The Project Gutenberg EBook of A Filha do Cabinda, by Alfredo Campos

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Title: A Filha do Cabinda

Author: Alfredo Campos

Release Date: June 29, 2007 [EBook #21961]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***




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A filha do cabinda




PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.


ALFREDO CAMPOS




A FILHA DO CABIDA


ROMANCE ORIGINAL



PORTO EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR 119, Rua do Almada, 123 1873


A SEUS

ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS

JOS D'ALMEIDA CAMPOS

ANTNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA

e

JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS

OFFERECE

O auctor.


                                               Ex.^mos Tios e amigos.

A filha do cabinda  uma recordao singellissima de muitas, que
conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio
do Brazil.

Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai,
singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no
intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.

Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo,
nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira
pagina, como pequenissima significao da muita estima e da muita
gratido, que devo a cada um.

Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos,
mostrar-lhes, d'este modo, que no esqueo o muito que teem a haver dos
sentimentos do meu corao.

Acceitem, pois, a offerta, que  singella, e avaliem-na pela inteno e
no pelo que .

Sempre

                                           Sobrinho amigo e agradecido

                                                       Alfredo Campos.




A FILHA DO CABINDA






A FILHA DO CABINDA




I


A filha do cabinda  formosa como a viso d'um sonho celeste; meiga como
o canto do sabi, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a
virgem da innocencia.

O cabinda  negro, e negro de raa fina, mas  branca a sua filha, e
filha, porque o velho escravo quer muito  senhora moa, que elle
beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.

Rev-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeio o pobre negro, e tanto
a gravou na ideia, tanto a traz no corao, que chega at a esquecer-se
do trabalho, sujeitando-se s reprehenses do seu senhor, para,
insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que  to bondosa, to
meiga e to carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illuses,
d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva
sympathia, chega a julgar realmente sua filha.

E _filha do cabinda_ lhe chama elle.

O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; l tinha seus paes, a sua
companheira, os filhos e a sua familia.

Um dia, no sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que
comeou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum
tempo, entre as duas immensides, o mar e o co, sem sentir saudades da
sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam
alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus
companheiros para uma grande casa, onde os brancos comearam a disputar
o preo por que haviam de compral-os.

O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.

Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?

Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.

Tristissimo era o negocio da escravido!

Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os
separavam d'elle.

Teve, ento, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram,
ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.

Fizeram-lhe, porm, estancar as lagrimas angustiosas as ameaas d'um
aoite, e o Cabinda l partiu, sem esperanas de tornar a vr os filhos
queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle
adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava
com a sua venerao selvagem.

Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as
affeies mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de
ser estimado, quasi como pessoa de familia, e no como escravo e negro
que era.

Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos,
que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da cr do
abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das
fadas boas das vises nocturnas das mattas virgens.

A convivencia foi-o affeioando quella creancinha, que lhe sorria to
innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e,
brincando, o abraava carinhosamente pelas pernas.

O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia no sei que douras
n'alma, no sei que effluvios no corao, mas que deviam ser
gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de
tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um
sorriso de sincero e intimo jubilo.

E tomava-a no collo, sentava-se com ella  sombra das copadas
tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos,
entretecia-lhe coras de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma
especie de adorao sublime e concentrada, talvez com a recordao nos
filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa
Magdalena.

Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua me.

Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro
affeioado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para to
grande sde? o atomo em face da immensidade desfeita?

O negro, que era dedicado  sua senhora, tanto como  pequenina
Magdalena, esqueceu-se da sua condio de escravo, e arrojou-se, em um
impeto de dr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos
momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.

Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo
em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu
unico encanto n'este mundo.

Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle
edificio da sua ventura.

O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor
para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mos postas, junto ao leito da
enferma, chorando como creana.

--Anda c, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vl-o de
joelhos, alli, ao p d'ella. Anda c; vem vr como se vai para o co!...

--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.

--Ah! meu senhor! a me do escravo  um anjo, e o negro quer despedir-se
da sua senhora!

--Sahe, cabinda!

--Oh! no! no! supplicou este. O negro  escravo, mas o negro tem
corao!

E abraava a roupa do leito para abraar a moribunda, chorava como
doido, soluando em desespero e supplicando com ardor:

--A me do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a
chorarem saudades como o bemtevi do matto? No, no nos deixes, me
senhora!

--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas
pelas lagrimas; o cabinda chora, no trates mal o cabinda, que  nosso
amigo.

--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito  sua filhinha,
quer muito  sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e no
tem familia a quem a dar. , como a palmeira do morro, que no tem
coqueiro ao lado.

--O negro  bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peo muito
que fiques sendo a me da nossa Magdalena, no te esqueas tambem de que
o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.

--No esqueo, minha Beatriz! soluou Jorge.

--E elle no ha-de ser mais nosso escravo, no, papae?

--No, minha filha.

--Mas o cabinda, atalhou o negro, no quer deixar a casa do seu senhor,
no quer viver longe da sua filha.

--No, no nos has-de deixar, que ns somos todos teus amigos, acudiu a
creana, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da
consciencia:

--O negro tem a cr do urub, mas tem alma de pomba rola!

Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao
Creador.

Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no corao, as dres
da sua viuvez. O negro e Magdalena soluavam, abraados, a perda da
bondade da que tanto era me d'uma como anjo do outro.

Jorge conheceu, ento, at onde ia a dedicao do seu escravo, a
grandeza da alma do negro, e comeou a olhal-o, a tratal-o e a
querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um
ente, geralmente visto com desdem, com indifferena e at com desprezo.

O cabinda perdera a sua familia, de que to barbaramente o separaram,
mas havia ganho muito pela sua dedicao.

Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia
sempre:

--Agora no tem me,  filha do cabinda!




II


O Botafogo , sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio
de Janeiro.

As aguas do vasto Guanabra, que, levemente onduladas, beijam
constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam,
n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que  orlado,
em grande parte da circumferencia, de _chacaras_ magestosas, com
vistosos e immensos jardins, vegetao opulenta e luxuriante, e
explendidos e poeticos panoramas.

Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de caf em grande escala, e, ao
mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso
palacete, circumdado de lindissimos jardins.

Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa
narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio
de Janeiro.

O cabinda estava j entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre
dedicado.

Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as
aleas dos jardins, e em algum servio de Magdalena, sendo, de resto,
tractado com toda a estima e amisade.

Magdalena exercia a profisso da caridade, no cuidando seno de
dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua
adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas
aos desgraados e pobres.

Jorge dedicava-se aos seus negocios e  felicidade de sua filha, que
elle adorava muito, fanaticamente at.

A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma
belleza invejavel, aonde no entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem
uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.

Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita
alegria.

Dos ultimos, porm, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto,
sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.

O negro tambem no abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de
todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e
estimava como filha.

Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com
os seus raios ardentes, os cumes do Po d'Assucar, da Tijuca, do
Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que
vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.

Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flres e de
fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos
coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das
palmeiras.

O sabi trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem
mimosa d'uma jaboticbeira carregada de fructos, e o beija-flr
pequenino anda na sua peregrinao, voluvel sempre, e sempre rapido,
deixando beijos nas flres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas
flres symbolicas do maracuj, que veste as paredes e os caramancheis
dos jardins.

O co est sereno e limpido.

Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago,
coberto d'agua, que ce, em monotono murmurio, da bocca d'um trito de
marmore fino.

Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel
formado de tranas de cips e de maracujs, carregadas de flres e
fructos.

Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de
madeira e ferro, talhados de modo que dem ao corpo toda a possivel
commodidade.

A atmosphera tem a cr avermelhada dos raios do sol, que desce a
esconder-se no mar, e faz brilhar, com cres phantasticas, as azas, meio
diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as
goiabeiras, e d'estas para os ramos dos ps d'aras.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins;
andou s, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro
em canteiro, colhendo pequeninas flres, que ia juntando entre as
paginas d'um livro, mimosamente encadernado.

Depois, lanou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da
carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio,
volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes
jambeiros e ps de grumixama, em direco ao lago, que jazia no fundo da
chacara.

Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero,
uma adorao em que no entra um atomo de sentimentos menos dignos,
d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevao do espirito, a
bondade d'alma e a magnanimidade do corao.

Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e
aquelle rosto, to expressivamente angelico, estavam mostrando as flres
de ventura, em que se desataria o seu corao e a sua alma, para aquelle
que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.

Era magestosa no andar, elegante de frmas, e simples no vestir, mas
d'esta simplicidade, que d realce, que encanta, attre e enleva.

Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso,
desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande lao de
sda azul clara!

Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e
setinosos, formando apenas duas compridas tranas, que, cahindo-lhe
pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma  outra, ainda por um
lao azul pequenino!

As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem
mysteriosa, levantam vo com a approximao de Magdalena, que as segue
depois com a vista, at as perder de todo; mas as borboletas de cres
variadissimas, seguem-a contentes, como se j a conhecessem de ha muito,
e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que
desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.

E ella l vae vagarosa e muda, lanando, de quando em quando, um olhar
s flres, que leva prsas nas folhas do livro, talvez bem querido!

Chegou assim ao lago, debruou-se n'elle como procurando vr os
peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada  meza de
pedra, n'um dos bancos do caramanchel.

Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que
sentia dentro de si, e que ella mesma no podia comprehender.

Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.

Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando,
depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flres d'entre as folhas do
livro, collocou-as a um lado e pz-se a lr alto, com a sua voz meiga,
seductora e angelical.

Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!

E to prsa estava com as phrases, que ia repetindo, to scismadoramente
como se em verdade as sentisse; to distrahida estava de tudo, de todos
e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um
bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as
folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruava sobre o
lago.

Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu
ainda a quadra que acabra de recitar, e que dizia assim:

      Suspiras, alma, n'um anceio languido?
      Ninguem te affaga, perfumada flr?
      Ao sol as rosas da manh desdobram-se,
      E a brisa affaga-as com carinho e amor!

E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos,
cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.

Passados instantes, encostou a face  mo, como que cedendo ao pso d'um
somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o brao sobre a meza e o rosto
sobre o brao, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as
phrases do livro, que havia acabado de lr, e que, sem duvida, a
impressionaram ou lhe fallarm  alma.

As borboletas d'azas douradas, l andavam em volta d'ella, como que
embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.

O sol havia-se j escondido o bastante para deixar a terra envolta nas
sombras do crepusculo.

E a no serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no
lago pela bocca do trito, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde,
no retiro aonde repousava Magdalena.

De subito comeou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas
do cho, gemendo debaixo dos ps d'alguem, que se aproximava.

Quem seria?

As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das
arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.

Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.

Era o cabinda.

O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respirao, com
mdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um
sorriso de verdadeira alegria.

--Oh! exclamou elle baixinho,  ella, a filha do cabinda!

E foi, p ante p, collocar-se de joelhos, junto  meza de pedra, em
posio d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem
despregar os olhos d'ella.

Era uma loucura aquella affeio do negro!




III


O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do
Christo crucificado.

Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.

A cada respirao, a cada ondulao do seio da virgem, extremecia elle e
abria mais os seus grandes olhos, n'uma expresso alternativamente de
receio e de esperana, que ella acordasse.

Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo.
O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os
olhos pregados n'ella.

--Ah! s tu cabinda?

--O negro, senhora moa!

--E que fazias ahi de joelhos?

--Olhava para a minha filha, que dormia...

--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?

--Sonhar? repetiu o cabinda.  noite, quando o negro se deita, e faz
escuro em volta d'elle, o cabinda v a sua senhora, que foi para a terra
do Pai dos brancos; v a senhora moa muito contente, com a cabea cheia
de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda
lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de
noite lagrimas no escuro.

--Coitado!

--Oh! mas o cabinda  alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua
filha ri e falla ao negro!

--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...

E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o
rosto em visivel expresso de melancholia.

--E que tem a senhora moa? perguntou o negro com anciedade e receio. O
cabinda no a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caador as
ferir.

--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.

E tornando a prender as flres entre as folhas do livro, seguiu,
acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas quella por onde tinha
chegado ao lago.

Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava
abstracto de tudo, sem vr mais nada.

Que magestoso quadro aquelle!

Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia
d'explendores, a que sorriem todas as esperanas, e para o qual todos os
horisontes so vastos, largos e floridos!

O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para
salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e
humilhando-se submisso  menor reprehenso.

Os dois caminhavam a par.

Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.

Por sobre as suas cabeas arqueava-se, verdejante, o docel das
jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As
aves j se haviam retirado aos gratos asylos.

--Tu sabes o que so saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.

--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.

--Sim.

--Sei, senhora moa.  ter o negro a alma a doer muito, como  pomba
rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

-- isso. Pois olha, eu tenho saudades, e no sei de qu. Sinto a alma a
pedir-me uma coisa, que eu no comprehendo, e arde-me o corao em
desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e no sei o que quero; desejo,
e pergunto o que desejo. No me falta nada, porque, graas a Deus, sou
rica; no ha vontade nem capricho que o papae me no satisfaa, e, olha,
apesar de tudo, no vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora,
sinto um peso na alma, que eu no sei de onde vem, nem para qu. De
noite, ento de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos
quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me
dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e
encantadoras; umas mos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e
m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram
at dentro do meu corao. Mas depois acordo, desapparece o sonho,
vejo-me s, e tenho saudades, cabinda...

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera
Magdalena,  certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente,
apenas ella acabou:

-- a alma do branco que vem fallar  alma da senhora moa.

--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem no comprehendia.

--Do branco, sim. A ona do cannavial e o jabir das lagas teem o seu
parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora
moa, v o branco nos sonhos, como o cabinda v a sua parceira e os
filhos, mas o branco no apparece.

--No te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro
lhe dizia.

--O mal da senhora moa  aqui, disse o cabinda, indicando no peito o
logar do corao. O branco que a minha filha v  noite, quando dorme, 
que ha de vir cural-a.

--Como?

--No sei.

--Quando?

--Elle vir. O negro tambem tinha isso, l, na sua terra. No matto, no
cannavial, quando o negro andava  caa, e no rio, quando dormia dentro
da sua cana, o cabinda no tinha a sua parceira, mas o negro via-a
sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro no soffreu
mais, nem tornou a chorar.

Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente
melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.

Estava ella na idade em que o corao comea a desabrochar as primeiras
flres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido
fallar d'amor s suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas
cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e
ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia
mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma
fineza, nunca um homem lhe dardejra um olhar expressivo; e se algum o
fizera, Magdalena ou no o viu ou no o comprehendeu.

Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam
s noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traos claros dos
desejos, que tinha na alma e no corao, de amar e ser tambem amada, de
gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.

Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete,
para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma
vasta varanda.

Jorge de Macedo estava de p, no topo das escadas, fumando um charuto, e
n'uma attitude de quem esperava alguem.

Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:

--Ah! o papae!

O negro ficou s, e Jorge sorriu-se, dizendo:

--Olha que te canas, doidinha!

A filha do cabinda transpoz rapida o espao que a separava de Jorge, e
apenas se achou junto d'elle, fez dos braos um collar, com que lhe
prendeu o pescoo, e comeou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que
elle correspondia em visivel expresso de jubilo e de ventura.

Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados
pelos laos mysteriosos do sangue!

Que beijos aquelles! que affecto se no desdobrava alli!

--Mausinho, que me deixou hoje jantar s, queixou-se ella com fingido
agastamento.

--Tive muito que fazer, filha. Mas dste o teu passeio at ao lago, no?

--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.

O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:

--A sua beno, meu senhor!

--Adeus, cabinda.

--E amanh?... perguntou Magdalena, sorrindo com inteno.

--Amanh...

-- dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres!
atalhou ella.

--Muito. E vais ter hospedes.

--Hospedes? interrogou com curiosidade.

--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do
armazem.

--Oh! que alegria vai ser a nossa, no  verdade, papae.

--Grande, minha filha, porque  de ti que ella vem.

E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae
extremosissimo.

Magdalena foi, porm, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que
havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que
esquecida de onde estava e com quem estava.

O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com
a avidez de quem parecia estar estudando-a.

Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente
aquelle rosto to formoso d'aquella mulher anjo?

Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella
passagem suave do alegre para o triste?

O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso,
lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.

Eram as alvoradas do corao; eram os pressentimentos do que ha de vir!

E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:

--Esqueces o piano, Magdalena?

--No, papae; esperava por si.

--Vamos, ento.

--Vamos.

E tomou a mo a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.

Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do
cabinda, uma _reverie_ de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam
presas, nas suas azas, o espirito at ao co.

Jorge ouvia-a n'um extase.

Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos
pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu
encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o
espirito s regies celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma
especie de mystificao, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa
queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatra to cedo dos
braos!

O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o
terreiro, dizendo comsigo a meia voz:

--Os brancos veem amanh; o mulato vir tambem. Cabinda, a senhora moa
 tua filha!




IV


Vai em meio o jantar, no dia seguinte.

A animao  completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que
referve em cada conviva.

 que alli no ha superiores nem inferiores, no ha grandes nem
subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e
querido, que s como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem
sentadas em volta da sua meza.

Magdalena preside  festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar,
onde s ella  sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de
si e tudo dos outros.

Est esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!

Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da
belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doura
que captiva.

Veste um vestido de sda cr de flr d'alecrim, simples, mas
elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde
vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma
medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros,
to feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas
d'uma perfumada rosa branca.

Jorge cedeu as honras da festa  filha querida, que occupa a cabeceira
da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita,  direita de
Magdalena.

Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico,
elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.

Do outro lado, em face d'estes, esto o primeiro caixeiro, mulato
brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter,
e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que
no merecem meno especial.

Falla-se alegremente; discute-se com placidez.

Magdalena, a todos attende e no esquece nenhum. De si  que ella cuida
pouco.

Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras
d'uma gravata branca, cujo lao fra feito pela sua filha, e veste uma
roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria
da sua filha.

O negro lana todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo
despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que
dizendo-lhe:

--Foge d'elle!

O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de
nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois
um para o outro.

Ella, porm, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais atteno a
Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.

Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto
se tem comido como fallado.

A alegria assentou-se com os convivas  meza d'aquelle festim.

Comeam as sobremezas e vo principiar os brindes.

Magdalena  a primeira. Est porm, um pouco acanhada em presena dos
seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas
rosas de purissimo rubor.

--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus
annos, papae.

E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.

--Acompanho a V. Ex.^a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a
muitos annos os possa brindar e festejar, to alegre e to feliz como
hoje.

--Do mesmo modo, repetiram os outros.

--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.

E Jorge levou a seu turno o calix  bcca, continuando depois:

--Agora, Magdalena,  saude dos nossos hospedes...

--E, ajuntou Luiz,  felicidade da filha de V. Ex.^a, fazendo, todos ns,
sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a
ella, que nos recebe aqui como irm nossa, e irm muito affectuosa.

Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de
reconhecimento, e respondendo-lhe:

--Obrigada, meus amigos. Fao o que devo e menos do que merecem.

-- felicidade de V. Ex.^a, brindaram todos.

--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.

E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.

Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e  certo que encontrava
sempre os olhos d'ella pregados nos seus.

Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.

No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas
d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo,
sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a
franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda no poderam de
todo dissipar.

Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado 
sua refeio.

O cabinda, porm, l chegava, de quando em quando, para, com a sua
prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pr obstaculos
a abusos.

Estava a terminar o jantar. J se fallava muito e nada se comia.

Jorge levantou-se ento, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do
Porto, dirigiu-se aos seus convidados:

--Vamos ao ultimo brinde.

E encheram-se os copos.

--Bebo, no s  saude e  prosperidade d'aquelles que chamei hoje a
minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem 
saude das suas familias ausentes.

--Agradecidos, senhor, accudiram todos.

--A sua me, senhor Luiz, brindou Magdalena.

--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente
impressionado.

--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella
ficar uma lembrana aos amigos, que aqui tenho em volta de mim,
lembrana to grata, quo grande foi a alegria que me porporcionaram,
declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam,
desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro,
para se considerarem meus socios nas transaces da minha casa. No
esqueo os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde
j o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os
ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta
d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolhero assim
mais contentes.

--Como  bom, papae! murmurou Magdalena.

Houve ento uma verdadeira chuva de agradecimentos, que  desnecessario
pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.

Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoo, mas extremamente
sympthico, e dirigiu-se a Jorge:

--Se V. Ex.^a me confunde com a grandissima distinco, com que acaba de
honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e
mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservao e
engrandecimento do qual, no deixarei nunca de empregar todos os meus
esforos.

--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mo.

E dispunha-se a deixar a meza.

N'este momento, porm, entrava o cabinda, trazendo pela mo uma negrinha
de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.

--Que  isso, cabinda?

--A Belmira traz ao seu senhor as flres dos negros, porque o cabinda e
os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moa,
respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo
ramo de mimosas flres.

--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a
creana. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em
quanto vamos para o jardim esperar o caf.

--Como s nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.

E foi assim que terminou o jantar.

Jorge e os convivas desceram para o jardim.

Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrana dos escravos.

O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como
doido:

--O branco veiu, senhora moa; o branco  bom e gosta da minha filha!

Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que s Luiz
podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;

--Temos ambos igual quinho no negocio: agora veremos quem leva a filha!




V


Pouco depois era servido o caf.

Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas
cadeiras de bambs,  entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras
floridas.

Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a
liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da priso quotidiana,
e do servio quasi aturado do armazem.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro,
mostrando a Luiz de Mello as suas flres; apontando, deslumbrante de
candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com
a convico de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto
orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irms.

Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava
passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas
vezes embalam a imaginao juvenil, do que assistindo  realidade de vr
e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo
d'harmonia nas fallas.

--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este p
de _suspiros_. No  to, bonito?

--Formoso, minha senhora.

--E estas _saudades_, no so to lindas?

--Muitissimo. Saudades... as flres symbolicas dos que soffrem; dos que,
como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperana
de l voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes
adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento,
um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas
vezes, triste.

--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?

--Se tenho!...

--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.

--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.

--Sim, admira-se?

--E com razo. Pois V. Ex.^a, cercada de todas as commodidades da vida,
dos extremos e affagos d'um pae, que  mais que muito carinhoso; nova,
formosa, permitta-me V. Ex.^a esta verdade; vendo realisados todos os
desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.^a, que , que deve
realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos
olhos proprios, confessa que sente saudades, e no ha de querer que eu,
exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e
embellezam, me admire e espante d'essa confisso?

--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem no sei de que, para lhe fallar a
verdade.

--Comprehendo. N'esse caso melhor ser que V. Ex.^a diga antes que tem
desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.^a, na idade florida dos
amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expanses e dos sonhos
formosissimos, ha sempre, pde pelo menos haver, muita vez, algumas
d'essas melancholicas florinhas, que so, ento, como pequeninas nuvens
no azul d'um co estrellado e deslumbrante.

--No  isso, disse Magdalena levemente contrariada. No  isso, porque
eu nunca amei.

--Ah! V. Ex.^a nunca amou?

--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.

--Mais um motivo para eu crr que o que V. Ex.^a tem, so desejos de amar
e ser tambem amada.

--Talvez, accudiu Magdalena crando, e pregando em Luiz os seus negros,
grandes e formosos olhos.

--E acreditaria V. Ex.^a no amor do primeiro homem, que ousasse
render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?

--Conforme. O corao  que havia de decidir.

--E o corao de V. Ex.^a no lhe diz nada? no lhe lembrou ainda um
nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu
affecto?

--J.

Luiz estava pallido e tremulo de commoo.

--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.

--Que tinha! era muito feliz, era?

--Se era, minha senhora! muito! muito!

--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.

--Oh! com delirio at!

--Pois ento no d a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo
muito!

E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando
que alguem a ouvisse.

Creana!

Que commoes a no abalaram n'aquelle momento! que agitao n'aquelle
seio to estreito, agora, para as ondulaes do corao, que tantas
flres estava desabrochando!

Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um
homem a impressionava.

O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas
deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o co com
todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!

Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma
e outra, e comeou, n'uma como viso phantastica, a vr diante de si um
horisonte illimitado de felicidades sem fim!

Que dia aquelle! que dia to venturoso! D'um lado os beijos carinhosos
da fortuna, do outro, as flres magicas do amor d'um seio de virgem!

Eram to violentas as commoes que o abalavam que apegas poude
murmurar:

--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que no me
engane nunca!

--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha me!..

E embebidos nas douras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jmais
devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para
um dos angulos do jardim.

Sentaram-se como que machinalmente.

Magdalena voltava e revoltava entre as suas mos mimosas e pequeninas um
vioso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e
arrojava depois ao espao as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do
fumo aspirado.

Os ps dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que
inebriavam.

E o pr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde,
comeavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como
duas juritys.

--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade
para Magdalena.

--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?

--Sempre que no haja quebra de conveniencias.

--Conveniencias? interrogou Magdalena.

--Sim, minha senhora. Bem v V. Ex.^a que a minha presena muito
frequente n'esta casa, pde despertar suspeitas, e eu no desejo, nem
devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito,
talvez no approve esta affeio, que comea a prender-nos hoje.

--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.

--Em todo o caso no a descubra V. Ex.^a por ora, no?

--No.

---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.^a, ou se
mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua
familia?

--Despedil-o-ei.

--Agradecido, minha senhora.

--E olhe, quando no possa vir vr-me, d-me ao menos noticias suas,
sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranas d'este dia!

--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?

--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.

--Muito bem. Agora retiro-me que so horas. Levo-a a V. Ex.^a gravada nos
olhos, e no corao.

--Faa-me ainda uma coisa, faz?

--Tudo, minha senhora.

--Deixe as _excellencias_ com que me trata e mostre-me mais confiana.

--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.

--At breve... Luiz!

E apertaram-se as mos n'uma effuso de grandissimo sentimento, e
separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e
impressionados.

Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.

Jorge deixou depois a filha e sahiu.

Magdalena ficou s.

Nas salas havia aquella meia escurido da hora melancholica da transio
do dia para a noite. No co j brilhavam, formosas, algumas estrellas.

Magdalena foi sentar-se ao piano. No ia tocar, ia fazer mais, porque ia
gemer saudades com aquelle amigo.

As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se
em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde
nunca tinha subido.

As mos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas
o seu espirito s via uma imagem, aquella musica s lhe repetia um nome:

--Luiz.

E to embebida estava, to embrenhada jazia n'aquelle sonho que a
dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma
das portas.

O negro parou n'uma contemplao, que era a maior prova do seu culto por
Magdalena. Mas ao vel-a assim to preoccupada, ao parecer-lhe triste,
approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeio a
transparecer-lhe na voz:

--Ainda est triste a minha filha?

Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:

--No, cabinda. Agora penso na felicidade.

--E o branco?

--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o corao.

--Mas a senhora moa  ainda a filha do cabinda!

--Sou, sim; tu s meu amigo, e elle... elle amo-o muito!




VI


Vai um pouco adiantada a noite.

A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Po
d'Assucar e Corcovado, e ca a sua luz pallida pelos intresticios da
vegetao luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.

Que noite formosa!

Prendem-se as estrellas umas s outras pelas suas palhetas luminosas, e
bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abbada
do co.

Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a
ramaria das arvores alentadas e frtes. A atmosphera impregnou-se
durante o dia, dos perfumes das flres e dos fructos, que o sol
fecundante fez amadurecer e desabrochar.

O ananz e o jasmin, o caj e as acacias brancas, a pitanga e as rosas
de Alexandria, as flres todas, e todos os pmos das arvores
fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do
conjunto dos quaes, se frma uma essencia, que embriaga, que  doce, e
suave, e agradavel.

O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um
silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.

No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda no
repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.

 Magdalena, a filha do cabinda.

A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa,
firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginao e o espirito,
esto fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos
panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!

Est como que sonhando.

Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor so
formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu corao, que comea a
fecundar as primeiras flres, aos perfumes que a aragem da noite
transporta nas suas azas!

Faz as tuas confidencias  lua; conta os teus segredos s estrellas;
porque uma e outras viro, em cada noite, reflectir da altura, onde
andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o corao e a soledade!
Scisma; prende pelo espirito, por esse lo mysterioso, que aniquila as
distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com
o teu, em um s! Deixa que o corao se dilate, que a alma se expanda, e
se aquea ao calor do sentimento que a anima!

Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o co, como se a proprio co
elles fossem, duas perolas mimosas!

Porque choras, criana? Que pso podero ter na balana do teu destino
essas duas lagrimas, que ninguem v, mas que alguem beberia soffrego,
embora occultassem a morte? So o baptismo do teu amor? ou o preo da
tua felicidade?

E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha
duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.

Aquellas duas gotas crystallinas eram as flres das primeiras saudades
d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocra o corao com a
varinha magica do condo do infinito sentimento.

Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em
sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu corao sentia o mal estar
d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, l lhe
estava sorrindo, l lhe estava fallando com a sua voz attrahente!

E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e
saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!

Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!

Oh! que alternativa no estava passando o seu viosissimo corao!

D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz,
o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella no
comprehendia!

Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a
sde d'aquellas flres, que haviam brotado na sua alma, a noite
d'aquelle dia to repleto de encantos, a soledade, emfim!

 mocidade! como s formosa com as tuas esperanas, com os teus receios,
com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes,
que te agitam o seio, onde tudo  vida, onde tudo  enthusiasmo e
delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas
paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas
d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flres e os dias, 
a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.

E Magdalena continuava a scismar.

Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e s
esperanas. Dentro de sua alma e do seu corao havia um murmurio de
harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.

Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o
nome de Luiz.

Este velava tambem.

Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor,
perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a
vira n'aquelle jantar, que nunca mais poder esquecer, e como a ouvira
n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.

Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar
da casa do armazem de Jorge de Macedo.

Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo,
visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.

 pequeno agora o ambito do seu corao para conter tudo quanto est
sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanas, se est desenvolvendo
diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de
Magdalena.

Encheu-lhe o amor o seio.

Elle, que vivia to descuidado, entregue s saudades da patria e da
familia, e ao desempenho das suas obrigaes, esquece-se de tudo isso,
agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua me, para s se
lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa
indifferente.

Oh! o primeiro amor!...

Eram fortissimas as inspiraes que o dominavam e tanto mais quanto
menos as esperava.

Magdalena deslumbrara-o, no s com a sua belleza, mas muito mais ainda
com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua
franqueza.

Foi um anjo que lhe surgiu do co, a elle, que andava na terra com a
aridez no corao.

Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por
vezes.

Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos
para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.

Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato
era capaz at d'uma infamia para a conseguir.

Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e
tinha-o mesmo estudado.

Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raa, embora
apparentemente adoados por uma educao rasoavel, e pela convivencia
d'aquelles com quem as suas obrigaes o levavam a tratar.

O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes,
desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda no tinham
trocado uma palavra, porque ainda se no tinham encontrado.

Luiz tinha, porm, a certeza de que o mulato no guardaria silencio, e
dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...

Que importavam a Luiz as pretenes d'Americo, se Magdalena jurra
amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua me?

Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu
orgulho e nas suas ambies, pelo despreso ou pela indifferena de
Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias at?

No tinha Luiz a sua consciencia limpa?

No lhe dizia ella que elle havia de vencer?

Dizia.

No entanto,  certo que o drama ia comear, que a lucta ia travar-se,
mas no face a face, e a peito descoberto.

E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, l ia a lua
caminhando pelos pramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do
cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e
reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas
murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto
Guanabra.

 noite! que de pensamentos no desabrocham, no meio do teu silencio,
nos coraes que viam amores  luz do teu astro argenteo!




VII


Eram oito horas da manh do dia immediato, quando Luiz desceu para o
escriptorio.

Americo j andava dando as suas ordens para o embarque de uma poro de
saccas de caf.

Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porm, com certa
reserva e um pouco de frieza, o que no era costume.

Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite
inteira; Americo os traos de quem tinha uma ideia a dominal-o.

E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio,
situado no fundo do armazem.

Luiz sentou-se a escrever; Americo comeou a examinar a correspondencia
do dia anterior.

Os negros e os outros caixeiros andavam na labutao de pesar e ensacar
o caf.

--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo,
principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.

--Eu  que te no tornei a vr; respondeu Luiz placidamente, sem volver
os olhos dos livros, que tinha diante de si.

--Fui ao theatro.

--E eu vim para casa.

--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.

--Nao sei de que te admiras.

--Eu? de nada.

--Esse _ah!_ solto assim...

--Foi natural.

--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.

--No. J tiveste noticias de Magdalena!

--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva
admirao.

--Sim; ou no deixaste ainda as coisas n'essa altura?

--Gracejas de certo, Americo.

--No gracejo, no. Ento has-de negar que a no desfitaste um momento,
durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confisso d'amor, em
quanto passeiavas com ella pelo jardim?

---No nego, nem affirmo.

--Calas; quem cala consente.

--No sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece  que nada deves ter
com isso.

--Outro tanto no digo eu.

--No sei porque.

--Porque tambem sou pretendente.

--Ah! sim!

--Tu comeaste; veremos agora qual dos dois acabar.

--Veremos.

--Mas porque no has-de ser franco comigo?

--Franco em que? e para que? s homem como eu; tens o campo aberto,
propes a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo
Magdalena, retiras? No. Ella  que escolhe; se algum de ns lhe
convier, o outro j sabe o que tem a fazer.

--E se eu fr o escolhido?

--Paciencia. E se no fores tu?

--Hei-de empregar todos os meios.

--Todos?

--Todos, sim. Os da minha raa bem sabes que no recuam nunca, e se o
ignoras fica-o sabendo agora.

--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a
mulher porque a amas.

--Quero-a por ambas as causas... principalmente.

--Comprehendo.

--Julgas, talvez, que na balana da conquista, o prato pende mais para o
teu lado? Enganas-te. Ns, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu,
teem na face a cr bronzeada do cruzamento das raas, estamos fartos de
vr que os pobretes dos portuguezes nos venham, de to longe, roubar as
mulheres e o dinheiro.

Luiz crou e pz-se d'um pulo em p.

--Insultas-me! exclamou elle.

--No; digo a verdade.

--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a
phrase se no conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretes dos
portuguezes! Que seria de ti e dos teus se no fossem elles! Morriam
todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Ns  que trabalhamos, ns
 que vos sustentamos, pdes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o
dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e
todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforo de corpo e
de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas  por que as merecemos,
 porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para no dizer que mais
honra lhes vai com estas allianas, do que a ns. Repito; eu queria vr
o que seria de vs se no fossem os pobretes dos portuguezes; de vs,
que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rde, indolentes,
occiosos, tomando o vosso caf e fumando o vosso cachimbo.

--Seja como fr; no discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo 
que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.

--E eu affirmo-te que nem um s vingar.

--Veremos.

--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheo
agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o
ardil apurado at  infamia, at ao crime refinado. Pouco importa.
Hei-de bater-te com a verdade, s com ella te hei-de derrotar. Todavia,
recommendo-te prudencia, porque se o meu brao se envergonhar de
castigar-te, talvez haja quem o faa sem que o esperes.

--Ameaas-me?

--No; previno-te.

--Pois bem; eu me defenderei.

--Mas de modo que no vs ferir aquelle que ainda hontem, alm de nos
sentar  sua meza como amigos, nos elevou  dignidade de partilharmos da
sua fortuna. A lucta  comigo, e s comigo, e se me encontras disposto a
combater-te, no me encontrars disposto a tolerar-te a minima coisa que
possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que  hoje meu socio, meu
protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma
ameaa. Magdalena  uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para
ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe
dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda  comigo e s
comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.

--Pouco me importam as tuas ameaas, e respondo a ellas com uma
gargalhada.

--Bem sei que vai at ahi o teu cynismo e a tua cobardia.

--Luiz!...

--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de
Americo.

Este ia, n'um impeto de raiva, a lanar-se ao guarda livros, mas ao
vl-o to resoluto, ao vr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a
coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a
dizer:

--Ia-me zangando! A occasio no era propria, e nem mesmo valia a pena.
Tenho tempo de desforrar-me.

--Ou de levares uma lico que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.

Dois minutos depois, j Americo andava ordenando e vigiando o trabalho
dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo,
como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato
havia provocado.

No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva
sopeada, e Americo, no meio da labutao dos seus subordinados, trazia
nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingana, que
lhe avultava no seio.

A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, l estava,
apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a
lanal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia
necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.

Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude;
Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingana, com os
olhos da sua ambio e do seu calculo.

Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam
convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.

Teriam ambos a mesma fora?

Qual d'elles tinha de attrahil-a?

 facil prevel-o. A imagem de Luiz j lhe enchia o seio, j lhe havia
povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella
passra accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na
lua, e a alma a sentir o _gosto amargo_ d'uma saudade indefinida.




VIII


Eram tres horas da madrugada, quando Magdalena se retirou da janella,
onde a vimos to scismadora, to embebecida na contemplao silenciosa
da rainha da noite, que, apesar de bem alta, ainda ia vaidosa a mirar-se
nos crystallinos espelhos dos lagos adormecidos, e gosando as suaves
emanaes das flores dos jardins.

Nunca a formosa virgem tivera uma noite de sensaes to violentas,
esmaltada de tantos receios e de tantas esperanas, de tantas rosas e de
tantos espinhos.

A imagem de Luiz, ora lhe sorria cariciosa, meiga, e cheia de bondade,
ora lhe apparecia gelada, fria, e grave, com todos os traos d'uma
indifferena verdadeira.

Eram as alternativas do amor; era esta serie de contrastes e antitheses
que o constituem, e de que elle proprio se alimenta, inflamma e vive!

Todavia, n'esta opposio de ideias, de phantasias, d'aspiraes, que a
dominavam e agitavam, o predominio era inquestionavelmente para o
pensamento da felicidade, que to magicamente lhe sorria no amor de
Luiz.

O amor de Luiz!...

Aquelle sentimento era o co com todas as suas bellezas; com as
harmonias dulcissimas das harpas afinadas dos seus anjos; com todos os
cambiantes das luzes formosas dos seus astros scintilladores!

E foi n'este diliciosissimo vago d'uma esperana de ventura que
Magdalena adormeceu.

Os olhos, aquelles olhos sempre formosos, cederam por fim ao pso da
somnolencia, e deixaram-se velar docemente pelas palpebras, quasi
transparentes.

No cessaram porm as ondulaes do seio, que estava sendo o leito d'um
vasto oceano d'amor.

No cessaram, no, porque ainda se prolongava o sonho, em que,
inteiramente embebida, se havia demorado na janella, d'onde sahira
momentos antes.

A formosa filha do cabinda estava vendo diante de si vastissimas
campinas de flores perfumadas; estava ouvindo umas harmonias alegres,
como nunca ouvira; tinha por cima o co azul, limpido e sereno dos dias
tropicaes, e em baixo, na terra, a esteira matizada de flores, que a mo
d'uma fada branca, aeria e vaporosa, andava espargindo prodigamente.

 mocidade! como so magicos os teus sonhos, quando te perfumam o seio
largo, as emanaes balsamicas dos roseiraes floridos do amor! Como 
deslumbrante e querida a imagem, que te faz palpitar o corao, gravada
nos raios prateados de cada estrella, reflectida na superficie serena de
cada lago, envolta nas harmonias suaves e doces do cahir da agua de cada
cachoeira, presa nas mil palhetas douradas do sol de cada esperana, e
engastada na muldura valiosa das perolas de cada crena!

Sonha, Magdalena, sonha! Na tua idade, os sonhos so vida, a vida 
ventura e a ventura parece no ter fim!...

Sonha, em quanto te doura a fronte, e se reflecte no negro assetinado
dos teus formosos cabellos, o sol vivificante dos teus vinte annos to
perfumados.

E Deus queira que um dia no tenhas de beber a sicuta das desilluses, o
calix amargo e mortal do fel da desventura!

Desponta propicia a estrella do teu amor; prophetisam-te alegrias os
canticos suaves, que te embalam o somno leve... Dorme, virgem; dorme,
sonha, vive, e gosa!

E Magdalena sonhava.

N'aquelle momento, havia, porm, dois homens que a estavam vendo com
olhos d'affecto formosamente sincero, mas inteiramente distincto.

Eram Luiz, que no podera conciliar o somno, e o negro, o cabinda, que
havia accordado a pensar na felicidade da sua filha.

As seis horas da manh j o sol dourava, com todo o seu deslumbrante
explendor, a vegetao opulenta das mattas virgens, e as florinhas
mimosas dos jardins vicejantes. As aves mandavam ao co, nas azas
invisiveis da virao do sul, o seu cantico matinal de graas e louvor.
Sorria-se inteira a natureza, n'um sorriso que era como um hymno
abenoando o Creador!

O cabinda andava j, contente do seu trabalho, entregue  limpeza das
folhas seccas, cahidas, durante a noite, em volta do lago, onde
Magdalena costumava ir sentar-se, pensativa, no fim de cada tarde.

E to embebido andava o negro, que nem viu a sua filha approximar-se
d'elle, surgindo d'uma das aleas da chacara, orlada de mangueiras,
cajueiros e pitangueiras.

--To entretido, cabinda! disse Magdalena approximando-se.

--A minha filha! exclamou o negro, depois de se volver admiradissimo,
com um sorriso d'intima alegria a pairar-lhe no semblante.

--Ento? volveu ella. Julgas que s tu te levantas com o sabi das
laranjeiras?

--O negro no esperava a senhora moa, no. A sua beno.

--Quero que vs  cidade.

--Ao branco? perguntou elle com rapidez.

--Sim. Vais levar este bilhete ao senhor Luiz, mas has de entregal-o s
a elle, ouviste?

--Descance a minha filha, o negro vai j.

E depois, como recordando-se d'alguma coisa passada, o negro continuou:

--Oh! o cabinda bem dizia, que o branco dos sonhos da senhora moa havia
de chegar.  elle; o branco veiu e a minha filha gosta do branco.

--Ah! suspirou Magdalena, enlevando-se nos sonhos do seu affecto. Ah! se
tu soubesses como eu o amo!

-- como o cabinda  sua parceira e aos seus filhos que lhe tiraram.

--Mais, mais ainda! Tu no imaginas como eu sou doida por elle!
Pertence-lhe a minha vida, o meu corao, a alma, o pensamento! Sou toda
d'elle, e no poderia viver sem elle. Tu, oh! tu no sabes o que eu
sinto, no! Penso n'elle de dia, de noite, a toda a hora, e sempre! Tu
contentas-te em ter saudades da parceira, que te tiraram, dos filhos de
que te separaram; e eu morria se elle me faltasse, morria, sim!

--E o branco tambem quer muito  minha filha, muito; acudiu o cabinda, a
quem o enthusiasmo de Magdalena, havia enthusiasmado tambem.

--Quem sabe? murmurou ella, n'uma expresso d'alguma duvida.

--O negro v. Hontem, no jantar, os olhos do branco buscavam os olhos da
senhora moa. Eram como a jurity do matto, a chamar a companheira entre
as folhas do capim...

--Isso era hontem, mas agora?... respondeu Magdalena com melancholia.

--Agora, senhora moa, o negro vai e hade trazer alegrias  sua filha.

--Vem depressa, ouviste?

--O negro no tardar.

E o cabinda guardou o bilhete que Magdalena lhe dra, e partiu
apressado, volvendo-se, de quando em quando, para traz.

No seio da formosa virgem havia uns alvoroos immensos. Era a esperana
que os originava, a dourada esperana, em que Magdalena ficava, de que
depois das suas noticias, que mandava a Luiz, este lh'as mandaria
tambem, n'um repetido protesto de grandissimo affecto.

Subiu.

Ao chegar ao topo da escada, encontrou-se com Jorge.

--To cdo c por fra, filha! exclamou elle, um tanto admirado ao
vl-a.

--Estava uma manh to bonita! vim vr as minhas flres.

E beijou-lhe a mo e abraou-o, cariciosa e meiga.

--E to cdo as deixas, doidinha!

--J as vi, j lhes fallei, papae.

--E agora que vaes fazer?

--Uma visita a outro amigo... disse ella, sorrindo.

--Pois ainda tens mais affeioados, Magdalena?

--Se tenho, papae! disse ella, suspirando. Ento o meu piano?

--D'aqui a pouco esqueces-me de certo. Se vaes assim a repartir o teu
affecto, no deixas no teu corao um cantinho para teu pae!

--Oh! o logar do papae ninguem o tira, ninguem!

--Nunca?

--Nunca!

E Magdalena prendeu-o pelo pescoo, sorrindo com meiguice, e
imprimiu-lhe na face dous osculos purissimos.

Jorge acolheu-os como os paes acolhem os beijos dos filhos, quando os
paes so paes, e os filhos no degeneram.




IX


O cabinda chegou  rua dos Pescadores, no Rio, alguns minutos depois de
terminada a disputa entre Luiz e Americo.

O escriptorio, como j dissemos, era situado no fundo do armazem, e
resguardado por uns tapamentos de madeira, que interceptavam a vista do
seu interior s pessoas que entravam.

Americo estacou, e como que teve um estremecimento, vendo surgir o
negro. Dissimulou-o, porm, o mais que pde, e foi encostar-se a uma
porta lateral.

--Louvado seja o Senhor! disse o negro, entrando.

--Adeus, cabinda; respondeu Americo docemente.

--O negro quer fallar ao senhor Luiz.

--O teu senhor no vem hoje  cidade? perguntou Americo com inteno.

--O negro no sabe.

--Quem te mandou, ento?

--A senhora moa.

E o cabinda lanou a Americo um olhar perscrutador.

--A senhora moa? perguntou o mulato, admirado do pouco segredo que o
negro guardava da sua misso.

--Sim.

--Trazes recado ou carta? acudiu Americo rapidamente.

--O negro traz carta.

--D c, que eu vou entregal-a ao senhor Luiz.

--A ordem da senhora moa  s para entregar a elle.

Americo encolerisou-se com a resposta do cabinda, e disse, raivoso:

--Bem se v que s negro!

--Como o pae de muita gente, respondeu aquelle.

--Patife!...

--O negro  cabinda, e o cabinda  raa fina. O mulato  filho de branco
e de negro...

Americo sentiu-se altamente atacado, mas enguliu a affronta, que
provocra. Teve vontade de atirar logo dous murros ao negro, mas o
receio deteve-o, porque tinha diante de si um homem possante, que,
embora escravo, era, comtudo, um escravo estimado e querido. No meio da
sua ira, e, digamos, da sua cobardia, limitou-se a ameaar:

--Deixa estar, que o teu senhor saber que andas a trazer e a levar
recados da senhora moa, patife!

--O negro no tem mdo.

E o cabinda deu-lhe as costas, e dirigiu-se ao escriptorio, onde lhe
parecra ouvir a voz de Luiz.

Chegou  porta e metteu a cabea.

--Licena.

--Ah! s tu, cabinda? Entra; acudiu Luiz, largando a penna.

--O negro, meu branco.

--A que vens?

--Trazer isto. Manda a senhora moa.

E tirando do bolo o bilhete de Magdalena, entregou-o a Luiz, esperando
com alegria, sorrindo de contentamento.

Luiz sentiu um d'esses abalos, grandemente bello; um d'esses choques,
que se sentem sempre que nos chega a mo a primeira e suspirada carta do
objecto do nosso amor.

Que papel aquelle! que thesouro no estava alli!

Fossem dizer ao sympathico moo que o no lsse! offerecessem-lhe por
elle todas as riquezas do mundo!

Recusava, de certo, e recusava sem a minima hesitao!

Apenas o perfumado papel lhe chegou s mos, Luiz abriu-o com uma
rapidez vertiginosa, e lanou ao contheudo os olhos, mais como quem o
devorava, do que como quem o estava lendo.

Era uma soffreguido nervosa, natural, exigida at pelas circumstancias.

O cabinda que lhe seguia o menor dos movimentos, que parecia mesmo estar
lendo o que se passava no seu intimo, permanecia immovel, suspenso,
n'uma contemplao profunda e silenciosa;

A leitura da pequenina carta foi rapida, mas, n'esse pequeno momento da
sua durao, Luiz subiu todas as notas da escala harmoniosa dos
transportes sublimes da ventura.

O bilhete dizia o seguinte:

                                                                 Luiz

Ainda no ha vinte e quatro horas que me deixaste e j no posso com as
saudades, que me magoam. Vem-me vr quando poderes e diz-me sempre que
nunca hasde esquecer a... tua

                                                             Magdalena.

P. S. Passei a noite a pensar em ti, e at nas tres horas, que a fadiga
me obrigou a repousar, tive sempre, ao meu lado, em sonhos lindos, a tua
imagem, que me sorria e eu acariciava.

Era curta a missiva mas, em compensao, eloquentissima.

E Luiz olhou para o negro.

--Ento? perguntou este.

--Ah! cabinda! cabinda! exclamou o moo com duas grossas lagrimas a
brilharem-lhe nas pupillas.

--O branco chora? que tem? interrogou o negro rapidamente, passando do
extremo da alegria ao extremo do receio.

--Choro, sim, e olha que nunca os meus olhos verteram lagrimas como
estas! So de ventura, so de felicidade! Cada uma me vale o co, cada
uma  um hymno, cada uma  um poema! Choro, porque nem s a dr, nem s
a tristeza, nem s o infortunio, tem lagrimas. A alegria, quando  to
grande, como a que eu estou sentindo, tambem as tem, tambem se adorna
com ellas. Aquellas so amargas, so negras, queimam e ferem; estas, que
tu vs nos meus olhos, teem o explendor d'um sol formoso, so dces,
porque resumem a essencia d'um nectar suavissimo, do vida, porque
contem em si os elementos que a vigorisam! Choro, porque sou feliz,
cabinda!

O negro ouviu Luiz n'uma anciedade indiscriptivel. O peito arfava-lhe
com violencia; era um mar tempestuoso. Os olhos, os seus grandes olhos,
estavam pregados em Luiz. Susteve-se assim em quanto o amoroso moo ia
fallando, enlevado nos transportes do seu grandissimo affecto. Mas
apenas elle acabou, o negro acudiu logo immediatamente:

--E o branco gosta da senhora moa?

--Oh! se a amo!...

--Muito?

--At ao delirio!

--Obrigado, meu branco! obrigado, meu branco! exclamou o negro, beijando
phreneticamente as mos ao moo.

--Que fazes, cabinda? acudiu Luiz, commovido, porque traduzia n'aquelles
beijos a affeio do escravo por Magdalena.

-- porque a senhora moa  filha do cabinda, e o negro quer a senhora
moa muito feliz.

--s uma grande alma!

--Mas o mulato...

--Oh! o mulato, acudiu de prompto Luiz,  preciso cautela com elle!

--O cabinda no dorme! disse o negro em um tom d'ameaa.

--Bem. Agora vou escrever duas linhas e no te demores. Vai logo, sim?

--A minha filha espera, bem sei.

Luiz sentou-se e escreveu as seguintes linhas:

                                                              Magdalena

Poderei esquecer tudo, mas esquecer-te a ti, nunca. Fizeram-me bem as
tuas palavras, E se ests soffrendo a melancholia das saudades que
sentes por mim, eu estou entre as nuvens da tristeza, d'esta ausencia,
em que nos tem uma distancia to curta. Passaste a noite scismando em
mim; eu no repousei, pensando em ti. L havias de sentir no teu seio os
echos do meu pensamento. Irei vr-te quando podr, e cr que te amo, que
te adoro muito, muitissimo.

                                                               Luiz.

O negro partiu.

Quando chegou ao Botafogo ainda Magdalena estava sentada ao piano, para
onde a vimos encaminhar-se depois de ter affagado Jorge, seu pae, com
dous affectuosissimos beijos.

O piano no estava agora gemendo deliciosas harmonias; estava sendo a
victima da anciedade, em que Magdalena esperava o cabinda.

As mos ora corriam rapidas, ora vagarosas, traduzindo claramente os
sentimentos e as ideias que se iam succedendo na sua juvenil imaginao.

De quando em quando, corria  janella a vr se divisava o negro, mas
voltava com a melancholia no rosto, sempre formoso.

O cabinda entrou n'um dos intervallos em que ella tocava.

Apenas elle surgiu  porta da sala, Magdalena deu um grito.

Inundou-lhe o rosto todo o explendor do sol das alegrias. Os olhos
faiscaram centelhas de felicidade.

--Ento? que trazes? perguntou ella, correndo para o negro.

--Carta do branco.

--D c, depressa, anda.

O negro entregou a carta de Luiz e Magdalena comeou a ll-a do mesmo
modo que aquelle havia lido a d'ella.

Eram eguaes as impresses, eguaes as circumstancias, eguaes os
sentimentos da occasio.

Ao findar a leitura, Magdalena deitou os braos aos hombros do escravo,
e exclamou, bria de contentamento, douda d'alegria:

--Ah! cabinda! cabinda!

--Est contente a senhora moa?

--Oh! muito! muito! nem tu sabes como eu sou feliz!

-- isso o que o negro quer, porque a senhora moa  filha do cabinda!




X


Jorge de Macedo chegou ao armazem pouco depois do negro ter sahido.

Luiz e Americo cumprimentaram-o com a delicadeza devida. O capitalista
recebeu-os como socios seus, affavel, risonho, bondoso, mesmo com um
tanto da meiguice que o caracterisava.

Jorge de Macedo era um homem sympathico, moral e physicamente. A sua
physionomia era d'estas que attrahem  primeira vista, os seus actos
modelados em harmonia com a virtude, com a honra, com a probidade, com
todo o cavalheirismo, emfim.

Ficra viuvo muito cedo. A necessidade obrigou-o a ser carinhoso com a
filhinha, que ficava orph das dulcissimas meiguices de me. A sua alma
identificou-se com aquella necessidade e Jorge tornou-se homem sensivel,
bondoso e em extremo meigo.

Os seus subordinados eram tratados, no como taes, mas como amigos. Os
pobres tinham sempre aberta a sua bola. Para as grandes emprezas, para
qualquer melhoramento do progresso era sempre o primeiro a dar o seu
nome e a concorrer com os seus fundos.

Tudo isto o fazia estimado e querido, tudo isto lhe valia um nome
honrosissimo, apesar da sua vida retirada, porque Jorge, no por
systema, mas por indole, apenas tinha e alimentava a convivencia com as
pessoas, a quem o ligavam os seus negocios.

Desde que fallecera Beatriz, a sua esposa querida, ninguem mais o viu em
um baile, em um club, em uma associao recreativa.

Magdalena resumia-lhe todos os encantos, todas as distraces, todos os
prazeres.

Com ella, com a sua adorada filha, passeiava elle muitas vezes,
n'aquella alegria d'um doce bem estar, d'um gosar inalteravel de
venturas suavissimas.

Magdalena fra educada esmeradamente, com todos os vivos cuidados d'um
pae amantismo, mas sem o desenvolvimento, que mais tarde se desata em
grandes exigencias, em superfluidades, em loucas ostentaes. Jorge
cercara-a sempre de todas as commidades, mas no a affastra nunca d'uma
simplicidade abundante.

As amigas de Magdalena fallavam-lhe de bailes, das alegrias, dos
ehthusiasmos de qualquer reunio d'este genero, ella respondia, fallando
do seu piano, das musicas novas, das bellezas d'algum livro, das
alegrias d'um passeio ao lado do seu pae.

E Magdalena vivia assim, contente, satisfeita, risonha e feliz, graas
ao systema d'educao empregado por Jorge.

A affabilidade, porm, do nosso capitalista, no se limitava  sua
filha, no se resumia s n'ella; estendia-se, como j dissemos, a todos
os que tinham o prazer de o tratar, fossem grandes ou pequenos, pobres
ou ricos.

Os proprios escravos eram os primeiros a estimal-o, porque no deixando
de se fazer tratar por elles com o respeito devido, tambem os no
olhava, como em geral, com olhos de despreso, nem os carregava
d'asperidades, maus tratos e indifferena.

Jorge acolheu, pois, affavelmente os seus novos socios e dirigiu-se ao
escriptorio, para resolver os trabalhos e negociaes do dia com elles.

Leu-se a correspondencia, fizeram-se deliberaes, disposeram-se algumas
transaces de commum accordo.

Jorge tinha no negocio uma longa pratica de muitos annos. O seu modo de
vr as cousas era d'um alcance vasto.

Luiz e Americo ouviam-o attentos e tomavam as suas palavras como
conselhos e lio.

Depois de uma hora de conferencia o capitalista sahiu.

Luiz ficou entregue  escripturao e Americo passou ao armazem a
dirigir o trabalho dos negros e caixeiros.

Os dois associados no mostraram o menor vislumbre do resentimento, nem
das ms disposies em que se achavam um com outro, na presena de
Jorge.

Bem pelo contrario, fallavam, consultavam-se, e olhavam-se, como duas
pessoas ligadas por estreitissimos laos de amisade e de sympathia.

A presena de Jorge continha-os dentro dos limites do respeito. Alm de
que, qualquer d'elles se julgava culpado perante a propria consciencia.
Luiz ainda podia alliviar a culpa com a ideia do sentimento que o
dominava, do amor que lhe estava enchendo o corao. Americo, esse, no
tinha uma unica appellao.

Jorge voltou de novo s duas horas e foi encerrar-se com Luiz no
escriptorio. Conversaram por largo tempo, e quando s tres da tarde
sahiu para regressar  chacara, chamou Americo e disse-lhe:

--O senhor Luiz sahe amanh no vapor das 8 horas para Macah. Vai a
negocios meus. Quando vier a correspondencia abra e d as suas ordens
como entender conveniente.

--Sim, senhor.

--Se at eu chegar, fr preciso alguma coisa queira mandar-me aviso ao
Botafogo.

--No ha de ter duvida.

--Adeus.

Apertaram as mos e Jorge sahiu.

Americo exultou de contentamento com a inexperada sahida de Luiz. Eram,
pelo menos, quatro dias de demora, e em quatro dias podia, pensava elle,
conseguir derrubar o seu rival do throno aonde comeava a sentar-se.

Luiz ficou triste com a noticia, pelo lado do corao. Assaltaram-o logo
as saudades por Magdalena, e, sobre tudo, a ideia de que o mulato
poderia aproveitar a sua ausencia para commetter alguma infamia.

Exultou, porm, pelo lado da consciencia, porque ia desempenhar uma
misso, em nome d'aquelle, a quem devia amisade, estima, confiana, e
fortuna at.

Estava d'um lado o amor, do outro o dever.

A ausencia ia ser por poucos dias e uma voz intima lhe segredava ao
corao, que havia de voltar a encontrar Magdalena, firme ainda no seu
juramento, constante no seu affecto.

Luiz confiava na pureza dos seus sentimentos, e tanto bastava para crr
que um anjo bom havia de proteger a sua causa.

Demais, bem sabia elle que o cabinda olharia pela sua filha.

Todavia Luiz no queria partir sem annunciar a Magdalena a sua ausencia.
Ainda tinha tempo.

No dia seguinte, s sete horas, j elle andava de p.

O mulato passra a noite a fazer e a desfazer planos. A ausencia do seu
associado sorria-lhe fagueiramente. No entanto nada poude decidir
positivamente, porque tinha a certeza de que Luiz tomaria todas as
precaues.

Alm d'isto, um dos maiores obstaculos que se levantavam, em face de
qualquer resoluo tomada, era o negro, era o cabinda de quem tinha, sem
duvida, muito e muito a receiar.

A ultima resoluo foi a de esperar o curso das cousas.

O mais provavel era que Luiz mandasse alguem a Magdalena, e n'esse caso
elle faria todas as diligencias para o evitar.

Luiz tambem no tinha outro recurso. Sahir sem avisar Magdalena no o
fazia de certo, no podia fazel-o. Ainda se a demora fosse d'um dia! mas
quatro pelo menos! Quatro dias era muito, sobretudo, para quem sente as
primeiras saudades que so sempre mais dolorosas, mais profundas.

Tomou a resoluo de escrever a Magdalena, mandando-lhe a missiva por um
dos negros do armazem. Nunca o cabinda foi to desejado, nunca!

Escreveu, pois, e incumbiu um dos escravos de chegar ao Botafogo, logo
que Jorge viesse da chacara.

s horas convenientes despediu-se friamente do mulato, que j andava de
vigia, e partiu para o local d'onde sahiam os vapores da carreira para
Macah.

Luiz levava a dr das suas saudades e os receios d'alguma infamia do
mulato...

s nove horas entrava Jorge no armazem.

Americo, depois dos cumprimentos do estylo, e d'alguns cavacos sobre a
correspondencia e negociaes do dia, deixou-o no escriptorio e veio ao
armazem.

Chamou os negros, interrogou-os a todos, perguntando se algum fra
incumbido pelo senhor Luiz de ir ao Botafogo levar algum recado.

Um d'elles respondeu que sim.

--A que? perguntou Americo.

--Levar isto  senhora moa.

--Deixa vr.

E tomou das mos do negro a carta fechada, que este lhe apresentou.

--No  preciso ires, eu mandarei l.

E guardou a carta, contente, n'uma alegria visivel, em que se traduzia o
sentimento d'uma vingana quasi realisada.

O mulato era um infame, e esquecia-se de que a Providencia vela sempre
pelos justos e pelos bons!

A grande questo d'Americo era, quando no conseguisse para si
Magdalena, empregar todos os meios para que Luiz a no conseguisse
tambem.

N'este desejo  que elle ia trabalhar, e, sobretudo, aproveitar os
poucos dias d'ausencia do seu socio, que, a bordo do vapor da carreira,
ia curtindo saudades, sempre com a imagem seductora e deslumbrante de
Magdalena a povoar-lhe a viso, e a apparecer-lhe em tudo!




XI


Americo, apenas Jorge sahiu, foi ao escriptorio, sentou-se, tomou uma
folha de papel e escreveu a seguinte carta:

                                                      Ex.^ma Snr.^a

O meu amigo e socio, Luiz de Mello, sahiu hoje, inesperadamente, para
Macah, no vapor das 8 horas, a negocios do seu ex.^mo pae. Deixou-me
uma carta para V. Ex.^a, recommendando-me que das minhas mos s sahisse
para as suas. Pediu-me tambem todo o segredo, e para que ninguem me
veja, peo a v. ex.^a o obsequio de apparecer esta noute, s 10 horas,
no caramancho da chacara, junto ao lago, onde me encontrar para
entregar a V. Ex.^a a referida carta.

                                                      De V. Ex.^a, etc.,

                                                     _Americo d'Abreu._

Fechou, e subscriptou a Magdalena, sahiu, chamou um negro de fretes e
enviou-o ao Botafogo,  chacara de Jorge.

Voltou ao armazem, mas em sobresaltos, com o receio de que, uma recusa
de Magdalena lhe poderia frustrar to magnifico ensejo.

A formosa filha do cabinda ficou duplamente surprehendida com a carta do
mulato.

D'um lado a ausencia de Luiz, do outro o convite nocturno que Americo
lhe fazia.

Teve o presentimento d'uma traio, d'um ardil, d'um estratagema, e quiz
responder immediatamente que no concedia a entrevista pedida.

Mas Americo fallava-lhe d'uma carta de Luiz, e ella hesitou.

Ficou na alternativa d'uma duvida, espinhosa, inquietadora, turturante
mesmo. Acceder era collocar-se n'uma posio altamente compromettedora;
no acceder, se Luiz havia effectivamente escripto a carta, era um
desgosto grandissimo.

Magdalena via-se pela primeira vez entre as vicissitudes d'um amor, que
nasce espontaneo, caudaloso e vehemente.

Estava na dolorosa espectativa d'uma grandissima hesitao, quando
entrou o cabinda.

O negro era n'aquelle momento o anjo bom de Magdalena. S elle a podia
tirar dos embaraos que a prendiam.

Magdalena exultou de alegria, vendo-o entrar.

--Ah! ainda bem que vens! exclamou ella, correndo para o negro. No
podias chegar em melhor occasio.

--Quer alguma cousa ao negro a senhora moa?

--O senhor Luiz foi para Macah.

--O branco? perguntou o cabinda admirado.

--Sim.

--Quem o disse  minha filha?

--O senhor Americo.

--O mulato? interrogou o negro, mais admirado ainda.

--Sim. Escreveu-me esta carta a dar-me a noticia, e a pedir-me para esta
noute s 10 horas apparecer no caramancho do lago, para me entregar uma
carta de Luiz.

--E porque a no mandou o mulato?

--Porque s a mim a quer entregar.

O cabinda sorriu-se n'uma expresso d'ironia e d'ameaa.

--E a senhora moa o que responde?

--No sei. Tenho mdo. Tu que dizes?

--Que a minha filha diga ao mulato que venha.

--Mas...

--No tem duvida. O cabinda c est! A ona no tem mdo ao tigre que
assalta o seu covil. O negro tem visto muita jiboia!

Magdalena, para no demorar mais o portador, tomou uma meia folha de
papel e escreveu o seguinte:

Espero-o  hora marcada.

            _Magdalena._

Dobrou e deu ao cabinda, dizendo-lhe:

--Toma; d ao negro que est esperando.

--No, senhora moa. O negro no quer que o seu parceiro o veja.

--Porque?

--A minha filha o saber. O mulato no  bom.

Magdalena chamou ento o portador e mandou-o com a resposta.

Quando voltou j no encontrou o cabinda.

Sentou-se ao piano, mas agitada, convulsa, nervosa e inquieta.

No lhe sahia da imaginao o encontro que ia ter, e apesar de toda a
sua ingenuidade, Magdalena tinha quasi a certeza de que ia commetter uma
imprudencia.

O cabinda no era, porm, um homem capaz de consentir que alguem
offendesse a sua filha. Elle que lhe disse que mandasse apparecer o
mulato,  porque l tinha os seus planos.

No entanto, Magdalena estava collocada entre as saudades que a pungiam,
lembrando-se da ausencia de Luiz, entre os receios da entrevista
concedida ao mulato a horas to pouco apropriadas, e os grandissimos
desejos de receber a carta, que o seu eleito lhe havia deixado.

S n'isto a formosa menina pensava, s isto a absorvia completamente. Os
seus livros predilectos, as suas florinhas queridas, os seus passeios
pela chacara, foram esquecidos, foram olvidados.

Era dolorosa a posio de Magdalena. Nem uma irm, nem uma amiga a quem
podsse abrir o seio, com quem desabafasse, com quem repartisse o enorme
peso, que a estava opprimindo!

Ainda hontem a embalavam as harmonias dulcissimas das palavras de Luiz,
os perfumes magicos das flres mimosas do amor, que elle lhe protestava,
os sonhos deliciosos da ventura to suspirada!

Pobre creana!

Americo recebeu a resposta de Magdalena n'uns alvoroos de louca
alegria. O mulato esperava agora, no meio d'uma grande anciedade, que a
noute descesse, com o seu manto de sombras e de escurido, para realisar
os seus planos.

A carta de Luiz a Magdalena estava em seu poder. O mulato commettera a
infamia de a abrir, de devassar o seu conthedo.

Para elle, aquella folha de papel, era uma preciosidade que valia muito.

No podia ella servir para comprometter o seu socio, o seu rival? No
bastaria que elle a apresentasse a Jorge, para que este o despedisse
logo, sem o minimo processo investigatorio? No revelava ella um abuso
da parte de Luiz?

O mulato ia fazendo todas estas consideraes, no meio da alegria que o
dominava.

O bilhete que Magdalena mandra a Americo no seria tambem sufficiente
para mostrar a Luiz que ella aproveitra a sua ausencia, para conceder a
outro uma entrevista, a horas, de mais a mais, to pouco proprias?

No entanto, a formosa virgem, estava oppressa debaixo dos sobresaltos e
dos receios, das esperanas e das saudades.

Valia-lhe o seu piano. Unico amigo, unico confidente, unico sacrario,
permittam-me a comparao, onde espraiava os sentimentos, que a
agitavam, o harmonioso instrumento devia de futuro ter uma grandissima
pagina no seu livro de recordaes.

Se elle chorava com as lagrimas d'ella! se elle enchia-se de
enthusiasmos com as suas alegrias, gemia com as suas saudades, e todo se
deliciava e desatava em celestes harmonias, quando lhe encrespavam o
seio as ondas bellas dos effluvios do amor, douradas pelas mil palhetas
resplandecentes do sol da ventura!

Era com elle que ella sonhava os mundos vaporosos, as vises seductoras
d'uma existencia recamada de sorrisos, alastrada de flres, embriagada
de perfumes e cega por excessos de luz divina!

Era elle quem tinha sempre um echo para as vozes do seu corao, um
suspiro para cada anceio de sua alma, um gemido para cada ai, exhalado
de seus labios, formosos, como rosa mal aberta!

Conhecia-a de creana, suavisra-lhe as primeiras saudades, as saudades
de sua me, e em todos os tempos a acolhera caricioso, cheio de
affectos, magico de harmonias.

Quem sabe ainda para o que elle estaria reservado?

Agora, era elle ainda quem, paciente, estava soffrendo as impetuosidades
da anciedade que lhe opprimia o peito debil!

O cabinda, o negro fiel, o escravo dedicado, o amigo sincero, esse
andava no lago, em volta do caramancho, a sondar todos os cantos, a
espionar todos os nichos, como quem estivesse encarregado de estudar a
topographia do local.

O negro l tinha a sua ideia.

No era inutil, no devia sel-o, aquelle trabalho, porque quasi se lhe
liam nos grandes olhos os pensamentos que lh'o impunham.

E Luiz?

O amoroso moo, longe do Rio de Janeiro, l tinha no seio a imagem de
Magdalena, o sentimento no corao, as saudades na alma e o receio a
agitar-lhe todo o ser.




XII


 noute, formosa como as da America, resplendente de luar, bordada de
estrellas, impregnada de perfumes e suave de harmonias. Despenham-se
murmuradoras, por entre as sinuosidades graniticas, as aguas das
cascatas e das cachoeiras, formando lindissimos rolos de espuma, at
cahirem no vasto leito, onde a fada palpitante, a rainha voluptuosa,
mira languida o seu rosto prateado. Agitam-se levemente, ao sopro suave
da aragem nocturna, os calices das flres aromaticas, e os ramos, as
folhas viosas das arvores gigantes das florestas.

Este meio silencio da natureza, este conjuncto de vozes indistinctas,
sahido do seio das vastas mattas; a luz, que jorra brilhante das perolas
engastadas na immensido azul d'um co tropical; as ondas inebriantes,
embriagadoras, dos perfumes, que de toda a parte se levantam invisiveis;
os cantos magicos, doces, harmoniosos, de algumas das aves nocturnas dos
climas do novo mundo; e, finalmente, este qu ignoto, indefinivel, que
distingue as noutes da America das noutes da Europa, parece que do 
alma mais desejos, aos desejos mais fogo, e ao fogo mais labaredas.

 calido o ambiente. O corpo ressente-se d'este estado da athmosphera, e
verga ao pso d'uma languidez, semilhante  somnolencia voluptuosa
produzida pelo opio.

Reclina-se o corpo; os braos pendem como canados; a cabea cede
naturalmente e cahe meio adormecida; cerram-se os olhos, e n'este
estado, que no  somno, nem delirio, nem sonho, nem embriaguez, mas que
 um composto suave de tudo isto, o espirito va, como as aguias das
montanhas, s regies formosas do puro idealismo, onde o leva a
phantasia ardente, que vegeta dabaixo do sol dos tropicos; a alma anceia
em ondas infinitas; o corao palpita fremente de desejos, e ha em tudo,
n'esses momentos, um desabrochar opulento, luxuriante, e vigoroso d'essa
poesia que se sente, que se gosa, que extasia, que brota, invisivel, das
harpas, sempre afinadissimas, do immenso vate chamado--natureza.

 noutes do Brasil!  noutes de poesia e d'encanto! desenrolae o vosso
manto de mysterios, e deixae que as juritys arrulem amores nos ninhos
aveludados, e os sabis _desfiem as perolas_ dos seus cantos amorosos!

Deixae que cada sr palpite, que cada amor se expanda, que cada alma se
banhe na luz vaporsa do ideal da ventura!

 noute, pois, e noute deslumbrante. O Botafogo repousa depois d'um dia
de vida mais. Soaram tres quartos depois das nove horas na torre
distante da egreja da Gloria, que, do seu morro, domina a vasta bahia do
Rio de Janeiro. As aguas, da enseada do Botafogo esto dormentes,
quietas e serenas. So um espelho onde a lua e as estrellas reflectem os
seus raios resplandecentes. Vaga mansamente ao longe um barquinho
solitario, d'onde, nas pandas azas da virao perfumada, se eleva uma
voz sonora, suave e sympathica, soltando no meio do silencio umas
estrophes d'amor.

 a voz d'algum vate enamorado? ou d'algum sr que geme saudades?

No sei.

O silencio da noute estende-se ainda aos jardins e  chacara de Jorge de
Macedo.

O negro cabinda e Magdalena seguem, fallando baixinho, uma das compridas
ruas, que vo desembocar ao lago.

Magdalena vae trmula e receiosa. O cabinda animado e faiscando
centelhas de fogo dos seus grandes olhos.

--J l estar, cabinda? perguntava Magdalena.

-- cdo ainda, senhora moa.

--Vou com tanto mdo.

--O negro l hade estar, minha filha.

--Corre logo, se fr preciso, ouviste?

--De traz dos maracujs, o negro hade vr tudo.

Chegaram ao lago. Era completo o silencio. Magdalena entrou para o
caramancho. O negro foi cauteloso collocar-se atraz d'uma das paredes
de cips, que o formavam.

--O negro fica aqui, senhora moa.

--Bem, no falles nem bulas que podes trahir-te.

--Descance a senhora moa.

E Magdalena comeou a pensar na imprudencia que estava commettendo.

Todavia, o que no faria ella para receber uma carta de Luiz, de Luiz
que amava tanto, e que se ausentra sem tempo, ao menos, para se
despedir?

Esteve assim alguns minutos. Ouviam-se apenas o bulir das folhas das
mangueiras, a respirao alterada de Magdalena, e o murmurio das aguas,
caindo no lago pela boca do trito de marmore.

O muro, a que se encostava o caramancho, tinha a altura de metro e
meio. Os ramos folhudos d'uma grande tamarindeira furtavam-o, n'aquelle
logar, aos raios prateados da lua, deixando-o envolvido n'uma escuridade
vaga e indecisa.

De subito a cabea d'um homem surgiu do lado de fra; conservou-se
attento alguns segundos, como sondando o local, elevou-se depois e
saltou para dentro cauteloso.

Era Americo. O negro estava d'espreita e j o tinha sentido.

O mulato rodeou p ante p a grande tamarindeira e dirigiu-se ao
caramancho. Vinha receioso em extremo, e Magdalena, que lhe ouvira os
passos, no o esperava mais animosa.

Chegou  entrada do caramancho.

--Magdalena! murmurou elle baixo.

--Senhor Americo! respondeu ella timidamente.

--Esperou muito, no?

--No; mas agora no posso demorar-me.

--Estamos ss.

--Estamos.

--Ainda bem.

E chegou-se mais a Magdalena e ia a tomar-lhe as mas, quando ella
retirando-as accudiu:

--Perdo, senhor. Creio que foi para satisfazer ao pedido do seu amigo
que aqui veio, e j lhe confessei que no posso demorar-me.

--Para satisfazer ao pedido do meu amigo! No, no foi para isso, minha
senhora.

--Para que foi ento? acudiu Magdalena de subito.

--Foi para lhe dizer que a amo, que a adoro, que sou louco, muito louco
por V. Ex.^a!

--Senhor Americo!

--Oh! no se afflija V. Ex.^a Usei d'este estratagema, porque sei que no
conseguiria d'outro modo estar junto de V. Ex.^a Sei que o seu corao se
inclina para Luiz, mas V. Ex.^a  que no sabe os sentimentos que o
dominam a elle. Julga, no meio da sua ingenuidade que elle a ama tambem,
mas creia, que s a ambio o domina. O amor, o fogo, o delirio  nosso,
 dos brazileiros, que nascem debaixo d'este sol que queima, e no dos
que nascem entre os gelos que petreficam.

--Perdo ainda uma vez, senhor. Ou vem para me dar a carta de Luiz, ou
nada tenho que fazer aqui e retiro-me.

--No; V. Ex.^a no se retira assim. J que consentiu em me receber a
esta hora, hade fazer o sacrificio de ouvir-me.

--No tenho que ouvir-lhe, senhor.

--Mas tenho eu que dizer-lhe. Diga-me V. Ex.^a: porque ha de acceitar os
galanteios calculados de Luiz e desprezar o sentimento verdadeiro que
lhe offereo?

--E quem lhe d o direito de m'interrogar?

--A minha superioridade n'este momento. Esquece-se de que estamos ss?

--Oh! mas isso ...

--Para estranhar talvez, . Mas V. Ex.^a no sabe, no comprehende os
desejos que me devoram. E a indifferena de V. Ex.^a excita-me em vez de
esmagar-me. Oh! por piedade Magdalena!

E segurou-lhe uma das mos, tremulo, nervoso, febricitante.

--Deixe-me, senhor!

E quiz fugir-lhe. Americo, porm, n'um momento d'exaltao deitou-lhe as
mos s tranas dos cabellos para a deter. Magdalena exforou-se e poude
desembaraar-se d'elle, deixando-lhe nas mos uma das fitas que lhe
ornavam a cabea.

--Oh o senhor  um infame!...

--Mas no ha de fugir-me assim!

E seguiu-a continuando:

--Ao menos hei de levar um beijo...

E tinha prendido Magdalena, e ia commetter a infamia, quando sentiu o
pescoo apertado vigorosamente por uma mo de ferro. Era do cabinda.

Americo soltou um rugido.

Magdalena exclamou vendo-se livre do mulato:

--Que fazes, cabinda!

--Mato a serpente, senhora moa!




XIII


Houve um momento de silencio, curto, mas terrivel para Magdalena, que,
ao ouvir o cabinda, julgou que elle ia espatifar o mulato, e para este
tambem, vendo-se em face d'um inimigo to possante.

A lua inundava, agora, com os seus raios deslumbrantes o palco, onde se
representava aquelle drama; e para contraste das paixes, que alli se
agitavam, n'aquelle instante, um sabi, poisado nos galhos d'uma
jaqueira, comeou a vibrar as doces melodias do seu canto suavissimo.

Magdalena estava tranzda de medo; o mulato espumante de raiva, no meio
da sua impotencia; e o cabinda risonho, mas n'uma alegria feroz.

Era um quadro digno d'um pincel aprimorado.

--Mato a serpente, senhora moa! dissera o negro a Magdalena, quando
esta lhe perguntava o que fazia, vendo-o agarrado ao pescoo do infame
mulato.

Este, ao ouvil-o sentiu-se como aniquilado, mas por um exforo, proprio
do instincto dos da sua raa, poude desembaraar-se do negro, guardou
rapido a fita das tranas de Magdalena, que lhe ficra nas mos, recuou
dois passos, e de subito agitou no ar um punhal, cuja lamina pequenina
brilhava aos raios da lua.

Magdalena, como que perdida, cheia da coragem, que os grandes lances
despertam nas almas mesmo mais fracas, correu para Americo, a
suspender-lhe o golpe, que ella julgava imminente sobre o cabinda.

N'este momento, porm, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma
comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mo vigorosa do negro.

Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os
braos podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas
victimas, rasgando dois seios.

E assim aconteceria, se no fosse uma imprudencia de Magdalena,
imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente no teve
resultados funestos.

Quando a fora dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe,
chegava Magdalena collocando-se entre elles.

Suspenderam-se ento, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva,
o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.

--Que faz, senhora moa! gritou o negro.

--Ests doido, cabinda!

-- o que te vale, canalha! acudiu Americo.

--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas no
tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!

--Creana!

--Lacaio!

O cabinda era um vulco latente. Continha-o a presena de Magdalena. No
entanto, as foras, ou antes, a paciencia, ia comeando a faltar-lhe e
ai do mulato se a lava podesse romper!

Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu
atrevidamente a Magdalena:

--Ponha essa palavra na bcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.

-- senhora moa! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para
Americo.

--No, que te enlameias!

--Respeito-a porque  mulher, porque  uma creana. Todavia, creia que
no ficaremos sem saldarmos as contas.

--Quando quizer. Vamos, cabinda.

E Magdalena, aquella creana que ns conhecemos, bondosa, meiga,
delicada, sensivel, tomou, lanando ao mulato o seu olhar expressivo de
clera, o negro pelo brao e arrastou-o consigo, affastando-se em
direco a casa.

O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse  sua filha, mas
no sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:

--O negro c fica. Cautella com o cabinda.

Americo tragou a ameaa em silencio e ficou s, no meio da febre da sua
exaltao, que pouco a pouco devia ir diminuindo.

Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe,
porm, a lembrana de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante
a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fra.

Estava canado.

As coisas comeavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as
offensas e as affrontas que havia recebido.

Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingana, mas teve um
momento em que quasi succumbiu.

Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz,
Magdalena e o negro.

A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.

O primeiro ensejo, a primeira occasio favoravel, fra de toda perdida,
e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posio.

Os cuidados e as precaues haviam de redobrar-se agora contra elle, e
isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem
d'astucias e d'ardis.

No entanto, as esperanas de derrubar Luiz do altar do corao de
Magdalena, no o abandonaram de todo. Mais ou menos l lhe floriam no
corao, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.

No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa,
depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitra, ia-lhe dizendo,
com ar de quem lhe impunha a sua vontade:

--Olha que no quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.

--Descance a minha filha.

--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?

--Nem o branco?

--Nem esse.

--Ento o mulato hade ficar assim?

--Perdoo-lhe, Cabinda.

--Mas o negro  que no perdoa senhora moa.

--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.

--E se elle voltar? o mulato  mau...

--Se voltar, fallaremos ento.

--Oh! senhora moa! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda
estende-o logo como o caador  ona do mato.

--J te disse que no fazes nada.

--A minha filha manda.

--E tu obedeces.

Tinham chegado  escadaria de pedra que conduzia  habitao. A preta
Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave,
vinha descendo j para ir procural-a, estranhando que contra o seu
costume, a senhora moa andasse pela chacara quella hora.

Magdalena apenas a viu perguntou logo:

--Onde vaes, Maria.

--Ia procurar a senhora moa.

--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear at ao lago,
acompanhada do cabinda.

--Eu no via a senhora moa, e fiquei logo com cuidado.

--Obrigada. Estava a noite to bonita que no pude resistir-lhe.

--Fez bem, senhora moa.

--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava
cantando um sabi!

--Bonito, Maria!

E n'isto foram entrando em casa.

Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos
Pescadores. Levava estampado no rosto a expresso d'um grande
descontentamento. A decepo que soffrera fra grande e, sobre tudo,
inesperada.

Depois, no era s isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que
tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo
que Magdalena no deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto
tinha acabado de passar-se.

Americo reconhecia agora a falsidade da sua posio.

Alm d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era
mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de
Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.

O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos
acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era
um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o
inflammava. E bem ameaado deixra o mulato antes de partir para Macah,
fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria
de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse,
injuriasse ou affrontasse.

Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexes que
lhe suggeria o seu espirito, no deixava, ainda assim, de conceber uma
esperana. Desanimar, no desanimava.

Tinha a pertinacia dos da sua raa pouco pura, a teimosia dos que,
dotados de maus sentimentos e indole perversa, no duvidam nem hesitam
em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins,  medida que os
obstaculos, que as barreiras se vo levantando.

Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o
bilhete de Magdalena e a fita de sda que as tranas dos cabellos d'ella
lhe deixaram nas mos, dizia com expresso de grande malvadez:

--Ainda c est isto! Valem e podem muito estes objectos!




XIV


Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se.
Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e
da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada
vingana.

Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macah.

Vinha ancioso o pobre moo; eram vehementes os desejos de vr Magdalena.

Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se
alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de
ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e
sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia
de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.

Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escurido, com toda a sua noute;
e a esperana, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso
sol, com todos os suaves perfumes das flres da sua primavera.

Alm d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato,
seu socio.

Teria elle respeitado Magdalena?

Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua
dolorosa ausencia?

Ninguem podia responder-lhe; e vido de saber tudo isto, vido de vr
Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas
vezes um protesto d'amor,  que elle entrava agora em casa, trazendo
tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commisso, de
que fra encarregado.

Americo no o esperava de volta to cedo, e sentiu o que quer que  ao
vl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.

Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam
desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a
salvao, ou evitar-lhe um naufragio?

Esperanas, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora
poucas, mas assentes em que base  que elle no sabia. Resultados da sua
indole, da sua perversidade.

Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma
vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso
preferia antes o esmagamento, uma quda, uma derrota completa, que lhe
inutilisasse todos os recursos. Ento sim, antes d'isso, no desistiria
dos seus intentos.

No entanto, Luiz, entrando em casa, s oito horas da manh quiz
mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiana em si e em Magdalena,
e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o
no estivesse remordendo intimamente.

O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.

A sua pallidez, ou antes a mudana de cr que se operara no seu rosto,
com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram aps as primeiras
impresses, para dar logar  viva expresso dos desejos que o assaltavam
de recomear a luta com o seu antagonista.

Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar
sobre o seu adversario a fora moral de que precisava. Era uma
estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.

Luiz tambem no era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e
alm d'isso era... portuguez!

s oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter
preparado.

Americo l estava, sentado a lr a correspondencia.

Nem sequer olhou para o seu socio.

--Fez-se algum negocio? comeou Luiz.

--Bastante, respondeu Americo seccamente.

--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fra?

--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma
d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.

Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se
subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis
convulses nas mos.

--Mentes! bradou o moo.

--Mentirei...

--Mas como um vilo!...

--No entanto tenho as provas comigo.

--Mostra-as, se s capaz!

--Julgas ento que era chegar, vr e vencer! Enganas-te. Magdalena
disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia,
sem nunca pensar em tomar a srio os teus protestos d'amor.

-- falso, repito! E seno mostra-me as provas ou esmago-te como quem
esmaga um reptil venenoso!

--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.

--Fazes-me perder a razo, e depois...

--Conheces esta letra? l...

E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a
entrevista.

--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trana dos
seus cabellos... Que dizes agora?

Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento.
Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados,
amalgamados, n'um sentimento que a penna no pde traduzir.

Vacillava-lhe a razo, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de
papel, que lhe estava queimando as mos, como fogo do inferno. Era
incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia
tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde
d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas
como, se as provas estavam agora na sua mo! Passou-lhe por diante dos
olhos a viso medonha da vingana. Mas a Providencia no desampara os
que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:

--To infame  ella como tu!...

--Ento j no duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado
em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle
podsse dirigir-lhe.

--No sei. Todavia quem me affirma que Magdalena no foi forada a
escrever estas linhas, a pr o seu nome n'esta folha de papel e a
entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?

--Com isso poder ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do
seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete
falla bem alto.

--Oh! mas isto  incrivel! isto  um sonho!...

--No  sonho, no.  a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos.
Quando julgavas haver vencido, vs a victoria do meu lado. Acontece
muita vez. Alm d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a
mim? O seres portuguez? o seres branco?  justamente por isso que menos
devias confiar em ti. Se tenho cr... sou brazileiro!

--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento no
pde ser classificado seno de infame!

--Embora! com tanto que eu vena...

--Isso  o que ainda no est decidido. No julgues que fico com o que
me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforos para descobrir
a verdade. A letra do bilhete e a fita de sda so de Magdalena, no ha
duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia,
commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, no te perdo,
Americo; as contas sero ento comigo.

--Que pretendes, pois, fazer?

--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!

--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um
homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse
modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?

--Muito cynico s, Americo! bradou Luiz espumante de clera. E tu,
canalha, no te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para
lhe illudires a filha! Qual de ns a deshonra mais? eu que me julgo hoje
com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste
necessariamente da sua ingenuidade, ou a ests infamando, faltando 
verdade, e ento s duplamente abjecto e criminoso?

--Indaga.

--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem s devia
merecer-te todo o respeito.

--Em todo o caso restitue-me isso.

--O bilhete e a fita? nunca!

--So meus.

--Que importa,

--Importa muito. E, ou m'os ds ou...

--As ameaas depois, agora... a verdade!

E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia
entrado.

O mulato estremeceu de medo. Comtudo, j tinha a consolao de ter
amargurado e bem o corao de Luiz.

Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da misso de que fra
encarregado a Macah, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.

O pobre moo ia fra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a
verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou
menos no seu perjurio.

N'este estado, seguiu para o Botafogo.




XV


Eram onze horas quando chegou.

Magdalena havia acabado d'almoar e viera para o salo, no proposito de
espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas
esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo _Cames_ do nosso
immortal Garrett.

Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:

      Longe, por esse azul dos vastos mares,
      Na solido melanclica das aguas,
      Ouvi gemer a lamentosa alcyone
      E com ella gemeu minha saudade...

quando Luiz surgiu  porta, atravs do reposteiro, que a velava.

Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas
rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrena.

Magdalena no o esperava e, ao vl-o entrar deixou cahir o livro das
mos e correu para elle, gritando commovida:

--Ah! ainda bem que veio!

Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mos s mos d'ella que as
procuravam, e recuou dous passos dizendo:

--Perdo, minha senhora, se venho interrompel-a!

--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.

--No venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos
seus caprichos de creana! Lamento as horas que perdi, pensando em V.
Ex.^a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na viso
seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...

--Desconheo-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz
em lagrimas.

--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.^a  uma mulher, como
todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel
das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas
pombas immaculadas, que o mundo no sabe apreciar, infelizmente! Porque
a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que  apenas a concha
da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor,
capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha
aos ps, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos
envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doura na voz e o co nos
olhos, quando, afinal V, Ex.^a s preparava a victima para lhe despedir a
punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu
sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.^a era a mascara, debaixo da
qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade,
emfim!

--Oh! eu no lhe mereo isso! exclama ella com duas lagrimas nas
pupillas.

--Bem sei; so ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e
sobretudo, digno de V. Ex.^a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos ps,
a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenas e
aspiraes, em quanto que V. Ex.^a, zombando da sua f, zombando do
sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle,
como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente
bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.^a! O que no sei
 como V. Ex.^a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada,
pe em prtica os principios da philosophia d'ella! O que no sei  como
V. Ex.^a, sendo to nova, tem j tanta maldade!

--Por piedade, Luiz, no me accuse, no me affronte d'esse modo, porque
eu estou innocente!...

--Innocente!...

--Innocente, sim! E se no, diga-me qual  o meu crime, a minha culpa, o
meu peccado!...

--Ainda m'o pergunta! J o esqueceu, talvez, como pde esquecer que
invocra, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua me,
para me fazer um protesto d'amor!

--Oh! muito, eu... bem v que no tenho foras para tanto!... soluou
ella, inundada de lagrimas.

-- muito!  muito! diz V. Ex.^a! O que no ser, ento, rojar um homem
aos ps d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro,
acolher cheio d'esperanas um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica
sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse
homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o
espero a tantas horas da noute! O que ser isto, minha senhora, se acha
muito o que me est ouvindo?

--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!

E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos ps, soluando convulsivamente.

Eram as consequencias da sua imprudencia!

--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero
justificaes. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.^a teve
razo. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome
pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas
por brazes as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por
divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.^a  a senhora D. Magdalena, a
filha riquissima, a herdeira unica do ex.^mo capitalista Jorge de
Macedo!

Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma
violenta commoo nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos,
perfilou-se, e exclamou n'uma como exploso, que era a prova mais
evidente da dr aguda que estava sentindo:

--Basta, senhor! nem tanto! No se abusa impunemente da fraqueza d'uma
mulher, e  mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de
sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devras a
loucura, que me obriga a esta humilhao em que me vejo, ha meia hora,
na sua presena! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos,
ainda em si. Julgou-me uma creana imprudente, uma mulher vulgar, uma
mulher leviana! Estava no seu direito! O que no tinha era direito para
me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque no merece!
No quer justificaes; pois bem, no as ter e se acaso voltar a
pedir-m'as no se admire de lh'as recusar!

--Ah! e, demais a mais,  orgulhosa!

--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me to pouco
benevolamente?

--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.

--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que est fallando com uma mulher!
Consciencia!

--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho
aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.^a n'ellas. Ahi lhe
ficam. O que unicamente lhe peo,  que se esquea para sempre de mim, e
que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!

E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a
Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levra, n'aquella noite
fatal da entrevista junto ao lago.

Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio
convulso com uma das mos, amparando a cabea com a outra, e exclamando,
debulhada em pranto:

--Ah!  assim que se paga um amor como este!...

E soluava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!

Pobre creana!

Comeava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As
auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam,
e aps os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.

E como ella no soffria agora!

Luiz fra cruel tratando-a to asperamente, mas  certo que no podia
fugir a uma exploso d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonana,
depois das arguies o arrependimento.

Em theoria ninguem deixar de censurar o pobre moo, mas na pratica,
nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de
fazer o que elle fez. Era uma coisa que o corao lhe exigia, uma
satisfao dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a
respirao.

Deixar d'amal-a, no deixava elle, e este incidente, que dera causa a
lagrimas, d'um lado, e mgoas do outro, no fez seno accender-lhe mais
as labaredas que lhe queimavam o seio.

Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempo e
as suas alegrias.

Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A
redempo e as alegrias haviam de vir tambem; no podiam faltar,
sobretudo a quem era to digna d'ellas.

No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanas de
remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso
amor, havia feito desencadear.

N'isto entrou o cabinda; vinha trazer  sua filha um ramo de flores do
jardim. Ficou, porm estupefacto, vindo encontral-a soluando, quando
esperava achal-a contentissima.

O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu
com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos ps,
exclamando:

--Porque chora a senhora moa? o que tem a minha filha?

--Sou muito desgraada, cabinda!

--O branco...

--Maltratou-me... sahiu... j me no ama!...

O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura
raa africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos
fuzilavam-lhe relampagos, as mos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe
d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:

--Oh! o branco  bom! Foi o mulato! o mulato  mau! Mas o cabinda ainda
c est, e a minha filha hade ser muito feliz!




XVI


Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou 
chacara, depois de ter deixado o armazem.

Magdalena chorava ssinha no seu quarto.

Sympathicas lagrimas aquellas!

Eram as lagrimas verdadeiras, das dres d'um amor casto, puro e ardente,
deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas
do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual
ellas brotavam!

Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas
aucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenas!

Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora
deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o co,
com toda a magia dos seus infinitos esplendores!

Eu no sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas
d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os
aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na
sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma
paixo ardente, mas pura, casta e honesta.

Parece-me que no.

As lagrimas teem ento a fascinao irresistivel da sympathia, teem o
condo poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.

Eram assim as lagrimas da Magdalena.

No entanto, o momento d'exaltao havia passado; haviam cessado os
pequenos assomos de clera, que lhe despertaram as asperezas, com que
fra tratada por Luiz.

Aps o seu desabafar, por meio d'uma exploso, em que a vimos, reagindo
contra as palavras do sympathico moo, que a estavam ainda ferindo to
injustamente, veio a reflexo e com ella a desculpa, com a qual
Magdalena ia j cobrindo Luiz.

Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque no deixa de ser amor.
Exalta-se facilmente, at com as coisas mais pequeninas, que no lhe
escapam, que elle descobre sempre, mas no resiste nunca a proclamar a
sua absolvio.

Se  amor verdadeiro!...

Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguies
irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido
e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o
homem por quem palpitava o seu corao, por quem floriam as rosas
brancas da sua alma candida e perfumada.

Atravez do tenue vo do resentimento em que ella estava, e que mais ou
menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do
sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a
impressionra, e que ella no podia deixar de contemplar com olhos
affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.

Pobre creana, que o amor comeava por beijar to phreneticamente!

Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vos!

Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o no
estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces
beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha
adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.

Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu corao de
pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se
immediatamente para l, pensando, fra de qualquer duvida, que
Magdalena, a no estar encommodada, no faltaria a esperal-o, com os
seus affagos de filha estremosa.

A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais
sobresaltou ainda Jorge.

--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve
ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as
lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expresso que no a trahisse.

--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e j um
pouco opprimido.

--La vou papae!

Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e,
diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por
extremos d'affeio filial, lanou-se-lhe ao pescoo, tentando assim
encobrir o rosto.

--Papae! disse ella com voz meiga.

--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e
formosos cabellos.

--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais
impressionada. Porque?

Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabea nas
mos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, brio d'affeio paternal.

--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle,
mudando subitamente d'expresso, que ainda tens nos olhos os vestigios
das lagrimas?

--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.

--Tu, sim, minha filha; ento no estou eu vendo que choraste.

--No, papae, engana-se.

--Diz a verdade, Magdalena.

Magdalena, debaixo da impresso que a dominava fra, pouco e pouco,
sentindo subir de novo do corao aos olhos as lagrimas, que tentava
sopear. Era um vulco latente, prestes a romper n'uma erupo medonha.
Quando, porm, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a
verdade, a afflicta menina no poude conter-se por mais tempo, no
poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no
seio, e lanou-lhe novamente os braos ao pescoo, occultando o rosto, e
exclamando soluante:

--Sou muito desgraada, papae!

E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo
copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.

Jorge sentiu uma dr aguda, profunda e intensa, dentro do seu corao de
pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeio no mundo, a
chorar, chamando-se desgraada!

Elle que daria tudo, a vida at, para que Magdalena no soffresse uma
dr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a
dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar
a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir
achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores
cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.

Todos os paes so extremosos e dedicados, e no ha desgosto, por maior,
que possa fazer estancar a fonte limpida das affeies paternas. Jorge
de Macedo, era porm, duplamente affeioado a sua filha, porque era ao
mesmo tempo, pae e me. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este
exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, no s o
thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, seno
tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu
verdadeiro e acrisolado amor.

Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella exploso de pranto,
sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguadissima ponta.

--Desgraada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por
piedade, diz-me o que tens!

--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluando ainda.

--Filha! minha filha, no me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te
aconteceu!

E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam
crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se
haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranas.

Magdalena no podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porm, cada vez
mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:

--Falla, filha. Tens aqui o corao d'um pae, doido d'amor por ti, para
acolher as tuas mgoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos.
Magdalena... Magdalena...

--Deixe-me descanar, papae... deixe-me serenar, e no se
afflija....no?

--Ento para que choras d'esse modo?

--Oh! exclamou ella, porque sou uma creana, papae!...

E sentou-se, como para descanar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe
com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes
inspira os poetas, e as mos delicadas entrelaadas uma na outra. Jorge,
ao vl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e
carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de
subito:

--No, papae, sente-se aqui, ao meu lado...

--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem
sabes como devo estar soffrendo!

Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeio, que seu pae lhe
votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam
alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mos:

--E no se zanga comigo?

--No, minha filha.

---Ento oua-me.

E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passra, desde o jantar dos
seus annos at  scena violenta, que dera logar quellas afflies e
quellas lagrimas. Mencionou tudo, no esquecendo a minima das
circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio
profundo, religioso at. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para
isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava
elle de suppr siquer o que se havia passado.

Alma sensivel, porm, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e no a
condemnava, no. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narrao
de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros
dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto,
ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista,
junto ao lago da chacara, Jorge no poude occultar a sua exaltao e
levantou-se exclamando:

--Infame! Era assim que me queria pagar o quinho da minha fortuna, que
ha dias lhe dei!...

E Magdalena proseguiu na exposio dos acontecimentos. Nada escondeu,
nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e s a verdade
presidiu a narrao de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de
outro modo? No era Jorge seu pae? e uma pae to benevolo? to meigo?
to bondoso?

Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a,
dizendo-lhe:

--No te afflijas, minha filha. O que preciso  que me digas se gostas
muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.

--Oh! muito, meu papae!

--E no te enganars?

--No, eu bem o sinto.

--Ento ainda hasde ser muito feliz.

Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da
carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.

                                                     _Meu socio e amigo._

Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao
senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica
esperando o seu

                                                       Socio amigo, etc.

                                                     _Jorge de Macedo._

E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo  cidade,
ficavam Jorge e Magdalena entregues  refeio do jantar, conversando j
mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das
flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.




XVII


No ha nada mais caprichoso do que o corao humano, e, por
consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel.
Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha,
outras tantas, com indifferena para sacrificios, que, d'um s jacto o
deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos
motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a
mesma causa, indo, muitas vezes, at ao ponto de juntamente chorar e
rir, de implorar e impr-se!

Eu no sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do corao 
a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.

O corao offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes no
perda, e  capaz de no se offender com cousas de vulto, ou de
facilmente as esquecer e perdoar!

Luiz ainda no tinha chegado ao Rio e j ia arrependido das asperezas
que dirigira a Magdalena! J a julgava innocente, e incapaz da trahio,
que lhe imputou durante os momentos de mgoa e de colera do seu amante
corao.

Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras
impresses violentas, Luiz comeou a recordar os protestos de innocencia
de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma
muito menos carregado, e convenceu-se de que s uma injustia as fizera
derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitao com que procedera!

Tivera tentaes de retroceder para, tanto quanto podsse, desfazer o
mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.

As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no corao,
d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltao que o
dominra, no podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de
mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta
hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.

Alli a grande infamia, o grande mal fra necessariamente commettido pelo
mulato, fra fatalmente tramado por Americo.

Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle
d'um modo to barbaro e to cruel?

Depois, a memoria de sua me to solemnemente, invocada n'um protesto de
fidelidade e de amor, seria uma cousa to pequena, que se olvidasse,
unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?

No era crivel.

Magdalena estava innocente, e com esta convico entrava Luiz em casa,
na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar
de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na
presena d'ella.

No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?

Uma confisso sincera d'um sincero arrependimento era a unica soluo do
problema.

Seria, porm, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu
orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustias que elle fez
ao seu caracter,  sua lealdade e ao seu corao?

Isto lanava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal
aguadissimo que o feria dolorosamente.

Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e
da esperana d'uma absolvio e d'uma condemnao.

Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o
expressivamente, como tentando lr-lhe no rosto quanto se lhe passava na
alma.

Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio,
na firme resoluo de completamente desprezar o infame, decidido a
castigar-lhe a menor insolencia.

O mulato, porm, no era homem que se contentasse em estudal-o
silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe
importavam os meios e at as consequencias.

Dirigiu-se tambem ao escriptorio.

Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a
severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.

--Ento? perguntou elle.

Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue  cabea e turvar-se-lhe a
vista, mas no respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porm o
desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.

--Ento? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.

Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a
ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou
humilhao e volveu-se ento para o mulato, fitou-o corajosamente e
perguntou tambem com voz firme:

--Ento o que!

--Qual de ns vence? acudiu Americo sorrindo.

--Ainda o duvidas canalha! Pois no o duvides, infame. Ha-de vencer o
justo, que sou eu, to certo como seres castigado, que s o despresivel.

--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?

--Provou-se que s um salteador infame e cobarde, da honra dos que te
chamam amigos e te sentam  sua meza, que  o mesmo.

--V que me insultas! se no apresentas as provas!

--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e no peas as provas!

--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!

--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.

--Comeam as ameaas?

--E no ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que j te
no vejo. No me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso!
Sahe! No me obrigues a sujar a mo na lama que tens na cara!

--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.

--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mo na face bronzeada, com a
fora d'um desesperado.

Estava travada a lucta. O mulato tinha mais fora physica, mas Luiz
possuia mais fora moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulco que
se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaados um no
outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o
ruido dos ps, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a
respirao abafada de cada um dos contendores. Americo s tentava lanar
Luiz a terra, este porm resistia valentemente. E n'um momento favoravel
atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O
mulato enfureceu-se pela dr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente,
e atirou as mos ao pescoo de Luiz, n'uma expresso de raiva
desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.

E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias
d'aquella contenda se no fosse a appario, no momento fatal, de um
homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a aco do mulato.

Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o
escravo, mas d'alma grande.

O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo.
Muito contente da sua misso, porque lhe dizia o corao que se andava
tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a
distancia que vae do Botafogo ao Rio,  rua dos Pescadores.

Chegou, entrou, dirigiu-se  porta do escriptorio, tranquillo, socegado,
contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu
com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo
electrico interior e no esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao
mulato, que lanava as mos ao pescoo de Luiz, agarrou-o pela gola do
casaco, deu-lhe um fortissimo puxo e elle, largando Luiz, mais com
receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao cho no meio
do escriptorio.

--O negro c est! bradou o cabinda.

--No preciso de ti! acudiu Luiz.

--S assim! murmurou Americo, espumante de raiva.

--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando
Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.

--E a senhora moa? interrogou Luiz.

--Tem chorado muito; o branco no gosta d'ella, no!

--Vl-o-has, cabinda!

E procedeu  leitura da carta de Jorge.

Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma
grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabea. E o que tinha
fra de toda a duvida  que era chegado o dia em que tinha de decidir-se
a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de no
conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolao da
tranquillidade da consciencia.

O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:

--Contra dous no posso, mas hei-de vingar-me!

--Nem contra um! a tua causa  a primeira a ser contra ti, canalha!
bradou Luiz.

--O negro pde muito, o mulato bem o sabe.

--Deixemos agora as questes. O snr. Macedo convida-nos a irmos
immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem
sabe se ser para nos julgar? Como nada receio, vou j. Convido-o; fao
o meu dever, e nada mais.

--Ah! o branco  bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que
importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente
a sua filha!

E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o
sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhra, lhe corria
do nariz.

Aquelle convite de Jorge de Macedo fra um incendio, que crestra todas
as esperanas ao mulato. Para elle era inevitavel que no s no
conseguia nada, seno tambem que estava perdido, porque Jorge havia de
fazer justia, castigando-o.

Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda
mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e
dispoz-se a soffrer tudo.

Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanas, emquanto atravez
das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz
brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhra, ia o
mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e
pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que
todo o bem  premiado.

Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos
perfumes embriagam a vida.

Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.

E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto,
cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella
conferencia que ia ter logar agora.

O que lhe dizia o corao nos sobresaltos com que a agitavam?

O que lhe dizia a alma na esperana que a enflorava?

Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!

Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente,
candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca dra um
desgosto quelle que a mirava doudo d'amor!




XVIII


Muito terrivel  a situao de quem espera, esperando debaixo do pezo
d'uma duvida!

A duvida d ao corao as alternativas da esperana e do receio; da
esperana, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas
instantes rapidissimos; da esperana, que arrebata com sonhos de dourado
enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva m e
triste.

Esperar, d'este modo,  esperar entre a lucta de dous sentimentos
oppostos, que se degladiam heroicamente, brao a brao, corpo a corpo,
sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de
terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um
cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no
espirito, embora oppostamente.

O corao prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperana, nas
delicias suaves de quem v realisado um desejo muito grande de grande
ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas
tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a
ideia, o receio de que aborte essa esperana, de que no tenha uma
realidade a aspirao que l se gerou e n'elle vive, como pomba dentro
do seu ninho.

Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que
seu pae mandra chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a
vimos.

Tinha d'um lado a esperana de que tudo se harmonisaria, e
satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que
ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto,
os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava
o seu corao, to vioso e to sedento!

Do outro, o receio de que essa esperana no germinasse um unico
encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada
felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da virao do
sul!

No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae
mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous,
d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o
juizo recto da sua impolluta consciencia.

Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham,
separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se,
embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa
provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a
ideia de que ia tratar-se do succedido, com relao  formosa Magdalena.

At o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, at esse
ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada
senhora moa, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava
e dominava!

O pobre do negro consentiria tudo; no que no consentiria de modo
nenhum, e para isso era at capaz de dar a vida, era em que o mulato
vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, no s
porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se no podem explicar,
era altamente affeioado a Luiz, ao branco, como elle dizia, seno
tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte,
sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de
antipathia e de raas.

Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das
oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros,
mas o mulato no se fez esperar.

O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda
do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na
varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.

Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no
rosto a pallidez do desgosto que soffrra, e a expresso do seu estado
d'excitao, e nas ondulaes do seio os signaes evidentes do agitamento
das ondas interiores.

No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!

Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da
escadaria.

Elle sorriu-lhe n'uma expresso de dedicao.

--Ento, cabinda? interrogou ella subitamente.

--O branco veio, senhora moa,

--E aonde est?

--Na sala grande que deita para o jardim.

--E vem contente?

--Ha-de estal-o. O corao do negro no mente nunca.

--Vieste com elle?

--Vim, minha filha.

--E Americo?

--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o
negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoo e deitou-o ao cho.

--Ao mulato? perguntou assustada.

--Sim.

--Mataste-o?

--No, senhora moa, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...

--Eu quero-te prudente, cabinda!

--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moa!

--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.

--O branco? no soffreu nada. Mas para que a cobra no assalte o ninho
da jurity ou do beija-flor,  preciso esmagal-a ou mandal-a para longe.
A minha filha comprehende?

--Comprehendo, cabinda. Meu pae l est; a verdade ha-de brilhar como o
diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.

--Oh! exclamou o negro, brio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de
contente, quando a senhora moa lhe disser que  feliz! O cabinda at
ha-de danar o batuque!

--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com
o jubilo do bom escravo.

Emquanto, porm, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do
palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz
permanecia s, esperando pelo capitalista.

Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos
ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli,
olharam um para o outro, ambos n'uma expresso de duvida, mas sem
trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.

O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens
diversas e faceis de explicao.

Luiz no receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a
sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasio,
qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da
felicidade por que suspirava com tanta loucura.

Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz
intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel,
indigno e injustificavel.

Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os
reunia, e isto dava ao mulato a esperana de que se agora no fosse
fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo
menos indispor de todo Luiz e Magdalena.

Estava uma tarde explendida.

Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso,
projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da
sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos
jasmins perfumados uns reflexos da sua cr avermelhada e tropical.

Zumbiam as vspas nos tranaes dos maracujs, volitavam rapidos, de flr
em flr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos
beija-flores, e cortavam o espao, em mil caprichosas linhas, ora
subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de
tamanhos variados e cres vivas e formosas.

L ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores
as juritys mimosas.

Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos
na silenciosa contemplao das bellezas da natureza, do explendido
quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores.
Longe, porm, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se
desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e
contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.

Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala
espaosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior
da casa.

Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao
personagem que entrava.

Era Jorge de Macedo.

Trazia no rosto a expresso da affabilidade, mas ainda assim, carregada
com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarada. Quatro olhos se
cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz
e d'Americo.

Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa
cortezia.

Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo no
estava no seu estado normal, e os traos de mudana que lhe soletraram
no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga
melancolia, para o que quer que  d'um desgosto, embora pequeno ou mal
traduzido, do que para a indicao d'uma irritao, d'uma exaltao, que
rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuaes.

Agora  que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se no fra
a lembrana de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que
mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido,
para nunca mais apparecer.

Teve tentaes de fazel-o.

Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava
a presena do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!

Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia
ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle
adorava muitissimo.

E na sua consciencia s tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o
de haver to impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem
desejaria agora lanar-se aos ps, implorando, humilde, um perdo para
os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar to amargas e
sentidas lagrimas.

E Magdalena?

E o cabinda?

O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir
da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice
d'este?

Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente
collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala
grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era
possivel escutarem o que se passava.

Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do
capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras,
collocadas ao lado do soph, onde tomou assento tambem.

Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz  direita e Americo na esquerda.

Houve um momento de silencio.

Os dous esperavam d'olhos cravados no cho. Jorge dispunha-se para
comear, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respirao
para que nem essa trahisse a sua presena, alli, atraz da porta que os
escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.

Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares,
to diversos nas suas agitaes, no seio de cada um d'aquelles
personagens!




XIX


Sentaram-se os tres, e houve, como j dissemos, um momento de silencio
completo, em que at pareciam sustidas as respiraes.

Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mos nos joelhos, gesto este,
que pde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa
difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus
recentes socios, e em seguida comeou assim, com ar de gravidade:

--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas
tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderao,
o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o no fazel-o
poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei,
creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero
limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas
sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graas
ao co, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha
mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as
illuses, com todos os euthusiasmos que lhe so proprios, e nos quaes se
desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida
d'ento, escripto, capitulo a capitulo, no tinha, nunca teve, uma unica
pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos
delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza
do meu nome, e jmais tentei realisar uma aspirao grande ou pequena,
boa ou m, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a
minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio
gosar, agora, no  mais que o nome grangeado ento. N'esse tempo a
ambio era egual  lealdade, se  que a ambio j existia n'um grau
to elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca to corrompedora,
como na poca que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e 
d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se l, custe o que
custar, pouco importam os meios.

E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descanar. Via-se que
estava sensibilisado, commovido ou nervoso.

Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente
abatida. Agora j no tinham que duvidar; era a elles que se dirigia
todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:

--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como
affeioados meus, do que como subordinados ao meu servio. Para prova do
muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias  minha meza, n'uma
festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer
partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.

--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao
muitissimo que devo a V.^a Ex.^a, acudiu Luiz.

--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu
continuando:

--Perdo! Ser talvez assim, mas n'esse caso estou ento illudido,
porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz
completamente do conceito que me... devia.

--V.^a Ex.^a deve, sem duvida, ter muitissima razo para fallar d'esse
modo, e bom ser que nos julgue, para que s o culpado soffra o castigo,
atalhou Luiz.

--As justificaes depois. Ouam-me por emquanto e depois tero a
palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume,
vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de
pae que no tem outra, que no tem mais familia. Eu, que j me vejo mais
perto do tumulo do que do bero, viuvo, e por consequencia, sem os
consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os coraes
d'aquellas que se unem a ns, partilhando da nossa vida, affiz-me aos
carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a
chorada me, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando
constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde s
desabrochassem flores e onde nunca viasse um espinho. Consegui-o
durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a no ser a da saudade que
ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamra a si, obscureceu levemente
o co da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada
Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O co tem-se
empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque at
hoje ainda Magdalena no derramou uma unica lagrima, ainda no teve um
queixume para me lanar no corao. Sorria-me esta ideia da felicidade
de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que
ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, brio
mesmo d'uma alegria que no me passou nunca pela mente, que podsse
toldar-se ou ennublar-se. No succedeu, porm, assim; e hoje, quando
regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com
que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e
dolorosamente, proclamando-se desgraada, a filha querida do meu
corao. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. No as
esperava, no desejra esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro
momento de turtura que eu soffria...

E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar
a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:

--Interroguei-a com a brandura de quem  prudente, com a dr de quem
como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava
saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria ento!
Porque angustias no passei durante os curtos momentos, que me valeram
muitos seculos, antes de me revelar a verdade!

--E descobriu-a, no? interrogou Luiz subitamente.

--No sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como
principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei  minha
meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!

--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:

--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para
isso, meios muito honrosos.

O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor
de si.

--Perdo, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de ns
procedia menos dignamente no era de certo eu, juro-o, disse Luiz com
convico.

--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir.

--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a
horas adiantadas da noute?

--Eu no, senhor, afirmou Luiz.

--Fui eu... disse o mulato a custo.

--E com que fim?

--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato.

--Ento no foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?

--Minha? No podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.^a que
este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E
peo licena para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com
V. Ex.^a e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma
queixa, para uma reprehenso. A minha vida modelou-se, no tocante a
honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.^a que bem
digna foi sempre, e , de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso,
sempre, e no seria no momento em que V. Ex.^a me deu uma grandissima
prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lanaria em terra,
desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir.
Com relao  filha de V. Ex.^a o meu procedimento no me ser lisongeiro
talvez, mas tambem no  infame. Na tarde do dia em que tive a honra de
sentar-me  sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.^a
pelas alamdas do jardim, emquanto V. Ex.^a e este senhor conversavam
tomando caf. A nossa conversao tomou o caminho que sempre segue entre
pessoas de vinte annos. Achei-a ento formosa de corpo e formosissima
d'alma. No resisti aos impulsos do corao que se abria com as suas
palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e
disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a
impressionra e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu
affecto. Eu fallei ento to verdadeiramente, como o estou fazendo agora
a V. Ex.^a Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D.
Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi
com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o corao e era valente de
mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.^a me encarregou de ir a
Macah tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem.
No sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei  que este homem, com o
qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a
filha de V. Ex.^a me levantava at ella com o seu amor, comeou a
fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a
filha de V. Ex.^a seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas
altercaes violentas. Quando regressei de Macah, ancioso de vr D.
Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha misso,
surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede
uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos
d'ella que realmente reconheci. No sei mais nada. Julguei a filha de V.
Ex.^a uma creana caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado,
porque devras me doa o corao, vim a esta casa e... disse  filha de
V. Ex.^a que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim
Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento
era, porm, to grande, que no pude ser-lhe superior. E para tudo dizer
a V. Ex.^a confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha
de V. Ex.^a  uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, s
andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que j
hoje tive uma sria altercao. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.^a 
destino meu e no posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.^a o que ha de
censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente.
Esta  a verdade e no fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas
sobretudo, sendo V. Ex.^a a pessoa a quem devo tanto e tanto.

--Eu sei tudo.  um cavalheiro o senhor Luiz. D-me a sua mo, quero
apertal-a como a de um grande amigo.

Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta,
com horriveis tentaes de fugir. O seu castigo comeava alli.

--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E
como a felicidade de minha filha  tambem a minha, ella  que hade vir
terminar esta nossa conferencia.

Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, no
se fez chamar; correu logo, bria de alegria, e lanou-se nos braos de
Jorge, gritando:

--Obrigada, papae! Obrigada, papae!

--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, no  assim?

--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo.

--Crs que has-de ser, com elle, to feliz como desejo que tu o sejas,
no?

--Muito, e s com elle.

--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco
digno, queira retirar-se e esperar manh as minhas ordens no armazem.
Limito-me a isto, porque no quero fazer mais no dia em que o co me
abre na terra a felicidade de minha filha.

O mulato tinha os olhos cravados no cho. Tomou o chapu, volveu-se e
sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma fora que tentasse
tiral-o do logar onde o chumbava no sei que sentimento.

Quando transpz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.

Seriam de vergonha?

Seriam de remorsos?

Seriam de odio?

No sei.

Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?

Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se
aos ps de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mos e exclamando em
extrema commoo:

--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do
cabinda!

Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra,
andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irms
d'ella, entre os perfumes suaves, como os que ento se evaporavam das
rosas brancas de suas almas enamoradas.

Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado.

J dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores,
canados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas
prezas nos laos dulcissimos d'uma embriagadora felicidade.




XX

CONCLUSO


Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e
Magdalena.

O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista,
tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos.

Era duplamente feliz.

Luiz tomra sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios
do honrado negociante, para que este descanasse, e desempenhava-se de
tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura.

Magdalena era feliz e muito feliz.

Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramancho de
maracujs do lago da chcara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas,
enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do co do
que da terra.

Ha alli um novo Eden.

Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato quelle em que foi
forado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua
ambio; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia
muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle.

Corria muito vagamente que andava desgraadissimo na America do Norte,
dizendo-se que fugira para l.

No sei. Talvez.

O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos
braos de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o
no desampararam nos dias de enfermidade.

Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a
quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre,
beijando risonho, como o justo que antev o co, as mos dos seus tres
amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo
distincto e humanitario com que sempre foi tratado:

--Bem haja, meu senhor! O negro l ha-de dizer  sua senhora que o
branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a Filha do
Cabinda.


FIM


Porto--_Imprensa Portugueza_, Bomjardim, 181.

_N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio
Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro._





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