moas de Anna do Vdor, que voltava da fonte com o
cantaro de agua.

--Ol, ol, fidalguinhos!--bradou da porta da cozinha a patroa--j disse
que isto aqui no  terras do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote
como a rapozas do gallinheiro?

E quando a criada chegou ao p d'ella, disse-lhes com aspereza:

--Tu no sabias chimpar-lhes o cantaro pela cabea abaixo, minha maluca?
Sempre vocs no sei para que querem a esperteza.

Os rapazes retiraram-se rindo.

Anna voltou a ouvir e a mitigar as queixas do filho.




XIII


Mauricio mandou para casa o cavallo, no proposito de seguir os primos a
p. Estes enviaram tambem para o Cruzeiro os ces, as espingardas e os
mais petrechos de caa.

Os dois manos riram por muito tempo da prosapia do regedor e no se
deram por satisfeitos, seno depois de terem conseguido fazer tambem rir
Mauricio que, ao principio, tentou admoestal-os.

--Deixemos o assumpto--disse a final o padre--que destino levas?

--Nenhum.

--N'esse caso vem por nossa casa, que no te has de arrepender.

--Que ha l?

--Vem e sabers.

--O Jos recebeu hontem do Douro uns cascos promettedores--explicou o
doutor.

--Adeus, adeus; ahi ests tu a desfazer a surpreza. Deixa-o vir.

--Vou--respondeu Mauricio--mas havemos de seguir o caminho que eu
disser.

--Mas por onde diabo queres tu ir?

--Temos empreitada?

--Tambem vos prometto que se no arrependero--insistiu Mauricio.

-- rapaz, se so olhos pretos e cabellos fartos, dize, e vamos l vr
isso--alvitrou o padre.

--Olhos, cabellos, dentes, gesto, riso, figura, tudo uma
perfeio--ampliou Mauricio.

--Onde desenterraste essa maravilha?

--Chegou aqui ha poucos dias.

--No ponhas mais na carta.

--J sei--interveio o doutor--fallaram-me n'ella.  a filha do Thom da
Herdade.

--Exactamente.

--E ento ella sempre  essas coisas?

--S te digo que eu ando cada vez mais doido por a rapariga. Isto c
dentro est em imminente perigo de exploso. Que admira, se nunca at
hoje vi uma belleza assim?

--Ests bem bom.  rapaz, o mais que posso fazer  casar-vos. _Conjungo
vs_--disse o padre, cantarolando.

--Em uma palavra, para vocs imaginarem o estado d'isto, basta que vos
diga, que me custou a conter a indignao quando ouvi ha pouco a Anna do
Vdor dizer-me que a Bertha era um bom casamento para o filho.

--Ai, para o snr. regedor!

-- verdade.

--Ento s. exc. tenciona tomar estado?

--E vamos l a saber--informou-se o doutor--a rapariga  arisca ou
accessivel?

--Por ora parece-me desconfiada apenas, mas...

--Como disseste que se chama? Bertha?

--Sim.

O padre cantarolou:

  Bertha, Bertha, meus amores,
  Bertha do meu corao.
  s a rainha das flores,
  Trai lari lari laro.

E, cantando, trepava o muro de um pomar para colher laranjas que de l o
estavam seduzindo.

--Deixa l as laranjas; anda d'ahi--dizia o mano doutor, que seguia 
frente do rancho.

--A casa do cidado  inviolavel--acrescentou Mauricio.

--Sim, senhor--tornou o padre, j a cavallo no muro--mas se me faz
favor, nem isto  casa, nem um homem que mra na aldeia  cidado.

E sahiu outra vez do muro com a sua colheita, e pz-se a caminho,
comendo as laranjas que roubra.

--Ento d c uma--disse o doutor, voltando-se para traz.

--Ah! ah! j cubias?

E o padre arremessou duas laranjas, que o mano destramente aparou nas
mos.

A companhia foi seguindo pelos accidentados caminhos da aldeia,
cantando, saltando, pondo em confuso as lavadeiras moas que ensaboavam
nas prsas, abraando  fora na estrada as raparigas que, vergadas sob
mlhos de herva ou de milho cortado, mal lhes podiam fugir; visitando
todas as tavernas, fazendo correrias a gallinhas, porcos ou vaccas se se
lhes deparavam na pastagem, calcando campos e escalando muros com o
desassombro de senhores.

Mauricio imitava-os meio constrangido, mas imitava-os. Se s vezes os
seus melhores instinctos ou a influencia do tracto com Jorge o faziam
conter, a reflexo maliciosa de qualquer dos primos, que ironicamente
lhe celebrava a candura, impellia-o a vencer a primeira hesitao, e a
final dava o passo que lhe repugnra.

Mauricio possuia um d'estes caracteres faceis de dominar; moveis, que
cedem ao bem e ao mal e que tanto habilitam o homem a realisar heroicos
feitos, como a perder-se. Tudo est na influencia que os rege.

Se teem faculdades para apreciar o gozo, que de uma aco grande e
generosa resulta; se so capazes de a conceber e do estimulos para a
executar; tambem as seduces do vicio os enlevam, tambem a vertigem do
abysmo os attrahe, e aproximam-se fascinados do precipicio, sem que a
razo acorde para os suspender no progresso fatal.

Caracteres assim so instrumento poderoso do bem ou do mal, conforme a
mo que d'elles usa, e a inteno que os dirige. So os que sentem a
influencia das boas ou ms companhias.

Dentro em pouco chegavam os tres rapazes  Herdade.

--Ento a rapariga?--perguntou o padre, examinando as janellas vazias.

--Nem sempre apparece  janella--informou Mauricio.

--E de que meio te serves para chamal-a? tosses, cantas,
assobias?--perguntou o doutor.--Qual  o teu systema?

--Eu no tenho systema.

--Ento para que nos trouxe por aqui este innocente, no me diro?

--Tu no tens entrada em casa?

--Meu pae no gosta que ns visitemos o Thom.

--Ah! l se o pap ralha...

--Este Mauricio tem coisas!

--Isto  mesmo uma menina innocente!

--Aqui no ha malicia alguma!

Estas observaes dos manos estavam causando a Mauricio vergonha da sua
propria candura.

--E ento d'aqui?--interpellou o doutor.

--Ento...--titubeou Mauricio.

--Segue-se dar meia volta  direita, e retirarmo-nos com caras de asnos,
no  assim?

--Faam vocs o que quizerem--exclamou o padre--eu por mim, j que aqui
estou, no me retiro sem vr a pequena.

--Mas como?--interrogou Mauricio.

--Eu te digo j. A coisa  simples.

E dizendo, dirigiu-se a uma pequena porta que havia no muro da quinta e,
sem a menor hesitao, impelliu-a com fora e ella cedeu sem grande
resistencia. O padre entrou primeiro, seguiu-o o mano doutor, e
Mauricio, ainda que mais a mdo, imitou-os.

Os do Cruzeiro caminhavam com a sem-ceremonia, que caracterisava todos
os seus actos n'aquella terra, assobiando, cortando flores e fructas, e
encurtando caminho por cima dos campos semeados.

De repente o padre, que ia adiante, parou, e voltando-se, disse em tom
mais baixo:

--E ainda diro que no sou bom caador?

E, afastando-se para o lado, deixou-os vr o objecto que elle designava,
apontando para a extremidade da rua em que iam entrar.

Era Bertha.

A filha de Thom da Povoa acabra de ajudar a pr  cabea de uma
rapariguita alde o ultimo feixe de cannas de milho que os segadores
haviam deixado no campo e ficra-a seguindo com a vista, to attenta que
nem deu pelos recem-chegados.

--Vejam que figura de fada--murmurou Mauricio para os primos.-- a Ruth
da escriptura.

--Sim, a figura temos visto, agora quero vr-lhe a cara--disse o padre;
e acompanhado pelo mano bacharel, dirigiu-se para Bertha.

Mauricio, surprendido por este passo, que no esperra, seguiu-os para
conter-lhes a brutal galanteria.

Bertha, ouvindo passos, voltou-se, e ao reconhecer os tres rapazes, no
reprimiu um movimento de assustada surpreza, o qual porm se desvaneceu,
reparando que Mauricio era um d'elles.

Todos se descobriram, cortejando Bertha.

O padre, fitando impertinentemente os olhos n'ella, principiou:

--Minha senhora, no repare n'esta invaso de territorio. Mas quem teve
a culpa foi aqui o primo Mauricio. Fallou-nos com tal enthusiasmo da
gentil filha do nosso velho amigo Thom, que ns tomamos a resoluo de
vir admiral-a e cumprimental-a. E aqui estamos.

Bertha crou intensamente perante a grosseira sem-ceremonia do padre, e
dirigiu a Mauricio um olhar, em que se fazia uma interrogao e se
formulava uma censura.

Mauricio respondeu a este olhar, dizendo em tom de irritado:

--Desculpe, minha senhora, as maneiras pouco delicadas de meu primo. 
um javali silvestre que no sabe amaciar as sdas.

O mano bacharel soltou uma gargalhada, quasi to grosseira como a
apresentao do padre, e apimentou-a com a expresso de igual
delicadeza:

--Ora toma! apara l esse peo  unha! Ah! ah! ah!

O padre olhou espinhado para Mauricio, e redarguiu:

--Ora no querem vr este senhor de salo, que se offende com as minhas
sem-ceremonias! Javali! Tem graa! Quem o ouvir, ha de suppl-o um
cosinho de regao. Meu lindo priminho, esta menina no  nenhuma tola e
sabe o que  o mundo; e escusas, para lhe agradar, de te apresentares
como um gal choramigas. Ora  boa!

--Adeus, adeus, padre Loureno, isso previa eu!

--Previas o qu? Ento eu offendi alguem?

--De offender a ser menos delicado vae alguma distancia, mas...

--Dize tu que o que eu no sou  impostor e hypocrita, apesar de me
terem feito padre. Eu disse o que era verdade. Ns, se estamos aqui, 
por tua causa. No  assim, Chico?

O mano Chico affirmou.

Bertha assistia a toda esta scena com visivel desgosto, mas sem
interrompl-a com uma palavra.

--Bertha, affirmo-lhe...--ia a dizer Mauricio para justificar-se da
tacita arguio, que lia no olhar d'ella.

--Com licena--cortou-lhe o padre a palavra--se sou grosseiro e javali,
hei de sl-o at o fim. A coisa passou-se d'esta maneira. O Chico que o
diga. Aqui o primo Mauricio parece que est perdido por a menina, e por
tal modo nos fallou de si, tanto nos matou o bicho do ouvido para que
lhe passassemos por a porta, que ns viemos. E como no estava 
janella, nem elle tinha ainda combinado signal para a fazer apparecer,
eu, para no perder o tempo e as passadas, abri brecha no reducto e
entramos. Ora aqui est. Se isto  offensa...

Bertha respondeu, j serenamente:

--Creio que no , porque no pde de certo haver inteno de
offender-me, em quem entra em minha casa na companhia do snr. Mauricio.
Elle bem se lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irm
Beatriz, de que sou a afilhada de seu pae, e n'aquella casa, a que elle
pertence, julgo que ainda ha, como d'antes, muito respeito por este
laos de familia e de amizade...

--Ha, Bertha, ha e to sancto como em outros tempos. E ha mais, ha a
firme resoluo de os fazer respeitar aos outros, como l se respeitam.

--Abranda-te, leo! No estou disposto a luctar comtigo, apesar d'esses
olhares ferozes. Esta menina far-me-ha mais justia, reconhecendo que eu
no a offendi...

--No fallemos mais n'isso--acudiu Bertha friamente.

--Mas  um caso de consciencia--insistiu o abbade.

--Ento ninguem to habilitado para o decidir como um
sacerdote--tornou-lhe Bertha, com desdem.

Gargalhada do mano bacharel.

--Chucha! Ora mette-te com ella, anda.

--Em coisas do corao--redarguiu o padre galanteadoramente--so
melhores juizes do que os sacerdotes, as _madamas_.

Bertha contrahiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior
severidade:

--Quando ellas teem um pae, podem elles tambem ser juizes. E o meu ahi
vem.

Effectivamente chegava Thom da Povoa.

O honrado fazendeiro, que tinha a sua opinio formada a respeito dos
fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a
filha.

Nem a presena de Mauricio bastou para tranquillisal-o.

Thom conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca e sabia at que
ponto se podia contar com o que em Mauricio havia de bom, e receiar do
que n'elle havia de mau.

Depois a physionomia de Bertha denunciava que a conversao dos fidalgos
no tinha sido demasiadamente apropositada.

Nem convinha  boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a
assiduidade de qualquer dos tres manos do Cruzeiro.

Tudo isto actuava no espirito de Thom durante os instantes que
precederam a sua introduco na scena.

--Ol! v. exc.as por aqui! Grande honra! grande honra!

-- verdade, Thom--comeou o padre a dizer--entramos, como rapazes de
escla, sem pedir licena ao dono da casa; mas confiamos que no se nos
leve a mal...

--Ora essa! Levar a mal porqu? V. exc.as quizeram talvez vr por seus
proprios olhos como esta abenoada terra, que d'antes se definhava nas
mos de um fidalgo, medra agora nas mos de um lavrador?

--Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar a menina
Bertha, que  a maravilha d'estes sitios.

--Ah!--disse Thom, com um meio sorriso, e voltando-se para a filha, que
instinctivamente se aproximou d'elle:

-- verdade. Agora me lembra! Olha que tua me recebeu j aquellas
meiadas. Se queres ir vl-as.

--Vou, vou j--respondeu Bertha.

E cortejando levemente os tres rapazes, afastou-se d'alli.

--At outra vez, Bertha--disse Mauricio, com voz affectuosa.

--Snr. Mauricio--correspondeu-lhe Bertha, e desappareceu por uma rua da
quinta.

E pensava comsigo mesma:

--Agora... agora... j no sinto mdo d'elle... nem de mim.

--Na verdade, Thom, a sua casa est um perfeito paraizo e nem os anjos
lhe faltam--disse o mano bacharel, depois que Bertha se retirou.

--O que eu posso affirmar--insinuou o abbade-- que no faltaro tambem
em volta d'estes muros enxames de namorados. Que te parece, Mauricio?

--Bertha  digna de todos os respeitos--murmurou Mauricio, confuso.

--Bem, bem, quem diz menos d'isso? mas...

Thom interrompeu o padre.

--Eu lhes digo, meus senhores, Bertha  filha de uma familia, em que
todos trabalham, e pouco tempo pde ter para apparecer a namorados.
Quando algum homem de bem se me affeioar  filha, no serei eu que lh'a
recuse, se o corao d'ella estiver para esse lado; pois para freira a
no quero. Emquanto aos enfeitados, que andam por ahi a zunir aos
ouvidos das raparigas e a fazel-as doidas, Bertha sabe bem o que elles
valem... mas, se por acaso a importunarem muito... eu sei como se d
cabo de um vespeiro.

E fallando Thom da Povoa no ficra immovel, mas pozera-se naturalmente
em caminho da porta, e os tres seguiam-n'o, sem fazer observao alguma.

S quando o viram parar no porto  que perceberam que o lavrador como
que tacitamente os convidava para sahirem.

O padre no pde deixar sem uma reflexo este procedimento.

--Agradecemos, Thom, o incommodo que teve a ensinar-nos o caminho da
porta para sahirmos.

--Os lavradores da nossa terra teem estes excessos de
hospitalidade--secundou o doutor.

Thom crou e respondeu com certa confuso:

--A minha cabea!... Desculpem. Isto em mim foi distraco. Quando a
gente no est bem em si, faz, sem reparar, coisas que muitas vezes lhe
podem estar na vontade, mas que por delicadeza no faria, se pensasse
melhor. Queiram desculpar.

--Est desculpado. Ns tambem no tinhamos mais que fazer aqui. O fim da
nossa visita estava preenchido.

--Sim, tambem me quiz parecer isso.

--Adeus, Thom--bradou o doutor--Deixamol-o entregue  sua vida
patriarchal.

--E est um verdadeiro patriarcha, este bonacheiro do Thom--disse o
padre, batendo familiarmente no hombro do lavrador.

--Bonacheiro?--repetiu Thom, encolhendo os hombros e com um meio
sorriso--Isso  conforme. s vezes... Ahi est que, sendo eu amigo do
mestre-escla, como sou e ha tantos annos, estive ha mezes para o
esmagar. E sabem porqu? Porque passava eu por a escla e ouvi chorar
uma criana, e pareceu-me que era o meu pequeno; no me socegou o
corao sem que me affirmasse se era elle ou no. Entrei e vi o
desalmado do Z Domingues que m'o desancava sem d nem piedade.
Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por alli dentro, e por um triz
que no deixava o homem a pernear.

Os rapazes estavam j fra da porta quando Thom acabou de contar o
caso, e acrescentou:

--No que se tractava de meu filho, e isto de amor de pae e de me... 
como nos animaes. Sabem aquella vacca malhada que eu tenho? Um borrego,
com que uma criana brinca; pois haviam de vl-a uma vez em que lhe
tiraram a cria! Estava furiosa e arremettia como um toiro bravo. 
preciso cuidado com isto de paes e de mes!--concluiu o fazendeiro, em
tom sentencioso e emphatico.

E dando as boas tardes aos tres rapazes, fechou a porta, murmurando:

--O padre ainda no aprendeu com a corrida que levou da abbadia. E este
Mauricio a acompanhar com elles! Valha-o Deus!

--Ento que vos parece o snr. Thom?--perguntou o bacharel c fra.

--No est mau com a historia da vacca--disse o abbade, rindo.

Mauricio conservou-se silencioso.

--Tu a modo que vaes assim embaado,  Mauricio?--observou o bacharel.

--Estou arrependido de vos ter trazido commigo aqui--confessou Mauricio.

--Ora no sejas parvo! querias talvez que fizessemos muito gasto de
excellencias com a filha do Thom da Povoa?

-- uma rapariga de educao, e o pae...--ia a dizer Mauricio.

--E o pae--atalhou o padre--anda-me chiando muito alto, mas bom ser que
tenha mais cuidadinho comsigo.

--As ultimas palavras d'elle cheiraram-me a uma ameaa--observou o
doutor.

--Eu nem dei por isso--respondeu o mano.

E os tres retiraram-se de mau humor.




XIV


Jorge, que ultimamente era menos assiduo em Casa de Thom, sem que este
pudesse atinar com a razo do facto, recebeu, na tarde d'aquelle mesmo
dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo-lhe que o procurasse na Herdade
s horas do costume. Jorge no faltou.

Thom da Povoa recebeu-o com modos menos desenleiados do que os que lhe
eram habituaes, e com ares de mysteriosa preoccupao conduziu-o a um
gabinete mais retirado da casa, serrando a porta depois que entraram,
com excepcional cuidado.

Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.

Thom, com um gesto denunciador do esforo que n'aquelle movimento fazia
sobre si proprio, entrou no assumpto com visivel repugnancia:

--Snr. Jorge--principiou elle--sei que  meu amigo, e que tem o juizo e
a prudencia de um homem feito, apesar de novo como ; por isso vou
fallar-lhe com a franqueza de um homem de bem e de um amigo.

--Nem o Thom sabe conversar de outra maneira. Diga.

--Pois bem. A coisa  esta... Eu antes queria no fallar n'isto, mas...
emfim... se o negocio ha de ir a mais... e succeder por ahi alguma
desgraa... emfim... a tempo  que  evitar o mal; quanto ao depois...

--Mas de que se tracta?

--Snr. Jorge.  um pae que lhe falla. Tenho uma filha e emfim preciso de
vigiar por ella, emquanto no tem marido que a zele e proteja... no 
verdade?

Jorge no pde ouvir sem se perturbar estas palavras e, interiormente
inquieto, sem bem saber porque, murmurou:

--De certo, mas...

--Ora bem. O snr. Jorge  rapaz sisudo e pacato, mas emfim sempre ha de
saber o que so dezoito, dezenove ou vinte annos, hein? Pode-se ter o
juizo muito claro, vr as coisas como ellas so, mas... isto de sangue
novo... parece que ferve e depois  como uma doena, e como uma febre, a
cabea desarranja-se e no ha conselhos que a concertem. Pois no 
assim?

Jorge crou ouvindo estas consideraes de Thom, que lhe pareciam
dirigidas, olhou para elle com desconfiana e respondeu confusamente:

--Talvez seja; porm...

--Ora ento segue-se que o melhor  livrar-se a gente de trabalhos e
fugir das occasies, para que depois se no diga: Ai, porque se eu
soubesse; ai, porque o que eu devia ter feito era... Entende-me?

--Entendo, Thom, mas, a final a que quer chegar?--interrogou Jorge,
cada vez mais sobresaltado.

--Ora eu lhe digo. A minha Bertha  uma rapariga de juizo.

A confuso de Jorge redobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em que
Thom no reparou.

----proseguiu o fazendeiro--tenho a certeza d'isso, mas  rapariga, e
emfim teve uma educao bem bonitinha; e Deus me perdoe se fiz mal em
lh'a dar; ora eu, com quanto seja um rustico, sei o valor que teem
certas coisas, e que quem se costumar a ellas com ellas sonha. Isso 
que  verdade! E nem eu me admirava de que a pequena tivesse sua
inclinao para rapazes da cidade. Era natural, j digo. Mas aqui no
veem elles, os da terra so assim meios... meios... emfim rapazes de
lavoura, como eu fui; muito bons para raparigas como era a minha Luiza.
Ora agora o que por ahi ha, so, e perdoe-me dizer-lhe isto, uns
fidalguinhos que no teem que fazer, e que passam o seu tempo a
inquietar as raparigas da terra. D'esses  que eu tenho mdo! E se quer
que lhe falle a verdade, c em relao  minha pequena, ha um sobre
todos de que eu muito me receio.

--Quem ?--perguntou Jorge, ainda no senhor de si.

Thom hesitou por algum tempo, mas a final, como tomando uma resoluo,
respondeu:

-- seu irmo Mauricio.

--Mauricio!--repetiu Jorge, contrahindo a fronte.--Pois acaso tem elle
dado j motivos para suspeitar?...

--Poucos; isto em mim  mais mdo do que outra coisa. Hoje porm j me
no agradou o que elle fez.

E Thom narrou a Jorge a scena da manh, acrescentando:

--Ora dos do Cruzeiro no tenho eu mdo. Bertha conhece-os e  o que
basta para ficar livre de perigo; mas com o snr. Mauricio j no 
assim. Apesar das suas doidices, no se pde deixar de se gostar do
rapaz, porque o fundo  bom e generoso, e depois... conhecem-se ha
muito... e elle  estouvado e um rapaz bonito... e ella... ella tem
dezoito annos... Emfim, snr. Jorge, isto anda-me c a pezar, e por isso
pedia-lhe que visse se obrigava seu irmo a deixar-me em paz a rapariga,
porque nada de bom pde resultar d'aqui.

Jorge sentia apertar-se-lhe o corao ao ouvir aquella confidencia. Era
pois certo que Bertha amava j Mauricio!

--Thom--respondeu elle, sem trahir a sua agitao--socegue. Eu fallarei
a Mauricio. No creio que elle fizesse com inteno o que me diz; mas em
todo o caso concordo em que  preciso evitar a tempo peores
occorrencias. Fao justia a Bertha; mas quero que meu irmo seja o
primeiro a respeital-a. Eu lhe fallarei, creia.

--Muito bem--respondeu Thom, apertando-lhe a mo.--Eu estava certo de
que me daria essa mesma resposta.

Jorge acrescentou:

--Demais, Mauricio pouco se demorar aqui. Espero que em breve parta
para Lisboa.

--Bom ser. Talento tem elle para o poder aproveitar na vida, e aqui o
que ha de elle fazer? Depois a companhia d'aquelles primos!...

Jorge separou-se de Thom, sem que se occupasse n'aquella noite do
assumpto habitual das suas conferencias.

Ao sahir, mais cdo do que o costume, atravessou uma sala aonde Bertha
costurava  luz de um candieiro.

Ao vl-o passar, Bertha estendeu-lhe familiarmente a mo, dizendo com um
sorriso affectuoso:

--Retira-se muito cdo hoje; durou pouco a lio.

--s vezes  quando mais se aprende--respondeu-lhe Jorge, com mal
disfarada ironia.

--E at quando?--proseguiu Bertha, parecendo no attentar no sentido da
resposta.--Ha j bastante tempo que no o viamos.

--At... at cdo.

--O snr. Mauricio vejo-o mais vezes... ainda hontem ahi passou.

--Sim--disse Jorge com um malicioso sorriso--Mauricio tem essa
habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da terra.

Bertha olhou admirada para Jorge; feriam-n'a aquellas respostas scas e
sarcasticas, que no esperava ouvir-lhe.

--Ento d-se ao trabalho de se mostrar a todas?--perguntou ella sem
desviar os olhos.

--Sim, provavelmente--tornou Jorge no mesmo tom--e parece que todas se
do ao trabalho de lhe apparecer.

--Ah!

E Bertha calou-se; fixou os olhos na costura e pareceu at esquecer-se
da presena de Jorge na sala.

Este finalmente despediu-se, estendendo a mo a Bertha.

--Boa noite, Bertha.

Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao
gesto de despedida, Bertha respondeu:

--Boa noite, snr. Jorge.

--Offendeu-se--pensava Jorge ao retirar-se--ento ha fundamentos para as
apprehenses de Thom. Juizo de rapariga a final! Cabea doida, que no
espera que o corao se declare e alimenta paixes com reminiscencias de
romances. Pobre Thom!  o que elle a final colhe dos seus sacrificios
para a educar. Eu logo o suppuz...

As reflexes de Jorge succederam-se e encadearam-se n'este teor. Crescia
n'elle mais do que nunca a sua irritao contra Bertha.

--Mas que tenho eu com Bertha?--reconsiderava elle--para me importar com
isto? A final so pequenas fraquezas de rapariga e... Mas a amizade que
consagro ao pae obriga-me a intervir. Mauricio  um louco, e ella j
vejo que no tem mais prudencia do que outra qualquer rapariga da sua
idade.

E esta ideia de Bertha ser sensivel aos galanteios de Mauricio era o que
mais que tudo o incommodava.

E Bertha? Que ficou pensando, com a cabea inclinada sobre a costura,
mas com a mo parada e o olhar pensativamente fixo?

--Porque  esta severidade de Jorge para commigo?--pensava ella--No
posso j duvidar. Ha n'elle no sei que preveno contra mim. Ou no me
falla, ou falla-me d'este modo. Um motivo leve no pde ser, porque
Jorge , ao que dizem, um rapaz de to bom senso, que de certo por uma
insignificancia no me tractaria assim. Mas que faria eu? Nada; se em
mim ha loucuras, ficam-me no pensamento e ahi quem as vae devassar?... E
que fossem?... E que as achassem?... Eu podia dizer-lhes: Sim, esto
ahi, mas eu bem sei que esto, e ahi mesmo as suffoco e veno. No sou
responsavel perante ninguem do que se passa em mim s. Entre mim e Deus
 que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trahir, que
me peam contas ento. A que vem estas severidades? Que fiz eu a este
generoso rapaz? Imaginar elle que o galanteio de Mauricio me ter
fascinado?  um caracter to serio, que talvez por isso me condemne.
Fascinar-me! Mauricio!!... Ao principio talvez; agora porm vejo que se
vo desvanecendo essas phantasias de criana, nascidas e robustecidas
nas minhas horas de solido no collegio, e que senti alvoroarem-se ao
chegar aqui, e ao vl-o. Mauricio no  o caracter de que eu me posso
receiar. E ainda bem. Mas Jorge por que me querer mal? Lembra-me que
meu pae me disse que, se elle no fosse meu amigo, no me dizia que o
era... E elle ainda m'o no disse.

Estas reflexes foram interrompidas pela entrada de Thom, que,
satisfeito pela promessa de Jorge, j no sentia nuvens a escurecer-lhe
o pensamento.

Jorge chegou a casa antes do irmo.

Era noite de luar, tepida noite de outomno, languida e serena, como a
podem desejar os mais exaltados devaneiadores. Havia uma limpidez no
co, uma quietao nos bosques to completa, que parecia que a natureza
toda parra em suspenso a contemplar o solemne progresso da lua pelo
firmamento, que inundava de luz.

Era uma d'estas noites em que s a custo se troca o ar livre dos campos
pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janellas
aos raios da lua que invadem a sala, para os substituir pela luz
vacillante da lampada, que alumia as vigilias do estudo.

O proprio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu s seduces
d'aquella noite e deixou-se ficar sob as arvores da quinta. O peito
precisava de ar livre que o desopprimisse.

Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da lua,
coando-a atravez da folhagem, de que o inverno os no despira ainda. Uma
luz mysteriosamente discreta penetrava no bosque; raros sons
interrompiam aquelle silencio, alm do rumor longinquo e monotono das
fontes e cascatas.

O pensamento de Jorge perdra a placidez habitual; como que despertavam
n'elle os instinctos de juventude, povoando-lhe de vises o campo da
phantasia, de ordinario occupado por mais severas imagens.

Os seus calculos, os seus projectos de futuro, os problemas de
administrao, que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o logar a
ideias menos positivas, a meditaes vagas, a quasi devaneios, em que
raras vezes a sua razo se deixava arrebatar. Primeiro dominou-o a magia
do passado; evocou do silencio dos tumulos aquelles dos seus
antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era
seu, os que mais alto elevaram o ennegrecido brazo que honrava ainda a
frontaria d'aquelle solar em ruinas. Depois, saudades mais pungentes,
d'essas que ainda trazem vestigios de lagrimas, como restos da sua
natureza de dr, de que s o tempo as vae privando, occuparam-lhe o
corao e o pensamento. A sombra da pallida e estremecida irm, que a
morte arrebatra quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de
Beatriz, que era a mais querida e mais dolorosa recordao d'aquelles
rapazes e d'aquelle velho, parecia surgir ao mysterioso apello da noite,
e vaguear, como uma appario phantastica, por entre essas arvores que
menina a viram e menina a protegeram do sol abrazador dos campos.

Jorge ainda no esgotra as lagrimas consagradas  memoria da irm.
Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento a ella.

Pouco e pouco, por uma insensivel transio, a imagem de Bertha
substituiu a de Beatriz.

Differentes eram as impresses que esta nova imagem lhe produzia,
differentes e indecifraveis quasi.

J vimos que antagonismo de sentimentos havia no corao de Jorge em
relao  filha de Thom da Povoa.

Como luctavam a involuntaria attraco que por ella sentia, com a
reflectida resistencia que lhe oppunha. Lidava por levantar obstaculos
ao progresso do violento affecto que lhe ia tomando o corao, e a seu
pezar via que esses obstaculos eram inuteis. Inventava defeitos que lhe
desprestigiassem o caracter de Bertha, accusava-a de vicios de educao
que ainda lhe no reconhecra, fingia-se convencido da leviandade
d'aquella pobre rapariga, e com toda a austeridade do seu caracter
sisudo lavrava contra ella a sentena condemnatoria; mas no fim de tudo
isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe debalde a
consciencia contra esta fraqueza, em vo revelava com maneiras rudes e
quasi hostis para com Bertha este desgosto de si mesmo que estava
experimentando... o effeito era cada vez mais pronunciado.

O que tinha acabado de ouvir a Thom augmentra-lhe aquella inquieta
lucta de espirito.

A ideia de inclinao reciproca de Bertha e de Mauricio irritava-o e
affligia-o.

No eram as consequencias do facto que o assustavam. Jorge no
acreditava na sinceridade das affeies de Mauricio; sabia quanto ellas
eram fugazes e estava convencido de que a proxima partida do irmo
bastaria para desvanecer essa paixo nascente.

E comtudo no lhe sahia do pensamento aquillo. Torturava-o aquella
ideia, no lhe permittia repouso.

A consciencia de Jorge aventurava, muito a mdo, a vaga explicao
d'este enigma psychologico que se estava passando n'elle, mas Jorge
recusava dar atteno quella voz.

Ha casos assim, em que nem comnosco somos sinceros, em que se faz mais
evidente do que nunca esta especie de dualidade unificada em todo o
individuo, porque guardamos discretamente de ns um segredo nosso, e
luctamos comnosco em opposio declarada.

A dominios to intimos da consciencia seria porm irreverente levar a
luz da analyse; aguardemos que a ulterior evoluo de affectos melhor
nos revele o segredo que ia no corao de Jorge.

Era j noite avanada quando chegou aos ouvidos do pensativo rapaz o
ruido de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio pela
extrema do bosque, cantando distrahidamente:

  Alm, n'aquella avenida
  De platanos e salgueiros,
  Foi que em teus beijos primeiros
  Bebi a primeira vida.

A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e no o deixou passar
incognito.

Jorge, reconhecendo-o, chamou-o em alta voz.

Mauricio parou surprendido.

--Quem me chama?

--Sou eu.

--Tu?! Jorge!

--Sim, pois quem havia de ser?

Mauricio caminhou ao encontro do irmo.

--Transportas-me de surpreza em surpreza! uns dias a seguir da janella
do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar  meia noite por
entre as sombras dos bosques! Em que havia de dar a arithmetica!

--Cheguei ha pouco. Abafava l dentro. Vim para aqui esperar-te, porque
desejava conversar comtigo.

--O tom  grave e serio;  de crer que o assumpto corresponda.

--No te enganas.  bastante serio o que tenho para dizer-te.

--Penetremos ento na sombra druidica d'este bosque, para augmentar a
solemnidade da scena.

--Peo-te que deixes para outra occasio as tuas observaes joviaes;
repito-te que  serio o que tenho a dizer-te.

--Pois aqui me tens serio como o assumpto. Falla.

Jorge guardou ainda por instantes silencio. Sob os passos dos dois
irmos ouvia-se estalar as folhas scas que alastravam o cho.

--Mauricio--principiou Jorge a final--Thom procurou-me hoje para
fazer-me um pedido.

--Hum!--atalhou Mauricio com meio riso--no me enganei, previ logo que
se tractava d'isso.

--De qu?

--Fizeram-te queixa de mim, no  verdade? Pintaram-me como um lobo
voraz rondando e assaltando o curral da tenra ovelhinha, creada com
tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente imaginao de rapaz
serio, viste logo um drama pavoroso em tudo isso e distribuiste-me
n'elle o papel de tyranno. Confessa que tudo isto  verdade.

--E estimaria bem que no fosse.

-- o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu, mas, vivendo
mais da vida commum da sociedade, no estou to sujeito a vr as coisas
sob o colorido particular do prisma, atravez do qual as vem os que,
como tu, trazem quasi sempre o pensamento tomado por altas e abstractas
especulaes. Com a maior franqueza te confesso que Bertha me agrada,
que todos os dias procuro vl-a, que, se lhe fallo, no perco tempo a
dizer-lhe que o anno vae bom para as colheitas ou que hontem esteve mais
calor do que hoje; no tenho razes para suppr que as minhas visitas a
importunem. Esta  que  a verdade; mas d'aqui a realisar o typo de
Lovelace ou D. Juan Tenorio, incumbindo a ella a parte de Clarisse ou de
Elvira, vae muita distancia. Estas coisas, se tu no andasses to
alheado dos negocios terrenos, devias saber que so da pratica commum,
em qualquer parte, onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que
se preza de saber apreciar o bello. Ora agora v l se ha motivo para o
terror tragico que te infundiram.

--No  terror tragico,  desgosto. Eu bem sei que so usuaes esses
galanteios que dizes, essas falsas ostentaes de amor, com as quaes se
profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no
corao do homem. s vezes succede,  verdade, que uma das partes
interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como
dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena
finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos
espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As
illuses da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as
primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanaes, e no
sei que haja espirito to leviano que ouse tentar a representao
d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a
quem se devem affeies leaes e respeitos.

--Mas...

--Em uma palavra, Bertha  a filha de um homem honrado; Bertha era a
amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco 
mesa, a que presidia nossa me, que a abenoava, quando nos abenoava a
ns. No te lembras d'isso?

--Lembro, e por isso mesmo a amo. No te disse que havia entre ns
recordaes de infancia?

--Amas!--exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco
sujeito.--Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do
Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor
que ostentas sem recato, chegando a sujeitar  apreciao cynica d'esses
doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que no procuras
occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devras
apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas
diante de quem quer que seja!

--Mas... como imaginas tu ento que se ama, quando se ama devras? O
systema da publicidade applicado s paixes no ser antes uma garantia
da boa natureza d'ellas?

Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto
a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltao crescente:

--Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixes unicas,
dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas s vezes tenho
pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o
sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de
todos os olhos essa paixo; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem
por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos
fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanao.
No escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha
alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este
amor seria o poder dizer, quando estivesse s, ninguem no mundo sabe,
ninguem suspeita este mysterio do meu corao, seno ella. Para ella s,
para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestaes
dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e
permittir que outros as percebessem era profanar o culto. S com ella,
sim, todas as reservas acabavam; ento no gesto, na palavra, no olhar
revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrio. Aspiraria
assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o
mundo, ao vr-me frio e concentrado, pensasse: Ahi est um homem de
glo, este no sabe amar, e que ella s pudesse dizer: Oh! eu  que
sei de que extremos  capaz aquelle amor que ninguem suspeita.

Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma
excitao nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmo.

Taes expanses eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e
completa que o irmo presencira.

-- singular!--notou Mauricio--N'esta vida tropea-se a cada passo em
uma maravilha. Quem te ouvisse agora no acreditaria que s aquelle
rapaz serio, para quem as raparigas nem se atrevem a lanar um olhar
furtivo, porque nunca uma phrase de galanteio ou um sorriso as animou a
tanto. Estou admirado! e quasi me conveno de que a final sou apenas um
simples curioso na arte de amar, cuja metaphysica transcendente tu
professas como verdadeiro mestre. A minha sensibilidade  menos
exigente, mas por essa mesma razo admiro a suprema delicadeza da tua!

Jorge como que voltou a si e estranhou a exaltao de que se deixra
possuir. Rindo e fallando j em tom natural tentou attenuar a impresso
produzida, e disse para o irmo:

--A lua tem decididamente uma influencia poderosa at nos animos mais
fleugmaticos. Ahi est que querendo eu fallar-te de coisas serias,
esqueci-me em uma divagao sentimental, que Deus sabe at onde me
levaria. Deixemos isto. Vaes prometter-me, Mauricio, que desestirs de
inquietar Bertha e tranquillisars o espirito a Thom!

--Ora que ridicula promessa exiges tu de mim! Deixa-me vr de quando em
quando aquella rapariga, que eu te afiano que no corre perigo algum
com isso. Quanto mais que eu no posso assegurar que ella de facto me
corresponda.

--No anticipes juizos sobre o effeito incalculavel que pde produzir no
espirito d'aquella rapariga a assiduidade das tuas attenes. Bertha 
muito nova, tem habitos e gostos de cidade, e no  de crr que possas
ter na aldeia concorrentes que te offusquem. Por isso o melhor  acabar
com esse galanteio perigoso para ella. Lembra-te das consequencias que
pde ter um tal capricho da tua parte. Alm do que parece que j te
esqueceste da gravidade da nossa posio e das resolues que ha dias
tomamos.

--No, no me esqueci; estou prompto para a primeira voz; mas, emquanto
espero, desejo dar um adeus  vida de rapaz.

--Mas evita sahir d'ella, semeando remorsos que fructifiquem na tua vida
de homem.

--Mas...

--Terminemos. Peo-te, em nome de Beatriz, que no continues galanteando
Bertha. Promettes?

Mauricio acabou por prometter.

E horas depois voltavam a casa os dois irmos.

A lua declinava j no arco esplendido que descrevia no co.




XV


Em uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobresaltadamente acordado
pelo velho jardineiro, que depois das ultimas reformas estava empregado
no servio interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como se
viera a communicar a noticia de um incendio.

--Que temos?--perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito.

-- que no tarda ahi a snr. baroneza. J esto l em baixo umas
bagagens e uns criados, e... no est nada preparado.

--Cuidei que era outra coisa. E o que querias tu que estivesse
preparado?

--Ora pois ento? Sempre  uma pessoa... L o padre j deu ordem para se
ir pedir a baixella aos...

--No se pede coisa alguma. Ahi principia o frei Januario a fazer das
suas. Dize-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se no estafe, nem
afflija, que no  necessario.

--Mas... olhe l, snr. Jorge! O fidalgo mesmo no ha de gostar...

--Faze o que eu te digo. Isso em ti, a fallar a verdade, at me admira.
No parece franqueza de soldado. Para occultar aos olhos de minha prima
a nossa pobreza, que no  vergonha nenhuma, querias que fosse descobrir
s familias que teem baixellas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria
uma vergonha? No estou resolvido a fazel-o.

O velho meneou a cabea por algum tempo, e acabou por dizer:

--Parece-me que tem razo, snr. Jorge, como sempre. Ai, se n'esta casa
todos tivessem tido o seu juizo, ella no chegaria ao estado a que
chegou. Lembro-me agora de que quando o imperador...

--Deixa o caso para outra occasio. Vae arranjar, como puderes, essa
gente e essas coisas todas; emquanto eu me visto e preparo para ir
receber a prima...

O velho criado obedeceu com presteza militar.

Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira,
em que vinha a baroneza.

Gabriella, a baronezinha viuva de Souto-Real, ainda no tinha trinta
annos, e mais nova parecia do que era. Alva, loira e delicadamente
formosa, realisava o typo da mulher elegante, creada na atmosphera dos
bailes e dos theatros, e mais  luz artificial que  luz do sol.
Apaixonada por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se
aos mais extravagantes caprichos d'ella, sabendo-os porm corrigir pela
influencia do seu gosto apuradissimo. Tinha a languidez e a particular
cr pallida das formosas de Lisboa, que no recebem do sol da provincia
a vigorosa encarnao de saude. Indole verdadeiramente feminina, exercia
mais imperio sobre as suas paixes, do que sobre os seus caprichos. Com
difficuldade sacrificaria o mais ligeiro d'estes; aquellas, porm,
subjugava-as com fortaleza varonil. Possuia um genio alegre e s vezes
um tanto satyrico, mas sem malignidade. No professava os principios
d'aquella moral intractavel, que se arma da severidade puritana contra
as paixes e defeitos dos outros; pelo contrario era tolerante e
latitudinaria, no se esquivando a apertar a mo aos maiores peccadores,
com quem se encontrava no mundo, sem que, sob essas apparencias de
leviana indifferena, deixasse de manter um descernimento seguro do bem
e do mal, e um grande fundo de moralidade e de justia.

Alm d'isto possuia um bom corao e uma alma generosa.

No tracto de mais illustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que
acompanhra o baro, seu fallecido marido, adquirira uma variada cpia
de conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso.
Passava por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe
notasse a ostentao pedantesca, que  o escolho em que tanta vez
naufragam as que a tal nome aspiram. As primeiras capacidades
artisticas, litterarias e politicas frequentavam as salas da baroneza e
apreciavam a sua conversao.

Gabriella casra por conveniencia, que no por inclinao, com um homem
mais velho do que ella, sem fros de nobreza, mas pertencendo  classe
argentaria, que  a verdadeira aristocracia moderna.

Apesar d'isso soube ser esposa fiel e dedicada d'aquelle homem que a
livrra da precaria condio em que a decadencia da sua casa a
collocra. Viuvando, Gabriella no deu indicios de se alistar nas
diminutas phalanges das viuvas inconsolaveis, mas no se precipitou na
escolha de esposo. A sua belleza, o seu espirito e os rendimentos que
herdra attrahiram uma nuvem de adoradores, que ella ia deixando viver
de illuses, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar,  imitao de
Penelope, uma interminavel teia. Esta vida e estes galanteios
enfadavam-n'a, e, para distrahir-se, emprehendia pequenas viagens. Foi
ao voltar de uma que fizera pela Hespanha, que recebeu a carta do tio, e
resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitaes, visitando a
sua provincia e os logares onde passra a infancia.

Tal era a baronezinha de Souto-Real, que acabra de apeiar-se no pateo
lageado da Casa Mourisca.

Jorge ajudou-a cortezmente a descer.

--Agradecida, Jorge--disse ella, apertando-lhe a mo.--Fazes as honras
do teu castello com a galhardia de um perfeito cavalleiro.

--A prima no repare na modestia com que a recebemos, mas pareceu-me que
seria mais digno da nossa amizade e do seu caracter apresentarmo-nos
taes quaes somos, do que encher o pateo de criados e jornaleiros a quem
vestissemos  pressa fardas...

E completou a meia voz:

--... Emprestadas.

--Oh! por certo; e eu reconheo melhor a tua fidalguia, Jorge, na
franqueza d'esta recepo, do que na libr dos teus criados e nos
brazes dos reposteiros.

E conversando familiarmente com o primo, a quem tomra o brao, a
baroneza subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre.

 porta encontraram-se com frei Januario, que voltava azafamado da
cozinha, aonde tinha ido dar ordens accommodadas  solemnidade do caso e
s impaciencias e appetite do proprio estomago.

O padre limpava ainda os labios ao leno, para fazer desapparecer os
vestigios de uma libao extra-official que de passagem fizera.

--Queira v. exc. perdoar, snr. baroneza, o apparecer-lhe ainda agora,
mas as obrigaes do meu cargo...

-- snr. frei Januario, por quem , lembre-se de que somos conhecidos
antigos, e que at por vezes lhe dei motivos para me abjurar como
jacobina. Tinha que vr se me preparava a honra de uma felicitao em
frma. Onde est meu tio?

--O fidalgo no estava prevenido de que v. exc. chegava to cedo, e por
isso ainda est recolhido no seu quarto, mas eu vou...

--Ai, no, no; por amor de Deus no o acorde!

--No; elle est j a p; mas emfim fazer a barba e tal... sempre leva
alguns minutos.

--Que se no apresse por minha causa. Eu illudirei a grande vontade que
tenho de lhe beijar a mo, conversando com o primo Jorge.

--Ento, se v. exc. me d licena...

--At logo, frei Januario.

E quando este ia longe, acrescentou:

-- snr. frei Januario, aquelle grande dia que estava j para chegar na
ultima vez que nos vimos, aquelle dia de redempo, ao que parece no
chegou ainda?

O ex-frade encolheu os hombros, e respondeu com ar de mysterio:

--Ainda no  tarde, minha senhora. Pouco viver quem no o vir.

Gabriella entrou rindo com Jorge para a sala.

--E Mauricio--inquiriu ella--tambem j tem barba para fazer?

--Parece-me que sahiu, ainda com estrellas, para uma partida de caa.

--Bom; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionaes habitos de
familia.

Jorge sorriu.

--Tu  que degeneraste. Deu-me que scismar a novidade. Estou to
costumada a vr a deteriorao progressiva na linha dos representantes
das familias que tomam a peito no caldearem o sangue de primeira
qualidade que lhes corre nas veias, que ao vr sahir d'esta velha casa
um rapaz de juizo, fiquei espantada.

-- pouco lisongeiro para a nobreza, mas muito lisongeira para mim a sua
opinio.

--Digo-t'o com franqueza; e j agora deixa-me aproveitar este tempo, em
que estamos ss, para fallar n'isto e assentar as bases do meu proceder.
Vamos direitos  questo. As finanas no correm bem c por casa, ao que
entendi.

--Correm muito mal.

--No admira;  doena da poca. E tu tomas a peito endireital-as?

--Tentei-o.

--E conseguel-o. Consegues, porque o teu genio  o de uns certos homens
que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem, s a querer e
sem fazer barulho. Ai, Jorge, l por Lisboa ouo dizer que ha tanta
falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te. E Mauricio?

--Mauricio...

--Percebo;  mais difficil de accommodar esse. Era facil, se no fossem
as pieguices de teu pae, que ha de morrer assim. Dize-me uma coisa, 
Jorge, tu s absolutista tambem?

--Eu quasi que no tenho ideias fixas em politica.

--Bom, bom, j entendo. No queres declarar-te por contemplao para com
as tradies de familia. Ests como eu; eu sou, sem duvida alguma,
liberal; porque emfim deves concordar que para se ficar toda a vida a
ser absolutista  preciso viver, assim como teu pae, em uma aldeia como
esta e com um padre procurador a dizer-nos ha vinte annos a mesma coisa;
porm, como meu pae foi militar no exercito realista, no tenho remedio
seno obrigar a guardar certas conveniencias ao meu liberalismo. Ora tu
ests no mesmo caso.

--Talvez.  certo que do que est feito, acho muita coisa boa.

--Ento ests como eu. Mas como dizia, Mauricio podia encontrar muita
carreira aberta, mas era necessario que o pap o deixasse partir sem
levar o topete vermelho e azul muito  vista, ou a vera effigie ao
pescoo; salvar as apparencias, porque das ideias ninguem quer saber. 
sombra da Carta engorda muito absolutista encapotado.

--Meu pae est hoje em um estado de to facil irritao, que duvido que
chegue a consentir.

--Ento o remedio  procurar por ahi alguma descendente de Egas Moniz ou
de Martim de Freitas, que por milagre no tenha a casa ainda em ruinas,
e enxertar esse garfo illustre na vossa arvore genealogica.

--Mau remedio para finanas. Deu o arejo nas arvores genealogicas,
Gabriella; esto por aqui todas muito enfesadas.

--Ento, ento...

N'este momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as
subia duas a duas.

--Ahi vem Mauricio--disse Jorge, escutando-os.

Foi de facto Mauricio que appareceu  porta da sala.

A baroneza correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as mos, que Mauricio
galanteadoramente levou aos labios, curvando-se.

--Bravo! J vejo que observas irreprehensivelmente as tradies dos bons
tempos em que se era cortez com as damas. A provincia mantem-se mais
delicada do que a crte. Se soubesses como a moda hoje capricha por l
em um  vontade com senhoras, que at s vezes chega a ser grosseria!

--Devras, prima? Felizmente com certas bellezas femininas sente-se a
necessidade de ser delicado, independente de proposito ou dos preceitos
da moda.

--E se eu te deixasse completar a phrase, far-me-ias o favor de me
incluir no numero das taes. Que requinte de lisonja! E isto a perder-se
nas selvas!

--No zombe da minha sinceridade provinciana.

--No calumnies tu a provincia, dando esse epitheto  tua sinceridade.
Nada, nada, o tio que tenha paciencia. Conservar em casa um cortezo
d'esta fora  quasi uma usurpao feita aos direitos da cora.

--Bem; deixe-me fallar-lhe com seriedade. Como se sente da jornada?

--Hei de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha
curiosidade, que por emquanto no me deixa sentir coisa alguma. Por
exemplo, quaes so os teus projectos, os teus calculos sobre o futuro?

-- prima Gabriella, sempre cuidei que s na provincia se perdia tempo a
calcular futuros. Uma pessoa de bom senso no calcula o futuro, que em
um momento se transtorna.

--Bem, entendo o subterfugio. O priminho Mauricio ainda no tem planos
definidos sobre a sua carreira na vida. Mas  preciso que saibas que vim
aqui principalmente por tua causa. Tracta-se de te arranjar uma
collocao qualquer, um assento nas camaras, um emprego na alfandega,
seja o que fr, com que tu possas transigir; foi a condio unica
imposta por teu pae. Por isso v l.

--Olhe, prima, j que a sorte me levou  dura impertinencia de me vr
obrigado a adoptar um modo de vida, no quero tornar a impertinencia
dupla, encarregando-me eu proprio de o escolher. Subscrevo ao accordo a
que chegarem; decidam por mim, que ou me faam general ou tabellio, a
tudo me resignarei.

--Desconfio de tanta condescendencia. Quer-me parecer que havemos de
encontrar difficuldades mais serias do que as intransigencias sonhadas
por o tio Luiz. Dar-se-ha que haja aqui por estes bosques scenas de
Romeu e de Julieta?

--Ai, no falle n'isso a Mauricio--disse Jorge com um sorriso no de
todo despido de ironia--por quem , prima!  a sua corda sensivel, e tem
de o aturar por muitas horas!

--Ah! ento existe a Julieta?

--As Julietas, as Desdemonas, as Ophelias e todos os typos imaginaveis.
 um enxame que elle traz constantemente poisado no corao.

--Ah! ah! pois tu s dos que declinam o amor sempre no plural? No
sabia!

--Deixe-o fallar, prima Gabriella. O Jorge bem sabe que n'esta mesma
occasio to absorvido ando por uma s imagem, que  sem fundamento a
accusao de inconstante que me dirige.

Jorge contrahiu a fronte, ao perceber a alluso, e disse scamente:

--Julguei que havias resolvido devras ter juizo.

--No  tempo agora de examinar esta questo--acudiu Gabriella--porque
me parece que vem ahi o tio Luiz.

De facto o fidalgo apparecia  porta da sala e um pouco atraz d'elle o
padre procurador.

O velho D. Luiz vestira-se quasi elegantemente para receber a sobrinha.
Elegancia severa, accommodada  sua grave figura de ancio, mas
elegancia inquestionavel. D. Luiz tinha uma presena magestosa e um todo
de diplomata que impunha respeito.

O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata
cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus
dotes physicos.

O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando
por cima dos oculos, com o leno constantemente empunhado para acudir s
instantes reclamaes de um defluxo chronico, parecia dominado por uma
infantil timidez, mas no perdia um s gesto dos outros, que
manhosamente observava.

A baroneza inclinou-se para beijar a mo do tio, que a acolheu nos
braos.

--O tio Luiz!--dizia a gentil viuva, olhando-o--sempre o mesmo! No o
acho mudado.

--No?!--disse o fidalgo com leve ironia na intonao e no sorriso.

--Olhe que no. E  natural. Bem v que se golpes dolorosos o teem feito
padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza
d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que
ainda lhe restam.

D. Luiz abanou a cabea, mais triste e sombrio do que antes.

--Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se
chega aos meus annos, golpe que se receba,  ferida com que se morre.

--Diga o snr. D. Luiz--interveio o padre--que o que tem  muita
resignao christ, que n'estes tempos que vo correndo no  coisa
vulgar.

E assuou-se.

--Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, snr. frei Januario--acudiu
Gabriella.--Resignao ahi! Eu sou testemunha da heroicidade com que
arrosta as vigilias e os jejuns.

Os presentes, incluindo o proprio D. Luiz, no puderam ouvir sem um
sorriso a alluso da baroneza.

O padre crou, assuou-se com mais fora e resmoneou com azedume:

--Bem sei que no  quanta Deus manda, nem quanta a alma precisa... e
por peccador me tenho.

--Deve vir cansada, Gabriella--lembrou D. Luiz--Eu julgo que tero tido
o cuidado de...

--Tudo est prompto. Logo que a prima queira descanar...--respondeu
Jorge.

--No sinto grande necessidade de descano. Descanarei depois do
almoo, se me fizerem o favor de dar alguma bebida quente, porque tenho
frio.

Em virtude d'esta reclamao, sahiram successivamente da sala Jorge, o
procurador e Mauricio, ficando Gabriella s com o fidalgo.

Este parecia hesitar em alludir ao principal motivo da visita da
baroneza.

Foi ella quem rompeu o gelo da entrevista.

--Recebeu a minha carta, tio?

--Recebi, sim, e agradeo.

--Diga que perdoa. Se quer que lhe falle a verdade, julgo que no lhe
escrevi em estylo muito apropriado, mas to desacostumada ando de
escrever-lhe, e a gente com quem de costume me correspondo permitte-me
tal familiaridade, que me descuidei.

--A carta nada tinha de censuravel. O que por ella vi foi que deveremos
renunciar aos projectos que formei a respeito de Mauricio.

--Perdo; mas como viu por ella isso?

--Desde o principio ao fim. No me diz que para que Mauricio abra
carreira no mundo,  necessario condescender com certas coisas?...

--Ai, sim, mas quem  que no tem de condescender n'esta vida?

--Gabriella--tornou D. Luiz com certa aspereza--j ha pouco lh'o disse;
as nossas idades differem. Quando se possue a sua juventude ha
movimentos faceis, a que se no prestam as fibras inflexiveis dos meus
sessenta annos.

--Sim, mas quando se  joven como Mauricio e se est nas circumstancias
d'elle, das quaes estou informada pela sua obsequiosa confidencia, 
menos prudente no ceder um pouco no tempo em que se pde ainda ceder
com dignidade; porque depois... a vida para elle  longa, e quem sabe a
que provaes e sacrificios o sujeitar? O tio est em uma idade
avanada, no espera numerosos annos de vida, no ama demasiadamente o
mundo, e para a lucta conta com a inflexibilidade das suas fibras de
sessenta annos. Mas elles, seus filhos, so novos, teem futuro, amor 
vida e no possuem ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o pso
de uma instituio morta sem vergar ou quebrar debaixo d'ella. Veja bem.

--De uma instituio morta!--repetiu o fidalgo, accentuando as syllabas
e levantando os olhos para o tecto.

--Morta, sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de fallar agora em
politica com o tio. Mas a verdade  que quem vive em certa sociedade, e
ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer-se,
mesmo sem pensar muito n'isso, de que um sonho como o de meu tio ...
...  um sonho.

--Seu pae morreu por um sonho assim, Gabriella.

--E eu venero a memoria de meu pae, no o duvide; assim como venero o
caracter e as opinies de meu tio; porque venero todas as convices
sinceras. Mas o que eu no queria  que se sacrificasse mais do que
deve. A sua vida, a sua felicidade tem o direito de dar esse sacrificio.
Mas a vida, o futuro, a honra e a felicidade de seus filhos, isso no.

--A honra?! A honra  que eu quero salvar-lhes.

--E quem lhe diz que elles teem as suas convices?

Os olhos de D. Luiz fuzilaram ao ouvir esta insinuao.

--Se meus filhos...

--Sei o que vae dizer--atalhou Gabriella--mas no diga, porque contradiz
os seus proprios actos. Esmerou-se em dar educao a seus filhos, em
desenvolver-lhes a intelligencia, e agora quer que elles no usem d'esse
instrumento que possuem, e que para pensar lhe venham pedir licena? No
valia ensinar-lhes a raciocinar n'esse caso.

--A razo deve-lhes ter mostrado a verdade.

--A verdade... a verdade... Ora valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe
onde ella est? Pois todas estas mudanas que succedem no mundo de que
procedem, seno de se julgar a cada passo ter-se descoberto que a
verdade no est onde se suppunha?

--Vejo que a convivencia social lhe tem dado uma boa dse de philosophia
para bem viver no mundo. Mas que quer? Eu regulo-me ainda por as
cartilhas velhas.

--E o que lhe ensinam a fazer as cartilhas velhas a favor de seus
filhos? O que  que, em harmonia com ellas, tem tentado e tenciona
executar?

--Dar-lhes o exemplo de como se soffre a adversidade, quando se tem
brios, e um nome que respeitar.

--A nobreza no est em soffrer de braos cruzados a adversidade, quando
elles se podem empregar nobremente em repellil-a; Jorge bem o
comprehendeu. Esse illustrar devras o seu nome da unica maneira por
que n'estas circumstancias elle pde ser illustrado. O que  preciso 
que a ociosidade de Mauricio lhe no annulle os esforos.

D. Luiz ia a replicar quando o padre procurador entrou a annunciar que o
almoo estava na mesa.

O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o dialogo que
evidentemente o incommodou.

Cedo estava a familia da Casa Mourisca reunida  mesa na sala do almoo,
da qual d'esta vez a voz alegre e a jovial presena da baroneza parecia
afugentar parte das sombras que de ordinario pesavam sobre ella.

E na noite d'esse dia Gabriella escreveu uma longa carta a uma das
amigas da capital, em que lhe narrava por miudo os episodios da sua
jornada, a sua recepo na Casa Mourisca e as impresses que recebera.

Esta carta terminava por as seguintes palavras:

    Do que te tenho dito parece-me que podes concluir que se
    desvaneceram aquelles projectos de sacrificio que trouxe d'ahi e com
    os quaes no te conformavas. O meu primo Jorge  um rapaz mais serio
    ainda do que eu o suppunha. No fazes ideia. Affirmo-te que 
    incapaz de casar por interesse, e como o espirito d'elle anda muito
    occupado por calculos e combinaes economicas, no  tambem
    provavel que se deixe tomar por o amor, e portanto no casa. Assim
    fico dispensada de sacrificar os meus queridos habitos de vida de
    Lisboa, ao que vinha devras decidida para salvar esta familia com
    os meus capitaes, que mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que no 
    provavel, ha de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.

    O outro  uma criana, que no se pde tomar a serio por marido.

Por aqui se v quaes eram as generosas tenes de Gabriella ao chegar 
Casa Mourisca, e quaes as modificaes que no decurso d'aquelle dia os
seus projectos haviam soffrido.




XV


Ao outro dia pela manh, estava Mauricio apparelhando por as proprias
mos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle.

--Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?--perguntou Jorge.

--Talvez passe por l. Porqu?

--Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite
especial para o jantar d'manh.

--O jantar de manh!?

--Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e
bem vs que no  possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que,
por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro.

--Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela?

--Mandar-se-ho cartas.

--Um jantar na Casa Mourisca!  sombras dos nossos antepassados, folgae!

--Estremecei, dize antes, que mais razo teem para isso.

--Estes velhacos no deitaram hontem de comer a este pobre
animal--observou Mauricio, afagando o cavallo.

--Seria uma prova de affeio que lhe dariamos se lhe proporcionassemos
occasio para mudar de dono--murmurou Jorge, sorrindo.

Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro.

A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no
extremo da povoao, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura
preguiosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas
bouas, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres
e perdizes, que alli se acoutavam.

Causava lastima o estado de decadencia a que a m administrao e a vida
dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja
passada grandeza j nem se descobriam vestigios.

Na actualidade no era mais do que um velho casaro ennegrecido, mal
vedado aos ventos e s chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago,
que nunca mais era reparado. Por fra e por dentro a mesma absoluta
carencia de confortos; porque no sentia a necessidade d'elles a robusta
organisao de qualquer dos proprietarios; afeitos  vida dos montes, s
longas caadas e s luctas com os rigores do tempo. O solo rido, os
celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a
cultura perdida... era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia
havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os
livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da
mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem
prudencia, cahiam sacrificados s penurias monetarias do morgado, que ia
a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas
vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras  sde que
as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda
se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam
comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposio.
N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que
viviam dos seus detritos.

Trabalhava-se alli para destruir e no para semear ou edificar. O
desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia
os vidos visinhos, como crvos sinistros em volta do cadaver exposto na
estrada.

Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaoso pateo da casa, onde
reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha
encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouas. O
aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade
inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; alm
oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua
empoada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta
esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas
junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em
verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de loua, de
garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montes de calia pejavam,
desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de
musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do
edificio, por onde havia muitos annos no passra a brocha do caiador.

Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que
estavam to desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as
gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasies havia em que
pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabea
suina. S os criados no appareciam; a ociosidade dos amos era
contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito
ao quarto dos primos que procurava.

Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando
com alguns lavradores visinhos no destroo do que ainda lhe restava.

O somno do padre e do doutor no era para ceder  primeira chamada.
Ainda depois de lhes bater  porta, Mauricio continuou a ouvil-os
ressonar em um duo assustador.

A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que
claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.

--Sou eu, abram--disse Mauricio, continuando a bater.

Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou:

--A porta est aberta. Levanta a tranqueta e entra.

Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum
dos dois manos.

Havia dentro uma atmosphera quente, abafadia e viciada de fumo de
cigarro que suffocava.

A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel.

Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo,
sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa
pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida
pelo cho, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo
meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de
gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas
verdes pela oxydao; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o
arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e
cassetetes; alm os arreios de cavalgadura; na mesa, ao p da cama, os
restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados
baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas
da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de
cigarro por toda a parte.

Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que
diziam avivar-lhes recordaes dos seus tempos de estudante.

Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que
n'isso tivesse de despir a feio de desordem, caracteristica a um
quarto de rapaz solteiro.

Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos
saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus
raios a retina preguiosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o
doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos
cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se
para a parede, no intento de encetar outro somno.

--Que vida de inuteis vadios esta!--exclamou Mauricio, puxando para o
meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e
pondo-se s cavalleiras n'ella.--Ao meio-dia!

--Isso! Vem para c fallar da vida de vadios. Olha se me convences de
que te afadigas muito a trabalhar.

--Em todo o caso j vim de minha casa at aqui e tu, ao que parece, ias
no meio de um somno e l o padre ento... esse vae, pelo que estou
vendo, no principio d'outro.

--Mas como diabo te deu para vires por aqui to cdo?

--Cdo? Olha que  meio-dia! Mas... vim encarregado de uma misso.

--De quem?

--De meu pae.

--De teu pae?! Para ns?!

-- verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar
manh.

O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio
com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de
somno:

--O tio Luiz d manh um jantar?!

--Sim, senhor. Em obsequio  Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que
l est desde hontem de manh.

--Ora essa!--acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede.

--Bravo!--applaudiu o doutor--isso j me cheira melhor do que a tal
historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser
sempre d'essas ratices. E dize-me c: que tal est agora a Gabriella?

--No me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, no lhe dei
muita atteno.

--Sim, tu andas agora distrahido com a...

N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no
travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro
que principiou nos lenoes uma centesima combusto, exclamou:

-- verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta
noite, homem!

--Qual foi?

O padre, ao ouvir as palavras do irmo, deu um salto para sentar-se na
cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um
sorriso alvar:

--Olha l,  Chico. V como contas a coisa, porque o Mauricio  nervoso;
no sei se sabes.

--Mas de que se tracta?

--De um caso muito engraado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir
mais, porque a historia promette dar de si.

O padre, meio estendido pela cama fra para pedir lume ao irmo,
confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido.

--Mas digam l o que foi--insistia Mauricio.

--Hontem  noite--principiou o doutor--fui eu aqui com o Loureno 
espadelada do Martinho. Aquillo no esteve de todo mau. Bem boas
raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram
uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que
principiaram a fazer ferver-me o sangue.

--Eram os mesmos da feira do mez passado--acudiu o padre--mal fiz eu em
no ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na
estrada.

--O certo --proseguiu o mano doutor--que os homens comearam a fazer-se
finos, e eu que vi o Loureno j a fumegar, previ logo o caldo entornado
e fui procurar o marmeleiro que deixra atraz da porta, para o que desse
e viesse.

--No era preciso. Para aquelles basto eu s--annotou o padre, sugando
com fora o cigarro, que teimava em no arder.

--Meu dito, meu feito--continuou o outro--ns a sahirmos e elles
comnosco. O Loureno pz logo dois fra do combate; eu arquei com o
terceiro, que me derreou o brao esquerdo, mas a quem escangalhei a
cabea; o ultimo fugiu-nos. Era o Joo do Pinho.

O padre interveio:

--Eu, que lhe ando com sde, disse logo para o Chico: Vamos d'aqui
cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lio. E tomamos pela quelha do
regedor.

--E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thom! por traz da prsa.
Sabes?

--Sei muito bem.

--Ora o homem no appareceu.

--Mas appareceu cousa melhor--acudiu o padre.

--Havia de andar peia meia noite e ns sem fazer bulha ainda escondidos
na sombra. Percebes?

--Mesmo defronte da casa do Thom--insistiu o padre.

--E depois?--interrogou Mauricio impaciente.

--Depois...

  A mulher  um catavento,
  Que com os ventos varia;
  Seu amor dura um momento,
  Tolo  quem n'ellas se fia.

Cantarolou o doutor.

Mauricio olhou interrogadoramente para o padre.

--Meu caro priminho--disse-lhe este--pe as tuas crenas de mlho e
prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois.

--Mas que queres dizer com isso?

--Quero dizer que a porta do Thom abriu-se sorrateiramente e sahiu de
l um patusco... Trai la rai lai lai.

-- impossivel!--exclamou Mauricio com indignao, comprehendendo as
malignas alluses do primo.

--Qual impossivel?--confirmou o padre--No ha impossiveis n'este mundo.
Desengana-te, menino.

--Mas teem a certeza de que se no illudiram?

--Ora se temos. Era um homem em corpo e alma.

--E viram quem era? Conheceram-n'o?

Os dois irmos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso
de velhacaria.

--Com certeza, no; mas suspeitamos--respondeu o doutor.

--Quem ?

--Alto l! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda
observao. Por ora no possuimos ainda a certeza. Porm j mais de uma
noite temos encontrado o tal rato, de quem suspeitamos, no muito longe
do sitio, e j andavamos com a pedra no sapato.

-- Chico, olha que o Mauricio no est bom. Estes golpes repentinos...

--Qual! Se eu no acredito uma unica palavra do que vocs esto para ahi
a dizer--tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado.

--No que a cousa  muito para se no crer--disse o doutor, principiando
a vestir-se--uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um
apaixonado?... Sim, o caso  to raro!

--Vocs no conhecem Bertha.

--Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a
sonhar por este mundo com princezas encantadas--observou o padre,
tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que
adormecra na vespera.

--Ento l por que um homem sahe de noite de casa do Thom, j no pde
ser seno por amor de Bertha.  boa!--insistia Mauricio, contra a sua
propria convico.

--Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu
quizeres--respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.

--Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem--tornou o doutor.

--Ora mas digam-me: Pois no ha tanta gente em casa?

--Pois ha, ha.

--Ento...

--Ento tem vocemec razo--concluiu impertinentemente o padre.

--Muito bem--propz o doutor.--Para sahir de duvidas queres tu vir
comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho?

--Quero, sim.

--Muito me hei de rir esta noite!--exultou o padre, saltando abaixo da
cama.

--Mas promettes no assassinares a pequena na furia do teu ciume?

--No creio verdadeira a vossa supposio, mas se o fosse...

--Que farias? Ora dize l--perguntou o padre, piscando um olho emquanto
esperava a resposta.

--Achava essa mulher to desprezivel que...

--Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada to desprezivel como
uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino
Mauricio, a joia dos namorados!--ponderou zombeteiramente o padre.

--No quero dizer isso, mas...

--Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta s priminhas
dos Barrocaes, que essas so fieis.

--Ora, mas digam-me vocs uma coisa--insistia Mauricio--quem querem que
seja o homem que possa estar j com Bertha n'esse tom de familiaridade?

--No entremos n'essa questo. A seu tempo cahiro as cataratas.

--J digo, eu no acredito.

--Pois nosso Senhor te d sempre essa commoda incredulidade; antes de
casar e depois de casar.

E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada
 casa de Thom, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita.

Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelao que
os primos lhe fizeram.

Ainda quando Bertha no tivesse adquirido grande preponderancia sobre os
pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no
corao de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio,
para devras o irritar.

Mas, de justia  que se diga, o amor, a paixo, a inclinao, o
capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio
para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os
affectos d'aquelle caracter voluvel. Se no amava ainda devras,  certo
tambem que nunca amra melhor. Bertha demais possuia sobre as outras
mulheres, que nas pocas successivas haviam reinado na imaginao d'este
rapaz, o prestigio das recordaes de infancia, a distinco de tracto
adquirida na educao da cidade, e at a desaffectada reserva com que
lhe tinha acolhido o galanteio.

As reflexes de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das
repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e
paixes com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle
procurava abrazar-se, antes mais a activavam.

A ideia de um amor entre dois coraes jovens, amor constante em
despeito do antagonismo, das animadverses e dos odios das familias;
esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico 
phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de
que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este
sufficiente para o apaixonar.

Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas no o interrogou.

A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada
a no refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente:

--No voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi
isso?

--Perdoe-me, prima. Isto  uma das muitas mudanas de colorido que, sem
que se saiba porque, se opra no humor de uma pessoa.

--Hum! No andar ahi influencia do corao?

Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo:

--O corao! O meu corao  modesto. No aspira a dominar. Nunca lhe
conheci essas tendencias.

--N'isso mesmo que dizes d'elle se est a perceber que ha espinho l
dentro.

--A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas j vejo que tem o defeito do
seu sexo, que  no poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou
m disposio de um homem outra influencia que no seja a de uma mulher.

--E quando os homens se occupam to pouco de coisas graves, como...
certos que ns conhecemos, a lei no deixa de ser verdadeira.

--Engana-se; v? Os homens da minha indole so exactamente aquelles que
esto menos sujeitos  influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a
inconstancia feminina como um facto natural e com que j contavamos,
porque em ns nunca se desenvolvem aquellas illuses que levam muitos
espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as
occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses
delicados objectos, que amamos s por que so frageis e delicados. As
grandes desilluses e os profundos desespros so para os que fazem do
amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se
de que  de crystal a bola de sabo matizada que os seduz, e portanto
ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar.

--Cada vez confirmo mais a minha supposio. Eras bastante delicado para
me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se no estivesse
fallando em ti o despeito por uma causa recente.

A exactido da observao da baroneza feriu Mauricio no riso e fl-o
balbuciar, crando:

--Peo perdo se a minha franqueza a offendeu, porm...

--No te canses a desculpar-te. Eu at achei graa a essa profisso de
scepticismo, j muito meu conhecido, mas que no sabia que tambem nascia
nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenas desde
que emigraram das cidades. manh espero que estars mais senhor de ti.

--Estou a sangue frio, creia.

--Veremos com mais vagar esse corao. -me isso preciso para os meus
planos.

--Os seus planos?!

--Ento j te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua
causa?

--Ah! sim, agradeo-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe
muito que fazer.

--Veremos.

A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio.

Pouco mais seria de Ave-Marias, j elle instava com os primos do
Cruzeiro para que fossem pr-se de vigia.

--Isso no vae assim!--diziam elles--Pois que cuidas tu? No sabes que o
passaro  dos que s voam de noite? Falla-nos l para as onze horas.

Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar
aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a
impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade.

Os primos respondiam rindo s com phrases equivocas, que Mauricio no
comprehendia.

--Olha c,  Mauricio--perguntou o mano doutor--em tua casa sabe-se do
teu namoro com a filha do Thom?

--Ahi vens tu com o namoro!...

--Pois seja o que quizeres; da tua affeio, se achas mais bonito; mas
sabem?

--Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexes.

--Ah! o Jorge fallou-te n'isso?

--Ha dias. Pelos modos o Thom queixou-se-lhe...

--Ai, o Thom queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graa. Que te parece,
 Loureno?

-- bem bom! e ento o Jorge deu-te conselhos, hein?

--Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que no era
prudente o meu proceder...

--Ah!

--E quasi me fez prometter que desistiria.

--Ah! fez-te prometter isso?

--Quasi.

Os dois no podiam suster o riso.

-- impagavel aquelle Jorge!--repetia de quando em quando o padre.

--Vocs bem sabem o genio d'elle.

--Ai, sabemos. Pois ns bem sabemos... o genio d'elle. Ah! ah!...

E os risos redobravam.

Mas a noite chegra emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre
os caminhos do campo. Mauricio pde finalmente acompanhar os primos ao
logar da espia.

Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma
palavra.

Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoo profunda. No
era s despeito, era j uma nascente repugnancia pelo acto que
praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espio.

Chegados ao local, o padre escolheu a posio de maneira que podessem
vr, sem serem vistos.

Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som alm do
melancolico gemer dos sapos, a distancia.

Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da
espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos
epigrammaticos, quando a mo do doutor lhe tapou a bca, ao mesmo tempo
que o padre se voltava para lhe recommendar silencio.

Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a
sombra da noite no deixava conhecer.

Chegando  porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e
fechou-a de novo sem fazer ruido.

Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos.

--Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de
conhecl-o.

--Que diabo queres tu fazer, maluco? No vs que espantas a caa?

--Hei de vr quem elle !

--Pois sim, mas para isso  preciso prudencia.

--A porta ficou aberta. Eu vou...

--Vaes aonde? Ora tem juizo.  sahida pilhamol-o.

Mauricio porm insistiu e os primos condescenderam em passar um
cauteloso exame  entrada por onde o vulto desapparecra.

Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a explorao,
e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto
ficava a escada, por onde se subia para as salas.

Mauricio ia a transpl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui
originou-se uma pequena altercao que, ainda que em voz baixa, foi
percebida pelos ces que latiram furiosos.

De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando:

--Quem est ahi?

Era a voz de Bertha.

Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignao, mas o padre tapou-lhe
a bca e obrigou-o a retirar-se.

Esta retirada foi feita com tal pericia, que no excitou mais atteno
da gente da casa.

Tudo recahiu em socego.

A presena de Bertha foi para Mauricio a confirmao das suspeitas dos
primos.

Por isso mais excitado e impaciente do que at alli, aguardava a sahida
do mysterioso incognito.

O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao
visitador nocturno.

Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na
porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o
homem espiado sahiu.

Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente.

A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thom, o
personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens
immoveis, que lhe estorvavam a passagem.

Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes:

--Tenho o caminho livre?

--Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a
conhecer--respondeu o padre.

-- ordem de quem?

--De tres contra um.

-- direito que no reconheo.

E o individuo, desembaraando um pouco os braos, que levava envolvidos
em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggresses,
que no so raras em algumas das nossas freguezias ruraes.

N'este tempo porm Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido
desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao
vl-o desembaraado, exclamou:

--Mas... elle  Jorge!

Os primos soltaram uma risada.

Jorge, que o leitor j tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus
suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e
perguntou em tom de leve despeito:

--Ento que brincadeira  esta?

--No  nada, primo Jorge--respondeu o doutor--quizemos apenas verificar
uma suspeita.

--Uma suspeita?!

--Vamos, perdoa-nos a indiscrio, mas bem vs que ha poucos prazeres
para uns peccadoraos como ns, iguaes ao que nos causa o vr cahir um
sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam.

Isto disse o padre, o doutor acrescentou:

--O que te pedimos de hoje em diante  menos severidade nos teus juizos
e mais indulgencia para as miserias dos humanos.

Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se
para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de
indignao:

--Tu, que ests mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, no
me sabers explicar estes ditos, que no percebo, e ao mesmo tempo a
significao da tua presena aqui, a tolher-me os passos, como um ladro
nocturno?

O silencio de Mauricio significava tambem muita indignao e clera
concentrada.

A presena de Jorge n'aquelle legar smente a podia explicar aceitando a
hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordao da conversa que
tivera com o irmo, a respeito da filha de Thom, via agora um excesso
de dissimulao e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais
vehementemente, quanto maior era o respeito que at alli lhe mereceu o
caracter de Jorge.

Por isso a sevra interpellao d'este fez rebentar em exploso aquella
clera mal reprimida.

--Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor,
Jorge--exclamou Mauricio indignado--bem vs que, desde este momento,
perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive at
hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a
tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso,
sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar.

--Enlouqueceste, Mauricio?--perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que
mais irritou o irmo.

--Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este
mundo?--tornou este quasi allucinado--Na tua idade tens j coragem para
tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de
rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas
no vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e
perdido, fariam crar de vergonha. Oh! no te invejo o talento de
comediante, Jorge.

--Mauricio, repara que no ests em ti.

--Sim, eu tenho esse defeito. No sei medir as minhas palavras, no sei
encobrir, nem disfarar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem
dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te
desprzo e te lastimo, e  verdade tambem. Cuidas que no me recordo das
tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome
sagrado de nossa me, a memoria venerada de Beatriz, para qu? para
exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de
corao de uma rapariga, que uma abenora e a quem a outra quizera como
a irm; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo
das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traioeiros e
escandalosos.

--Silencio!--exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as
palavras do irmo.

--Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; no posso
consentir que calumnies quem no est aqui para se defender, e quem
tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e no um
calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que
ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.

--Que  l isso, priminho, que  l isso?--acudiram immediatamente os
dois manos.

Jorge no se intimidou.

--No me assustam as suas ameaas. Sei agora o que significa esta
espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco.
Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem  de
estranhar o conceito que formam das intenes dos outros de que julgam
pelas suas. O que lamento  vr-te associado a esta empreza, Mauricio,
porque, fao justia ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o
passo que dste.

--Em vez de sermes, priminho, no acha que seria melhor explicar-nos o
que veio fazer a horas mortas a esta casa?

--No sinto a necessidade de explicar as minhas aces diante de taes
juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputao os
senhores do Cruzeiro. Resignar-se-ho portanto a prescindirem das
explicaes que pedem.

Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:

--Entendo esse riso. Conheo-os. Sei que depois da espionagem se segue a
calumnia; mas o meu desprezo  muito grande para transigir. Calumniem.

--Ora essa! Ns sabemos guardar um segredo. Socega.

--Sei qual  o alimento com que se nutre a sua ociosidade. No importa.
 vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que no serei eu
que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque no a frequento.

Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se
para Mauricio:

--Repara que j desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora
v se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia
tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama,
ajuda; o insulto  facil para quem no precisa de se abaixar muito para
a apanhar.

Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional
prudencia a correco que lhes infligira as palavras de Jorge e
limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.

Mauricio estava j sentindo remorsos do que dissera ao irmo. Este
adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.

--Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui--disse Mauricio,
arrependido.

--Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdo ao mano--tornou-lhe o
padre, rindo com desdem.

--Parvo!--exclamou o doutor--Querem vr que engoliu a arara?!

--Deixa l, ento que queres? a innocencia tem d'estas canduras.

--Mas vocs ainda acreditam?...

--Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e v se nos arranjas umas indulgencias
do mano Jorge.

E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle.

Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando
entre o remorso e a suspeita.




XVI


Amanheceu alvoroada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o
jantar, em homenagem a Gabriella.

N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente
absorvido nas recordaes dos seus tempos de gloria, notava-se um
movimento excepcional.

O velho fidalgo no quizera faltar s tradies de hospitalidade que a
familia lhe legra.

Ordenou que, embora  custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a
chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar
os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.

Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem,
havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras pocas,
o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se  impertinencia de lhes
abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que
lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e
liberalidade de um solar de provincia.

Jorge tentra ainda oppr algumas sensatas reflexes a esta dispendiosa
exhibio de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.

Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados
jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as
luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas
igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario,
dizemos, sentia em si uns jubilos de criana, que nem podia nem
procurava disfarar.

Eloquente como nunca, corroborou a opinio do fidalgo, fazendo-lhe bem
sentir o deslustro que soffreria o brazo da casa se no se observassem
essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de
aplanar todas as difficuldades que,  primeira vista, apresentava o
projecto.

A Jorge, que lhe suscitava algumas objeces, o egresso smente
respondia:

--Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!

--Obriga a ser nobre, que  ser leal, sincero, honrado, sem affectao,
sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem  custa alheia.

-- custa alheia?!

--Emquanto esta casa tiver uma divida   custa alheia que vive, gere
dinheiro de outros e no lhe  airoso gastar em festas e banquetes o que
precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.

--Uma casa de fidalgos no  uma casa de commerciantes. Que estes, que
no teem um nome a respeitar, se no mettam em cavallarias altas,
entende-se. E  at muito para sentir vr por ahi fazer o contrario,
como se v! Mas agora quem tem brazo na porta e retratos nas paredes...

--Quem tem brazo e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido,
arrisca-se muito a ter de vender um dia brazes e avs, por preo
modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e
que tem a felicidade de no cahir do cavallo abaixo.

--Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu j lhe disse, no percebo que
ideias so essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe
havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com
as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor
linhagem, tudo nobreza antiga e da que no admitte duvida a fallar como
qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, maes nos ossos e
republicanos na alma! Uma coisa assim!

Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge
julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que
fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador.

Um d'estes alvitres fra o de se pedir emprestadas s proprias familias
convidadas diversas peas de baixella, de que estava desprevenida a cpa
da Casa Mourisca.

Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa
tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata
que lhe pertencia, havia de suppr que toda a mais era da casa, que em
tempo fra das mais bem providas n'esta especie. Por tal frma, no se
tornaria notada a falta, e cada qual se daria at por lisongeado em
haver merecido do proprietario esta prova de confiana.

Jorge no se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em
despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o servio se
fizesse smente com o pouco ou muito que houvesse em casa.

O padre appellou para o fidalgo, que nisto porm decidiu a favor do
filho.

Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da
provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que j
pertencra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio
physiologico, que s se d n'aquella esmerilhada casta, conseguira
transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte geraes,
com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raa.

Era um gosto seguir pelos seculos fra a linha, pela qual alguns dos
presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das
origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de
ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que
deixava evidente, por um _autem genuit_ nobiliario, ser o vigesimo ou o
decimo-setimo rebento de sua preclarissima cpa. Bom fra que elle se
tivesse entregado a esses calculos, por no ser provavel que
apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance,
que ousasse mergulhar em to transcendentes e uteis computaes; e assim
ficaria a humanidade privada de uma noo valiosissima.

Embora estivessem um tanto enfesadas e pcas quasi todas aquellas
vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cpa; e quem no havia de
preferil-as a ramos embora cheios de vio, cujas raizes estivessem 
flr da terra?

Os dotes physicos tinham,  verdade, soffrido um pouco com os extremos e
cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle
sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes
intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordo sanitario, de que os
chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavl-as da
infeco de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da
actualidade. Mas l estava o fermento da fidalguia, que era o essencial,
e que suppria bem a saude e a illustrao.

Algumas familias, que cedendo um pouco s exigencias da poca, no
tinham trancado de todo os portes dos seus solares a certas innovaes,
eram por esse facto olhadas com desconfiana por os puros, que as
accusavam de eivadas pela lepra do seculo.

Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre
da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade
madura, tias e mes, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala,
narravam pausadamente umas s outras as occorrencias domesticas
relativas ao intervallo de tempo em que se no tinham visto; exaltavam
os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa.

Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e
sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais
rico em essencia aristocratica, se  que era susceptivel de maior apuro.

Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vos das
janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o
que perdra a causa realista fra a traio e o suborno; e, arvorados em
prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissoluo social,
periphraseando os artigos de fundo da _Nao_ e do _Direito_.

A abolio dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos
annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os
dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos
filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e
prodigalidade, lanavam agora  conta da lei o que era a consequencia
logica da sua m administrao.

As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e
dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer
dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada
uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas
castells, que na meia idade premiavam os campeadores na lia, os
guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes
endereavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham
perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma poca em que
no havia campees, guerreiros, nem trovadores para premiar,
limitavam-se as meninas a acceitar a crte dos primos, tambem muito
pouco parecidos com os seus cavalleirosos avs, e com a maior candura,
que pde medrar na provincia, roubavam umas s outras os noivos e os
namorados.

Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido
introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou
outra vez dos paes a concesso de dar uma partida, onde a nata da
nobreza provinciana danava os _Lanceiros_ como qualquer sociedade de
artistas.

Os rapazes reunidos no terrao fumavam e atiravam a rewolver aos troncos
das arvores ou s avesitas que poisavam nos ramos.

A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios;
se alguns haviam descido at ao ponto de irem a Coimbra fazerem 
sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitaes
adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro.
Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos
filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o
exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitra a circumstancia
aggravante de servir depois para alguma coisa.

Formava grupo  parte frei Januario em animado colloquio com outros dois
padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na
defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros
livres.

Mauricio, na companhia dos rapazes no terrao, entre os quaes se achavam
os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diverses, mas sem
perder certo ar de melancolia, que lhe ficra das scenas da vespera.

Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em
Mauricio a preoccupao de espirito.

Desde a vespera os dois irmos no haviam trocado uma palavra. Gabriella
notra-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre
elles.

No deixava porm a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior
sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha
logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade
certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as
inebriantes inhalaes de lisonja a superciliosa desconfiana que os
seus ares de crte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos,
escrupulosos respeitadores da crte velha.

Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notra
ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam
conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre
que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal
suffocados. Da roda dos rapazes communicra-se o mesmo effeito  das
raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro
em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e
cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observao
d'elle.

A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal,
que momentos depois estava nas visinhanas de Gabriella.

No pde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que
assim agitava a sociedade moa, e que at j havia deixado estupefacta
mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fra partcipe do
segredo.

--O que  que se diz por ahi, priminha?--perguntou a baroneza  rapariga
mais proxima--corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo
todas em alvoroo.

--E com razo. Ento no sabe? O primo Jorge tem um namoro!

--E o caso  para taes espantos?

--Pudera no! Ento no conhece o primo Jorge, j vejo. Ainda no houve
quem lhe merecesse um comprimento, que no fosse de simples ceremonia.
Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E
vejam l.

-- porque pertence  especie rara dos que amam s uma vez, e dos que
amam de maneira tal que no podem sem remorsos amar por passatempo.

--Pois ser. Mas vejam aonde foi elle cahir!

--Ento quem  ella?

--A Bertha. A filha do Thom!

--Fico na mesma, priminha.

--No conhece o Thom? O Thom da Herdade. Um lavrador que foi criado do
tio Luiz e que est hoje rico.

--Ah! bem sei, ento  uma rapariga do campo.

--Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha
dias a casa.

--E Jorge conhecia-a?

--Em criana, sim. Depois julgo que se no viram seno agora.

--E quem descobriu essa paixo?

--Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella.

--Jorge?!

-- verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece at que o primo
Mauricio.

--Ah! Mauricio?!

--Sim, e o mais bonito  que esse tambem pelos modos tinha suas
pretenes, por passatempo j se sabe, olha o outro! a esse ento tudo
lhe serve. De maneira que hoje esto que nem palavra dizem um ao outro.

--Isso j eu notei; mas custa-me a crr que Jorge...

--E a todos. Pois aquelle sonsinha...

--No  isso o que eu dizia. O que eu acredito  que, sendo o que me diz
verdade, Jorge ama devras essa rapariga, e elle no tem caracter para
abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso pde resultar.

--Quer dizer a prima que  capaz de casar com ella?

--Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou j essa teno e ha
de cumpril-a.

--Tinha que vr a prima Bertha da Povoa!

--Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vr, para mim, que j
estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do
mundo.

Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais
atteno Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os
vestigios d'aquelle mysterio.

Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manh. Evitavam-se
tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e
os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam foral-os a
apparecerem.

--Ser verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma
paixo bem sria a d'elle--pensava Gabriella.

N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus
hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em
todos os actos da vida.

O fidalgo no tivera pressa em apresentar-se na sala.

Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepo e na da
apresentao de Gabriella a todos os primos, que ainda no a
conhecessem.

Frei Januario explicra a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a
incommodos habituaes, que smente mais tarde lhe permittiam sahir dos
aposentos.

A verdade, porm, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse
possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes
n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade.

Produziu alvoroo na sala a entrada de D. Luiz.

Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole
sria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua
intelligencia e educao a todos impunha.

--Como vaes tu, D. Luiz?--disse, apertando-lhe a mo um ex-coronel de
milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaar com a espada
que tinha em casa na gaveta todas as constituies do mundo.

--Graas a Deus que dste signal de vida, homem!

--O primo D. Luiz devia procurar mais distraces--acudiu a vigesima
descendente de um dos guerreiros de Ourique.

--Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu
lethargo--acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente
illustre.

O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem
suspeita para aquelles pechosos aristocratas.

D. Luiz respondeu com um forado sorriso aos comprimentos, dizendo:

--Devem procurar-se as distraces, quando o espirito no se d bem com
as ideias tristes. Mas isso no succede commigo. J no posso viver sem
esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforo para fugir-lhe
mais me afflige.

--Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!--estranhou
o ex-miliciano.

--So contradices apparentes--disse Gabriella para o tio.--As saudades
teem d'isso. Por isso lhes chamaram gosto amargo e pungir delicioso.

--Quem  que lhes chama isso?--perguntou uma fidalga de oculos, um pouco
sentimental e litterata, que estava ao p de Gabriella.

--Foi Almeida Garrett--respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava
que no ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante.

Effectivamente a historia litteraria de Portugal parra para ella em
Jos Agostinho de Macedo.

--Almeida Garrett!!--repetiu um dos mais intractaveis realistas
presentes que ouvira a resposta--eu conheci um d'esse nome, que era
secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos
do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados.

Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais
eloquente expresso com que s. exc. conseguia traduzir todo o desprezo
que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832.

--E perdeu-o de vista depois?--inquiriu Gabriella com leve ironia.

--Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.

--Ento no o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e
chefe de uma revoluo litteraria?

O fidalgo abriu os olhos, prolongou os labios e sacudiu a cabea,
dizendo:

--Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento.... Temos conversado; no
sei se me entende. De ministros tambem no quero saber, porque tenho
receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a
respeito de poetas... se quer tambem que lhe diga, eu nunca tive quda
para sonetos. L chefe de revoluo estou convencido de que elle seria,
porque para guerrilheiro estava talhado.

A baroneza deu muita razo a este seu primo e foi para um grupo de
raparigas, que passaram a interrogal-a sobre a ultima moda do talho dos
vestidos.

Annunciou-se emfim o jantar. Houve geral rebolio na sala, e a companhia
seguiu mais ou menos anarchicamente para o banquete.

Frei Januario tinha meditado maduramente a ordem de collocao dos
diversos convivas, segundo as regras da etiqueta em que elle era mestre.
E como n'este ponto ninguem lhe contrariasse os planos, havia-se sahido
muito  sua vontade da tarefa.

Assumindo pois as funces de mestre de ceremonias, comeou a designar a
cada convidado o logar que lhe competia.

Infelizmente, porm, nem todos foram doceis s indicaes do padre, e
sobre tudo os rapazes que, sem lhe darem atteno, iam sentar-se onde
muito bem queriam, e ao p quasi sempre de alguma prima, que no
desgostava da visinhana.

Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que
tudo era vista a separao dos sexos e das idades; mas debalde protestou
contra a anarchia que invadira a mesa.

Quem, porm, acabou por o perturbar foi D. Luiz, quando do alto da mesa
e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu affectar, exclamou:

--Queiram sentar-se  vontade.  bom que os velhos se misturem com os
moos para temperar os ardores da juventude com a prudencia dos annos.
Outras desigualdades no ha aqui a attender.

Esta ultima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha
motivos para se suppr mais preclaro do que os primos, mas no houve
protesto formulado, e todos obedeceram ao convite do dono da casa.

O padre esteve em risco de perder o appetite.

Valeu-lhe porm a judiciosa reflexo que lhe fez ao ouvido o collega,
dizendo:

--Sentemo-nos, que bom logar  todo aquelle onde se come bem.

Jorge ficou aos ps da mesa e portanto fronteiro ao pae.

Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira,
continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.

Ao passar perto de Jorge, para tomar logar, a baroneza murmurou-lhe:

--Falla-se muito de ti, Jorge.

Jorge fez um signal de quem estava informado do facto, e respondeu
sorrindo de uma maneira especial:

--Talvez se falle mais e mais alto d'aqui a pouco.

O jantar no desdizia do puritanismo d'aquella sociedade.

Era um jantar  portugueza e digno de portuguezes, que no querem:
_nostrum regnum ire fore de Portucalensibus_.

A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor,
que se nada era em comparao com o dos magnificos festins, que em
tempos passados a animaram, no envergonhava o seu brazo perante os
fidalgos presentes que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais
deteriorado.

Os criados suppriram com diligencia o numero, de modo que o servio
correu regular.

Emquanto se servia a spa e no se havia encetado as libaes, reinou na
sala aquelle silencio momentaneo, proprio da occasio.

S se ouve o tocar das colheres nos pratos, e o srvo mais ruidoso de
alguns convivas, que se no constrangem. O appetite satisfaz-se, do-se
tregoas s conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se
os copos, repousam os commensaes, e de visinho para visinho trava-se a
meia voz um dialogo cortado, sobre assumptos insignificantes. Depois o
tinir das louas e dos crystaes, o vapor oloroso das iguarias, os
effeitos excitantes dos vinhos animam o espirito; o tom das conversas
eleva-se, o visinho fronteiro intervem, cresce a confuso, os risos
misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se
com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistencias que
pareciam insuperaveis, reina a vida na sala do banquete.

Por estas diversas e successivas phases passou o jantar em casa de D.
Luiz. No meio d'elle, berrava-se politica alli, jogavam-se epigrammas
acol, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas 
maledicencia em quasi todos.

Jorge conservava-se serio e reservado, como estivera toda a manh.

Mauricio fazia esforos para mostrar-se despreoccupado, porm mal o
conseguia.

Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo
theor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca
no tinham desmentido os seus antigos creditos, firmados em tantas
faanhas.

Os primos do Cruzeiro sobre todos fallavam em um tom de voz, que mais do
que uma vez attrahira as geraes attenes e fizera contrahir o sobr'olho
a D. Luiz.

A cada momento as alluses a Jorge, que elles entremeiavam nos seus
informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem
para o filho mais velho de D. Luiz, que os arrostava com uma serenidade
desprezadora.

Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baroneza, brindaram-se na pessoa
dos seus chefes as familias illustres alli presentes, brindaram-se os
caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da sancta causa, em
honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituies, em honra do
throno e do altar e de muitas outras coisas.

Frei Januario, para mostrar o seu fervor, esgotava o calix a cada
brinde, e aproveitava os intervallos para fazer com os collegas, a meia
voz, os seus brindes particulares.

J quando os animos estavam um pouco excitados por estas successivas
libaes, o primo padre levantou-se, e com os olhos injectados e o gesto
um tanto transtornado, disse:

--Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge est com um ataque de
melancolia, de que no pde livrar-se. Os brindes que aqui se teem feito
ainda o no desanuviaram.  verdade que se brindaram familias antigas e
coisas velhas, e o passado no  l das ideias mais alegres. Eu por isso
vou propr um brinde menos soturno, a vr se o distraio. Bebo  saude do
Thom da Herdade e da sua familia, com particular meno da menina
Bertha, a quem Deus faa muito feliz, assim como a todos quantos lhe
querem bem.

Este inesperado brinde produziu grande sensao. A parte moa da
companhia, prevenida como estava, principiou a suffocar os risos e a
fallar ao ouvido dos visinhos; os velhos abriam os olhos espantados ou
indignavam-se com o desconchavo de brindar uma familia plebeia depois de
outras de to apurada raa. A consequencia foi que ninguem correspondeu
ao brinde e os calices ficaram na mesa intactos. Seguiu-se um silencio
profundo na sala.

O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou:

--Ento que  isto?! Ninguem me secunda?

E corria a vista em redor da mesa com expresso ironica, que, a seu
pezar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pallido de
intima commoo, tambem se ergura e levantra o calice para responder:

--Secundo eu, primo--disse elle, corn um leve tremor na voz--e creia que
da melhor vontade o fao. Brinda-se uma familia honrada, laboriosa e
justa. A ninguem deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem
motivos particulares obrigam a veneral-a.

--Ah!--murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de
victoria.

Um meio sorriso passou por os labios de alguns dos espectadores d'esta
scena.

--Levante-se!--ordenou Jorge ao padre com intimativa--oua-me de p, que
eu tambm estou de p para secundar o seu brinde.

 singular! O padre ergueu-se, como se no pudesse resistir ao olhar
indignado e imperioso de Jorge.

--Repito--continuou este--brindo aquella familia honrada, porque 
honrada e porque motivos particulares me levam a veneral-a. E para lhes
no dar occasio de sorrirem outra vez, ou de afagarem a vibora
venenosa, que ahi soltaram, eu lhes explico as minhas palavras. Se
ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da
vexao a quem m'as provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a
firme resoluo de luctar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a
todos, apesar dos nossos brazes, dos nossos solares, dos nossos
pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui esto
podem contar das glorias passadas e da decadencia e das humilhaes
presentes. E ns como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a
perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e no podia resignar-me
 ideia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei
felizmente em meu pae o auxilio preciso, e, authorisado por elle, tomei
sobre meus hombros a tarefa de sustentar as ruinas vacillantes d'esta
casa. A empreza porm era mais difficil do que a suppozera. Tolhia-me os
movimentos a rede complicada, em que a errada gerencia de muitos annos
embarara a administrao. Cada passo dado para salvar-nos era mais um
para a total ruina. Devem comprehender bem isto os que me escutam,
porque a sorte das nossas casas  quasi a mesma. De todos os lados, para
onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a m f. N'estas
circumstancias s me podia valer a experiencia dos negocios, e essa
faltava-me, o credito, e quem m'o reconheceria e aceitaria? o capital, e
por que preo poderia obtel-o? Perguntem ao nosso antigo administrador,
aqui presente, o preo por que elle o encontrava. Pois bem, senhores, um
homem chegou-se a mim n'estas condies e pz  minha disposio, leal e
desinteressadamente, a sua experiencia, o seu credito e o seu capital.
Graas a este homem, era-me possivel libertar-me, sem baixeza, da usura
que havia tantos annos nos devorava, applicar vantajosamente os capitaes
obtidos e encetar um systema, lento mas seguro, de administrao que
preparasse o caminho para um futuro resgate d'esta casa. Graas a este
homem, sorriam-me as esperanas de poder dizer um dia s cinzas dos
nossos antepassados, que eu tambem respeito, que repousassem em paz na
sepultura, pois no viriam estranhos disseminal-as; e  memoria querida
de minha me e de minha irm que os que ellas amaram no desertariam
cobardemente dos logares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas
contra o generoso auxilio d'este homem havia velhos preconceitos de
familia, mais apaixonados do que justos; era-me pois impossvel recorrer
a elle abertamente. Entre as prevenes e a gloria da minha casa no
hesitei porm. A consciencia dizia-me que no devia hesitar. Resolvi
acolher o offerecimento leal, mas tive de occultar na sombra da noite
actos que no se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando
precisava do conselho experiente d'esse homem, procurava-o de noite e
clandestinamente. Os diffamadores, que correm nas trevas  procura de
alimento para a calumnia, surprenderam-me. Medindo as aces dos outros
pela sua capacidade moral, suppe-lhes sempre um motivo infame. O homem
de quem lhes fallei tem uma filha. No que ha de mais puro e mais
sensivel nas familias,  ahi que a calumnia gosta de ferir. Essa pobre
menina foi pois a victima escolhida. Agora se querem saber o nome do
homem honrado, a quem devo experiencia, credito e capital, dir-lhes-ei
que se chama Thom da Povoa, a filha  Bertha, a afilhada de meu pae; os
calumniadores so esses que propem o brinde, lanando no calice a
peonha de sua natureza de vibora; mas brinde que eu de novo secundo sem
receio nem hesitao.

--E eu--exclamou a baroneza, imitando-o; mas por ninguem mais foi
seguida, porque uma nova occorrencia veio absorver as attenes.

D. Luiz, que revelra a mais profunda estranheza desde o principio da
scena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescra em agitao  medida
que as palavras de Jorge iam tendo para elle um sentido mais claro.

As ultimas fizeram-lhe passar o rosto por uma serie de mudanas, cada
uma d'ellas denunciadora de uma paixo violenta.

Ao nome de Thom da Povoa,  ingenua e leal declarao de Jorge, os
olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso
correu-lhe nas faces, succedendo-lhe uma pallidez profunda.

Quando o filho terminou de fallar, foi elle quem, por sua vez, se ergueu
na cabeceira da mesa.

A commoo que o dominava no lhe permittiu desde logo o uso da palavra.

Todos os olhares se desviaram para aquelle velho, pallido, vestido de
negro, severo e mudo, que, com as mos apoiadas sobre a mesa e o olhar
fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores d'esta scena.

A final com a voz tremula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi
animando, o velho fidalgo comeou, dizendo:

--Meus senhores, quando ha dias os convidei para virem a esta casa
solemnisar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha,
estava persuadido de que esta casa ainda era minha. No sabia que,
abusando da confiana que eu depositra n'elle, um filho meu, o mais
velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glorias da sua
familia, havia empenhado a um dos criados d'ella o solar em que nascra.
Soube-o agora. Peo-lhes humildemente perdo de os haver, pela minha
ignorancia, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos
aqui em situaes iguaes, todos somos hospedes do Thom da Herdade. Em
outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam
disfaradamente as escadas, para virem das ante-camaras e corredores
espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que n'ellas viam;
permittia-se-lhes isso. Hoje porm, senhores, se aqui nos demorassemos,
vl-os-iamos subir com outro intento, para vigiar que nas expanses do
nosso jubilo no deteriorassemos as alfaias, a mobilia, a baixella e a
casa, que j lhes pertence. A esta espionagem no me sujeito eu. Meus
senhores, as minhas obrigaes de dono da casa terminaram. Hospede como
os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me
impe. Cada um consulte o mesmo conselheiro.

E D. Luiz, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, sahiu
da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.

Frei Januario foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.

O resto da companhia parecia immobilisado nos seus logares.

Jorge, com os cotovlos apoiados na borda da mesa, conservava o rosto
escondido entre as mos.

Gabriella foi quem se subtrahiu primeiro quella influencia
paralysadora.

--Parece-me que, depois do que se passou, d-se a triste necessidade de
nos separarmos. O tio Luiz est muito agitado, e preciso dar-lhe tempo
para serenar e vr as coisas sob um aspecto mais racional do que aquelle
em que a paixo lh'as apresenta agora. Por isso...

A reticencia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos
haverem comprehendido a conveniencia da retirada.

Formaram-se ainda na sala alguns grupos, conversando sobre o facto.

Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda
manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfao pelos insultos que
elle lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.

Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luiz para o acalmarem; mas
foi-lhe dito por frei Januario que o fidalgo no podia recebel-os.

Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os
caminhos que d'ella partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas,
liteiras e carroes, em que aquellas nobres familias regressavam aos
seus solares.

As occorrencias singulares do jantar foram entre ellas assumpto de
conversa em toda a jornada. Todos, com quanto criticassem a esquisitice
do velho D. Luiz, que to pouco urbano se mostrou com os seus hospedes,
eram accordes em attribuir a principal culpa a Jorge.




XVII


Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.

A indignao de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a
consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas
paixes paternas, quasi lhe censurra a precipitao do passo que dra.

Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. No
podendo j duvidar da innocencia do irmo; como perdoaria a si proprio
as suspeitas e insultos com que o ferira?

Do vo da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.

Mauricio ergueu emfim a cabea, e tendo nos olhos ainda vestigios de
lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos
promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava,
caminhou agitado para Jorge.

--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se no
esgotou a generosidade da tua nobre alma, no me retires a affeio, que
por tanto tempo te mereci.

Jorge apertou-lhe a mo com affecto.

--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crl-o. Affligem-me alguns dos teus
desvarios, principalmente porque sei que elles esto em contradico com
os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeio no 
isso motivo. Para mim s n'esses momentos, como uma criana que se v a
dormir  beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos,
e no clera nem averso.

E os dois rapazes abraaram-se com effuso.

--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situao precisa de que se
pense n'ella seriamente. As pazes esto feitas, em boa hora; pensemos
agora como gente de juizo.

--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?

--O que eu disse.

--V bem; falla-me com franqueza. Eu no acreditei no que de ti se
espalhou. Concederia que Jorge podsse praticar uma loucura, mas uma
aco indigna, um abuso de confiana, sabia que no. Porm no ha em
toda esta historia alguma coisa que no disseste ainda? Bertha  para ti
completamente indifferente? Esta  que  a questo.

S a muito custo Jorge pde disfarar a turbao em que a pergunta de
Gabriella o lanou, mas respondeu com apparente serenidade:

--Bertha  uma rapariga, que por todos os motivos respeito.

E com mais custo ainda, acrescentou:

--E nada mais.

--E para Mauricio o que  Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao
voltar-se para o primo mais novo.

No obteve logo resposta.

--Bem vem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu no posso ainda
explicar. Assisti  vossa reconciliao, signal de que tinha havido uma
desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?

--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um
movimento de paixo, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia
da casa de Thom da Povoa, e soltei expresses, que parece que ainda me
esto queimando os labios.

--Ento, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se
que amas Bertha. E  devras esse amor?

A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto
aguardava a resposta do irmo.

--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que .

D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.

--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de
ti, receias muito que no. Pois, meu caro priminho, a occasio exige que
se ponham de lado caprichos e brinquedos de criana, e que se siga com
sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. No estmos em tempo
de brincar. D-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge
podem ser destruidos de encontro  resistencia do tio Luiz. Eu nem posso
calcular o que resultar de tudo isto. E portanto....

Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para
chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.

--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um
partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.

Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e
nas salas intermedias um movimento extraordinario, que no sabia a que
attribuir.

Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos
outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e
transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos
preparativos de uma jornada.

Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em p no meio da
sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia
n'ella algumas peas de roupa, que aquelle lhe ia indicando.

--Eu no sei o que v. exc. vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no
entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de m vontade, suando
em bagas--isto no tem ps nem cabea. Olhem agora, sem commodos
nenhuns... assim de um momento para outro....

D. Luiz, sem responder s reflexes do procurador, continuava a
indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.

Gabriella dirigiu-se a elle:

--Mandou chamar-me, meu tio?

--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe
pedir um favor--respondeu D. Luiz com forada placidez.

--Mil que sejam.

--Depois do que se passou, no quero demorar-me n'esta casa uma s
noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me no engano,
tencionava partir manh para l. No  verdade? Pois bem, faa o
sacrifcio de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma
enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.

A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.

--Mas... Por quem , meu tio... Grande prazer me dar a sua visita...
porm em outras circumstancias e por outros motivos. No tome resoluo
alguma emquanto assim est dominado pela paixo. Veja o que vae fazer! O
que se dir? O que se fallar por toda a parte!

--J de sobra teem em que fallar. A vergonha no  maior--tornou o velho
mais agitado.

--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a
fallar a verdade... ... ...

--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e
despreoccupado de paixes, os actos de seu filho? Quem lhe diz que
outros no chamaro virtude quillo a que chama baixeza?

A clera relampagueou de novo nos olhos do velho:

--Gabriella, por quem , desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me
no demove da resoluo em que estou e que smente me afflige. Se no
quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.

Gabriella no insistiu.

--A minha casa  sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para
partirmos.

--No esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei
Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que
isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficaro na estalagem da
Encruzilhada.

--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio
caminho. Ento fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem.
A casa de meu pae  bastante espaosa, e com os arranjos que eu mandei
fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para ns todos. Agora um pedido.

--Qual ?

--Jorge est consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. No ha
de reconciliar-se com elle?

--Gabriella, se  amiga de Jorge, no procure trazl-o  minha presena,
e se quer que isto que sinto c dentro contra meu filho no cresa ou
degenere em paixo peior, no pronuncie diante de mim por ora o nome
d'elle.

Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando
era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz no
estava para acalmar de prompto.

Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os
preparativos da partida.

Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes
disse:

--Tracta-se de partir j.

--Para onde?

--Para a minha casa, nos Bacellos.

--E meu pae?

--Tudo parte.  uma emigrao completa.

--E a Casa Mourisca?...

--Fechada, ao que parece, at... acabar o interdicto.

--Mas isso no pde ser!

--Mas , e eu vou j dar ordens precisas para a mudana.

--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se.

A baroneza reteve-o.

--No vs.  inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam
naturalmente. Eu j estou convencida de que esse  o melhor expediente.
 preciso que teu pae desafogue a paixo que l tem dentro. Entende que
deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o.
Depois lhe apparecers.

--Ento agora recusa vr-me?

--Recusa. O que no tira que no possas estar muito  tua vontade na
minha casa dos Bacellos. Ha l um pavilho na quinta, ao talhar para um
refugiado como tu.

Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em
movimento para a quinta dos Bacellos.

Os preparativos no occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandra
apenas levar o que fosse estrictamente necessario.

A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo
a sahir de casa.

Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.

O fidalgo ficou s com frei Januario, que continuava a protestar por
todas as frmas contra a resoluo da mudana de quartel a horas
improprias.

D. Luiz nem lhe respondia.

Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia
fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor
accommodao da familia, o fidalgo ordenava-lhe scamente que o deixasse
ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.

Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o
procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos
antigos aposentos da filha que perdra.

Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do corao do velho! Ia
desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia s poderia fazer
vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento
aquelle para o desconfortado ancio. Tudo alli dentro se conservava como
no fatal dia em que ella morrra. Todos os objectos que haviam
pertencido  infeliz criana alli se guardavam religiosamente. E ia
deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia
possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A
coragem porm no sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a
porta para si; depois com fervorosa commoo beijou quasi um por um
esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a
vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluando, e cobriu de beijos e
de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostra a pallida cabea
da sua Beatriz.

Mais tranquillo depois d'esta effuso de dr, ergueu-se, enxugou os
olhos e desceu com a mesma lentido as escadas at o portal, onde o
padre o esperava j com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora.

Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os.

--Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e
os caminhos no so l essas coisas--exclamou o padre afflicto.

D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os
cavallos:

--Vae esperar-nos na baixa do Paul. Ns j l vamos ter.

--Ento v. exc. quer ir a p at  baixa do Paul?!--perguntou o padre
assustado.

--Vou?

--Mas...  um estiro e....

--Ento que fazes? Parte--disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e
este obedeceu-lhe promptamente.

O padre ficou a resmonear:

--Eu cada vez ando mais s aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho
visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes!
Havemos de ceiar a boas horas, no tem duvida nenhuma!

--Agora feche a porta, frei Januario--ordenou D. Luiz.

O padre tomou com ambas as mos a enorme chave do porto, e fl-a girar
na fechadura.

Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o
qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta.

O padre tirou a chave, que juntou ao mlho que trazia, deu um encontro
 porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para
D. Luiz.

--Vamos--disse este.

O padre ia pr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direco
opposta  da quinta dos Bacellos.

--V. exc. por onde vae?

--Por aqui--respondeu scamente o fidalgo, continuando a andar.

--Mas... v. exc. est enganado. Esse no  o caminho.

--Bem sei.

O padre seguiu-o, murmurando contra as ventas do fidalgo:

--Esta cabea j no regula direita. Onde diabo quer ir este homem?

O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia to divergente do que o
padre esperava, que outra vez o interpellou:

--Mas v. exc. onde quer ir?

--A casa do Thom da Povoa--respondeu D. Luiz e acrescentou:--E
advirto-lhe, frei Januario, que no me sinto com disposies para
conversar.

O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observaes em certo
tom e com certa inflexo de voz, era inutil e imprudente contrarial-o.
Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que j trazia accumulado.

--A casa do Thom da Povoa!--resmungava elle--O homem est doido! Ora
isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado!

A inteno com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um
mysterio indecifravel para o espirito do procurador.

Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca.
Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era
j a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do
trabalho acalmra. Nos marcos dos campos,  soleira das portas e nos
parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do
dia. O gado caminhava para as prsas, conduzido por crianas de seis e
sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle
, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade
da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a
finados.

A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que
densidade de tristeza a que poisou n'aquelle corao! Saudades, mas
saudades escuras de velhice, saudades de quem no tem futuro, era o que
havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das
suas crenas, do seu amor, das suas affeies. J no era capaz de
enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo no influe, vem
tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do
presente juntavam-se as apprehenses pelo futuro a entenebrecer-lhe o
espirito. Era devras infeliz aquelle velho!

Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thom.

D. Luiz reuniu alento para subil-a.

O padre aventurou outra observao:

--Snr. D. Luiz, eu no atino com as razes que trazem v. exc. aqui, mas
no vejo que possa resultar bem algum de similhante visita. Veja o que
faz! A prudencia...

--Socegue, frei Januario--atalhou D. Luiz com um sorriso amargo.--No
imagine que venho praticar alguma violencia. J l vae o tempo em que
ns resolvamos  fora de brao os nossos pleitos. A nossa vez passou,
bem v.

O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava j mais
quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.

Para se chegar  casa de Thom da Povoa por o lado por onde D. Luiz
seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes
naturaes formadas de madresilvas e de rozeiras. No fim d'esta avenida
ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, era a parte que elle
cedra s predileces da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os
limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as
violetas e malvas que a entremeiavam.

D. Luiz desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no porto da
quinta.

-- aquella uma das entradas da propriedade, no ?--perguntou elle ao
padre.

--, sim, senhor. Repare v. exc. que  um porto de quinta nobre.
Falta-lhe o brazo.

O fidalgo calou-se e no tirou os olhos do porto da quinta, da qual se
ia avisinhando. Passados alguns instantes respondeu  observao do
procurador, dizendo:

--Dentro de alguns annos mais pde comprar barato o da Casa Mourisca. Os
meus filhos no sero exigentes no preo.

O padre no soube bem o que devia dizer n'este caso. Limitou-se por isso
a expellir um simples Oh! sem entonao que o definisse.

Chegaram emfim ao porto. D. Luiz ordenou ao padre que tocasse a sineta.

Este ia a fazl-o, quando se voltou dizendo:

--Anda gente c dentro.

D. Luiz no foi superior a certo sobresalto ao ouvir a noticia;
vencendo-se, porm, caminhou resoluto e com a fronte contrahida para
diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora
ferido alli, murmurou:

-- Sancto Deus!

--Que tem v. exc.?--interrogou inquieto o padre, que reparra no gesto
de D. Luiz--Foi pontada?! Estes passeios violentos e fra d'horas...

O fidalgo no respondeu e continuou com os olhos fitos em no sei que
ponto do interior da quinta.

Frei Januario desviou para alli a vista, a fim de elucidar-se na
explicao do mysterio.

Chegava n'este momento ao porto uma rapariga, singelamente vestida de
branco, que correu ao encontro d'elles.

Era Bertha.

--O meu padrinho!--exclamava ella dirigindo-se ao fidalgo--O snr. D.
Luiz! At que emfim o vejo! Julguei que no chegava este dia!

E pegando-lhe na mo, beijou-a com respeito e affecto.

E D. Luiz no lh'a retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse.
Continuava a olhal-a, como esquecido de tudo e profundamente perturbado.

O padre observava a scena boquiaberto.

--Ha que tempos o no via!--proseguiu Bertha com uma carinhosa
volubilidade de criana--Pois tinha bem saudades! Quantas vezes olhava
para aquellas janellas, a vr se por acaso o descobria em alguma? Mas
nunca, nunca! Que vontade que tinha de l ir, mas... Disseram-nae que o
padrinho nunca sahia, e que vivia quasi sempre s no seu quarto. Para
que  que vive assim? Isso faz-lhe mal. Mas... que tem, snr. D. Luiz?
Meu Deus... est a chorar!

O padre deu um passo  frente, como duvidando do que ouvira.

D. Luiz afastou-o com a mo.

-- verdade--disse elle a final, profundamente commovido.-- singular
isto em mim! Mas que quer, Bertha? Quando aqui cheguei e a vi...

--No me tracta j por tu?--interrompeu-o Bertha, sorrindo tristemente.

O fidalgo, depois de uma curta hesitao, repetiu:

--Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz.
Parecias-me ella. Ella era mais moa quando morreu, mas ultimamente
tinha deitado corpo e... depois trazia s vezes um vestido d'essa cr, e
emfim... ha tanto tempo que no via uma rapariga que se lhe
assimilhasse... Sim, porque ha muitas por ahi, mas nenhuma ainda m'a
recordou como tu.  notvel! a mesma cr de cabello, a mesma estatura,
certas maneiras e at o metal de voz... No  verdade, frei Januario? 
notavel! A minha pobre filha! Como tu m'a recordas, Bertha, ai, como tu
m'a recordas!

--No se afflija.

--No se afflija era mesmo assim que ella me dizia; no que era mesmo
assim. Pois no era, frei Januario? No se afflija. Se tu soubesses o
que eu estou sentindo, Bertha? se tu soubesses o que vo de saudades
aqui dentro?

--Ento no sei? No era eu amiga de Beatriz tambem? O tempo mais feliz
da minha vida no foi aquelle em que a conheci? Inda hontem chorei ao
reler as cartas que ella me escrevia.

--E ella escrevia-te?

--A ultima que tenho d'ella  datada de oito dias antes da sua morte.

--Pobre criana! E... e dizia-te que sabia o estado em que estava?

--Dizia; mas que fingia illudir-se para no affligir os seus.

--E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa d'aquella bca. Morreu a
sorrir o pobre anjo.

E o saudoso pae quasi soluava ao avivar aquella permanente chaga do seu
corao.

--Snr. D. Luiz--acudiu frei Januario--olhe que lhe faz mal estar a
recordar essas coisas. O passado, passado. A noite est comnosco e...

-- verdade!--atalhou Bertha--e eu a demoral-o aqui! Faa favor de
entrar, meu padrinho, a me anda l para a quinta. Meu pae est para a
cidade e julgo que s manh vir, mas....

Estas palavras recordaram a D. Luiz o motivo que o trouxera alli.
Chamaram-n'o  realidade de sua presente situao, afugentando as
memorias do passado, melancolicas, mas suaves para o seu espirito.

Mudou immediatamente de expresso, as lagrimas como que se lhe secaram
aos estos da paixo que crescia n'elle. Ergueu a cabea que a tristeza
curvra. Assumiu aquella apparencia magestosa que costumava apresentar
aos olhos dos estranhos, e em tom no rispido, porm menos cordial do
que at alli, disse para Bertha, que era agora para elle a filha de
Thom da Povoa e j no a companheira de Beatriz:

--Bertha, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O corao domina-me
ainda s vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pae. Visto que
no o encontro, peo-te que lhe transmitias o meu recado. Soube hoje que
um de meus filhos havia recebido d'elle adiantamentos de dinheiro a
titulo de emprestimo para melhorar a nossa propriedade, e isto sem
garantia alguma. No sei a quanto monta a somma recebida, mas em todo o
caso no posso aceitar o emprestimo... ou a esmola. A divida ha de ser
paga em breve tempo; mas, emquanto no o fr, deixo em penhor de minha
palavra aquella casa, que hoje mesmo abandono, e tudo que n'ella se
contm. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo buscal-as.

E, fazendo signal ao procurador, tomou as chaves das mos d'este, que
continuava a estar abysmado, e entregou-as a Bertha.

A estupefaco da rapariga era tal, que machinalmente as recebeu, sem
bem saber o que fazia.

--Parece-me que ser bastante garantia--acrescentou D. Luiz.--Se eu no
sou victima de uma perseguio do co, espero resgatal-as ainda.
Seno... Adeus, Bertha.

--Mas--pde emfim dizer a filha de Thom, sahindo da sua
abstraco--isto no pde ser! Eu... nem sei o que estou fazendo. Por
quem , padrinho, meu pae no pde querer....

--No te pertence julgar d'estes negocios, Bertha. Faze o que te digo.

--Deixar a Casa Mourisca! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu e
morreu Beatriz! E porque?... Que somos ns para si ento, padrinho?

O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder:

--Bertha, quando a minha consciencia me impe um acto na vida,  inutil
tentar demover-me.

--A consciencia!--repetiu Bertha, timidamente, como exprimindo uma
duvida.

--Se queres tambem chamar a isto um preconceito de classe, como j lhe
chamou um de meus filhos, chama-lh'o embora. Em todo o caso obedeo-lhe
e de obedecer-lhe me orgulho.

E o fidalgo ia para retirar-se, quando Bertha lhe disse, hesitando:

--E no me consente que lhe beije outra vez a mo?

O animo irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som
d'aquellas palavras meigas. D. Luiz estendeu a mo a Bertha, que lh'a
beijou chorando.

Ao sentir-lhe as lagrimas o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabea,
perguntando-lhe:

--Porque choras, Bertha?

--Porque sinto que j no me tem a amizade que d'antes me tinha.

--Criana--disse o fidalgo com uma brandura que havia muito tempo
ninguem conhecra n'elle--que tens tu com as paixes ridas das nossas
almas de homens? Os entes como tu e como aquelle que eu perdi, nasceram
para as dissipar e no para soffrel-as.

E cedendo  commoo que de novo a dominava, o severo e implacavel D.
Luiz, com admirao crescente de frei Januario, apertou a afilhada nos
braos e poisou-lhe na fronte um beijo, como os que dava em Beatriz.

E ao separar-se d'aquelle logar ia outra vez com as lagrimas nos olhos.

Ao fim da avenida, d'onde se avistava o porto, voltou-se. Bertha
permanecia no mesmo sitio, a seguil-o com a vista.

--Repare, frei Januario, repare; a quem v d'aqui, a distancia, no
parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava  porta da Casa
Mourisca?

--Sim, as raparigas ao longe todas se parecem; mas olhe que  noite
fechada, snr. D. Luiz.

--Jesus! e agora a dizer-me adeus!--continuava D. Luiz, dizendo adeus
tambem-- mesmo aquelle anjo que eu perdi. Fujamos, fujamos d'estes
sitios, que tenho medo de enlouquecer.

--E at porque  noite fechada--acrescentou o padre.--Valha-nos Deus!

Depois de longo tracto de caminho andado em silencio, D. Luiz parou, e
levantando os olhos ao co, exclamou com paixo:

--Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus! Porque me roubas
tudo, para tudo dares quelle homem?! At a filha! at a suave
consolao d'aquelle amor de filha, que eu perdi, at esse elle possue!
Que tremendo castigo, Senhor!

D'ahi at o termo da jornada, na quinta dos Bacellos, no tornou a
pronunciar uma s palavra.

Quando l chegaram ia a noite adiantada; e j havia desassocego pela
demora dos dois.

O padre procurador estava furioso. Dizia elle completamente
desconcertado:

--Uma estafa assim depois de um jantar lauto! Esta gente no tem
consciencia! Deus queira que no me venha por ahi alguma apoplexia! Os
filhos so doidos, o pae est pateta, e eu que os ature!

E correu  cozinha a vr se havia alguma coisa quente que o confortasse.




XVIII


O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como
que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira  luz do dia as
suas amplas janellas, reacendra o fogo nos lares apagados, e restaurra
o movimento e a vida nos aposentos vazios.

Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos
sitios onde lhe corrra a infancia, cujas suaves memorias ainda os
povoavam. Ao vr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores
frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas
espaosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda
que pouco propensa a melancolias, no pde subtrahir o espirito a uma
impresso de saudade.

Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o
relembravam; alli fra o theatro dos seus brinquedos e jogos, alm
estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provao
infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acol desenhava-lhe
vagamente a sua recordao a imagem da me, que perdra em criana, e
dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda
no morrra de todo em si o corao provinciano.

Mas uma tal disposio de espirito no podia durar muito. A baroneza era
uma mulher de aco, e no se esquecia de que tinha muito em que pensar
e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca.

No eram smente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar
convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e
mais ainda, o desejo de restituir quella familia a harmonia to
inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o
filho, que pelo seu nobre proceder incorrra no desagrado do velho.
Gabriella tomava devras a peito esta pacificadora empreza; mas para
isso era ainda cdo. A paixo ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que
lhe fosse possivel escutar conselhos.

Na manh immediata  noite da installao solemne da familia de D. Luiz
na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilho no fundo
da quinta, onde elle desde a vespera se alojra, longe dos olhares
paternos.

A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passra entre D.
Luiz e Bertha  porta da quinta de Thom, e desejava fallar n'isto ao
primo.

Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que no eram de todo
sinceras.

--E meu pae?--foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de
comprimento.

--Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa
e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica.

--Pois que fez elle?

--Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mos do Thom
da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia  assim em toda
a parte. Tem a cabea cheia de tradies da idade media e por ellas se
regula. Procura sempre dar s suas aces uma feio dramatica, e sempre
que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situao apertada.

--E Thom aceitou-as?

--O Thom no estava em casa. A entrevista teve logar  porta da Herdade
entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a
proposito....

--Perdo, mas... o que se passou n'essa entrevista?

--Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A
vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto
de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que
acabaram de o sensibilisar; abenoou-a, beijou-a e quasi se ia
esquecendo do que o levra alli, mas de repente recordou-se e fez a
entrega das chaves com uma gravidade igual  de Martim de Freitas, cuja
vaga recordao foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena.
Tu sorris? Olha que  o que te digo. Eu conheo os achaques d'estes
nobres. Os mais serios e ajuizados so perdidos por umas coisas assim.
Se em uma occasio de crise tiverem um dito sentencioso, uma aco, um
gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito
satisfeitos e resignam-se s consequencias da crise. O certo  que as
chaves l ficaram.

--Thom por certo lh'as restitue.

--Pde ser, mas  peior. Teu pae socegar, sabendo que as chaves esto
nas mos de Thom. Ento que queres?  uma puerilidade que se deve
respeitar. O acto em si, olhado  luz da actualidade, no tem o minimo
valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o v, illuminado pelo
crepusculo dos bons tempos passados,  um desforo e uma aco fidalga,
capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos
ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora 
sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e
complicar da aco dos differentes dramas e comedias da vida; por isso,
com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado at aqui como
secundario, ninguem me tira da ideia de que ella  a figura principal da
historia. Que te parece, Jorge?

Jorge, evidentemente enleiado pela reflexo da baroneza, respondeu:

--Bem v que no . A prima est j ao corrente de tudo, pde portanto
julgar da parte da aco que cabe a essa rapariga.

--Estou ao corrente de tudo? Isso  que eu no sei. Mauricio tem por
ella uma grande paixo, ao que parece.

--No creio--acudiu Jorge vivamente.

--Como se explica ento que, sendo elle to teu amigo, se irritasse por
uma errada interpretao dos teus actos, a ponto de estar imminente uma
aco tragica, de que nem quero lembrar-me?

--Ora essa! Ento no conhece o genio de Mauricio?--tornou Jorge quasi
impaciente--Os primeiros movimentos so n'elle sempre impetuosos.
Aquelle rapaz no se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio.
Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuaso  tal
que d logar a scenas como essa que sabe.

--E porque dizes que no a ama?

--Porque o conheo e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.

--Uma serie de amores verdadeiros,  o que se conclue d'ahi;
verdadeiros, mas curtos.

Jorge sorriu.

--Parece-me que no acreditas que sejam verdadeiros os que so curtos?
Tu amarias sempre, se amasses?

--Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia
commigo: enganei-me, no era amor ainda.

--Sympathica theoria, mas no sei se muito aceitavel. Porm quem te diz
que Mauricio no se fixaria d'esta vez? E olha que no seria uma m
resoluo da vossa crise. O Thom julgo que est em condies de ser um
sogro salvador, assim no houvesse a preveno do tio Luiz.

--D'essa maneira no quereria eu nunca regenerar a nossa casa--replicou
Jorge gravemente.

--Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho,  o processo
hoje mais seguido.

--Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil.

--No havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma...

--Mais honra haveria em vencl-o.

--Esta provincia  um terreno onde as velhas plantas duram eternamente.
No ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as
derrubem.

--Mas deve confessar que so bellas e boas arvores essas!

--Algumas; outras so inuteis e damninhas, e fariam muito bem se
cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra
pergunta: e Bertha ama a Mauricio?

Jorge crou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu
apenas:

--Talvez.

A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz
do padre procurador pedindo licena para entrar.

Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular,
que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupao
de espirito.

--Ento, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas
ruinas?--perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa.

--Excellentemente, minha senhora. Ento at direi a v. exc. que ha
muito tempo no dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu
paladar.

--Sim? O Gavio merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe!  capaz de
se me estragar de vaidade. No o gabe na presena. Recommendo-lhe toda a
discrio, snr. frei Januario. Olhe l.

--Mas  que  verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc. aquelles
bifes hoje ao almoo? Olhe que aquelles bifes!... No lhe digo nada! O
rapaz  geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me d
cuidado.

--Ento que ?--perguntou a baroneza, recostando-se--No quer sentar-se,
snr. frei Januario?

O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se.

--O snr. D. Luiz--disse elle, interrompendo-se a cada momento--emfim...
eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido....

--Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz
debaixo do capote. Depois far os commentarios, que entenderemos e
apreciaremos melhor.

--O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me
dizer... para me ordenar....

--O qu?

--Para me confiar de novo a procurao que me retirra, e ordenar-me que
participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim....

--Cumpra-se a vontade de meu pae--disse Jorge--e Deus permitia que elle
tenha motivos para se applaudir por ella.

--Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz--observou
francamente a baroneza--confesso que fazia. E o snr. frei Januario
acha-se com foras de desenredar esta meiada, embaraada como est?

--Pois ahi  que bate o ponto--acudiu o egresso.--Eu...  verdade que
por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais no fiz, foi
porque os tempos eram o que ns todos sabemos. Mas, depois que o snr.
Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.? Eu
tinha c o meu systema e por elle me guiava. Agora porm venho encontrar
as coisas todas mudadas e... emfim, pde ser que estejam muito bem, no
digo menos d'isso, mas eu  que no as entendo. Para pr tudo outra vez
no p de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar
no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a
verdade, j no estou na idade d'isso.

--E ento que tenciona fazer?

--Eu sei? O fidalgo no ha quem o convena. Credo! Vo l hoje
contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim
lembrava-me....

--O que lhe lembra, snr. frei Janurio?--perguntou Gabriella, fitando-o
com olhar penetrante.

--Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de
fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direco da casa,
mas, por baixo de mo, continuar o snr. Jorge a levar as coisas l pelo
seu systema.

--E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei
Januario? Repare bem. J sabe a que portas costumo ir bater, quando
preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenas e
opinies devem soffrer com isso.

--E a mim que me importa?--tornou o padre impaciente--A final de contas,
a casa  sua e no minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu.

--No depe muito a favor da sinceridade do seu affecto  minha famlia
esse dizer. Eu queria antes vl-o oppondo-se energicamente 
administrao viciosa que principiei.

O padre no tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a
inspeco de Jorge, a quem tomra um mdo excessivo; tentava porm
colorir airosamente a proposta que alli viera fazer.

A baroneza interpellou-o muito terminantemente.

--A sua posio n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes
do seu caracter e da sua misso traam-lhe distinctamente o caminho que
deve seguir. Ou entende na sua consciencia que pde fazer mais e melhor
do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a
convico contraria e s ento  admissivel a sua proposta, mas depois
de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella.

O padre torceu-se, balbuciando:

--Eu no digo... isto ... quero dizer... no estado em que as coisas
esto... no p em que as puzeram.... Sim... cada qual tem l o seu
systema... e eu... sim, v. exc. bem sabe....

--Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na
administrao do primo?

--Defeitos... defeitos... no digo defeitos....

--Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. No se admittem palavras
ambiguas.

--No, minha senhora, eu no tenho reparos a fazer... quero dizer....

--Achou-a boa?

--Sim... achei... isto ....

--Parece-lhe que no  capaz de fazer melhor?

--No tenho vaidades....

--Tem medo de estragar o bem que est feito?

--Todos podem errar... emfim....

--Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, no discordar
do seu parecer. No  verdade, Jorge?

--Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas no me eximo a
esforo algum para salvar a minha casa.

--Muito bem; agora o snr. frei Januario pde dizer ao tio Luiz que se
cumpriro as suas ordens, e o mais que ter a fazer  assignar, sem lr,
alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros
dias, porque eu confio ainda na boa razo do tio. E agora cma, beba e
durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado.

O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da
baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar
a sua inaptido administrativa.



*FIM DO PRIMEIRO VOLUME*




OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA




OS FIDALGOS

DA

CASA MOURISCA


CHRONICA DA ALDEIA

POR

*JLIO DINIZ*


VOLUME II

*PORTO*
TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31

1871




XIX


Emquanto frei Januario conferenciava com Jorge e com a baroneza sobre a
maneira de melhor harmonisar a vontade e as ordens expressas do fidalgo
com os interesses da casa e com a commodidade pessoal de sua
reverendissima, D. Luiz, a quem desde a vespera uma impaciencia nervosa
no deixava repousar ainda, e que no podra conformar-se aos seus novos
habitos de vida, sahiu do quarto e veio passeiar agitado e meditativo na
vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos
retratos da familia.

No vergava sob uma ideia unica e exclusiva o espirito do velho fidalgo,
perdia-se no redemoinhar de ideias diversas e antagonistas, que umas s
outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos e at
remorsos dos seus passados odios e vinganas, eram os demonios
perseguidores e implacaveis, cujo voltear phantastico, rapido como o de
um circulo de feiticeiras, quasi lhe alienava a razo, ferindo-a de
vertigem.

D. Luiz envelhecra ultimamente de uma maneira rapida. De encontro  sua
organisao robusta, quebrra-se por muito tempo a fora da corrente dos
annos e amortecera a violencia dos embates da adversidade, sem que elle
experimentasse a leve vacillao que preludia a queda. Porm desde o
momento em que se manifestaram os primeiros signaes de fraqueza, o
progresso na declinao foi rapido, e de dia para dia sentia-se
desfallecer aquelle corpo vigoroso e aquelle espirito energico.

A manh estava sombria, o co carregado e a chuva mida, continua,
persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora por
isso; porque um dia de inverno sem vento  como a tristeza sem a
exploso das paixes, perde-se a esperana de o vr terminar.

A sala em que D. Luiz passeiava era a menos confortavelmente mobilada de
toda a casa; o alto fogo, que occupava o espao das duas janellas,
jazia apagado, frio, e conservando apenas, como memoria da vida que j o
animra, as cinzas sem calor. O aspecto de um fogo apagado  triste;
tem o que quer que seja de um cadaver. A tristeza da manh e a tristeza
da sala augmentavam evidentemente com a presena d'esse fogo. Por muito
tempo apenas o som dos passos do fidalgo despertava os eccos d'aquellas
altas e despidas paredes e tectos elevados.

De repente porm ouviu-se rumor  porta da entrada.

D. Luiz voltou para alli instinctivamente os olhos, sentindo que alguem
a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao vr surgir
detraz do reposteiro a figura de Thom da Herdade.

O pae de Bertha vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada.
Trazia as faces mais afogueadas do que o costume, e os olhos mais
brilhantes. Em cada gesto e em cada movimento denunciava uma funda
agitao, que lhe no era habitual. Ao avistar D. Luiz, no pde reter
uma exclamao, como quem dra com o objecto que anciosamente procurava.

Vencida a turbao dos primeiros instantes, o senhor da Casa Mourisca
fez uma cortezia muito grave ao recem-chegado, e dispz-se para sahir da
sala.

Thom da Povoa no lh'o permittiu.

--No, no, tenha paciencia, snr. D. Luiz, no se retira assim. Eu vim
para lhe fallar e no me vou embora sem o fazer.

D. Luiz parou e respondeu friamente:

--Os negocios da minha casa tractam-se com o meu procurador. Eu no
posso...

--Deixemo-nos d'isso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o
procurador de v. exc.. No foi elle quem me offendeu; no  a elle que
devo dirigir-me.

--Ah! ento vem aqui pedir-me satisfaes?!

--Venho, sim, senhor.

--Tem graa!--observou o fidalgo, com um sorriso cheio de aristocratico
sarcasmo.

--Ento v. exc. acha que um homem que  insultado, no tem o direito de
vir perguntar  pessoa que o insultou a razo por que o fez?

--E suppe que eu j alguma vez me occupei a insultal-o?

--Supponho, sim, senhor; e supponho mais, supponho que v. exc. bem sabe
quando e de que maneira me insultou. Porque era preciso no ter brios
para imaginar que um homem de bem no se offenderia com aces, como as
de v. exc. para commigo.

--Ora essa! commentou D. Luiz, voltando-lhe as costas e caminhando
desdenhosamente para a janella.

Thom da Povoa, a quem este movimento augmentou a excitao de que j
estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso
interlocutor.

O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.

--Vem aqui decidido a alguma violencia, ao que parece.

A irritao de Thom desvaneceu-se. O olhar de D. Luiz parecia
avivar-lhe memorias do tempo, em que elle se costumra a obedecer-lhe e
a teml-o quasi.

A reflexo venceu esta timidez de instincto, comtudo foi menos
aggressivo do que at ahi que elle respondeu:

--No, snr. D. Luiz; venho aqui decidido a explicar-me.  preciso que
fiquemos ambos sabendo o que um e outro somos. No posso por mais tempo
soffrer calado os desprezes e as desfeitas de v. exc., sem perguntar
qual o motivo que dei para ellas. Palavra de honra, snr. D. Luiz, que,
por mais que me mate, no posso vr em toda a minha vida uma s aco,
uma unica, que me merecesse da parte de v. exc. este procedimento para
commigo; no posso.

--Est sonhando, Thom? Cuida que eu no tenho mais em que pensar do que
em desfeiteal-o? Que mania se lhe metteu na cabea!

--E que foi seno uma desfeita o que v. exc. me fez no outro dia, indo
 porta da minha casa entregar nas mos da minha propria filha as chaves
do seu palacio, que deixou s por que eu havia adiantado ao snr. Jorge
um pouco de dinheiro por um contracto honesto e leal? Que foi aquillo
seno uma desfeita?

--Se no comprehende os motivos que me levaram quelle passo, no sei
que lhe faa. Nas familias, como a minha, ha certas regras tradicionaes
de conducta que talvez paream estranhas a outras, educadas em habitos
differentes, no que eu no tenho culpa....

--Entendo o que quer dizer, snr. D. Luiz. Foi aco de fidalgo a sua, e,
por ser tal, eu, que nasci em palhas, no posso entendl-a bem. Mas
porque  que s commigo usa v. exc. das taes aces? Por acaso fui eu o
primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca? Quando o
padre procurador de v. exc. andava por ahi batendo de porta em porta a
levantar dinheiro, no para o empregar em melhoramentos que, mais anno
menos anno, podssem remir a divida, mas para o desperdiar sem tom nem
som, e obtinha esses capitaes a 10, 12 e 15 por cento; quando elle
lavrava hypothecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de m f, que
faziam d'elle o que queriam, o orgulho de v. exc. nunca o obrigou a
sahir de sua casa, que se perdia n'esse andar, e a ir pr as chaves
d'ella nas mos d'esses usurarios, que viviam  custa das tolices e dos
desperdicios do padre; e agora ento todo se espinhou por que eu,
honestamente e sem m teno, antes pelo muito amor que ainda tenho a
esta familia e a estes meninos que trouxe ao collo, puz  disposio de
um d'elles, que  hoje um rapaz de juizo, o dinheiro de que precisava
para se ir livrando da usura, que o roa at os ossos, e emendar os
erros da administrao do padre! S agora  que v. exc. se sente ferido
na sua fidalguia e sahe da casa, em que vive ha tantos annos, clamando
que j no  sua. Isto  collocar-me abaixo d'esses miseraveis, a quem
me pejo de apertar a mo. O contracto feito entre mim e o filho de v.
exc.  um contracto que no envergonha nem a mim nem a elle. Pde
apparecer  luz do dia, e tenha a certeza de que no ha de haver muitos,
mais de cavalheiros do que elle. No dei dinheiro sem garantias, nem
tambm o dei com usura. Nenhum de ns aceitou favor do outro. Ento qual
 a razo dos escrupulos de v. exc.?

--Vejo que est mais informado dos negocios de minha casa, do que eu
proprio. Pde ser que eu devesse ha mais tempo fazer o que fiz. A culpa
 da minha ignorancia. Quando porm to publica foi a confisso da nossa
baixeza, a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.

--A dignidade... a dignidade... Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que lhe
falle a verdade, eu j no sei bem o que seja dignidade, quando vejo o
que por ahi se faz  conta d'ella. Dignidade acho eu que a tem tido seu
filho, trabalhando como um homem de bem, para desempenhar a sua casa, e
confessando diante de todos os seus actos, que no o envergonham;
dignidade teve elle, quando defendeu uma pobre rapariga das calumnias de
uns miseraveis, que tambem se dizem fidalgos, e que tambem fallam muito
na sua dignidade.

--Creio que  melhor no discutirmos. Os nossos principios so diversos,
no podemos entender-nos.

--No ha tal. Os nossos principios, aquelles que me levam a fallar, so
os mesmos, so os de qualquer homem de bem. E eu przo-me de o ser e v.
exc. tambem o . Havemos de entender-nos por fora. N'isto at o homem
e Deus se entendem, no  muito que v. exc., por mais fidalgo que seja,
se entenda commigo.

--Mas que quer a final? No terei eu a liberdade de deixar a minha casa
quando entender que me convem fazl-o? No serei o mais competente juiz
das minhas aces?

--V. exc. sahiu de sua casa, declarando a todos porque era que o fazia;
e j ahi o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos. Depois foi
affligir a minha pobre Bertha, que nada sabe d'estas coisas, obrigando-a
a aceitar as chaves da Casa Mourisca para m'as entregar, como se eu
fosse um miseravel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a
confiana que seu filho pz em mim! As novidades correm depressa na
aldeia e no falta gente para denegrir o caracter de um homem. Depois do
passo que v. exc. deu, o que se no ter dito? Que eu andava sugando os
ultimos restos de sangue da sua familia e abusando da boa f e da pouca
experiencia do seu filho, mas que o fidalgo me desmascarou a tempo! E se
se disser isto, no sentir v. exc. remorsos por ter dado azo a uma
calumnia? Falle-me francamente, fidalgo, aqui diante de mim e de Deus
que nos ouve, em sua consciencia e sob a sua palavra de honra, que
sempre honrou, falle-me franco, snr. D. Luiz; em toda a minha vida,
desde os tempos em que servi a sua casa at hoje, no meio dos meus
trabalhos, das minhas felicidades e dos meus revezes, pratiquei j
alguma aco que obrigue v. exc. a desconfiar de mim? Falle-me franco,
snr. D. Luiz. Hoje mesmo, agora, n'este momento em que me v e me
escuta, cr, na sua consciencia, que est na presena de um miseravel?

D. Luiz respondeu sem hesitar e em tom grave e digno:

--No, nunca o accusei, Thom, e creio que  um homem trabalhador e
honrado.

--Ento para que ha de ter smente para mim essa m vontade? Para que me
ha de desprezar como se eu fosse um vil? a mim, que o servi fielmente,
emquanto o servi, que ento ganhei e conservei at hoje  sua familia um
amor c de dentro, como se ella me pertencesse, que chorei a sua pobre
menina, aquelle anjo que Deus lhe levou, como choraria morta uma filha
minha? Para que ha de ter s para este homem, que apenas bens deseja 
sua casa, esses desprezes e essas afrontas? para este homem, que tem uma
filha que lhe chama padrinho? E no quer que eu me sinta? Pois julga que
no ha aqui dentro um corao? Ah! fidalgo, fidalgo, creia o que lhe
digo, em cada um d'esses jornaleiros que passam o dia vergados a
trabalhar nas propriedades de v. exc., ha um corao de carne como o
dos nobres; e emquanto elles trabalham, elle no pra de bater.

--Est inventando aggravos para se dar por aggravado. Nunca tive teno
de offendl-o. N'estes ultimos tempos azedou-se-me um tanto o genio, e
confesso que no me  demasiado agradavel a convivencia dos homens. Eis
o motivo por que vivo retirado.

--Snr. D. Luiz, v. exc. no  franco. No ha por essa aldeia quem no
saiba que os filhos de v. exc., se alguma vez se atrevem a procurar a
Herdade em que eu vivo, correm o risco do desagrado do pae. No sei quem
 que em minha casa os pde corromper. V. exc. porm acha menos
perigosa para elles a companhia dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha.
O snr. Jorge fez mal em arriscar-se a entrar n'aquella casa
excommungada; mais seguro andou o snr. Mauricio frequentando a dos
primos, apesar de..., perdoe-me a sua fidalguia, apesar de no serem
mais do que uns bebedos, uns devassos e uns calumniadores.

--Est fora de si, Thom--observou o fidalgo, que crou ao ouvir estas
affrontas a uns parentes to proximos, mas a quem no se sentia com
animo de desaggravar.--Terminemos esta desagradavel conferencia. Que
quer a final de mim?

--Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me no servem para
nada--respondeu Thom, tirando do bolso o molho de chaves, que Bertha
recebra do fidalgo.

D. Luiz com um gesto desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe
offerecia.

-- inutil insistir. A minha resoluo est formada.

--Mas  uma resoluo disparatada; perdoe-me dizer-lh'o, fidalgo, uma
resoluo sem valor algum, sem significao perante a lei, sem effeito
seno o de affrontar-me.

--Eu j lhe disse que ns temos umas leis especiaes por que nos
regulamos.

--Ento se v. exc. entende que deve pr nas mos dos seus credores as
chaves de sua casa,  preciso saber quem tem mais direito a ellas. Na
lista no est s escripto o meu nome. Deite v. exc. prego para saber
quem deve ser o depositario d'isso, que eu por mim sou o menos
habilitado.

E Thom da Povoa arrojou sobre a mesa as chaves, com irritao
crescente.

D. Luiz fitou-o por momentos com um olhar de clera, que aquelle
movimento desafira, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza:

--Leve comsigo as chaves, Thom! A minha dignidade no me consente ficar
com ellas. Fiz um protesto, hei de cumpril-o. Se os meus credores so
muitos, seja o representante d'elles todos. Em poucos posso depositar
mais confiana.

--Muito agradecido pela confiana que mostra.... Olhe, fidalgo, quer que
lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o que penso d'este
maior rigor commigo? Pois oua. Cada qual tem os seus defeitos; o meu 
o da franqueza. A razo de tudo isto est no grande orgulho de v. exc..
 o que eu lhe digo.

--Pde ser; o orgulho  o defeito de certa classe....

--Pois no lh'o invejo, nem lh'o gabo. Orgulho entendo eu que se deve
ter de certa maneira; d'essa no, que no  nobre. V. exc. prza muito
o nome de sua familia, deve ento trabalhar honestamente para o
conservar illustre. Mas no receie que lhe possa fazer sombra a casa do
seu antigo criado, ainda que em cada anno elle levante um sobrado e
metta mais um campo dentro dos muros da quinta. O valle que nos separa 
muito largo, fidalgo; e ainda quando o sol se esconde, a sombra da minha
chamin no chega nem sequer ao principio dos dominios de v. exc..
Deixe-me pois crescer, snr. D. Luiz, e no me leve a mal o trabalhar
para ganhar para meus filhos po, que no lhes falte para o futuro.

D. Luiz, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se ellas o ferissem
no vivo; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tal a sua
perturbao que, sem tirar os olhos do fazendeiro, no pde articular
uma palavra que lhe respondesse.

Thom proseguiu mais exaltado:

--Deixe-me crescer e medrar, fidalgo, que as minhas plantaes para
terem vio, no vo roubar o succo das suas terras. No  por isso que
ellas esto maninhas, no. E se quizer offuscar-me, deixe seu filho
Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve a
Deus, em tornar a sua casa no que ella foi em outros tempos. Ento sim,
ento ter razo o orgulho de v. exc., porque ninguem ser mais para
louvar e admirar do que o moo que der um tal exemplo, a criana que se
fez homem para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a
sua casa, e que por isso no deixou de ser fidalgo, antes mais do que
nunca mostrou que o era. Este orgulho entende-se; mas ha um de m casta,
que se parece muito com a inveja.

A esta ultima palavra D. Luiz no conteve um movimento de violencia.

--Basta. Desde que principia a ser insolente, no devo escutal-o. Talvez
tenha feito mal em ouvil-o tanto tempo. Do motivo das minhas aces s
tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que no recebo essas
chaves, nem volto para a Casa Mourisca, emquanto no estiverem saldadas
as minhas contas comsigo.

--Commigo! E sempre commigo? Pois bem; teima em offender-me?... aceito
as chaves, levo-as para casa. Mas fao-lhe aqui, eu tambem, um protesto,
fidalgo. Juro que hei de, a seu pezar, fazer-lhe o bem que podr. Se os
meus soccorros o humilham e envergonham, ha de ter a paciencia de se
humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou
trabalhar como nunca na restaurao da sua casa. Ah! cuida que  s
desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se.
Enganou-se. Apre! Eu tambm tenho vontade. Ha de vr com quem se metteu.
Ainda que o fidalgo quizesse agora dar cabo do que lhe resta, eu lhe
juro que no o conseguiria. Fica por minha conta a empreza de pr no p
em que esteve a sua casa e a sua propriedade. Ora aqui est. Agora
queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me  vontade; ande, no tenha
escrupulos. A minha teno est formada. No quero saber se o seu
orgulho se offende, ou se se no offende. Se se offender, tanto melhor,
que d'elle tambem  que eu recebi offensa. Apre! Cuidam que ns no
temos brio nem pundonor?  s affrontar-nos como se no fossemos capazes
de sentir? Sim? Elle  isso? Pois ns veremos. Ora deixa estar que eu
lhes direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves,
no quer? Pois no, com muito gosto. Olhe, c as levo. V? Passe muito
bem v. exc., passe muito bem. Eu lhe prometto que ha de ter noticias
minhas. Ora  boa! A paciencia esgota-se. A gente tambem tem c uma
medida de soffrer; cheia ella, acabou-se, vae tudo por ahi fra. Adeus,
fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe hei de fazer todo o bem que
podr.

E Thom da Povoa, inflammado n'aquelle ardente desejo de sancta e
honrada vingana, sahiu da sala, resmoneando ainda:

--Estes fidalgos que cuidam que a outra gente no sente! Ora deixa que
j que elle tanto se espinha com o bem que lhe fao, eu o flagellarei.
Vou tomar mais a peito a casa d'elle do que a minha, e se eu no
conseguir o que quero... Ora deixa estar! Apre! Que  demais!

D. Luiz ficou ainda mais triste e pensativo depois que Thom se retirou.

A seu pezar a entrevista com o fazendeiro impressionra-o profundamente.

O honesto caracter do pae de Bertha transparecia to claro sob a franca
rudeza da sua linguagem!

A unica vingana concebida por aquelle velho, no auge de indignao
contra a humilhadora aristocracia do seu nobre visinho, era mais uma
prova da sua generosa indole.

Vingava-se a fazer bem! E o mais  que se vingaria, se o conseguisse
fazer. O beneficio recebido das mos d'elle seria peior castigo para D.
Luiz, do que a perseguio mais cruel.

O fidalgo sentia-o no intimo da consciencia, e um pensamento, que nem as
palavras ousaram formular, atravessou-lhe-o espirito como a luz rapida
do relampago.

--Ter razo este homem? Ser inveja isto?!... Inveja!...

Passados momentos pensava ainda:

--O que  certo  que  um homem honrado. Porque me irrito pois com o
auxilio que vem d'elle?... Inveja!

E, perseguido por este grito da consciencia, D. Luiz correu a
encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia.




XX


A violencia das impresses que deixra em Thom da Povoa a entrevista
com o fidalgo da Casa Mourisca no era para se desvanecer com o inquieto
somno de uma s noite.

No dia seguinte, pela manh, o fazendeiro acordou ainda indignado e
firme na resoluo que abrara, de se vingar a seu modo. Nem o animo
impaciente lhe soffria grande demora na execuo.

Logo de madrugada principiou a dispr as coisas para n'aquelle mesmo dia
inaugurar a empreza. Deu contra-ordens a criados que tinham servio
talhado de vespera, foi mais expedito na visita quotidiana s diversas
reparties do casal, afagou mais distrahido a egoa fiel, que lhe
cheirava os bolsos, habituaes portadores de uma lambarice matutina, deu
um beijo nas crianas, sem se demorar a fazl-as saltar nos joelhos,
mandou que lhe fizessem o almoo mais cedo, depois de almoar calado,
contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que tres criados se
preparassem para sahir com elle, levando alguns instrumentos de lavoura,
e a final acabou por pedir  mulher as chaves da Casa Mourisca.

Luiza, a boa, a prudente Luiza, que desde a vespera observava, sem
reflexes, os signaes de desassocego de espirito que manifestava o
marido, no pde, ao ouvir a ultima ordem, reprimir um movimento de
estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugal, disse,
olhando fixamente Thom:

--As chaves da Casa Mourisca?! Para que queres tu as chaves da Casa
Mourisca?

--Provavelmente para abrir as portas.

--E tu vaes l?

--Vou, e olha que j ha mais tempo l me queria.

--E que vaes tu fazer  Casa Mourisca, Thom?

--O que vou fazer? Vou trabalhar.

--Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?!

--Tomal-a de renda? Para qu? Ento o fidalgo no me deu as chaves?
Ento no embirrou em que eu havia de ficar com ellas? Pois para
espantalho no me servem c em casa. As chaves so para abrir as portas,
e quem as tem entra quando quer.

--Sim, mas que tens l que fazer?

--Oh! no me falta tarefa. Aquillo no viu enxada ha bom tempo. Os canos
esto entupidos, as minas por limpar, os tanques rtos, as ruas cobertas
de herva, os muros no cho, e tudo o mais por este gosto.

--E ento tu  que vaes pr isso tudo em ordem?

--Vou, sim senhora.  assim que hei de ensinar aquelle soberbo, que se
julga deshonrado, s por que eu lhe fiz um servio insignificante. Pois
agora veremos como roe estes que lhe vou fazer. Olha, mulher, vs
aquelle casaro negro, coroado de dentes, muitos dos quaes j lhe
cahiram de velhos? Pois se eu no lhe puzer dentadura nova e lhe lavar
aquelle cara, de maneira que parea que est a rir e perca o ar
carrancudo com que d'alli nos olha, no seja eu quem sou.

--Tu no ests em ti, Thom. V l no que te vaes metter. So despezas
grandes, e nem tu tens direito para similhante coisa.

--No sei de historias. O homem no quer tomar conta da casa emquanto
no pagar as suas dividas; pz-m'a ao meu cuidado e eu do que est ao
meu cuidado cuido assim.

--Ih! Jesus, que homem este! No faas as coisas no ar, Thom.

--Qual no ar; prometti que hei de trabalhar para pr aquella casa em
cima, s para fazer uma pirraa ao fidalgo; e ainda que tenha de
hypothecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus filhos,
hei de fazl-o.

--Mas, j fallaste com o snr. Jorge a esse respeito?

--No, nem preciso.

--Pois devias fallar.  um rapaz ajuizado e que pe as coisas no seu
logar.

--O que elle me vinha dizer sei eu, e por isso  que no desejo
fallar-lhe, porque no quero que me tire isto da cabea, nem quero
brigar com elle. Mas os rapazes j esto  minha espera. Vamos l. D c
as chaves, ouviste?

--Thom, Thom! Olha l o que fazes! Eu no sei...

--Pois por isso; se no sabes, deixa-me c. Basta-me a chave grande. Eu
hoje no passo da quinta.

E pegando na chave que a mulher lhe deu a medo, o lavrador sahiu 
frente dos tres criados, em direco da Casa Mourisca.

Luiza, a cujo bom senso no agradava a resoluo do marido, veio
desabafar com a filha.

O que sobre tudo levava a mal a bondosa Luiza era o no haver o marido
consultado Jorge. Para Luiza Jorge era um conselheiro infallivel. A
sympathia que sempre lhe inspirra aquella criana, que se no mettia
com ninguem como a boa mulher tantas vezes dizia, crescra e
misturra-se  admirao, ao respeito e  absoluta confiana, assim que
o viu, adolescente, tomar aos hombros o pesado encargo da direco e
reforma da sua casa, e que ouviu os louvores em que o enthusiasmo de
Thom se desafogava, fallando d'elle. Luiza afez-se a suppl-o um ente
privilegiado, incapaz de errar, com faculdades creadas para levar ao fim
qualquer empreza e realisar todas as suas tenes, por menos exequiveis
que parecessem.

O dogma da infallibilidade de Jorge fra por ella definido.

Transpirra alm d'isso c fra o grande successo do dia do jantar na
Casa Mourisca, e por ventura a verso mais seguida sahira colorida por
aquellas tintas maravilhosas, com que o povo illumina as suas
narrativas. O que  certo  que este facto acabou de divinisar Jorge no
conceito de Luiza, e agora menos do que nunca ella estava disposta a
perdoar ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz to
brioso e prudente.

Bertha escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste. Ouviu, sem
a interromper, a longa exposio das excellentes qualidades do filho
mais velho do fidalgo e os artigos de benevola accusao, acremente
formulados contra Thom por quem alis menos do que ninguem estava
disposta a condemnal-o.

De quando em quando a vista de Bertha erguia-se para o vulto escuro da
Casa Mourisca, e parecia que o aspecto d'ella lhe augmentava a
melancolia.

Luiza sahiu emfim da sala, chamada por as exigencias do servio
domestico.

Bertha ficou s. Reclinando a cabea  mo e apoiada no peitoril da
janella, conservou por muito tempo a immobilidade e a fixidez do olhar,
que denunciava uma grande abstraco.

Em que pensaria Bertha?

Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar sobre a
fronte aquellas sombras de tristeza?

Operava-se uma revoluo moral n'aquelle espirito. Bertha sahira criana
da aldeia, levando entre as mais agradaveis memorias da infancia, a dos
momentos passados na Casa Mourisca e a das pessoas a quem alli dra
ento os seus primeiros affectos.

Crescra, e essas imagens modificaram-se pela influencia do amor na
phantasia, pela influencia de solido e dos devaneios de juventude; a de
Beatriz, como que sanctificada pela morte, cercra-se de um resplendor
angelico, claro e suave como os raios do luar em luminosas noites de
estio; a de Jorge apparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem
se no confiam puerilidades do corao, mas de que se pde esperar
auxilio e conselho nas provaes da vida; a de Mauricio, porm, fra a
que a imaginao que despertava, colorira de mais seductores reflexos. O
seu campeo da infancia assumira as frmas nobres e prestigiosas dos
heroes de todos os poemas de amor. Belleza propria de uma juventude
varonil, coragem, generosidade, tudo quanto exalta e ennobrece a alma, a
phantasia d'aquella rapariga, entregue a si, elaborando a ss sobre as
memorias do passado, associra ao nome de Mauricio. Fra isto que Bertha
trouxera no corao para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ella a
razo bastante clara para no o tomar por outra coisa mais real do que
um verdadeiro romance, e bastante poder de reflexo para no se deixar
dominar por elle.

Percebendo que em Mauricio no estavam ainda extinctas tambem as
memorias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam
d'elle luz e calor, Bertha assustou-se, desconfiou de si, e mais do que
nunca procurou precaver-se, fugindo  influencia de que se temia, mas
cedendo a ella sem querer.

Seguiram-se porm as scenas que sabemos; e o iris que rodeava Mauricio
aos olhos de Bertha, dissipou-se como um verdadeiro iris em tardes
humidas de inverno.

O ideal de Bertha no era smente bello, era generoso e impeccavel, e
Mauricio no attingia to alto. O instincto do corao denunciou a
Bertha o segredo do caracter de Mauricio; no havia depravao n'elle,
smente leviandade e insconstancia; mas j era bastante para o
desprestigiar. Nem leviano, nem inconstante era o Mauricio que sonhra.
Pelo contrario, de dia para dia lhe apparecia mais na sua verdadeira luz
o caracter de Jorge, d'esse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado
por todos. As suas qualidades moraes attrahiram emfim a atteno de
Bertha, e muita vez, emquanto conversava com Thom, absorvido em uns
vastos e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos
irregulares caminhos dos campos, era elle, sem o suspeitar, o objecto da
contemplao de Bertha, em quem s ento parecia terem feito impresso a
nobreza e intelligencia, que nos gestos, na physionomia e nas palavras
d'aquelle adolescente se revelavam.

A scena do jantar na Casa Mourisca augmentou a intensidade d'estas
nascentes impresses. Nem podia deixar de ser assim.

 natural suppr que a imagem de Jorge, d'esse rapaz corajoso e leal,
que perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se ergura a
reivindicar a boa fama da familia plebeia, perfidamente calumniada por
um d'elles, occupasse o pensamento da que mais soffrra da calumnia, e
offuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrra para levantar
o aleive.

Poderia deixar de insinuar-se em um corao aberto a sentimentos
generosos, como era o de Bertha, esse rapaz de vinte annos, diante de
quem os velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres
qualidades de alma e pela superioridade da sua intelligencia?

Uma outra causa influira porm, alm d'estas, no espirito de Bertha e no
mesmo sentido que ellas; ainda que  primeira vista se podsse julgar
que diversa deveria ter sido a sua aco.

Esta causa fra a frieza, a quasi hostilidade delicada com que Jorge a
tractava. Bertha no se illudia. Via bem claro que Jorge lhe fallava
sempre constrangido, e como se tivesse pressa de interromper um dialogo,
que o impacientava. s vezes havia nas palavras que d'elle obtinha, um
leve tom de ironia, que ella no sabia a que attribuisse. Este proceder
de Jorge deu que pensar a Bertha. Formando um conceito elevado do so
juizo e da seriedade do joven amigo de seu pae, convencia-se de que
aquellas maneiras frias com que era tractada por elle, no podiam deixar
de ter um fundamento. E este fundamento occulto procurava-o Bertha com
ancia em si mesma, estudava profundamente o seu proprio caracter, na
esperana de descobrir a soluo d'este enigma que a affligia; e ao
mesmo tempo estudava em Jorge o effeito dos esforos com que fazia por
vencer aquella preveno, qualquer que fosse.

Succedeu o que era natural que succedesse. No  sem perigo que a
imaginao de uma rapariga como Bertha se entrega ao estudo de um
caracter de rapaz, como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado e
conhecido.  medida que caracteres como este melhor se observam, mais
virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos vicios latentes
vo a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma attenta observao,
e destruindo a impresso favoravel que ao principio produziram.

Bertha reconheceu um dia que no obrigra impunemente o espirito a
pensar a todo o instante em Jorge.

Assustou-a a descoberta, mas o effeito j no podia evital-o. Inquieta
com os novos sentimentos que lhe invadiam o corao e a levavam a estas
vagas apprehenses, quellas tristezas que to frequentes lhe estavam
sendo, no era outro o motivo da distraco com que escutra a me e da
melancolia em que se deixou ficar  janella, depois que ella sahiu.

De repente estremeceu.

Jorge, que j no procurava occultar-se nas visitas que fazia a Thom, e
dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu caracter,
acabra de entrar no pateo da Herdade, e desmontando-se, prendia o
cavallo, em que viera, ao esteio da ramada.

Alguns criados que andavam por alli, occupados em diversos servios de
lavoura, descobriram-se ao vl-o entrar. Jorge cortejou-os com
affabilidade e passou a interrogal-os sobre promenores de trabalho em
que elles se entretinham. Os homens davam-lhe as informaes pedidas com
os maiores signaes de deferencia.

Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam  sala onde
estava Bertha. Ao vl-o subir o primeiro degrau, ella tentou retirar-se;
mas susteve-a uma inexplicavel hesitao, e quando Jorge abriu a porta,
ainda a encontrou na sala.

O olhar de Jorge desviou-se de Bertha, como se contrariado com a sua
presena.

--Vim talvez importunal-a? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui--disse
Jorge com apparente placidez.

Bertha no estava menos constrangida, ao responder-lhe:

--Importunar-me? De maneira alguma.... Eu  que sinto que meu pae no
esteja em casa, que  de certo quem o snr. Jorge procurava.

--Ah! seu pae no est em casa?

--No; sahiu agora mesmo.

Bertha no ousou dizer para onde.

O nome da Casa Mourisca recordaria a scena do jantar, e Bertha tremia de
recordal-a diante de Jorge.

Este caminhou para a janella, distrahidamente. E passeiando a vista por
os campos, perguntou, sem ainda olhar para Bertha:

--No sabe se o pae tardar muito?

--Eu... julgo que sim... Mas talvez minha me o possa informar melhor.

A proposito chegava Luiza para dar as informaes precisas e para fazer
cessar o constrangimento d'aquelle dialogo, cuja prolongao seria um
martyrio para ambos.

--Ah! snr. Jorge, snr. Jorge--exclamou Luiza logo que o viu--ainda bem
que veio, e pena  que no viesse meia hora mais cedo.

--Ento era c to necessaria a minha presena?

--Ora se era! Eu ponho as mos n'umas horas se estando c o snr. Jorge,
se mettia aquella scisma na cabea do meu Thom.

--Que scisma  essa de que falla?

--Pois ento no sabe para o que havia de dar quelle homem de Christo?

--No sei, no.

-- Bertha, ento tu no disseste ao snr. Jorge para onde teu pae foi?

--Eu... eu ignorava...

--Ora adeus! Se eu no tenho fallado de outra coisa, desde que elle
sahiu! Ignorava! Vocs sempre teem coisas! Pois o meu Thom est a estas
horas na Casa Mourisca.

--A fazer o qu?

--Isso s elle sabe e Deus. Mal almoou foi para l com tres criados.
Diz elle que j que o fidalgo teima em lhe pr as chaves em casa e que
todo se espinhou por elle lhe querer ser prestavel, vae fazer o bem que
podr a sua familia, e melhorar a quinta e a Casa Mourisca, e que ainda
que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos, se ha de vingar do
fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua mo. E tirem-lhe l
isso da cabea!

-- uma alma generosa a de Thom, mas eu o dissuadirei d'essa vingana,
que viria transtornar os meus planos e tirar-me a gloria, a que aspiro,
de trabalhar por minhas proprias mos n'essa obra de restaurao.

--Eu no o disse? Thom tu no faas nada sem fallares com o snr.
Jorge. Mas qual! Bem lhe importava elle com o que eu prgava!  um
bom-sers o meu Thom. Em vinte annos de casada, nunca me deu um
desgosto. Pde haver maridos to bons como elle, melhores no posso crr
que haja. Devo dizer o que  verdade. Mas, l de quando em quando, em se
lhe mettendo umas scismas na cabea! adeus, minhas encommendas! j se
lhe no d volta. S o snr. Jorge. Elle l ao snr. Jorge ainda cede. E o
que elle lhe no fizer escusam ahi de vir os poderes do mundo, que nada
fazem. L o snr. Jorge! credo! Isso basta ouvil-o fallar em si. Ora, no
 agora por estar presente, mas razo tem elle para fazer o que faz.

--Obrigado, snr. Luiza.

--Obrigado por qu?  filho, no, a minha bca no  para gabar quem no
o merece. Mas, diga-me c, que rapaz ha ahi que faa o que o menino faz?
Que na sua idade, em que emfim todos sabemos que o que se quer 
brincar, olha como um homem por a sua casa, como nem muitos velhos
sabem. E depois,  snr. Jorge, sempre lhe digo que ainda ha bem poucos
dias estes olhos choraram bastantes lagrimas por sua causa.

--Por minha causa?! Pois eu fil-a chorar, snr. Luiza?

--Oh! no foi por mal que me fizesse, foi porque emfim ... ha certas
aces, que bolem c dentro com uma pessoa e... quando me contaram o que
se passou em sua casa, com aquelles vadios de seus primos, e em que o
menino...

--Oh! no fallemos n'isso, snr. Luiza, que no vale a pena.

--Se no vale!... Olhe que no fui eu s que chorei. E Bertha?

--Ah! sinto devras ter sido motivo de um desgosto para Bertha--disse
Jorge no tom de que habitualmente usava fallando d'ella.

Bertha no pde responder.

--Desgosto?--acudiu Luiza--Ora essa! Antes ella deve agradecer-lhe; e
querem vr que ainda o no fizeste, Bertha?

A confuso de Bertha augmentou com esta arguio da me.

Jorge atalhou:

--Eu  que me esqueci de pedir a Bertha perdo por haver dado ensejo,
com os meus actos, a que o seu nome andasse por bcas de pessoas a todos
os respeitos indignas de pronuncial-o. Coisas minhas; ando to alheio ao
tracto do mundo, que a cada passo caio n'estas imprudencias, e sacrifico
os outros, sem o querer. Bertha tem razo para estranhar este caracter
bravio; mas espero que me perdoar.

Bertha ia a responder, mas era tal a sua commoo, augmentada pelo modo
por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu no lhe ser possivel
formular uma resposta; os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas e o rosto
trahiu-a.

Levantando-se agitada, sahiu da sala em silencio, como se precisasse de
estar s para desafogar em lagrimas a oppresso que a angustiava.

Luiza viu-a sahir e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza,
olhou para a porta, como se no soubesse explicar a scena a que
assistira.

--Estas raparigas teem uns modos! J viram uma coisa assim?!--murmurou
ella, passada a primeira surpreza.--Queira perdoar, snr. Jorge.

Igualmente enleiado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa,
fallando outra vez de Thom, em procura do qual sahiu poucos minutos
depois.

Assim que o viu deixar a sala, Luiza ficou pensativa por algum tempo e
no fim disse em voz alta, como era costume seu:

--Deixal-os. Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incrveis se teem
visto. Seja o que Deus quizer!

Ao passar no patamar das escadas que davam para o quinteiro, Jorge
encontrou alli Bertha, que parecia esperal-o. Cortejando-a, procurou nos
olhos d'ella o vestigio de lagrimas.

--Snr. Jorge--disse-lhe Bertha, com voz triste e levemente
tremula--perdoe-me a minha perturbao de ha pouco. Fui obrigada a sahir
da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento por o
muito que lhe devia; mas creia que no  porque o desconhea.

--O que me deve! Ento quer que lhe repita o que j l dentro lhe disse?
Eu sou que tenho a pedir perdo.

--Basta, snr. Jorge--atalhou Bertha, tentando sorrir, mas raiando-lhe o
sorriso por entre mal contidas lagrimas, como o sol no meio da chuva do
inverno.--Hoje no... mas... em outro dia... ha de dizer-me por que no
 meu amigo.

Jorge estremeceu, e olhando para ella repetiu:

--Por que no sou seu amigo?! Que quer dizer, Bertha?

--Oh! creia que ha signaes, que no enganam. Seja o que fr, mas no seu
pensamento ha alguma coisa contra mim, snr. Jorge.  pouco dissimulado,
bem v, no o pde disfarar.

--Bertha! mas que criancice! Pois que ha de haver contra si no meu
pensamento?

--No sei. Um dia m'o dir; no  verdade?  muito leal e muito generoso
para no m'o dizer. Bem v que preciso sabl-o para me emendar;
porque... eu desejava que fosse meu amigo, snr. Jorge. Todos o
respeitam, todos fallam na sua generosidade; espero que no a desmentir
commigo.

--Porm...--ia Jorge a objectar, quando Bertha o interrompeu, dizendo:

--Agora no, agora no. Lembre-se s de que eu fico acreditando que ser
sincero commigo, no dia em que eu o interrogar, e que de certo no se
recusar ento a fallar-me com franqueza. Adeus, snr. Jorge. Creia que
desejava devras que fosse to meu amigo, como  de meu pae.

E retirou-se depois de pronunciar estas palavras.

Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distrahido o cavallo que o
aguardava no quinteiro e deixou-lhe a redea livre, de maneira que o
animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe dra
abrigo, o caminho da Casa Mourisca.

Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os logares intermedios.
As palavras de Bertha, animadas por aquella sentida commoo, que a
dominava ao fallar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a
imagem da gentil rapariga, em quem uma grave expresso de dr mais
realava a belleza.

--E se voltar a interrogar-me--pensava Jorge--que posso eu dizer-lhe?
que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ella? Pobre
rapariga! Mas  certo que me parece que tenho sido um tanto rude, um
tanto desabrido... E porqu?

Jorge parecia n'este momento estar sondando o fundo do seu proprio
corao, para investigar a verdade. De repente fez um movimento com a
cabea, como tentando regeitar uma ideia pertinaz.

--Mas isto no pde ser, Senhor. Isto  uma loucura que no tem razo de
existir. Pois no hei de ter fora de a abafar  nascena? Acaso o
sangue de minha idade tambem me ha de fazer doidejar como aos outros? Eu
felizmente no possuo o temperamento de Mauricio e hei de vencer na
lucta, hei de. Mas em todo o caso  uma puerilidade a maneira por que
estou procedendo com Bertha. Porque  certo que o modo por que a tracto
no  natural.  medo de me trahir? Mais me traio ainda por esta frma.
 despeito por as attenes que a vejo dar a outro?... a meu irmo?! Mas
 uma vileza da minha parte... A meu irmo!...  verdade que se elle a
amasse devras... mas eu que o conheo...  uma loucura a final,  o que
. E fiem-se no juizo de um rapaz de vinte annos?! Ahi estou eu to
doido como qualquer d'esses estouvados. E o mais  que a mim  que se
no perdoaria a loucura. A loucura em um rapaz de juizo  um delicto
imperdoavel. Se soubessem por ahi... se descobrissem... E quem havia de
dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia to ajuizado!  como elles
principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha idade
mereceu que lhe chamassem um rapaz de juizo.  preciso a cada momento
suffocar a revolta do temperamento e da idade, luctar incessantemente
com a imaginao... E hei de luctar!  foroso que no deixe sahir c de
dentro os meus desvarios de rapaz. Doideje o corao  sua vontade,
comtanto que s eu o saiba... Mas a meta  commigo e no com ella...
Bertha tem razo em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha
hostilidade! Ah que se ella tivesse um olhar mais penetrante... D'isso 
que me receio... No ha que vr, hei de preoccupar tanto, tanto, tanto a
minha cabea com algarismos e negocios, que hei de por fora perder a
consciencia dos affectos, e  assim que hei de matal-os.

N'este momento vencia Jorge o declive que levava  porta principal da
Casa Mourisca. O caminho desaffrontado n'aquella altura de arvores e de
sebes altas subia  vista do casal de Thom e permittia descobrir na
encosta fronteira as veredas que para l conduziam.

Jorge desviou naturalmente a vista para aquelle sitio.

Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Bertha, na mesma
posio em que a deixra.

Alvoroou-se o corao do rapaz com isso; ao mesmo tempo porm ia
subindo na direco da Herdade, um cavalleiro que elle reconheceu ser
Mauricio.

Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente. Purpurearam-se-lhe
as faces por momentos, e a fronte contrahiu-se-lhe com uma expresso de
desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavallo, que at alli deixra
entregue ao capricho.

Mauricio, que tambem da outra margem avistra o irmo, fez-lhe um acno
com a mo, ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para a Casa Mourisca,
como a designar-lhe o destino do seu passeio. Mauricio replicou-lhe com
um movimento de brao, exprimindo que o seu giro era mais extenso e para
o outro lado. E na direco que seguia era inevitavel a passagem por
casa de Thom da Povoa.

--Por isso ella se demorou na varanda--murmurou Jorge com amargura--e
proseguiu olhando para Mauricio:

--Aquelle pde ser louco  sua vontade; ninguem lh'o estranhar, ningum
lhe far d'isso um crime. E a final talvez que de ns dois no seja elle
o mais louco. A loucura  inseparavel do homem; umas vezes toma-lhe a
cabea e deixa-lhe em paz o corao, que nunca se empenha nos desvarios
a que ella  arrastada;  o caso de Mauricio; outras vezes ha na cabea
a frieza da razo e ao corao desce a loucura para o perturbar com
affectos; quer-me parecer que  o que succede commigo.

O cavallo parou espontaneamente  porta da Casa Mourisca e arrancou
Jorge  corrente de vagas cogitaes em que lhe fluctuava o espirito.

--Vamos, Jorge--dizia elle a si mesmo, ao desmontar--j agora 
necessario ser rapaz de juizo at ao fim. Tu no tens direito de
condescender com a tua mocidade, homem. Ningum te relevaria os ardores
da juventude, porque todos te suppem o sangue de glo.

E serenando outra vez a physionomia, at alli um pouco alterada sob a
influencia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura
de Thom, que o precedra ahi. Quando, depois de algumas pesquizas,
Jorge, guiado por o som de vozes e por um ruido de sachos e de enxadas,
conseguiu avistar o fazendeiro, no pde reter um sorriso de estranheza
e de sympathia, que o espectaculo que via lhe provocava.

E to grato effeito parecia produzir-lhe esse espectaculo, que, sem ter
querido interrompl-o com a sua presena, continuou por algum tempo,
observando-o.

Effectivamente para quem soubesse a verdadeira significao dos actos em
que Thom estava empenhado n'aquelle momento, no seria para estranhar o
sorriso de Jorge, nem a sua expresso duplice de sympathia e de espanto.

Thom no havia meditado no plano para a vingana que jurra contra o
fidalgo. Anciava por principiar a pl-a em pratica, e encetou-a sem
methodo nem systema. Intimou os criados para que o acompanhassem, sem
que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer.

Chegados que foram  quinta, fixou-se na primeira avenida  entrada e
ahi principiou a azafama, arrancando as hervas inuteis, decepando os
ramos mortos, varrendo as folhas cahidas, amparando os arbustos
derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas affrontadas e 
mingua de sol, enxugando e nivellando os passeios alagados, e
desobstruindo os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor.

No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado
em um tanque, emquanto Thom, suando, tentava erguer sobre o pedestal a
estatua de pedra de no sei que divindade pag, que havia muitos annos
repoisava em leito de malvas e ortigas, coberta de lichens esverdeados.

-- dia de festa por c,  balburdia que estou vendo!--disse Jorge,
adiantando-se emfim, e apparecendo aos olhos do fazendeiro, que se
voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz.--Quem visse dizia que passa por
aqui procisso, em que ns somos mordomos.

Thom, readquirindo a sua presena de espirito, respondeu:

--Procisso no digo, mas festa em que eu sou mordomo, ha de haver aqui,
se Deus me der saude.

--Bem, visto que o Thom  o juiz da festa, pde dispr do seu tempo sem
pedir licena a ninguem. Por isso ha de conceder-me um momento de
conversa.

--No, no, snr. Jorge, tenha paciencia; mas eu tenho grande empenho em
dar andamento a isto.

--E eu absoluta necessidade de fallar-lhe.

--Ora valha-me Deus! E eu ento que estou quasi a adivinhar o que me vae
dizer!

--Talvez que no.

--O que lhe affirmo  que se me quer tirar da cabea isto que se me
metteu c dentro,  tempo perdido.

--No faa conjecturas anticipadas, Thom. E sente-se primeiro.

--Pois v l. Vocs sigam por ahi adiante--disse o lavrador, voltando-se
para os criados--e alm n'aquella nora....

--Pde mandal-os embora, Thom--atalhou Jorge.

--Embora? Adeus!  o que eu digo! Olhe que se  com o fim de me
dissuadir que...

--Mande-os embora, que est a cahir meio-dia e pouco servio podem fazer
at l. De tarde ou manh continuaro, se o Thom achar conveniente.

--No, no, hei de achar. Emfim vo l  sua vida, mas em sendo duas
horas...

--Ora adeus; deixe as ordens para lh'as dar em casa, que tem
tempo--atalhou pela segunda vez Jorge.

--Pois tenho, tenho, mas emfim... Ide l com Deus.

E ficando s com o joven fidalgo, Thom da Povoa cruzou os braos, e
interrogou em tom de amigavel enfado:

--Aqui me tem. Ento o que  que me quer?

Jorge enfiou o brao no d'elle e encaminhando-o para o tanque de pedra,
limpo e esfregado de pouco pelos criados da Herdade, disse-lhe:

--Vamos sentar-nos alli, que o que eu tenho a dizer-lhe  serio e
precisa de ser tractado com socego e descano.

E sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direco da Casa
Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das arvores, Jorge
proseguiu:

--Agora que estamos ss, Thom, vae dizer-me o que significa toda esta
brincadeira.

 palavra brincadeira, o fazendeiro deu um salto.

--Eu no o disse?! Elle ahi vem com as suas reflexes! Por essa esperava
eu. Mas no tem duvida, eu estou prompto para explicar-lhe a
brincadeira. Se o snr. Jorge visse, como eu vi, olharem as minhas aces
como insultos, no servios, que bem sei que no os fiz, mas pelo menos
bons desejos, como so os que tenho de lhe ser util e aos seus, tambem
no havia de soffrer com tanta paciencia a injustia, que no procurasse
tirar desforra.

E Thom, levantando-se, pz-se a passeiar agitado.

--Mas venha c, Thom, quem lhe diz que no tem razo em se offender e
at em se vingar nobremente, como emprehendeu fazl-o?

--Sim, mas ento no chame brincadeira ao que fao--tornou o fazendeiro
amuado.

--Chamo, por vr que no realisa a sua vingana por essa frma. O Thom,
se pensar a sangue frio, ha de ser o primeiro a concordar commigo. Ora
diga, pois acha que a obra mais difficil de levar a effeito em nossa
casa  a limpeza d'estas ruas e d'estes tanques? Acha que vale a pena
principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia entrando em
bom caminho a administrao dos nossos bens, nos restituir, como espero,
o pleno gozo d'elles, livre das demandas, dos onus e da usura que os
definham, no lhe parece que os nossos criados faro em dois ou tres
dias obra correspondente ao valor da sua vingana?

--L iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa, que
remoarei do portal at aos telhados.

--E que  tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer, e onde os
seus auxilios poderiam ser-nos mais vantajosos? No vale muito mais tudo
o que j tem feito? O Thom bem sabe que o nosso grande mal no est
n'aquellas pedras cahidas, isso  apenas o symptoma da doena, que 
preciso combater primeiro.

--Pois sim, mas...--titubeou o lavrador j abalado.

--Sabe o que consegue com isso, Thom? consegue uma vingana apparente,
que falla mais aos olhos, isso  verdade; mas no a vingana real,
generosa e nobre, representada pelo seu empenho em auxiliar-me devras
na obra que emprehendi. Consegue contrastar as minhas ambies; sou eu
quem mais soffro da sua vingana. Esta casa, como sabe,  apenas uma
pequena parte da nossa propriedade, mas  a que, por assim dizer, a
representa. O povo, emquanto no vir renovar aquellas ameias cahidas,
aclarar aquellas paredes negras, restaurar aquella capella abandonada,
nunca se persuadir de que a nossa casa conseguiu escapar do naufragio
em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases
solidas esta propriedade que encontrei vacillante, quando podsse
desafogadamente chamar meu ao mesmo que meus avs chamaram d'elles,
havia ento de renovar esta velha habitao, que s ento teria o
direito de sorrir defronte da sua Herdade, Thom, e d'essas alegres
casas que ahi se estendem por a collina abaixo. N'esse dia ficaria o
povo sabendo que eu tinha cumprido um dever e havia de respeitar-me por
fora. Mas o Thom quer privar-me d'essa gloria. Vae fazer sorrir esse
fiel confidente dos nossos infortunios, quando ainda o sorriso  uma
mentira e uma ironia aos seus proprietarios. Depois, embora eu lucte e
obre prodigios, e consiga vencer, o povo dir: Os fidalgos da Casa
Mourisca esto hoje melhor do que j estiveram. Houve um homem, o dono
do casal alli defronte, que teve compaixo d'elles e lhes restaurou por
esmola a casa que cahia em ruinas. No fallaro nos seus outros valiosos
servios, que no os conhecem, nem apreciam; no fallaro d'aquelles de
que me no envergonho, antes me orgulho de confessar. Fallaro apenas do
unico que me humilha, do unico que tem effectivamente um caracter de
esmola, do menos importante de todos, do que se realisaria com o
rendimento da nossa menor tapada, depois de remidos. Agora veja l,
Thom; se o seu intento  realmente o de humilhar-me, prosiga na sua
obra, que eu prometto no a embaraar com os meios legaes que no
desconhece; mas se a sua vingana , como supponho, mais nobre, rnais
digna de si, se ousa a fazer-nos bem, apesar do orgulho que lh'o
rejeita, sem se lhe importar que um bem seja apparente para que os
outros nos vejam humilhados, ento deixo ao seu juizo resolver se este 
o melhor caminho que tem a seguir.

Thom da Povoa ouviu tudo isto com os olhos no cho, apertando o labio
inferior entre o polex e o index e balanceando lentamente com o corpo.

Depois que Jorge acabou de fallar, permaneceu assim ainda por algum
tempo, e acabou por dizer:

--Bem; visto isso desisto. Engulirei os meus protestos, conforme podr.
No digo que no tem razo, acho at que a tem. Quando me resolvi a
isto, pensava s no fidalgo, no pensava no snr. Jorge... Agora vejo que
fui muito apressado. Muito bem, farei por me resignar. L me custa,
mas...

--No lhe peo que desista da sua vingana. Quero tambem que um dia a
verdade obrigue meu pae a reconhecer que a nobreza no est s nos
pergaminhos e que a alliana com um homem honrado honra sempre quem a
contrahe.

Thom j tinha lagrimas nos olhos, ao apertar a mo a Jorge.

--Peco-lhe at que continue o seu auxilio, sem o qual eu nada faria, e
at vou indicar-lhe um genero de servios, que espero dever-lhe.

--Falle, falle, snr. Jorge, o que o senhor de mim no conseguir, ninguem
consegue.

--Ha muito que eu desejo ir ao Porto. A especie de exilio, a que meu pae
me condemnou, facilita-me agora essa empreza. Queria conversar
directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo.
Parece-me que ha circumstancias de valor que no processo no se tem
feito sentir devidamente. Depois aquelle documento que lhe mostrei no
me sahe da ideia. Emfim, pde ser uma illuso minha, mas tenho com tanto
afinco estudado a questo, que me parece que vejo claro n'ella. E como
sabe, Thom, se ella se nos resolvesse favoravelmente era meia victoria
ganha.

--Isso era.

--Portanto quando o Thom podr dispr de si, desejava que me
acompanhasse  cidade, para me apresentar aos juizes e letrados, que
conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas
teias que me embaraam, preciso de um grande capital para encorporar 
terra, para tirar d'ella os recursos, que d'outra maneira no pde dar.
A sua generosidade e os seus sacrificios no podem ir to longe; graas
a elles, j a usura me deixa respirar mais livremente; e j a equidade
substituiu o dolo de muitos dos contractos de nossa casa. Mais tarde a
escala do emprestimo tem de subir forosamente para realisar em grande
os aperfeioamentos agricolas que em pequeno vou ensaiando. O capital
particular no me bastar para esse intento. Lembrei-me da nova
companhia de Credito Predial, que se installou agora no paiz. Preciso
pois informar-me dos negocios attinentes a estas operaes e da
regularidade de alguns titulos que possuimos. Pde auxiliar-me no que
lhe peo?

--Amanh partiremos, se quizer.

--Pois seja amanh. E no acha que encaminho melhor a sua vingana por
este lado, Thom?

--Acho que quem tem o juizo do snr. Jorge pde muito bem passar sem o
auxilio de pessoa alguma. Mas emfim c estou s ordens.

Passada meia hora, entrou Thom em casa e participou  mulher que ia no
dia seguinte ao Porto, na companhia de Jorge, e que talvez ahi se
demorassem alguns dias.

Luiza ficou comprehendendo que os projectos de restaurao da Casa
Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isto cresceu n'ella a
admirao pelo caracter de Jorge.

Mas Luiza tinha durante aquella manh recebido impresses, que no se
atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a no deixavam estar
socegada, emquanto no transpirassem em vagas insinuaes.

Estavam  janella os dois esposos, conversando placidamente de Jorge e
de D. Luiz, e da proxima jornada  cidade, quando Luiza, depois de uma
pausa na conversa, disse _ex-abrupto_ para o marido:

-- Thom, e que dirias tu, se um dia a tua filha morasse n'aquella
casa?

E, ao dizer isto, designava com a cabea a Casa Mourisca.

Thom olhou para a mulher, como se aquellas palavras lhe fizessem
duvidar da firmeza do juizo d'ella.

--Que queres tu dizer com isso?

--Ora! isto de rapazes e raparigas... quando se vem a miudo...

Thom crou, exclamando com mau modo:

--Tu ests doida, Luiza?

--Ora adeus! Quem sabe l?

-- mulher, no queiras que eu perca a confiana que sempre tive no teu
bom juizo.

--Eu no digo... mas emfim...

--Ora adeus, adeus!--atalhou Thom, quasi agastado--ha certas coisas que
nem a brincar se dizem.

--Pois que mal havia?...

--Mau!  Luiza, peo-te por favor que te no ponhas com essas graas.
Ora para o que te havia de dar!

--Ento, porqu?...

--Ora, porque no. Ha certas lembranas que at me envergonho de pensar
n'ellas.

Luiza, em vista da repugnancia do marido, no ousou insistir. Mas a
pobre mulher, com as ambies de me, j no podia deixar de olhar a
Casa Mourisca e imaginar o effeito que produziria a sua Bertha em uma
das balaustradas ou das ogivas d'aquelle antigo edificio.




XXI


Jorge apenas a Gabriella deu parte do seu projecto de jornada.

No dia seguinte partiu effectivamente para o Porto na companhia de Thom
da Povoa.

D. Luiz, ainda firme no proposito de no querer vr o filho, nem ouvir
fallar d'elle, nada soube d'esta excurso.

Mauricio estranhou a ausencia do irmo; mas, desde que a baroneza lh'a
explicou, dizendo-lhe a verdade, no pensou mais em tal.

O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no
conceito do egresso, era um fco de corrupo, e onde mais risco havia
para a juventude de infeccionar-se com a peste da maonaria e outros
males correlativos, abanou tres vezes a cabea, em signal de mau
prognostico; mas no ousou fallar das suas apprehenses ao fidalgo,
porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em que o
via.

De facto D. Luiz, depois de algumas das sevras palavras que ouvira a
Thom da Povoa, no podia vencer um tal ou qual resentimento contra o
padre, cuja imprevidente gerencia tinha talvez concorrido para o estado
precario da sua casa e as humilhaes que soffria.

Apenas attenuava este resentimento a ideia fatalista de que a decadencia
das casas nobres era inevitavel, e que baldado era tentar reagir.

Para elle o padre no podia ser mais que o instrumento cego da sua
desgraa irrevogavelmente decretada.

Toda a energia moral de D. Luiz exercia-se pois em encarar com rosto
firme a adversidade, e cahir sem perder na quda a fidalga compostura do
porte.

D'estas successivas impresses que recebra nos ultimos tempos resultava
para o animo, j de indole irritavel de D. Luiz, uma impaciencia, uma
quasi permanente exaltao nervosa, que augmentava  medida que se lhe
depauperavam as foras e o vigor corporeo. Quem melhor sabia agora lidar
com elle era a baroneza. O instincto feminino  o mais proprio para
descobrir o lado accessivel d'estes caracteres azedados e para movl-os
sem os magoar.

Frei Januario, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto do
fidalgo e cada vez mais se aproximava da dispensa e da cozinha.

Em casa de Thom proseguiam os trabalhos agricolas sob a activa
vigilancia de Luiza, que, na ausencia do marido, tomava a seu cargo
aquella provincia do governo domestico.

Bertha olhava ento pelos irmos e pelo arranjo da casa.

Havia porm alguns dias que uma ideia fixa no deixava tranquillo o
espirito de Bertha.

Quando, ao cahir da tarde, os ultimos raios do sol parecia encandecerem
as vidraas da Casa Mourisca, e  sua luz se tingiam de um leve doirado
as frondes dos carvalhos seculares da quinta, ainda no despidos pelo
outomno, apoderava-se de Bertha uma saudade intima, profunda, que lhe
desafiava as lagrimas. Toda a infancia era evocada ento. Resurgiam-lhe
as recordaes dos jogos, dos risos, das alegrias que havia gozado
n'aquelles sitios onde os olhares se lhe fixavam com insistencia, e a
pouco e pouco cresceu n'ella um natural e vehemente desejo de
visital-os, de tornar a vr de perto aquellas arvores, fontes e salas,
cada uma das quaes lhe guardava uma memoria do passado.

As chaves d'esse como relicario das suas mais gratas recordaes,
tinha-as ao alcance da mo; a distancia no era grande, as tardes
corriam amenas e no campo ninguem estranharia a uma rapariga um passeio
d'aquelles.

A ideia ganhou vulto e Bertha resolveu realisal-a.

Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde
sahiu e dirigiu-se lentamente  Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou 
ponte que reunia as duas margens do ribeiro do valle. Ao transpol-a,
porm, reteve-a um vago rumor que soava nos ares. Eram as surdas
detonaes de uma trovoada longinqua.

Bertha olhou em roda um tanto inquieta.

O colorido do co e o dos campos era bello, mas pouco tranquillisador.

O firmamento estava esplendidamente pintado, no com o azul uniforme dos
dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influencia
electrica de uma tempestade imminente. Grandes nuvens isoladas
illuminavam-se, ao sol poente, de reflexos doirados. O campo, em que
ellas se desenhavam, ostentava todas as gradaes do azul, desde o anil
carregado at um quasi verde esvaecido que interrompiam leves e longos
stractus tingidos de roixo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso
cumulo de vapores amarellados, desenhava-se vagamente o magestoso iris.
O verde das arvores e dos prados recebia d'esta luz uma cambiante mais
viva. Principiava a soprar a virao quente e rasteira, que levantava em
redemoinhos as folhas cahidas no cho.

Tudo annunciava uma tempestade proxima.

Bertha no ousou ir mais adiante.

A visinhana da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder.

N'este momento porm entrava na ponte um cavalleiro, que assim que
avistou a filha do Thom, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para ella
a p.

Era Mauricio.

Bem desejaria Bertha evital-o, mas j no o podia fazer sem uma
affectao mais indiscreta do que a propria entrevista.

Em poucos momentos Mauricio estava a seu lado.

--At que finalmente a encontro, Bertha. Quasi me tinha chegado a
convencer de que uma fatalidade ou um proposito nos separava. Ha tanto
tempo que no conseguia vl-a!

--E procurava-me, snr. Maurcio?

--Todos os dias o tenho feito.

--O mais natural era procurar-me em casa; ahi  que passo a maior parte
do meu tempo, auxiliando minha me, que bem precisa de quem a ajude.

--Em casa? E seria eu bem recebido l?

--J alguma vez meu pae deixaria de receber, como merecem ser recebidos,
os filhos do snr. D. Luiz?

--Como merecem--ahi  que est a dificuldade. E se a consciencia me
dissesse que eu no merecia esse bom acolhimento?

--Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pae se
esquecesse da amizade que lhes deve, a si e aos seus, snr. Mauricio.
Creio bem que a consciencia no lhe diz isso.

--No, Bertha. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que ha de
reprehensivel no meu proceder inconsiderado; ainda que nada me peza na
consciencia, emquanto s minhas intenes.

-- o essencial.

--No  para os outros. Por os actos me julgam e esses s vezes
condemnam-me.

--Nem todos os seus actos ho de ser maus. Os bons desfaro os effeitos
dos outros--tornou-lhe Bertha, sorrindo.

--Succeder isso comsigo, Bertha? No estarei ainda condemnado no seu
conceito?

--Se principio por ignorar as culpas de que  accusado!

Maurcio calou-se por algum tempo, como concentrando alentos para mais
difficil resoluo, e rompeu depois com maior vivacidade:

--Pois bem; escute-me e julgue depois; condemne ou absolva, conforme a
consciencia lh'o dictar. No lhe vou fazer uma geral confisso da minha
vida, apenas dos ultimos tempos d'ella. As aces boas ou ms, os actos
irreflectidos, a que me impelle este temperamento estranho com que
nasci, tenho-os ultimamente executado sob o influxo de uma paixo forte,
irresistivel, que nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu corao,
Bertha, desde que a vi, quando voltou de Lisboa. Com a franqueza propria
do meu caracter, com a lealdade que lhe devo, Bertha, confesso-lhe que a
amo. Deve tl-o percebido. Eu no sei dissimular.  este amor que me
perturba, que me faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a
extremos, d'onde no volto sem remorsos.

--Devia pois fazer por destruil-o, vendo a maligna natureza que
tem--respondeu Bertha, sorrindo.

--No zombe, Bertha.

--No zombo, pois no diz que o arrasta a aces que lhe causam
remorsos?

--Mas  por esta incerteza em que estou. Assegure-me porm, Bertha, de
que o seu corao  ainda o que em outro tempo conheci...

--Snr. Maurcio--tornou-lhe Bertha, d'esta vez sem a menor inflexo de
gracejo--seria faltar  amizade que lhe devo, se o deixasse continuar.
Quero suppr que no zomba de mim ao fallar-me d'essa maneira; quero
convencer-me de que  sincero, ou de que julga sl-o, pelo menos, n'essa
declarao que me faz, e vou responder-lhe como se assim fosse. Peco-lhe
que faa por esquecer isso que diz sentir por mim e que no pde ter
futuro.

--Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-m'o,  necessario
que me faa uma confisso,  necessario que me diga: Eu no posso
amal-o.

--Direi: Eu no posso amal-o, snr. Mauricio.

--E ser sincera no que diz? Veja bem. Interrogue smente o corao. No
a amedrontem as difficuldades e as resistencias que possam
offerecer-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu s com todas.

--Eu disse: eu no _posso_ amal-o, e no: eu no _devo_ amal-o, como
n'esse caso diria.

--E porque no pde? Que ha na sua alma contra mim, Bertha, que nem as
recordaes da infancia me valem? E comtudo eu tinha n'esse tempo
adquirido direitos  sua affeio.

--Que valor que d aos brinquedos da infancia!

-- porque em mim a juventude do corao principiou cdo. Eu j ento
sabia amar.

--Mau  que no ache differenca entre o amor de que  capaz agora e o de
ento;  pois claro que ama como uma criana.

--Com a ingenuidade d'ellas.

--E com a inconstancia tambem.

--Bertha, no me falle assim. Nas suas palavras sinto um tom de duvida
que me afflige. Responda-me: porque  que no pde amar-me? Ha j no seu
corao outro amor?

Bertha crou e no foi superior a certa confuso, que se esforou por
vencer, dizendo:

--Ainda que no haja, no  isso motivo para o abrir ao primeiro que
apparea. Com toda a sinceridade da minha alma lhe fallo, snr. Mauricio.
Creia que para todas as pessoas que teem o nome da sua familia ha no meu
corao muito respeito, muita estima e muita gratido. De todos estes
sentimentos se pde dar razo. Mas o amor no  assim. Ninguem sabe
porque ama ou porque no pde amar. Julgo eu.  uma coisa que se sente,
mas que se no explica. Pois no concorda? E agora peo-lhe que me no
acompanhe mais longe. Repare que a tempestade est para breve. Espero,
snr. Mauricio, que ser sempre nosso amigo.

E dizendo isto, estendia-lhe a mo, que Mauricio apertou
silenciosamente.

E separaram-se, seguindo direces oppostas.

Mauricio murmurava:

--E comtudo creio que me amas. No  essa frieza que me ha de illudir.

Pela sua parte, pensava Bertha:

--D'aqui no vem perigo para o meu corao. Acabei de convencer-me
agora. Basta vr a tranquillidade que sinto. Assim podsse dizer o mesmo
do outro.

Mas a Casa Mourisca continuava a attrahil-a. De noite  claridade vaga
do luar, s tardes quando os ultimos e desmaiados raios do sol lhe
tremiam na fachada ennegrecida, de madrugada, no meio das neblinas do
rio, que phantasticamente o envolviam, a todo o momento emfim, as
encantadas memorias da infancia de Bertha adejavam sobre o deserto
solar, e as saudades, evocadas por ella, como que se lhe levantavam do
corao a encontral-as.

s mesmas horas da tarde, repetiu Bertha no dia seguinte ao do seu
encontro com Mauricio, a tentativa para visitar o solitario palacio.
D'esta vez passou alm da ponte, subiu a ladeira da collina opposta, e
chegou a tocar com a mo na porta da quinta. Faltou-lhe porm ainda a
resoluo para a abrir e entrar. Apoderou-se d'ella uma especie de pavor
sagrado no momento de penetrar alli. Parecia imporem-lhe respeito
aquellas arvores seculares, aquellas heras vigorosas que forravam os
muros da quinta e o silencio que pairava n'aquella habitao abandonada.
As sombras melancolicas da tarde cresciam, e Bertha retirou-se no fim de
alguns momentos, quasi tomada de entranhado terror.

No dia seguinte voltou ainda  Casa Mourisca. Armra-se, ao partir, de
maior resoluo. Promettra a si propria no hesitar um s momento ao
abrir a porta, para no dar tempo a possuir-se da mesma fraqueza.

Assim fez; ao chegar  porta pequena da quinta, introduziu resolutamente
a chave e abriu-a. Estava emfim dentro dos muros da Casa Mourisca.
Cobria-a o denso tolde de ramos entrelaados dos carvalhos, dos freixos
e dos cedros, estalavam-lhe sob os ps as folhas crestadas, de que os
ventos do outomno haviam alastrado o cho; prendiam-se-lhe aos vestidos
as silvas espinhosas, que cresciam  vontade de mistura com os fetos e
as ortigas;  sua chegada houve um subito rumor de aves esvoaando
surprendidas, e de repts escondendo-se por entre a folhagem sca do
cho. O bosque tinha um aspecto de braveza selvagem, adquirida durante
longos annos de independencia de cultura. Era esplendida a anarchia
d'aquella vegetao.

Bertha parou affectada de inexplicavel susto.

Tudo recahiu em silencio; apenas se ouvia um leve ramalhar das arvores,
denunciando a passagem d'uma briza ligeira, a quda de algum ramo sco
desprendendo-se da arvore, o pio timido de algum passaro escondido, e,
um pouco mais distante, o rumor monotono e confuso das fontes e
cascatas.

Dissipadas as primeiras impresses, o sagrado terror que infunde no
espirito o aspecto de um bosque secular quella adiantada hora da tarde,
Bertha aventurou alguns passos e pde percorrer os sitios da quinta que
lhe eram mais conhecidos.

Quem pde referir as saudades que lhe pullulavam do corao, ao voltar,
depois de tantos annos decorridos, quelles logares saudosos?

Quem no tenha ainda experimentado na vida sensaes d'aquellas, nunca
chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras lagrimas
que os olhos podem verter.

Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a
experiencia adquirida no tracto do mundo, com a memoria dos dolorosos
embates soffridos no meio das luctas da vida, e a impresso das paixes
gravada fundo na alma; voltar assim ao logar dos nossos jogos de
infancia, dos nossos risos e chros pueris, uns e outros to sem razo
nem vestigios, olharmo-nos outra vez, depois de longa ausencia, em
frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece
saudarem-nos ainda como se nos vissem crianas, sentirmos em um momento
dissipar-se-nos da memoria todos os tempos intermedios e como que
resuscitarem as ideias, os gestos, os pensamentos d'aquella poca, como
se apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos,  uma das mais
violentas e ao mesmo tempo mais gratas commoces que pde experimentar
uma alma humana; e a que no ceder e se no abrandar sob essa influencia
 uma alma perdida para os affectos e para a regenerao.

Poderia a de Bertha estar n'este caso, a d'ella, alma sensivel e
amoravel, para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto?
Poderia olhar sem lagrimas para aquelles logares onde lia como que
pagina por pagina a sua vida de ento?

Chorou, chorou sentada no banco musgoso, junto de uma fonte, onde ella e
Beatriz tantas vezes vinham sentar-se, e onde Jorge e Mauricio corriam a
ter com ellas, logo que terminavam as suas horas de estudo.

Era tarde quando voltou a si o pensamento d'aquella digresso pelo
passado. No tinha j tempo d'esta vez de visitar a Casa Mourisca.
Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrra, e sahiu com
saudades d'aquelles logares.

No momento em que Bertha se afastava, dois caadores, que desciam una
pinhal visinho, d'onde se descobria a entrada da Casa Mourisca,
viram-n'a e reconheceram-n'a.

-- Chico, olha l, aquella no  a Bertha do Thom?--disse um d'elles
para o outro.

--Nem pde ser outra coisa.

--S! a estas horas... e prximo da Casa Mourisca! Que quer dizer isto?

-- que vem de l.

--Mas... a casa no est vazia?

--Tanto melhor. Se l estivesse o velho, a coisa mudava de figura.

--Mas, falla serio,  Chico, que conjecturas tu de toda esta historia?

--Que ou o Mauricio ou o Jorge fazem tambem as suas visitas  capoeira.

--O Mauricio foi hoje para a caada dos Monteiros do Rio-baixo, e o
Jorge, segundo ouvi dizer, est no Porto.

--_Quod probandum_--redarguiu o outro, recorrendo s suas reminiscencias
escolasticas; e, como se receiasse que o companheiro o no
comprehendesse, traduziu:

--Isso  o que resta provar.

--Foi o mesmo Mauricio que o disse.

--E tu a dares muita importancia ao que diz o Mauricio! Ento no sabes
que se o Jorge lhe disser que est Papa, o toleiro  capaz de lhe
beijar o p?

--Mas l em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto.

--Pois ahi  que est a finura. E se elle, pilhando fra do ninho a
rapoza velha, se veio alli estabelecer muito  sua vontade?

--Se eu o acreditasse....

--Que farias?

--Era bem feito dar-lhe uma assaltada.

--J me lembrou isso, mas  melhor outra coisa. Vigiamos isto a vr
quando a pequena c volta, temos o Mauricio debaixo de mo e trazemol-o
ento comnosco. O caso deve ser interessante!

--Apoiado!

--Emquanto a mim, ninguem me tira de que aquelle velhaco do Jorge anda a
comer-nos a todos com os seus ares de sancto. Vou ainda jurar que as
taes visitas a casa do Thom levavam agua no bico. Se agora o
pilhavamos!

--Era soberbo! Mas o Mauricio anda esquisito comnosco, depois da
historia do jantar.

--Deixa que eu o amansarei; era bom que elle estivesse um pouco _picado_
n'esse dia; tudo se arranja, deixa estar.

E os dois caadores seguiram, combinando e commentando o plano que
tinham traado.

O leitor, que j os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo que
estes esperanosos jovens proseguiam nos seus habitos de vida fidalga,
em cata e preparao de escandalos, e cada vez mais implacaveis contra
Jorge, cuja desdenhosa frieza para com elles ha muito tempo os irritava,
antes mesmo que o acontecimento do dia do jantar viesse augmentar essa
irritao.




XXII


A impaciencia de D. Luiz tocra o extremo. Em vo procurava apparentar
resignao e conformidade  sua nova vida nos Bacellos. Os laos que o
prendiam s velhas paredes da Casa Mourisca eram mais fortes do que
julgra, ao separar-se d'ellas. Estava-o sentindo pelo mal-estar que
experimentava agora.

Todos os objectos da antiga residencia, que to precipitadamente
abandonra, pareciam occupar um logar no seu corao; e o vasio em que o
deixaram era terrivel para uma velhice j sem esperanas.

A corrente d'aquella vida, ainda que turvada pelas paixes, seguia desde
muitos annos regular e silenciosa pelo alveo e margens invariaveis. De
repente, porm, como succede s aguas de subito constrangidas a mudar de
leito, perdeu a serenidade melancolica, a calmante monotonia, to
salutar a um espirito atribulado; e atravez de novas perspectivas e de
novas scenas precipitava-se inquieta e turva.

Recrudesceram violentamente as torturas d'aquella alma exagitada, como
despertam as dres d'um membro enfermo ao arrancar-se da quietao e
repouso em que adormeceram.

Em certa idade as diverses no distrahem, affligem. Vive-se do passado,
e para que o pensamento o retracte,  mister que o remanso lhe d a
limpidez do lago tranquillo.

S o orgulho e o pundonor de fidalgo  que impediam D. Luiz de voltar de
novo aos lares abandonados.

Esta disposio de espirito era insustentavel.

Uma manh viram-n'o, mais nervoso de que nunca, medir a passos largos o
comprimento da maior sala do solar dos Bacellos, parando s vezes junto
das janellas a olhar abstracto, atravez dos caixilhos das vidraas, para
as franas das arvores mais distantes que d'alli se descobriam, entre as
quaes avultavam as do parque da Casa Mourisca. De subito interrompeu uma
d'estas mudas contemplaes, manifestando que lhe apparelhassem o
cavallo para de tarde.

O procurador, a quem fra dada a ordem, perguntou timidamente se s.
exc. sahia a cavallo.

Com o sco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao
padre, o fidalgo limitou-se a dizer:

--Parece que sim.

O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmittiu a
ordem recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para
acompanhar s. exc..

D. Luiz acudiu com vivacidade:

--Quem lhe disse isso? Eu no preciso de acompanhamento. Que me tenham
apparelhado o cavallo para de tarde.

--Ento v. exc. sahe s?!--perguntou o padre, em quem esta quebra de
pragmatica causava grande confuso.

--Vou--respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala.

O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir 
ultima demo de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente
desvanecer a violencia da impresso, que a ordem do fidalgo lhe havia
produzido.

Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio no assistira,
D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio
despedir-se d'elle  janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos
campos.

Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.

Na maneira por que dirigia o eavallo no se notava, porm, a indeciso
propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado
destino quelle passeio.

Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoao rural, rodeou
quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por
desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes,
onde apenas se entrevia a choa do guardador, foi dar ao extremo opposto
da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.

E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o
cuidado que o cavalleiro parecia ter em no ser observado e em dirigir
por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.

Entrou por fim em uma boua pertencente  casa, collocada, porm, fra
dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que
servia de caminho publico.

D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais
elevadas janellas da Casa Mourisca.

D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho
solar onde nascra e onde apprehendia no poder morrer, como haviam
morrido os seus avs.

Ia adiantada a tarde, e  luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a
tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.

Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancio, assim
immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da
tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas
ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixes o expulsaram, com o
rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava
distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos
quaes se escondia, era uma personificao vigorosa do desalento e da
saudade sob o colorido de desesperana que a velhice lhe dava.

A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso
animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podsse satisfazer a
ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um
movimento, como de quem adopta uma resoluo, a que por muito tempo
repugnra.

Pz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direco do muro da quinta,
e sem abandonar o pinhal.

Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, j quasi
destelhada, e em cujo recinto cresciam  vontade as giestas e as
tojeiras, por entre os montes de telha e de calia cahida, e onde
encontravam tranquillo abrigo repts de toda a especie.

D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varo oxydado e
torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a
rodear a quinta.

Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente
o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas
vezes por alli effectuavam as suas exploraes depredatorias no mal
vigiado terreno da Casa Mourisca.

Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o
proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e crando do
passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia.

Dentro em pouco achava-se na quinta.

Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as
devezas, onde quella hora no penetrava um s raio de sol, e sem
vacillar seguiu na direco da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma
pequena porta por onde habitualmente se fazia o servio do palacio.

Occorreu-lhe-s ento que poderia estar alguem l dentro, quella hora.

Se se encontrasse alli com Thom, como conseguiria arrostar com a
vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a
recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte.
Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por
alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. No se
divisavam vestigios que denunciassem presena de alguem estranho. D.
Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da
escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que
subia.

Sempre o mesmo silencio.

Pensou ento o fidalgo que bem poderia ser que na precipitao da sahida
tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese
adiantou-se mais resoluto.

Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e
aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de
pavor.

N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e
proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que
situao a sua! Que humilhadora situao para o seu orgulho!

As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas
fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os
passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha.

Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da
sua alvoroada sahida da Casa Mourisca; caixes vazios, sacos, boctas,
papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confuso nos corredores, como,
na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes
que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrra na
Casa Mourisca.

Mais seguro j na persuaso de que no seria surprendido n'esta
clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que
levavam ao _Sancta Sanctorum_ das suas affeies,  torre onde haviam
sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era
esta a peregrinao que emprehendra aquelle desconfortado velho; para
alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha j subido mais
de meio lano da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a
escutar um mal distincto som que lhe chegra aos ouvidos. Correu-lhe no
rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um
suor, como de agonia.

A turbao que sentia, foi to intensa, que teve de apoiar-se  parede
para no cahir.

Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do
logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos
como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar
das brizas da tarde.

Na triste solido d'aquella casa abandonada,  hora mysteriosa do
escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela
vastido das salas desertas, tinham de facto no sei qu de
sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paos encantados,
que ergue no meio das florestas a imaginao popular.

Mas no era smente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de
espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle
outra e superior influencia.

Conhecia-os; no eram vozes estranhas aos ouvidos do ancio ralado de
saudades, e que se achava alli attrahido por ellas.

Conhecia-os; em outras pocas tinham j resoado entre aquellas tristes
paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses
tempos, havia alli dentro coraes que pulsavam de sympathia ao
escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a
meiga criana, sobre cuja cabea se condensavam todos os castos affectos
d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmos, na
mysteriosa linguagem da musica.

Aquelles sons... podia elle desconhecl-os?... eram os da harpa de
Beatriz.

Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer,
quando, havia tanto, cahira gelada a mo que os desferia?

As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos?
A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da
solido em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam
to vivas as memorias d'ella?

Quem pde analysar o confuso turbilho de ideias que atravessou
n'aquelle momento o espirito do fidalgo?

Piedosas crenas da infancia, supersties que a razo subjugara,
chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame
alvoroado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancio, que tremia
sob um inexplicavel terror.

-- uma allucinao--pensava elle, esforando-se por dominar aquella
fraqueza-- uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca
me abandona.

E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.

Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de
se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma
partiam dos aposentos de Beatriz.

Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a
mobilidade que produz o delirio. Ha situaes na vida em que a razo
mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influio das mais
supersticiosas crenas.

D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das
apparies.

A distancia permittia-lhe j distinguir a melodia que executava a harpa.
Tambem lhe era conhecida; era a de uma cano predilecta de Beatriz, uma
musica cheia de recordaes para o pobre pae. O presente desapparecia
n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se
lhe apagra na carreira da vida. Chegra quasi  porta do quarto d'onde
partiam os sons. Restava entrar... Mas o que o esperava alli? Talvez se
desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!

A razo de D. Luiz no podia formar juzos sobre o que se estava
passando. A mo tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto
mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar,
subjugado pela fora d'aquelle encantamento.

N'este tempo juntra-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho,
quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estao,
cantava a letra da mesma cano que Beatriz preferia. Era um timbre
juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se
elevava, havia um no sei qu de mystico e sobrenatural, que veio
completar a allucinao do velho.

--Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!--murmurava elle,
passando a mo na fronte pallida.--Se isto  um sonho, deixae-me morrer
a sonhal-o!

E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e,
soluando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu
dizendo em uma desvairada exclamao:

-- minha filha! minha filha! Se s tu que assim me arrebatas d'este
mundo, tem compaixo de teu velho pae, e no partas sem que lhe
appareas um instante que seja!

Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco
depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.

Ao vr o fidalgo de joelhos, com a cabea escondida entre as mos e
soluando, a filha de Thom da Povoa correu para elle commovida:

--O snr. D. Luiz! O meu padrinho!  perdo, perdo!--exclamava ella.

E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe
inesperadamente o canto, cedeu o passo  mais sentida afflico.

 voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabea e fitou a afilhada com um olhar
espantado e interrogador.

As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.

--Perdo, perdo, meu bom padrinho--proseguia Bertha, tentando
ergul-o--fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora... mas havia tanto
tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas no chore, snr. D. Luiz,
por amor de Deus perdoe-me!

O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e
conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia
dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia
ainda vibrarem no espao.

A commoo violenta quebrra-lhe as foras.

Os braos e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo.

Bertha ajoelhou-se-lhe aos ps, tomando-me as mos, beijando-as, e
cobrindo-as de lagrimas.

--Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, no teria vindo. Foi
uma loucura minha; agora  que vejo; mas trazia isto na ideia havia
tantos dias!... S hoje me atrevi a subir aqui... Se soubesse como
chorei ao tornar a vr este quarto e estes objectos, que todos conhecia.
Todos! Oh no se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem
, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheo, mas, como tambem lhe
queria muito... Depois, assim que vi esta harpa...  meu Deus, que
saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi,
da cano que ella preferia... Quiz avivar essas recordaes e... Mal
sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me
ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que est
soffrendo ainda... E ser eu quem lhe avivou essas feridas!... No me
queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe at aqui, a saudade
d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peo que me
perdoe a dr que lhe causei.

E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz no a interrompra,
porque a agitao era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar.

Poisando porm as mos na cabea de Bertha e afastando-lhe os cabellos
da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda
ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em
lucta com a commoo que o suffocava:

--De que me pedes perdo, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr,
que ha muito no chro lagrimas que me dem um allivio assim. Eu sou que
te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a
felicidade que o co me pde ainda dar; n'estes curtos instantes da
minha illuso luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu s podias
resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa
abenoada musica e a voz, que julguei que s me chegaria outra vez aos
ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no co. Agradecido,
Bertha. A este meu corao so mais conhecidas as dres que o despedaam
e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha.

E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio
da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e
beijou-a com a doce affabilidade de um pae.

Bertha beijava-lhe as mos, chorando com elle.

Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella
rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a
uma mesma recordao. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a
ideia lhe corria que fosse a filha de Thom da Povoa, quem tinha na sua
presena, e quem abenora e beijara.

Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de
conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella
inspirra na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam.

As mos de Bertha no tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a;
nem ultrajra a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da
infeliz menina.

D. Luiz cedia  influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava
em Bertha a imagem da filha que perdra.

Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a
Bertha todos os objectos, que haviam pertencido  filha e que elle alli
conservava ainda como reliquias sagradas.

A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem
conservava to bem a memoria de Beatriz no era sacrilegio o
devassal-os.

--Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na
vida, se havia assim de roubar-m'a?--exclamava D. Luiz no decurso d'este
melancolico exame.

--Para lhe dar um anjo que o veja do co e vele pelo destino d'esta
familia, que ella tanto estremecia na terra.

--O destino d'esta familia!--repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o
semblante.--Triste destino!

--Confio nas oraes d'aquelle anjo.

--Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiao, nem as
oraes dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a
innocente e fraca, para me deixar s a mim o pso do meu infortunio e o
das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao
meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentena de Deus,
procurarei cumpril-a com firmeza, e oxal que meus filhos, recebendo o
sinistro legado, no desfalleam como covardes.

--No pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho f que ainda voltaro
dias felizes para esta casa.

--Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario
endinheirado, que faa depois resoar por estas salas os sons dos bailes
e dos festins. A casa ver ento dias alegres, ver. E quem se lembrar
dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar
de conviva  mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma poca de
faceis condescendencias.

Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na
direco que levava a conversa.

D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrio de Bertha, e
mudando de tom, continuou:

--Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice no so para a
tua idade.  uma crueldade da minha parte no guardar para mim estes
pensamentos.

--Se eu podsse desvanecel-os!

O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negao.

N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a
ambos fez estremecer.

-- teu pae, Bertha?--perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor
com inquietao.

--Meu pae no est na terra. Ha tres dias que partiu e no o esperamos
ainda hoje--respondeu Bertha, sobresaltada tambem.

Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia j mais
proximo.

Ouviu-se uma voz dizer:

--Vejamos comtudo d'este lado; a torre pde muito bem servir para
pombal.

D. Luiz estremeceu ao som d'aquella voz.

Outra respondeu em tom mais baixo:

--Parece-me que entrevejo uma porta aberta. De vagar, de vagar.

--Animo, Mauricio; olha se deixas perder as vantagens da tua bella
posio.

--Mauricio!--exclamaram ao mesmo tempo D. Luiz e Bertha, e uma intensa
pallidez cobriu o rosto d'esta.

D. Luiz desviou para ella um olhar, em que havia um fulgor de
desconfiana.

--Ouviste?

Bertha fez-lhe signal affirmativo.

--Sabes o que significa isto?

--No--respondeu Bertha com firmeza, levantando a vista para o fidalgo
que a observava.

Na firmeza e limpidez d'aquelles meigos olhos, que no fugiam dos seus,
elle conheceu a verdade da resposta.

--No, juro-lhe que no--repetiu Bertha com energia.

--Bem--tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a mo de Bertha
em signal de proteco--esperemos ento.

Os que subiam estavam j na proximidade da porta.

D. Luiz recuou alguns passos e ficou occulto pelo cortinado do leito da
filha; Bertha permaneceu immovel com a mo apoiada  harpa.

Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente
sobre os gonzos, e no vo deixou apparecer a figura de Mauricio, e mais
atraz, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos
semblantes dos manos do Cruzeiro.

Mauricio trazia o olhar desvairado e certa desordem de feies
denunciadoras da orgia, com que os primos traioeiramente o tinham
preparado para o escandalo que meditavam.

Ao reparar em Bertha, Mauricio fitou-a com uma expresso de quasi cynica
ironia.

--Boas tardes, Bertha--disse elle, curvando-se com gesto de
escarneo--no sei se a minha presena interrompeu alguma doce meditao,
que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando. Mas to longe
estava de esperar encontral-a aqui!

Bertha tremia e baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A
consciencia de que o fidalgo estava escutando Mauricio no era o menor
motivo para a sua confuso. Se se achasse s encontraria coragem para
arrostar com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Mauricio
percebra o desarranjo de razo em que elle estava. Temia pois mais por
elle do que por si.

Mauricio proseguiu:

--Julgavamos encontrar outra pessoa n'esta velha casa abandonada, porque
vimos um cavallo guardado furtivamente, ahi perto, em uns pardieiros
arruinados. Isto indicava a presena do cavalleiro. Saber-me-ha dar
noticias d'elle, Bertha?

Bertha no respondeu.

--Ento no falla! Parece perturbada.  inexplicavel a sua confuso
diante de mim, Bertha. Conhecidos ha tanto tempo! companheiros de
infancia!... No se lembra de que brincamos n'esta sala eu, minha irm,
Bertha e... e Jorge?

Um dos primos tossiu ao ouvir o ultimo nome.

Mauricio voltou-se:

--Que ? Que reflexes vos despertou este nome? Parece que tambem Bertha
no o ouve a sangue frio.

Bertha tremia cada vez mais.

--Aqui ha um mysterio. Bertha est dominada por alguma influencia m.
Desconheo-a. Dar-se-ha que o mau espirito se occulte de ns, tres bons
rapazes inoffensivos, que respeitam todas as entrevistas secretas, todas
as doces affeies da alma, e que s querem que se seja franco e leal
com elles nas palavras e nas obras, e se ponha de parte a falsa
moralidade dos hypocritas?

Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da vehemencia, bradou:

--Se algum me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que se
no esconda, que apparea.  tempo de acabar a comedia. Apparea, ou eu
prometto tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra a acudir  mulher
que furtivamente corteja, se a quizer livrar do galanteio que ella
desdenhosamente rejeita.

Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luiz achava-se j em frente do
filho, fitando-o em silencio e com um olhar de severa e expressa
interrogao.

Mauricio recuou, como se aquella appario o ferisse em pleno peito. Os
do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores.

Seguiram-se alguns momentos de silencio; D. Luiz foi o primeiro a
interrompl-o.

--Aqui estou prompto para responder ao interrogatorio de meu filho e
d'esses senhores que se escondem... por modestia na sombra do corredor.
Interroguem.

--Meu pae...--balbuciou Maurcio, baixando os olhos.

--Ento deu n'isso a bravata da atrevida provocao que me fez
apparecer? E os senhores no sero mais ousados? Muito bem; se  a
consciencia que os abaixa ao logar de reus, eu tomo o meu logar de juiz.
Que significa toda esta scena de orgia? Que infamia, que vileza os fez
subir estas escadas e empurrar aquella porta? Julguei perceber que se
tractava de insultar uma senhora. Boa diverso para fidalgos!

E voltando-se para Mauricio, proseguiu:

--D'antes aquelles que traziam o nome de que usas, baixavam cortezmente
os olhos diante das damas e erguiam-n'os para cruzar a vista de homem,
quem quer que elle fosse, que procurasse a sua. Tu hoje deshonras esse
nome, fazendo o contrario. s insultante e provocador com a fraqueza, e
baixas a vista ignobilmente sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de
te ter por filho.

--Senhor!

--Basta. No quero augmentar a minha vergonha, devassando o intimo das
tuas intenes vindo aqui, em companhia dos teus camaradas das devassas
orgias. Bertha, bem v. Quando movida por um sentimento generoso, subiu
os degraus d'estas escadas no intento de se entreter com a alma de
Beatriz, que melhor do que ninguem conheceu, confiava de mais na boa f
dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se de que n'esta casa em
ruinas, d'onde voou para o co aquelle anjo, crearam-se os hospedes das
ruinas, os reptis e as viboras, que se arrastam at aqui para a ferirem
com o insulto e com a calumnia, aqui mesmo, n'este logar que devia ser
sagrado para meus filhos, se a fatal influencia que pesa sobre esta
familia no tivesse j apagado n'elles todos os instinctos de dignidade
e de nobreza. Deus, porm, trouxe-me aqui para protegl-a do insulto e
espero que apesar de tremulo, ainda o meu brao lhe servir de seguro
apoio. Talvez que a depravao n'estes homens perdidos no tenha chegado
ainda ao ponto de ousarem ameaar-me; uns restos de respeito filial lhe
serviro de salvaguarda.

E D. Luiz, dando o brao a Bertha, que machinalmente lhe obedecia, sahiu
do aposento com a cabea erguida e o gesto severo.

Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar
passar.

Mauricio deixou-se cahir em uma cadeira e escondeu o rosto entre as
mos, exclamando:

--Eu sou um miseravel!

Os primos olharam-se com o gesto comico de dois collegiaes encontrados
em flagrante delicto de insubordinao.




XXIII


No dia seguinte pela manh, D. Luiz mandou pedir  baroneza authorisao
para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes.

Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia.

E no foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella
familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para
momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a.

Gabriella sabia-o e aguardava-a.

Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha.

Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lr-lhe no semblante o
pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a
dissimulao.

--Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar
eu iria receber as suas ordens.

--Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui to matinal.

--Meu Deus! achou-se ento incommodado?

--De espirito, muito; muito.

E D. Luiz passou a mo pela fronte, suspirando.

--E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?--perguntou Gabriella,
conduzindo-o para um sof, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com
ar de interrogao e de interesse.

--Gabriella, a sorte de minha familia est jogada.  uma famlia
perdida--rompeu vehementemente o fidalgo.

--No diga isso, tio Luiz.

--Digo-o e sinto-o--continuou elle mais exaltado.--Quando uma casa como
a nossa, que no pde j conservar o antigo esplendor e o estado que em
melhores tempos sustentou, no sabe de mais a mais manter o prestigio
que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por aces de
fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a
cabea aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma
casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a
sustental-a e em pouco tempo cahir em ruina total. A minha est
perdida!

--Seus filhos...

D. Luiz estremeceu de irritao a estas palavras.

--Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge
fez-me crar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela
vileza dos seus actos.

--Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais?

D. Luiz, ainda tremulo de indignao, contou  baroneza a scena da
vespera. A clera do velho contra o filho era violenta e contrastava com
a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha.

A baroneza ia notando estes phenomenos todos.

Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a
emenda:

--Loucuras de rapaz.

--Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se pde
permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas aces de um
rapaz se nota, j no apenas o estouvamento e a inconsiderao que 
propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravao moral, esse
rapaz, aos vinte annos, tem j a alma corrompida.

--Mas o que v mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?

--Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos,  Casa
Mourisca?

--Saiba ento, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar
apaixonado por todas as raparigas bonitas que v.  o seu defeito.
Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil.
Parece porm que no tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus
desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas
instigaes d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro
fizeram-lhe j por mais de uma vez vr no irmo innocente um rival
preferido, e ahi est. Acrescentando a isto a influencia do estado
anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras
de uma cabea estouvada; que por o corao fico eu.

--Perde-se, perde-se--insistia D. Luiz.--No respeitar os sentimentos
mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga,
que tem as mais sanctas tradies de nossa familia a protegl-a! Nem
ella!  uma infamia!

--Sabe o que tudo isto est pedindo, meu tio?

--O que ?

-- que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver
apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle
as melhores aptides e desenvolver-lhe as ms. Creia. O tio deve vencer
os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.

--Lembrei-me j d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem,
Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentaes
se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem
germinam j to maus instinctos...

--Tem dotes de alma que l se desenvolvero e neutralisaro os vicios e
as tentaes.

D. Luiz curvou a cabea pensativo. Os seus preconceitos politicos eram
muito vivazes, no cediam sem resistencia.

--Para que me deu o Senhor filhos!--exclamou elle, revoltando-se contra
a sua perplexidade, e acrescentou:

--Mas a final que carreira pde elle seguir?

--No fixemos d'antemo planos. Em geral os acontecimentos
annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que
elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.

--Mas, se tiver de ceder...

--Meu tio, permitta-me uma reflexo. Se quizermos prevenir todos os
fortuitos inconvenientes de uma resoluo qualquer, antes de a tomarmos,
nehuma abraaremos. Deixemos as objeces e os reparos para o momento
apropriado. Quer que Mauricio parta?

--Se elle ha de perturbar a paz d'essa famlia e obrigar-me mais uma vez
a humilhar-me diante d'ella... Porque meus filhos teem tido a rara
habilidade de deixar a humilhao por o unico expediente ao meu
pundonor! Collocaram a razo e a justia da parte dos meus inimigos,
foroso era, para poder ter a cabea erguida, curval-a primeiro e
implorar perdo.

Gabrieila fingiu no attender  primeira parte das reflexes do tio.

--Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco
tempo. Tenha f em que se no perde uma familia, cujos futuros
representantes teem, um o caracter honrado e a razo clara de Jorge,
outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo
contrario, creio que ella est destinada a dar um salutar exemplo
quelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira
de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradies dos seus
antepassados.

--E qual  essa maneira unica?--interrogou o fidalgo, quasi ironico,
como se j esperasse a resposta.

--Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho;
distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e
nas navegaes os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso,
por no poder ser guerreiro,  fraco titulo para a venerao dos
contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje no se
cumpre s lanadas, nem s cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de
dar-me razo. Sabe alm d'isso muito bem o que se faz l por fra, o que
se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos
nobiliarchicos, como por c, e mais talvez ainda.

--Bem v que no desprezei a educao de meus filhos, nem impedi que
Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse
dia julguei receber uma lio d'aquella criana, e cheguei a crar dos
meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se
menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que
disse: entrar _nobremente_ no caminho do trabalho. E nobremente no 
andar a estender a mo  esmola dos antigos servos da nossa casa.

--No houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois
homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranas do
costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no
outro. As garantias mais poderosas so a final essas. Contractos d'estes
s se do entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir
agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima
convico de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, no se
conserva j grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha
forosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge  um nobre e
generoso caracter.

--No disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella,
no discutamos agora isto. Peo-lhe ento que decida Mauricio a sahir
para evitar novas imprudencias e indignidades; no tanto por ns, como
por essa boa rapariga, que  digna devras de toda a sympathia. Que
parta e que no me apparea.

E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendao.

A baroneza ficou pensando:

--Decididamente  preciso pr Mauricio d'aqui para fra. Este caracter
em uma cidade grande  uma coisa insignificante; a agitao que causa
perdia-se na grande agitao d'aquelle mundo. Aqui  um terrvel
elemento de desordem e talvez de srias catastrophes. Agora quem me
agrada mais e muito mais  o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos
bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thom! Do
Thom, que  a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a
este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condo para se insinuar. O
tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. J o que o padre me
contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta
entrevista... Preciso de conhecer Bertha; est dito.  uma influencia
que  bom cultivar. Digam o que quizerem; no ha nada melhor para
amansar um velho bravio como este.  vr a falta que fez aquella pobre
Beatriz. Ao p de um velho quer-se sempre uma rapariga para no os
deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opinies avinagradas, que o
tio Luiz j ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante
d'elle possivel, que prgue a outros os seus soporiferos sermes sobre o
direito divino e sobre a corrupo da poca; no logar d'elle colloquemos
Bertha, e quero saber se o leo no ha de amansar. Agora vamos l vr
Mauricio. Para fallar a verdade, ainda no sei bem o que se ha de fazer
d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos est
causando muito embarao aqui.

E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoo, onde Mauricio todas as
manhs a precedia.

Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido
na contemplao do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por
entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os
raios do sol da manh irisavam a humida poeira, que a a agua, ao
quebrar-se, levantava do abysmo.

Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o
observar alguns momentos, poisou-lhe a mo no hombro.

Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vr a prima sorriu.

--No a senti chegar.

--Isso vi eu. Que profunda meditao era essa? Queira Deus que no
estivesses sentindo a attraco do abysmo. Dizem-me que  irresistivel;
sobre tudo para certas organisaes.

--No, os abysmos physicos no so os que me attrahem.

--O que  o mesmo que dizer que os moraes alguma attraco exercem sobre
ti.

--Estou quasi a persuadir-me disso.

--De qu?

--De que me impelle uma fora irresistivel por um caminho, no fim do
qual a minha quda  inevitavel.

-- um presentimento tragico.

-- uma opinio dictada pela experiencia.

--Experiencia! Essa palavra na tua bca, Mauricio! O eterno mote dos
velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos
sabemos!...

--E porque no ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os
estouvados so os homens que no teem na razo fora bastante para
conterem os impulsos das paixes, e que por isso obedecem a estas, sem
que os faam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos
frios.

--Se me faz favor, esses so os apaixonados. Os estouvados no chegam
nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixo, porque mudam de
soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar
sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que no lhes permitte
vencer longo caminho.

--N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado.

--Achas ento que ha j o governo constituido e definitivo no teu
corao?

--Estou convencido de que se fixou o meu destino.

--Pelo lado do amor?

--Sim; pelo lado do amor.

--A noticia contraria grandemente os meus planos.

--Os seus planos?

--Sim; no sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio
Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para
Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos
da vida da capital,  esse um passo preferivel a deixal-o permanecer
aqui, no seio da ociosidade que, como sabes,  a me dos vicios todos.

--N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que no parto.

--Devras?

--Devras. A minha sorte est decidida, prima. E qualquer que seja o
resultado d'esta resoluo...

--Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?... (porque me parece que
se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te?

--Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiana
talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez
de todos os preconceitos...

--Est a tentar-te o papel de Romeu,  o que estou vendo. Desconfio da
sinceridade d'essa exaltao.

--Pois ver.

--Ora ponhamos as coisas no seu logar. No principies tu a phantasiar
escaramuas de Montechi e Capuletti, que provavelmente no tero logar,
com grande damno das feies romanticas do caso. A coisa ha de passar-se
mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de
uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vr sanccionado
por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural,
burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a
treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o pap Thom e
com a mam Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bca de
somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos alm das nove horas.
Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos
aptido do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da
elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a
intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram
sempre em que se exercerem. No chegariam a este solitario Mauricio s
vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira
patriarchal?

--E quem me impediria de os seguir tambem?--disse Mauricio
contrariado.--N'esses caminhos que diz no  fora progredir solitario.
O apoio de um corao...

A baroneza abanou a cabea em signal de duvida, dizendo:

--Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade,
no procures a companhia de coraes como o de Bertha.

--Porque no?

--Os coraes como o de Bertha precisam do calor suave da vida de
familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a
quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, no  das
mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que
smente se satisfazem com affectos, e cujo amor no se nutre da gloria
do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas
que o ciume desalenta, que a ausencia definha, no so para companheiras
d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes
coraes ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos
de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se
sobre essas almas amoraveis, que a adivinham.

--E poder ser verdadeiro um amor que no tenha essas qualidades que
diz?

--Pde. Pois no pde!  preciso que evites, Mauricio, o preconceito que
tem muita gente de que tudo  falso e mau nos brilhantes circulos
sociaes. No . L ha tambem amores e affeies verdadeiras, podes
crl-o, mas, nascidas e creadas em condies diversas, vivem e resistem
a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que
deixe de amar seu marido, no aspira a monopolisal-o para o seu amor.
Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua misso na sociedade.
Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o
reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que
o seu amor por elle cresce na proporo em que os outros o admiram. 
uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de
incentivo s aspiraes, e so as que convem aos artistas, aos
politicos, em uma palavra, aos ambiciosos.

--Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?--perguntou Mauricio, j em
tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de
quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de atteno.

--E podes negar que o s?--proseguiu Gabriella--Ora falla-me com
franqueza. Resignar-te-ias sem pesar  ideia de passar o resto da tua
vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica
diverso uma caada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas
aspiraes de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a
administrao d'esta casa? No sonhas muita vez com a brilhante
sociedade dos sales da capital, onde todas as aristocracias se
confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de
distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? No tens j sentido a
anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisao moderna;
finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas
qualidades possam ser devidamente apreciadas?

-- muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo
isso... E no negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham
enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo est  minha espera para
me patentear todas as portas d'esses logares de fascinao?

--Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade no ha
barreiras no mundo. Querer  poder. O mundo  menos feroz do que parece.
Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador,
esta terrivel fera abaixa a cabea e no ataca.

--E qual pde ser a minha carreira n'esse mundo?

--No se escolhe de longe. Na presena dos caminhos escuta-se uma voz
interior, que nos diz: Por aqui?

--Mas creia que eu sou um inexperiente. Fra d'estes ares sentir-me-ia
embaraado.

--Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos.

--Smente nos primeiros?

Maurcio fez a pergunta com uma entonao de voz e com um olhar, que
causaram estranheza a Gabriella.

Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos
labios, tornou-lhe:

--Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? V l.
Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplao?

--Demasiada contemplao me tem merecido at, e Deus sabe se por meu
mal.

--Um _calembourg_ ao que percebo. Bonito. Onde est aquelle fiel Romeu
de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma
declarao formal, estou vendo.

--Tem razo para zombar, prima, porm...

--Previno-te, Mauricio, de que no vale a pena perder o tempo commigo.
Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se no
compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem
vs que j no sou criana de quinze annos, e que perdi a paciencia
d'essa idade. Mas vamos almoar, que nos esto chamando.

Durante o almoo, ao qual no assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em
observaes de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas
laconicas de Gabriella, que pz final  preleco, levantando-se da mesa
e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio.

Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu
vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a
ajudar a montar e por ventura para lhe servir de _jockey_.

--Ento que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funces de
monteiro-mr?--perguntou-lhe Gabriella.

--Se me permitte que desempenhe estas funces, muito me honrarei com
ellas.

--Quem pde recusar um offerecimento to amavel? Mas que me encontras tu
de novo para me olhares com esses olhos?

-- porque effectivamente ainda a no tinha visto assim.

--Assim, como?

--To...

--To?...

--Com esses vestidos.

--Ai, ainda no?  verdade que ainda me no tinha dado para isso aqui.
Ento tambem ainda me no viste cavalgar?

--Ainda no.

--Olhem que descuido o meu!--disse Gabriella, saltando agilmente sobre o
sellim, auxiliando-se da mo de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras
do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas,
proseguiu:

--Pois n'esse caso vaes ver o que so primores na arte. Ao que parece
vens tambem?

--Se me permitte?--disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia j a
montar.

--Com uma condio.

--Qual ?

--Quando eu te disser que nos separemos, hs de condescender.

--Obedecerei, embora me custe.

-- indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que no posso realisar
seno ssinha.

--Acompanhal-a-hei at onde me permittir.

--Est dito. A cavallo!

E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a
Mauricio para que a seguisse.

Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que
lanou o cavallo, no lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcanada, a
baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao
lado do outro.

A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e
dera-lhe ao olhar uma animao maior do que a que lhe era habitual.

O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo
impeto da carreira, realavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino,
no qual se j se desvanecra o frescor da primeira juventude,
sobreviviam ainda os traos permanentes de uma belleza correcta.

Mauricio no se fartava de a admirar aquella manh. Fra para elle uma
imprevista revelao. Dir-se-ia que at alli uma nuvem lhe occultra as
perfeies da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgra para o
surprender.

O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do
espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava
actuando no corao de Mauricio, predisposto como o de poucos para
aquelle influxo.

A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma
arte, que sabia occultar-se para no prejudicar os effeitos que obtinha,
attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel.

A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor
proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, alm
d'esta desculpavel fraqueza, outras razes havia mais poderosas para que
essa observao a lisonjeasse.

Gabriella, como j dissemos, ficra viuva muito joven, do baro de Souto
Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettra a si
propria consultar o corao antes de prender-se segunda vez.

Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle  Casa Mourisca,
sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos
nobres esforos de Jorge para remedial-os, occorrra-lhe o pensamento
generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mo
os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admirao e o
respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar
esse passo com o corao folgado.

Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se
habitura e que amava com toda a paixo de uma mulher da moda; mas
confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia
lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porm mais de perto com o primo,
comprehendeu que devia desistir do seu projecto.

Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, no a amando,
no se resolveria a aceitar a mo que ella lhe offerecesse, mrmente por
levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza.

Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio no pensra ao
principio. Achava-o to leviano, que, como ella dizia, no podia
lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porm, notando a
subita impresso que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos
duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de
differente luz.

Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazl-o partir
para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppr a abandonar a
aldeia justamente na occasio em que a resistencia do pae havia cedido.

Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de
Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o
arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seduces da capital.

Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que no devia
apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel corao do
primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse at
extinguir a outra que l ardia.

E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de
Gabriella se podsse realisar com uma variante. Mauricio no era Jorge.
O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz no o
garantia como um modlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio
dissera ao primo, no era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse
de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A
vida da alta sociedade ensinra-a a ser condescendente. Se encontrasse
no marido verdadeira estima e delicadeza, no seria uma ou outra
infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.

Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.

No exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a
desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria
ampla carreira de gozos, quando soltasse os vos s ambies, que lhe
adivinhra.

Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle
a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de
suppr em quem de tanta fama de experimentado gozava.

Mauricio porm achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada
na alta escla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil
para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais
completa ausencia de affectao. Parecia tudo espontaneidade,
irreflexo, imprudencia at, e julgando conquistar um corao indefezo e
sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente,
armado de vizeira e coiraa e jogando magistralmente com armas de melhor
tempera.

A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixo de
Mauricio por Bertha no passava de uma illuso ou de um capricho.

Mas no haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podsse
ameaar-lhe o corao?

Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a
baroneza. A presena de Mauricio impedia-a de proceder n'essa
investigao, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando
lh'o pedisse.

Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o
cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Smente
proximo da estrada, que conduzia  Herdade, foi que a baroneza lhe pediu
para se separarem.

Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porm insistiu.

Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexo de voz
que alvoroou o corao do pobre rapaz:

--Agora provavelmente vaes procurar vr a menina Bertha?

Mauricio respondeu expansivamente:

--Conceda-me que lhe beije a mo, prima, e correrei a encerrar-me em
casa com as impresses d'esta memoravel manh.

Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o
galanteio.

E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento
occupado pela imagem da prima.

No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia.

E Bertha? pensava elle.

A pobre Bertha, que a vaidosa imaginao do rapaz teimava em representar
perdida de amores, no soffreria muito se outra lhe disputasse com
vantagem a posse do corao d'elle. E no estava esse perigo imminente?

 porm de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos
para augmentar a chamma da sua nascente paixo por Gabriella.

Havia uma perspectiva de lagrimas e de dres a servir-lhe de fundo do
quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se at de antemo do
mal que suppunha ir causar ao corao de Bertha, sentia-se seduzido por
a situao que crera.

Expliquem como podrem estas contradices de caracter, na certeza de
que o facto no  excepcional, antes muito da regra commum.




XXIV


Depois de separar-se de Mauricio, a baroneza guiou a egoa na direco da
Herdade. Decidida a vr e a estudar Bertha, para saber at que ponto
estava o corao da rapariga empenhado nos conflictos domesticos dos
senhores da Casa Mourisca, Gabriella adoptou a resoluo de procural-a
sem simular pretexto algum. Os costumes singelos do campo authorisavam
esta suppresso de ceremonias; demais, como parenta que era de Jorge e
de Mauricio, tinha a certeza de ser bem recebida l.

Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a collina,
avistou uma pequena capella rustica, com a sua galil e o seu pequeno
bosque de sovereiros a rodeal-a, e to pittorescamente situada em uma
das eminencias proximas, que no pde resistir ao desejo de subir at
alli.

A capellinha, erigida sob a invocao de Sancta Luzia, um dos nomes de
mais devoo entre os do florilegio christo, poisava sobre a collina em
uma d'essas situaes que o povo, com seus instinctos poeticos, costuma
escolher para assentar esses modestos monumentos da sua f e piedade.

O valle feracissimo, por onde se estendiam os vergeis, as searas, as
quintas e os lameiros de duas ou tres freguezias, descobria-se todo
d'alli. A vista seguia nos seus successivos meandros o pequeno rio que
se estirava em cho de areia, por entre moitas de azevinhos, de
laurentins e de salgueiros, cujos ramos aqui e alm se abraavam de
margem para margem. O campanario da igreja parochial, a ponte de dois
arcos, os audes, as azenhas, as prsas onde cantavam, lavando, as
raparigas do campo, os estendaes onde a roupa de linho branqueava sob os
raios do sol, as noras toldadas de parreiraes completavam a feio
campestre da paisagem.

Prendendo a egoa ao ramo vigoroso de um d'estes carvalhos decepados, a
que na provincia chamam tocas, Gabriella caminhou a p para a galil da
ermida.

Ao chegar alli descobriu no muro sobranceiro ao lado menos accessivel da
collina, uma rapariga sentada costurando.

A baroneza adivinhou logo que era Bertha e applaudiu-se do palpite que a
fizera desviar do caminho para subir alli.

Bertha saudou-a affavelmente, como quem tambem a reconhecra.

A baroneza dirigiu-se-lhe sem rodeios.

--No  verdade que  a menina Bertha da Povoa que tenho a felicidade de
encontrar aqui?

--Sou, sim, senhora baroneza... porque me parece que estou fallando
com....

--Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para no
perdermos tempo com apresentaes. Agora permitte-me que a abrace, como
a uma pessoa a quem estimo?

--Oh minha senhora!

E as duas mulheres abraaram-se, saudando-se affectuosamente, como se
uma subita sympathia as aproximasse.

--Sabe--proseguiu a baroneza, sentando-se ao lado de Bertha--que ia
procural-a?

--A mim?!

-- verdade. Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capella,
para gozar do panoramma que se descobre d'aqui.

-- um dos passeios mais bonitos d'estes sitios.

--Pelo que vejo costuma fazer d'aqui a sua casa de lavor?

--Ai, no; raras vezes; hoje vim para esperar meu pae, que chega do
Porto. D'aqui avista-se quasi meia legua de estrada. V?

--Ai, volta hoje o pae? Visto isso tambem o meu primo Jorge.

--Tambem... julgo que tambem.

Bertha no foi superior a uma leve turbao, ao ouvir o nome de Jorge e
ao responder  baroneza. Quem tem no corao um segredo que de todos
quer recatar, trahe-o muitas vezes,  fora de disfaral-o. Em cada
olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma alluso, e se a
conversa se aproxima do assumpto, segue-a tremulo, como se segue o
caminho que se abeira de um precipicio.

A baroneza, que tinha ainda os olhos fitos em Bertha com a curiosidade
propria de uma mulher ao observar outra que sabe causar impresso nos
animos masculinos, notou aquelle indicio de confuso, e no o desprezou.

-- um generoso rapaz o meu primo Jorge, no acha?--interrogou ella,
demorando o olhar no rosto de Bertha.

Esta sentiu o perigo em que estava de trahir-se, e concentrando por isso
toda a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baroneza e
responder com apparente serenidade.

-- um nobre caracter, um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho
honrado.

--Respeitar como a um velho honrado, diz bem; amar como a um rapaz  que
no  possvel.

Bertha crou d'esta vez, respondendo:

--No queria dizer isso.

--Bem sei que no. Mas digo-o eu. Jorge  um escravo do dever, e to
absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos, que no ha para
sonhos de amor logar n'aquella cabea. As raparigas no podem amar um
homem assim, em quem os olhares da mais affectuosa sympathia no
insinuam calor no corao. Tem umas maneiras para todas uniformemente
polidas e affaveis, que excluem a ideia da menor preferencia. Pois no
lhe parece?

--Os nobres sentimentos da alma tambem podem exercer algum prestigio...

--Mas valha-me Deus, Bertha, esse prestigio revela-se em taes casos por
uma venerao, que no  amor.  como a que temos pelos sanctos. De
virtuosos e justos que nol-os pintam, fogem do nosso nivel e temos de
elevar a vista para contemplal-os; e d'esta maneira, com os olhos no
co, adora-se, mas no se ama.

Bertha, com os olhos fitos em no sei que ponto da perspectiva, no
respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos.

A baroneza, sem interromper a sua observao, continuou:

--J assim no  Mauricio.

A abstraco de Bertha no lhe deixou reprimir um movimento que estas
palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a
comparao.

Gabriella, observando-a sempre, proseguiu:

--Mauricio no tem o juzo de Jorge,  verdade; porm  mais amavel. Os
seus mesmos defeitos fazem com que seja possivel fital-o mais
directamente, sem que o esplendor dos seus meritos nos offusgue.  um
rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece no nivel commum, em que
todos vivemos, e ahi  bem mais facil amal-o.

Bertha escutava quasi distrahida; s passados instantes, depois das
ultimas palavras da baroneza, foi que rompeu o silencio, dizendo
vagamente:

--So ambos duas almas generosas e merecedoras de estima.

--De certo--insistiu a baroneza.--Mas, minha querida Bertha, eu no sei
se lhe succede o mesmo... mas em geral estes rapazes serios e de juizo,
como Jorge, intimidam-nos a ns outras, mulheres; no ousamos fital-os
com um olhar de sympathia, com medo de que s por esse olhar elles nos
accusem, mentalmente pelo menos, de estouvadas, e o resultado d'isto 
que no olhamos para elles.

Bertha sorria, sem responder.

--Conhece ha muito esta familia?--perguntou a baroneza.

--De pequena. Brincamos muitas vezes, eu, Beatriz e todos elles na Casa
Mourisca.

--E Jorge era ento j assim sisudo?

--Foi sempre mais ajuizado do que as crianas da sua idade.

-- um rapaz singular. J tenho pensado em que era preciso casal-o,
porque dar um excellente chefe de familia. O essencial  passar em
claro os tramites de um galanteio, porque para isso  que elle no .

Bertha nada disse ainda.

A baroneza proseguiu:

--Por isso  necessario que os estranhos tractem d'isso e escolham por
elle.

Bertha aventurou timidamente algumas palavras.

--E aceitar elle a interveno em um acto to essencial da sua vida?
Elle que est costumado a olhar em pessoa por os negocios que lhe dizem
respeito?

--Isso  verdade, mas contentar-se-ha em fallar directamente com a noiva
que lhe propozerem e dizer-lhe com aquella natural franqueza todo o seu
pensamento, e feito isto pde a escolhida ter a certeza de que ter
n'elle um marido leal e affeioado, talvez sem grandes requebros de
amante, mas com a verdadeira estima de um amigo.

--De certo que a pessoa a quem o snr. Jorge estender a mo pde confiar
n'ella como na de um pae.

Bertha, julgando dizer estas palavras naturalmente, no pde tirar-lhes
um tremor de commoo, que a baroneza notou.

Bertha foi quem primeiro rompeu o silencio, que se seguiu a estas
palavras:

--Mas dizia a snr. baroneza que viera procurar-me?

-- verdade. Andava anciosa por conhecl-a. Adivinhava-a pela impresso
que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luiz fallava-me de
Bertha com uma ternura a que j  pouco sujeito; Mauricio com um
enthusiasmo de apaixonado; e Jorge....

Gabriella fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a
physionomia de Bertha.

Esta baixra-se, como para cortar uma malva do cho, mas nas faces
estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um intimo alvoroo.

--E Jorge--concluiu a baroneza--com aquelle modo apparentemente frio que
tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a sua
estima por a pessoa de quem fallava; d'aqui o meu desejo de conhecl-a;
no me admiro agora de todo aquelle effeito, porque eu mesma o estou
sentindo j.

Bertha sorriu, agradecendo-lhe o comprimento.

--Creia-me, Bertha. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou j sua
amiga e talvez possa ainda mostrar-lh'o um dia.

--Agradecida, snr. baroneza.

--No tome esse tom de ceremonia para me fallar. O que eu digo no  um
comprimento. Sabe que mais, Bertha? Talvez que pouca gente esteja to
adiantada no conhecimento do seu corao como eu, depois d'esta nossa
primeira e curta entrevista.

Bertha crou d'esta vez intensamente, e olhando para Gabriella com um
olhar assustado, balbuciou quasi tremula:

--Do meu corao?... Por ventura...

--No se assuste. No quero fallar mais nisto emquanto no me conhecer
melhor. S lhe digo que eu no passo de uma pobre mulher com bastante
corao e com o grau de loucura preciso para me enthusiasmar pelo
partido dos sentimentos generosos e sinceros, quando luctam com as
convenes e os preconceitos sociaes. E agora deixe-me mostrar-lhe um
grupo de cavalleiros que estou d'aqui vendo, e que talvez o seu olhar
melhor possa distinguir do que o meu.

Bertha, seguindo com os olhos a direco que a baroneza lhe indicava,
exclamou:

--So elles, so!  meu pae e Jorge... e o snr. Jorge.

E aproximando-se do angulo do adro, d'onde melhor poderia ser vista,
pz-se a acenar com o leno para os recem-chegados.

Thom no respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava na ponta da
vara do cavalleiro, como flammula em mastaro de navio, o leno de
quadros, que o vento desenrolava.

Gabriella, seguindo com os olhos os movimentos de Bertha, pensava:

--O mysterio d'esta j eu descobri. Pobre criana! tem muito pouca
astucia para occultal-o. Ha n'ella uma transparencia que deixa vr at
ao corao. E aquelle?--proseguiu, dirigindo os olhares para Jorge, que
ainda vinha longe--Enganar-me-ia eu? No ser aquillo smente frieza,
ser reserva? Pde ser, pde. Estes homens assim morrem s vezes com uma
paixo no peito, e morrem por esforos que fazem para occultal-a. Se o
facto se dr com Jorge,  uma coisa gravissima; quem pde calcular o que
se seguiria? Emquanto a Mauricio, j vejo que est tudo bem; parece-me
que por este lado no deixar muitas lagrimas por vestigio da sua
passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar para longe d'estas
paragens. Mas observemos.

Bertha, que corrra a esperar os cavalleiros, estava nos braos do pae,
que a beijava com effuso. A baroneza, meio occulta por um tronco de
sovereiro, notou um rapido olhar de Jorge para Bertha, quando a rapariga
ainda o no podia vr, porque Thom lh'o encobria; notou mais que assim
que Bertha o procurou, estendendo-lhe a mo, Jorge correspondeu com
ceremoniosa deferencia, e nunca mais dirigiu para ella a vista.

A baroneza foi emfim ao encontro dos viajantes.

Recebeu de Jorge um acolhimento sem comparao muito mais expansivo, do
que o que Bertha lhe merecra. O penetrante espirito de Gabriella
interpretou esta differena a seu modo.

A companhia desfez-se passado pouco tempo.

Thom tinha pressa de chegar a casa; segurando a egoa pela arriata,
despediu-se da baroneza e de Jorge, e partiu, em companhia da filha,
caminho da Herdade.

A despedida de Jorge e Bertha teve a mesma apparencia de reserva e de
constrangimento, que caracterisra o primeiro encontro.

Observou porm Gabriella que, proximo a dobrar uma curva do caminho,
alm da qual se perdia de vista Thom da Povoa e a filha, que seguiam em
direco opposta, Jorge se voltou para traz com apparente naturalidade.

--Ento que resultados colheste da tua excurso?--inquiriu a baroneza,
no demonstrando as descobertas que ia fazendo, emquanto cavalgava ao
lado do primo.

--Excellentes--respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfao.--Estes
dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor caminho
depois da minha conferencia com os advogados. No me havia illudido
sobre a importancia do tal documento que a incuria de frei Januario
deixra encher de mfo nas gavetas.

Os advogados quasi me asseguraram o exito da causa. Se assim fr, posso
dizer meio vencida a tarefa que emprehendi. As informaes que colhi
sobre a nova instituio de Credito Predial animaram-me. Legalisados
alguns titulos menos regulares, e alienando uma parte da nossa
propriedade, que  apenas um estorvo ao melhoramento da outra, poderei
habilitar-me a usar prudentemente do credito, recorrendo  nova
instituio; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns annos remir a
divida, graas  eficacia dos melhoramentos que espero realisar. E dizem
ainda mal das instituies modernas! Ellas apenas sacrificam os que a
ellas recorrem com uma inteno m. O dissipador que julga illudir o
credito sob falsas promessas de melhoramentos,  um dia por elle
severamente castigado. E justo  que o seja. Mas quem o procurar com boa
f, com lizura, com intelligencia e com o animo decidido para trabalhar,
encontrar n'elle auxilios milagrosos.

Jorge faltava com tanto enthusiasmo, que a baroneza, ao ouvil-o, ia
sentindo dissiparem-se as suspeitas que ao principio concebra.

--Este enthusiasmo enche completamente todo aquelle corao--pensava
ella--no pde haver l dentro vazio que o atormente.

Jorge proseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus
negocios, dos seus planos de reformas, das suas esperanas no futuro, e
quasi lhe no poupou o calculo de annuidades, pelo qual chegava a
determinar a poca em que poderia amortisar totalmente a divida
contrahida, segundo as bases da legislao hypothecaria.

S prximo  quinta dos Bacellos foi que a baroneza conseguiu dar 
conversa a direco que havia muito lhe desejava vr tomar.

Discutindo com o primo o valor dos meios a que se poderia lanar mo
para trabalhar na empreza em que elle se empenhara, Gabriella
lembrou-lhe o de um casamento com mulher abastada.

Jorge sacudiu a cabea em signal de repugnancia.

--E aconselha-me isso?--exclamou elle--No seria regenerar-me, seria
vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquella aonde nos conduziria o
systema de administrao seguido at agora n'esta casa; porque n'esse
apenas se punha em venda a propriedade, e n'este vendia-se o
proprietario.

--Isso  conforme a maneira de vr as coisas; alm de que eu a ti j
fao a concesso de no suppr um casamento exclusivamente por
interesse, mas quero que um pouco de amor authorisasse o contracto, que
sem tal sanco te repugnaria. Tudo se pde combinar.

--Eu no tenho tempo para amar--respondeu Jorge sacudidamente.

--Ora; o amor no espera occasio opportuna. E eu no posso acreditar
que uma alma como a tua no esteja conformada para uma affeio
verdadeira.

--No digo que no; mas quero fugir de pr em pratica essa aptido, se a
tenho, porque talvez que depois no sentisse bastante contemplao para
com o mundo, para aceitar a restrico que elle costuma impr 
satisfao das paixes.

--Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o
mundo?

--Era o mais provavel.

--Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do
povo, pobre, costumada  vida do trabalho e da economia, do que por
qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores.

--Com certeza que no me seduziro essas.

--Mas vamos; se apesar das tuas precaues o facto se dsse--porque
emfim... estas coisas nem sempre  possvel evital-as--romperias
abertamente com o mundo?

--Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me
sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de
certo, se o sacrificio fosse smente meu. Mas, se amasse devras e fosse
amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, no tivesse igual coragem
para o mesmo sacrificio... no me julgaria com o direito de fazel-a
soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o
prestigio de uma crena. Mas fallemos em outra coisa, porque este
pensamento incommoda-me at.

--Dir-se-ia que no  smente como pura abstraco, que elle te
apparece, Jorge. Fallemos porm d'outra coisa, fallemos.

E a baroneza mudou effectivamente de conversa.

Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informaes que
desejra possuir.




XXVI


Clemente, o filho da Anna do Vdor, que nos tem andado longe da vista
desde a primeira vez que o encontramos, estava destinado a influir na
sorte dos principaes personagens d'esta historia; convem portanto que
outra vez o chamemos mais para a luz.

Sabemos j que a vida publica d'este bem intencionado rapaz no era
isenta de espinhos. As resistencias e estorvos que se oppunham 
carreira direita, que o seu vivo sentimento de justia lhe trara,
deixavam-lhe intimos desgostos e turbavam-lhe a bucolica serenidade dos
seus dias.

Embora s iniquidades que observava fosse estranha a sua vontade e a sua
cooperao; embora a consciencia lhe no exprobrasse uma unica infraco
voluntaria das leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas
as almas bem formadas, Clemente tinha motivos de sobra para lhe
amargurarem o corao generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e
as paixes ms, que presidiam  distribuio da justia pelas mos dos
seus superiores e os privilegios que faziam desviar a balana da
horisontalidade com que elle sonhra.

Todos os caracteres nobres no adquirem, sem doloroso aprendisado, a
desconsoladora sciencia, que se chama scepticismo. Cada illuso que se
desvanece  um golpe fundo no mais sensivel da alma, e os conflictos da
vida social deixam feridas que s lentamente cicatrizam.

Clemente estava n'este caso. Modestas como eram, as suas funces civis
tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido no
espirito um fermento de descrena.

Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar
como instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente
sentiu o desejo de se acolher  vida privada, onde no lhe chegasse aos
ouvidos o rumor das injustias humanas.

Um novo incidente, em que tomaram parte os fidalgos do Cruzeiro,
principaes fautores de todos os attentados no concelho, acabou de
decidil-o.

Vimos em um dos capitulos precedentes, que elles protegiam muito s
escancaras a fuga de um refractario ao servio militar, facto que
sobremaneira irritra Clemente, o qual chegou a tentar pr em prtica as
medidas extremas, que a lei lhe permittia. Encontrou, porm, na
authoridade administrativa, que afagou a influencia eleitoral dos
fidalgos, froixo apoio, e o refractario conseguiu escapla.

Logo depois de realisada a fuga, Clemente, que a attribuia sobre tudo 
falta de energia do seu chefe, recebeu d'este um officio censurando-o
asperamente pela debil vigilancia que tivera no caso e admoestando-o
para ser de futuro mais activo e diligente.

Esta duplicidade indignou o ingenuo rapaz, que resistiu a custo 
tentao de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades.

Dias depois houve um sero em casa de um lavrador da freguezia, e
Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para
essa noite umas vinganas contra uns serandeiros com quem mantinham uma
rixa antiga.

O regedor, no s por dever do cargo, como pelo desculpavel desejo de
dar uma severa lio a esses incorrigiveis, causa principal dos seus
desgostos, tomou providencias, reuniu os cabos e rondou as proximidades
da casa do sero.

A precauo policial foi util, porque evitou alguma desgraa sria. Pela
meia noite os dois irmos do Cruzeiro sahiram ao caminho a um camponez,
que recolhia do sero, e atacaram-n'o com impeto, que no denunciava um
proposito innocente.

O regedor cahiu porm sobre elles, e a muito custo conseguiu
captural-os, jurando que smente os soltaria  ordem expressa da
authoridade superior.

A ordem veio e redigida em termos severos para o honesto rapaz, a quem
se recommendava mais tino e cordura no desempenho das suas obrigaes.

Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva
quasi exhausta d'aquella carcomida arvore genealogica, clamaram contra o
attentado do regedor e chegaram a ameaar-lhe a existencia, fazendo-lhe
esperas nocturnas. Mas, o que mais  ainda, o povo, os pobres, os
opprimidos, os esmagados de hontem, esses mesmos, quasi levaram a mal ao
regedor a falta de atteno que tivera para com os fidalgos. Transtornar
uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandalisa sempre
os fanaticos da ordem; e ha-os to fervorosos, que a adoram, ainda
quando ella revista a feio moscovita.

A taa trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demisso e
foi-lhe concedida, com muita facilidade por as eleies estarem
proximas, e serem em regra incommodos impecilhos estes caracteres amigos
do justo para o andamento da machina administrativa, quando empregada na
grande tarefa de cunhar deputados com a effigie governamental.

Com grande jubilo celebrou Anna do Vdor a resoluo do filho. Havia
muito tempo que ella lhe aconselhava aquelle passo.

--Que preciso tens tu, Clemente, de te metteres n'estas barafundas? Se
no precisas d'isso para comer, para que has de perder o socego com
coisas que te no do interesse?--pregava ella, inoculando no filho a
sua philosophia um tanto egoista.--Olha, rapaz, a tua casa j d bem que
fazer a um homem. E quem quizer que prenda os ladres e ande adiante dos
cabos em servio do rei, que tu, graas a Deus, no ficas mais honrado
com isso. Inda se essa gente do governo fizesse caso de quem os serve
bem, mas tu ests vendo como elles so. Por isso deixa-os; elles que se
avenham, que l se entendem.

Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria,
disse-lhe a ajuizada matrona:

--Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves fazer?  casar-te.
Isso  que era ouro sobre azul. Porque emfim, rapaz, s assim  que se
ganham raizes em casa e que um homem  devras homem de familia.
Emquanto solteiros, ora adeus, por melhores que vosss sejam, l vem um
sero, l vem uma caada, l vem uma doida de uma rapariga que vos faz
andar a cabea  roda. No ha como  isto de ouvir gemer as crianas em
casa e cantar a mulher a arrolal-as. Tu riste?  o que te digo. Quando
eu me casei com teu pae, que Deus haja, todos me diziam:  filha, no
levas homem que te gaste muito os trastes da casa. Porque, emquanto
solteiro, elle tinha sido d'aquelles de se lhes tirar o chapo, dos taes
que Deus mandou fazer. Pois era vl-o depois. Logo que podia, elle ahi
estava ao p de mim a brincar com as crianas. At muitas vezes eu lhe
cheguei a dizer:  homem, sahe-me d'aqui para fra; eu no gsto de vr
homens to caseiros. Por isso, rapaz, faze o que te digo, casa-te, que
ests em boa idade.

--No vou longe d'isso, minha me, mas bem v que no  coisa que se
faa assim do p para a mo.

--No, olha, tu tambem para andares muito tempo a arrastar a aza 
rapariga  que no s, que isso sei eu. Pois ento  tractar da coisa
como de negocio serio e casar.

--Mas... e a noiva? Ahi est j a primeira dificuldade.

Anna do Vdor olhou muito direita para o filho, e depois de um instante
de silencio interpellou-o:

--E ento tu, na tua verdade, ainda no lanaste as tuas vistas?

Clemente encolheu os hombros como quem no podia dizer que no, nem
queria dizer que sim.

--Ora para mim  que tu vens com isso. Lanaste, sim, e nem podia deixar
de ser, que no tinhas muito onde escolher. Queres que te diga quem ?
Olha que tambem eu nunca tive outra na ideia.

--Mas eu no pensei ainda a serio....

--Adeus; e que tens tu que pensar? Porque  que te no havia de convir a
pequena do Thom?

Clemente respondeu um pouco sobresaltado:

--A mim de certo convinha; agora eu  que talvez lhe no convenha. A
Bertha est educada tanto  cidade...

--E com quem queres tu que ella case, no me dirs? Com algum dos
pequenos do fidalgo, hein? Que elles esto mesmo alli  espera d'ella.
Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as mos ao co se agarrar um
marido, que no  nenhum labrego, que  homem de bem e capaz de
estimal-a.

--Mas o pae, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas da
filha, ha de aspirar a mais.

--O qu? O Thom  um homem de juizo. E ento digo-te mais, eu j lhe
toquei n'esse negocio, e o homem no se deitou de fra d'isso, antes
mostrou que lhe agradava bem o projecto.

--Devras fallaram n'isso?

--Ento no t'o estou a dizer? E o Thom da Povoa lembra-me bem que me
disse: A minha Bertha o que deve esperar  um marido honrado,
trabalhador e que a saiba estimar, e o seu Clemente  a nata dos
rapazes. Depois, aqui para ns, o Thom sabe as circumstancias em que
tu ests, e, vamos l, isso tambem influe. E faz elle muito bem, l isso
ningum lhe pde levar a mal.

--Porm Bertha...

--Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou
vendo  que tu com'assim no ds conta do recado. Por isso vae ter com o
Jorge. Elle  alli tudo em casa do Thom,  quem d l os dias sanctos.
O que elle diz  o que se faz, nem se mexe um p em casa sem consultar o
pequeno. E juizo tem elle para aconselhar bem, que aquillo foi mesmo um
milagre do co, o nascer aquelle rapaz na famlia. Pois vae tu ter com
elle, vae e dize-lhe as tuas tenes, e elle gue se encarregue do mais.
Vae por ahi, que vaes bem. Digo-t'o eu. O Thom tens tu de teu lado, e
Luiza diz sempre com o marido; emquanto  rapariga, ella ha de
reconhecer que tu no s noivo que se engeite.

Horas depois, Clemente, a quem a me acabra de convencer, procurava
Jorge no seu gabinete de trabalho na propriedade dos Bacellos.

Clemente encontrou Jorge sentado  banca, tendo diante de si massos de
papeis e de livros, que consultava com atteno.

A entrada do filho de Anna do Vdor no obrigou Jorge a interromper a
sua tarefa; saudou-o com a affectuosa familiaridade que de pequeno usava
para o seu irmo de leite, e continuou trabalhando.

--Bons dias, snr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se?

--Que remedio, meu bom Clemente, que remedio? Estes negocios de minha
casa esto de tal maneira enredados, que no fazes ideia.

--N'esse caso fiz mal em entrar; vim distrahil-o.

--No, no, Clemente, no. Deixa-te ficar, que me no estorvas. O que
estou fazendo no  de tal transcendencia, que no me deixe fallar com
os amigos. Estou aqui a ver se descubro n'esta papelada um documento de
que preciso. Aquelle frei Januario sempre tinha isto em uma desordem! Eu
bem sei o que elle merecia. E que me ds tu de novo, Clemente?
Disseram-me que te demittiste do logar de regedor?

--E ha mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi seno
desgostos no officio.

--Sim, c por este mundo, quem andar por caminho direito pde contar com
encontres, que magoam--observou Jorge, sem erguer os olhos dos papeis.

--E no foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lh'o, snr. Jorge, mas
aquelles seus primos do Cruzeiro...

Jorge encolheu os hombros, fazendo um gesto de desprezo.

--Que queres tu, homem? Se elles nem para si mesmos so bons! Aquillo
nos Cruzeiros  uma cama de tres javalis, qual d'elles mais selvagem.
Que se pde esperar d'aquella gente?

--Mas teem quem os attenda, que  o que me faz zangar. Uma authoridade
descer quellas baixezas e andar ahi a receber o beija-mo d'aquelles
senhores! Isto, isto, a fallar a verdade, parece-me... nem eu sei o que
me parece.

Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel
que encontrra no masso. Depois, tomando  margem uma nota a lapis, e
pondo o papel de lado, ponderou vagamente:

--Coisas d'este mundo, Clemente; que remedio seno aceital-o assim?

--Isso  que  verdade.

--E l por casa como vo? Tua me?

--Bem; foi ella quem me aconselhou esta visita.

--Sim? Ento j no t'a agradeo.

--Eu, a fallar a verdade, como sei que tem o tempo muito occupado,
receio...

--Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse to occupado que me
no fosse possivel receber-te, com a maior franqueza t'o diria. Bem
sabes que entre ns no ha etiquetas.

--Pois eu vinha para pedir-lhe um favor.

--Terei muito prazer em te servir--respondeu Jorge, levantando-se para
procurar novos papeis na secretaria e voltando a sentar-se  banca,
sempre entretido no seu trabalho.

--Como sabe, pedi a minha demisso e estou agora resolvido a viver em
minha casa, e a occupar-me smente dos meus negocios.

-- justo. E quem bem trabalha no que  seu, tambem trabalha no que  de
todos--ponderou Jorge emquanto executava uns calculos arithmeticos.

--Ora, para fazer a vontade a minha me e tambem por me sentir com
inclinao para isso, estou meio decidido a...

--A casar-te, hein?--concluiu Jorge, sem manifestar surpreza, e
notavelmente embebido na execuo dos seus calculos.

--Justamente.

-- uma boa resoluo. Os homens como tu do excellentes chefes de
familia. Podes fazer a tua felicidade e a da mulher com quem casares.

--Isso so favores seus, snr. Jorge.

--Ora! Mas a final o que queres tu? Vens ouvir-me de conselho n'esse
negocio? A mim, um rapaz solteiro?...

--No, senhor, a coisa  outra.

--Ento?

--Eu j lancei as minhas vistas...

--Sim,  natural.

--Mas no sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe fallar a verdade,
no me sinto com animo de... de tractar disso em pessoa.

--No? Ora essa! E ento?

--E ento lembrei-me do snr. Jorge para lhe pedir este favor.

--De mim?! Tem graa. Queres obrigar-me a representar o papel de
casamenteiro. Com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a
razo por que te lembraste de mim--disse Jorge que, havendo concluido o
calculo, poisra a penna e esfregava vivamente as mos para aquecl-as.
Olhando d'esta vez directamente para o seu interlocutor, perguntou-lhe:

--E quem  a noiva?

-- a filha do Thom da Povoa.

Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferena com
que Jorge escutra at alli as communicaes de Clemente. O
estremecimento que no pde reprimir ao ouvil-as, a subita transformao
que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a
Clemente, se este bom rapaz no tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca
entram de subito as suspeitas, mas smente depois de muitos e porfiados
embates.

--A filha do Thom da Povoa!--repetiu Jorge estupefacto.

--Sim--tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto--a
filha do Thorn da Povoa, do Thom da Herdade... Bertha, a que foi
educada em Lisboa e que voltou ha tempos...

--Bem sei--atalhou Jorge com impaciencia--mas... Bertha...

E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia:

--Bertha da Povoa... mas... mas como te lembraste agora de Bertha sem
mais nem menos?  singular!

--Como me lembrei agora? Mas no foi agora que me lembrei. Eu j tinha
penado n'isso.  a noiva que eu proprio...

--Pois sim, mas... Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa?  o
que pergunto.

--Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se no fosse n'ella, seria em
outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do corao...

--Ahi vens tu j com o corao--acudiu Jorge com mal reprimido
despeito.--Vosss fallam no corao a proposito de tudo. E at agora
ento, que andavas todo influido com a tua regedoria, no te importaste
com o corao, nem elle te dizia nada... Ora adeus! O corao!...

E erguendo-se da banca com certa agitao, que estava espantando
Clemente, pz-se a passeiar no quarto, e to convulso que no conseguia
preparar um cigarro, que mal sustinha nas mos.

Clemente allegou:

--Eu no digo que isto seja uma paixo muito forte, uma paixo por ahi
alm; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e
lembrei-me de Bertha.  uma boa rapariga, bem educada e de alguns
haveres...

Jorge cortou-lhe a palavra:

--Ah! ento dize-me d'isso. Agora j entendo por que te lembraste de
Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi  que
est a questo. Vosss so todos os mesmos a final. O interesse, o
maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te
francamente que fazia de ti melhor conceito. L porque uma rapariga tem
meia duzia de centos de mil reis, j a perseguem com proposito de
casamento, j...

-- snr. Jorge--interrompeu Clemente, to surprendido como vexado com o
que ouvia--por quem  faa melhor opinio de mim. No s me no lembrei
de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem?
Eu! Se a rapariga disser que no, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que
a minha proposta no a deshonra.

Jorge principiava j a conhecer a sem-razo com que fallava, mas no
podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. No
tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso
irritado contra a hypothese que to imprevistamente lhe surgira no
caminho.

--Pois sim... mas...--murmurava elle, sem saber o que dissesse--mas...
Bertha... Olha, se queres que te falle a verdade... Bertha no te
convem.

--E porque acha?

--Porque... Ora, porqu?... Eu no posso bem dizer porqu... porque...
porque no.

--Parece-lhe talvez que tem uma educao muita fina para mim?

--No, no digo bem isso... mas...

--Eu tambem concordo. Mas attenda o snr. Jorge que aqui na terra as
pessoas melhor educadas do que eu no a querem para mulher. Eu sei de
fidalgos que no se lhes daria de inquietal-a, e j o teem mostrado. Mas
creia que menos a honram os olhares d'esses taes, do que a minha
proposta. Eu no apreciarei, como conviria, os talentos de Bertha, mas
talvez os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poder fazer de
mim um bom marido.

--Ninguem te diz menos d'isso... mas... bem vs que... Eu no sei quaes
so as tenes de Thom, porm parece-me que...

--De Thom sei eu que approvaria o casamento, porque j o disse a minha
me.

A estas palavras cresceu outra vez a irritao de Jorge.

--Ento j  negocio tractado? Os paes fallaram-se. Est dito tudo.  o
absurdo costume c da terra. Provavelmente vo exercer presso sobre a
pobre rapariga, que se sacrifica para fazer a vontade  familia. Olha,
sabes que mais, Clemente, isso no  bonito. Para que hei de estar a
dizer o contrario? No  bonito. Nem eu te quero dizer tudo o que penso
d'isso.

--Mas, valha-me Deus, eu estou devras admirado de vr o juizo que o
snr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com
alguma mulher contra vontade d'ella?

--Tu  que disseste que tua me e Thom j se entenderam--observou
Jorge, continuando a passeiar no quarto.

--Disse que fallaram n'isso e que elle no desapprovra. Mas o snr.
Jorge conhece o Thom e por isso sabe que elle no  homem capaz de
obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal! Mas emfim vejo que o
snr. Jorge no approva a minha escolha; eu respeito-o muito e no quero
ir contra o seu parecer. Direi a minha me...

Jorge acudiu com vivacidade:

--No, no. Eu no desapprovo. Essa  boa! Que tenho eu com isso? Segue
l o teu destino. E se fores feliz... tanto melhor. Eu sou teu amigo,
desejo a tua felicidade. Anda... tenta... nada perdes em tentar.
Emfim... eu no tenho objeces a pr... s me parecia que... Mas emfim,
anda para diante.

--Pois sim, mas... eu desejava que o snr. Jorge fosse quem fallasse.

Cresceu a impaciencia a Jorge.

--No, no, isso  que no. Perde isso da ideia. Que lembrana! Eu
fallar! E porque hei de ser eu? Que tenho eu com isso? Conheo o Thom,
no conheo a filha. Que me importa a mim saber se a Bertha te quer para
marido, ou se no quer? Era at ridiculo. Mas como te lembraste de mim
para esse emprego?

--Foi minha me quem me aconselhou.

--E porque no vae ella? Assim como tractou com o pae, que tracte com a
filha. Quem quer negociar casamentos para os filhos no incumbe a
estranhos parte da misso.

-- porque minha me julgava que o snr. Jorge no era para ns de todo
em todo um estranho--murmurou tristemente o collao de Jorge, a quem a
imprevista maneira por que fra acolhido por este tinha deixado em
profundo desconslo.

Estas palavras de timida censura e a maneira branda e resignada com que
foram ditas, commoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbra
a habitual serenidade do seu espirito. Fazendo um esforo para dominar
os despeitos que ainda sentia revoltos no corao, disse com maior
placidez, apertando a mo de Clemente:

--E julgava bem tua me. Eu no posso ser para vs um estranho, nem vs
para mim o sois. Farei o que desejas. No faas caso das minhas
palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa de
certos negocios, e por isso fallei ha pouco mais vivamente. Desculpa. O
teu projecto  razoavel, eu fallarei n'elle a Thom. Que duvida? O que
no prometto  servir-me de qualquer influencia que tenha sobre elle,
porque... porque emfim... tenho escrupulos.

--Nem eu quereria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso; que lhe
diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor...

--Ser melhor no fallarmos em amor--atalhou Jorge com renascente
impaciencia--porque afinal, Clemente, vendo as coisas como ellas so, tu
no amas Bertha.

Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge
respondeu j com mais fora:

--No amas, homem, no amas. Talvez estejas persuadido de que a amas,
mas no ha tal amor. Desengana-te. Isso em ti  um projecto frio,
pensado, no qual s achaste vantagens e portanto resolveste adoptal-o.
Tens consideraes por Bertha, entendes que podes estimal-a; mas amor 
outra coisa. Deixemos porm isto. Fica decidido, eu fallarei a Thom e
dar-te-hei a resposta.

--Agradeo-lhe, snr. Jorge. Mas veja l, se lhe custa...

--Porque ha de custar? Ora essa! Se fallo quasi todos os dias com o
Thom. Em logar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado das
terras, conversaremos n'isso. Sim, porque para mim  um assumpto como
outro qualquer, O casamento de Bertha  um assumpto em que eu posso
conversar com Thom, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento de
Bertha? Eu no sou irmo d'ella. Estimo-a,  verdade, mas... o que 
certo  que...  que me no compete importar-me com o casamento de
Bertha. J vs ento que no me pde ser custoso fallar n'isto ao pae...
Pois porque te parecia que me havia de custar?

E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com uma inquietao que
admirava Clemente.

--A mim? Por nada--respondeu este.--Eu dizia que no caso de no querer.

--Mas porque no? Fallo. No tenho a menor duvida. manh dar-te-hei a
resposta. Adeus. Agora peo-te licena para examinar umas contas.

--Eu retiro-me.

--Ento adeus. E vae descanado; hoje mesmo tractarei d'isso.  uma
coisa to simples! Pois no te parece que  uma coisa simples? Sim,
porque bem vs que eu nisso no tomo parte activa. Por acaso tinhas
algum motivo para suppr...

--Nenhum.

--Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo... talvez...

--Eu no julgava tal--respondia Clemente cada vez mais espantado com a
insistencia de Jorge, to singular pelo menos como a sua primeira
irritao.

Jorge conduziu o seu amigo at  porta do gabinete, onde se despediu
d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mo.

Depois de Clemente sahir, Jorge voltou a sentar-se  banca, e, como quem
se dispunha a proseguir no trabalho interrompido, pz-se com affectada
tranquillidade a aparar um lapis, e trauteando a meia voz; mas tal era o
estado nervoso em que fica e a sua distraco to completa, que o lapis
desfazia-se-lhe nas mos, em vez de se apromptar para servio. De
repente arremessou de si o lapis, o canivete e varios livros e papeis
que encontrou diante, e erguendo-se exclamou com accentuada amargura:

--Est pois decidido que eu v pedir a Thom da Povoa, e para Clemente,
a mo de sua filha! Tem graa! Sempre se me preparam casos n'esta vida!

Principiou a passeiar na sala, com os braos cruzados, a cabea pendida
e o pensamento disputado por as mais contrarias paixes.

--Ahi est uma soluo que eu no previa--continuou elle.--Sim, senhor;
 a maneira mais simples e mais natural de cortar as dificuldades de que
tanto me receiava. Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam
as minhas hesitaes, acalma-se a minha febre; applicarei o pensamento
exclusivamente aos meus negocios... E ella... ser feliz. Sero
felizes... O casamento  natural... O Clemente  bom rapaz e Bertha...

Esta ideia provocou um movimento de reaco.

--Bertha e Clemente! Clemente marido de Bertha! Bertha casada com
Clemente! No me posso conformar com esta ideia. No posso costumar-me a
reunir estes dois nomes.  monstruoso,  impossivel!

E ficou por algum tempo abatido com os olhos fitos no cho, como
subjugado por aquelle pensamento. Depois tornava, com nova energia:

--Mas quem tem a culpa? Sou eu, eu, que no tenho coragem para passar
por cima de preconceitos ridiculos, que me prendo com teias de aranha e
fico perpetuamente aguardando no sei o qu. Pois que podia eu esperar?
Ou este sentimento em mim  real e poderoso ou no . Se no , com que
direito me estou incommodando com o casamento de Bertha? Se , porque
no lhe obedeo? porque no me declaro, porque hesito...

Vinha depois a reflexo acalmar este momentaneo paroxismo.

--Sim, e havia de descarregar mais esse golpe sobre aquelle velho, que
no tem culpa em acatar esses preconceitos no valor de um credo
religioso! O primeiro golpe, por doloroso que elle o sentisse, foi-lhe
salutar e evitou-lh'os mais crueis. Este porm s teria compensao para
mim, e elle no lhe sentiria o beneficio. Vamos, deixemo-nos de
loucuras. Resolvi ter coragem. Hei-de tl-a. Fallarei a Thom.

Vinha-lhe em seguida um pensamento diverso.

--E qual ser a resposta de Bertha? Ella no pde aceitar Clemente. A
educao que recebeu... E porque no ha de aceitar? Clemente  um rapaz
honrado, trabalhador, capaz de estimar e proteger a sua mulher. Que mais
pde ella desejar? Este  o marido que lhe convem. Talvez lhe preferisse
Mauricio, que se ri d'ella, que no pensar n'ella manh, mas que  um
rapaz da moda, elegante e que lhe sabe dizer bonitas palavras. A
phantasia d'estas collegiaes...

Tornou a razo a fazer-se ouvir.

--Mas ahi estou eu com a minha loucura, accusando aquella pobre rapariga
de defeitos, que nunca lhe pude descobrir. Mas se esta ideia faz-me
perder o juizo! Pelo contrario, a Bertha tem muito bom senso, ha de
comprehender o caracter do Clemente, apreciar as qualidades d'aquella
excellente alma e aceitar a proposta... e at sem a menor hesitao. 
um marido a final. As mulheres o que querem  um marido. Talvez at o
Clemente agrade a Bertha... Ho de ser felizes. Porque no?... Bertha
no tem aspiraes mais solidas... No pde ter... Aquillo com Mauricio
 um capricho. Todos se ho de dar bem, e Bertha com a Anna do Vdor...
Que paz domestica! Tudo isto a final  naturalissimo. Eu sou que lhe
estou dando mais importancia do que merece... Tracta-se de dizer a uma
rapariga: ahi est um homem que te pretende para mulher. A rapariga,
que no tem maiores aspiraes, responde que aceita. E o casamento
faz-se, e tudo entra no caminho ordinario, e eu mesmo me hei de
habituar...

A exploso foi maior d'esta vez, que mais prolongado havia sido o
periodo de represso.

--No, no me hei de habituar--exclamou elle agitadissimo--porque...
porque eu amo-a! Escuso de mentir a mim mesmo. Amo-a!  uma fatalidade,
mas amo-a. Foi o meu primeiro amor e ha de ser o ultimo. Amo-a e hei de
padecer horrivelmente, vendo-a casada com outro. Mas, no importa,
vencerei as minhas paixes. Se continuar a amal-a, ninguem o saber; se
odiar Clemente, suffocarei esse odio no corao; e se elle se despedaar
n'esse esforo, morrerei sem deixar no mundo o segredo de minha morte. O
meu destino est definido;  este, o de vencer-me. Principia hoje a
lucta, vou procurar Thom da Povoa.

Depois de muitos d'estes combates intimos, Jorge tomou effectivamente o
caminho da Herdade.




XXVII


Entrando na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge
encontrou o fazendeiro, que havia pouco tempo voltra de visitar os
campos, sentado  modesta banca do seu escriptorio, examinando com
atteno os livros de assento e algumas cartas que recebra.

Usando da familiaridade, com que era recebido n'aquella casa, Jorge
entrra sem se mandar annunciar.

--Ol! viva o snr. Jorge--exclamou o lavrador, voltando-se ao rumor de
passos que ouvira--venha c, venha, que temos novidade.

--Ento que ha?--perguntou Jorge, sentando-se defronte d'elle.

--Vamos a saber. Teve cartas do Porto?

--No.

--Hum!  o que eu digo. Se est  espera de que os advogados lhe
escrevam, bem tem que esperar. Aquelles senhores, sahindo do
escriptorio, no pensam mais nas demandas nem nos clientes. Olha quem.
Eu c entendo-me com os procuradores e no me dou peior. Ora leia.

E passou para as mos de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador
lhe dava lisonjeiras informaes relativamente ao pleito que a Casa
Mourisca sustentava. A questo tomra uma face nova, depois da junco
ao processo de certos documentos de importancia, e o parecer dos juizes
era favoravel, segundo o que podia conjecturar o procurador, forte
n'estes prognosticos.

A noticia no podia ser indifferente a Jorge. A boa soluo d'esta
demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos economicos; e
poderia depois tentar mais desembaraado e com mais efficacia os
expedientes que a sua meditao e a experiencia de Thom lhe suggeriam.

--Ento que diz a isso?--interrogou o fazendeiro.

-- devras uma feliz nova.

--Diga-me agora se ha de ou no vir tempo em que aquella casa negra
tornar a ser o que foi.

--Espero que Deus me conceda essa ventura.

--Agora  necessrio escrever para Lisboa para apressar o negocio, e com
relao quelles titulos, que parece no estarem muito na ordem,
recommendo-lhe este procurador, que  homem diligente e seguro.

--Era j minha teno fallar-lhe n'elle. Deixemos porm agora esta
materia, porque outro grave motivo me trouxe aqui e tenho pressa de me
desempenhar da misso.

--Ol! Motivo grave! Pelo modo de dizer parece que se tracta de coisa de
polpa.

--No  de pequena gravidade, no--insistiu Jorge--e se quer que lhe
falle a verdade, Thom, no me  agradavel a incumbencia.

--V l. Estou d'aqui a adivinhar o que . Temos algum recado do pae. O
snr. D. Luiz sabe invental-as de bom feitio. s vezes tem lembranas!
Mas eu j estou prevenido para tudo, venha mais essa. Diga l.

--No, Thom, no se tracta de meu pae. E no cance mais a cabea, que
por certo no adivinha, e eu, em duas palavras, ponho-o ao corrente de
tudo. O Clemente, o filho da Anna do Vdor, procurou-me ha poucas horas
para me pedir que me encarregasse de ser o seu mediador em uma preteno
que elle tem dependente de Thom.

--De mim?! Deve ser bem exquisita para que o rapaz no venha em pessoa
fallar-me. Ento no somos ns amigos?

--Ha delicadeza da parte d'elle n'isto, porque a preteno de que se
tracta  de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado de pedir
para Clemente a mo de Bertha.

Jorge no pronunciou estas palavras com a mesma forada placidez com que
at alli sustentra o dialogo. Parecia que os labios as repelliam, como
se os escaldassem ao passar.

Thom recebeu sem estranheza a communicao. Mostrou bem que a ideia
d'essa alliana no era nova para elle, e que no carecia de tempo para
a examinar, porque todas as faces d'elle lhe eram j conhecidas.

--Ah! pois era isso?--disse elle naturalmente--Escusava de tantas
ceremonias o rapaz, porque j deve saber por a me o que eu penso do
caso. Pela minha parte no ponho duvida alguma. O Clemente  um rapaz de
bons sentimentos, honrado como poucos, trabalhador, e tendo j de seu
alguns haveres, que no so maus principios de vida.  um rapaz de
lavoura, como no podia deixar de ser o marido de Bertha, que filha de
lavrador nasceu tambem; mas sempre tem mais um bocadinho de educao do
que esses machacazes que por ahi conheo, a quem no entregaria a filha,
nem que m'a pesassem a oiro. O Clemente no, o Clemente  um homem que
sabe dar valor s coisas, e ha de conhecer que a minha Bertha sempre se
creou por a cidade, e que por isso exige outro tractamento que no o
d'essa raparigada por ahi, que de qualquer maneira est bem. Pois no
acha que tenho razo, snr. Jorge?

--Sim--respondeu Jorge, levantando-se e encaminhando-se para a janella,
como para dissipar o despeito, que lhe causava a maneira por que Thom
fallava d'aquella alliana--sim, Clemente tem maneiras mais polidas e,
como diz a me d'elle, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da
excellencia pela pratica da correspondencia official.

--Isso l historias--tornou Thom, sem perceber a meia ironia das
palavras de Jorge--que para nada lhe serve a senhoria e a excellencia
para o casamento. Entre marido e mulher no ficam bem essas ceremonias,
e no ha como o tu entre quem se quer bem.

Estas palavras incommodaram tanto Jorge, que principiou a tocar
ruidosamente nos vidros como para no as ouvir. Tu entre Clemente e
Bertha!

Thom continuou:

--Mas eu no queria dizer isso. Quando fallava nas maneiras do Clemente
queria dizer que elle tem isto, que no sei bem como se chama, isto de
um homem saber tractar com uma pessoa delicada sem a offender. Porque,
v o snr. Jorge? eu conheo homens que tiveram grande educao, muitos
mestres, e muitos estudos, sim senhores, e que esto sempre a dizer
coisas que offendem os outros. Emquanto que muitos, que no foram to
bem olhados em pequenos, teem l no sei que dom de conhecer as pessoas
e sabem viver com ellas sem nunca as escandalisar. Isto  assim como que
uma delicadeza que se no aprende, que nasce com as pessoas. Ora o
Clemente  dos taes.

--Em vista do que ouo, reputo-me feliz por ter sido o portador de to
fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para obter-lhe
um genro to precioso--disse Jorge, cujo despeito se exacerbava.

--Devagar, devagar, esta  c a minha opinio, mas no sou eu que me
caso e portanto Bertha  que ha de decidir. Eu no duvido dar conselhos
a minha filha e dizer-lhe o que penso d'este ou d'aquelle rapaz de quem
ella se lembre para noivo; mas constrangl-a, isso  que eu no fao.

--De certo; mas creio que Bertha no ser to cega, que no veja as
excellencias que concorrem na pessoa de Clemente, e que se no lisonjeie
da preferencia que lhe mereceu.

--Pois eu tambem quero crr que o no engeitar. Mas emfim, a gente v
as coisas com uns olhos e ellas com outros. Por muito ajuizadas que
sejam, as raparigas a final teem olhos de raparigas e s vezes l
descobrem em um homem umas coisas, que as captivam ou que as desgostam,
e ninguem pde saber o que lhes agradar mais. Em todo o caso eu vou
consultal-a.

--Muito bem. Consulte-a e se, como  de esperar do juizo d'ella,
Clemente fr bem acolhido, d-me parte para o participar ao meu
constituinte.

Jorge no podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia, ao
referir-se a Clemente.

--Mas...--disse com certa hesitao Thom--ento retira-se j?

--Pois no diz que vae consultar Bertha?

--Mas, se se demorasse, podia j saber...

--A urgencia no  tanta que se torne necessario esperar. Mas emfim
esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, emquanto lhe falla.

--E tinha duvida em ficar?

--Ficar onde?

--Aqui.

--A fazer o qu?

--A ouvir a resposta de Bertha.

--Eu?!--exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Thom no tinha
explicao.

--Ento que tem? No se tracta de segredo algum.  uma proposta que vou
fazer a minha filha e  qual ella responder sim ou no, e est acabado.
A presena do snr. Jorge nada estorva. Antes poderia dar  pequena
informaes a respeito do Clemente, que ella conhece mal...

--O qu?! Thom!--acudiu Jorge irritado--pois cuida que eu me encarrego
de similhante papel? Eu? Que interesse tenho eu em que Bertha aceite a
proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de que far bem
aceitando-a? Eu sei l? Clemente  um rapaz de quem sou amigo, mas no
sei nem quero saber se d'elle se far um bom marido. A respeito de
casamentos no dou conselhos. No quero que me lancem depois as culpas.
N'esse assumpto cada um escolha por si, porque para si escolhe.
Informaes a respeito do Clemente! Eu?! Mas que informaes quer que eu
d?

--Pois no diz que  seu amigo?--tornou Thom, um pouco admirado com as
maneiras impertinentes que notava em Jorge--No  essa j pequena
garantia para a minha Bertha, que sabe o valor que teem os homens, a
quem o snr. Jorge d esse nome.

--Ah! no sabia que eu era a pedra de toque no conceito de Bertha para
julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado.

--Diga-me uma coisa, snr. Jorge--insistiu Thom, e em tom mais
decidido--se soubesse que o Clemente era um miseravel, um vicioso, um
extravagante, de ms qualidades, e estivesse persuadido de que seria um
mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me, em nome d'elle, a mo de
minha filha?

--Por certo que no--respondeu Jorge promptamente e com toda a lealdade.

--Muito bem; pois  isso mesmo que eu desejava que minha filha soubesse.
O snr. Jorge no lhe daria conselhos, dir-lhe-ia smente: encarreguei-me
de dar este passo, porque este homem  um homem honrado. Agora o mais 
com ella. Mas isso poria as coisas no seu logar. Porm uma vez que no
quer...

Passava-se n'aquelle momento na alma de Jorge uma lucta de resolues
antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Thom,
tentava-o por outro a curiosidade dolorosa de saber como Bertha
acolheria o pedido de Clemente e a resposta que lhe daria. Receiava que
a intima commoo, que procurava suffocar, se trahisse na presena de
Bertha em to solemne momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a
observal-a quando ouvisse a proposta do pae. A curiosidade venceu.
Esforando-se por desvanecer todos os vestigios da sua perturbao,
Jorge respondeu a Thom no tom da maior indiferena, que, visto que elle
julgava conveniente a sua presena durante a entrevista que ia ter com a
filha, pela sua parte no oppunba objeco.

E sentando-se outra vez  banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu
examinar attento, mal podendo reprimir o tremor da mo com que o
segurava.

Thom da Povoa chamou a filha ao escriptorio.

Jorge ouviu os passos de Bertha, descendo as escadas; sentiu-a abrir a
porta e entrar na sala; levantou timidamente os olhos para responder ao
comprimento que ella lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que
abrira.

Bertha olhou interrogadoramente para o pae, que permanecia silencioso,
como quem estudava a maneira de principiar.

A final entrou assim no assumpto:

--Mandei chamar-te, Bertha, porque se tracta d'um negocio serio, que te
diz respeito.

--A mim?--perguntou Bertha admirada, alternando os olhares entre o pae e
Jorge, que no erguia os seus.

--Sim, filha, a ti. O caso no  de espantar. Ha um rapaz n'esta terra,
um moo honrado e trabalhador, a quem tu agradaste e que te pede para
mulher.

Jorge aventurou um olhar furtivo para o rosto de Bertha. Viu-o mudar
rapidamente de cr; crou primeiro, empallideceu depois.

--Este rapaz--proseguiu Thom-- j teu conhecido.  o Clemente, o filho
da ti'Anna do Vdor, de quem s amiga. Agora decide l.

Bertha permanecia silenciosa, como se a inesperada noticia lhe tivesse
tirado o uso das faculdades, a ponto de no comprehender o que ouvira.

Notando o silencio da filha, Thom acrescentou:

--O snr. Jorge foi quem teve a bondade de se encarregar do pedido de
Clemente, porque o rapaz no teve coragem para o fazer em pessoa.

Jorge franziu ligeiramente o sobrolho, a estas palavras, que no quizera
ouvir.

Bertha estremeceu e desviou para Jorge um olhar expressivo de profunda
amargura, que elle no observou. Voltando-se depois para o pae,
perguntou-lhe com a voz tremula e prsa pela commoo:

--E que respondeu o pae ao pedido que lhe fez, em nome de Clemente, o
snr. Jorge?

--Eu, filha?--respondeu Thom--Pela minha parte disse e digo que no
ponho estorvos. Conheo o rapaz, sei as qualidades que elle tem e para
genro agrada-me. Mas isso no tira. Tu  que deves dizer se elle te
agrada para marido.

Bertha baixou, durante alguns momentos, os olhos e no respondeu. Depois
ergueu-os e fitou-os em Jorge, como a procurar-lhe penetrar no
pensamento; a final com voz j mais firme, mas commovida ainda, disse:

--Visto que foi o snr. Jorge quem se encarregou d'essa proposta,
parece-me ter direito a pedir tambem a sua opinio a respeito d'ella.

Jorge estremeceu e olhou para Bertha de uma maneira que denunciava um
intimo sobresalto.

--A minha opinio?--repetiu elle, sem saber o que dizia.

--Sim, o snr. Jorge  amigo de meu pae, e julgo que meu amigo tambem.
No ha de querer vr-me infeliz. Encarregando-se de dar o passo que deu,
 de certo porque julga que eu poderei encontrar a felicidade, seguindo
o caminho que me facilita assim. A sua lealdade obriga-o a dizel-o
francamente, se assim o pensa. E eu atrevo-me a exigil-o da sua
lealdade.

--Eu apenas cumpri a misso de que me encarregaram, mas no
aconselho--balbuciou Jorge.

--O snr. Jorge  demasiado sincero na sua amizade a meu pae para aceitar
essa misso de um homem de quem receiasse que me podia vir a
infelicidade. Quero acredital-o.

Jorge irritou-se; irritou-se contra si por a turbao que sentia, e
contra Bertha, por suspeitar que era o amor a Mauricio que lhe estava
dictando aquellas palavras; por isso respondeu com o tom ironico do
costume:

--No duvido affirmar que o Clemente  um excellente rapaz, que pde
fazer feliz qualquer mulher que no aspira a mais do que  estima leal e
sincera de um homem de bem. Vejo em Clemente garantias de que dar a uma
esposa de ideias razoaveis aquella felicidade que consiste na paz
domestica e no amor da familia. Mas eu no sei se isto satisfar a toda
a gente. Ahi est que as educaes modernas fazem s vezes o espirito
das mulheres mais exigente e habituam-nas a sonhar com umas certas
poesias na vida, que um homem como o Clemente sem duvida no pde
realisar. A essas agrada s vezes mais qualquer estouvado, com a cabea
cheia de loucuras e o corao vazio, mas que tenha a brilhante qualidade
de saber dizer falsidades em bonitas palavras.

Depois, reprimindo esta excepcional vivacidade, que estava espantando
Thom, acrescentou:

--Se, como creio, Bertha no est n'este caso, parece-me que encontrar
em Clemente um marido leal.

Estas palavras pronunciou-as Jorge em tom sumido e baixando de novo o
olhar para o livro que no lia.

Thom voltou  falla:

--Sabes que mais, Bertha, estas coisas querem-se pensadas. Tu dars a
resposta quando quizeres, que a pressa no  muita.

Bertha atalhou:

--No  necessrio, meu pae. A minha resoluo est formada. Pde mandar
dizer a Clemente que aceito.

Jorge sentiu ennevoarem-se as letras do livro, como se lhe passasse por
diante uma nuvem escura.

Thom insistiu:

--No, filha; para que has de ser to apressada? Valha-te Deus. Pensa e
depois resolvers.

--J resolvi, meu pae--repetiu Bertha com firmeza.--Clemente  um homem
honrado, eu no posso aspirar a mais. Dizem que  uma alma generosa, ha
de estimar-me, eu no procuro outras delicadezas alm d'aquellas que
sabem poupar-nos uma offensa immerecida. E  to facil evitar offender
uma rapariga como eu!

E dizendo isto desviava na direco de Jorge um olhar intencional.


--Pde mandar dizer a Clemente que aceito, meu pae--repetiu ella,
concluindo.

--V l! Olha que eu no quero que te constranjas! E agora deixa-me
tambem fallar a tua me, que sem a ouvir no  bom decidir nada.
Espera-me aqui um pouco, que eu vou chamal-a.

E sem aguardar reflexes, Thom, intimamente satisfeito com a prompta
condescendencia da filha, sahiu da sala em procura de Luiza.

Jorge no desejaria conservar-se mais tempo alli, s, na presena de
Bertha, mas faltou-lhe o animo para levantar-se. Ambos se conservaram
calados por algum tempo.

Jorge nem levantra os olhos do livro.

Bertha foi quem primeiro rompeu aquelle glacial silencio.

--Devo-lhe agradecer, snr. Jorge, o muito cuidado que lhe merece a minha
felicidade.

Jorge ergueu a cabea e fitou os olhos no semblante de Bertha.

A violencia que ella fazia para reprimir a sua profunda commoo era bem
manifesta.

--Espero que Bertha se no decidisse pelo partido que adoptou, seno por
sua livre vontade--disse Jorge com mais brandura do que at alli--e que
a minha ingerencia em tudo isto no influisse de maneira alguma para
obrigal-a a sacrificar a sua felicidade...

--Oh! por certo que no--atalhou Bertha, cada vez mais agitada--eu sou.
.. hei de ser muito feliz...

E no podendo reter mais tempo as lagrimas que lhe subiam impetuosas aos
olhos, occultou o rosto entre as mos e poz-se a chorar.

Jorge aproximou-se d'ella com compassiva solicitude.

--Porque chora, Bertha?--perguntou elle com affabilidade.--Se por acaso
foi contra sua vontade que deu aquella resposta, ainda est em tempo.
Ninguem lhe pede um sacrificio, repare. Porque chora assim, Bertha?

Em vez de responder, Bertha elevando para Jorge os olhos banhados de
lagrimas, perguntou com a voz tremula ainda:

--Ficar pelo menos extincta de uma vez com este sacrificio a averso
que me tem, snr. Jorge?

Jorge estremeceu.

--A averso que lhe tenho?! Que diz, Bertha?! Pois imagina?...

--E quer ainda negal-a? No sei em que lh'a tenho merecido, mas existe e
bem clara se manifestou agora.

--Bertha!...

--No lh'o disse eu j no outro dia? E agora o que o moveu a
encarregar-se d'essa proposta? e porque o fez com aquellas palavras
crueis? Eu bem as percebi. Meu Deus, em que foi que o offendi, snr.
Jorge, para ser to severo commigo, quando para com todos  to
indulgente? A minha educao... Deus sabe se me deixei fascinar por
ella, Deus sabe se no luctei sempre contra a imaginao, quando ella me
fazia conceber loucuras, como a todas as raparigas da minha idade. Quem
pde condemnar-me por ellas, se eu sou a primeira que as condemno? Em
que tenho mostrado esses defeitos de educao, que to severamente me
censura? Se soubesse, snr. Jorge, como, percebendo o seu desdem, tenho
sido escrupulosa em procurar em todos os meus actos o motivo d'elle...
Deus  testemunha de que nada descobri. Falle, j agora que est
consummado o sacrificio, j agora que deve julgar satisfeita a expiao
que me impoz, tenho direito a exigir de si o cumprimento da promessa,
que ha poucos dias no ousou recusar-me. Bem v, se descobriu em mim
culpas, para remir as quaes me marcou esta penitencia, bem v com que
resignao eu a aceito e a cumpro. Valha-me pelo menos este pouco merito
para obter da sua parte uma declarao franca, j que no pde
valer-me... a sua amizade. Falle, snr. Jorge, diga-me porque me quer
mal, o que fiz eu, que ms qualidades descobriu em mim para me tractar
como tracta? Falle.

E a commoo cortava-lhe em meio as palavras ao dizer isto. Jorge no
estava menos commovido.

Bertha deixra-se cahir soluando em uma cadeira, e escondia o rosto
entre as mos; Jorge, cujo semblante j no conservava vestigios da sua
fria e habitual reserva, veio sentar-se junto d'ella, tornou-lhe
afectuosamente as mos, e dirigindo-se-lhe com brandura, disse-lhe:

--Vou satisfazl-a, Bertha; vou ser sincero e leal comsigo, j que assim
o quer. Escute-me e saber a causa occulta de todo o meu estranho
procedimento. Olhe bem para mim, Bertha, para lr no meu semblante a
sinceridade da minha confisso.

Bertha ergueu para elle os olhos humidos de pranto.

Jorge proseguiu, apertando-lhe com mais fervor as mos que conservava
nas suas.

--A causa intima, a causa occulta das minhas aces para comsigo,
Bertha, essa causa mysteriosa que eu procurava esconder da vista de
todos e suffocar no meu corao... quer sabl-a, Bertha? Essa causa  o
muito amor que lhe tenho.

Bertha estremeceu e, retirando as mos das de Jorge, levou-as ao rosto
como para reprimir um grito.

Jorge proseguiu:

--Agora ha de escutar-me, Bertha. Os coraes reservados, como o meu,
quando chegam a soltar a primeira confidencia precisam de se revelar
inteiros; escute-me. Amo-a; amava-a antes mesmo de a ver depois do seu
regresso  aldeia. Insinuou-se-me na alma este amor no meio das minhas
preoccupaes e dos meus cuidados, sem eu bem saber como. Ouvia fallar
de si a seu pae, lia as suas cartas, pensava em si e... e amei-a. Foi o
meu primeiro amor. Nunca tinha sentido outro, nunca sentira at a
necessidade de amar. Nenhuma mulher me havia escutado uma s palavra de
galanteio. Persuadira-me eu proprio de que o meu corao era superior 
violencia dos affectos, a que os outros cediam. Quando, pelo que senti,
me vi forado a abandonar esta crena, quando comecei a duvidar da minha
immunidade, assustei-me e irritei-me contra mim mesmo por me achar
fraco. Quiz luctar e vencer essa paixo que, a despeito da minha
vontade, sentia occupar cada vez mais espao no meu corao. Ai, Bertha,
comeou para mim uma lucta extenuadora; quanto mais resistia, tanto mais
me sentia subjugado. Revoltei-me contra a fatalidade d'este affecto,
revoltei-me contra si, Bertha, a quem desejava querer mal por o muito
que a amava j. D'ahi a rudeza das minhas palavras, a quasi hostilidade
do meu proceder para comsigo. Para apagar o prestigio que o seu nome,
que a sua imagem tinham adquirido no meu corao, suppunha-lhe defeitos
imaginarios, inventava-lhe vicios de educao, procurava assim alienar
de si os meus affectos, antes que chegasse o temido momento de vl-a; em
vo, cada vez a amava mais, e no dia em que finalmente a tornei a ver,
conheci que era irremediavel aquella fatalidade; amava-a e muito e
tanto, que at ciumes sentia j.

Bertha, a estas palavras, levantou os olhos para elle.

Jorge proseguiu respondendo quelle gesto:

--Ciumes, sim, Bertha; ciumes que ralavam, ciumes que me enchiam de
remorsos, e que envenenavam quasi o afecto que me ligava a meu irmo.
Porque era d'elle que os sentia. Veja que m loucura a minha!  a
Mauricio que Bertha ama, pensava eu, seduzem-n'a as qualidades
brilhantes de meu irmo, e comtudo elle no a ama como eu. Ento
indignava-me contra si, Bertha, e contra mim proprio, porque a amava
tanto.

A uma pequena pausa que Jorge fez na sua apaixonada exposio, Bertha
ergueu outra vez os olhos para elle, e n'esse olhar ia a condemnao
d'aquelles ciumes.

Jorge continuou:

--E porque me assustava tanto este amor? Porque tentava resistir-lhe
assim? Ao principio foi pela estranheza que me causou este sentimento
novo e desconhecido. Depois, o receio de que fosse descoberto este amor
em um homem que todos suppunham incapaz de amar; um quasi pudor de
corao. Finalmente veio a reflexo augmentar estes receios. Se este
affecto crescesse e me dominasse como paixo violenta e exclusiva, que
obstaculos no teria a vencer! que preconceitos no teria de calcar!
Desprezando arreigados prejuizos de meu pae, incorrra eu j nas suas
iras, mas d'essa vez desattendi-os, menos pela minha felicidade, do que
pela d'elle; para salvar o nome e a honra da nossa familia, a cuja
aviltao meu pae no sobreviveria. Tive por isso coragem para luctar e
tenho-a para proseguir. Mas agora tractava-se smente da minha
felicidade; era s a elle que eu teria de sacrificar os preconceitos, o
orgulho, as radicadas opinies d'aquelle honrado velho. Faltava-me o
alento para tental-o. Preferia dar-lhe em holocausto o meu corao. E o
sacrificio devia ser definitivo, porque a memoria de meu pae o exigiria
de mim, impr-m'o-ia to fortemente como elle proprio. Mas, se este amor
fosse correspondido, faltar-me-ia o animo e at o direito de o
sacrificar assim. Por isso fugi de me revelar, Bertha, por isso tentei
antes fazer-me aborrecido do que estimado de si, de quem eu apreciaria o
amor como um dom do co. Creia. Por isso aceitei com o corao a
despedaar-se-me, mas com certo doloroso prazer, a misso de que me
encarregou Clemente. Deus sabe o que eu soffria ha pouco. A sua
condescendencia torturava-me, nas suas hesitaes julgava descobrir
vestigios de uma affeio... por Mauricio. D'ahi vieram todas as
loucuras que eu disse. Eis o segredo do meu corao, Bertha, eis o
mysterio das minhas aces. Agora julgue-me e perdoe-me. Bem v que
tambem soffro.

E, terminando estas palavras, Jorge inclinou a fronte sobre a mo, como
se o esforo que fizera o tivesse extenuado.

Bertha foi d'esta vez a que primeiro interrompeu aquelle silencio
eloquente de paixo; com a voz ainda sobresaltada, mas com o olhar
seguro, ella respondeu apertando a mo de Jorge:

--A sua confidencia leal e a sua generosidade deu-me coragem de ser
tambem sincera. Jorge, repare; sem o menor receio nem hesitao, com o
olhar erguido diante do seu, vencida por a confiana que se sente em uma
alma to nobremente generosa, tambem lhe fao a minha confidencia.
Jorge... eu tambm o amava...

Jorge ergueu a cabea ao ouvir a inesperada declarao, e por momentos
brilhou-lhe no rosto um claro de alegria.

Bertha, baixando timidamente os olhos, continuou:

--Sim, tambem o amava; mas tambem tinha comprehendido a necessidade do
sacrificio de que falla, e no serei de certo eu quem lhe tire o animo
de realisal-o.  antes para lhe dar coragem que lhe fallo assim; para
que a certeza de que alguem soffre comsigo lhe d allivio no
soffrimento. Venero e estimo seu pae, como se fosse o meu, Jorge, e para
lhe evitar uma dr, no acho grande o sacrificio do meu corao e dos
meus affectos. E agora muito menos; deu-me a certeza de que me no
despreza. Era essa suspeita que me torturava. Agora sou feliz, e
sinto-me corajosa. Encaro sem desalento o meu dever e o meu futuro. No
sero obstaculo os sentimentos da minha alma; porque n'elles sinto eu
antes auxilio.  d'esta natureza o amor que lhe tenho, Jorge. Amando-o,
aceitarei sem remorsos a proposta de Clemente. V?  porque este affecto
ennobrece, e emquanto o sentir no receio de me tornar indigna d'elle.
Apenas fallarei com lealdade a meu noivo, para dizer-lhe que no posso
prometter-lhe amor, porque o no sinto por elle.

--No, Bertha, no; no aceite a proposta de Clemente. Se  verdade que
me ama, no aceite...

--Porque no, Jorge? Creia-me.  a mais segura maneira de vencermos este
sentimento, que a nosso pezar nos dominou. Ambos ns respeitamos muito o
dever. Elle nos dar coragem.

--Bertha; diga outra vez que me ama; diga-me que me illudi sempre em
relao aos seus sentimentos, e eu vencerei as resistencias que se
oppozerem a este amor, como tenho vencido as que luctavam contra os
projectos que formei de salvar a minha casa de ruina.

--Que diz, Jorge? Nunca me poder vir a felicidade da discordia da sua
familia e bem v que era inevitavel. Eu sou a filha de Thom da Povoa,
lembro-me d'isso, Jorge; de Thom da Povoa, o antigo criado da Casa
Mourisca; o homem de quem o snr. D. Luiz recebe os servios como
humilhaes e insultos. Seu pae estima-me; ainda ha bem pouco me
abenoou, como se eu fosse sua filha. No queira obrigar-me a perder
essa estima, que tanto przo. No seria feliz depois; no podia sl-o.
Assim conservarei a amizade de todos... porque o snr. Jorge ha de
estimar-me sempre, no  verdade?

--Hei de adoral-a, Bertha--murmurou Jorge, submettido.

--Vamos; procedamos agora como se nada se passasse entre ns. Ganhemos
coragem para cada um cumprir o seu dever e separemo-nos como bons
amigos.

E commovida ainda, estendeu a mo a Jorge, que a levou apaixonadamente
aos labios, cobrindo-a de beijos.

--Bertha, Bertha, no ser quasi um crime o que fazemos? Despedirmo-nos
assim quando pela primeira vez nos revelamos?

--No, Jorge, no .  um dever... doloroso, mas  um dever.

Ouviram-se as vozes de Thom e de Luiza, que voltavam.

Jorge ergueu-se sobresaltado:

--No posso simular a placidez necessaria para fallar-lhes e ouvil-os
fallar n'este casamento, Bertha; como hei de ter animo para o
presenciar? Adeus e... se lhe faltar a coragem... tudo se remediar
ainda.

--Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. No fraquearemos.

E Jorge sahiu da sala para no se encontrar com Thom.

Bertha recebeu os paes j com os olhos enxutos, ainda que agitada pela
violencia da ultima scena.

Luiza parecia mediocremente encantada com a perspectiva do casamento que
tanto satisfazia Thom.

--Ento  verdade, Bertha? E tu querel-o?--perguntou ella em tom de quem
duvidava.

--Sim, minha me, julgo que devo aceitar.

--E... e o snr. Jorge... tambem te aconselhou?

--Sim--respondeu Bertha mais enleiada--o snr. Jorge  de parecer que
sim.

--J se retirou?--perguntou Thom da Povoa, procurando-o com a vista.

--J. Disse que no podia demorar-se. E eu peo licena para me retirar
tambem.

E Bertha apressou-se a sahir da sala para se esconder no seu quarto e
chorar.

--Emfim!--concluiu Luiza, suspirando e depois de seguir a filha com a
vista--Vosss l o lem, l o entendem. Mas no era isto o que eu
esperava.

--Ento que esperavas tu?--perguntou Thom, levemente
despeitado.--Julgavas talvez que viria por ahi algum principe pedir-te a
filha para casar?

--Eu c me entendo.

--E eu tambem te entendo. Que ainda ninguem te pde tirar da cabea umas
teias de aranha que l se metteram. Agora pelo menos deves estar
desenganada.

Luiza suspirou e no deu resposta. Mas pensava comsigo:

--Bertha j eu vi, e a cara no  de noiva contente. Tenho pena de no
vr a d'elle. Mas emfim, seja o que Deus quizer!




XXVIII


Tinham decorrido alguns dias desde que a baroneza principira a receber
de Mauricio signaes inequivocos de um galanteio, que ella com as mais
louvaveis intenes favorecia.

Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrra  sua nova paixo
todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. No perdia a
menor occasio de se encontrar com a prima e de renovar as scenas, que a
agudeza de genio e a vivacidade de espirito de Gabriella sabiam rodear
de attractivos inteiramente novos para a inexperiencia do apaixonado
moo.

Em poca alguma tinham os criados conhecido Mauricio to caseiro como
ento; cessaram as suas correrias pelos arredores, e os cavallos s eram
por elle tirados da ociosidade quando Gabriella se lembrava de passeiar
pelos campos. Mauricio era ento certo a acompanhal-a.

Este estado de coisas inquietava porm a baroneza.

Caracteres, como o de Mauricio, por muito os vr na roda da sociedade em
que vivia, j para ella no tinham segredos no estudados. No confiava
tanto no prestigio que actualmente exercia no animo de seu joven e
voluvel primo, que no temesse a influencia que poderia exercer sobre
elle a monotonia das impresses da vida que elle passava nos Bacellos.

A baroneza tinha,  verdade, immensos recursos para varial-as. Estava
ainda longe de os dar por esgotados. Quando Mauricio julgava ter
conhecido a verdadeira feio moral de Gabriella, ella desilludia-o,
impressionando-o sob uma feio nova.

Umas vezes fallava-lhe com uma seriedade maternal; outras parecia
abrir-se-lhe na mais fraternal expanso; mostrava-se-lhe mais tarde
reservada e discreta; depois satyrica e espirituosa, e sempre cheia de
encantos, que com perfeitissimo conhecimento e uso da arte sabia fazer
realar.

Apesar d'isso, porm, a baroneza antevia perigos na prolongao
d'aquella vida monotona, e sentia a necessidade de dar um golpe
decisivo.

Era preciso partir para Lisboa e obrigar Mauricio a seguil-a.

A demora d'este projecto poderia mallogral-o. Resolveu portanto apressar
a sua partida.

Uma circumstancia, porm, a tornra difficil.

Os successivos desgostos que tinham ferido o corao de D. Luiz, a
resignao que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiao a que
condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de
Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanas de melhor
futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias
acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e
envelhecl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos.

Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a
chamma legitimista, que lhe abrazava o corao, enfastiavam-n'o, e
tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a
conversao de frei Januario no as podia j aturar sem impaciencia;
perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos
progressivamente sedentarios.

Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer  mesa, jantava e
almoava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama,
debilitando-se n'esta inaco a olhos vistos.

Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento
physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios.

Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas
as graas que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o
e chegava at a fazl-o sorrir.

Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que,
no dizer della podassem adoar as cruezas do genio do fidalgo e
amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas
occasies D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos
livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o corao a
doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, to occultas ellas
se lhe ensinuavam entre os artificios da concepo e da linguagem!

A baroneza tinha muita f n'esta vaccina litteraria.

O resultado porm de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para
Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que no havia contado.

O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado  companhia
d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e
queria-lhe com o apgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as
imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa.

D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a
baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu
melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastra-os para
longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido.
Frei Januario era-lhe insupportavel.

Mas ficar s, viver s, pensar s, alli n'aquella casa que nem era sua,
s nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do
seu passado, com as sombrias apprehenses pelo futuro... esta ideia
aterrava-o. Quando Gabriella alludia  sua prxima partida, elle
desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que no fallasse
n'isso.

A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu
projecto de deixar a aldeia.

Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma
probabilidade menos a favor dos seus planos!

Esta difficil situao em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no
partido que devia adoptar.

Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa,
sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de
espirito em que o via, ella receiava que lhe podsse ser fatal.

Uma manh foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que
tinha emfim descoberto o expediente que procurava.

Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustra o
casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez
que lhe amortecesse as dres do corao, que aquelle facto lhe
produzira. Mas a violencia do esforo canava-o, e bem claro o revelava
na pallidez e depresso da physionomia.

Gabriella no pde deixar de fazer uma observao mal o viu aquella
manh:

-- preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te
de que a tua constituio no  para taes fadigas.

--Porque me diz isso?

--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de
exercicio e de distraco do pensamento.

--Effeitos de uma noite mal passada. Eu no me sinto canado.

--Embora. S prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da
tua perseverana, e a perseverana est mais na continuao dos esforos
do que na violencia d'elles.

--Creia que me sei poupar.

--Muito bem. Agora fars o favor de fechar esses livros e de me escutar,
porque tenho que te dizer.

--s suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe.

--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir
manh pela madrugada para Lisboa?

--Ento que urgencias so essas?

-- que se no tomo uma resoluo assim, no acabo de partir. Vou de
adiamento em adiamento at ao fim do anno. E  indispensavel que parta.

--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida.

--Com certeza que . Alm do que  necessario arranjarmos Mauricio. Has
de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para
elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre
aquelle caracter, alis de muito aproveitaveis qualidades.

--Isso  assim. Porm Maurcio que parta s.

--No partir.

--Porqu?

Gabriella hesitou em dar a razo que Jorge lhe pedia, e respondeu
evasivamente.

--Sei que no partir. Demais  conveniente que eu lhe prepare o caminho
em Lisboa e por isso preciso de l ir.

--Porm meu pae?

--Pois ahi  que est a dificuldade, e por causa d'isso  que eu
reclamei esta conferencia.

--Ento?

--O tio Luiz est bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a
dar-me cuidados. N'aquelle estado no pde prescindir de certos carinhos
e desvelos, proprios s de uma mulher. So-lhe j to indispensaveis,
que elle, coitado, aterra-se smente com a ideia de ter de viver sem
elles. Por isso no quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me
custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta.

--E contudo diz que parte manh!

-- verdade, porque julgo ter descoberto uma combinao que remediar
tudo.

--Qual ?

-- preciso substituir-me.  preciso sentar uma mulher  cabeceira do
tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia
e a quem elle consagre uma affeio que o faa esquecer de mim, e que
lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou,
e ninguem mais est n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga
por quem o tio parece haver j manifestado uma particular sympathia, e
que melhor do que ninguem pde vir a exercer sobre elle uma influencia
salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thom.

Jorge no pde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o
projecto da baroneza.

Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo
modo sacudido, como exprimindo uma opinio irrevogavel:

--No pde ser.

--Porqu?--perguntou Gabriella.

--Porque... porque no.

--Querers dar-te ao incommodo de procurar outra razo mais logica,
primo Jorge?

--Meu pae no aceitaria os cuidados da filha do Thom da Povoa.

--Primeiro que tudo  preciso que consideres que o doente que eu deixo
l dentro no  j aquelle D. Luiz que ns ambos conhecemos na Casa
Mourisca; depois Bertha para elle  raras vezes a filha do Thom,  a
amiga de Beatriz,  a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje
chora. Teu pae no ter coragem para afugentar Bertha de junto do seu
leito, e difficil ser tiral-a de l.

--Thom no consentiria...

--O Thom  um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera
affeio ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe.

--Mas...

--Mas, a final de contas, a principal objeco est em que o primo Jorge
no quer. E porque no quer?

--No  isso, mas... Demais a mais Bertha no viria de certo n'esta
occasio, em que lhe no falta que fazer em casa.

--Pois que ha por l?

--Os preparativos do casamento d'ella.

--Do casamento de... quem?!

--De Bertha.

A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida.

--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?!

--E em pouco tempo.

--Com quem?

--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Vdor.

Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de
Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo,
ao dar-lhe em tom de indifferena aquella noticia.

--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade?

--Por certo. Quem a obrigaria?

--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento?

--Acho-o to natural, que fui eu proprio que fiz a proposta.

--A proposta do casamento?!

--Sim, a proposta do casamento.

--A Bertha?!

--Ao pae e a ella.

--E como te lembraste d'isso?

--Porque o Clemente me pediu.

--Ah! E condescendeste sem dificuldades?

--Porque no?

--E Bertha tambem aceitou sem objeces?

--Sim, sem grande hesitao.

Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida,
como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhra
directamente para a baroneza, que pelo contrario no tirava d'elle os
olhos, nem perdia os signaes de turbao com que elle lhe respondia.

A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resoluo de quem se
decide por um partido manifesto.

--Jorge, olha bem para mim.

Jorge fitou na prima os olhos admirado.

--E' com indifferena que vs realisar-se o casamento de Bertha e que me
ests fallando n'elle?

Jorge crou intensamente  inesperada interpellao, e tentou responder
ladeando:

--Com indifferena no, de certo. Sou amigo do Thom e Bertha ...

--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E j que desejas
que falle mais claro, pergunto-te:  ou no  verdade que amas Bertha?

--Eu?!

--Sim, tu. E repara no que me vo responder os labios, porque o rosto j
me respondeu.

Jorge conheceu que no lhe era possivel dissimular, abraou portanto o
partido da franqueza, que lhe era mais congenial.

--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porm no duvidarei em
dar-lh'a.  verdade que a amo.

--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia?

--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o
nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima,
e realisando o papel de providencia de uma familia, que  a mais
gloriosa misso da mulher; eu votando-me todo  obra que emprehendi, e
procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo,
sem lhe ir exacerbar as paixes do seu corao irritado, para satisfazer
as minhas.

--A poesia dos meus sentimentos est muito atrazada, ao que vejo.
D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos
dos seus puros affectos. Eu sou dos que lem por a cartilha d'esses
tempos.

--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos
outros coraes, ainda quando lhes so oppostos. Respeitam-nos.

-- muito sublime; no entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge,
dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade
aristocratica?

--Em mim no a conheo; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem
descarregaria o ultimo golpe se a no respeitasse.

-- esse o obstaculo? No vejo ahi seno a necessidade de uma
contemporisao.

--No digo isso, prima. As contemplaes que tenho com meu pae,
tl-as-hei com a sua memoria.

--Mas no  muito de christo suppr que o sacrificio feito  vaidade do
vivo pde ser agradvel  alma, que deixou no sepulchro todos os
prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos
no sobem ao co; quero crl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de
mistura com as cinzas mortuarias.

--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se
baseassem em um facto to funesto como esse a que allude. Em taes
fundamentos no serei eu quem os edifique.

--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que no se
julgava com direito de sacrificar outra felicidade que no fosse a sua.

-- verdade. Mas no sou eu s que tenho coragem.

--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano?  generoso,
no ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se do umas
raras plantas, em cuja existencia quasi no acreditava. Agora j
comprehendo a opposio que encontra em ti o meu projecto. Depois da
vossa heroica resoluo,  claro que devia contrariar-te a presena de
Bertha n'esta casa.

--Confesso que sim.

--Concebe-se. Pois  pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de
ficar s o tio Luiz.

--Mas no parta.

--Alto l. Por muito estranhos que me paream os teus planos, viste que
no lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os
meus.

--Porm meu pae?...

--No sei o que lhe faa, primo. Pensa n'isso a vr se at  hora da
partida me lembras alguma soluo. Eu no acho.

A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida
da sua primeira ideia.

Chegando porm ao seu quarto, sentou-se  secretria, e preparando uma
folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte:


    Meu caro snr. Thom da Povoa.

    Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e
    muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle est e nas suas
    tristes disposies de espirito d-se muito apreo aos cuidados de
    uma mulher. A minha ausencia deixa-o to s e to sem conforto, que
    receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de
    vingana que o snr. Thom tem contra meu tio e a indole dos actos
    com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas
    informaes, para que se vingue a seu modo.

    Sua muito respeitadora

    _Gabriella_.


E depois de lr o que escrevra, principiou a dobrar cuidadosamente a
carta, murmurando:

--A bom entendedor meia palavra basta.

E ao lacrar e ao escrever o sobrescripto, dizia sorrindo:

--O primo Jorge que tenha paciencia e tome contra si proprio as
precaues que quizer.

Depois tocou a campainha e mandou expedir quanto antes a carta a Thom
da Povoa. E na sequencia dos seus pensamentos murmurava:

--E se o acaso lhe der para fazer das suas, l se avenham. Eu lavo d'ahi
as mos.

E foi proceder aos preparativos da sua jornada nas mais joviaes
disposies de espirito.




XXIX


A baroneza a ninguem participou, alm de Jorge a sua partida para
Lisboa. Havia muito tempo que os principaes preparativos estavam feitos,
e por isso o movimento dos criados, que lhe executaram as ultimas
ordens, no se tornou notado.

Na vespera,  noite, Gabriella demorou-se mais tempo no quarto do tio e
deu-lhe a entender que brevemente teria de deixal-o por alguns dias,
porque a sua presena era necessaria em Lisboa, mas que voltaria e que
seria ento para demorar-se mais tempo.

D. Luiz mostrou a mesma opposio a este projecto que j por vezes
manifestara; mas a baroneza d'esta vez insistiu mais e obrigou-o a
conformar-se com a ideia de uma proxima separao.

Na manh seguinte, s horas a que o velho fidalgo costumava receber a
primeira visita matinal da sobrinha estava elle j impaciente, porque
ella lhe tardava.

J mais do que uma vez ergura os olhos para o mostrador do relogio
fronteiro, e espreitra atravez das cortinas para a altura do sol, e de
cada vez que fizera esta observao, acabra-a suspirando.

O pobre doente tinha tanta necessidade de fallar com Gabriella! Havia
nada menos do que um longo e complicado sonho a contar-lhe. E ella sem
apparecer!

Depois de muito esperar, D. Luiz ouviu emfim mexer na chave da porta e
voltou-se com ar de satisfao.

Mas a este vislumbre de esperana succedeu um movimento de impaciencia.
Era frei Januario quem entrra.

O padre vinha com uns modos de embasbacado, virando e revirando urna
carta que trazia na mo.

--Que ? O que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz com impaciencia
no disfarada--Onde est Gabriella? Tenha a bondade de ir pedir-lhe o
favor de vir fallar-me.

--A snr. baroneza?... Ahi tem v. exc. as noticias que posso dar-lhe a
respeito d'ella.

E estendeu para o fidalgo a carta que trouxera.

--O qu?! Que quer dizer?! Noticias d'ella? Ento Gabriella?...

--Partiu esta madrugada quasi sem dizer Deus te salve a ninguem. Esta
gente de hoje sempre tem umas maneiras exquisitas...

--Partiu! Gabriella partiu! Sem se despedir de mim?

--Ento que quer v. exc.? Costumes d'agora. Tudo est mudado.
Maonarias. Mas ahi tem v. exc. uma carta, que ella lhe deixou.

D. Luiz pegou na carta meio tremulo e abriu-a.

Era concebida n'estes termos:

    Perdoe-me, meu querido tio, a maneira subita por que o deixo.
    Julguei preferivel isto, porque me faltava o animo para despedidas
    que talvez o affligissem mais. Espero no prolongar por muito tempo
    a minha ausencia. Seria conveniente que Mauricio viesse emquanto
    estou em Lisboa. Escrevo-lhe n'este sentido e confio em que v. exc.
    lhe dar permisso para elle vir ter commigo. Peco-lhe que me espere
    nos Bacellos, onde em breve conto vl-o mais feliz e contente. At
    l tenho um presentimento de que Deus ha de providenciar para que
    no sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre a
    sua amizade e creia-me

    Sua affectuosa e reconhecida sobrinha

    _Gabriella_.


O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para
o padre, disse-lhe simplesmente:

--Tem a bondade de me deixar s por um pouco, snr. frei Januario?

O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros.

D. Luiz tornou a lr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza
o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros.

E ninguem lhe ouvia aquella manh tocar a campainha a chamar um criado
para que lhe prestasse qualquer servio que o seu estado de saude
exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava
a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na
especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado.

Ao meio dia, porm, hora em que a baroneza costumava por suas proprias
mos servir-lhe algumas colhres de gela e um calix de vinho do Porto,
sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela,
com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella.

Deu-lhe rebate o corao, e no meio dos tristes pensamentos que o
acabrunhavam, fez-se um claro de esperanas. Voltado com as costas para
a porta, D. Luiz no pde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso
perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que
estava sentindo:

--Quem vem ahi?

Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos
leves, que no podiam deixar de ser de mulher.

--Quem est ahi?--repetiu D. Luiz, fazendo um esforo para voltar-se.

Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos
labios, e segurando nas mos a bandeja com o calix de vinho e a gela,
que a baroneza costumava servir-lhe.

D. Luiz olhou para a afilhada com a expresso da maior surpreza e
espanto.

--Bertha!--exclamou elle, solevantando o corpo--Bertha aqui?!

--E ha mais tempo seria este o meu logar, se no soubesse que at hoje
lhe no faltavam os cuidados de que a sua doena precisa.

--E vens... vens para ficar?--perguntou o doente com uma inflexo de
alegria quasi infantil.

--Se me der licena que fique...

--Se te der licena, filha!...

De subito reprimiu a sua expanso de alegria, e emendou em tom mais
grave:

--No, Bertha; no  aqui o teu logar. Eu no sou teu pae.

--Mas  meu padrinho e est doente. E  cabeceira de um doente uma
mulher est sempre no seu logar.  o nosso posto de honra--respondeu
Bertha, com aquella entonao carinhosa com que as raparigas sabem
enfeitiar o corao e enleiar a vontade dos seus velhos paes e avs.

O fidalgo sorriu com brandura e, passando a mo tremula pelos fartos
cabellos de Bertha, disse-lhe, olhando-a com sympathia:

--Mas que dir teu pae?

A estas palavras Bertha dirigiu para a porta do quarto um olhar
indiscreto, olhar que despertou suspeitas no espirito de D. Luiz e o
obrigou a seguir com a vista a mesma direco.

Atravez da porta meio aberta descobriu a figura de Thom, que ficra no
corredor. Uma rapida contraco atravessou como o effeito de um choque
electrico a fronte de D. Luiz; em breve porm dissipou-se este signal de
desgosto, e com voz serena e sem aspereza interrogou:

--Estava ahi, Thom da Povoa?

O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu
volteando o chapo entre as mos:

--Estava, sim, fidalgo; fui eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se v.
exc. me quizer fazer o favor de aceitar a companhia d'ella, com muito
gosto lh'a deixo ficar. Porque emfim, snr. D. Luiz, isto de mulheres
sempre  outra coisa para lidar comnosco. Teem l umas maneiras de
enfeitiar um homem, que quem uma vez foi tractado por ellas em doena,
j se no entende com outros enfermeiros. L sabem temperar os remedios,
arrefecer os caldos, ageitar a roupa da cama e os travesseiros, que
parece que uma pessoa come, bebe e dorme ainda que no tenha vontade,
desde que ellas queiram. Por isso, como a rapariga  afilhada de v.
exc. e a snr. baroneza foi para Lisboa e v. exc. ficou s, e ella no
nos faz falta, porque, graas a Deus, a minha Luiza ainda basta s para
o trafego da casa, lembrou-me trazl-a, por me parecer que podia prestar
alguns servios a v. exc..

--Ento sabe agora, meu padrinho, o que dir meu pae?--perguntou Bertha,
occupada j a accommodar a cama que o doente tinha desordenada.

--Mas... Thom--dizia D. Luiz descontente por ter de aceitar um favor do
fazendeiro, porm sem coragem de recusal-o. Eu no quero prival-o da
companhia de Bertha... Sei quanto se quer a uma filha e no posso
aceitar o sacrificio.

--Ora adeus, fidalgo! Eu quero bem  rapariga, isso l  verdade; mas
no me faltam por casa filhos com que me entretenha. E depois isto de
filhas, mais tarde ou mais cedo  contar que batem as azas para fugirem
do ninho.  bom costumarmo-nos a passar sem ellas. Por isso, se v. exc.
no tem duvida em aceitar a companhia da pequena...  fazer de conta que
ella nada tem commigo...

D. Luiz sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Thom. Resistir
por mais tempo era revelar inutilmente repugnancia em aceitar o
beneficio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o
aceitasse.

Cedeu pois a tempo, e emquanto o podia fazer, salvando a dignidade
aristocratica, que sobre tudo prezava.

--Dividas d'essa natureza no hesito em contrahil-as, apesar de saber
que as deixarei em aberto. Aceito, Thom, aceito a companhia d'esta
menina, que me fallar de minha filha e m'a recordar. No  verdade,
Bertha?

--De certo que havemos de fallar muito de Beatriz.

--Muito bem--exclamou Thom da Povoa--pois ento ahi lh'a deixo,
fidalgo, e vou  minha vida.

Gomprehendeu D. Luiz que no devia ficar inferior em generosidade ao seu
antigo criado.

Assim que Thom, fazendo-lhe uma cortezia, se dispunha a transpr a
porta para sahir, o fidalgo reteve-o estendendo-lhe-a mo, e disse-lhe
n'aquelle tom solemne que lhe era habitual:

--Thom da Povoa, no se retire sem que eu lhe aperte a mo. Bem v que
 a maneira que tenho de remir dividas d'estas.

--Com todo o gosto, fidalgo.

E o honrado lavrador aproximou-se do leito e apertou nas suas mos
robustas a mo magra e aristocratica do senhor da Casa Mourisca,
dizendo, com a expanso de enthusiastica sympathia que tinha em excesso
na alma:

--Pde acreditar, fidalgo, que aperta a mo de um amigo.

D. Luiz fez um gesto silencioso de acquiescencia.

Thom da Povoa, quando sahiu da sala, levava nos olhos um brilho
denunciador de commoo.

Todas as scenas e aces generosas exerciam n'elle este effeito.

Bertha ficou s com o padrinho. Com aquelle instincto de actividade e de
ordem natural  indole feminina entrou immediatamente no exercicio de
suas funces, dispondo os preparativos para a leve refeio do doente,
da qual ella se encarregra ao encontrar no corredor um criado com a
bandeja na mo.

Trabalhando e conversando, Bertha tinha j aquelles ares de
familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa
que dirigem.

Tomra posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a
influencia dos seus cuidados fazia-se j sentir na apparencia de ordem e
de methodo que alli dentro vestira tudo.

D. Luiz seguia-a com olhos de satisfao. Parecia-lhe que ella s
povoava o quarto.

Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera,
dobral-o e poisal-o, junto com o chapo, no sof proximo do leito, como
se estivesse em sua casa!

A presena d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida
domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e
prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma to ardente e to
antiga necessidade do corao d'aquelle homem, que esquecido quasi de
seus infortunios, reputava-se feliz.

Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animao
que lhe no era habitual.

--Mas, agora me lembra, Bertha--disse D. Luiz, como se de repente lhe
occorresse uma ideia--preciso de dar ordens para a tua accommodao.
Talvez o quarto de Gabriella...

--No se incommode--atalhou Bertha.--A snr. baroneza parece que tinha
tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava j.

--Mas como sabia Gabriella?...

--Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a
necessidade de vir occupar o seu logar.

--Ah! agora entendo a carta d'ella.  uma boa rapariga a final.

E D. Luiz tinha nos labios, ao dizer isto, um sorriso de sympathia, que
lhe suavisava a dureza habitual das feies.

A agradavel doura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando com
a presena e o conversar de Bertha foi interrompida por umas pancadas
timidas na porta do quarto, que elle escutou de m vontade.

--Quem est ahi?--perguntou quasi irritado.

--_Licet_?--murmurou a voz do padre fra da porta.

--Entre quem --respondeu D. Luiz, ainda mais irritado depois de
conhecer a voz.

O padre entrou subitamente, cortejou Bertha com olhos desconfiados e
avanou com passos vagarosos.

--Que  o que quer, frei Januario?--perguntou D. Luiz desabridamente.

O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente:

--Os filhos de v. exc., os snrs. D. Jorge e D. Mauricio, pedem licena
para lhe fallarem.

D. Luiz fez um movimento de impaciencia.

--Que me querem elles?

O padre encolheu os hombros.

--No posso dizer a v. exc., porque eu mesmo no o sei.

--Que lhes no fallo agora--respondeu em tom sacudido o fidalgo. Mas ao
voltar-se deu com os olhos no rosto de Bertha, que insensivelmente
revelou n'elle o desprazer com que ouvira aquella resposta.

O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luiz dizer:

--Mas no poderei saber o que  que me querem os senhores meus filhos?

O padre parou, esperando uma ordem definitiva.

Bertha, que estava alizando uma das travesseiras em que o padrinho se
encostava, murmurou, como a gracejar:

--A melhor maneira de ficar sabendo  ouvil-os.

D. Luiz encolheu os hombros, como a exprimir o pouco valor que suppunha
 conferencia pedida, mas disse ao padre:

--Diga-lhes que entrem.

Estava finalmente revogada a sentena que votra ao ostracismo os dois
filhos do fidalgo. O corao do velho sentia-se muito brando n'aquelle
momento para conservar rancores. A influencia de Bertha principiava a
actuar.

A negrura dos delictos de que at alli accusra os filhos, dir-se-ia que
a dissipra um sorriso da afilhada.

Jorge e Mauricio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos
ambos, e com aquelle ar de respeito que sempre lhes impunha a presena
do pae.

Bertha sentiu que se lhe sobresaltava o corao, ao tornar a vr Jorge
depois da scena que tivera logar na Herdade.

No pde porm deixar de fital-o com interesse. Achou-o pallido e
abatido.

Dominando as suas violentas impresses saudou os dois irmos com um
sorriso afectuoso e sereno.

Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de deferencia e
sympathia.

Ambos estavam prevenidos da presena d'ella.

Jorge comprehendeu que a baroneza insistira em realisar os seus
projectos, apesar das objeces com que elle os combatra. E no
desestimou que ella o tivesse feito. Incommodava-o a ideia de isolamento
em que ia ficar seu pae. Os carinhos de Bertha deviam ser-lhe preciosos.
Depois a vinda d'ella para os Bacellos no retardaria o fatal casamento,
com que no podra ainda conformar o espirito? De pouco serviria a
demora, vista a irrevogavel resoluo que ambos haviam adoptado; mas
fazer recuar a consummao de um facto funesto  sempre um allivio.

Aceitou pois de boa vontade a vinda de Bertha para junto de seu pae, mas
resolveu precaver o corao dos perigos que correria, se permanecesse
junto d'ella.

Mauricio, que dias antes no receberia tambem com sangue frio a noticia
da presena de Bertha, estava n'aquella manha muito preoccupado, para se
alterar ao recebl-a.

A subita partida de Gabriella surprendra-o e exacerbara a paixo
nascente que por ella sentia.

A baroneza calculra bem o alcance da medida e assegurra-lhe ainda mais
o effeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido n'estes termos:

    Meu caro primo.

    Parto para Lisboa. No preveni pessoa alguma. Levo muitas saudades
    commigo. No sei se as deixo tambem. Se acreditasse na constancia de
    certos sentimentos, consolar-me-ia a ideia de te vr dentro de
    poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto! Por isso
    limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a

    Tua prima e muito affeioada

    _Gabriella_.


Esta carta veio a tempo para atalhar os primeiros symptomas manifestados
j em Mauricio de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da
baroneza.

Como dissemos, Mauricio, imaginando que  sua nova paixo pela baroneza
no seria indifferente o corao de Bertha, recebia d'essa ideia, que
alis o mortificava, um estimulo que atiava aquella paixo. Subita e
inesperadamente porm veio uma noticia desvanecer-lhe estas illuses.
Foi a do proximo casamento de Bertha, que a Anna do Vdor lhe deu,
respondendo assim com ar triumphante s duvidas que elle em tempo
antepozera contra tal unio. Anna assegurou-lhe que Bertha e toda a
familia haviam acolhido com favor a ideia, e que o mesmo Jorge a
apoira.

Esta revelao impressionou Mauricio. Seria possivel que Bertha no
sentisse por elle affecto algum? Ter-se-ia elle illudido, imaginando
havel-a impressionado? Haveria antes em tudo isso um plano de Jorge?

Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irritao de vaidade e avivaram
as quasi apagadas impresses, que lhe restavam no corao da imagem de
Bertha. N'esse dia passou duas vezes pela Herdade.

Estava pois em imminente risco a paixo por Gabriella, quando a
repentina partida d'esta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra
vez pender o corao para aquelle lado.

Todos os despeitos gerados com a noticia de Anna do Vdor dissiparam-se
perante os despeites novos.

Acabando de lr o bilhete de Gabriella, Mauricio pensou em montar logo a
cavallo e seguir no encalo da baroneza, at attingil-a. Custou a
persuadil-o da conveniencia de moderar a precipitao dos seus
projectos. Decidiu porm apressar quanto podsse os preparativos da
jornada e partir n'aquelle mesmo dia para Lisboa. A permanencia no campo
era-lhe j insupportavel.

Foi sob estas impresses que, em companhia de Jorge, elle entrou no
quarto de D. Luiz.

O pae revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade ao dirigir aos
filhos um olhar interrogador.

Mauricio fallou primeiro:

--Ha muito que est projectada a minha partida para Lisboa. A prima
Gabriella sahiu esta manh para l, e escrevendo-me, deixou-me dito que
me ficava esperando. Venho pedir a v. exc. authorisao para partir
hoje mesmo.

D. Luiz respondeu scamente:

--Pde ir. Falle a frei Januario para lhe dar o dinheiro de que precisa.

Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expr o motivo
da sua visita.

Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pae um masso de
papeis.

--Desejava que v. exc. examinasse esses documentos e titulos, que dizem
respeito a propriedades nossas e a contractos antigos, e que eu puz em
ordem com o fim de facilitar o exame.

--Mas para qu? Eu no quero estar com isso. Que necessidade ha de
incommodar-me com essa papelada?

-- porque depois desejava expr a v. exc. os planos que concebi, e no
caso de merecerem a sua approvao, pedir-lhe licena para proceder em
harmonia com elles.

--Eu no tenho cabea para entrar n'essas investigaes. Tive sempre por
costume deixar os negocios confiados a procuradores.

--Se v. exc. me authorisa ainda como tal eu no o incommodarei.

D. Luiz sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre
Januario, em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para
irritar-se ao vr Jorge em flagrante desobediencia, occupando-se ainda
da administrao da casa. Mas a violencia do despeito abrandra, e
interiormente o fidalgo estimava ter sido desobedecido.

--Faam o que quizerem--respondeu elle--o futuro que prepararem no ser
para mim que o preparam.

--Ento se v. exc. no duvida assignar estes papeis....

E Jorge apresentou ao pae uma serie de documentos, que requisitavam a
assignatura do chefe e representante actual da familia.

D. Luiz fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a
procurar alguma coisa.

Bertha, comprehendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para
escrever.

E o fidalgo, com a mais aristocratica indifferena, assignou sem lr os
papeis que Jorge successivamente lhe apresentava, authorisando assim as
medidas que por ventura deviam regenerar a sua casa com a mesma
facilidade e imprevidencia com que tantas vezes authorisra as que a
haviam perdido.

--Agora precisava tambem da authorisao de v. exc.--proseguiu
Jorge.--para ausentar-me por alguns dias, porque necessito de visitar as
nossas propriedades mais distantes.

D. Luiz repetiu com o mesrno tom de voz a phrase que j dissera a
Mauricio:

--Pde ir.

Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e
aproximaram-se para receber-lhe as bnos.

D. Luiz estendeu a mo, que um apoz outro beijou, e saudando-o outra vez
iam a sahir do quarto.

O corao do pae sentiu porm a necessidade de urna despedida mais
affectuosa n'aquelle instante em que ambos os filhos o iam deixar.

--Mauricio--disse elle quando os viu j proximos da porta--repare que
vae entrar em uma sociedade nova para si, cheia de seduces e perigos.
Seja homem e digno do nome que tem, e... d-me o gosto de o vr feliz e
honrado.

--Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pae, e espero que assim
nunca me desviarei do caminho da honra.

--Talvez o no conduza pelo da felicidade--murmurou o velho; e depois,
dirigindo-se a Jorge:

--Jorge, espero do seu juizo que seja prudente no uso d'essas
authorisaes que lhe dou. Repare que nos esforos que faz para
restaurar a sua casa no sacrifique o nome que a torna illustre. Seja
sempre to brioso como  activo.

--Espero que nunca os meus actos deslustraro o nome com que me honro.

E os dois irmos retiraram-se emfim.

Vendo-os sahir, D. Luiz voltou-se para Bertha, suspirando, e disse com
desconforto:

--E ficamos ss, Bertha!

--Elles voltaro cedo, e com elles mais alegria para esta casa.

D. Luiz fez um signal de quem no tinha f no futuro.

--Tem paciencia, Bertha--disse d'ahi a pouco--mas se podsses ir vr que
lhes no falte nada.... O padre  capaz de se descuidar das malas, e
Mauricio no repara.

Bertha apressou-se a satisfazer o desejo do velho.

Encontrou Jorge e Mauricio na casa do jantar, fazendo os preparativos
para a jornada.

Bertha coadjuvou-os com vantagem.

--Bertha--disse Mauricio--n'este reconhecimento de despedida, ser
bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras que talvez no fossem
de todo innocentes?

--Antes de perdoar  preciso condemnar, e eu nem sequer accusei!

Mauricio apertou-lhe a mo com verdadeira e d'esta vez insuspeita
sympathia.

--Sabe, Bertha, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim n'esta tarefa
caseira, custa-me a acreditar que no seja nossa irm!?

--E como  que se desengana? Interrogando o corao?

--No, que esse persuade-me do mesmo.

--Ento deixe-se persuadir, snr. Mauricio, que vae n'isso to pouco mal!

Mauricio trocou algumas palavras com ella, mas sem alludir ao casamento.

Jorge fallava menos do que o irmo. Em um momento em que este sahiu da
sala, Bertha perguntou:

--Parte para muito longe, snr. Jorge?

--No, Bertha. Vou viver para a Casa Mourisca; mas bem v que no podia
dizl-o a meu pae; era ainda cedo talvez para elle o consentir.

--E parte... por eu chegar?...

--Parto, sim, Berlha, e no acha que deva fazl-o?

--Talvez tenha razo.... Tem por certo. Mas perdoa-me obrigal-o a isso?

--Agradeo-lh'o. A sua vinda ha de salvar meu pae.

--Ento separamo-nos amigos?

--Como sempre, Bertha.

Bertha estendeu-lhe a mo commovida, e Jorge levou-a aos labios com mais
ardor do que convinha a quem formra o proposito de suffocar no peito o
amor que n'elle crescia.

E n'essa tarde deixaram a quinta dos Bacellos os filhos de D. Luiz.

Este ficou s com Bertha e com o padre, que via um plano maonico em
todas estas mudanas.




XXX


Augmentava de dia para dia a influencia de Bertha sobre o animo de D.
Luiz. Todas as manhs desafiava as primeiras alegrias do enfermo o
sorriso com que Bertha lhe entrava no quarto, sorriso que parecia
illuminal-o mais do que os matutinos raios do sol.

Sob a benefica aco d'aquelles desvelos femininos, sentia o
desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o appetite
perdido, revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias
mais vivificado o sangue que o desalento empobrecra, e aquella mesma
negrura de pensamentos, que o assombrava, parecia clarear-se
progressivamente.

Bertha fizera-lhe j esquecer Gabriella. Era mais assidua  cabeceira do
seu leito, mais exclusivamente devotada quella obra de consolao, mais
perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais carinhosa na maneira de
satisfazl-os, e a ingenuidade quasi infantil das suas conversas tinha
mais seduces para o fidalgo do que todas as galas de espirito com que
a baroneza sabia temperar as suas.

As horas, que to longas e fastidiosas se succedem na vida do doente,
passavam para elle rapidas e desapercebidas, preenchidas pela companhia
de Bertha.

A vl-a trabalhar a seu lado, a ouvil-a fallar de Beatriz ou a conversar
no mais trivial assumpto, a seguir-lhe com a vista os movimentos faceis
que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz d'ella a leitura dos
livros de imaginao a que a baroneza o habitura, D. Luiz esquecia o
tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. Um dia manifestou
desejos de ouvir Bertha tocar.

Na manh seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto do
leito do doente, e sob os dedos de Bertha o magico instrumento, que
serenava as furiosas allucinaes de Saul, provou mais uma vez a sua
efficaz influencia moral.

D. Luiz escutava-a commovido, e quasi sempre corriam-lhe as lagrimas ao
expirarem as vibraes das ultimas notas.

Bertha fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as musicas que Beatriz tocava.
Resuscitou-lhe o passado. Sob to profundas impresses quasi se
confundiam no espirito do ancio a imagem da filha que perdra com a da
affectuosa rapariga, que tanto lhe amenisava a existencia.

Foi cedendo  affavel violencia de Bertha e apoiado no brao d'ella, que
trocou o leito pela poltrona ao lado da janella do quarto; que sahiu
depois do quarto para a varanda do terrao, e que finalmente desceu as
escadas que do terrao conduziam  quinta,  sombra de cujas arvores se
costumra a passar as melhores horas do dia.

Era ahi que tinham logar as leituras quotidianas, que j to necessarias
lhe eram. Bertha interrompia-as apenas, para lhe fazer escutar o cantico
dos passaros na espessura das arvores, ou para lhe ir colher uma ou
outra flr, com que bizarramente enfeitava a lapela do casaco do
fidalgo. A influencia de Bertha sobre elle era j por todos conhecida, o
que valia  gentil rapariga os mais expressivos signaes de deferencia de
todos quantos a tractavam.

Frei Januario era o mais desconfiado, mas ainda assim no se mostrava de
todo insensivel s attenes que Bertha lhe dispensava e que muito o
lisongeavam.

Bertha era feliz n'aquelles dias.

Para a sua alma generosa era motivo de jubilo a ideia de que alguem lhe
devia a felicidade.

Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu
espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observao a
arrebatava, a grandeza do sacrifcio, que pouco tempo antes realisra e
a dolorosa violencia com que esmagava ainda no corao o affecto mais
vivaz que l nascra.

Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.

Um dia Bertha ergura-se, como costumava, muito cedo para correr a
quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoo de D.
Luiz.

Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava
alguns momentos ao exame e  analyse das diversas flres que o
compunham.

Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos,
que merecessem as attenes e applausos do padrinho.

N'esta explorao attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegra
aquella manh ao porto de ferro da entrada opposta  casa e trazia j
na mo uma variada cpia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava
de fra das grades a observal-a.

Voltou-se e reconheceu Clemente.

Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o
corao,  vista do seu noivo. To longe tinha n'aquelle instante o
pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a
surpreza da transio foi cruel.

Demais era a primeira vez que se achava na presena de Clemente, depois
do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentra a sua confuso.

Concentrando porm toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.

Mais confuso ainda do que ella, retribuiu-lhe Clemente a saudao.

--Quer entrar?--perguntou Bertha, caminhando para a portaria.

--No, menina; passei aqui por acaso...  verdade, que desejava
fallar-lhe... mas outra vez ser.

--E porque no ha de ser j?--tornou Bertha, abrindo a porta.--Depois do
que se passou  indispensavel que conversemos, no  verdade? Eu tambem
tenho preciso de fallar-lhe, snr. Clemente.

--N'esse caso aqui estou para ouvil-a, Bertha.

--Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. No acha?--disse Bertha, preparando
logar em um monticulo de relva que as folhas cahidas tapetavam.--Est-se
aqui to bem como dentro de uma sala.

Clemente tomou timidamente logar ao lado d'ella.

Bertha soltou no regao as flores que colhra, e fallando occupava-se a
displ-as em ramo, como se facilitasse d'aquella maneira o desempenho da
misso que se propunha.

Clemente escutava-a.

--Est j informado, snr. Clemente, do que respondi  proposta que, em
seu nome, me fez... o filho do snr. D. Luiz?

--Sim, Bertha, deram-me essa resposta, que muito me alegrou; mas
desejava saber da sua bca se foi de livre vontade e por que lh'o
dictava o corao que a deu assim.

--Por minha vontade foi. Ninguem me obrigou a responder como respondi.
Agora se foi do corao... Era sobre isso mesmo que desejava fallar-lhe,
snr. Clemente.

Clemente respondeu um pouco inquieto:

--Falle, Bertha, que eu escuto-a com atteno.

--Snr. Clemente, devo ser franca e leal comsigo, e fazer-lhe uma
confisso completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se
resolver a dispr assim do seu futuro. No posso dizer que fosse o
corao que me dictasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o snr.
Clemente me acreditaria; no  verdade? Bem v, eu mal o conhecia, quasi
que nem tinhamos fallado ainda, eu vivi at agora longe de si e nenhum
de ns costumava pensar no outro. Pois no  assim? Quando ouvi a sua
proposta, surprendeu-me por inesperada; respondi como sabe; mas  claro
que no podia ser do corao a resposta.

Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melancolico.

--Mas, perguntar o senhor, porque respondi eu ento assim, to prompta,
sem hesitar? Vou dizer-lh'o, snr. Clemente, vou dizer-lhe toda a
verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu no podia esperar que o
corao respondesse, porque sabia que elle j no podia dizer que sim a
uma proposta d'aquellas.

Clemente, que julgava comprehender o enleio crescente e as palavras
hesitantes de Bertha, inerrompeu-a dizendo:

--J? disse que j no podia? J? Bertha teria acaso alguma inclinao a
que o meu pedido viesse causar mal?

Bertha, crando, replicou firmemente:

--Havia no meu corao um outro affecto, havia, o primeiro e unico
d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas no lhe causou mal o seu
pedido, Clemente. Esse affecto, de que me no envergonho, nasceu, mas
no podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos
obstaculos, que no podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de
grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me
illudi com elle. Esta era a confisso que devia e queria fazer-lhe,
Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta,
dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe
dissesse: no ha amor no meu corao para lhe offerecer, no o podia
haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe
servir de companheira na vida.  a misso de uma mulher, e eu tenho
coragem de cumprir no mundo a minha misso. Amizade leal, respeito,
dedicao, posso prometter-lhe, mais no, que no tenho para dar.

--Mas....--balbuciou Clemente, que no podia disfarar a sua
perturbao--mas esse homem existe?

Bertha crou instantaneamente ao ouvir a pergunta.

--Existe--respondeu, porm sem hesitar--e ama-me. Mas elle tambem sente,
como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencl-o ou pelo
menos occultal-o no corao, porque  forte. A consciencia do dever
ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem v que lhe chamo
loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confisso que
lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiana,
peo-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto  tempo.

--No me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a
lealdade com que me est fallando, e que mais do que nunca sinto por si
a maior considerao e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe
que, apesar da sua confisso--no digo bem--por causa at da sua
confisso, teria em si tanta confiana, Bertha, como em mim mesmo. O que
me faz pensar  outra coisa. Se esse homem existe, porque  que a menina
perdeu j as esperanas e quer assim tornar impossivel o que ainda o no
?

-- impossivel, , Clemente.

--Ora ! Quem sabe? Eu no queria ser um dia o obstaculo da sua
felicidade. Nem de tal me quero lembrar!

--Clemente, supponha que em vez da confisso que lhe fiz, eu lhe tinha
dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que no se parecia comsigo,
Clemente. E to louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga
saudade no corao. Por isso no m'o occupa inteiro o affecto que tenho
para lhe consagrar.  assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva
como se assim lhe tivesse fallado. Bem v que nunca se arriscar a ser
estorvo a uma felicidade... que se sonhou.

--Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos so os
que se sonham a dormir... e at esses s vezes...

--Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.

--Mas em todo o caso... No me leva a mal se eu pedir tempo para
reflectir?

--De certo que no. Para isso mesmo foi que lhe fallei assim.

-- um anjo, Bertha, e creia que se tenho duvidas,  porque no queria
ser nunca estorvo  sua felicidade. A tempo lhe darei a resposta.

E Clemente sahiu d'alli pensativo e indeciso sobre a resoluo que
deveria adoptar.

Pensava o pobre rapaz:

--A final de contas ella gosta do outro.  o que isto tudo quer dizer.
Ento que fao eu em metter-me de permeio n'estes amores? Mas... so
amores impossiveis, diz ella, at lhes chamou loucuras; e espera que os
cuidados da familia lhe ajudem a esquecl-os. Mas se no esquecer?...
No receio d'ella, isso no. Aquillo  alma que se no perde nem
atraioa. Mas, se por acaso os taes obstaculos desappareciam e ficasse
eu s no logar d'elles? Ah! Sancta Virgem! Era para um homem pr fim 
vida! Porm ao mesmo tempo a rapariga falla com uma segurana, como se
este caso fosse impossivel. Impossivel! E porqu? Quem ser elle, o tal?
Amores que ella trouxe da cidade.... Alguem que j a esqueceu e que
talvez nunca lhe quizesse devras. Se eu adivinhasse que era isso,
aceitava. Porque emfim aquillo esquecia, e... e eu creio que haviamos de
dar-nos bem. Veremos o que pensa minha me. Mas que pde ella pensar?
Que sabe ella mais do que eu? Aqui o que era preciso era quem me
informasse dos taes amores. Se eu procurasse o snr. Jorge? Elle  tanto
de casa do Thom, que talvez... Elle est agora na Casa Mourisca. Pois
vou l.

E, em harmonia com esta resoluo, tomou o caminho do antigo solar do
fidalgo.

Jorge encerrara-se nos ermos aposentos d'aquelle sombrio palacio, no s
para trabalhar, como para procurar allivio aos dolorosos golpes de
corao, que lhe sangravam ainda.

Fizera-lhe companhia o jardineiro, que no quiz ficar nos Bacellos
quando soube que Jorge partia. Era a unica pessoa que tinha ao seu
servio.

Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que
nunca. Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vigilias; mas
se conseguia com estes esforos adiantar o servio, no obtinha d'elles
a realisao do seu principal empenho: acalmar as torturas moraes com
que viera para aquella solido.

As poucas horas de somno eram-lhe agitadas por sonhos fatigadores, e
sempre uma ideia fixa e amarga lhe occupava o pensamento, ainda quando
mais absorvido pelo estudo.

Atravz das mais fortes distraces sentia como que a sombria projeco
de uma nuvem negra.

Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o corao, no  de
todo impossivel afastal-o do pensamento por um esforo de distraco,
mas a impresso dolorosa que elle produziu no se desvanece
completamente; persiste um vago sentimento de mgoa, um indefinido
mal-estar, que ainda n'esses raros instantes nos afflige, sem que o
expliquemos.

Estava-se dando com Jorge este phenomeno.

Conseguia fixar a atteno no estudo, vencer as difficuldades de um
problema, profundar as questes mais obscuras, mas o espirito
mantinha-se doente; estas victorias da intelligencia no lhe provocavam
aquelle prazer, que de ordinario as acompanha. Parecia que o corao
perdra a elasticidade necessaria para vibrar d'essa maneira.

Quando se trabalha em taes disposies de animo, o esforo extenua a
actividade do espirito, toma o caracter de uma febre consumptiva, de uma
chamma que se alimenta gastando as foras e a vida.

Depois havia momentos em que os instinctos se revoltavam contra a
tyrannia da razo, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se
fundiam no calor do seu sangue de adolescente; e ento com um frenesi de
desespero concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com
todos os preconceitos, com todas as consideraes sociaes, e obedecer
smente aos impulsos do corao, que elle julgava n'esses momentos os
unicos authorisados motores das aces do homem. A estes paroxismos
succedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.

E o resultado d'esta lucta moral, d'este isolamento, d'este excesso de
trabalho, revelava-se-lhe no semblante alterado e na pallidez, que
augmentava de dia para dia.

A amargura d'aquelles dias passados nas salas desertas e nas devezas
melancolicas da Casa Mourisca, havia-o abatido a um ponto, que ao chegar
 presena d'elle, Clemente encarou-o com gesto de espanto.

Jorge interrogou-o, sorrindo:

--O que me achas tu, para me fitares com esses olhos?

--O snr. Jorge tem estado doente?!

--No; vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente?

--Sim; acho-o descrado e abatido--disse Clemente, procurando disfarar
as apprehenses que sentia ao vl-o.--No trabalhe tanto, snr. Jorge.

--Isto no  de trabalhar. Uma noite de bom somno far-me-ha voltar ao
que fui. Ento o que te traz por aqui?...

--Venho consultal-o.

--Ha tempos a esta parte obrigas-me a funccionar como conselheiro, sem
que eu saiba bem em que mereci a honra da nomeao. Ora dize l o que me
queres.

--Tracta-se ainda do mesmo negocio do outro dia.

Jorge fez um gesto de impaciencia e desagrado.

--Pois no est j tudo decidido? Que mais queres? A respeito de enxoval
no dou conselhos.

--Nem tudo est decidido, no senhor.

--Ento?

--Eu lhe digo o que se passa.

E Clemente narrou a Jorge a substancia da entrevista que tivera com a
sua noiva.

Custou a Jorge occultar a perturbao que lhe causava a narrativa. No
fim conseguiu perguntar com apparente frieza:

--E que queres tu que eu te diga?

--Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa d'estes amores.

Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente
crado.

--Eu?! E porque  que hei de saber d'esses amores?

Clemente, admirado do effeito das suas palavras, disse com hesitao:

--Lembrava-me... como  amigo do Thom da Povoa... talvez soubesse...

--As relaes que possa ter com o pae no me habilitam a devassar o
corao da filha; mas que desejavas tu saber d'esses amores? No te
disse ella que era como se no existissem? que nasceram sem faculdades
para viver? O que te resta  julgar por ti se nas condies em que
Bertha aceita a tua proposta, ainda podes insistir em fazl-a.

--Pois  isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.

--Duvdas de Bertha, no  verdade? Receias que esses amores no lhe
morram no corao e que um dia revivam como a lavareda quando se desfaz
o monte de cinzas que a suffocava? Se assim , se no tens no caracter
de Bertha a precisa confiana que devemos ter na mulher que escolhemos
para companheira na vida, se no repousas cegamente n'ella, na sua
lealdade, nas suas virtudes, ento desiste, porque irias envenenar a tua
vida com ciumes e a d'ella com suspeitas injuriosas.

--No desconfio de Bertha; mas queria saber porque julga ella impossivel
esse amor que sente, para vr se a mim me pareceria tambem que o era.
Quem sabe l se o ? E se deixar de sl-o por o motivo de hoje e o fr
por Bertha ser minha mulher? Quem me podia curar d'este desgosto?

--Socega, Clemente, os motivos que hoje se do, dar-se-ho sempre--disse
imprudentemente Jorge.

--Pois sabe quaes so?!--perguntou Clemente admirado.

Jorge conheceu a indiscrio em que tinha cahido, e procurou emendal-a,
dizendo:

--No; mas se Bertha t'o assegurou... Ella no costuma ser
irreflectida... E motivos ha na vida to poderosos e permanentes, que
pde bem predizer-se na presena d'elles a impossibilidade de um facto.

--Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.

Jorge replicou com impaciencia:

--Julgar por ti! E quem te diz que saberias aprecial-os? Talvez os
julgasses faceis de vencer, no obstante elles serem insuperaveis.
Acredita o que te digo, Clemente. Um homem s pde ser perfeito juiz das
aces de um outro, quando entre ambos se do absolutamente as mesmas
condies de existencia. Desde que estas variam, vara com ellas a
maneira de vr as coisas. O que para ti  um acto natural e facil, 
para mim um impossivel, porque se lhe oppe opinies, sentimentos,
crenas que me so proprias, que fazem parte de mim mesmo, de minha
entidade moral, e que tu no possues e de que por ventura te ris. Por
isso escusado seria talvez saber do segredo de Bertha mais do que o que
ella te revelou. Cr sob a garantia da sua palavra que esses amores
foram apenas uma phantasia da mocidade, que os rudes deveres da vida
extinguiro, e resolve.

Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.

Jorge pz-se a passeiar no quarto.

A final o noivo de Bertha ergueu-se e disse suspirando:

--Bem; veremos o que pensa minha me.

--E que direito tens tu de ires fallar a tua me nas confidencias de
Bertha?--interpellou-o Jorge, com uma vehemencia que sobresaltou
Clemente.

--Devo confiar em minha me, pelo menos tanto quanto confiei no snr.
Jorge. Bertha no m'o levar a mal.

Jorge reprimiu-se ao responder:

--De certo que no acho mais justificado o escolheres-me para
confidente. Emfim, faze o que quizeres, mas... segue principalmente o
que te dictar a consciencia.

Clemente sahiu mais pensativo do que viera.

O desconsolado noivo estranhra Jorge. A maneira por que elle lhe fallou
fra to fria e desabrida e de to difficil explicao, que no podia
Clemente atinar com o motivo d'aquillo. A ultima reflexo, sobre tudo,
deixou-o muito sentido. Jorge pozera em duvida o direito que elle tinha
de consultar sua me n'este negocio! Pois no era ella a mais natural
conselheira que elle tinha no mundo? E no pedia o caso o conselho de
pessoa experiente?! Poderia Bertha levar-lhe a mal a precauo que
tomava principalmente em vista da felicidade d'ella?

Mas emfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, comeou a sentir
escrupulos.

De feito aquelle segredo no era seu, e Bertha no o tinha authorisado a
revelal-o. J em communical-o a Jorge exorbitra.

E no meio d'estas alternativas de resolues entrou cabisbaixo e
assombrado em casa, e no fallou em coisa alguma a sua me.

Esta ao vl-o assim, attribuiu o facto a impaciencias do amor. A ida de
Bertha para a companhia do fidalgo prorogra o prazo para a fixao do
casamento, e Anna do Vdor conjecturou que era isso que contrariava o
filho.

Resolveu pois fallar a Thom para apressar quanto podsse a festa,
porque ella sabia que D. Luiz estava melhor, e que at j andava a p, e
portanto era justo que prescindisse de Bertha, que no se destinava a
fazer-lhe eternamente companhia.




XXXI


Chegaram cartas da baroneza e de Mauricio, datadas de Lisboa. As
noticias que davam eram satisfactorias. Mauricio fra hospedado em casa
de um primo remoto de D. Luiz e por elle introduzido nos primeiros
circulos da cidade, onde recebeu um lisongeiro acolhimento.

Mauricio achava-se n'aquelle mundo, novo para si, como se n'elle tivesse
sido educado. Sentia-se bem alli, agradavam-lhe aquelles habitos de
elegancia e de distinco, que no conhecra no canto de sua provincia,
mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para
aquelle viver que os seus instinctos o inclinavam.

Quando se viu alli respirou com o desafogo de quem sahe de um ambiente
que o asphyxiava. No necessitou de longo tirocinio para conhecer os
usos d'aquella sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias no
restavam n'elle vestigios sequer do seu provincianismo. Uma forte
vocao substitue um lento noviciado. Os homens acharam-n'o espirituoso;
as mulheres, amavel; e para com todos soube ser to insinuante, que os
influentes politicos, a quem a baroneza o recommendra, tomaram por elle
o mais vivo e promettedor interesse.

Escusado  dizer que Mauricio no foi muito escrupuloso na observancia
dos artigos de f politicos com que D. Luiz doutrinra os filhos. Para
genios como o de Mauricio, um dos maiores achaques que pde ter uma
ideia  o estar fra da moda.

Jorge sentia que no lhe era possivel abraar a crena do pae, porque a
razo a condemnava; e estas convices para toda a parte o
acompanhariam, porque procediam de um juizo claro e de uma aturada
reflexo.

Mauricio, apesar de nunca ter adherido manifestamente ao credo paterno,
s agora parecia havl-o devras renegado, porque o desgostavam os ares
de sdio e desusado, com que elle lhe apparecia  esplendida claridade
dos sales da moda.

Tudo quanto havia de eminente no jornalismo politico, na litteratura, no
parlamento, no fro, constituia agora o circulo habitual das relaes de
Mauricio, e nas conversas animadas, cheias de vivacidade, brilhantes de
eloquencia e de espirito, em que elle tambem tomava parte, jogavam, como
principios assentes, certas proposies que elle fra educado a
considerar como abominaveis heresias.

Isto era o bastante para que elle abjurasse o credo velho com que o
haviam catechizado na provincia e professasse a doutrina nova.

A baroneza, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira
e occultra parte da verdade a D. Luiz, para no o assustar.

Ella porm via com prazer o exito do seu protegido, que excedia a sua
espectativa.

    Em pouco tempo--escrevia ella a Jorge--teu irmo tornou-se um homem
    da moda, e  para ver o bem que elle sabe sustentar a posio que
    tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos primeiros sales de
    Lisboa, Mauricio est como em terreno conhecido, e muitos nados e
    creados n'estes ares invejam-lhe o seu _aplomb_ e o seu _savoir
    faire_ inimitaveis. O ministro dos negocios estrangeiros, a quem
    muito especialmente o recommendei, d-me as melhores esperanas de
    elle ser despachado como addido para o corpo diplomatico, carreira
    que sobre todas me parece a mais talhada para as predileces e
    talentos do nosso protegido.

Estas noticias foram recebidas com prazer por Jorge e por D. Luiz. Este
recordou-se, ao ll-as, do tempo da sua juventude, em que tambem
trilhra a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o caracter do
irmo e sentia que elle tinha de facto entrado no caminho para onde o
chamavam os seus talentos e as suas disposies moraes.

A imaginao de Mauricio era muito poderosa e exigente, as tarefas
proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da provincia, a
consagrao de uma vida inteira ao cumprimento de um dever, no lhe
bastavam.

Uma impaciencia insuperavel desviava-o d'esse caminho.

As brilhantes apparencias, a vida agitada, a variedade de impresses, as
luctas incessantes, alimento da febril anciedade que devora certos
espiritos, eram-lhe indispensaveis. Sob a influencia de taes estimulos,
as suas faculdades entravam em aco. No se contentava com os applausos
da consciencia propria, precisava dos applausos do mundo. Para os
conquistar tentaria esforos sobrehumanos.

Jorge era uma alma formada para o dever; Mauricio uma alma formada para
a gloria.

D. Luiz no pde deixar de sentir-se lisongeado com o bom exito do
filho, no obstante as vagas apprehenses que sentia de que a intima
convivencia com a corrupta mocidade da crte o contaminasse. Felizmente
o velho realista no tinha j a seu lado o padre procurador, com a sua
incessante prgao contra os costumes do seculo, que era d'antes o
thema obrigado das conversaes diarias. E desde ento as prevenes do
fidalgo haviam perdido muito das cres carregadas que as tingiam.

s primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as noticias dadas
n'aquellas.

As auras continuavam a soprar favoraveis a Mauricio nos mares insidiosos
da crte. A baroneza dava quasi como certo o proximo despacho d'elle
para addido a uma embaixada de Vienna ou de Berlim.

Mauricio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens da
situao politica dominante, que se interessavam por elle. As sympathias
femininas, poderoso elemento de prosperidade n'aqueilas altas regies,
como em geral em todas, conspiravam tambem a seu favor.

    Com mais um pequeno esforo talvez fosse possivel fazl-o ministro,
    (escrevia a baroneza a Jorge) que no  em Portugal dos postos de
    mais difficil accesso. Ministro da marinha pelo menos, que  a pasta
    dos principiantes e a mais adequada para os homens de imaginao
    como elle, onde teem muito com que a alimentar, porque  a pasta
    symbolica das nossas glorias passadas e pouco mais.

N'esta mesma carta de Gabriella havia alguns periodos em que, usando de
uma linguagem mais grave, ella fallava da probabilidade do seu casamento
com Mauricio.

    No attribuas este projecto a um mero capricho de mulher. No .
    Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais
    friamente possivel nas vantagens e consequencias d'elle. Mais tarde
    ou mais cedo eu tinha de contrahir segundas nupcias; a posio em
    que me acho e as impertinencias dos innumeros aspirantes  minha
    mo, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam.
    Era difficil deixar de ceder. A minha sympathia por Mauricio  um
    motivo de preferencia muito justificado. Nenhum candidato me
    agradava mais, o que no quer dizer que me sinta apaixonada. Mas
    muito teria que esperar se aguardasse por uma paixo para me
    decidir. J no estou em tempo d'isso. Mauricio  um rapaz amavel e
    delicado bastante para no me dar motivos de arrepender-me.  quanto
    exijo. Sou tolerante por indole e por habito, no tero portanto
    effeito sobre mim os costumados motivos de desolao de todas as
    esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Mauricio no
    deixar de dar  sua. Isto pelo que me diz respeito. Quanto a elle,
    entendo que lhe convm este casamento. Primeiro, porque realisar
    uma operao financeira um tanto vantajosa; depois porque, graas 
    minha longanimidade, no peiar demasiadamente os seus movimentos de
    rapaz com os laos matrimoniaes, sem que por isso corra os precalos
    dos maridos pouco fieis aos lares domesticos. O Jorge faz-me a
    justia de assim o acreditar, no  verdade? E finalmente porque
    d'esta maneira precav-se contra alguma tentao, a que so sujeitas
    as cabeas como a d'elle, que em um momento de enthusiasmo
    transtornam todo o seu futuro. Casando commigo, fica livre de
    desposar a primeira danarina de S. Carlos, que o fascinar. Em
    concluso, creio que poucas mulheres poderiam como eu aceitar
    Mauricio para marido, com tanta probabilidade de no o fazerem
    infeliz nem de o serem. O que  preciso  aproveitar o ensejo em que
    Mauricio me faa a honra de uma preferencia. Por isso talvez
    qualquer dia surprendamos o tio Luiz pedindo-lhe a authorisao
    necessaria. Espero que o Jorge advogar a nossa causa. Perdoa-me se
    alguma leviandade descobrires ainda n'esta minha resoluo. Acredita
    porm que nunca pude ser mais sria do que o estou sendo, ao
    escrever-te esta carta.


Havia ainda um _post-scriptum_, em que ella acrescentava:


    Bertha ainda est nos Bacellos? Ser bom que se demore. Nunca 
    tarde de mais para o tal casamento, com o qual por emquanto me no
    pude conformar.


A communicao que lhe fazia Gabriella surprendeu em extremo Jorge, que
muito longe estava de prevl-a. Reflectindo porm, acabou por achar que
a prima tinha razo e por convencer-se de que, no obstante o tom
ligeiro da carta que lra, expunham-se n'ella razes de pso para
justificar o facto annunciado.

Casando com a baroneza, Mauricio precavia-se contra si proprio e
ligava-se a uma mulher, que por as especiaes disposies de sua indole,
saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem desgraada os
provaveis desvarios d'elle.

Effectivamente, conforme o que a baroneza predissera, semanas depois era
D. Luiz surprendido por uma carta d'ella e outra de Mauricio,
pedindo-lhe o beneplacito para o referido casamento.

O fidalgo recebeu com prazer a inesperada nova.

Gabriella era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus
filhos elle ambicionava. Joven, rica, de sangue igual ao seu, e de
sentimentos elevados sob a frivola apparencia de que os revestia, a
baroneza augurava um auspicioso futuro ao homem a quem dsse o titulo de
marido. Para Mauricio seria demais uma prudente conselheira e um
obstaculo a muitas loucuras que, entregue a si ou a peior vigilancia, o
rapaz no deixaria de commetter.

Por isso D. Luiz, com animo folgado e um sorriso expansivo a alizar-lhe
na fronte e nos labios a contraco habitual, apressou-se a responder ao
pedido nas mais benevolas e lisongeiras phrases que lhe inspirava o seu
bom humor.

Bertha veio dar com elle sentado  secretria a escrever. A filha de
Thom da Povoa quiz retirar-se para no o interromper.

D. Luiz, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel
em que escrevia:

--Entra, Bertha, entra, que no me incommodas.

E, sentindo-a mais perto, acrescentou:

--Sabes o que estou fazendo?

--A escrever; bem vejo.

--Sim; mas a quem?

--A seu filho Mauricio talvez.

--A Mauricio e a Gabriella tambem. E sabes a respeito de qu?

--Eu, no.

O fidalgo terminava n'aquelle momento a assignatura no extremo inferior
da pagina, e s depois de concluil-a foi que, voltando-se para Bertha,
continuou:

--Authoriso um casamento.

--Um casamento?!

-- verdade. Havia alguem de suppr que o Mauricio se casava?!

--Casa-se! Com quem?

--A vr se adivinhas.

Bertha reflectiu alguns instantes.

--E eu conheo a noiva?

--Conheces perfeitamente.

--Ento no pde deixar de ser a snr. baroneza.

--Justamente.  Gabriella.

-- uma felicidade para elle.

--Assim tambem o julgo. Se alguem se aventura n'este casamento  a
noiva.

--O snr. Mauricio tem uma boa alma, no dar motivos de arrependimento a
quem depositar confiana n'elle.

--Hum!  muito rapaz--murmurou o fidalgo, fingindo sentir contra o filho
maiores prevenes do que effectivamente sentia.

Bertha julgou que era occasio opportuna de pr em pratica um projecto,
que desde madrugada meditava.

Thom da Povoa tinha-a na vespera procurado para lhe fallar na visita
que recebra da me de Clemente, e no que ella lhe dissera sobre o
desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento.
Thom no queria apressar a sahida de Bertha dos Bacellos, mas,
lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, no seria
elle o primeiro a dizer a Bertha que prescindia dos seus cuidados,
pensava que seria bom que ella lhe insinuasse a necessidade de separao
e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licena para o
casamento que se ajustra.

Bertha perguntou ao pae se tinha j a certeza de que Clemente estivesse
ainda resolvido a insistir na sua proposta. Thom admirou-se da
pergunta, porque nada sabia da conferencia da filha com o noivo, e
assegurou-a de que a resoluo de Clemente era ainda a mesma, visto que
a me n'aquelle mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.

Em vista d'esta declarao, Bertha prometteu fallar n'aquelle objecto a
D. Luiz no dia seguinte, e era esse o ensejo que ella desde pela manh
procurava.

O assumpto a que a coincidencia das cartas de Mauricio e da baroneza
chamava a conversa, preparra excellentemente o caminho para o pedido de
Bertha.

Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe
com o tom de affabilidade com que aprendra a dominal-o:

--J que est em mar de condescender com os pedidos que lhe fazem, no
quero perder a occasio de lhe fazer um tambem.

--Ah! tens um pedido a fazer-me?

--Tenho. E to parecido com esse!

--Com esse... qual?

--Com o que lhe fez seu filho.

--Com o pedido de Mauricio? mas... ento tracta-se de casamento?

--Sim, meu padrinho.  de um casamento que se tracta.

--De quem?--interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Bertha.

--De quem ha de ser, se sou eu a que peo?--respondeu esta, baixando os
seus, e no podendo disfarar a melancolia que ainda lhe causava aquella
ideia.

--Tu?!--exclamou D. Luiz sobresaltado, e voltando-se rapidamente--Tu
queres... tu vaes casar-te?!

--Sim, snr. D. Luiz, est decidido que isso se faa e eu peo-lhe
licena para o fazer.

--Tu casares-te, Bertha!--repetia o velho como se lhe fosse difficil
conformar-se com essa ideia--mas... com quem?

--Com o filho da Anna do Vdor, com Clemente.

D. Luiz deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a mo
na banca que tinha diante de si.

--O qu?!... Ora adeus! Tu ests a brincar commigo.

--No, meu padrinho, fallo-lhe sriamente.

--Com o Clemente?! Tu casares com o Clemente? Tu, uma rapariga delicada,
de educao, de gosto, de sentimentos elevados, casares-te com um
rustico, com um rapaz que quando muito saber escrever o seu nome! com o
filho da Anna, com o snr. regedor! Isso no tem geito nenhum. Isso  um
disparate de tal ordem!... Quem foi que se lembrou de tal?!

--Clemente pediu-me a meu pae...

--E teu pae concedeu? Coisas do Thom a final. Mas tu? tu, Bertha, tu
consentiste!?

--Clemente  um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho...

--Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e  isso bastante para que uma
rapariga como tu v sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia 
de um homem que no pde servir-lhe de boa companhia?!

--E porque no pde, meu padrinho? Elle  bom e delicado, dizem.

--Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes
fazer, Bertha. Pois devras o corao approva essa escolha?

--No, snr. D. Luiz, no  que o corao m'a pea, porm...

--Ento quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?

--Tambem no; mas o padrinho sabe que nem sempre o corao  bom
conselheiro. Mais vale s vezes no esperar que elle escolha. Oh! se
mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o corao
decida, mais vale.

--O Clemente no pde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus
concedeu qualidades to distinctas, que melhor estarias n'essas casas
nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por l
tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces
ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir
casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.

--A sua muita bondade para commigo, padrinho,  que o cega. Pois diga a
que posso eu a final aspirar?

--A que podes aspirar?!--exclamou o fidalgo, a quem a exaltao de
espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus
principios mais radicados--aqui, n'esta terra de selvagens, no podes
aspirar a mais, porque no ha quem te merea at. Aqui nem sequer por
sonhos se sabe o que  delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se
aprecia essas nobres qualidades de corao e de espirito de que Deus te
dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e
que nem pde conhecer o thesouro que deseja possuir.

--Mas, snr. D. Luiz, que outra pde ser a minha sorte? Ora diga.

D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:

--Pois bem, queres ser mulher de Clemente, no  assim? queres ir
sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o
teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptides
aos arranjos da casa da Anna do Vdor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas
escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu no quero ficar com
remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de
Clemente! Vosss, as raparigas, a final so todas assim, as mais
ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem
que so mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o
proposito de no o escutares? Anda l, faze a tua vontade, e Deus queira
que te no arrependas, quando j no fr tempo. Tu no necessitas do meu
consentimento, faze l o que quizeres.

E D. Luiz encostou-se  mesa com gesto e movimentos de amuado.

--Porm, meu padrinho--insistiu Bertha, poisando-lhe as mos no hombro
com a doce familiaridade de filha--no era esse consentimento de m
vontade que eu lhe pedia; esse no me trar felicidade, bem v.

--Queres talvez forar-me a dizer que approvo um casamento, contra o
qual se revolta a consciencia?  boa!

--Mas pense bem e talvez que a sua consciencia no ache motivos para
revoltar-se.

--Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma
inclinao irresistivel, e ento eu entenderei a tua insistencia.

--No digo, porque no diria a verdade.

--Mas ento onde est essa necessidade de casamento?

Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para
convencl-o.

--Olhe, snr. D. Luiz--disse ella--eu vou informal-o de todo o meu
pensamento, e dir depois se tenho razo. A educao que meu pae me deu
no me cegou a ponto de illudir-me a respeito do meu futuro e do destino
que me est reservado. O exemplo de minha me, que tem sabido em toda a
sua vida ser a companheira fiel de um homem de trabalho e tem
comprehendido que a sua misso era aquella, a de fazer-lhe esquecer em
casa os desgostos de fra e dar-lhe foras para continuar a sua tarefa,
este exemplo nunca o perdi de vista; entendi sempre que ter de ser esse
o meu papel n'este mundo, e nem me envergonhei nem me temi nunca d'elle.
Sentia em mim foras para aceital-o e para cumpril-o.

--Mas nem s os homens do trabalho material e grosseiro so os que
precisam d'esse conforto da casa e da familia. As lidas de intelligencia
tambem cansam, Bertha, e  cabea desfallecida  fora de estudo tambem
 grato encontrar um seio amigo aonde se encoste a descanar--redarguiu
o fidalgo com uma animao excepcional.

Bertha tornou-lhe, sorrindo:

--E qual seria a cabea cansada de muito pensar que viria procurar a
esta aldeia o seio em que repoisasse? De longe  de crr que no
viessem, e as d'aqui... ha to poucas que se sintam cansadas d'isso!
Creia, snr. D. Luiz, s um lavrador como Clemente procuraria a filha do
lavrador Thom da Povoa, e Clemente  um homem digno de ser estimado.

--S um lavrador! Que ests tu ahi a dizer?! E porqu? Tomaram-te para
esposa esses doutores que por ahi esto ociosos, comendo e bebendo 
custa dos paes, e esquecendo o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida
inutil que levam; olha que no te haviam de engeitar esses morgados
vadios e perdularios, que passam a vida em caadas e que arrastam o nome
que herdaram pelas tavernas e por todos os logares de devassido.

--Esses engeital-os-ia eu. Pois julga que lhes no devo preferir
Clemente?

--Pois no digo esses, mas... emfim... ainda por ahi ha gente... bem
educada...

--Se no fosse a sua muita bondade para commigo, o meu padrinho mesmo
acharia natural este casamento, e pelo contrario estranharia se algum
dos filhos d'essas familias que diz fosse procurar noiva  casa de meu
pae.

O sentido epigrammatico d'esta resposta, dictado a Bertha por a nobre e
justa indignao do corao, que depois de se haver sacrificado aos
preconceitos de um homem, via o proprio por quem fizera o sacrificio
negar a necessidade d'elle, feriu certeiro o fidalgo, que se sentiu
vencido.

Mudou pois de tactica, e com a eloquencia que lhe inspirava o receio de
perder a companhia de Bertha, tornou:

--Muito bem, dizes que no amas esse homem, que no cedes a inclinao
alguma do corao, aceitando-o por marido; que se o fazes  por julgares
que  essa a tua misso de mulher, a de suavizar a vida de um homem, e
de tornar-lhe mais facil o seu caminho no mundo. E para cumprires essa
misso vaes deixar-me s, velho, doente, abandonado dos filhos, sem
conforto algum na vida; s com as lembranas pungentes do meu passado, e
isto depois de me habituares  tua companhia, depois de me haveres
recordado as douras d'este viver ao lado de uma filha, doura que o
amargor das saudades me tirava dos labios havia muito tempo. Para que
vieste ento? Quem te chamou? Se eu tivesse ficado s, estaria morto
talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares a sentir agora esta
separao; para me fazeres morrer de paixo no dia em que celebrares
esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te quasi como
uma segunda Beatriz que Deus me concedra, e podes julgar se eu daria a
Clemente uma filha minha.

--Meu padrinho!--exclamou Bertha, inquietando-se com a exaltao do
fidalgo.

D. Luiz proseguiu sem a escutar:

--Mas que te importas commigo? Eu estou velho; as cabeas na minha idade
vergam muito para a terra, pesam demasiado, no se pde exigir de umas
mos jovens a tarefa de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha!
Mas para que vieste? Julgas que me deixas forte? Ests enganada. Esta
vida em mim  ficticia.  da tua presena que a recebo. manh que me
deixes vr-me-has mais prostrado do que me encontraste. Emquanto viveu a
minha Beatriz, ninguem me viu fraquear. Dois mezes consecutivos, dois
mezes, passei junto do leito onde ella agonisava, quasi sem dormir,
quasi sem comer, e nunca me faltaram as foras, e desde o momento em que
m'a tiraram dos braos para m'a encerrarem no tumulo, abandonou-me toda
a minha energia, e cahi no leito quasi exhausto de vida. Mas vae, no
quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os
coraes na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conheo isso;
mas no me digas que  smente a consciencia da misso que te compete na
vida a que te impelle; essa bem a desempenharias tu aqui, e generosa e
abenoada como nenhuma, porque nenhum corao receber de ti consolao
igual quella que me ds; podes crl-o, porque tambem poucos ha mais
apertados de angustias e que ha tanto tempo abafassem como este meu. Mas
queres deixar-me... Vae... vae, que eu no devo, nem quero impedir-te.

Havia to sensivel commoo na voz com que D. Luiz pronuncira estas
palavras, que Bertha sentiu o contagio d'ella, e pegando nas mos do
padrinho para as levar aos labios, disse-lhe sensibilisada:

-- meu padrinho, se  verdade o que diz, se a minha companhia lhe faz
to bem, ordene-me que fique, e ninguem me tirar de junto de si, e
nenhuma sorte me ser mais querida do que esta. Concorrendo para
alliviar-lhe os seus soffrimentos, parece-me que estou cumprindo um
encargo que Beatriz me deixou, e que ella do co me sorri e agradece.
Quer que no saia de ao p de si? quer que lhe consagre todos os meus
cuidados? fal-o-hei e fal-o-hei com prazer.

O velho cingiu a formosa cabea d'aquella rapariga, que se lhe ajoelhava
aos ps, e aproximando-lhe dos labios a fronte e as faces beijou-as a
chorar.

--Obrigado, Bertha, obrigado por essas palavras que me entram pelo
corao como um balsamo salutar. A minha vida no pde ser muito longa,
filha, o teu sacrificio no duraria muito tempo... mas nem eu quero que
faas promessas de cumpril-o. S te peo que me ds algum tempo para
responder  tua petio, e que at l me no falles mais n'esse
casamento. Eu pensarei e talvez... talvez me conforme com essa ideia,
contra a qual ainda me revolto. Pde ser isto? Podes esperar na minha
companhia alguns dias mais?

--Esperarei o tempo que quizer. E no pense por ora em tal casamento, se
esse pensamento o afflige. Se soubesse nem lhe tinha fallado n'isto.

--Melhor foi que fallasses;  preciso pensar com vagar n'isso.

--Mas agora no, agora vamos at  quinta, que a manh est bonita.

Em resultado d'esta conferencia nada ficou determinado emquanto  poca
do casamento. Thom teve de dizer a Anna do Vdor que o fidalgo ainda
no podia prescindir da companhia de Bertha.

Anna no ouviu a noticia sem fazer-lhe commentarios, nos quaes havia
algumas azedas alluses ao egoismo do fidalgo, que depois de offender o
pae, assim se sabia apropriar dos servios que lhe prestava a filha.

Cumpre porm notar que a boa Anna seria a primeira a aconselhar a Bertha
que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegra D.
Luiz.




XXXII


No podia passar da ideia a Clemente a maneira insolita e quasi
desabrida com que Jorge por duas vezes recebra as suas consultas
relativamente ao assumpto do casamento de Bertha.

Clemente conhecra sempre em Jorge uma tal placidez de espirito, uma tal
impassibilidade em presena dos casos mais estranhos, que no sabia como
explicar aquella subita transformao.

Esta mudana em Jorge e a revelao que ouvira da bca de Bertha to
preoccupado traziam o pobre rapaz, que no podia dispr da atteno para
outro objecto. Distrahiam-n'o estas ideias das suas tarefas diarias e
agitavam-lhe o somno das suas noites.

Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assumptos, como se
joga com duas espheras em uma s mo; emquanto se arroja uma ao espao,
cahe a outra a occupar o logar que fica vazio. Ora succede que muitas
vezes as espheras encontram-se e batem uma na outra; e que muito ser
para admirar se d'este choque resultar uma faisca? Pois com o jogo do
pensamento pde succeder o mesmo. De duas ideias que se encontram, 
fora de se cruzarem muitas vezes no cerebro, pde sahir um claro. Este
phenomeno succedeu com Clemente.

Pensava elle uma noite no seu leito:

--Mas quem poder ser o tal rapaz que Bertha diz que amou e que ainda
ama? Porque ser impossivel o casamento com elle? E Jorge tambem diz que
o . Elle parece que sabe a este respeito alguma coisa mais do que
disse. At quando lhe fallam n'isso se enraivece. Quando me lembro!
Nunca o vi assim! Nem elle era d'aquellas coisas. Como est
impertinente! Mas o tal rapaz, o tal rapaz?  claro que  conhecimento
da cidade. Sim, porque da terra no pde ser... a rapariga j ha muito
que d'aqui sahiu... e sahiu criana... Desde que chegou com ninguem tem
convivido... a no ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses... 
verdade que pelos modos Mauricio lhe arrastou a aza, como faz a todas,
mas ella no lhe deu confiana; emquanto a Jorge... Jorge... Jorge...

De repente o filho da Anna do Vdor sentou-se de um salto na cama e
murmurra j audivelmente:

--Jorge! Querem vr que...

E sem bem saber o que fazia, accendeu luz. Este movimento de instincto,
pelo qual parece que queremos desfazer com a luz de fra as meias
sombras que dentro de ns escurecem ainda uma ideia,  frequente n'estas
circumstancias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa e
o queixo apoiado na mo.

E continuava murmurando:

--E porque no? E a mim que no me tinha occorrido!  at o mais
provavel. E assim explica-se tudo... A maneira por que elle fallou a
primeira vez e hontem... Aquillo de sahir da casa dos Bacellos, quando
ella foi para l... E a tristeza em que anda... Mas ento... E porque 
impossivel? Ai, sim, o velho. Isso l  verdade, quem fallasse ao velho
em tal, o que ahi no iria!... Porm... morrendo o pae... j no havia
tropeo... E ahi ficava eu...  o que eu digo...  verdade que o rapaz
tem l uns modos de pensar!

Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quasi:

--E no  outra coisa! Agora  que eu explico tudo o que elle me
disse... e ella tambem.  certo. Coitados! Se assim fr... Mas  com
certeza. Vou jural-o. Pois se no fosse... Ora se no ,  sem a menor
duvida. Elles gostam um do outro. Bertha gosta de Jorge e o rapaz tambem
gosta d'ella.

E formulando esta concluso, Clemente, com abstraco igual  do
philosopho que, excitado pela alegria de uma descoberta, sahiu como
estava do banho a proclamal-a por toda a cidade, saltou da cama e
comeou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia.

J meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite e que
portanto era aquelle acto extemporaneo. Com instinctiva repugnancia
deitou-se outra vez.

Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em
busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a soluo de um
problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e
quietao que nos rodeia, formando to completo contraste com o tumulto
que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar
a descoberta, e para a examinar  luz bem clara, e desenganamo-nos de
que no fomos victimas de uma illuso nocturna.

Emquanto o dia no rompe, o cerebro  irritado por aquella sua creao,
como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestao
mental  necessario que a ideia venha  luz, e qualquer demora 
afflictiva.

Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a
respeitar o somno da me, esperando a luz do dia para lhe transmittir a
descoberta que fizera.

O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder
dormir. Era quasi um estado febril o seu.

Incommodra-o a ideia de que a sua preteno  alliana com Bertha era o
motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fra elle o importuno
despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar,
sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora,
porm Clemente no quereria ter sido quem os acordou.

Antemanh, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte
as suas ultimas scintillaes, Clemente deixou finalmente o leito, onde
no encontrra repouso, e foi passeiar para o campo contiguo  casa,
aguardando o despertar da me.

Anna do Vdor era matinal e por isso Clemente no esperou muito.

Effectivamente a vidraa do quarto em que dormia a robusta matrona
abriu-se e ella bradou da janella para o filho:

--Que fora de servio foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal
luzia o buraco e tu j a sarilhares por essa casa!

--Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer at aqui.

--Qual historia! Ento cuidas tu que te no senti toda a sancta noite? 
rapaz, olha que isto no me vae agradando. Aquelle maldito empate do
casamento...

--Ora adeus, bem se tracta agora d'isso.

--Pois que outra coisa ha de ser?

--Quer que lh'o diga? Faa vossemec favor de chegar aqui abaixo e
conversaremos.

--Ol! A coisa  sria! Temos historia.  o que eu digo.

E sahindo da janella e descendo as escadas para ir ter com o filho ao
quintal, a boa Anna ia a dizer para si:

--O rapaz anda exquisito! Que me querer elle?  coisa que lhe d
freima. Na cara se v. Queira Deus que no tenhamos por ahi alguma
alhada. O diacho do casamento!

E chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou:

--Ora aqui me tens. Vamos l a ouvir isso que tens para me contar.
Desabafa l, que isto de guardar cada um as coisas comsigo no  bom.
V.

--Ora venha para aqui, minha me--disse Clemente chamando-a para um
banco de madeira, por baixo de um parreiral.

--Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer l dentro. J sei que me
vaes fallar no casamento.

-- verdade, vou fallar-lhe no casamento que se no faz.

--Que se no faz?!--repetiu Anna, dando um salto e fitando no filho os
olhos espantados.--Tu que dizes?

--Isso mesmo que entendeu. Que se no faz.

--E ento porque  que se no ha de fazer?

--Porque pensei melhor.

--Ora vae pensar para os quintos. Olha agora! Viu-se j um disparate
assim? Pensaste melhor em qu e porqu?

--Olhe, minha me, vossemec bem sabe que eu no sou nenhuma criana
capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal
casamento no deve fazer-se  porque...

--E ento criana sou eu, para tu nem sequer me dares a importancia de
me dizer o porqu? Olha que teu pae at bem velho se aconselhou commigo,
apesar de ser homem ajuizado, e no tenho lembrana de o haver feito
nunca arrepender por isso. Olha agora!

--Pois tambem eu lhe direi tudo, mas  se vir a me mais bem disposta a
ouvir-me com socego.

--E parece-te que eu estou desassocegada? Ora valha-te no sei que diga.
Em peiores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabea. Boa
mulher estava eu se me estonteava assim  primeira! Olha agora! Anda,
dize l.

--Pois, minha me, este casamento no tem logar, porque Bertha...
emfim...

Anna do Vdor franziu o sobrolho.

--Bertha o qu? Que disse ella? Disse que no? Olha a presumida! Ento
quem acha ella que ? Sempre se vem coisas no mundo! Olha agora! Ento
ella disse que...  senhores, no estar eu l! sempre queria
perguntar-lhe...

--Valha-me Deus, minha me,  essa a paciencia que me prometteu? Nem me
deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer.

-- porque eu cuidei que ella... sim, porque isso ento...

--Oua, Bertha aceita, mas no tem verdadeira inclinao para mim.

--E porque no?

Clemente sorriu ao ouvir a pergunta.

--Ora essa!--tornou elle brandamente--ento n'estas coisas precisa-se de
se dar razes? Gosta-se, porque se gosta; no se gosta, porque se no
gosta, e acabou-se.

--Mas emfim uma pessoa sempre diz: No gosto d'aquelle, porque  feio,
d'aquelle, porque  torto, ou porque  aleijado, ou porque tem mau
genio, por isto ou por aquillo, eu sei l! Mas tu...

--Sim, eu no tenho defeito que me faa engeitar, hein? Se todos me
vissem com os seus olhos, minha me!

--Ora, mas vem c, mas ento dize-me...

--Perdo, oua-me vossemec primeiro. Bertha no sente inclinao por
mim, porque a sentia j por outro. Est satisfeita?

--Olha a pateta da rapariga! Ento j a sonsinha... tinha tambem o seu
namorado! Que mundo este!

-- minha me, ento se ella se agradasse de mim no era pateta, e l
porque se inclina para outro, j vossemec faz um espanto d'esses! Que
sou eu mais do que elles?

--No  isso--disse a me um pouco embaraada com o argumento--eu o que
queria dizer era... emfim... se fosse um homem capaz... mas qual!...
algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa. Ento disse-te assim
mesmo na cara que no gostava de ti. E tu...

--Bertha disse-me que tinha tido uma paixo, mas que fazia por vencl-a,
porque no podia casar com o homem de quem gostava; e que se eu, sabendo
isso, ainda a quizesse para mulher, ella no duvidava em dizer que sim,
e que jurava que me seria fiel companheira na vida.

--Muito obrigada aos seus favores, mas no so c precisos. Olha agora!
Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o corao a
outro, que lhe preste, e que passe por l muito bem sem elle. Olha
agora! Como quem diz: emfim eu no gosto de ti, mas vejo-te to
embeiado, que me mettes pena. Graas a Deus, no faltam por ahi
mulheres com quem cases, e se faltassem, tambem vivias bem sem ellas,
que, Deus louvado, no te falta que comer, que  o essencial. Olha
agora! No que eu nunca vi umas delambidas como agora ha! Aquelle Thom
 quem tem a culpa.

-- minha me, j estou arrependido de lhe ter fallado n'isto. Olhem o
escarceu que ahi est levantando!

-- filho, isto  um modo de fallar. A gente faz c os seus votos de
razo. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas
regaladamente sem os seus obsequios? est entendido. Fizeste muito bem,
e est acabado.

--No disse, no senhora, no lhe disse isso logo.

--No? Pois isso  que eu no esperava de ti.

--Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o tal,
para vr se de facto o casamento seria impossivel, porque se visse que o
era, casava eu, isso casava. O que no queria era vir a ser tropeo
algum dia.

--E d'ahi?

--E d'ahi tanto pensei, tanto parafusei, que esta noite dei com a
historia.

--Ento? Algum janotinha da cidade?

--Sabe o que lhe digo, minha me,  que o caso  bastante serio; e agora
o que me d cuidado no  o meu casamento, que esse j eu sei que se no
faz; o que me d cuidado so elles.

--Elles quem?

--A Bertha e o rapaz de quem ella gosta e que ... Sabe quem? O filho
mais velho do fidalgo, Jorge.

A Anna do Vdor empurrou o hombro do filho, e fez um gesto que,
combinado quelle movimento, exprimia a mais radicada duvida.

--Vae-te d'ahi! Olha agora o disparate! Ora, ora...

--Creia que  verdade.

--Pois a tola da rapariga... metter-se-lhe-ia em cabea?...

--No se lhe metteu em cabea coisa nenhuma. Gosta d'elle, mas sem
esperana, e tanto que no hesita em casar com outro. Mas o peior  que
Jorge ainda gosta mais d'ella talvez. E Deus queira que isto no venha a
dar cabo d'elle!

--O qu? A dar cabo d'elle!

--Pois se vossemec o visse!  olhar-lhe para a cara e diz-se logo: este
rapaz tem coisa que o roe l por dentro. Eu no suspeitava o que fosse,
mas agora que pensei...

--Mas como  que tu vieste a saber isso?

Clemente contou  me as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira
estranha por que elle o recebra, a irritao com que o ouvira fallar em
Bertha, a singularidade das reflexes que lhe fez e dos conselhos que
lhe deu, e a Anna do Vdor acabou por convencer-se de que o filho
acertra.

Tinha um compassivo corao a boa mulher e, como dissemos, era perdida
por Jorge, a quem amava quasi tanto como ao filho. Por isso tomou logo o
partido d'elle, e exclamou:

--Mas ento porque no ha de esse rapaz casar com a pequena, se gosta
assim d'ella?

--E o pae?

--O velho? Isso l  verdade. O fidalgo  prro, mas adeus, primeiro
est o gosto de cada um, e quando o amor  de raiz, tolice  querer
arrancal-o.

E depois de curta meditao, acrescentava:

--Mas vejam como o demonio as arma! aquelle rapaz, que parecia nem
sequer pensar em que havia raparigas n'este mundo, deixar-se logo
embeiar por aquella! por a filha do Thom da Herdade, que se o fidalgo
o via por sogro de um filho seu, era para estoirar de paixo! Sempre 
uma!  Clemente, pois devras isso ser assim?

--Quasi que ia jural-o, minha me.

--Quem me dra encontrar o rapaz, que logo lh'o pergunto.

--No diga isso, minha me. Ia fazel-a boa! No conhece ainda o Jorge?

--Ora vem tu ensinar-me a conhecl-o, a mim, que o trouxe a estes
peitos, que o ensinei a fallar e a andar; vem c dizer-me o que elle .
Ento que achas tu? que elle se zanga commigo? E a mim que me ha de
importar muito que elle se zangue. Mais me zango eu e veremos quem
vence. Olha agora!

--Mas para que ha de ir fallar-lhe nisso?

--Para qu? Pois ento tu dizes-me que o rapaz anda a consumir-se e a
moer l comsigo essa paixo, e queres que eu o deixe assim rebentar? Ha
l nada peior do que uma pessoa calar comsigo estas coisas que roem l
por dentro? Nada, a bca fez-se para fallar e para a gente desabafar as
suas melancolias.

--Mas se a me lhe podsse dar remedio...

--E que cuidas tu? Pois parece-te que se eu visse que o rapaz se me
definhava por causa disto, que no tinha alma para ir ter com o fidalgo
e dizer-lhe as coisas como ellas so? Ento j vejo que tu ests muito
enganado com tua me. Nada, no, era melhor deixar morrer aquelle rapaz,
que  a perola dos rapazes, aquelle rapaz que eu criei e que ha de ser,
e j , a honra da familia. Pois sim, no que eu sou mesmo mulher para o
deixar morrer assim.

--Havia de valer-lhe bem. O fidalgo est mesmo agora  espera dos seus
conselhos.

--No estar, mas olha que, duro como , j no era a primeira vez que
eu me avinha com elle e sem elle levar a melhor. No tempo da senhora,
que era um anjo, Deus a chame l, ainda mais fora de genio tinha elle e
fazia-a chorar sangue e agua pelo muito que lhe perseguia o irmo. A
pobre creatura doente e elle sem querer que ella recebesse as cartas que
o irmo lhe escrevia, nem lhe deixar saber noticias d'elle. Eu, um dia,
dei com o fidalgo no corredor e disse-lhe:  snr. D. Luiz, olhe que v.
exc. anda a fazer com que se rale de remorsos toda a sua vida, por
deixar morrer a senhora assim a estalar de saudades e afflices. Veja
bem v. exc. que estas coisas pagam-se. Foi mesmo assim. E cuidas l
que elle se enfureceu? Qual! Calou-se muito caladinho, e d'ahi por
diante a senhora teve noticias amiudadas, e at o jardineiro mais tarde
foi para casa e ainda l est. Ento j vs...

--Pois sim, mas o caso agora  mais difficil.

--Deixa-o ser; mas tambem o homem est mais quebrado.

--Tenha cuidado, minha me. Olhe l no v fazer alguma das suas.

--Alguma das minhas! Eu l vejo quem  que te d melhores conselhos do
que eu. Alguma das minhas! Olha agora! Sabes tu que mais? Vou j d'aqui
fallar com o Thom.

--No lhe diga nada d'isto.

--Ora no querem vr a bonita cabea que tem este rapaz? Est o
casamento tractado, resolve agora no casar e nada de fallar n'isto ao
pae da rapariga. Sim, que o Thom  mesmo homem com quem se brinque e
que se contente com meias razes.

--O que eu quero dizer  que no ponha a bca em Jorge.

--Deixa-me c. Sabes o que te digo?  que eu no sou mulher de planos.
Ao sahir de casa para procurar alguem no penso no que lhe hei de dizer
e no que hei de calar. Quando as palavras me veem  bca, deixo-as sahir
e no quero saber de contos. Mas vamos ao almoo, que so horas. Ora o
Jorge! o Jorge! para o que lhe havia de dar! E o diacho da rapariga se
apanha aquillo! Olha, eu no duvido, porque j ha muito tenho para mim
que o Thom nasceu n'um folle. Ora o diacho! Boa pequena  ella,
coitadita, ainda que no andou muito bem comtigo, no, mas...

A me e o filho almoaram, conversando sempre sobre o assumpto, e
Clemente tentando combater a resoluo que percebia na me de cumprir o
que annuncira.

Anna do Vdor, depois do almoo, deu as suas ordens e sahiu.

Ella fallra verdade, ao sahir no formra plano de conducta, mas
instinctivamente dirigiu-se para a Herdade.

O caso de Jorge no lhe sahia da ideia.




XXXIII


A meio caminho da Herdade, a Anna do Vdor, ao abrir uma cancella, para
tomar por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a
pessoa que tanto lhe estava occupando o pensamento.

Jorge vinha em direco opposta e preparava-se tambem para transpr o
portello.

Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudana de aspecto em
Jorge, a exactido das informaes que lhe dera o filho, e com isso
cresceram ainda mais as suas apprehenses, obrigando-a a exclamar
consternada:

-- Virgem Me dos homens! que maus olhados te deitaram, meu filho, que
parece mesmo que sahiste agora do cemiterio? Bem m'o tinham dito, mas
tanto no esperava eu vr!

--Ento que lhe tinham dito, ama? Que me haviam desenterrado?

--O que me tinham dito? Queres sabl-o? Pois olha que no ponho nenhuma
duvida em t'o dizer. Tinham-me dito que tu no eras o rapaz de juizo que
eu suppunha, que a final eras to bom como os outros, e que por doidices
de rapaz andavas mais morto que vivo, amarello e chupado, como quem tem
j um p na cova.

--E parece-lhe ento que a informaram bem?

--De menos que no de mais. Que cara  essa com que tu me appareces? Tu
queres ir atraz de tua irm? Olha se queres. A coisa  facil se
continuares n'esse andar.

--E ento que lhe hei de eu fazer, ama? Uma pessoa no tem na sua mo o
engordar e emmagrecer.

-- teres juizo,  no pensares em tolices, ou ento, quando j no ha
remedio,  andares para diante com a cara e no soffreres at
rebentares.

--Agora  que no a entendo, ama.

--Entendes, entendes; mas, se queres que eu falle mais claro, sempre te
perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente,
que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho
da Casa Mourisca engeitou?

A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu a estas palavras da
ama, a subita e intensa vermelhido que lhe cobriu o rosto pallido, e o
olhar indignado que fitou na boa velha, assustaram profundamente esta,
que quasi se arrependeu do que dissera.

--Ama--disse-lhe Jorge commovido e com voz severa--quero acreditar que
no pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que ellas significam.
Vejo porm que conhece a meu respeito um segredo que eu desejaria que
fosse ignorado. No quero saber como lhe chegou ao conhecimento. No
negarei a verdade. Deixe-me porm dizer-lhe que mal sabe Clemente, mal
imagina sequer a grandeza do sacrificio que eu fiz, facilitando-lhe o
casamento em que elle me fallou.

Anna recuperou a sua presena de espirito.

--E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrificio? O meu Clemente
sabia l o que vossemec tinha no corao? Julgas tu que elle era homem
que aceitasse de ti favores d'esses? Olha o outro, que assim que soube
tudo, immediatamente deu o dito por no dito.

--O qu? Soube tudo... o qu? O que sabe Clemente?

--Sabe que o snr. Jorge da Casa Mourisca gosta da menina do Thom da
Herdade, e que a menina do Thom da Herdade gosta do snr. Jorge, e o
senhor meu filho, que  um rapaz de brio, no est resolvido a ser o
trambolho que separe esses dois coraes que morrem um pelo outro.

--No sabe Clemente que essa affeio, que por infelicidade 
verdadeira, est condemnada  morte e que no ser a recusa d'elle que a
salvar? No estava seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que
lhe offerecia Bertha, sentimento que mais tarde as affeies communs de
familia por certo transformariam em verdadeiro amor conjugal? no me
disse elle a mim que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que
a illuso de Bertha no podia ser nunca realidade? Pois essa certeza
pde tl-a agora, se sabe tudo. E ento porque hesita? Se no tem
confiana em Bertha...

--Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem c a ser esses
impossiveis? Olha agora a coisa do outro mundo que o snr. Jorge case com
a Bertha da Povoa!

Jorge encolheu os hombros, sorrindo melancolicamente.

A Anna do Vdor, interpretando mal aquelle sorriso, insistiu com mais
acrimonia:

-- como eu digo. Ai, os escrupulos ento so s para quando muito bem
lhes parece? Os impossiveis vem s ao atar das feridas? No que elle no
ha mais. Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um
marido trabalhador e honesto, que lhe sirva de arrimo; e vae seno
quando apparece um fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a
fazer-lhe gaifonas e a metter-lhe teias de aranha na cabea, e ella,
coitadinha, deixa-se ir e prende as azas na rede; e  ento que o menino
bonito se lembra dos impossiveis e a deixa, e por muito favor cede-a a
um rapaz honrado que a estima com lizura e com as melhores intenes de
fazer d'ella sua mulher, mas a quem ella j no pde dar o corao,
porque o outro lh'o roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz
aceitar para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o corao?
Para que quer um homem em casa uma mulher sem corao, no me dir
vossemec?

Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo as recriminaes da ama.
Dir-se-ia que algumas d'aquellas palavras lhe feriam o corao de
remorsos, como se n'ellas sentisse o que quer que fosse verdadeiro; ao
mesmo tempo protestava-lhe tambem contra a accusao a consciencia que
no o havia accusado to severamente.

Olhando com gesto melancolico para a me de Clemente, que levada pelo
impulso da sua eloquencia, ia augmentando de severidade, Jorge disse-lhe
com placidez:

--Tem razo em parte no que diz, ama, porm creia que trabalhei devras
para vencer isto em mim. Nem eu sei como me adivinharam; como ella o
adivinhou. Ah! sim... lembro-me j... Disse-lh'o eu; mas no foi, como
julga, no intento de illudil-a; disse-lh'o em um momento de desespero,
quando ella com lagrimas me perguntava porque eu lhe queria mal. Eu
querer-lhe mal! Disse-lhe ento tudo. Ella soube de mim pela primeira
vez este segredo e eu d'ella um segredo igual. Pedi-lhe ento que me
indicasse o que devia fazer. Da sua propria vontade nasceu a minha
resoluo, a nossa... Bem v, ama, que no sou to criminoso como
suppz. Acredita que eu fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por
Clemente no podia deshonral-o. Bertha sabel-o-ia fazer feliz, porque
comprehende bem os seus deveres. Eu conheo a tempera d'aquella alma.
Mas emfim, se me illudi, se nos meus actos ia offensa para Clemente,
elle que me perdoe, que no houve n'isso inteno.

Anna do Vdor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no
corao, ao escutar aquellas palavras srias e tristes que lhe dizia
Jorge.

--Vae-te d'ahi!--exclamou ella, disfarando a sua commoo.--Quem falla
aqui de offensas? Ento acreditas que tudo isto que eu disse foi a
srio? Era o que me faltava! Sim, que eu no te conheo, sim, que eu no
te trouxe n'estes braos e te fiz saltar no meu collo e te vi brincar
com os mais rapazes e sempre com mais juizo do que elles todos? Pateta
de rapaz que me no entendeu! O que me faz enraivar  o vr-te assim
consumido por uma coisa d'estas. Logo te deu o diacho tambem para
gostares da filha do Thom, quando no faltavam raparigas que boa conta
te fizessem. Que ella  boa pequena e poucas d'essa fidalgaria que por
ahi ha merecem servir-lhe de criada, mas emfim...  filha do Thom e teu
pae era capaz de estoirar se... Mas adeus, minha vida, o tempo d'elle j
passou e tu  que no has de definhar-te e entisicar s para fazer-lhe a
vontade. V l, se achas que isso em ti  do corao...

--No, ama, no. A resoluo est tomada. Hei de acabar com isto em mim,
succeda o que succeder. Jurei.

A ama tornou com maior vehemencia:

--E a mim  que se me importa com os teus juramentos! Ora veja eu o caso
mal parado, e veremos o que por ahi vae. Vou-me ter com o fidalgo... Na,
na, na, na, escusas l de bulir com a cabea, que isso para mim no vale
nada. Eu bem sei o que me pediu tua me  hora da morte. Deus a chame
l. Coitadinha! levou-vos atravessados no corao para a sepultura.
Sabia o genio do pae e via-vos to criancinhas!...  ama--disse-me
ella, e parece-me que ainda a estou a ouvir--o que me no deixa morrer
em socego so estes tres meninos. Vosss brincavam na outra sala:
Olhe-me por elles, ama, lembre-se de que ficam sem me. Ai! E eu que
tanto gostava d'aquella senhora, havia agora de te vr assim consumido e
ficar-me de braos cruzados? Pois sim, espera que logo.

--Ama, peo-lhe que no d passo algum junto de meu pae sem me
consultar.

--Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora!

--Veja que pde causar-me um grande mal, ama!

--Olha, eu s te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar socegada?
tracta de me apparecer com outra cara. Seno, no te queixes.

Jorge, que conhecia por experiencia os repentes da ama, ainda insistiu
por muito tempo. Ella porm, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu
separar-se sem haver promettido coisa alguma.

A Anna do Vdor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge que se
afastava lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um
caminho, suspirou e foi murmurando:

--Nada, isto assim no vae bem. O rapaz est que faz pena vl-o. Ainda
se fosse com o irmo, era coisa que passava, mas com este!... Lembra-me
que, j em pequenino, se a me ou o pae lhe ralhavam, ficava aquella
criana entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham doente por
uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de juizo. Agora 
capaz de estalar de paixo e deixar-se morrer por ahi sem se queixar.
Pois, ao poder que eu possa, tal no ha de succeder. Isso lhe prometto
eu.

N'este soliloquio foi vencendo a boa mulher a distancia que a separava
da Herdade, onde chegou na occasio em que Thom e a sua companheira
examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens da
acquisio de um campo, que o lavrador trazia em vista.

A Anna do Vdor foi recebida como quasi parenta que era da familia.

--Viva a ti'Anna!--exclamou folgadamente Thom--a mais guapa das
raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita  Luiza.

--L se viu qual das duas elle escolheu--acudiu com igual humor a me de
Clemente.

--Ento que quer? Tudo n'este mundo  sorte. Alm de que a ti'Anna j
estava tentada com aquella alma lavada do Joo Vdor, e no se lhe dava
volta.

--Foi o que te valeu, Luiza, seno bem perdias esta boa joia.

Luiza sorriu bonacheironamente como sempre fazia quando o marido
gracejava.

--Mas que sancta a trouxe a esta sua casa?--perguntou Thom--Ol, vamos
c a saber, quer tomar alguma coisa?

--Qual historia! De almoar venho eu, e isso mesmo sabe Deus o que me
custou.

--Ento andas doente, Anna?--informou-se Luiza com bondosa solicitude.

--Eu doente? Ora essa! Eu sou l creatura que adoea?!

--E como vae o Clemente? o nosso Clemente?--perguntou Thom--porque eu e
Luiza tambem j o podemos chamar nosso.

--Devagar, devagar, o melhor  no se costumarem a isso, para no lhes
custar depois a perder o costume.

--A perder o costume? E porque o havemos ns de perder?

--Porque j l vae o afilhado de quem eramos padrinhos.

--No a entendo, ti'Anna.

--Ora a coisa  simples. E vosss o que devem  erguer os olhos mais
para o alto.

-- ti'Anna, se quer que a entenda, falle-me claro, e c  nossa moda;
po po, queijo queijo.

--Prompto. Para ahi vou eu. Pois ahi tem: o casamento da sua rapariga
com o meu rapaz foi caso fallado e acabou-se.

--Acabou-se? Como acabou-se? Porqu?

--Porque Bertha no tem para ahi o sentido.

--Ora essa! Ento ella no disse...

--Disse, sim senhor, disse que casava, e tambem o disse a meu filho, mas
acrescentou que no lhe levaria o corao comsigo.

--Bertha disse isso? Quando? A quem? A Clemente? No pde ser!... Mas
no leva o corao... Porqu?

--Porque j no o tem.

--Como j no o tem?

--Porque j fez presente d'elle.

--Que est a dizer, ti'Anna? J fez presente do corao! Bertha? A quem?

--Ora diga a verdade, Thom, no suspeita mesmo, mesmo de ninguem?

--Na minha salvao, que no.

--Pois olhe que  verdade.

--Mas a quem?

--A uma pessoa que vinha por aqui.

--A uma pessoa que vinha...

--Ai, Thom, que bem o suspeitava eu--exclamou Luiza, juntando as mos.

--Cala-te, mulher; ahi voltas tu com as tuas tolices; mas diga,
ti'Anna...

--Que suspeitavas tu, Luiza?--perguntou Anna do Vdor.

--Que elles tinham alguma inclinao um para o outro.

--Elles quem?

--Ninguem, ninguem. Esta minha mulher de vez em quando tem vises.

--Elles quem?--insistia a Anna do Vdor.

--A nossa rapariga e...

--Cala-te, Luiza, tu no tens vergonha?--atalhou o marido.

--E quem mais? acaba--repetiu Anna.

--E o fidalgo--completou timidamente Luiza.

--Jorge? Pois adivinhaste.

--Ah!--exclamou Luiza, com natural satisfao.

--O qu?--bradou Thom, erguendo-se com impeto e crando--adivinhaste?
adivinhou? Quem?... Luiza? Ento... Bertha... a ti'Anna diz que
Bertha... No disse que Bertha...?

-- Thom, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Bertha gosta do
fidalgo e que elle gosta da rapariga.

--To doida est a ti'Anna, como est a minha mulher.

--O seu juizo, Thom,  que no me parece muito seguro. Olhem o grande
milagre que a sua filha goste do rapaz, que no tem por ahi outro que se
lhe ponha ao p, e que o rapaz, emfim, que o rapaz tambem tenha a sua
inclinao por a pequena, que no  para engeitar. Olhem a grande
admirao!

--Eu bem prgava a este homem, mas coisa que lhe diga,  o mesmo que
nada--observou Luiza.

--Mas quem lhe metteu essas patranhas na cabea?--perguntou o lavrador
com um riso contrafeito, j interiormente inquieto, e tentando resistir
 convico que se lhe estava formando no espirito.

--Ora quem havia de ser? Uma pessoa que me parece que tem obrigao de
estar bem informada. Foi o mesmo Jorge.

--Jorge?! Jorge disse-lhe...

--Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive fallando bem bem
um quarto de hora talvez.

--Ti'Anna, eu no quero offendl-a, mas ha coisas to incriveis! Ora
diga-me, no sabe quem me fallou na preteno do seu filho?

--Sei, sei muito bem que foi Jorge, e vae d'ahi? E sei que Bertha tambem
disse que sim. Ento que mais quer? Mas sei tambem que o rapaz, quando
Clemente lhe fallou n'isso, ia rompendo com elle; sei que depois do
casamento ajustado, emmagreceu e anda como desenterrado; sei que a sua
pequena disse aquillo, que eu j contei, ao meu Clemente, e que o rapaz
teve as suas suspeitas, e que eu fallei claro ao Jorge, que no teve
cara para negar. Ora aqui tem.

Thom da Povoa ficou assombrado com a revelao. Nunca o lavrador dera
importancia s suspeitas da mulher, cujos instinctos tinham visto melhor
do que a razo clara do marido.

--Pois se isso  verdade--disse Thom, medindo a sala a passos largos--
uma grande desgraa!

--Oh! Ahi vem o outro!--respondeu-lhe a Anna do Vdor com o seu animo
intemerato--Credo! Parece-me um sino a tocar a defuncto. Ento que
grande desgraa vem a ser essa?

--Nem voss pensa o que d'ahi pde resultar, ti'Anna. Mas sempre se
lembre de que n'essa historia entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a
minha pequena. Se nos conhece bem a todos, supponha o que d'ahi pde
sahir de bom.

--Quer voss dizer na sua: Ns os velhos somos dois caturras e os novos
so capazes de morrer de paixo. Mas se os novos tiverem juizo, no se
lhes importa com as caturrices dos velhos, e estes o mais que podem
fazer  irem um anno mais cedo para a sepultura, o que  bem feito para
no serem teimosos. Olha agora!

--Eu bem o suspeitava--repetia de quando em quando a boa Luiza.

--Nem eu quero pensar n'isso para no me arrepender pelo pouco que tenho
feito por aquella familia--tornava Thom.--Se o fidalgo soubesse que o
filho mais velho se agradra da minha pequena, o que havia de pensar? O
que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fra tudo um calculo, que
procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha 
cidade, que lh'a metti  cara, que levei a rapariga para o p do velho
com o fim de o dispr para a approvao dos meus planos...  que
vergonha! que vergonha! Ento  que elle teria razo de me olhar com
desconfiana, e quem lh'a no daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira!
Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia to occupado nos seus
negocios, que a nada mais dava atteno!

--Ai, eu c bem o suspeitava--repetiu Luiza.

--Isso no pde ser! Cada vez mais me conveno de que isso  impossivel.

--Pois digo-lhe eu que  verdade, como dois e dois serem quatro. Ora
agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por
causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar
em que vo as coisas, parece-me que elles acabam mas  comsigo.

-- uma desgraa! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vr
morrer-me a filha, havia de oppr-me a esses amores. E mais depressa a
recolheria em um convento...

--O que ahi vae! o que ahi vae!  homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal
se a filha lhe casasse com o rapaz.

--Era uma desgraa, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para
o fidalgo, como o fiz at agora, graas a Deus! porque ento teria elle
razo de me suspeitar de intriguista.

--Se a sua consciencia o no accusa, no lhe d canceira o que os outros
pensam.

--Eu bem t'o dizia, Thom, no que tu no querias crr!--insistia Luiza,
entre pezarosa e satisfeita.

--J me tarda vr a rapariga para fra dos Bacellos. Mal sabia eu quando
a levei para l, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por
calculo!

--Deixe estar a rapariga onde est; Deus que conduziu as coisas assim,
l sabe para que o fez.

--A ti'Anna no sabe o que o fidalgo velho tem sido para commigo? No
sabe que elle mal me pde perdoar o eu ter levantado a casa defronte do
seu palacio? e melhorado de anno para anno a minha, ao passo que a
d'elle ia cahindo por terra? No viu o que elle fez s porque soube que
o filho tinha vindo ter commigo para o ajudar a livrar-se da usura e das
dividas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora ento julga que eu
hei de soffrer que elle suspeite sequer que as minhas tenes eram ou
so as de engrandecer  custa dos seus a minha familia? A ti'Anna
soffria isto?

--Mas no se est a vr como o velho gosta da sua pequena, que nem de ao
p de si a deixa sahir? Quem sabe? s vezes...

Luiza suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Anna do Vdor
assim em confusas tintas lhe pintra.

--No sou eu que me illudo com essas coisas, ti'Anna--proseguiu
Thom.--O meu plano est feito. Hoje mesmo Bertha ha de dormir na
Herdade. Se o seu Clemente a no quizer, paciencia. Nem eu quero
obrigal-o, nem  rapariga, a casar contra vontade. Apesar de tudo confio
no juizo de Bertha, que ha de vr as coisas como ellas so, e por isso
no me d cuidado. Que se assim no fosse, eu lhe affirmo que a levaria
outra vez para Lisboa. O Jorge  tambem um rapaz honrado. Tudo se ha de
remediar ainda, querendo Deus.

--Olhem que homem este! Escusa de tomar essas cautelas todas se o que
quer  separal-os. O perigo no est aonde pensa. Elles mesmos
resolveram esquecerem-se um do outro e no precisam que voss os separe.
Olha agora! O perigo est em que Jorge j anda doente, e que
provavelmente a rapariga no ha de ficar com muita saude se elle lhe
morre. Veja l se isso no  bem peior do que o casamento.

--Deus nosso Senhor nos acuda!--exclamou Luiza assustada.

--No falle em casamento, ti'Anna, que at me envergonha essa palavra!

--Pois ento no se envergonhe e prepare o enterro de sua filha, que o
do rapaz no tardar muito. Olha agora! Este homem parece que no tem
corao de pae! Eu no sei que diacho de corao  o d'elle! Deixe que
quando lhe quizer acudir, j no ha de ser tempo. Ha de vr a filha
morrer-lhe e ento  que ho de ser os arrependimentos.

--E que quer que eu faa, mulher?--exclamou Thom j exasperado.--O meu
dever  este. Deus que determine depois o que fr da sua vontade. E
julga que se eu pensasse como pensa a ti'Anna, que isso me serviria de
alguma coisa? Parece que no conhece o fidalgo! Pois tantos annos que
conviveu com aquella familia ainda lhe no fizeram conhecer o genio
d'elle?

--Mas que me importa a mim o genio do velho? Ora essa  que est muito
boa! O velho tem um ou dois annos de vida, e l para o no zangar, no
ho de um rapaz e uma rapariga fazer a sua infelicidade. Olha agora!

--Pois sim, pois sim, vossemec falla bem; mas o que lhe digo  que no
tardo nos Bacellos, e que j de l no venho sem a rapariga.

E sahindo da sala devras preoccupado, Thom ia murmurando:

--Foi uma desgraa! uma verdadeira desgraa, meu Deus!...

A Anna do Vdor viu-o sahir e meneou a cabea com certo ar de benevola
ameaa.

--Sim? Elle  isso? Pois j que tu s teimoso, eu te prometto que me has
de vr pela frente. Vae, vae aos Bacellos, que quando l chegares j has
de encontrar novidades. Olha agora! Adeus, Luiza, adeus.

Luiza ergueu-se, e abraando-se na amiga, desatou a chorar.

-- mulher, voss porque chora? Olha agora! Tenha juizo, mulher. Deixe
l que ha de viver para vr a sua filha bem casada e feliz. E deixe-me
que preciso de ir adiante do Thom para elle no fazer tolices.

--Ai, eu sempre suspeitei isto, elle  que no queria acreditar.

--Pois agora j acredita. E o mais confie em Deus e deixe-me sahir.

E a Anna do Vdor sahiu apressada, e murmurando de instante a instante:

--Olha agora!




XXXIV


Desde o dia em que Bertha fallra no seu casamento ao fidalgo da Casa
Mourisca nunca mais correram as horas nos Bacellos para o velho e para a
rapariga to alegres como at ahi.

Nem uma palavra se trocou mais entre elles sobre o assumpto, mas facil
era de perceber que elle ainda dominava o pensamento de ambos.

Tanto os sorrisos de Bertha como aquelles com que D. Luiz lhes
correspondia empanava-os uma nuvem de tristeza.

O fidalgo a cada momento pensava na separao imminente, na necessidade
de dar  afilhada o consentimento promettido, e cada vez menos coragem
sentia para fazl-o.

Bertha recebia como que a projeco da tristeza do velho; demais a sua
propria crescia  medida que se aproximava o momento em que tinha de
realisar-se o sacrificio do seu corao, sacrificio cuja grandeza de dia
para dia mais avultava no seu espirito.

Actuou esta influencia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento
adquirido sob a benefica vigilancia da rapariga.

Por isso no dia em que se passaram as scenas narradas no ultimo capitulo
e nas quaes a intrepida Anna do Vdor desempenhou to importante papel,
D. Luiz achava-se em um estado de abatimento pouco animador.

No sahira esse dia do quarto, como era seu costume quando ia sentar-se
com Bertha  sombra das arvores. Queixou-se de fraqueza e de frio e
ficou na poltrona ao lado da janella a espreitar por dentro das vidraas
para as avenidas da quinta.

Bertha havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um
remedio; e o doente ficando s, cahira em uma profunda meditao,
seguindo machinalmente com a vista os movimentos de uma avesita que
saltava nos ramos d'uma arvore distante.

De repente chamou-lhe a atteno o rumor dos passos de alguem, que se
aproximava no corredor e que parou  porta do quarto, como se hesitasse
ao entrar.

--Quem est ahi?--perguntou o fidalgo, no vendo apparecer ninguem.

A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Anna do Vdor,
offegante pela carreira que trouxera de casa do Thom at alli,
desenhou-se no limiar.

--Sou eu; o fidalgo d licena?--respondeu a Anna.

D. Luiz teve um negro presentimento assim que viu a figura da me de
Clemente, o pretendido noivo de Bertha.

Com mal disfarado azedume disse-lhe:

-- voss, Anna? Entre.

Anna entrou com o desembarao com que entrava em toda a parte.

--Ento como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo
se guarda para a velhice.

-- assim, --disse scamente o fidalgo.--Ento a que vem aqui, Anna?

Anna do Vdor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo
recebida e por isso respondeu menos affavel:

--Primeiro que tudo, vim vl-o, como era da minha obrigao, pois no me
esqueo de que j comi do po de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se
a minha vida me deixasse; mas sou eu s em casa, como v. exc. sabe, a
fazer o servio, e a idade j me vae pesando. E agora por isso vem a
pllo dizer a outra coisa que me trouxe c. Venho saber de v. exc.
quando  que pde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que est
justo entre ella e o meu filho.

O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de cr, e mais do
que uma paixo lhe desenhou successivamente no semblante em traos
fugitivos o aspecto physionomico.

--Ento vem para a buscar?--perguntou elle com voz alterada.

--No, senhor, no venho para a buscar, venho para saber de v. exc.
quando ella pde ir.

--Ella no  minha filha. Quando quizer, que v.

--Mau! O fidalgo no quer entender-me.

--Eu o que no quero  occupar-me d'esse casamento--replicou D. Luiz
mais agastado.--Quando quizerem fazer esse disparate, faam-n'o. Levem
d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a  sua vontade, mas no me peam o
consentimento, porque eu estou com os ps na cova e no quero levar para
a sepultura mais remorsos.

A me de Clemente no estranhou esta resposta azeda do fidalgo, que de
proposito provocra.

Picada porm no seu orgulho materno por algumas phrases que ouvira,
acudiu logo:

--Que est o fidalgo a dizer? Disparate... remorsos... Que disparate
acha o fidalgo no casamento de Bertha com o meu Clemente? Remorsos! Ora
essa est boa! Nem que se tractasse de enforcar alguem! Ora esta! Olha
agora!

--Anna, eu no quero offender o seu filho, que sei que  bom rapaz, mas
o que elle no ,  homem para Bertha.

--E onde  que v. exc. vae buscar marido para Bertha? O meu Clemente
no serve? Pois bem, como a rapariga no est para freira, diga-me v.
exc. que faz teno de a casar na sua familia, e eu calo j a bca e
sou a primeira a dizer: Tem razo o fidalgo, a pequena encontrou marido
muito melhor do que o meu filho. Ah! eu j estou vendo a cara que v.
exc. faz. Pois ento, snr. D. Luiz, se v. exc. ainda se tem l nas
suas tamancas, como d'antes, deixe casar a rapariga com um homem honrado
e no lhe ande a metter loucuras na cabea, que isso at  uma
consciencia! Olha agora!

D. Luiz sentiu que lhe fugia o terreno n'este campo e tentou uma
evasiva.

--No teria que dizer a esse casamento, se Bertha sentisse inclinao
para o seu filho, mas...

--Mas o qu? Pois no foi ella que por sua livre vontade disse que sim?
Quem a obrigou? Ora essa!

--Por comprazer, por condescendencia, mas no porque lh'o pedisse o
corao!

--Ora, e v. exc. a importar-se com o que pede o corao de uma
rapariga, ora, ora...

--E porque no? Desgraada d'ella se der um passo tal sem que lh'o
approve o corao.

--Ento acha o fidalgo que n'isto de casamentos o corao tambem tem
voto?

--Por certo.

--O corao de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que conselheiros!

--Um corao como o de Bertha,  um bom conselheiro; no se engana, nem
engana.

--At que te pilhei!--exclamou a Anna do Vdor, batendo as mos, e
esquecendo-se, no impeto da exclamao, de manter o mesmo tom e
tractamento, que at alli estivera usando com o fidalgo.--Muito bem,
pois saiba o fidalgo, que para mim j no  novidade o no ter Bertha
inclinao para o meu filho, nem de tal casamento se falla j, porque o
meu Clemente, por emquanto, no aceita mulheres que no entrem para casa
d'elle com o corao. Isso j estava decidido. Mas eu o que quiz foi
ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero vr agora como se ha de sahir
das talas em que se metteu. Porque, sabe porque a Berthasinha no gosta
do meu Clemente?  porque j gostava de outro... E sabe v. exc. quem 
esse outro? Olhe que foi o corao de Bertha que o escolheu, o tal
corao que no se engana; esse outro  o filho de v. exc., o snr.
Jorge. Ora ahi tem; agora ento veja se est por o que disse.

D. Luiz ficou por muito tempo a olhar para a Anna do Vdor com a vista
espantada e sem articular palavra.

--Jorge!--murmurou elle a final e quasi inaudivelmente.

--Sim senhor, Jorge. E que me diz v. exc. a isto?

--Jorge, Bertha...--repetia o velho, assombrado com a
revelao.--Mulher, quem lhe disse isso?

--Seu filho, entre outros.

--Jorge! Terei por acaso eu sido a victima de uma intriga
infame?--exclamou o fidalgo tremulo de raiva.--Isto  de enlouquecer.

--Qual intriga nem meia intriga? Isto tudo foi a coisa mais innocente e
natural do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do
rapaz, o costume desde o tempo de Ado e Eva, e ninguem soube d'isso
seno agora.

--Jorge!  meu Deus; porque havias de me dar filhos s para me
affligirem e envergonharem!

--Ora ahi est! At agora nem o meu Clemente lhe servia para a Bertha,
em taes alturas a punha. Agora ento j o filho o deshonra s por gostar
da rapariga. Entendam-n'o l. Que tal  o amor que o padrinho tem 
afilhada?! Eu c de mim no entendo estas amizades de tarraxa.

D. Luiz no dava atteno s reflexes da Anna. Luctavam-lhe no corao
paixes encontradas e violentas: sob a influencia de umas sentia-se
cahir em profundo desalento, outras incitavam-n'o, pelo contrario, a uma
reaco desesperada.

Thom no se enganra nas suas previses. As suspeitas e preconceitos
mal abafados no corao do fidalgo contra o lavrador alvoroaram-se com
a revelao que acabava de ouvir.

A intimidade de Jorge com Thom, os servios prestados por este  casa,
a vinda de Bertha para os Bacellos por espontanea deliberao do pae,
tudo explicava o seu espirito preoccupado por uma trama infernal
combinada por o fazendeiro.

--Era a isto que elle queria chegar!--bradava irritado o
fidalgo.--Descobriu-se finalmente o hypocrita! A audacia d'esta gente
no tem limites! Gabem-me os brios e a nobreza de alma d'estes
miseraveis! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a prsa,
attrahiu-a a si e feriu-a! Que ambio! Ahi est no que deu o
desinteresse dos seus actos, a lealdade das suas intenes! At da filha
se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e machinaes! Ha
nada mais vil? Trouxe-m'a para casa, como a vibora que me havia de
inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doena,
deixei-me illudir! Oh! mas elles mal sabem com quem se mettem e no que
se mettem! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a
vida se lhes est a apagar, a vontade pde reunir em um instante toda a
energia de que precisa para esmagal-os, antes de morrer!

E D. Luiz, no auge da indignao, ergueu-se da cadeira em que estava
sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os
braos estendidos, bradou:

--E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me
n'estes ultimos dias de minha vida!

Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem j a ouvia.

Fraqueando-lhe j a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio,
continuava em tom cavernoso:

--Eu lhes juro que no me ho de vencer na lucta que provocaram. Quando
me tiverem j usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de
minha familia, ho de ainda vergar sob o pso das minhas maldies,
porque eu acredito que ha um Deus no co e que as pragas de um velho
ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraas sobre a cabea
dos miseraveis que me insultam.

--Fidalgo, fidalgo, volte a si!--bradava Anna do Vdor devras
consternada.

O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia
crescente:

--Deixem-me! Deixem-me! Quero viver s, de hoje em diante! S! No quero
vr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se
aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que
abro o corao transforma-se c dentro em um veneno corrosivo! Oh!  de
mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui s, ninguem me apparea,
ninguem me falle, deixem-me!

N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela
altercao que lhe parecra ouvir no quarto do padrinho e perguntou
assustada:

--Que  o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?

O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e
injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou:

--s tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe
d'ahi! Sahe! No me appareas! No me falles! No me faas descrr de
Deus! No quero vr ninguem, j disse! Deixem-me!

Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformao
nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto,
saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.

-- fidalgo!--acudiu a Anna do Vdor cada vez mais assustada pelo estado
em que o via-- fidalgo! olhe que est fra de si! Isso que ? A pobre
rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem
ella? Coitada da pobre!

-- o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu
sou--respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira j desalentado.

--No diga essas coisas, que at  peccado! Que motivos tem para essas
furias? Olha agora! O que eu lhe disse no  para tanto. Alm de que,
socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais at do
que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa
elles se deixaro morrer, e at parece que esto n'essa resoluo, do
que lhe daro o desgosto de que tanto se receia, no sei porqu. E olhe
que o rapaz j no est longe de fazer a tal viagem. A no lhe agradar
mais vl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer ...

D. Luiz mostrava no dar a menor atteno ao que a mulher dizia. O
accesso de desespero passra. Com gesto e voz de abatimento
interrompeu-a, perguntando:

--A pequena ia devras a chorar?

--Podra no. Ao rompante com que v. ex. lhe fallou! E sem razo
alguma, porque, como eu disse a v. exc., elles...

O fidalgo suspirou:

-- uma fatalidade!--disse elle a meia voz.--Pobre rapariga! De certo
que no  ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mos dos
outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar s, peo-lhe
que me deixe s.

--Pois fique-se com Deus.

--Olhe, Anna, olhe, se vir ahi fra a pequena, diga-lhe que venha c; se
ahi no estiver... mande chamal-a, sim? Eu quero fallar-lhe.

--Olhe l o que vae dizer-lhe, fidalgo! No afflija a pobre rapariga,
que bem lhe basta...

--Faa-me o que lhe peo, Anna, faa, e v descanada.

--Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se no quer perder o filho,
ande com cautela n'este negocio.

A Anna do Vdor, que no obteve resposta a esta ultima advertencia,
sahiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu
junto do fidalgo, e quasi arrependida por o haver dado.

D. Luiz ficou s por algum tempo, com a cabea escondida entre as mos e
os cotovlos apoiados nos braos da poltrona.

--At que ponto levareis esta provao, meu Deus?!--murmurava elle quasi
soluando.

Passados momentos entrava no quarto e avanava timidamente com hesitao
ao encontro do velho, Bertha com os olhos ainda chorosos e o gesto
commovido.

Ao rumor dos passos leves de Bertha, o fidalgo elevou a cabea e fitou a
afilhada com expresso de melancolia e affecto.

--Anda c, Bertha; vem c, minha filha. Ento no vs como eu pago os
cuidados que tens tido commigo? Que queres tu? Isto em mim  j loucura!

Ao tom affectuoso e triste d'estas palavras dissipou-se a hesitao de
Bertha, que correu a ajoelhar-se junto do velho, pegando-lhe nas mos
enternecida:

--No diga isso, snr. D. Luiz. Eu bem sei que eram impaciencias de
doente.

D. Luiz segurou-lhe a cabea entre as mos e, olhando-a fixamente,
murmurou:

--Pobre criana! Fiz-te chorar! Nem que te no bastassem os teus
soffrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu no tens culpa no que os outros
fazem. No  possivel que tenhas culpa.

E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam apparecer as lagrimas.

--Perdoar-lhe? O que lhe hei de eu perdoar? A affeio que me tem? S se
fr isso.

--Ahi vem outra vez as lagrimas! Enxuga-as. No quero fazer-te chorar
mais. No faas caso do que eu digo, Bertha, que sou um tonto.  uma
ingratido de minha parte, uma feia ingratido.

--O que me faz pena  vl-o afflicto. Cuidei que estava peior.

--No;  que essa mulher que d'ahi sahiu disse-me coisas...

E olhando outra vez fixamente para Bertha, acrescentou depois de alguma
hesitao:

--Bertha, tu s sinceramente minha amiga?

-- meu padrinho. Que pergunta!

--Nem tu eras capaz de fingir um affecto que no sentisses. Creio bem.

--Porm, meu Deus, o que quer dizer com isso?

--Nada. Olha c, Bertha... Quando tu vieste para os Bacellos... quando
vieste para ao p de mim... foi teu pae que te disse que viesses, no
foi?

--Meu pae leu-me a carta da snr. baroneza, em que lhe participava que
ia partir para Lisboa e que o snr. D. Luiz ficava sem ter quem o
tractasse... e eu ento lembrei-me do mesmo que meu pae j tinha tambem
no pensamento e pedi-lhe para me deixar vir.

--E elle disse logo que sim, j se sabe?

--Se era essa mesma a sua ideia.

--Ah! era essa a sua ideia? E... e Jorge no foi ouvido n'essa occasio?
Porque Jorge ia muito por vossa casa, no ia?

Bertha principiava a sentir-se inquieta com esta inquirio.

--O snr. Jorge--respondeu ella um pouco a medo--ia s vezes procurar meu
pae para fallar de negocios com elle; mas n'isto no foi consultado, que
eu saiba.

--Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa casa
de toda a familiaridade.

--Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que no fosse
meu pae.

--Pois nem comtigo?

--Commigo?--repetiu Bertha perturbada--Commigo menos do que com os
outros.

D. Luiz contrahiu as sobrancelhas como se esta resposta lhe fizesse
suspeitar uma dissimulao.

--Pois ento Jorge nunca fallaria comtigo?

--Muito de passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas
maneiras taes, que cheguei a acreditar que me queria mal por algum
motivo desconhecido para mim.

D. Luiz fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os
vestigios da desvanecida irritao.

--No esperava isso de ti, Bertha. Tu no s sincera commigo.

--Eu?

--Tu illudes-me como os outros a final, tu conspiras com elles contra a
tranquillidade dos meus dias, contra o socego d'este corao atribulado.
Deus te perdoe o mal que me fazes, tu, mais do que ninguem, porque te
queria devras.

--Jesus, snr. D. Luiz, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz eu
mal? Por amor de Deus, diga, falle-me claro.

--Bertha,  preciso que me digas a verdade, se queres que no suspeite
de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos;  preciso que
no dissimules, como elles fazem, para me illudirem.

--Mas que quer que lhe diga, snr. D. Luiz? Prometto dizer-lhe a verdade,
nem eu lhe sei mentir.

--Ento para que me dizes que Jorge te queria mal?

Bertha sentia-se cada vez mais sobresaltada pelas perguntas do fidalgo,
que pareciam dirigir-se ao segredo recatado, que ella conservava no
corao.

--Eu disse--respondeu ella--que cheguei a pensar que o snr. Jorge me
queria mal, porm...

A confuso que sentia no a deixou continuar.

O fidalgo notou aquella perturbao e abrandou mais a voz, tomou um tom
carinhoso e disse pegando-lhe affectuosamente na mo:

--Vamos, Bertha, socega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me
francamente o corao sem receio. Dize-me,  verdade que Jorge te disse
alguma vez que te amava?  verdade que entre vs ambos ha alguma
affeio, alguma promessa?

A pergunta, ainda que no j de todo inesperada, sobresaltou Bertha, que
no atinou com o que respondesse.

--Socega, minha filha--proseguiu o fidalgo, animando-a.--Bem vs que eu
no quero reprehender-te. Smente queria que me dissesses a verdade a
este respeito.

--Meu padrinho--disse Bertha perturbada ainda--pois no se lembra do
pedido que lhe fiz ainda ha poucos dias?

--Do pedido?... Ah! sim... Fallas do casamento?... Mas se elle j se no
faz? Se foi a propria me de Clemente que me contou d'esses amores entre
ti e meu filho?

--Oh! no pde ser!--exclamou Bertha, consternada.

--Como havia ella de saber?... Como podia ella dizer isso?

--O mesmo Jorge lh'o revelou.

--Jorge!... o snr. Jorge!...  impossivel!

--Mas porque no respondes  minha pergunta? O que ha de verdade em tudo
isso?

Bertha conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta. Depois,
como se abraasse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade:

--Tem razo, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ella tem em que
me envergonhar.

--Ento  certo?

Bertha com os olhos fitos no cho e a voz mal firme, mas exprimindo
resoluo, principiou:

--Um dia o snr. Jorge apresentou-se em casa de meu pae, a pedir-lhe, em
nome de Clemente, licena para o casamento que sabe....

--Como?! Foi Jorge que pediu esse consentimento? E antes d'isso no
tinha elle j dado a conhecer-te....

Bertha no o deixou continuar.

--Escute, snr. D. Luiz, que eu prometto dizer-lhe toda a verdade. Meu
pae chamou-me para consultar-me a esse proposito.

--Ah! teu pae consultou-te?! E esperava que tu recusasses, no 
verdade?

--Eu nunca pensra em casar-me, nunca pensra at no futuro, por isso
aquella proposta sobresaltou-me.

--E respondeste....

--Depois o ter sido feita pelo snr. Jorge mais me perturbava ainda.

--Sim, porque elle havia-te jurado talvez....

--No havia jurado coisa alguma; quasi nem me fallra detidamente desde
que eu voltra  aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a minha
presena lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam. No era
possivel illudir-me a esse respeito. Affligia-me vr a pouca sympathia
que eu merecra, sem saber porqu, a um rapaz que todos diziam to
generoso, to indulgente e de tanto juizo; e isto era causa para eu
muito pensar no que poderia dar motivo quelle proceder d'elle para
commigo. Tinha isto sempre na ideia, observava-o, estudava-o... e foi
mau isto, bem sinto que foi mau.

--Porqu?

--Porque quanto mais o observava--continuou Bertha, com ingenua
sinceridade--mais de perto lhe conhecia as nobres qualidades, e senti a
pouco e pouco em mim uma admirao por elle, uma sympathia, um respeito,
um....

--Um amor--concluiu D. Luiz, vendo a hesitao de Bertha.

--Uma loucura--emendou esta--que eu tractei logo de abafar em mim,
porque desde o principio a vi tal como ella era.

--s um anjo--disse D. Luiz, afagando-a.

Bertha proseguiu:

--Mas a proposta d'aquelle casamento, feita pelo snr. Jorge, foi para
mim mais uma prova da antipathia, que eu julgava merecer-lhe. Pareceu-me
quasi uma perseguio; despeitada com ella, disse a meu pae que aceitava
a proposta de Clemente.

--E elle... e elles que disseram?

--Ficando momentos depois s com o snr. Jorge e sem que podsse j reter
as lagrimas que me afogavam, perguntei-lhe quaes eram as razes que o
tinham levado a dar aquelle passo, a encarregar-se d'aquella proposta,
porque motivo eu lhe era to odiosa, o que  que o levra a fazer-me
mal, a mim que nunca lh'o fizera nem desejra.

--E elle?

--Foi ento--proseguiu Bertha, mas enleiada--que imprevistamente elle me
confessou que o unico motivo de todo o seu proceder, da sua apparente m
vontade, da dureza das suas palavras era... a affeio que me tinha e
que, desde que a sentira, se esforra por occultar e vencer, como eu
tambem fizera; que estava decidido a sacrifical-a aos seus deveres de
familia, mas que no queria que o sacrificio ferisse a mais alguem seno
a elle, e para isso procurava sempre desviar de si pelo seu proceder as
minhas attenes e sympathias. No o conseguiu; mas que importava? Eu
no tinha menos coragem do que elle, e comprehendia to bem como elle
quaes eram os meus deveres, que em mim eram mais fortes ainda.

--Pobre rapariga!--murmurou D. Luiz commovido.

--Assim posso dizer que foi aquelle o primeiro e o ultimo dia d'esses...
amores de que lhe vieram fallar no sei para qu. No mesmo dia em que
nos declaramos, no mesmo dia promettemos abafar em ns mesmos essa
loucura que nascra sem que o sentissemos. E tanto que dias depois eu
vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com Clemente.

--E teu pae nada soube de tudo isso?--perguntou o desconfiado fidalgo.

--Se ns mesmos o no sabiamos!--respondeu Bertha com ingenuidade.

Depois de um intervallo de muda reflexo, D. Luiz segurou outra vez nas
mos a graciosa cabea da afilhada, e poisou-lhe na fronte um beijo,
verdadeiramente paternal.

--Era bem digna de ter nascido entre a nobreza--disse elle
suspirando--quem to nobremente pensa e procede. Quantas raparigas
creadas em palacios deviam ouvir e aprender de ti, Bertha! Pobre
pequena! O teu sacrificio  grande e custoso, porque tu com esse corao
que tens, se amas, deves amar devras; mas bem vs e tu mesma o
reconheces,  um sacrificio inevitavel! Nas familias como as nossas ha
certas exigencias tradicionaes....

--Snr. D. Luiz--disse Bertha interrompendo-o--repare que ha dias que eu
lhe pedi o seu consentimento....

--Bem sei, Bertha; bem vejo que o teu juizo dominou a tua phantasia de
rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tambem to
longe o sacrificio, indo casar-te com um homem que no amavas?

--Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua vida. O
destino de uma mulher como eu  esse.  a nossa misso. Porque no havia
de cumpril-a?

--Illudindo, porque no podias amar.

--Disse-o a Clemente. No lhe prometti o que no podia dar-lhe.

--E elle aceitou?!

--Pediu tempo para pensar. Agora vejo que no....

Calaram-se por algum tempo. Bertha, sem erguer os olhos, dobrava e
desdobrava distrahida o pequeno avental de sda. D. Luiz observava-a com
ar pensativo.

Foi elle quem renovou o dialogo.

--Custa-te muito o sacrificio que fazes, no  verdade?

--Para que hei de dizer que no? Custa-me como quando ao acordar de
sonhar um sonho agradavel, me conveno de que foi um sonho tudo. Sabe
porm o que me anima?  o pensar que mais me custaria se o sonho se
realisasse.

--Porqu?

--Porque teria remorsos de pagar d'essa maneira o affecto que encontrei
sempre n'esta casa; porque teria vergonha de que pensassem que, da minha
parte, esses affectos eram calculados e interesseiros. Ns tambem temos
o nosso orgulho, snr. D. Luiz--acrescentou ella, sorrindo.

--E nobre que elle --acudiu o fidalgo, cada vez mais fascinado.

N'este momento a porta abriu-se, e frei Januario metteu a cabea pela
abertura.

--Que ?--perguntou D. Luiz, irritado.

-- o Thom da Povoa ...  o pae d'essa menina que a procura.

--A mim?--disse Bertha, levantando-se.

--Sim, menina--tornou o padre--e parece-me que procura a v. exc.
tambem.

--Pois que entre--respondeu D. Luiz asperamente.

Passados momentos Thom da Povoa entrava para o quarto de D. Luiz, com
as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.




XXXV


Como homem a quem pesava a commisso que se propunha a desempenhar alli,
Thom da Povoa, depois de comprimentar o fidalgo e de abenoar a filha,
foi direito ao fim da sua visita.

--Pois, snr. D. Luiz, eu venho aqui para buscar a rapariga, se v. exc.
der licena.

Bertha desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.

D. Luiz no respondeu, mas correu-lhe pelos labios um rapido sorriso,
entre amargo e ironico.

Thom, em vista do silencio do fidalgo, sentiu que no podia deixar de
dizer mais algumas palavras de explicao, e por isso, enleiado a forjar
um pretexto que no lhe occorria, acrescentou:

--Ella est sendo l precisa... porque... sim, a minha Luiza, pelos
modos... anda assim adoentada...

--Minha me est doente?--perguntou Bertha com inquietao.

--Doente, doente... o que se chama doente, no digo, mas... E depois ha
l uns milhos a arrecadar e os pequenos... E emfim, n'esta poca do
anno, a casa de um lavrador... Os jornaleiros so muitos...

E a cada pretexto que mal apontava, Thom erguia a vista para D. Luiz a
estudar-lhe na physionomia o effeito da desculpa.

Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma expresso de reserva e
de mysterio.

De repente, porm, D. Luiz fez um movimento, como se uma subita
resoluo lhe acudisse, estendeu a mo para Bertha, que se demorra
ainda ao lado d'elle e como que a impelliu de si e na direco de Thom,
dizendo com affectada placidez:

--Ahi a tem. Pde leval-a.

 estranheza com que Thom o encarou, vendo-o fazer aquelle gesto,
correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo:

--No calculou bem o tempo. Antecipou-se. A occasio no era ainda esta;
por ora no estou enfeitiado, bem v.

Thom julgou perceber vagamente o sentido d'estas palavras e crou,
dizendo:

--Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer...

--Que pde levar sua filha. A presena d'ella aqui no adianta os seus
projectos. Meus filhos no esto nos Bacellos, como v, e eu... eu j
no tenho corao sujeito a feitios.

--A illuso no era possivel para Thom. As palavras de D. Luiz
confirmavam as previses que elle tivera antes de lh'as ouvir.

O rosto do lavrador tomou a expresso que os fortes golpes e as paixes
violentas lhe costumavam dar.

Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra,
mordendo os beios e abanando significativamente com a cabea. Depois
tomou a filha pela mo, e encaminhando-a para a porta do quarto,
disse-lhe:

--Bertha, vae apromptar as tuas coisas, que eu espero por ti... e no
entretanto conversarei com o fidalgo.

Bertha sentia que entre aquelles dois homens havia imminente uma lucta
de paixes, que no estava j na sua mo dissipar. Mais valia pois
deixal-os chegar a uma explicao decisiva, que definisse a posio de
cada um.

Obedeceu portanto  indicao do pae, dirigindo-lhe apenas em um olhar
uma supplica que no passou desapercebida de Thom.

Depois que Bertha sahiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e
cruzando os braos disse-lhe com um modo decidido:

--Agora que estamos ss, snr. D. Luiz, faa v. exc. o favor de me
accusar abertamente e de uma maneira clara e franca.

D. Luiz respondeu com frieza e sobranceria:

--Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusao 
porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.

Thom da Povoa no pde reter um movimento de impaciencia.

--Por quem , fidalgo, no me principie v. exc. com esses discursos
enredados, com que no me entendo. Jogo franco! Ou se no, comeo eu, e
ser talvez melhor.

D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica
indifferena.

--No me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque
depois do que eu soube esta manh, esta manh apenas, repare bem, snr.
D. Luiz, depois do que soube esta manh e conhecendo como conheo o
genio de v. exc., j esperava ouvir alguma coisa parecida com o que
ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. 
preciso que v. exc. saiba. Porque um homem que no tem a pesar-lhe na
consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, no pde a
sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.

--Bem; pois se a consciencia lhe no exprobra nada,  o essencial. V em
paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu
d'elle.

--Perdo, fidalgo. Isso  que eu no posso fazer. Deus me livre de ser
accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela
dos homens que respeito e estimo. E v. exc., ainda que no o creia, 
um d'esses.

--Muito obrigado.

--Permitta-me que v direito ao caso. Minha filha no tarda ahi, e eu
no quero fallar diante d'ella. Esta manh foram a minha casa,
(provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com
a mesma nova... Foram a minha casa e disseram-me...

--Perdo, eu no preciso de saber o que se diz nas casas alheias.

--Pois bem--acudiu Thom j irritado--eu lhe conto ento o que se disse
na sua. Vieram aqui, a casa de v. exc., e disseram-lhe: O seu filho
Jorge est namorado da filha do Thom e a rapariga tambm gosta d'elle.
Disseram-lhe isto com certeza, e disseram-m'o a mim tambem. Ora agora,
eu lhe conto mais, eu lhe conto o que v. exc. pensou e o que eu logo
previ que v. exc. pensava. Pensou v. exc.: Aquelle insolente Thom foi
quem machinou tudo isto. Atreveu-se a sonhar em apanhar o meu filho para
marido da filha d'elle, em alliar a sua familia  minha, em dar por
aposento quella rapariga as salas do meu palacio. Para isso principiou
a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe servios com signaes de
desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe metteu  cara a
filha, e emfim, para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo
da predileco que eu mostrava pela rapariga, trouxe-m'a para casa,
porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser
deixar-me de tal maneira prender por ella, que no oppozesse obstaculos
aos seus projectos. Ora aqui est o que v. exc. pensou. Negue-o, se 
capaz.

D. Luiz no ousou negar.

--Muito bem, fidalgo. O tempo  pouco, como disse, e por isso eu vou j
direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos de v.
exc., porque ainda quando as apparencias eram menos contra mim do que
d'esta vez, v. exc. costumava sempre fazer a meu respeito supposies
to boas como esta. Por isso no pude soffrer a ideia de conservar nem
mais uma hora minha filha n'esta casa. Vim e vim  carreira para a levar
commigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada, mas foi
desnecessario, porque logo vi s primeiras palavras de v. exc. que j
chegra tarde para remediar o mal que previra. Muito bem, n'esse caso
resta-me pouco a fazer para descargo da minha consciencia e depois
retiro-me.

Thom passou a mo pela fronte, que tinha inundada de suor. Na voz como
no semblante eram evidentes os signaes da sua excessiva commoo.

D. Luiz, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento,
sentiu-se involuntariamente obrigado a levantal-os n'aquelle momento
para os fitar na physionomia do homem que tinha diante de si e que a seu
pezar o impressionava.

--Fidalgo--proseguiu Thom, depois d'esta breve pausa--juro-lhe que
nunca percebi estas affeies entre minha filha e o snr. Jorge, juro-lhe
que nunca pensei em que ellas podessem dar-se. Quando o soube estalou-me
o corao de dr e craram-me as faces de vergonha. Cheguei a
arrepender-me, pela primeira vez, de alguns servios que em boa f
prestei ao snr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade. Mas uma
vez que o caso se deu, sem culpa minha, s tenho a dizer-lhe isto,
fidalgo; oua-me bem. Quero do corao a seu filho, de pequeno o estimo,
e respeito-o agora como um homem de bem que ; quero devras, se quero!
a minha filha,  a primeira que eu tive,  a nica rapariga,  a que
trago mais chegada ao corao, fraquezas de pae, como sabe; pois bem,
quero-lhes a ambos e muito, mas ainda que a affeio que elles tivessem
um pelo outro fosse tal que eu os visse morrer, e que a salvao d'elles
s dependesse do meu consentimento para se casarem, deixal-os-ia morrer,
deixava; morreria com elles, mas no daria esse consentimento.
Juro-lh'o, fidalgo, juro-lh'o! que para tanto tenho coragem; porque o
meu orgulho no  menos forte do que o de v. exc.! Para eu consentir
que um filho meu entrasse na sua familia, fidalgo, era necessario... Eu
sei l o que era necessario?... Era necessario que v. exc. primeiro me
pedisse por favor para assim o consentir. Agora veja l se isso 
possivel.

Ao terminar, Thom tinha a respirao cortada, offegante, como de quem
realisou um esforo enorme. Cahiam-lhe bagadas de suor pela fronte
afogueada e as mos contrahiam-se-lhe em crispaes nervosas.

D. Luiz ia a responder-lhe quando Bertha entrou no quarto preparada para
a partida.

A sua chegada cortou n'este ponto a scena.

Bertha relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a scena
que ella previra tivera logar.

--Quer que vamos?--perguntou ella ao pae timidamente.

--Vamos--respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se para a porta.

Bertha aproxiraou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.

--Quer dar-me a sua beno de despedida, meu padrinho?--perguntou Bertha
a meia voz, como receiosa de uma recusa.

D. Luiz, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a mo.

Bertha apoderou-se d'ella e beijou-a, banhando-a de lagrimas de saudade.

D. Luiz estremeceu ao sentir aquelles beijos e aquellas lagrimas, mas
fez por se reprimir na presena de Thom.

Emfim, Bertha separou-se d'elle, e encaminhou-se para a porta, onde o
pae a esperava.

Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz suffocada.

Voltou-se. D. Luiz seguia-a com a vista nublada de pranto e estendia-lhe
os braos para um ultimo adeus.

Ella correu para o velho e abraaram-se soluando.

Thom sensibilizado escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.

Por algum tempo durou ainda aquella tocante scena de despedida, que
despedaou o corao do velho fidalgo.

A final afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte,
enternecido, murmurou:

--Vae, minha filha;  melhor que vs. O teu sacrificio  grande, mas cr
que no  maior do que o meu. Dize a teu pae....

Mas percebendo Thom meio escondido na porta, dirigiu-se a elle:

--Thom, ha pouco fui injusto comsigo. Desculpe-me; a velhice e a doena
fizeram-me assim. Creio na sua boa f e espero que todos ns saberemos
proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-lhe a sua filha. Tem
razo em a querer junto de si.

E pela segunda vez na sua vida o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a mo
ao seu antigo criado.

Thom aceitou-lh'a com a effuso com que sempre acolhia a mo que
lealmente se estendia para a sua.

--Fidalgo, se v. exc.... Mas no;  melhor que Bertha venha commigo. 
melhor para socego de todos. Custa ao principio, mas...

--Sim;  melhor, ; Bertha que v--assentiu D. Luiz.

E depois de uma ultima despedida to terna como a primeira, o pobre
doente viu desapparecer para no voltar, a doce figura da sua carinhosa
enfermeira.

Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho
escondeu a cabea entre as mos j trmulas, e com a voz cortada pelos
soluos exclamou com desespero:

--Agora morre! morre! morre para ahi s, velho desgraado, sem filhos,
sem familia, sem amigos; morre s com os teus rancores, com as tuas
paixes, com o teu orgulho, j que assim o queres. Quando acabar de se
despedaar este corao, para me deixar descanar?

Frei Januario veio surprendl-o n'este apaixonado monologo e recuou
assustado ante a vehemencia d'aquella dor.

D. Luiz nem deu pela chegada do padre. Cahindo em um profundo
abatimento, assim permaneceu sem que as perguntas e supplicas do padre
conseguissem arrancar-lhe uma palavra dos labios contrahidos.

Smente ao fim da tarde, D. Luiz disse que queria deitar-se;
ajudaram-n'o a despir-se e a mettl-o na cama, onde elle ficou como
cabido em uma somnolencia morbida.

O padre receioso do resultado d'aquella subita depresso de foras,
pensou em avisar Jorge.

O bom do padre, apesar dos seus defeitos, no era um corao insensivel,
e por D. Luiz tinha uma affeio sincera. Aquella noite, reagindo contra
o seu amor pelas commodidades, velou, ou melhor, permaneceu  cabeceira
do doente. Teve porm o desgosto de perceber que este no sentia grande
refrigerio em vl-o alli, porque sempre que no intervallo dos seus
somnos agitados dava com os olhos n'elle, desviava-os logo com despeito.

No obstante, o padre conservou-se fiel ao seu posto.




XXXVI


O estado do doente no dia seguinte no era mais animador. O abatimento,
em que to de subito cahira, mostrava geitos de prolongar-se e por
ventura de terminar por uma soluo funesta.

O padre mandou  pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacellos.

A carta de frei Januario chegou s mos de Jorge juntamente com outras
de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a deciso
favoravel da importante demanda que elle sustentava, outras da baroneza
e de Mauricio, participando-lhe o seu casamento e promettendo uma
proxima visita  aldeia. Todas estas noticias de to diversa indole
impressionaram extraordinariamente Jorge.

Por esse lado illuminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a
constancia e a tenacidade de um animo varonil; por outro assombrava-o o
estado perigoso de seu velho pae, a quem elle desejaria dar ainda a
consolao de vr como que erguida das ruinas a casa de seus
antepassados.

As novas, quasi funebres, que lhe vinham dos Bacellos, enlutavam-lhe as
alegrias nupciaes das cartas do irmo e de Gabriella.

Debaixo da influencia d'estas impresses oppostas, Jorge, depois de
escrever um pequeno bilhete a Thom, em resposta a outro que d'elle
recebeu, communicando-lhe tambm o resultado da demanda, montou a
cavallo e partiu a toda a pressa para os Bacellos.

O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a
cabea, conduziu-o ao quarto de D. Luiz.

Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o corao ao aproximar-se do
leito do pae.

--Elle j nem falla--dissera-lhe a meia voz o padre, que de facto ainda
no conseguira obter uma s palavra do fidalgo.

Jorge afastou quasi tremendo as cortinas do leito.

D. Luiz, que jazia com os olhos fechados e n'aquella immobilidade quasi
morbida em que desde a partida de Bertha cahira, no deu signal de ter
percebido a chegada do filho.

Jorge, assustado com aquella impassibilidade, pegou-lhe na mo que tinha
estendida por fra da roupa, como para procurar n'ella o calor da vida.

Ao contacto da mo do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos;
vendo Jorge, passou-lhe nos labios um desvanecido sorriso de affecto.

--Ah! s tu, Jorge?--disse elle com a voz ainda fraca--no te tinha
visto entrar.

Frei Januario ficou estupefacto, ouvindo fallar o doente, que elle j
suppunha em estado de no poder fazl-o.

--Acha-se melhor?--perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.

O velho s respondeu encolhendo os hombros como exprimindo indifferena
pela sua sorte, e depois fitando outra vez os olhos no filho,
interrogou-o por sua vez:

--E tu?

Jorge estranhou esta solicitude no pae, to fra dos seus habitos, e
sentiu-se commovido.

--Eu?... eu estou bom.

--Ests pallido e doente--proseguiu o pae, fitando-o.

E sem desviar os olhos, recahiu no silencio, que manteve por alguns
segundos.

Depois, procurando a mo do filho e apertando-a na sua, murmurou com uma
commoo a que s ultimamente era sujeito.

--s um homem, Jorge! s digno do nome que tens e da familia que
representas.

Estas palavras surprenderam extraordinariamente Jorge e no menos frei
Januario, que as attribuiu ao delirio produzido pela doena.

D. Luiz acrescentou no mesmo tom:

--Saber sacrificar tudo a um dever  a principal e a mais difficil
sciencia que ns temos a aprender na vida, e tu... mostras que ests bem
senhor d'ella.

Julgando perceber o sentido d'estas palavras, Jorge fitou no pae um
olhar perscrutador.

Elle porm fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu como
cahido em um somno profundo.

O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.

--Como vo os negocios de nossa casa?--perguntou d'ahi a pouco elle sem
abrir os olhos.

Jorge communicou-lhe a boa nova que recebra de se haver vencido a mais
antiga e a mais importante demanda que sustentavam.

Na pallidez das faces do doente passou um instantaneo rubor. Os labios
agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o pde ouvir o filho,
murmurou:

--Ser chegado o termo d'esta longa provao?!

Depois recahiu no torpor em que passra a noite e no disse mais palavra
alguma.

Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a
claridade do aposento, e entregando-o  vigilancia do padre, retirou-se
ao escriptorio para trabalhar nos negocios da casa.

Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.

Pela madrugada do dia immediato despertou a gente nos Bacellos  chegada
de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando
a baroneza e Mauricio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa
da sua visita.

Jorge correu a recebl-os e cingiu nos braos commovido o irmo e a
cunhada.

Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria,
a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a
pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehenso.

--Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?--disse a
baroneza.--Ajuizado como s, no vs que pelo caminho que segues no
podes realisar os teus grandes projectos?

Jorge sorriu, encolhendo os hombros.

--Que quer que lhe faa, Gabriella? A vontade do homem no rege os
processos intimos da sua vida organica. No est na minha mo modificar
o andamento dos meus actos nutritivos.

--Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de
trabalho...

--No  isso, Gabriella--acudiu Mauricio--eu sempre conheci em Jorge o
habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata  a
louca presumpo de ser superior s paixes, e a tentativa que faz para
sacrifical-as a no sei que imaginarios deveres.

Jorge sorriu.

--J vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
Esse soubeste-o s depois de casares.

--Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.

--Isso  verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer
d'elle.

--Mas--tornou a baroneza-- preciso sahir d'isto. O Jorge suppe-se mais
forte do que .

--Creia, Gabriella, o melhor  deixar ao tempo o cuidado de resolver as
crises. Hoje o que me preoccupa  a soluo dos meus negocios, que
felizmente vo tomando uma face animadora.

-- verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a demanda que
tanto te preoccupava. O que tu no sabes  que ao valimento de Mauricio
com um dos desembargadores, em cujas mos parava o processo, se deve
essa prompta soluo.

--Devras?

--No ouso crl-o--disse Maurcio--ainda que  verdade ter-lhe fallado e
haver recebido d'elle a promessa de aviar depressa o processo.

--Hoje quasi posso assegurar-lhe que  certa a nossa regenerao--tornou
Jorge.--Esta primeira victoria prepara-me o terreno para outras e
solta-me os movimentos que tinha peiados. E os teus projectos, Mauricio?

--Vo em bom caminho. Tenho quasi certo um logar na embaixada de Londres
ou de Berlim.

--Eu ainda no desespero de envelhecer embaixatriz--disse a baroneza,
sorrindo, e acrescentou:--Mas que  de Bertha? J c no est?

--Retirou-se ha dias. Desde ento recrudesceu a doena do pae.

--E para que se retirou?

--O Thom veio buscal-a.

--Com que fim?

--No sei... Ainda que... por algumas coisas que ouvi... quer-me parecer
que fizeram conceber a Thom certos receios. Emfim eu proprio no quiz
profundar os motivos da retirada por temer que no me fosse agradavel
ouvil-os.

--E querem vr que o tio Luiz tambm soube?  impossivel que tudo isto
no lhe tenha feito muito mal! Eu nunca vi! Esta gente toda entregue a
si parece que porfia em complicar a situao. Mauricio, vamos vr teu
pae. Eeus queira que ainda seja possivel remediar o mal feito. Vens,
Jorge?

Passados momentos entravam todos tres no quarto de D. Luiz, onde
penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas corridas e
pelas janellas meio abertas.

Frei Januario, que dormitava ao lado do leito, com o leno vermelho em
uma mo e o breviario na outra, ergueu-se ao ver a baroneza, e depois de
comprimental-a dispunha-se a avisar o fidalgo.

Gabriella susteve-o, e avisinhando-se do leito, correu ella propria os
pannos do cortinado e contemplou o rosto do ancio, que dormia
profundamente.

Mauricio e Jorge acercaram-se tambem.

A nobre physionomia de D. Luiz, abatida pelo soffrimento physico e
moral, e sobre a qual o somno parecia derramar uma serenidade, como de
resignao, impressionou-os a todos.

A baroneza ajoelhou ao lado do velho, e pegando-lhe na mo beijou-a com
affecto e respeito. Mauricio ajoelhou tambem ao lado de sua esposa.

D. Luiz acordou um tanto sobresaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge
e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e
raiou-lhe no semblante, ao vl-os, um claro de alegria.

-- meus filhos!--exclamou elle, solevantando-se no leito e apoiando-se
no brao tremulo.

Depois, passando a mo por sobre a cabea dos noivos, acrescentou:

--Deus vos abenoe, como eu vos abeno.

E deixou-se cahir extenuado sobre o travesseiro.

Gabriella levantou-se para amparal-o.

--Ai, Gabriella--disse elle, suspirando--finalmente parece que chegou a
hora da liberdade.

--Diga que chegou a hora da resurreio. Ver como de hoje em diante
tudo vae ser ventura n'esta casa. Ha de trazer-lh'a Jorge e Mauricio e
eu, at eu e... e mais alguem. Quem sabe?

D. Luiz voltou os olhos para o filho mais novo.

--Mauricio--disse com a voz canada e interrompida--s ainda muito rapaz
e vaes viver em um mundo perigoso, no desprezes a conselheira que Deus
collocou a teu lado.

--Como hei de desprezal-a, se a adoro?--disse Mauricio com o galanteio
de um noivo ainda namorado.

A baroneza correspondeu-lhe com um sorriso, e observou:

--Nem receio o desprezo, nem creio na adorao. Deixemos as coisas nos
termos ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.

--Nem todos podem ter a frieza do teu animo, filha--disse Mauricio a
meia voz.

--No  tempo agora de discutirmos isso. Sabes? O pae no pde por
emquanto ouvir longas conversas. Acordou ha pouco e precisa de poupar a
atteno. Se tu fosses com Jorge dar ordem a essas coisas que os criados
trouxeram... Eu ficaria no entretanto aqui.

Jorge e Mauricio perceberam que a baroneza tinha desejos de que a
deixassem s com D. Luiz, e sahiram por isso da sala.

Frei Januario, meio adormecido, no deu pela sahida dos rapazes e
permaneceu entre o leito e a parede, encoberto pelo cortinado e
desapercebido de Gabriella.

Esta sentou-se  cabeceira do leito e com feminil carinho comeou a
ageitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as cs
desordenadas.

--Eu no esperava vir encontral-o sem enfermeira--dizia Gabriella o mais
naturalmente possivel.

D. Luiz suspirou.

Ella insistiu:

-- uma coisa to necessria! Porque ha certo cuidado que s uma mulher
pde ter.  a nossa especialidade.

D. Luiz abanou a cabea.

--Tem razo, Gabriella.  uma desconsoladora solido a de um doente sem
esses cuidados de que falla.

--Mas... porque se retirou Bertha?

D. Luiz no respondeu logo a esta pergunta, que parecia contrarial-o,
porque lhe chamou  fronte uma contraco de desgosto.

--Ai, raparigas!--tornou a baroneza--ferve-lhes o sangue a final.

--No diga isso, Gabriella, que  injusta. Bertha  um anjo de
abnegao.

--Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto?

--Vieram buscal-a.

--Quem?

--O pae.

--Pois o Thom da Povoa seria capaz de leval-a d'aqui contra vontade
d'ella e do padrinho?

--O Thom teve razo para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia leval-a.

--Ah! ento no entendo.

--Ha sacrificios to dolorosos, que no  justo exigil-os, nem
permittil-os.

--E o que Bertha fazia, ficando aqui a seu lado, era d'essa natureza?

--Talvez fosse.

--No posso conceber de que maneira.

D. Luiz canado do esforo que fazia para fallar ou hesitando no que
dissesse, no respondeu logo.

Depois murmurou:

--Aquella pobre rapariga tem uma alma nobre e heroica. No seria ella
que se trahiria por um signal de dr, ainda quando sentisse
despedaar-se-lhe o corao.

--E corria esses riscos aqui?--perguntou a baroneza com affectada
candura.

--Gabriella--continuou D. Luiz--Bertha sahiu victoriosa de uma grande
lucta. O corao, porm, ainda lhe devia sangrar, e no era aqui que se
lhe consolidariam as cicatrizes.

--So to vagos esses dizeres! Ora vamos; diga-me o que houve; falle-me
claro.

--Que havia de ser? Bertha  um anjo, mas sob a encarnao de mulher,
tem um corao... e esse, sujeito a apaixonar-se como os outros.

Gabriella fez um gesto de quem tivera uma ideia subita.

--Ah! J sei! Percebo agora! Era a isso que alludia? Cuidei que seria
outra coisa mais grave.

D. Luiz fixou na sobrinha um olhar admirado.

--A Gabriella por certo no sabe ao que me refiro.

--Sei, sei, pois no sei! Havia muito que eu tinha descoberto esse
segredo de Bertha, de Bertha e de Jorge.

--E deu-lhe to pouca importancia?

--Apenas a que merece. Mas devras, foi esse o motivo da retirada de
Bertha? Parece-me impossivel!

--J no pouco imprudente havia sido a demora d'ella n'esta casa. Elles
ambos so fortes, mas no devem abusar das suas foras com risco de
aggravar o mal e leval-o a extremos irremediaveis.

--O mal... extremos irremediaveis... Que linguagem to carregada para
uma coisa to simples! Pois diga-me, considera um grande mal o facto de
elles gostarem um do outro?

D. Luiz encarou Gabriella devras admirado da pergunta.

--Est a zombar, Gabriella?

--No estou. Fallo-lhe com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio
mal da inclinao reciproca de duas pessoas?  quando nos caracteres
d'ellas ha taes contradices que o futuro promette ser uma continuada
lucta. Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de
posio social e de jerarchia, so facilmente niveladas por um amor
verdadeiro e serio. E esta  de certo a indole do amor d'elles.

--Visto isso, achava a Gabriella muito natural que meu filho casasse com
a filha de Thom da Povoa?

A pergunta era feita com certa acrimonia, que no passou desapercebida
da baroneza. Ella porm estava resolvida a atacar de frente os
preconceitos do tio e no titubeou ao responder-lhe:

--Se quer que lhe diga, achava at muito conveniente.

D. Luiz moveu com certa impaciencia a cabea.

Gabriella insistiu:

--Queria antes que eu votasse pela continuao d'este estado de coisas,
que o ha de matar, que infallivelmente o mata, porque--diga o tio o que
disser--a companhia de Bertha -lhe j to necessaria como lhe foi a de
Beatriz? Queria antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz
definhado seu filho e que irremediavelmente o sacrificar e com elle as
esperanas de regenerao d'esta casa e d'esta familia? Desengane-se,
meu tio, o futuro de sua familia est indissoluvelmente ligado a Bertha.

--Pde ser.

--Est, digo-lh'o eu, que bem conheo Jorge. Elle renunciou
espontaneamente ao mais violento desejo do seu corao, julgando que
seria empreza ao alcance das suas foras. O resultado est-se vendo. De
dia para dia cresce n'elle o abatimento e as consequencias no 
difficil prevl-as. E diga-me se vale a pena sacrificar vidas to
preciosas e to nobres e brilhantes projectos a um capricho
aristocratico?

--Capricho?!

--Capricho, sim. Se invocar toda a sua philosophia, o tio Luiz ha de
reconhecer que no merece outro nome esse escrupulo.

--No ser dever?

--Em que codigo lhe  imposto?

--No da nobreza.

--O dever de quem  nobre de origem  conservar-se pelas suas aces
digno d'ella. Ora hoje, meu tio, que o mundo est quasi todo descoberto
e em que j passaram de moda as conquistas dos mouros e as guerras com
os castelhanos, que melhor pde cumprir-se esse dever do que o faz
Jorge, luctando nobremente para resgatar a sua casa e dando um grande e
salutar exemplo, que oxal que fosse seguido? Elle sim,  quem continua
as gloriosas tradies dos seus avs, e olhe que no ser menos util 
ptria do que elles foram. Mas ha um estimulo necessario para manter
n'elle aquella actividade. Elle proprio illude-se, julgando que pde
prescindir d'esse estimulo. No pde. Esse esforo ha de sacrifical-o.
Agora veja o tio, em respeito a quem  smente feito o sacrificio, se
no sentir remorsos um dia por havl-o consentido.

D. Luiz parecia pouco satisfeito com a discusso, que o collocava entre
duas foras que igualmente o opprimiam.

--A minha vida  de sacrificios;  destino. Devo estar preparado para
aceital-os com resignao.

--Resignao nada christ; porque Deus no quer que nos resignemos com
os males que podemos evitar, e muito menos quando  uma paixo ruim que
os prepara.

--Uma paixo ruim!--exclamou o fidalgo mais exaltado--at que ponto a
traz cega a corrente das ideias modernas, que j chama paixo ruim ao
respeito que devemos ao esplendor das nossas casas?

--E que perderia esse esplendor com a alliana de Bertha? No  ella uma
rapariga de sentimentos nobres, cheia de virtudes e de excellentes
qualidades? N'essas familias que manteem o esplendor que diz, conta
muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois, meu tio, deixe-me
dizer-lhe: ns precisamos de misturar sangue novo ao nosso, seno
morremos asphyxiados n'estes ares modernos.  verdade isto, as famlias
que escrupulisam em no caldearem o sangue antigo que trazem nas veias,
do de si uns descendentes quasi sempre parvos e pcos, por isso mesmo
que sahem organisados para viverem ern uma sociedade talhada por moldes
que j se no usam, e no sabem viver na actual.

D. Luiz no podia ainda habituar-se a ouvir taes doutrinas
irreverentemente expostas por uma das representantes d'essas vetustas
familias.

Era provavel que as phrases incisivas da baroneza lhe provocassem uma
resposta apaixonada, se uma inesperada occorrencia o no viesse
distrahir.

Frei Januario, que ficra, como dissemos, occulto pelo cortinado do
leito e desapercebido tanto da baroneza como de D. Luiz, ouvira com
surpreza crescente o dialogo que temos descripto. Para elle eram ainda
novidade os amores de Jorge e Bertha, porque D. Luiz j no fazia do
padre o confidente dos seus segredos.

Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os
commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e
subversivas que sustentra contra o fidalgo.

Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais
esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas
doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por
certo o faria de novo entrar nas suas boas graas.

Portanto, n'estas alturas da discusso, levantou-se do canto em que
estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que
conservra entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do
leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:

--Perdoe-me v. exc., snr. D. Gabrielia, mas eu no posso deixar de
manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.

--Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me
lembrava--disse Gabriella sorrindo.

D. Luiz franziu o sobrolho, como quem no agradecia ao padre a
interveno.

--Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora--respondeu o padre
em tom de censura--e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Alm de que
eu j estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.

--Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que
me no lembrava da sua presena ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias
no merecem a sua approvao.

--De certo que no--tornou o padre.--O snr. D. Luiz tem razo. A nobreza
 a nobreza; e mal de ns se ella se esquecia dos seus deveres e assim
se misturava s classes infimas.

--Ento que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?--perguntou a
baroneza, rindo.

--A mim?

--Ento no disse: mal de ns?

--Sim, mal de ns todos, porque a sociedade precisa d'estas distinces;
seno, no ha ordem, no ha governo, tudo  anarchia e republica.

--Leu isso no evangelho?

-- o que a experiencia me tem mostrado.

--Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve  experiencia o snr. frei
Januario!

--Porm devras, minha senhora, v. exc. podia aconselhar seriamente ao
snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado no, que at
j com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas
emfim do representante, o filho mais velho de s. exc. ... o casamento
d'elle com quem? Com a filha do Thom da Povoa! Um homem, senhores, que
eu conheci criado d'esta casa! v. exc. no fallava a serio ha pouco. 
impossivel.

--Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.

-- minha senhora, por quem ! Lembre-se v. exc. da familia a que
pertence, do nome que tem e ver que se ha de envergonhar da lembrana.
Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thom! Era o que me faltava
vr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora,
mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre
ouvi dizer que o que o bero d a tumba leva, e que o p de tamanca foge
sempre para a tamanca. Havia de ter graa ouvir o snr. D. Luiz chamar
filha  rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em
tal no podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem v
v. exc. que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz no tem s a
consultar a sua vontade. L est a mais familia. Que diriam os snrs.
Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs.
Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza
por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento
monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a
fidalguia do reino! V. exc. de certo no pensou nisto. Demais...

O padre no pde proseguir na sua animada refutao.

Interrompeu-o D. Luiz.

Dera-se com o fidalgo um phenomeno no calculado pela experiencia do
padre, ainda que natural ao espirito humano.

Sentindo-se apoiado na defeza das suas ideias por um alliado
antipathico--porque o era para o fidalgo desde certo tempo, o seu
ex-procurador--teve logo um desejo vehemente de recusar o auxilio e
quasi o de esposar a causa opposta s para o castigar da impertinencia.

Alm d'isso frei Januario levou a defeza mais longe do que devia. A
maneira por que fallou de Bertha e da dependencia em que estava o
fidalgo da opinio da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luiz, que
por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu dizendo:

--Cale-se, frei Januario, cale-se! Que est para ahi a dizer? Cuida que
eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar os
de Ribeira-formosa, os do Choupello ou os do Cruzeiro, ou de qualquer
d'essa parentela que tenho por essa provincia adiante? Era o que me
faltava! Do que convem ou no convem  dignidade do meu nome, sou eu o
juiz, e no admitto ingerencias alheias. Actos que deslustram e
envergonham tem-n'os elles feito que farte, e eu nunca lhes fui pedir
satisfaes por isso.

--Eu queria dizer...--acudiu o padre, intimidado pela irritao em que
via o fidalgo.

Este interrompeu-o outra vez:

--Ora no diga nada, que  melhor. Com que olhos veriam as damas este
casamento!  boa! Com os mesmos olhos com que tem visto muita miseria e
muita vergonha que vae por casa dos seus. Os olhos deviam ellas
empregal-os em Bertha, mas era para aprender d'ella o que  dignidade,
nobreza de sentimentos e verdadeira educao. Como est ahi a dizer o
frei Januario que Bertha ha de mostrar a final a origem d'onde vem?
Bertha ha de mostrar que  filha de um homem honrado e de uma mulher
virtuosa. Se  isso que quer dizer, tem razo. E oxal que todas as
nossas damas podessem dizer o mesmo de si. Fique sabendo que no seria
ella que occupasse mal o seu logar na Casa Mourisca. Fique sabendo isto.
O quarto de minha filha a poucas o franquearia eu com melhor vontade do
que a ella, que parece resuscitar-m'a. Para ser nobre no basta ser do
Cruzeiro ou de Ribeira-formosa. O Cruzeiro  um ninho de bebedos e a
Ribeira-formosa uma gaiola de parvos. A ter de escolher entre essa gente
sem dignidade e aquella que de origem obscura lhe d todos os dias
lies de deveres, de certo que no hesitaria, nem iria entre a primeira
procurar noiva para meu filho. Como se formaram as familias nobres? So
todas da mesma poca?  claro que no. Houve tempo em que umas j eram
nobres e outras no o eram; mas por um feito illustre e verdadeiramente
nobre um homem obscuro d'estas ultimas mereceu que as primeiras o
chamassem a seu gremio, partilhando com elle o dom que j possuiam. Pois
bem, tambem ns hoje podemos fazer o mesmo que n'esses antigos tempos se
fazia, e chamar a ns os espiritos fidalgos, que os ha fra do nosso
gremio; e assim podessemos tambm expulsar d'elle os espiritos plebeus
que por c temos!

D. Luiz, levado pela fora da reaco, ia mais longe do que quizera. Por
pouco estava advogando ideias manifestamente democraticas. O padre
estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A propria
Gabriella no esperava ouvir expender taes ideias a seu tio. Ainda que
percebesse que a irritao que dominava o doente fosse a principal causa
inspiradora n'aquella defeza acalorada, ainda assim lhe dava
importancia. As ultimas palavras de D. Luiz, e especie de raciocinio com
que pretendra justificar a possibilidade de allianas desiguaes,
realisadas certas circumstandas, davam-lhe a entender que elle j
comsigo proprio previra a eventualidade e procurra argumentos que por
ventura a justificassem.

Gabriella viu n'esta descoberta um optimo indicio e percebeu a
conveniencia de deixar o espirito do tio sob aquella ordem de impresses
e entregue ao movimento proprio que a interveno do padre inicira.

Por isso, sob o pretexto de que a discusso fatigra em extremo o doente
e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no principio a rplica
do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir o doente.

Ao sahir dizia ella, tomando o brao do capello:

--Depois de se lanar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em
repouso levedar. Quando era criana via fazer isto em minha casa, sempre
que se cozia o po.

O padre no entendeu o alcance da parabola. Sahiu d'alli desnorteado com
o que via n'aquella casa, que elle suppunha eivada do veneno da
maonaria, unica maneira por que explicava as irregularidades que via.

Gabriella sahiu no intento de encaminhar a crise em um sentido
favoravel.




XXXVII


Mauricio veio ao encontro da baroneza assim que esta sahiu do quarto de
D. Luiz.

--Como deixaste meu pae?--perguntou elle.

--Mal e bem.

--Que queres dizer com isso?

--Mal, porque me inquieta o abatimento em que o vejo. N'aquella
idade!... Bem, porque o acho em excellentes disposies de se lhe
applicar um remedio heroico.

--Qual?

--Queres principiar hoje a tua carreira diplomatica?

--De que maneira?

--Vaes j d'aqui a casa do Thom da Povoa.

--Sim, e depois?

-- uma visita que lhe deves, visto que no te lembraste de lhe dar
parte do nosso casamento.

-- verdade que no.

--Vae pois visitar Thm. Repara que nem sequer me lembro de ter ciumes
de Bertha.

-- uma prova de confiana, que te mereo.

--Sim? Mereces? Diz-te isso a consciencia? Bom ser. Vamos adiante. Em
casa de Thom contas qual o estado de teu pae. Fazes sentir a
necessidade de que Bertha volte para aqui, ou para o reanimar, do que s
ella  capaz n'este mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe os ultimos
momentos e despedir-se d'elle.  provavel que encontres objeces em
Thom, mas insiste; dize que teu pae se mostra magoado com a ausencia de
Bertha, e que  um peccado imperdoavel prolongar-lhe essa dr to facil
de remediar. Finalmente no voltes sem ter resolvido Bertha a vir hoje
mesmo para aqui.

--E quaes so os teus projectos?

--Ora quaes ho de ser? So casar Bertha com Jorge. Est claro.

--Has de encontrar dificuldades.

--J me pareceram maiores. O padre fez nos, sem querer, um grande
servio. Metteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia, que por
pouco fazia de teu pae um democrata.

--Devras?

-- verdade. Agora quatro caricias de Bertha devem consummar a victoria.
Vosss os homens levam-se por isso.

--Parece-te?

--Veremos se me engano.

Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu
para casa de Thom, onde foi recebido com caloroso affecto.

Expondo o principal fim da sua visita, no encontrou grande opposio em
Thom contra o regresso da filha para os Bacellos. Elle proprio
prometteu leval-a.

Efectivamente horas depois, Bertha era de novo conduzida pela baroneza
para junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquelle tempo continura
a manifestar signaes da mais profunda depresso de foras.

D. Luiz dormitava quando Bertha se lhe aproximou do leito. A rapariga
correu cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do ancio.
Commoveu-a o aspecto de abatimento que crescra n'elle desde que Bertha
o deixra. D. Luiz tinha o somno agitado por sonhos febricitantes, e
sonhando, soltava gemidos surdos, palavras mal articuladas, estremecia e
suava como sob a influencia de uma afflictiva impresso.

Bertha veio encontral-o em um d'estes estados e curvou-se compadecida
para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.

O doente acordou ento e fitou os olhos n'ella.

Immediatamente lhe distendeu as feies contrahidas um sorriso de
alegria.

Por algum tempo no fallou, como se estivesse duvidando da realidade do
que via e suspeitando-a de ser a continuao de um sonho.

Foi Bertha a primeira que fallou.

--Est melhor?--interrogou ella, sorrindo.

O tom d'aquella voz e a particular inflexo da pergunta, com que j
estavam familiarisados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de
que no dormia.

Estendendo para a afilhada a mo magra e ardente, murmurou profundamente
commovido:

--Ento sempre voltaste?

--Como me disseram que tinha passado mais inquieto estes ultimos dias...

--Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.

--Quem falla aqui em morrer? Agora que o inverno passou e que este tempo
est a dar vida a tudo  que o padrinho se lembra d'isso? Pois veremos.
Dentro de poucos dias  preciso continuarmos aquelles nossos passeios na
quinta.

D. Luiz sorriu tristemente e fechou os olhos como para reter uma
lagrima, que, apesar d'isso, lhe passou por entre as palpebras e lhe
rolou vagarosa pelas faces descarnadas.

Bertha murmurou ao ouvido do velho:

--Chore  vontade, que estou eu s aqui. Chore, que lhe faz bem.

Como se a densa tristeza que pesava sobre o corao d'aquelle homem s
esperasse aquellas palavras para se fundir em lagrimas, o pranto
inundou-lhe o rosto, que elle quasi escondeu no seio de Bertha.

Aquella expanso foi-lhe salutar. O somno seguinte foi mais tranquillo e
menos cortado por sonhos fatigadores. Comtudo o estado do doente era
ainda muito grave, e na aldeia e immediaes corria j voz do proximo
fallecimento do fidalgo da Casa Mourisca.

A parentela das visinhanas a cada momento vinha ou mandava aos Bacellos
saber novas do fidalgo. Thom da Povoa passava alli a maior parte do seu
tempo; a propria Anna do Vdor viera offerecer os seus servios 
familia, e raras vezes se desviava da casa.

Bertha continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a
esperana de o vr sahir victorioso d'aquella tremenda crise.

Ninguem a desviava d'alli. Retinha-a a vontade propria assim como a do
doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.

A baroneza no s no insistia para que Bertha cedesse a outrem o campo,
mas nem deixava que alguem insistisse. Dizia ella que a juventude de
Bertha podia bem com aquelle sacrificio, e que era provavel que Deus no
deixasse sem recompensa a caridade.

Durante tres dias a familia reunida nos Bacellos passava o tempo, por
assim dizer, na espectativa do triste acontecimento que se preparava.

Jorge interrompeu os seus trabalhos, Mauricio nunca sahia de casa, e a
baroneza passeiava constantemente entre a sala, onde quasi sempre
permaneciam os dois irmos, s vezes na companhia de Thom, e o quarto
do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa alm de Bertha.

Uma noite, D. Luiz, depois d'aquelles tres dias de febre e quasi de
delirio, conseguira adormecer de um somno mais tranquillo e reparador.
No foram os sonhos incoherentes, absurdos e fatigadores que o
atormentaram d'esta vez; mas um sonhar grato, sem vises febris, e
durante o qual a imagem da filha por vezes lhe appareceu sorrindo-lhe e
fallando-lhe com o carinho de que elle ainda se recordava com a mais
pungente saudade do seu corao. Esta imagem transformava-se-lhe s
vezes por insensivel transio na imagem de Bertha, e to similhantes,
to confundidas lhe appareciam, que elle nem sabia ao acordar com qual
das duas sonhra. Umas vezes era a filha que lhe fallava com a voz e sob
a figura de Bertha; outras Bertha revestindo a imagem de Beatriz.

Despertou d'este somno por alta e calada noite. No aposento era completo
o silencio. Interrompia-o smente o bater cadenciado da pendula do
corredor. A tenue claridade de uma pequena lampada alumiava a scena.

D. Luiz depois de acordado tentou avivar as gratas impresses que lhe
deixra o sonho.

Pensou na filha e no passado; nas tristezas presentes, nas venturas
perdidas e nas desgraas por vir.

quella hora da noite, na solido e repouso da camara de um doente o
espirito ergue-se superior  habitual esphera onde ordinariamente pra e
contempla com a vista de aguia as suas paixes e preconceitos; v-os
fluctuar como nuvens nas regies inferiores.  n'esses momentos que a
consciencia nos julga; a parte mais etherea do nosso ser parece ento
erguer-se lucida como nunca e contemplar compadecida os maus instinctos,
as prevenes arreigadas, os falsos preconceitos que no tracto commum da
vida em to viciosas direces nos solicitam.

Emquanto o mundo dorme, dormem com elle no nosso corao as paixes que
o mundo alimenta.

N'aquelle momento D. Luiz no era o mesmo homem moral que conhecemos.
Luzia-lhe a verdade resplandecente  sua imaginao fascinada.

No meio da corrente dos seus pensamentos distrahiu-o um quasi
imperceptivel respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.

Era Bertha que, cedendo s fadigas de to continuadas vigilias,
adormecra junto do leito do doente.

D. Luiz ficou a contemplal-a assim.

A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce
expresso da serenidade de espirito.

Pendia-lhe a cabea sobre as travesseiras do leito e uma madeixa de
cabello soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por
entre os dedos que a sustinham.

D. Luiz ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquella
figura angelica de mulher, adormecida ao seu lado.

Traduziam as feies do velho o extasi, em que o arrebatra aquella
contemplao. Parecia-lhe uma viso sobrenatural. Com movimentos
cautelosos para no a acordar, encostou os braos s almofadas da cama e
apoiando a cabea entre as mos, assim permaneceu immovel, abstracto,
com os olhos fitos em Bertha e o espirito subindo s regies mais limpas
dos espessos nevoeiros do mundo.

Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle
velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um
quasi rapto de adorao. quella hora, no meio d'aquelle silencio,
alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e
imponente.

Horas talvez durou aquella contemplao silenciosa.

De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expresso de energia e
firmeza que a doena e a preoccupao de espirito havia muito lhe tinham
dissipado.

Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza
a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:

--Por que s tu que vlas a meu lado? Que laos te prendem a mim? Porque
dedicas a este velho a tua juventude?... E no se recompensa esta
abnegao? Pagam-te sacrificando-te aos seus... preconceitos.

E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:

--Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irm; havia de querer-te junto de
si, no seu quarto. E eu... porque no hei de chamar-te filha?...

No disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da
rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.

Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de
sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.

 interrogao que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitao em
que o via, D. Luiz no respondeu logo; porm, momentos depois, olhou
para a afilhada com uma expresso singular, pegou-lhe nas mos,
apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoo:

--Bertha, vae chamar Jorge. Que me venha fallar. Preciso de conversar
com elle quanto antes.

Bertha sahiu do quarto com os olhos arrasados de agua.

Aquellas palavras tinham para ella uma dolorosa significao.

D. Luiz que mandava chamar o filho mais velho, o directo successor do
seu nome e da sua casa, era por que um d'aquelles presentimentos, que
nos advertem da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter
chegado a occasio de despedir-se do filho e de dar-lhe os derradeiros
conselhos de pae.

Todos nos Bacellos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se
precipitadamente do leito, assim que soube que o pae lhe queria fallar.

A nova espalhou-se em toda a casa e pz todos em alvoroo. Em breve
transpirou fra que o fidalgo da Casa Mourisca j se despedira dos
filhos, e que em poucas horas seria com Deus.

 casa de Thom e da Anna do Vdor chegou a noticia e trouxe at os
Bacellos esses antigos commensaes da familia, cujo representante actual
chegava  hora mais solemne da vida. A boa Luiza acompanhou o marido no
intento de oferecer os seus servios n'aquelles momentos de dr e
confuso.

Jorge entrou commovido e pallido no quarto do pae, onde ninguem mais o
seguiu.

O pobre rapaz ia preparado para uma scena dilacerante; esperava assistir
 agonia do velho.

Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.

D. Luiz percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz debil mas firme:

--s tu, Jorge?

--Sou eu, meu pae.

--Chega-te mais para aqui. Assim.

E fitando o filho com o olhar ainda cheio de expresso e vida, continuou
depois de um demorado silencio:

--Jorge, tu no s feliz.

Jorge olhou para o pae, espantado pela inesperada observao que lhe
ouvia.

--Tens uma nobre alma, tomaste sobre os hombros uma pesada tarefa,
dedicaste ao cumprimento d'ella a tua vida inteira, e como se isso no
fosse bastante, sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes affectos.
Jorge, no ser o sacrificio superior s tuas foras?

Jorge baixou a cabea sem responder.

A estranheza causada pelas palavras do pae, to differentes das que
esperava, perturbara-o a ponto de no saber o que dissesse.

--Falla, Jorge--proseguiu o velho.--V, nunca viste em mim um
confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas
expanses de criana; mas a doena quebrou-me e hoje posso escutar-te.
Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, no  verdade?

--Meu pae--dizia Jorge cada vez mais embaraado.

--Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no corao e que disputou o
teu pensamento aos projectos de rehabilitao que emprehendeste para
salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da
tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o
sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vres apenas
n'elles meros preconceitos de classe.

--Creia, meu pae, que respeito as suas opinies e que...

--Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de
um verdadeiro fidalgo e desde ento creio devras que a regenerao da
nossa casa, emprehendida por um homem como tu, no pde deixar de
realisar-se. Vou sem este pso para a sepultura. Os meus erros
ser-me-ho relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitars a
minha memoria. Jorge, o meu corao no tem j a dureza de outros
tempos, males de toda a especie acabaram de vencl-o; agora  um corao
de homem. Por isso me  intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu
participasses dos meus... preconceitos, era justo que lhes sacrificasses
todos os affectos; sentirias na satisfao interior a compensao do
sacrificio. Mas sacrificares-te s por meu respeito, sem teres a mesma
f no objecto a que te sacrificas... n'isso no posso eu consentir.
Reunirei as minhas foras para subjugar alguns restos de vaidade que se
revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua
felicidade, dizendo-te: Podes ser feliz, Jorge. Alm de que, tu s
nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao corao e
ficares nobre ainda.

Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido
pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de
transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que
este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada
serenidade:

--Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu
pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo
dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu no discuto a legitimidade
das suas opinies, respeito-as; e a satisfao intima que me vir da
consciencia de as ter respeitado, ser tambem para mim uma poderosa
compensao.

--E a ella? Quem a compensar?--perguntou D. Luiz, com inflexo de dor.

--A ella?  de Bertha que falla? Se eu no soubesse que aquella alma
nobre e forte est  altura do sacrificio, talvez me fallecesse a
coragem para tental-o.

-- uma nobre alma devras--tornou D. Luiz, como fallando para si.--E
quem a apreciar? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das
regies para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E
tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio?
No  certo que a tua saude j se tem resentido do esforo que fazes? V
bem, Jorge! Na tua idade os affectos so mais violentos do que na minha.
E comtudo eu proprio quero j tanto a essa rapariga, que sinto que estes
restos de vida que ainda possuo devo-os  sua presena. O que no ser
comtigo?

Jorge nunca previra a situao em que se achava. Havia imaginado a
possibilidade de ser levado pela fora da sua paixo a uma lucta aberta
com os preconceitos paternos, e esforara-se por evitar essa temerosa
crise.

Esta era a menos provavel hypothese que antevira. Mas que fosse o pae
quem advogasse a causa do seu corao de rapaz contra as inflexiveis
exigencias da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o podra suppr,
pois que no tinha seguido passo a passo as transformaes que haviam
operado no caracter varonil d'aquelle velho a aco combinada da doena
e dos carinhos de Bertha.

Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao corao
e s insinuaes do pae, se resistir em nome do dever, que elle chegra
a convencer-se oppr-se  satisfao dos seus ardentes votos.

Na hesitao do filho, D. Luiz julgou perceber que o orgulho
aristocratico penetrra j n'aquelle corao de vinte annos, e elle que
sabia por si as resistencias que esse orgulho gerava, assustou-se com a
apprehenso de ficar vencido pela obstinao do filho.

Assustou-se, dizemos, porque o espirito do fidalgo estava completamente
subjugado. O egoismo da sua idade no podia j passar sem os carinhos de
filha. No queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixo do
filho que apparentemente explicasse a transigencia.

Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas j no tinha fortaleza para
resistir. Anciava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto. Vendo-o
vacillar, tremeu j de encontrar um obstaculo insuperavel.

Jorge pela sua parte era victima de um quasi estonteamento, que no lhe
deixava ainda vr claro. To costumado estava a acreditar que
invenciveis resistencias se erguiam contra a mais ardente aspirao de
sua alma, que ao vl-as removidas de subito, olhava em volta de si como
aguardando que surgissem outras em seu logar, e sem poder crr que a
felicidade viesse collocar-se-lhe ao alcance da mo.

D. Luiz insistiu:

--No, Jorge, no aceito o teu sacrificio. Estou para despir as vaidades
do mundo. Na outra vida, onde os primeiros so os ultimos, no me
perseguiro estas paixes mundanas.

--A ter um de ns de luctar com uma paixo, para condescender com a do
outro, compete-me fazl-o. Na minha idade  mais fcil tentar estas
luctas com exito.

D. Luiz a custo reprimiu a sua impaciencia.

--E ella? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez no tenha
a fora de alma que tu tens.

--Seria para Bertha peior tormento magoal-o, meu pae. Sei-o da bca
d'ella. Nunca aceitaria o seu sacrificio.

D. Luiz fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espirito;
depois disse quasi a medo:

--Sacrificio! Maior sacrificio seria o meu se renunciasse a tl-a junto
de mim e a chamar-lhe filha. No sei mesmo se para tanto me restam ainda
foras. Eu j no sou o homem forte que fui, Jorge. Quasi mereo
compaixo.

Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma subita
claridade no seu espirito.

--Que quer dizer, meu pae? Pois no  por meu respeito que insiste...

--Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem,
confessarei. Fazendo a tua felicidade, fars tambm a minha. O logar de
tua irm s pde ser occupado por Bertha. Outra qualquer profanal-o-ia.

Jorge d'esta vez no o deixou concluir. Cedendo  paixo que emfim se
expandia, pegou nas mos descarnadas do pae e levando-as calorosamente
aos labios, exclamou:

--Oh! obrigado, meu pae.  Deus que o inspira;  o espirito de minha
irm que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte e
creio, creio deveras na felicidade. Triumpho! Obrigado, obrigado.

E beijando-lhe mais uma vez a mo, correu para a porta chamando Bertha.

Toda a familia e os amigos que tinham vindo para os Bacellos, ao saberem
do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala immediata, aguardando
anciosos o termo da conferencia entre o pae e o filho e por ventura o
triste desenlace que havia muito se esperava.

Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realisado
emfim o acontecimento que se receiava, e correram para a porta.

Jorge, quasi desorientado, foi ao encontro de Bertha, e conduzindo-a 
cabeceira do leito do doente, disse suffocado de contentamento:

--Bertha, o nosso sacrificio  inutil. Meu pae no o aceita, e prefere
vr-nos felizes. Ajoelha ao lado d'elle e beija a mo de teu pae.

Bertha obedeceu banhada em lagrimas de commoo.

A baroneza no reprimiu uma exclamao de alegria e de triumpho.

Mauricio correu a abraar Jorge.

A Anna do Vdor quasi levantou ao ar a boa Luiza, que temia acreditar no
que julgra entender nas palavras de Jorge.

Smente Thom da Povoa ficou immovel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a
filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por elle, um claro de
alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as
lagrimas. Mas este relampago dissipou-se cedo e carregou-se-lhe o
semblante de tristeza.

Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para elle,
estendendo-lhe os braos, Thom afastou-o brandamente de si,
dizendo-lhe:

--Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quasi
chorar, que  sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor ser.
Isto no pde ser.

Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguem esperra que a
resistencia se levantasse d'alli. Anna do Vdor resmungou:

--Temol-a travada!

--Valha-nos Deus!--gemeu Luiza.

Bertha fitou no pae os olhos ainda lacrimosos.

A fronte de D. Luiz contrahiu-se de novo.

--Que quer dizer com essas palavras, Thom?--perguntou Jorge, emquanto
que Mauricio e a baroneza secundaram a pergunta com um olhar
interrogador.

--Ha brios a que se no pde faltar--insistiu Thom--ainda quando se nos
despedace o corao e o dos filhos. Que se diria de mim? Como
explicariam por ahi o meu proceder n'esta casa? Que pensaria alli o snr.
D. Luiz, que j uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter
ambies indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, snr. Jorge,
mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas affeies para no
termos desgostos maiores.

--Que desgostos pde receiar, Thom, quando eu lhe peo que me conceda a
mo de Bertha?

--O snr. Jorge falla cego pela affeio que sente e  ella que no o
deixa vr o que eu vejo.

--No seja obstinado, Thom--disse a baroneza.--Bem v que d'onde era
mais de esperar a resistencia, j ella cahiu.

--V. exc. no fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr. baroneza,
n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de
tenes que nunca tive, e desesperado por no poder justificar-me,
porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que no
posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razo a quem
me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel...

D. Luiz atalhou, dizendo:

--Protestou o Thom da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge
dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da
recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o no recusar seria
necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico,
segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposio a essa
alliana, pedisse a elle, Thom da Povoa, como favor, esse
consentimento.

Thom fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio
e para Jorge como perguntando-lhes se a to solemne protesto era
possivel faltar.

--Pois bem--continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando
os olhos  imitao de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja
vista o faz recuar.--Pois bem, sou eu quem peo a Thom da Povoa... como
favor... que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.

E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma
vermelhido intensa.

Thom fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a
revelao do esforo gigante que elle fizera para conseguir pronunciar
to nobres e generosas palavras.

No estava no animo de Thom resistir mais tempo.

Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mo,
exclamou, cortada a voz pelos soluos:

--Snr. D. Luiz, v. exc. venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho no
d para mais. Bertha, s feliz...

O pranto no o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluando sobre as
mos do fidalgo.

No faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena.

Passada esta exploso de sentimento, Jorge, tomando a mo de Bertha,
disse para Thom:

--Aceito a felicidade que me offerece, Thom, e prometto ser digno da
esposa que me confia. Mas  minha propria felicidade sou obrigado a
impr condies, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa
casa no est ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo
pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a
administrao entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho
devo principalmente este resultado. O meu orgulho porm, visto que todos
aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu s por mim realise
esta obra que emprehendi, que  fora do meu trabalho satisfaa os
compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebl-a em
minha casa, e que se no diga que foi ella quem me abriu as portas
fechadas pela miseria. Por isso esperarei at ento para realisar a
minha felicidade.

--Muito bem, Jorge!--exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de
alegria.

-- justo--concordou Thom.--Comprehendo esse desejo da sua parte, e
nada tenho a dizer contra.

--Mais ainda--proseguiu Jorge--posso aceitar a esposa que me oferece, e
orgulhar-me d'ella e da alliana com a sua familia, que  honrada e
generosa, mas uma coisa ha que no posso aceitar sem humilhao.  a
parte que pertencer a Bertna da herana paterna. No quero que se diga
que eu restaurei a minha casa  custa da sua. At aqui ainda chegam os
meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o.

--Bem, Jorge, muito bem!--bradou o fidalgo--quem pensa d'essa maneira e
assim procede, pde transmittir a sua nobreza, mas no a perde.

--Eu porm  que no posso desherdar minha filha. Essa condio 
impossvel--disse Thom friamente.

--A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmos--disse
timidamente Bertha.

--Teus irmos no precisam da tua desistencia, Bertha.

--Thom--insistiu Jorge--sabe que o meu constante pensamento  manter ao
nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na
provincia; no queira annullar os esforos que emprego para o conseguir.

--E quer que eu lhe sacrifique a minha reputao? Que se dir de mim?

A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de
sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio
dizendo:

--As clausulas do contracto so uma circumstancia secundaria e que s na
presena de um tabellio se regulam. Eu por mim no posso aturar taes
discusses, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza
de namorado! Deixemos isso tudo para depois.

--Diz bem v. exc.--apoiou a Anna do Vdor--o tudo  que elles casem, e
depois os homens que deslindem l esse negocio do dinheiro como
quizerem. Mas sempre lhes digo que oiam um advogado para no fazerem
tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo  que sempre a deu em cheio! Sim
senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer... Mas bom foi e
ver como at nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemec, Luiza, que
diz a isto? Ande l, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe
disse, mulher: cara alegre e confiana n'aquelle que est l em cima. E
aqui para ns, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga?
Apesar de me engeitares o Clemente, olha que no te quero mal. No
quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thom
ainda com o nariz torcido!  homem de Deus, voss que mais quer? Sempre
a gente! louvado seja Deus!

Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo:

--J que vae correndo a roda, venha l a minha rao.

--Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces
mais aquella? Olha agora! O que me admira  que houvesse quem te
quizesse. Perdoe-me a senhora, mas no lhe gabo o gosto. A seu tempo
conhecer a joia. L aquillo  outro barro.

E apontava para Jorge.

Todos riram das francas observaes da desenganada matrona.

E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thom, e Mauricio e
a baroneza com Luiza e Anna do Vdor, assomou  porta a cabea de frei
Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do
fidalgo.

--Ha alguma novidade?--perguntou elle inquieto.

Foi a Anna do Vdor quem lhe respondeu:

--Ha, sim senhor. E pde j preparar-se, porque no lhe faltar que
fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu?

O padre olhou espantado para os circumstantes.

--Qu? Pois ento?...

--Esto vencidos os obstaculos--respondeu a baroneza  incompleta
pergunta.

--Ah!--observou apenas o padre.

E pensava comsigo:

--Digam l que no anda n'isto a maonaria!

O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu
mais algumas esperanas aos que o rodeavam.

No havia alli corao que no encerrasse um fermento de felicidade.




CONCLUSO


No se fez esperar muito o casamento ajustado  cabeceira do leito do
fidalgo da Casa Mourisca.

Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava
sobre a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembaraado na empreza a
que dedicara a juventude.

Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo 
administrao das outras, sem compensarem os sacrificios que exigiam,
acabando de desonerar de oppressivas hypothecas as que ainda definhavam
sob ellas, e entrando em uma via methodica e segura de melhoramentos,
habilitou-se em breve tempo a contrahir um emprestimo valioso no credito
predial, amortisavel em poucos annos; e com o capital obtido em to
favoraveis condies e prudentemente administrado tinha quasi certa para
no longinquo futuro a completa realisao do seu constante e generoso
pensamento.

O ennegrecido e triste solar da Casa Mourisca remoou no dia em que o
moo proprietario d'elle pde remir a sua ultima divida a particulares.
Esta foi a de Thom da Povoa.

O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janellas da
velha Casa Mourisca, limparem-se das hervas parasitas as longas avenidas
da quinta, erguerem-se do cho as estatuas derrubadas, jorrarem como em
outros tempos as aguas dos encanamentos desobstruidos, coroarem-se de
ameias as torres mutiladas, dourarem-se as columnas de talha da capella
do palacio, e ao vr isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes
para aquella familia, sobre a qual pesara o jugo do infortunio.

Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta
restaurao.

Admirava-se e applaudia-se a energia e a sensatez do moo, que emendra
o desvario dos seus antecessores, commentavam-se os actos da sua vida de
rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu caracter varonil, e a pouco e
pouco o espirito da lenda tomou posse d'esta individualidade e deu-lhe o
prestigioso colorido que assegura a immortalidade na tradio popular.

Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a divida do Thom, D. Luiz, a
quem os assiduos cuidados de Bertha tinham feito vencer a molestia que o
prostrra, voltou ao seu solar com solemnidade correspondente quella
com que o deixra. Os instinctos dramaticos do seu caracter de fidalgo
assim o exigiam.

Ao regressar  casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-a sob
o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luiz commoveu-se
profundamente.

A numerosa cohorte de criados e jornaleiros que vieram recebl-o  porta
e saudal-o com enthusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as
tradies feudaes de pocas volvidas, saudosas sempre para seu corao.

Dias depois celebrava-se na capella da casa o casamento de Jorge e de
Bertha, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do
que de festa.

A baroneza e Mauricio vieram  aldeia para assistirem  solemnidade e
demoraram-se ainda algumas semanas n'ella.

A boa Luiza desfazia-se em lagrimas de jubilo. Thom da Povoa a custo
podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do corao. Os
esforos de Gabriella haviam conseguido que o contracto do casamento se
redigisse de modo que o pae e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias
concesses, no ficassem humilhados por elle.

A fidalguia da provincia torceu o nariz  alliana, e absteve-se de
tomar conhecimento do facto, que tambem lhe no foi participado.

Com a tacita censura d'essa parentela augmentou a irritao e despeito
de D. Luiz, e impellido a reagir, deu mais um passo no terreno dos
principios democraticos.

Os proprietarios, collegas de Thom, fizeram entre si algumas reflexes
a respeito da finura d'este, convencidos de que elle desde muito visra
a este resultado, e prophetisando-lhe um baronato futuro. Mas nem o
retrahimento da nobreza, nem as murmuraes dos lavradores perturbaram a
alegria das nupcias.

D. Luiz recebia ainda uma impresso desagradavel ao vr to perto de si
Thom e a boa Luiza; procurava porm minorar este desgosto contemplando
Bertha, que exercia sobre elle uma completa fascinao. Insistia sobre
tudo o fidalgo em que Bertha era uma rapariga de excepo, e que se
davam n'ella as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus
a honra de serem agremiados no seio da nobreza.

Frei Januario, vendo bem provida a dispensa e a cozinha da Casa
Mourisca, julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e
installou-se de novo no seu quarto, decidido a respeitar, conforme com
os modernos principios de diplomacia, os factos consummados.

E annos de paz preparavam-se para aquella casa.

Mauricio seguiu differente destino, em harmonia com as suas aspiraes e
instinctos.

No se sentindo com tendencias para agricultor, vendeu a Jorge a parte
dos bens ruraes que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher.

Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplomatica, como addido 
embaixada de Vienna, e sob os melhores auspicios do futuro progresso.

Gabriella no teve de arrepender-se do seu casamento. Se Mauricio no
era um modelo de maridos fieis, ella tinha a precisa philosophia para
desculpar-lhe as leviandades, e Mauricio intelligencia para apreciar a
generosidade e delicadeza da sua mulher, e adoral-a por isso e apesar de
tudo.

A vida agitada e as successivas commoes das capitaes a ambos
agradaram; por isso ambos eram felizes.

O contraste entre este viver e o de Jorge era completo.

Jorge era o verdadeiro proprietario rural, repartindo os seus cuidados
entre a cultura e administrao dos seus bens, e os affectos e direco
de sua familia. Abandonra pouco e pouco os habitos de fidalguia, em que
fra educado, e contrahiu outros puramente burguezes.

A sua iniciativa, esclarecida pela intelligencia e mantida por uma forte
energia de caracter, apontava um exemplo salutar aos proprietarios
visinhos, que j se animavam a seguil-o. Graas a este exemplo,
terminavam muitos prejuizos, esqueciam praticas rotineiras, que ainda
hoje tolhem o progresso  nossa agricultura, aventuravam-se innovaes
j abonadas pela experiencia de paizes mais cultos, e a que se oppem
entre ns a ignorancia e a timidez que nasce d'ella.

A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa lio para os
proprietarios ruraes, que, vivendo longe dos seus bens, consomem nos
desperdicios da crte as magras rendas que elles, longe da solicitude do
dono, lhes concedem; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e
definhar-se a propriedade nas mos de caseiros vidos, que no tendo o
futuro ligado a ella, a sacrificam ao bem do presente, que  o unico com
que podem contar.

Assim aprendessem n'essa lio tantos que deveriam seguil-a, e talvez
que a riqueza do paiz se desentranhasse do slo, onde ainda est
enclausurada, surgindo  luz para nos apresentar aos olhos de outras
naes dignas da nossa poca e do tracto de terra que occupamos na
Europa.

Pela sua parte, Jorge realisando na propriedade a encorporao do
capital, do trabalho e da intelligencia, e mostrando at que ponto essa
alliana  fecunda, podia bem dizer que havia cumprido a lenda da Casa
Mourisca. Fra elle quem desenterrra do solo o thesouro escondido.

Thom era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas.

Nada mais temos a dizer.

Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Anna do
Vdor ainda no vergou ao pso dos annos; que o filho d'esta mulher, o
bondoso Clemente, casou com uma vlida e laboriosa rapariga do campo,
que promette continuar o exemplo da sogra. Emquanto aos senhores do
Cruzeiro, continuam a ser cada vez mais viciosos, e a achar-se mais
embaraados em dividas e mais desprezados do povo.

Os fidalgos da Casa Mourisca so, pelo contrario, hoje respeitados,
graas  energia e  honestidade do caracter de Jorge.

O nome d'esta familia  dos que fica honrado na tradio pupular.


FIM






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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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