The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett

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Title: Viagens na Minha Terra
       (Volume I)

Author: Almeida Garrett

Release Date: January 4, 2008 [EBook #24164]

Language: Portuguese

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Jan. 2008)




OBRAS

DE

J. B. DE A. GARRETT.

VIII.

(PRIMEIRO DAS VIAGENS)




VIAGENS NA MINHA TERRA


POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.


I


LISBOA
NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
1846.




Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella
tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um servio
s lettras e  gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um
livro, para melhor se podr avaliar a variedade, a riqueza e a
originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que
incerra, e sbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que
sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja
quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.

As _Viagens na minha terra_, so um d'aquelles livros raros que so
podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Cames_ e de _Cato_,
de _D. Branca_ e do _Portugal na Balana da Europa_, do _Auto de
Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educao_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz
de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de
Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas
produces de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando
uma lingua de immenso podr, a costumou a servir-lhe e
obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna,
entra no gabinete nas graves discusses e demonstraes da sciencia--voa
s mais altas regies da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as
fortes paixes do drama, e baixa s no menos difficeis trivialidades da
comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, pde
dar-se todo s mais aridas e materiaes ponderaes da administrao e da
politica, e redigir com admiravel preciso, com uma exaco ideologica
que talvez ninguem mais tenha entre ns, uma lei administrativa ou de
instruco pblica, uma constituio politica, ou um tractado de
commercio.

Orador e poeta, historiador e philosopho, crtico e artista,
jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso
cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na
pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras
litteraturas--da meia-edade, da renascena e contemporanea--o auctor das
Viagens Na Minha Terra  egualmente familiar com Homero e com o Dante,
com Plato e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com
Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com
Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Cames e Calderon, com
Goethe e Virgilio, Schiller e S-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon
e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire,
Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os
Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradices sanscritas, com tudo o
que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia
moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
se ve d'este que agora publicmos apezar de composto bem claramente ao
correr da penna.

Mas ainda assim, e com isto somente, elle no faria o que faz se no
junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas,
do corao humano e da razo humana; se no fosse, alm de tudo o mais,
um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas crtes com os
principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os
diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas
academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos sales
emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e
com as falsidades do seculo.

De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam
curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua,  sta
talvez, tornmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas
 tambem a que, em nossa opinio, mais mostra os seus immensos podres
intellectuaes, a sua erudio vastssima, a sua flexibilidade de stylo
espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural
indulgente e bom de um corao recto, puro, amigo da justia, adorador
da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.

Tem sido accusado de sceptico:  a accusao mais absurda e que so
denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande m fe. Quando o
nosso auctor lana mo da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que
elle maneja com tanta fra e dexteridade, e que talvez por isso mesmo,
conscio de seu podr, elle rara vez toma nas mos--veja-se que  sempre
contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e
shopistas de _todas as cres_, que elle o faz. Crenas, opinies,
sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
no as dirige nunca sbre individuos; ve-se que despreza a facil
vingana que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o no
poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia
condemnar ao eterno opprbrio de um pelourinho immortal como as suas
obras. Ainda bem que o no faz! mais immortaes so as suas obras, e
quanto a ns, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprzo do
homem superior que se no appercebe de sua malignidade insulsa e
insignificante.

Voltando  accusao de septicismo, ainda dizemos que no pde ser
septico o espirito que concebeu, e em si achou cres com que pintar tam
vivos, characteres de crenas tam fortes como o de Cato, de Cames, de
Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de
Joanninha, da Irman Francisca.

No analysmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra no est ainda
completa e no podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o
que todos dizem e o que todos podem julgar ja.

A nosso rgo, e por fazer mais digna da sua reputao sta segunda
publicao da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo,
corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as
notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo
que sahir muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.




VIAGENS NA MINHA TERRA.


     Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrire, et de paraitre
     tout--coup dans le monde savant un livre de dcouvertes  la main,
     comme une comte inattendue tincelle dans l'espace!

     X. DE MAISTRE.




CAPITULO I.


     De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua
     terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
     immortalizar-se escrevendo stas suas viagens. Parte para Santarem.
     Chega ao Terreiro-do-Pao, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que
     ahi lhe succede. A Deduco-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
     Byron e um bom charuto. Travam-se de razes os Ilhavos e os
     Bordas-d'agua: os da cala larga levam a melhor.


Que viage  roda do seu quarto quem est  beira dos Alpes, de hynverno,
em Turim, que  quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com
este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na
horta, e o mato  de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui
escrevesse, ao menos ia at o quintal.

Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo at  minha
janella para ver uma nesguita de Tejo que est no fim da rua, e me
inganar com uns verdes de rvores que alli vegetam sua laboriosa
infancia nos intulhos do Caes-do-Sodr. E nunca escrevi stas minhas
viagens nem as suas impresses: pois tinham muito que ver! Foi sempre
ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto
vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.

Era uma idea vaga, mais desejo que teno, que eu tinha ha muito de ir
conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a
mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias
de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
quiz incabear em designio politico determinado a minha visita.

Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_.

So 17 d'este mez de julho, anno de graa de 1843, uma segunda-feira,
dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e
eu a caminhar para o Terreiro-do-Pao. Chego muito a horas, invergonhei
os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se
prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praa,
quando oio o rodar grave mas pressuroso de uma carroa _d'ancien
rgime_:  o nosso chefe e commandante, o capito da impreza, o Sr. C.
da T. que chega em estado.

Tambem so chegados os outros companheiros: o sino d o ltimo rebate.
Partimos.

N'uma _regata_ de vapores o nosso barco no ganhava decerto o premio. E
se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou
olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum
Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor
que vai coroar de seus hymnos immortaes--no cabe nem um triste minguado
epodo a este canado corredor de Villa-nova.  um barco serio e sizudo
que se no mette n'essas andanas.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e
pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que , vista de fra, a mais
bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui
e alli, algumas raras feies se percebem, ou mais exactamente se
adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundio para
baixo tudo  prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um
periodo da _Deduco Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma
tentativa ao grandioso do mau gsto, como alguma oitava menos rasteira
do _Oriente_.

Assim o povo, que tem sempre melhor gsto e mais puro do que essa escuma
descrada que anda ao decima das populaes, e que se chama a si mesma
por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos so a
Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A
um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extenso e podr, que
alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das
hortas e a sombra das rvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados
todos a recordaes grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que
se compare em belleza com sta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
Bellem  mais arido.

J saudmos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e
depois da Restaurao, e depois outra vez de Xira, quando a tal
restaurao cahiu, como a todas as restauraes sempre succede e hade
succeder, em odio e execrao tal que nem uma pobre villa a quiz para
sobrenome.

--'A questo no era de restaurar nem de no restaurar, mas de se livrar
a gente de um govrno de patuscos, que  o mais odioso e ingulhoso dos
governos possiveis.'

 a reflexo com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao
princpio de ponderao que eu ia involuntariamente fazendo a respeito
de Villa-franca.

Mas eu no tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que
l foi fazer  velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das
coisas, e que por fra havia de succeder. Este necessario e inevitavel
reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade
ser contrastado por muita reaco antes de completar-se...

No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos
aristocraticos da r:  proa, que  paiz de cigarro livre!

No me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a
brdo.  notavel esquecimento no poeta mais imbarcadio, mais marujo que
ainda houve, e que at cantou o injo, a mais prosaica e nauseante das
miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a
brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram
mollemente as narcoticas exhalaes de um bom cigarro da Havana,  uma
das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.

Fummemos!

Aqui est um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me
vai imprestar lume.

'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa,
cujas feies, trajo e modos singularmente contrastam com os do
_musarabe_ ribatejano.

Accenderam-se os charutos, e attentmos mais de vagar na companhia em
que estavamos.

Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos
chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
hybrida de trajos e feies descharacterizadas e vulgares--que abunda
nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--No assim
este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dze
homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vo todos os
domingos colher o _pulverem olympicum_ da praa de Sanct'Anna, e que, 
voz soberana e irresistivel de: _ unha,  unha,  cernelha!_.... correm
a arcar com mais generosos, no mais possantes, animaes que elles, ao
som das immensas palmas, e a trco dos raros pintos por que se manifesta
o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multides. Voltavam 
sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praa, ainda
esmurrados e cheios de glria da contenda da vespera. Mas aop d'estes
cinco e de altercao com elles--ja direi porqu--estavam seis ou sette
homens que em tudo pareciam os seus antipodas.

Emvez do calo amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o
homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o
tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o
saloio, tem o cunho da raa africana; estes so da familia pelasga:
feies regulares e moveis, a frma agil.

Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a
questo fra interrompida com a nossa chegada  proa do barco. Mas um
dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para ns,
disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui est quem hade decidir:
vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que so mais
que ninguem, que no ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de
Lisboa, hode dizer que sim. Mas ns...'

--Nenhum de ns  de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

--'Este conheo eu; este  dos nossos (bradou um homem de forcado, assim
que o viu). Isto  um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso
 verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle
por sol e por chuva, e hade saber o que  um boi de lei, e o que  lidar
com gado.'

--'Pois oiamos l a questo.'

--'No  questo'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por
Almeirim, para Almeirim vamos ns, que era uma charneca o outro dia, e
hoje  um jardim, benza-o Deus!--mas no foram os campinos que o
fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que , e
fez terra das areas da charneca.'

--'L isso  verdade'.

--'No, no ! Que est forte habilidade fazer dar trigo aqui aos
nateiros do Tejo, que  como quem semeia em manteiga.  uma lavoira que
a faz Deus por sua mo, regar e adubar e tudo: e o que Deus no faz, no
fazem elles, que nem sabem ter mo n'esses monches c'o plantio das
arvores: so l por cima  que algumas teem mettido, e  bem pouco para o
rio que , e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas ns, pe
no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar
n'area por no haver agua... mas sempre labutando pela vida'.

--'A fra  que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questo
em terreno que lhe convinha.--'A fra  que se falla: um homem do campo
que se deita alli  cernelha de um toiro que uma companha inteira de
varinos lhe no pegava, com perdo dos senhores pelo rabo!..'

E reforou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo
nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os
debates.

Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua
superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho
acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes
razes dos seus oradores.

Mas o orador ilhavo no era homem de se dar assim por derrotado. Olhou
para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto
expressivo, e voltando-se a ns, com a direita estendida aos seus
antagonistas:

--'Ento agora como  de fra, quero eu saber, e estes senhores que
digam, qual  que tem mais fra, se  um toiro ou se  o mar'.

--'Essa agora!..'

--'Queriamos saber'.

--' o mar'.

--'Pois ns que brigmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma
tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro,
qual  que tem mais fra?'

Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por sta
vez a opposio, e o Vouga triumphou do Tejo.




CAPITULO II.


     Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas stas viagens. Faz o A.
     modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilizao; e
     mostra-se como ella  dirigida pelo cavalleiro da Mancha D.
     Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pana.--Chegada a
     Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardo de
     si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja.


stas minhas interessantes viagens hode ser uma obra prima, erudita,
brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o
dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; no cuide que so
quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impresses
de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
proveito da sciencia e do adiantamento da especie.

Primeiro que tudo, a minha obra  um symbolo...  um mytho, palavra
grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se
explica tudo... quanto se no sabe explicar.

 um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente
ao benevolo leitor a profunda idea que est occulta debaixo d'esta
ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no
fim de contas  uma coisa sria, grave, pensada com um livro novo da
feira de Leipsick, no das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris.

Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alm Rheno, que
escreveu uma obra sbre a marcha da civilizao, do intellecto--o que
diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu
elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem
attender  parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em
suas grandes e abstractas theorias, hirto, scco, duro, inflexivel, e
que pde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do
cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso
nem cabedal d'essas theorias, em que no cr, e cujas impossiveis
applicaes declara todas utopias, pde bem representar-se pela rotunda
e anafada presena do nosso amigo velho, Sancho Pana.

Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam
avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais
atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
poucas, mas _progredindo_ sempre.

E aqui est o que  possivel ao progresso humano.

E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do
futuro.

Hoje o mundo  uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.

Depois hade vir D. Quixote.

O senso commum vir para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Est
promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma
constituio; e no faltou ainda, porque--porque o contracto no tem
dia; prometteu mas no disse para quando.

Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba est symbolizada a marcha do nosso
progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esquea.

Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que 
o mais feio pedao de terra alluvial em que ainda poisei os meus ps. O
sol arde como ainda no ardeu este anno.

Um immenso arraial de caleas, de machinhos, de burros e arrieiros, nos
espera n'aquelle descampado africano.  foroso optar entre os dois
martyrios da calea ou do macho. Do mal o menos... seja este.

E acol--oh supplcio de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas
castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao p
d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de
Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e
elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh
magico podr das situaes!--elle no  seno, uma substancial e bem
apessoada traquitana de cortinas.

Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de
anneis e castanhola, que direis,  respeitadas sombras, se d'esse limbo
onde estais esperando pela resurreio do Pgas... e do livro
quinto--vdes este degenerado e espurio successor vosso, em calas
largas, frak verde, chapeu branco, gravata de cr, chicotinho de
caoutchouc na mo, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como
um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para
esse natural, proprio e adscripticio modo de conduco desimbargatoria?
Oh que direis vs! Com que justo desprzo no olhareis para tanta
degradao e derogao!

Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditaes, e
revolvia incertamente no nimo a ponderosa dvida:--se o administrar
justia direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a
p!... Luctava no meu ser o Sancho Pana da carne com o D. Quixote do
espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentaes nos
no abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e
companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroa, e n'ella
me deu logar at  Azambuja.

A virtude  o galardo de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu no
creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma.
O mais moderno  o mais velho, no ha dvida; mas o antigo que dura
ainda,  porque tem achado na experiencia a confirmao que o moderno
no tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
outro.

Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto maracho que poucos
palmos se eleva do nivel baixo e salgadio do solo: de hynverno no se
passar sem perigo; ainda agora se no anda sem incmmodo e receio.
Estamos em Villa-Nova e s portas do nojento caravanseray, unico asylo
do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.

Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este
asqueroso logarejo, desde que alli aop tem a estao dos vapres, que
so a commodidade, a vida, a alma do Ribatjo. Imagino que uma aldeia de
Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.

Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinars entre ns! Cahiu o carunchoso
throno de teu predecessor, antagonista e s vezes amo; aoitaram-te
essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te
depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o
paternal govrno de teu estupido materialismo pde estabelecer-se para
commodo e salvao do corpo; ja que a alma... oh! a alma...

Fallemos n'outra coisa.

Fujamos depressa d'este monturo.-- montona, arida e sem frescura de
rvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e
desiguaes espaos, mostra o seu tronco rachitico e braos contorcidos,
ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas 
mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porm, com raras
excepes,  optimo, e a trco de pouco trabalho e insignificante
despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.

Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com
egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se
fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu
heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino
de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.

Ahi est a Azambuja, pequena mas no triste povoao, com visiveis
signaes de vida, aceadas e com ar de confrto as suas casas.  a
primeira povoao que d indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo
portuguez.

Corrmos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo
cumulla as tres distinctas funces, de _hotel, de restaurant e de caf_
da terra.

Sancto Deus! que bruxa que est  porta! que antro l dentro!... Cai-me
a penna da mo.




CAPITULO III.


     Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A.
     d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de
     litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questo
     para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de
     economia-politica e de moral social.--Quantas almas  preciso dar
     ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para
     fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a
     sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto,
     e rei de direito.--Belleza e mentira no cabem n'um sacco.--Pe-se
     o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.


Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha
fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois
primeiros capitulos d'esta interessante viagem.

Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me
escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensaes, das
descripes a traos largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e
entram com sangue no corao?

No fim do capitulo precedente parmos  porta de uma estalagem: que
estalagem deve ser sta, hoje no anno de 1843, s barbas de Victor Hugo,
com o Doutor Fausto a trotar na cabea da gente, com os _Mysterios de
Paris_ nas mos de todo o mundo?

Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu
_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de
algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo,
aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e
afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! No  da epocha.

    Eu coroarei de trevo a minha espada,
    De cenoiras, luzerna e betarrava,
    Para cantar Harmdios e Aristgilons,
    Que do tyranno jugo vos livraram
    Da sciencia velha, inutil carunchosa,
    Que elevava da terra, erguia, alava
    O que no homem ha de Ser divino,
    E para os grandes feitos e virtudes
    Lhe despegava o espirito da carne...

No: plantae batatas,  gerao de vapor e de p de pedra, macadamisae
estradas, fazei caminhos de ferro, constru passarolas de Icaro, para
andar a qual mais depressa, stas horas contadas de uma vida toda
material, massuda e grossa como tendes feito sta que Deus nos deu tam
differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pes, andae; reduzi tudo
a cifras, todas as consideraes d'este mundo a equaes de intersse
corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a
especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu
pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o
nmero de individuos que  foroso condemnar  miseria, ao trabalho
desproporcionado,  desmoralizao,  infamia,  ignorancia crapulosa, 
desgraa invencivel,  penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que
lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commisses de
inqurito, ja deve de andar orado o nmero de almas que  preciso
vender ao diabo, o nmero de corpos que se tem de intregar antes do
tempo ao cemiterio para fazer um tecelo ricco e fidalgo como Sir Robert
Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada
homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.

Logo a nao mais feliz no  a mais ricca. Logo o princpio utilitario
 a _mamona_ da injustia e da reprovao. Logo...

    There are more things in heaven and earth, Horatio,
    Than are dreamt of in your philosophy.

A sciencia d'este seculo  uma grandessissima tola.

E como tal, presumposa e cheia do orgulho dos nescios.

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Vamos  descripo da estalagem. No pde ser classica; assoviam-me
todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
cava e funda desde a porta do Marrare at ao caf de Moscow...

Mas aqui  que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade 
materialista; e a litteratura, que  a expresso da sociedade,  toda
excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!
Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!

Pois  assim; e explica-se.-- a litteratura que  uma hypocrita: tem
religio nos versos, charidade nos romances, f nos artigos de
jornal--como os que do esmolas para pr no _Diario_, que amparam
orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.

E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hode ver l
que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...

Vamos  descripo da estalagem; e acabemos com tanta digresso.

No pde ser classica, est visto, a tal descripo.--Seja
romantica.--Tambem no pde ser. Porque no?  pr-lhe l um
_Chourineur_ a amolar um faco de palmo e meio para espatifar rez e
homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer
pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
coitadinha!--e um principe allemo incoberto, forte no scco britannico,
immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladres... e
ahi fica a Azambuja com uma estalagem que no tem que invejar  mais
pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!

 como eu devia fazer a descripo: bem o sei. Mas ha um impedimento
fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se no deu... 
que nada d'isso l havia.

E eu no quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me no leam os
taes, porque eu heide viver e morrer na f de Boileau:

    Rien n'est beau que le vrai.

Ja se diz ha muito anno que honra e proveito no cabem n'um sacco; eu
digo que belleza e mentira tambem l no cabem: e  a mais portugueza
traduco que creio que se possa fazer d'aquelle mmortal e evangelico
hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me
lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na
Thebaida. O pobre de Sancto Anto ou de S. Pacomio (Pacomio  melhor
aqui) ficavam imbasbacados ao princpio; mas dava-lhe o corao uma
pancada, olhavam-lhe para os ps...--Cruzes maldicto! Os ps no podia
elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a
belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
como quem , e sempre foi o pae da mentira.

Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu
chamar  velha suja e maltrapida que estava  porta d'aquella asquerosa
casa?

Havia l sta velha, com a sua ma mais ma mas no menos nojenta de
ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava
para um canto com todo o geito e traa de quem vem folgar agora na
taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.

Matava-nos a sde; mas a agua alli  beber quartans. O vinho era atroz.
Limonada? No ha limes nem assucar.--Mandou-se um proprio  tenda no
fim da villa. Vieram tres limes que me pareceram de uns que pendiam,
quando eu vinha a frias,  porta do famoso botequim de Leiria.

O assucar podia servir na ltima scena de M. de Pourceaugnac muito
melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezes,
bebmos, pozemo-nos em marcha, e at agora no nos fez mal, com ser a
mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se pde imaginar.

Caminhmos na mesma ordem at chegar ao famoso pinhal da Azambuja.




CAPITULO IV.


     De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava
     elle, no caminho da villa da Azambuja at o famoso pinhal do mesmo
     nome.--Do poeta grego e philosopho Dmades, e do poeta e philosopho
     inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
     outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua
     profunda erudio.--Discute-se a materia gravissima se  necessario
     que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis
     reflexes de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
     amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo
     este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e
     passe ao seguinte.


Eu darei sempre o primeiro logar  modestia entre todas as bellas
qualidades.--Ainda sbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta
uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes
verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella,
a sta so uma aco propria, determinada e voluntaria.

Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Dmades que so forte
argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais
infeliz memoria. Heide p-los aqui para que no falte a sta grande obra
das minhas viagens o merito da erudio, e lhe no chamem livrinho da
moda: estou resolvido a fazer a minha reputao com este livro.

    Aid s te kalle ka arets polis,
    Prto sgathis hamartia deuteron de ais chun.

    Da belleza e virtude  a cidadella
    A innocencia primeiro--e depois ella.

Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu
trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que no
largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico
triumphante: porque Addison no pe nada acima da modestia; e Addison,
apezar da sua casaca de penneiros,  muito maior philosopho do que foi
Dmades com a sua tunica e o seu palio atheniense.

O erudito e amavel leitor escapar d'sta vez a mais citaes: compre um
_Spectator_, que  livro sem que se no pde estar, e veja _passim_.

Eu gsto, bem se ve, de ir ao incntro das objeces que me podem fazer;
lembro-as eu mesmo paraque depois me no digam:--'Ah, ah! vinha a ver se
pegava!'--No senhor, no  o meu genero esse.

Francamente pois... eis-ahi o que podero dizer:--'Addison foi
secretario d'Estado, e ento...'--Ento o qu? No concebem um
secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante,
cheio de graa e de talento? No, bem vejo que no: teem a idea fixa de
que um ministro d'Estado hade ser por fra algum semsaboro, malcriado
e petulante. Mas isto  nos paizes adiantados em que ja  indifferente
para a coisa-pblica, em que povo nem principe lhes no importa ja, em
que mos se intregam, a que cabeas se confiam. Em Inglaterra no 
assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem l  rainha Anna que
deixasse entrar no seu gabinete quatro calas de coiro sem criao nem
instruco, e no mais seno so porque este saba jogar nos fundos,
aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleies, o outro
era figura importante no _Freemasson's-hall_!

Ja se ve que em nada d'isto ha a minima alluso ao feliz systema que nos
rege: estou fallando de modestia, e ns vivemos em Portugal.

A modestia comtudo quando  excessiva e se aproxima do acanhamento, do
que no mundo se chama _falta de uso_--pde ser n'um homem quasi defeito
inteiro. Na mulher  sempre virtude, realce de belleza s formosas,
disfarce de fealdade s que o no so.

Por mim, no conheo objecto mais lindo em toda a natureza, mais
feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o corao do
que  uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor s
faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que
tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que
seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo  a virgem
modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De
alguma belleza sei eu cujos olhos _cr da noite_ ou de _saphyra_
(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de
_prolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a alluso  surtida,
ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no
antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canes
descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude.
Comtanto que no seja lyra, que  classico, todo o instrumento,
inclusivamente a bandurra,  egual deante da lei romantica.

Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo no-sei-qu de
atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
perde toda a graa e quasi a propria formosura de que a dotra a
natureza...

Vde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo boto
de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o
riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada
risada...

Desvaneceu-se o prestigio.

No havia moo nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que no
dsse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so
beijo d'aquella bcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe faam
obter um namorante de profisso e officio... E hade pag-lo adeantado, e
porque preo!...

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Mas o que ter tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais
ntima e verdadeira relao que  possivel.  que a pensar ou a sonhar
n'estas coisas fui eu todo o caminho, at me achar no meio do pinhal da
Azambuja.

Ahi parmos, e acordei eu.

Sou sujeito a stas distraces, a este sonhar acordado. Que lhe heide
eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e
escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de...
No, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um
estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...

A minha opinio sincera e _conscienciosa_  que o leitor deve saltar
stas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que  outra casta de
capitulo.




CAPITULO V.


     Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e no o acha. Trabalha-se por
     explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
     romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
     trabalho.--Transio classica: Orpheu e o bosque do Mnalo.--Desce
     o A. d'estas grandes e sublimes consideraes para as realidades
     materiaes da vida:  desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
     de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
     animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.


Este  que  o pinhal da Azambuja?

No pde ser.

sta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
Mallas-artes, que logo, em imaginao, lhe no pozesse a scena aqui
perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capito
Roldo e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais sta
illuso...

Por quantas maldices e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde esto os arvoredos
fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto  possivel,
pois o pinhal da Azambuja  isto?... Eu que os trazia _promptos e
recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
perder os meus chefes-d'obra! Que  perd-los isto--no ter onde os
pr!..

Sim, leitor benevolo, e por sta occasio te vou explicar como ns hoje
em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me no importa guardar segredo,
depois d'esta desgraa no me importa ja nada. Sabers pois,  leitor,
como ns outros fazemos o que te fazemos ler.

Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
edificios, as memorias da epocha? No seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que ns o somos. Desenhar characteres e situaes do _vivo_ da
natureza, collori-los das cres verdadeiras da historia... isso 
trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
sbretudo um tacto!... No senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas,

Um pae,

Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,

Um criado velho,

Um monstro, incarregado de fazer as maldades,

Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.

Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
precisa, gruda-as sbre uma folha de papel da cr da moda, verde, pardo,
azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
frma com ellas os grupos e situaes que lhe parece; no importa que
sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se s chronicas, tiram-se
uns poucos de nomes e de palavres velhos; com os nomes chrismam-se os
figures, com os palavres _illuminam-se_... (stylo de pintor
pinta-monos).--E aqui est como ns fazemos a nossa litteratura
original.

E aqui est o precioso trabalho que eu agora perdi!

Isto no pde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
quaes se esto quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!..  o
desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
verdadeira lograo em boa e antiga phrase portugueza.

E comtudo aqui  que devia ser, aqui  que , geographica e
topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
pinhal da Azambuja...

Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podres da sua lyra,
levasse atraz de si as rvores d'este antigo e classico Menalo dos
salteadores lusitanos?

Eu no sou muito difficil em admittir prodigios quando no sei explicar
os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
maravilha, isso  mais difficil de dizer. Elles so tantos, e cantam
todos to bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
aces, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
obraria ento o milagre.  como hoje se faz tudo;  como se passou o
thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiana... porque
se no faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?

Mas aonde est elle ento? faz favor de me dizer...

Sim senhor, digo: _est consolidado_. E se no sabe o que isto quer
dizer, leia os oramentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
os votos de confiana; e se depois d'isto, no souber aonde e como _se
consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
no  a sua especialidade, e deite-se a finana, que tem
_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna-- o
mesmo--vai para a commisso de fazenda--depois lord do thesoiro,
ministro:  _escalla_, no offendia nem a rabujenta constituio de 38,
quanto mais a carta........................................................
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O peior  que no meio d'estes campos onde Troia fra, no meio d'estas
areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me no
lembro bem--estatellado no cho.

Ao cho estive eu para me atirar, como criana amuada, quando vi voltar
para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
at Santarem.

Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fra. Consolado com este
tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o nimo  altura da
situao e resolvi fazer prva de homem forte e supportador de
trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sbre o cilicio do esfarrapado
albardo, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
excentrico amigo, o marquez do F.

Tinha a bossa, a paixo, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
fidalgo--o ltimo fidalgo homem de lettras que deu sta terra. Mas
adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em Pars nos ultimos tempos
da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
praa que elle tinha marcado pelo scco e duro movimento vertical com
que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes  concha
do carro, tam inteiro e tam sem diminuio, o choito do execravel
Babica! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.

Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
tenho conhecido, aquelle fidalgo.

Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas misses por que
sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
guardava-o e desmanchava as frmas....--No acabo se como a contar
historias do marquez do F.

Piquemos para o Cartaxo, que so horas.




CAPITULO VI.


     Prva-se como o velho Cames no teve outro remedio seno misturar
     o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razo, e
     tira-se depois, ao padre Jos Agostinho.--No meio d'estas
     disceptaes academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
     tudo  preciso ter f n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
     quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusadas, Fausto e a
     Divina-Comedia.--Desgraa do Cames em ter nascido antes do
     romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre so melhores
     sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
     marquez de Pombal, e d com elle nas ilhas Beatas do poeta
     Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixo do
     marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
     d'elle e da sua luneta s perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
     este mundo e ao Cartaxo.


O mais notavel, e no sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
mais indesculpavel defeito que at aqui esgravataram criticos e zoilos
na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_,  sem-dvida a
heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
fazer ao padre Jos Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
_in pontificalibus_ deante de um retabulo, no me lembra de que sancto,
dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. no
se pde;  uma que realmente... E ento aquelle famoso conceito com que
elle acaba, digno da Phenix-Renascida:

    O falso deus adora o verdadeiro!

Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneo-me,
chro, insuberbeo-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
mundo, desde a _Divina-Comedia_ at ao _Fausto_...

O italiano tinha f em Deus, o allemo no scepticismo, o portuguez na
sua patria.  preciso crer em alguma coisa para ser grande--no so
poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
sinceramente cria em bruxas. Napoleo cria na sua estrella, Lafayette
creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
creem, um na juncta do crdito, outro nas classes inactivas, outro no
mestre Adoniro, outro finalmente na belleza e realidade do systema
constitucional que felizmente nos rege.

Mas essas crenas so para os que se fizeram grandes com ellas. A um
pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
creio no nosso Cames: sempre cri.

E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--at sta fatal
edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creaes do
espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
movimentos do corao chymeras de enthusiastas--at sta edade de
saudades do passado e esperanas no futuro, mas sem gosos no
presente--em que o amor da patria (tambem isto ser phantasmagoria?), e
o sentimento intimo do _bello_ me do na leitura dos Lusiadas outro
deleite diverso, mas no inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
por mais que buscasse, achar-lhe, justificao no digo--nem siquer
desculpa.

Mas at morrer aprender, diz o adagio: e assim . E tambem  aphorismo
de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
achar a desculpa aos defeitos alheios,  considerar-- pr-se uma pessoa
nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.

Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Cames, com vontade
de o justificar, e prompto (assim so as charidades d'este mundo) a
sahir a campo de lana em reste e a quebr-la com todo o antagonista que
por aquelle fraco o atacar.--E porque ser isto? Porque chegou a minha
hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje 
a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.

Ja preveni as observaes com o texto acima: bem sei quem era Cames, e
quem sou eu; mas tracta-se da _intalao_, que  a mesma apezar da
differena dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
crena do seu paiz e as brilhantes tradies da poesia classica que
tinha por mestra e modlo.

No havia ainda ento romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
atrazado. As odes de Victor-Hugo no tinham ainda desbancado as de
Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
os _Tristes_ de Ovidio, porque se no lagrimejava com as meditaes de
Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor s portas de Troia, Priamo
supplicante aos ps do matador do seu filho, Helena luctando entre o
remorso do seu crime e o amor de Pris, no tinham ainda sido eclipsados
pelas declamaes da me Eva s grades do paraizo terreal. O combate de
Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, no tinha sido
mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
maus  metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas no tinha
sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
que vae para a India...

Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton no se tinha ainda
sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
acima de todos: emfim no estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
marcha do intellecto_ no mesmo terreno,  tudo uma miseria.

Ora pois, o nosso Cames, creador da epopea, e--depois do Dante--da
poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crena religiosa com
o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.

E aqui direi eu com o vate Elmano:

    Cames, grande Cames, quam similhante
    Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justia se apiedasse
d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, no me atrevo a fazer comedias
com taes logares de scena,--e no sei, no gsto de brincar com essas
coisas.

No lhe vejo remedio seno recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
do Cocyto e seu termo: so terrenos neutros em que se pde parlamentar
com os mortos sem compromettimento serio, e....

Eis-me ahi no rro de Cames--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....

Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
no sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Maro para lhe
servir de cicerone nas regies do inferno, do paraizo e do purgatorio
christo, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisio nem o
descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
para os dignos pares... No se tinham ainda descoberto as mangaes
liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
ganha e sustentada  ponta da espada, com muito corao e poucas
palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. No
havia em Florena nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
ministros para pagar as tolices da gazeta.

O Dante foi proscripto e exilado, mas no se ficou a escrever, deu
catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.

Quem dera ca um batalho de poetas como aquelle!

Que fosse porm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
irreverencia; gentes que no teem religio, nem a de Mafoma, bradavam
pela religio: entravam a pr carapuas nas cabeas uns dos outros,
cahiam depois todos sbre o poeta, e--se o no podessem inforcar, pelo
menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que  uma injria
muito grande.

Nada! viva o nosso Cames e o seu maravilhoso mistiforio;  a mais
commoda inveno d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crtica quanto
quizer.

Quero procurar no reino das sombras no menor pessoa que o marquez de
Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta sria antes de chegar ao
Cartaxo. E ns ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
atirar s tres gargantas do canzarro. Vamos...

Mas em que districto d'aquellas regies acharei eu o primeiro ministro
d'elrei D. Jos? Por onde est Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
e outros maganes que taes? No; esse  um bairro muito triste, e
arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
orelhas.

Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaas classicos do mesmo
jaez? Eu sei? tambem isso no. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
verduras, as almas tyrannicidas de Harmdio e Aristgiton...

Oh! sta agora!... Sebastio Jos de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi 
que se ingnam; no ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
mando e as pretenes a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, 
de f que se no pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
quanto mais!...

O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos l...

E ei-lo alli: l est o bom do marquez a jogar o whist com o baro de
Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
que esto  roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas no viu nada: o nobre marquez sempre
soube esconder o seu jgo.

A mim  que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sbre um ponto
importante.'

Deitou-me a tremenda luneta.

--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'

Apertou a luneta no sobrlho e sorriu-se.

--'Ellas ahi esto centuplicadas, que at ja invadiram o pinhal de
Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'

'Agora quem bebe por l todo esse vinho?'

No saba o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
anneis, virou-me as costas, deu o brao a Colbert, passou por-p de
Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
hombros em ar de compaixo, e foi-se por uma alameda muito viosa que ia
por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.

Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aop do grande
caf do Cartaxo.




CAPITULO VII.


     Reflexes importantes sbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de
     mollas, Tortoni, e o caf do Cartaxo.--Dos cafs em geral, e de
     como so o characteristico da civilizao de um paiz.--O
     Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
     Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a
     sua fra e toda a sua glria a Portugal.--Shakspeare e Laffitte,
     Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Prva-se
     evidentemente que M. Guizot  a ruina de Albion e do Cartaxo.


Voltar  meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia,
descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as rvores das
Tulherias, a columna da praa Vandomma, a magnificencia heteroclyta da
'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois
possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego at ao
'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio
corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em
Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'-- seguramente,  dos
prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver;  meia hora de
existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do
mundo.

Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e
dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que  de homem
experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da
elegante caleche balanada nas mais suaves mollas que fabricasse arte
ingleza do puro ao de Suecia, no alcana, no se compara ao prazer e
consolao de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira
mula  porta do grande caf do Cartaxo.

Fazem idea do que  o caf do Cartaxo? No fazem. Se no viajam, se no
sahem, se no vem mundo sta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre
o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hode alargar a
esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar  altura
do seculo?

Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos  dama
nova, ide, que no prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou
discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu
assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes.
Tambem podeis ir aos Toiros--esto imbolados, no ha perigo...

Viajar?.. qual viajar! at  Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que
l haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que
todas as praas d'este mundo so como a do Terreiro-do-Pao, todas as
ruas como a rua Augusta, todos os cafs como o do Marrare.

Pois no so, no: e o do Cartaxo menos que nenhum.

O caf  uma das feies mais characteristicas de uma terra. O viajante
experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no caf, observa-o,
examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que est, o seu govrno,
as suas leis, os seus costumes, a sua religio.

Levem-me de olhos tapados onde quizerem, no me desvendem seno no caf;
e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou
se for paiz sublunar.

Ns entrmos no caf do Cartaxo, o grande caf do Cartaxo; e nunca se
incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de
Constantinopla com tanto gso de alma e satisfaco de corpo, como ns
nos sentmos nas duras e asperas tbuas das esguias banquetas mal
sarapintadas que ornam o magnfico estabelecimento bordalengo.

Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: ser um
parallelogrammo pouco maior que a minha alcova;  esquerda duas mezas de
pinho,  direita o mostrador invidraado onde campeam as garrafas
obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto,
laboriosamente arrendados por no vulgar tesoira, os pingentes de papel,
convidando a lascivo repouso a inquieta raa das moscas. Reina uma
frescura admiravel n'aquelle recinto.

Sentmo-nos, respirmos largo, e entrmos em conversa com o dono da
casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e
sympathica, e sem nada do repugnante villo-ruim que  tam usual de
incontrar por similhantes logares da nossa terra.

--'Ento que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patro?'

--'Novidades! Por aqui no temos seno o que vem de Lisboa.--Ahi est a
'Revoluo' de hontem...'

--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa
da terra. Que faz por ca o...'

--'O mestre J. P., o 'Alfageme?''

--'Como assim o Alfageme?'

--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois ento! Uns senhores de
Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a
gente bem sabe o que ; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama
seno o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle no  Alfageme, ou no o
hade ser muito tempo. No  aquelle, no. Eu bem me intendo.'

A conversao tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos
profundar o caso.

--'Muito me conta, Sr. patro! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe
que  coisa de?..

--'Parece-me o que , e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma
coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme
diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na
Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e
que no queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos
inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar
os outros brigar, trabalhemos ns e ganhemos a nossa vida.' Mas que
extrangeiros que no queria, que sta terra que era nossa e co'a nossa
gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram
por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel
e o no deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo s direitas.
Pois no  assim que foi?'

--', sim, meu amigo. Mas ento d'ahi?'

--'Ento d'ahi o que se tira,  que quando havia fidalgos como o sancto
Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'

--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
Cartaxo?'

--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado.
Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, ps por ahi
suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou
nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem,
bom ser.--Os senhores no tomam nada?'

O bom do homem visivelmente no queria fallar mais: e no deviamos
importun-lo. Fizemos o sacrificio de bom nmero de limes que
expremmos em profundas taas--vulgo, copos de canada--e com agua e
assucar, offerecemos as devidas libaes ao genio do logar.

Infelizmente o sacrificio no foi detodo incruento. Muitas hecatombes de
myrmides cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que no
sei se agradou  divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.

Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do
Ribatejo. Ja elle saba da nossa chegada, e vinha no caminho para nos
abraar.

Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.

 das povoaes mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre;
parece o bairro suburbano de uma cidade.

No ha aqui monumentos, no ha historia antiga: a terra  nova, e a sua
prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que
o seu vinho comeou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnao
d'aquelle commercio, ainda  comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.

No tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.

Que memorias aqui no ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
borracheiras aqui no tomaram os mais famosos generaes, os mais
distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda ento,
ao menos, nos bebia o vinho!

Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas
limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como pde
uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas
vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo,
ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
desafinao insular que lhe  propria e que faz parte de seu respeitavel
character nacional--faz; no se riam: o inglez no canta seno quando
bebe... alias quando est BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta:
_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim
_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular
Rulle-Britannia!

Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a
pso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_,
chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos d gsto... que em poucos annos
veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso
character nacional.

Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois no vdes que no sois nada
sem ns, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia,
valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiosa rudeza saxonia!

D'essas traidoras praias da Frana donde vos vai hoje o veneno corrosivo
da vossa indole e da vossa fra, no tardar que tambem vos chegue
outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faa
arrepender, mas tarde, do criminoso rro que hoje commetteis, 
insulares sem fe, em abandonar a nossa alliana. A nossa alliana sim, a
nossa poderosa alliana, sem a qual no sois nada.

O que  um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?

Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o
chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os
acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.

Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg;
Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que
essas escorreduras das areias de Bordeos.

Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis
a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
beber da sua zurrapa: so tantos pontos de partido que lhe dais no seu
jgo.

 M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliana; e tambem perde o
Cartaxo. Por isso eu ja no quero nada com os doutrinarios.

...........................................................................

Ha dze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da ltima guerra de
_successo_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
Saldanha.

Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canes
bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos
hymnos constitucionaes.

Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleies, no  grande coisa
para a indstria vinhateira, dizem. Eu no o creio porm; e tenho minhas
boas razes, que ficam para outra vez.




CAPITULO VIII.


     Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha
     de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D.
     Pedro ao exrcito liberal.--Batalha de
     Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que no 
     philosopho e chega  ponte da Asseca.


Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montmos a cavallo, e
cortmos por entre os viosos pampanos que so a glria e a e tomado
nimo; breve, nos achmos em plena charneca.

Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se
desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
que exhalam stas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que
resistem verdes e viosas a um sol portugez de julho!

A doura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do
Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de
milho,  hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os
caules com a agua que lhe anda por p, e  roda as carvalheiras
classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--so ambos
esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a
dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.

A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e
escurido de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas
clareiras, tudo  grandioso, sublime, inspirador de elevados
pensamentos. Medita-se alli por fra; isola-se a alma dos sentidos pelo
suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as
primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento...

 assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pr do sol na gandra erma
e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da
bcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro
espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso
n'aquelle quadro que no tem nenhum outro.

No  o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do
valle. No ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir
positivamente. Ha a solido que  uma idea negativa...

Eu amo a charneca.

E no sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que
na algaravia de hoje se intende por essa palavra.

Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, quella hora que a passmos,
comeava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.

Sentia-me disposto a fazer versos... a qu? No sei.

Felizmente que no estava so; e escapei de mais essa caturrice.

Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo,
porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distraco, de
mudez--cessou-me a vida toda de _relao_, e no me sentia existir seno
por dentro.

Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui
 que foi, no ha dvida'.

--'Foi aqui o qu?'

--'A ltima revista do imperador'.

--'A ltima revista! Como assim a ltima revista! Quando? Pois?...'

Ento cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e
desconsolao, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada sta
gerao, Deus sabe para qu--Deus sabe se para expiar as faltas de
nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...

O certo  que alli comeffeito passra o imperador D. Pedro a sua ltima
revista ao exrcito liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das
mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.

Toda a guerra civil  triste.

E  difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o
vencido.

Ponham de parte questes individuaes, e examinem de boa f: vero que,
na totalidade de cada faco em que a nao se dividiu, os ganhos, se os
houve para quem venceu, no balanam os padecimentos, os sacrificios do
passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...

Eu no sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a
guerra extrangeira, tudo so guerras que elle condemna--e no mais uma
do que a outra... a no ser Hobbes o ditto philosopho, o que  coisa
muito differente.

Mas no sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aop
do Leo de bronze sbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de
tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina
os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a no sei qu... Os
povos disseram que  liberdade, os reis que  realeza... Nenhuma d'ellas
ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...

Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o corao com essas
recordaes, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli
se obraram.

Porque ser que aqui no sinto seno tristeza?

Porque luctas fratricidas no podem inspirar outro sentimento e
porque...

Eu moa comigo so stas amargas reflexes, e toda a belleza da charneca
desappareceu deante de mim.

N'esta desagradavel disposio de nimo chegmos  ponte d'Asseca.




CAPITULO IX.


     Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam,
     apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsiderao do
     capitulo antecedente.--Livros que no deviam ter titulo, e titulos
     que no deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte,
     Rotchild e Silvio-Pllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexes e 
     ponte da Asseca.--Traduco portugueza de um grande poeta.--Origem
     de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este
     livro foi jacobino desde pequeno.--Inguio que lhe deram.--A
     duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.


Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra
de Portugal, um figuro exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o
instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, s vezes,
a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, no sem mrito, as
figuras: mas ao p-las em aco, ao collori-las, ao faz-las fallar...
boas noites! era semsaboria irremediavel.

Deixou uma colleco immensa de peas de theatro que ninguem conhece, ou
quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representao; mas rara
 a que no poderia ser arranjada e appropriada  scena.

Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que
bellas e portuguezas coisas se no podem extrahir dos treze volumes--so
treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo!
Algumas d'essas peas, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo,
um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.

Esto-me a lembrar stas:

'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto 
este; comedia cujos characteres so habilmente esboados, funda-se
n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da priso os que assim se
suppunha podrem reparar certos damnos de reputao feminina.

'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo
nosso.

'As duas educaes', bello quadro de costumes: so dois rapazes, ambos
extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. 
eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz  moda,
'palpitante de actualidade.'

'O cioso', comedia ja remoada da antiga comedia de Ferreira e que em si
tem os germens todos da mais ricca e original composio.

'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e inveno de quem
tal assumpto concebeu: assumpto ainda no tractado por nenhum de tantos
escriptores dramaticos de nao alguma, e que  todavia um vulgar
ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.

So muitas mais, no fica n'estas, as composies do fertilissimo
escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gsto, e animadas sbretudo
no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir  mingua dos nossos
theatros.

Uma das mais semsabores porm, a que vulgarmente se haver talvez pela
mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e
sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho,  a que tem
por titulo 'Poeta em annos de prosa'.

E foi por sta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na
digresso dramatico-litteraria do princpio d'este capitulo; pegou-se-me
 penna porque se me tinha pregado na cabea; e ou o capitulo no sabia,
ou ella havia de sahir primeiro.

Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem no
foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si  um volume! Ha
livros, e conheo muitos, que no deviam ter titulo, nem o titulo  nada
n'elles.

Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante'
psto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi
anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu
prototypo?

E ha titulos tambem que no deviam ter livro, porque nenhum livro 
possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.

'Poeta em annos de prosa'  um d'esses.

Eu no leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem
verdadeiramente bellas, isto , simples, verdadeiras, e por consequencia
sublimes, que no exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em
annos de prosa!'

Pois este  seculo para poetas? ou temos ns poetas para este seculo?..

Temos sim, eu conheo tres: Bonaparte, Silvio-Pllico e o baro de
Rotchild.

O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o
ltimo com o dinheiro.

So os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.

Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter
paciencia com Silvio-Pllico.

Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem-- tolo...

Vieram-me stas mui judiciosas reflexes a proposito do capitulo
antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instruco e
edificao do leitor benevolo.

Acabei com ellas quando chegmos  ponte da Asseca.

Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um est
traduzido em portuguez--o Rotchild: no  litteral a traduco,
agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como no ha
outra...

Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver
sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o
admiravel rifo portuguez que ainda no foi bem examinado como devia
ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva:
'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes
olivaes ficam logo adiante.  uma ethymologia como qualquer outra.

A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul
de hynverno: ainda agora est a desangrar-se em agua por toda a parte.

 notavel na historia moderna este stio. Aqui n'um recontro com os
nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus
beau garon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da aco,
tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem
depois d'isso.

Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras
notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhec...
Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem
que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que
nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para
excitar tantos odios e malquerenas, era necessario que fosse um bem
grande homem.

Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro.
Levei bons puches de orelhas de meu pae por comprar na feira de
San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos,
ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... no imaginam o
qu... um retrato de Bonaparte.

Foi 'inguio'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita
n'elles: foi inguio que anda se no desfez e que toda a vida me tem
perseguido.

Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha
infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada
memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto
das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por
ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa
mesma Frana,  patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha
natureza sympathysava sem saber porqu, buscar asylo e guarida?

No vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejra conhecer; as ruinas
do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos,
desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librs do
vencedor...

De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e
tractei foi uma senhora, typo de graa, de amabilidade e de talento.
Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me
formar no espirito um modllo de valor e merecimento feminino que me
veio a fazer muito mal.

Custa depois a encher aquella altura que se marcou...

Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.

Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso,
cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que
tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante
que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo,
ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoo intallado
na inflexivel gravata, os ps pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao
limiar da porta--no que lh'os prendessem saudades, seno que lh'os
paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a
teimar.

--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero
apresent-lo a madame de Abrantes. Est tam velha! Isto de mulheres no
so como ns, passam muito depressa.'

E o desgraado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.

Tommos uma 'citadine', e fomos comeffeito  nova e elegante rua chamada
no impropriamente a rua de Londres, onde achmos rodeada de todo o
esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.

No quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem ma,
nem airosa de faser impresso era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora
de conversao, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graas, tanto
natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da
mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente
se dizia a gente no seu corao: 'Como se est bem aqui!'

Fallmos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restaurao, da
revoluo de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de
Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do
_Sacr-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallmos artes, poesia,
politica... e eu no tinha nimo para acabar de conversar...

Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda  consciencia,
um resto de consciencia: acabemos com stas digresses e perennaes
divagaes minhas. Bem vejo que te deixei parado  minha espera no meio
da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dmos d'espora s mulinhas, e
vamos que so horas.

Ca estmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de
Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas
e de loureiros viosos. D'isto  que no tem Pars, nem Frana nem terra
alguma do occidente seno a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas
coisas que nos faltam.




CAPITULO X.


     Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre
     umas rvores.--Conjecturas vrias a respeito da ditta
     janella.--Similhana do poeta com a mulher namorada, e
     inquestionavel inferioridade do homem que no  poeta.--Os
     rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas
     saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos
     um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com
     grande admirao e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sbre a
     mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas
     muito para temer, crtica dos elegantes muito para rir.--Comea o
     primeiro episodio d'esta Odyssea.


O valle de Santarem  um d'estes logares privilegiados pela natureza,
sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situao, tudo
est n'uma harmonia suavissima e perfeita: no ha alli nada grandioso
nem sublime, mas ha uma como symetria de cres, de sons, de disposio
em tudo quanto se ve e se sente, que no parece seno que a paz, a
saude, o socgo do espirito e o repouso do corao devem viver alli,
reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixes ms, os
pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida no podem seno
fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem
habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu corao.

 esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta
quasi a pique, est um masisso de verdura do mais bello vio e
variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaam os ramos amigos; a
madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festes;
a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o
cho.

Para mais realar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das
rvores a janella meia aberta de uma habitao antiga mas no
dilapidada--com certo ar de confrto grosseiro, e carregada na cr pelo
tempo e pelos vendavais do sul a que est exposta. A janella  larga e
baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio
que todavia mal se ve...

Interessou-me aquella janella.

Quem ter o bom gsto e a fortuna de morar alli?

Parei e puz-me a namorar a janella.

Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitio.

Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz...
Imaginaro decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.

Como hade ser bello ver pr o sol d'aquella janella!..

E ouvir cantar os rouxinoes!..

E ver raiar uma alvorada de maio!..

Se haver alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e
saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que
parece que lhe andam esvoaando em trno?

Se fr homem  poeta; se  mulher est namorada.

So os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
namorada: vem, sentem, pensam, fallam como a outra gente no ve, no
sente, no pensa nem falla.

Na maior paixo, no mais acrysolado affecto do homem que no  poeta,
entra sempre o seu tanto da vil prosa humana:  liga sem que se no
lavra o mais fino de seu oiro. A mulher no; a mulher apaixonada devras
sublima-se, idealiza-se logo, toda ella  poesia; e no ha dor physica,
intersse material, nem deleites sensuaes que a faam descer ao positivo
da existencia prosaica.

Estava eu n'estas meditaes, comeou um rouxinol a mais linda e
desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.

Era aope da ditta janella!

E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um
desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam
accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance,
esqueci-me de tudo o mais.

Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua
de canado.

O arvoredo, a janella, os rouxinoes... quella hora, o fim da tarde...
que faltava para completar o romance?

Um vulto feminino que viesse sentar-se quele balco--vestido de
branco--oh! branco por fra... a frente descahida sbre a mo esquerda,
o brao direito pendente, os olhos alados ao ceo... De que cr os
olhos? No sei, que importa!  amiudar muito demais a pintura, que deve
ser a grandes e largos traos para ser romantica, vaporosa, desenhar-se
no vago da idealidade poetica...

--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu
extasi, 'os olhos... pretos.'

--'Pois eram verdes!'

--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'

--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem
preo.'

--'Qu! pois realmente?..  gracejo isso, ou realmente ha alli uma
mulher, bonita, e?..'

--'Alli no ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh!
houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'

<tb>

--'Bem dizia eu que aquella janella...'

--' a janella dos rouxinoes.'

--'Que l esto a cantar.'

--'Esto, esses l esto ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros,
mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e no voltou.'

--'A menina dos rouxinoes! que historia  essa? Pois devras tem uma
historia aquella janella?'

--' um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e
conta-se em duas palavras.'

--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve
ser interessantissimo. Vamos  historia ja.'

--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'

Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos
companheiros de viagem.

Apemo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina
dos rouxinoes_ como ella se contou.

 o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle
porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez no
 bom para isto, que em francez que ha outro no-sei-qu...

Eu creio que as damas que esto mal informadas, e sei que os elegantes
que so uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim,
d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as
mulheres no gostem,  porque no presta.

Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou
contar no  um romance, no tem aventuras inredadas, peripecias,
situaes e incidentes raros;  uma historia simples e singella,
sinceramente contada e sem preteno.

Acabemos aqui o capitulo em frma de prologo, e a materia do meu conto
para o seguinte.




CAPITULO XI.


     Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
     quizeram tirar, mas no lhes foi concedido; aos romancistas
     sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
     no capitulo nono d'esta obra que no era philosopho, agora
     confessa, quasi solemnemente, que  poeta, e pretende manter-se,
     como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
     menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
     o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
     transcendente do corao. Por uma deduco appertada e cerrada da
     mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
     concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
     namorados.--Applicam-se todas stas grandes theorias  posio
     actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
     capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
     duvidar da sua qualificao para o desimpenho: pede votos s
     amaveis leitoras. Decide-se que a votao no seja nominal, e
     porqu.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
     historia.--De como a velha estava  porta a dobar, e
     imbaraando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.


Este  o unico privilegio dos poetas: que at morrer podem estar
namorados. Tambem no lhes conheo outro. A mais gente tem as suas
epochas na vida, fra das quaes lhes no  permittido apaixonarem-se.
Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas no lhes
foi consentido pela rainha Opinio, que  soberana absoluta e juiz
supremo de que se no appella nem aggrava ninguem.

Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e no se
extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
ltimo namro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.

Ora eu philosopho, seguramente no sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques asss agudos d'essa
molestia, e bem podra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
corao... Mas no senhor, no quero desculpar-me como quem tem culpa
seno defender-me como quem tem razo e justia por si.

Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
espero, at morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
aco baixa, mesquinha, nunca hade ser seno no intervallo de uma paixo
 outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o corao, esfria-me o
sentimento, no acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo s
carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
generosidade e benevolencia outra vez.'

Yorick tem raso, tinha muito mais razo e juizo que seu augusto amo,
elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O corao humano
 como o estomago humano, no pode estar vazio, preciza de alimento
sempre: so e generoso so as affeies lh'o podem dar; o odio, a inveja
e toda a outra paixo m  estmulo que so irrita mas no sustenta. Se a
razo e a moral nos mandam abster d'estas paixes, se as chymeras
philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
corao, que hade elle fazer? Gastar-se sbre si mesmo, consummir-se...
Altera-se a vida, appressa-se a dissoluo moral da existencia, a saude
d'alma  impossivel.

O que pde viver assim, vive para fazer mal ou para no fazer nada.

Ora o que no ama, que no ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
me se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem  o tal,
e Deus me livre d'elle.

Sbretudo que no escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
este o motivo da indefinida permisso que  dada aos poetas de andarem
namorados sempre.

O romancista gosa do mesmo fro e tem as mesmas obrigaes.  como o
privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!

Como heide eu ento, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
ainda foi contado ou cantado, como heide eu faz-lo, eu que ja no tenho
que amar n'este mundo seno uma saudade e uma esperana--um filho no
bero e uma mulher na cova?..

Ser isto bastante? Dizei-o vs,  benevolas leitoras, pde com isto so
alimentar-se a vida do corao?

--Pde sim.

--No pde, no.

--Esto divididos os suffragios: peo votao.

--Nominal?

--No, no.

--Porqu?

--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e cr e diz assim a
conversar, mas que no ousa confessar publicamente, professar aberta e
nomeadamente no mundo...

Ah! sim... elle  isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
extraordinarias. No  assim?

Pois o mesmo farei eu.

E psto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
assignalado na minha vida, me apparecesse uma viso, uma viso celeste
que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual no
podia dizer decerto como a rainha Dido  mana Annica:

    Reconheo o queimar da chamma antiga,
    Agnosco veteris vestigia flammae;

psto que a viso passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
certeza de que... Psto que seja assim tudo isto, a confidencia no
passar d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
historia  sta.

Era no anno de 1832, uma tarde de vero como hoje calmosa, scca, mas o
ceo puro e desabafado.  porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o no mostrava.
Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mos
longas, descarnadas, mas no ossudas como usam de ser mos de velhas;
toucava-se com um leno da mais escrupulosa brancura, e psto de um
geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
brancura, que tinha no peito e que affectava, no menos, a frma de um
escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
parecia a que serviu de modllo a Raphael para o seu bello quadro da
_Madonna della Sedia_.

Como nota historica e illustrao artistica, seja-me permittido juntar
aqui em parenthesis que, no ha muito, vi em casa de um sapateiro
remendo, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.

Tornemos  velhinha.

Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
ter s mos a inrollar-se no ja crescido novello.

Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
Setubal.

O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e responda ao
movimento quasi imperceptivel das mos da velha. Era regular o
movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
se ia alternando como o pulso de um que treme seses.

Mas o velha no tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
a suspenso era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
tornava a andar.

Os olhos da velha  que tinham uma expresso singular: voltada para o
poente, no os tirou d'essa direco nem os inclinava de modo algum para
a dobadoira que lhe ficava um pouco mais  esquerda. No pestanejavam, e
o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
saphyras, parecia desbotado e sem lume.

O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
tranquillamente as mos e o novello no regao, e chamou para dentro da
casa:

--'Joanninha?'

Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
que retinem dentro d'alma e que no esquecem nunca mais, respondeu de
dentro:

--'Senhora? Eu vou, minha av, eu vou.'

--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
podres.  a meada que se me imbaraou.'

A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
que n'este mundo destinou  dura provana de tam desconsolado martyrio.




CAPITULO XII.


     De como Joanninha desimbaraou a meada da av, e do mais que
     aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--D o A. insigne
     prva de ingenuidade e boa fe confessando um grave seno do seu
     Ideal. Insiste porm que  um adoravel deffeito.--Em que se parece
     uma mulher desannellada com um Sanso tosquiado.--Pasmosas
     monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
     peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religio dos olhos
     pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha 
     vista de uns olhos verdes.--De como estando a av e a neta a
     conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
     conversao.--Quem era Frei Diniz.


--'Aqui estou, minha av:  a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
Joanninha sahindo de dentro, e com os braos abertos para a velha.
Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
tomando-lhe o novello das mos n'um instante desimbaraou o fio e lh'o
tornou a intregar.

A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'

sta ltima phrase, sta benam de um corao agradecido, que spira
suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
sta ltima phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:

--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
E Elle te abenoe tambem, filha!'

--'Sabe que mais, minha av? Basta de trabalhar hoje, so horas de
merendar'.

--'Pois merendemos'.

Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
com uma toalha alvissima, ps em cima fructa, po, queijo, vinho,
chegou-a para aop da velha, tirou-lhe o novello da mo, e arredou a
dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
escolheu e ps nas mos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
quieta, mas ja sem a mesma expresso de felicidade e contentamento
socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feies de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
alterao.

Joanninha no era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de propores
toda a elegancia nobre, todo o desimbarao modesto, toda a flexibilidade
graciosa que a arte, o uso e a conversao da crte e da mais escolhida
companhia vem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.

Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educao nada
ou quasi nada.

Poucas mulheres so muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
delicada, tam _elance_ era a frma airosa de seu corpo.

E no era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
parece fundida de uma so pea; no, mas flexivel e ondulante como a
hstea joven da rvore que  direita mas dobradia, forte da vida de
toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.

Era branca, mas no d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.

E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
um sangue que passa livre pelo corao e corre  sua vontade por
artrias em que os nervos no dominam, d'essas no as havia n'aquelle
rosto: rosto sereno como  sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
vento... Alli dormiam as paixes.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
increspar a superficie espelhada do mar.

Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
paixes, e vero como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
d'aquella face tranquilla.

O nariz ligeiramente aquilino: a bcca pequena e delgada no cortejava
nem desdenhava o surriso, mas a sua expresso natural e habitual era uma
gravidade singela que no tinha a menor aspereza nem doutorice.

Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
so a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
fazer s suas creaturas femeas.

Em perfeita harmonia de cr, de frma e de tom com a fina gentileza
d'estas feies, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
para a extremidade, at lhe tocarem no collo quasi lisos.

Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
a _toilete_--este  um defeito; bem sei.

Que votos, que novenas se no fazem a San'Barometro nas vsperas de um
baile para lhe pedir uma atmosphera scca e benigna que deixe conservar,
at  quarta contradana ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que  defeito, , ser... mas que adoravel defeito! Que
deliciosas imagens que excita de abandno--passe o gallicismo--de
confiana, de absoluta e generosa renncia a todo o caprixo, de perfeita
e completa abdicao de toda a vontade propria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma f que tinha
Sanso: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu no estou longe de o crer:
canudo inflexivel, mulher inflexivel.

Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
que  como a ave phenix que nasceu de nossos avs no saberem grego. Eu
no digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
monstruosidades.

Emfim suspendmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
interessante questo. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
 minha Joanninha.

Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intranar-se, e
inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabea pequena,
estreita e do mais perfeito modlo.

As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
da face.

Os olhos porm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
harmonia quiz lanar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
sua composio, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
espera e que parece lanar a anarchia no meio do rythmo musical... os
dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
ouvidos lhes levam ao corao a musica, e no  cabea, esses estremecem
de admirao e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... no
d'aquelle verde descorado e traidor da raa felina, no d'aquelle verde
mau e destingido que no  seno azul imperfeito, no; eram
verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
quilate.

So os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.

Eu, que professo a religio dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
heretica pravidade do lho azul, soffri o que  muito bem feito que
soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
nos meus principios, sinceramente persuadido que fra d'elles no ha
salvao, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
f vacillante na contemplao das eternas verdades, que so e unicamente
se incontram aonde est toda a f e toda a crena... n'uns olhos sincera
e lealmente pretos.

Joanninha porm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feio
n'aquella physionomia  primeira vista tam discordante--era em verdade
pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensao
inexplicavel e indecisa que doa e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
carregada, tam incapaz de soluo-de-continuidade, que toda a lembrana
de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
eram absorvidas.

Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
traadas em cothurno. O p breve e estreito; o que se adivinhava da
perna admiravel.

Tal era a ideal e espiritualissima figura que em p, incostada  banca
onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
macerado e apagado, a indicivel expresso de tristeza que elle pouco a
pouco a tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfro para se
distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
mos o novllo da sua meada:

--'O meu novllo, filha: no posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'

--'Conversemos, av.'

--'Pois conversemos; mas d-me o meu novllo. No sei o que , mas
quando no trabalho eu, trabalha no sei o que em mim que me cansa ainda
mais. Bem dizem que a ociosidade  o peior lavor.'

Joanninha deu-lhe o novllo e ps-lhe a dobadoira a geito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mo, levou-a  bcca e pareceu
beija-la, depois disse:

--'Bem vi, Joanninha!'

--'O qu, minha av? que viu?'

--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, sta lagryma tua que
me cahiu na mo, e que ja ca est no peito por que a bebi, Joanna. Oh
filha, ja!  muito cedo para comear, deixa isso para mim que estou
costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgsto!'

--'Nenhum, av! E estamos sosinhas ns duas n'este mundo, minha av
n'esse estado, eu n'esta edade, e...'

--'E Deus no ceu para tomar conta em ns... Mas que ? olha, Joanna: eu
sinto passos na estrada v o que .'

--'No vejo ninguem.'

--'Mas oio eu... Espera...  Fr. Diniz; conheo-lhe os passos.'

Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
scca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
na cabea o seu chapeo alvadio, vinha em direco para ellas.

Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardio de San'Francisco de
Santarem.




CAPITULO XIII.


     Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e
     artisticamente.--Prva-se que  muito mais poetico o frade do que o
     baro.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o baro,
     sua classificao e descripo linneana.--Historia do castello do
     Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
     jesuitas no so a cholera-morbus, e que  preciso refazer o 'Judeu
     errante'--De como o frade no intendeu o nosso seculo nem o nosso
     seculo ao frade.--De como o baro ficou em logar do frade, e do
     muito que n'isso perdmos.--Unica voz que se ouve no actual deserto
     da sociedade: os bares a gritar contos de reis.--Como se contam e
     como se pagam os taes contos.--Predileco artistica do A. pelo
     frade: confessa-se e explica-se sta predileco.


Frades... frades... Eu no gsto de frades. Como ns os vimos ainda os
d'este seculo, como ns os intendmos hoje, no gsto d'elles, no os
quero para nada, moral e socialmente fallando.

No ponto de vista artistico porm o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquellas figuras graves e srias com os seus habitos
tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as
multides de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de
alcatruz que distinguem a peralvilha raa europea--cortavam a monotonia
do ridiculo e davam physionomia  populao.

Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a
payzagem, poetisavam a situao mais prosaica de monte ou de valle; e
tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros,
que sem ellas o painel no  ja o mesmo.

Alm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no rmo animavam,
amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as rvores,
sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.

O que no sabem nem podem fazer os agiotas bares que os substituiram.

 muito mais poetico o frade que o baro.

O frade era, at certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O baro , em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.

Menos na graa...

Porque o baro  o mais desgracioso e estupido animal da creao.

Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam
distinctas como o Ruo do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de
Orleans e outros.

O baro (_onagros-baronius_ de Linn., _l'nne-baron_ de Buf.)  uma
variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte
essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com
o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e
sordidamente revolucionaria de seu character.

O baro  pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente
usurario.

Por isso  _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pllo.

Este  o baro verdadeiro e puro-sangue: o que no tem estes characteres
 especie differente, de que aqui se no tracta.

Ora, sem sahir dos bares e tornando aos frades, eu digo: que nem elles
comprehenderam o nosso seculo nem ns os comprehendmos a elles..

Por isso brigmos muito tempo, a final vencmos ns, e mandmos os
bares a expuls-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se
fez outra. O baro mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a ns
depois.

Com que havemos ns agora de matar o baro?

Porque este mundo e a sua historia  a historia do 'castello do
Chucherumello'. Aqui est o co que mordeu no gato, que matou o rato,
que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.

Mas o frade no nos comprehendeu a ns, por isso morreu, e ns no
comprehendemos o frade, por isso fizemos os bares de que havemos de
morrer.

So a molestia d'este seculo; so elles, no os jesuitas, a
cholera-morbus da sociedade actual, os bares. O nosso amigo Eugenio Sue
errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos no comprehender, a ns, ao
nosso seculo, s nossas inspiraes e aspiraes: com o que falsificou a
sua posio, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade,
uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era
sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o
no amava seno relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe no servia
nem o servia.

Ns tambem errmos em no intender o desculpavel rro do frade, em lhe
no dar outra direco social; e evitar assim os bares, que  muito
mais damninho bicho e mais roedor.

Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais
bellas theorias que se faam, por mais perfeitas constituies com que
se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com
bares ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma
influencia distincta, quando no contraria, s influencias manifestas e
apparentes do grande corpo social. Esta  a opposio natural do
Progresso, o qual tem a sua opposio como todas as coisas sublunares e
superlunares; sta corrige saudavelmente, s vezes, e modera sua
velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim  uma
necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposio dos
frades que a dos bares. O caso estava em a saber conter e approveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, no ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os
egressos a pedir esmola e os bares de berlinda, tenho saudades dos
frades--no dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.

E sei que me no inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica
inflexivel contra as illuses poeticas em se tractando de coisas graves.

E sei que me no namro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de
contradico desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca esto
contentes com o que .

No, senhor: o frade, que  patriota e liberal na Irlanda, na Polonia,
no Brazil, podia e devia s-lo entre ns; e ns ficavamos muito melhor
do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer
missa; e com duas grozas de bares, no para a tal opposio salutar,
mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da
sociedade--porque no ha de outra ca.

E se no digam-me: onde esto as universidades, e o que faz essa que ha
seno dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que
escreve ella, o que discute, que prncipios tem, que doutrinas professa,
quem sabe ou ouve d'ella seno algum echo timido e acanhado do que
n'outra parte se faz ou diz?

Onde esto as academias?

Que palavra poderosa retine nos pulpitos?

Onde est a fra da tribuna?

Que poeta canta tam alto que o oiam as pedras brutas e os robres duros
d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?

Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da
policia, no se ouve no vasto silencio d'este ermo seno a voz dos
bares gritando contos de ris.

Dez contos de ris por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Trs mil contos para a converso de um amphigouri!

Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!

No tardam o contar por centenas de milhares.

Contar a elles no lhes custa nada.

A quem custa  a quem paga para todos esses bales de papel--a terra e a
indstria..................................................................
...........................................................................
...........................................................................

Este captulo deve ser considerado como introduco ao captulo
seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardio do San' Francisco
de Santarem.

Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que no podia fazer conto,
drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.

O 'Cames' tem um frade, Frei Jos Indio;

A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz
quatro;

A 'Adozinda' tem um ermito, especie de frade--cinco;

'Gil-Vicente' tem outro--isto , verdadeiramente no tem seno meio
frade, que  Andr de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;

O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilo-Dias, chibato da ordem de
Malta--seis frades e um quarto;

Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo so frades: vale bem n'esta computao, os
seus tres, quatro, meia duzia de frades--so j dze e quarto:

Alguns, no eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em
que ha bem dous frades e um leigo:

E aqui tenho eu s costas nada menos de quinze frades e quarto.

Com este Frei Diniz  um convento inteiro.

Pois, senhores, no sei que lhes faa: a culpa no  minha. Desde mil
cento e tantos que comeou Portugal, at mil oitocentos trinta e tantos
que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, no sei
que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pblica ou
particular, em que frade no entrasse.

Para evitar isto no ha seno usar da receita que vem formulada no
capitulo V[3] d'esta obra.

Faa-o quem gostar; eu no, que no quero nem sei.




CAPITULO XIV.


     Emendado emfim de suas distraces e divagaes, prosegue o A.
     direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
     manga a beijar  av e  neta, e do mais que entre elles se
     passou.--Ralha o frade com a velha, e comea a descobrir-se onde a
     historia vai ter.


Este capitulo no tem divagaes, nem reflexes, nem consideraes de
nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
adeante.

Fr. Diniz chegava aop das duas mulheres e disse:

--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'

Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle
accrescentou:

--'A beno de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'

--'Benedicite, padre guardio:' disse a velha inclinando-se meia
levantada da cadeira.

--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e
chegando o brao a alcance de lh'o ella beijar:

--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por c?
Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no
Senhor?'

--'Ja os no tenho seno para elle, padre.'

--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!
Tenho-a reprehendido tanta vez e no se emenda.'

--'Eu no me queixei, meu padre. Deus sabe que me no queixo... ao menos
por mim.'

--'Pois por quem?'

--'Oh padre!'

--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu no conheo as
affeies da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
frade, minha irman, sou um que ja no  do nmero dos vivos, que vestiu
sta mortalha para no ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a
mofa e o desprzo so o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a
deriso, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--so a
nossa unica esperana. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, j velho e experimentado
no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e 
profisso que abraei. Que quer de um homem que assim se resolveu a
cortar por quanto prende a humanidade a sta miseravel vida da terra,
para no viver seno das esperanas da outra? Eu vesti este hbito para
isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu?  um divertimento,  um
capricho,  uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas
do mundo, no apperte com a paciencia divina, trajando por fra o sacco
da penitencia e trazendo o corao pordentro desappertado de todo o
cilicio e mortificao.'

A velha com as mos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o
ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que no
cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente
se fra approximando da av, e a tinha como amparada portraz com um de
seus braos, firmava a outra mo nas costas da cadeira e cravava fita no
frade a vista penetrante e cheia de luz. A expresso do seu rosto era
indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto
inextricavel de enthusiasmo e desanimao, de f e de incredulidade, de
sympathia e de averso.

Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal crado estava
o typo e o symbolo das vascillaes do seculo.

--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se
o mereci, castigae-me. Deus, que me v e me ouve, bem sabe que o digo em
toda a verdade do meu corao, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e
mulher.'

--'Pois aos fracos no  que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_.
Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'

--' verdade, padre,  verdade: bem sei o que prometti, que me votei a
Deus d'alma e corpo, que me no perteno, que nem das minhas affeies
posso dispor, mas...'

--'Mas o qu? Irman Francisca, a Deus no se ingana. Os seus votos no
foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das
solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fro da consciencia,
na presena de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fra humana a constrange.
Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu no torno aqui.'

--'Oh, por compaixo, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta
so, uma so, e eu prometto no pensar, no fallar mais em... Onde est
elle?'

--'Joanna, retire-se.'

Joanninha appertou a av com ambos os braos; e sem dizer uma palavra,
sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para
dentro de casa.

--'E sta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta  primeira
pergunta que com tanta ancia fizera--'e sta, tambem d'ella me heide
separar, tambem heide renunciar a ella?'

--'Esta  uma innocente, e emquanto o for'...

--'Em quanto o for! A minha Joanna  um anjo.'

--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a no castigue por ella. Joanna 
boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mo. O
outro...'

--'Que  feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'

--'No prometta seno o que pde cumprir. Seu neto est com esses
desgraados que vieram das ilhas,  dos que desimbarcaram no Porto...'

--'Oh filho da minha alma! que no trno a abraar-te...'

--'No decerto; vencedores ou vencidos, toda a communho, toda a
possibilidade de unio acabou entre ns e estes homens. Ns temos
obrigao de os destruir, elles o seu unico desejo  exterminar-nos.'

--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja no ha
misericordia no ceo nem na terra!'

--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra no sei onde est nem
onde esteve nunca. Os fracos do sacrilegamente esse nome  sua
relaxao.'

--'Pois  relaxao desejar a paz, querer a unio, supplicar a
indulgencia? No nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os
nossos inimigos?'

--'Os nossos sim, os d'Elle no.'

--'Tende compaixo de mim, Senhor!'

--'Se as suas afflices so as da carne e do sangue, se so pensamentos
da terra como desgraadamente vejo que so, mulher fraca e de pouco
nimo, console-se, que para mim  claro e seguro que estes homens hode
vencer.'

--'Quaes homens?'

--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, esto em
todo o vigor das suas illuses. E ns, ns carregmos com o desingano de
muitos seculos, com os peccados de trinta geraes que passaram, e com a
inaudita corrupo da presente... ns havemos de succumbir. Os templos
hode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus
blasphemado  vontade n'esta terra malditta.'

--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mo de Deus so elles todos...
todos?'

--'Todos. E que cuida, irman? que so melhores os nossos, esses que se
dizem nossos? que ha mais f na sua crena, mais verdade em sua
religio? Oh sancto Deus!'

--'Faz-me tremer, padre!'

--'E para tremer . A impiedade e a cubia entraram em todos os
coraes. _Duvidar_  o unico princpio, _inriquecer_ o unico objecto de
toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem f: os liberaes ainda
teem esperana; no lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e vero.'

--'E hode vencer elles?'

--'Decerto.'

--'Ninguem mais diz isso.'

--'Digo-o eu.'

--'Tantos mil soldados que o govrno tem por si!'

--'E tantos milhes de peccados contra. No pde ser, no pde ser: a
misericordia divina est exhausta, e o dia desejado dos impios vem a
chegar. A sua misso  facil e prompta; no sabem, no podem seno
destruir. Edificar no  para elles, no teem com qu, no creem em
nada. O symbolo christo no  so uma verdade religiosa  um princpio
eterno e universal. _Fe, esperana e charidade_. Sem crer, sem
esperar...'

--'E sem amar!'

--'Mulher, mulher! o amor  a ltima virtude...'

--'Mas por ella, por ella se chega s outras.'

--'No, mulher fraca, no. E de uma vez para sempre, irman Francisca,
desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, no ha
transaco com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto no sei o que
. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e no tremo deante d'ella.
Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'

--'Padre eu no temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a
tribulao e desgraa heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da
minha f. Mas... mas o meu neto  o meu sangue, a minha vida,  o filho
querido da minha unica e tam amada filha, elle no conheceu outra me
seno a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandon-lo no posso, tirar
d'elle o pensamento no sei. A vontade de Deus...'

--'A vontade de Deus  que o justo se aparte do impio,  que os
cordeiros da beno vo para um lado, e os cabritos da maldico para
outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu no sou de pedra, no, no sou,
e tambem o corao se me parte de o dizer... mas esse rapaz  malditto,
e entre ns e elle est o abysmo todo do inferno.'

--'Misericordia, meu Deus!'

Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre
aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fra, as suas
ltimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos,
recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordo
tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao
culpado a terrivel imprecao que lhe sahia dos labios.

--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato,
corao derrancado e perverso!'

--'Meu Deus, no o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no cho
e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, no confirmeis aquellas
palavras tremendas. No o ouais, Senhor, e valha o sangue precioso de
vosso filho, as dores bemdittas de sua me, oh meu Deus! para arredar da
cabea do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade,
sem amor!..'

A velha queria dizer mais; as angstias que se tinham estado juntando
n'aquella alma, que porfim no podia mais e transbordava, queriam sahir
todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluos na presena do seu
Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que no podia
acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganas
que lhe annunciava o frade. Mas a carne no pde com o espirito, as
fras do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e...
suspendeu-se-lhe a vida.

Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu
commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que no
vibravam a nenhuma suave percusso: deu dous passos para a porta da
casa, bateu com o bordo e disse com voz firme e segura:

--'Joanna, acuda a sua av que no est boa.'

D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabea, caminhou
pressado; breve se escondeu para l das oliveiras da estrada.




CAPITULO XV.


     Retratto de um frade franciscano que no foi para o depsito da
     Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
     Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se no parecia nada
     com a de Condillac.--Suas opinies sbre o liberalismo e os
     liberaes.--Que o podr vem de Deus, mas como e paraqu.--Que os
     liberaes no intendem o que  liberdade e egualdade; e o para que
     eram os frades, se fossem.--Prva-se, pelo texto, que o homem no
     vive so de po, e pergunta-se o de que vivia ento Fr. Diniz.


Quem era Frei Diniz?

Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e canado do
mundo, que vestra o hbito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o
desprzo seguiam aquella profisso; que o saba, que o conhecia e que
por isso mesmo o affrontra.

D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das
grandes instituies para que nenhuma perea sem protesto, paraque de
nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoo nobre,
gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem  uma grande e
sublime creatura por mais que digam philosophos.

Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenas rigidas, e
de uma logica inflexivel e teimosa: logica porm que regeitava toda a
anlyse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que
fixra o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pso de uma
synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destrua
todo o raciocinio que se lhe punha de deante.

Condillac chamou  synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de
Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal  capaz de o abhorrecer;
mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas,
regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento
justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado,
para a sociedade em qualquer frma no havia mais leis que as do
decalogo, nem se precisavam mais constituies que o Evangelho: dizia
elle. Refor-las  superfluo, melhor-las impossivel, desviar d'ellas
monstruoso. Desde o mais alto da perfeio evangelica, que  o estado
monastico, ha regras para todos alli; e no falta seno observ-las.

No sei se sta doutrina no tem o quer que seja de um certo sabor
independente e livre, se no cheira o seu tanto  confiana heretica dos
reformistas evangelicos. O que sei  que Fr. Diniz a professava de
boaf, que era catholico sincero, e frade no corao.

Segundo os seus principios, podr de homem sbre homem, era usurpao
sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podr estava em
Deus--que o delegava ao pae sbre o filho, d'ahi ao chefe da familia
sbre a familia, d'ahi a um d'esses sbre todo o Estado; mas para o
reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos
primitivos principios christos.

Assim fra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o qu, no
eram reis.

Tudo o mais, anarchia, usurpao, tyrannia, peccado--absurdo
insustentavel e impossivel.

E sbre isto tambem no disputava, que no concebia como: era dogma.

Nas applicaes sim questionava, ou antes, argua, com sua logica de
ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, no os
poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubia e a suberba
dos grandes, a corrupo e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve
tribuno popular que as aoitasse mais sem d nem caridade.

O princpio porm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por
verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.

Quanto s doutrinas constitucionaes, no as intendia, e protestava que
os seus mais zelosos apostolos as no intendiam tam pouco: no tinham
senso-commum, eram abstraces d'eschola.

Agora, do frade  que me eu queria rir... mas no sei como.

O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas
cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por
fim:  uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve;
tem muita fra para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, no o
pde fazer. Curar com uma revoluo liberal um paiz estragado, como so
todos os da Europa,  sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as
ancias do pulmo por algum tempo, mas as fras vo-se, e a morte  mais
certa.'

Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em
elles os practicando devras, os liberaes, fao-me eu liberal tambem.
Mas no ha perigo: se os no intendem! Para intender a liberdade 
preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade  preciso ter o
Evangelho no corao.'

As instituies monasticas eram, no seu intender e no seu systema,
condico essencial de existencia para a sociedade civil--para uma
sociedade normal. No paliava os abusos dos conventos, no cubria os
defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua
relaxao; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeio
evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se
destrua, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos
os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava
e estreitava o individualismo egoista--ltima phase da civilizao
exaggerada que vai tocar no outro extrmo da vida selvagem.

Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma
erudio immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que
tinha vivido at a edade de cinquenta annos.

Como e porque deixra elle o mundo? Como e porqu, um espirito tam
activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardio do
seu convento--cargo que acceitra por obediencia--e quasi que limitava
as suas relaes fra do claustro quella casa do valle onde no havia
seno aquella velha e aquella criana?

Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a
este mundo? Aquelle corao macerado do cilicio dos pensamentos austeros
e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gso,
detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma
fibra que vibrasse com recordaes, com saudades, com remorsos do
passado?

No seu convento elle no tinha seno uma cella nua com um cruxifixo por
todo adrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que
conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com
quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi
que se no sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em
coisa mais nenhuma d'este mundo no tinha parte. De que vivia pois este
homem--homem que certo no era d'aquelles que vivem so de po?

E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema
predilecto dos raros sermes que prgava: _Non in solo pane vivit homo_,
Nem so de po vive o homem.

Vivia ento de alguma outra coisa este homem; e a meditao e a orao
no lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e no ia prgar nem
rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle  mesma hora,
do mesmo modo...

Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se no
desprendra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava
_castrar_ ainda por amor do ceo.

 que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que no morre
assim. E talvez  uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a
viver.

Saibamos alguma coisa d'essa vida.




CAPITULO XVI.


     Saibmos da vida do frade.--Era franciscano porqu?--Dos antigos e
     dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
     depois de ser frade.--Emigrao.--Explicao incompleta.--De como a
     velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
     aziago.


Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a
do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.

Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das
armas primeiro, depois a das lettras. Com distinco, e quasi com
paixo, tomra parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas
desgostoso do servio ou despreoccupado da glria militar, entrou na
magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de
corregedor do Ribatejo, em que ja fra reconduzido, devia passar  casa
do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mo a elrei, e d'ahi tomou
um dia o caminho de Santarem, chegou quella villa, deixou criados e
cavallos na estalagem, e foi tocar  campa da portaria de San'Francisco.

Os criados esperaram em vo muitos dias: elle no voltou.

Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu
Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prgador mais eloquente
d'aquelle tempo. Raro prgava, e so de doutrina; mas era uma torrente de
vehemencia, uma unco, uma fra!..

Dos institutos monasticos, ja ento bem decahidos todos de esplendor e
reputao, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descra no
conceito pblico. Quanto mais austera  a regra, tanto mais se nota
qualquer relaxao nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se
feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam
conversantes com todas as classes; familiarizra-se por tal modo o povo
com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja no severo, e
apenas deixou de o ser... ridculo--e ellas appareciam em taes logares,
a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a
considerao se lhe perdera. Escriptores, ja os no tinham, prgadores
poucos e sem reputao, era em todo o sentido a religio mais humilhada
na geral decadencia das ordens.

Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade
desprezado e apupado do seculo dezenove.

Em certos animos  preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar
este martyrio, do que fra nos antigos tempos para ir ao incntro das
nobres perseguies do sangue e do fogo.

Luctava-se com honra ento, cahia-se com glria, vencia-se muitas vezos
morrendo...

Agora  soffrer so.

O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com
intersse, com admirao, com espanto quelles combates gigantescos. E o
tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe no cahia aos ps
vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja
no sabe que tem martyres.

'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se
regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'

Eis aqui porque Diniz d'Atahide no quiz ser bento, nem jeronymo, nem
cartucho, e se foi metter frade franciscano.

De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica
somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua
entrada no convento. Do resto fez doao inteira a D. Francisca
Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princpio d'esta historia
incontrmos dobando  sua porta na casa do valle.

A velha no tinha mais familia que um neto e uma neta.

A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varo, e ja orphan
de pae e de me.

O neto, orpham tambem, nascra posthumo, e custra a vida a sua me,
filha querida e predilecta da velha.

Antes da splendida doao de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e
honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam
remediadamente. Mas a velha no quiz nunca sahir do modesto estado em
que atlli vivra. Tinham fartura de po, azeite e vinho de suas lavras;
corria-lhe com ellas um criado velho de confiana; trajavam e
tractavam-se como gente mean, mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr.
Diniz, ento Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentra
bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos
pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em
occasio de grande cheia, elle nunca mais l tornra.

At que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardio
do seu convento.

Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.

E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em
San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que
nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Fr. Diniz  porta da casa do valle e disse:

--'Deus seja n'esta casa!'

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianas que
brincavam aop d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e
conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
chorou toda a noite.

Isto fra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras
de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.

No era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por
tudo, menos no que respeitava a Joanninha.

Havia no frade uma affectao visivel, um systema premeditado e
inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir,
por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criana.

Joanninha no lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era
misturado de uma averso instinctiva, que, por contradico inaudita e
inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e
professava: doutrinas, opinies, sentimentos, tudo lhe agradava no
frade, menos a pessoa.

No assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa
Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no ltimo
anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz comeou
de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.

Sbre esse a inspeco do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os
livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraava, as
inclinaes para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe
dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a av tinha
longas conferencias a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava
tomar.

--' temente a Deus, no tem o nimo cubioso nem servil, no 
hypocrita, o mania do liberalismo no o mordeu ainda... hade ser um
homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira
satisfaco e intersse.

Passra porm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se
formra no princpio d'aquelle vero, tinha ficado por Coimbra e por
Lisboa, e so por fins d'agosto voltra para a sua familia. E veio
triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fra,
porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.

O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao
valle.

Passaram as primeiras saudaes e abraos, ficaram sos os dous, e:

--'No gsto de te ver:' disse o frade.

--'Pois qu? que tenho eu?'

--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'

--'Outro venho,  verdade; mas no se infadem de me ver, que o infado
hade durar pouco.'

--'Que queres tu dizer?'

--'Que estou resolvido a emigrar.'

--'A emigrar, tu!... Porqu, paraqu? Que loucura  essa?'

--'Nunca estive tanto em meu juizo.'

--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que
ms companhias andaste tu, que maus livros lste, tu que eras um
rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'

--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'

--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se ests canado das
pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caa, monta
a cavallo, faze o que quizeres, mas no penses. Ca estou eu para pensar
por ti.'

--'Porqu? eu heide ser sempre criana? a minha vida hade ser sta?
Horacio! tenho bom nimo para ler Horacio agora... e a bella occupao
para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'

--'Pois le na tua biblia, que  poesia medida n'alma e que repasce o
espirito e o corao.'

--'Eu no quero ser frade: sabe?'

--'Nem te eu quero para frade.'

--'Graas a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'

--'O seculo em que estamos  o da presumpo e o da immoralidade: e eu
quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua av sabe as minhas
tenes a teu respeito, approva-as...'

--'Minha av... approva muita coisa que eu reprovo.'

--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'

--'Isto mesmo, senhor;--e que manhan que vou para Lisboa, imbarcar para
Inglaterra.'

--'Carlos!'

--' uma resoluo meditada e inalteravel. No quero nada com sta terra
nem com sta...'

--'Com sta o qu, Carlos?..'

--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com sta casa.'

O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:

--'Dir-me-has porqu?..'

--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui...
porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'

--'Sabes o qu?'

--'Sei, padre Fr. Diniz, mas no me pergunte o que eu sei.'

Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os
olhos e faiscavam l de dentro como duas brazas; fez um esfro sbre si
mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de
sepulchro:

--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'

--'Padre, no jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e
serenidade 'as suas intenes sero boas talvez... creio que so boas,
filhas de um remorso salutar...'

--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'

As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o
som da spplica, ja no tremia de ra mas de anciedade; Carlos, pelo
contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que est forte na
sua razo e que  generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo
eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava ado-las na
inflexo, que lhes dava.

--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe 
isto. Minha av consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu no posso
nem devo consentir. O que ha n'sta casa no ... no  meu; o po que
aqui se come...  comprado por um preo... Padre! ja ve que no podmos
fallar mais n'este assumpto. Eu parto manhan para Lisboa.--Minha av!'
acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha av!'

A velha acudiu, elle disse-lhe a sua teno, motivou-a em opinies
politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha
pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que s uma prompta fuga o
podia salvar...'

A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vo.

Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.

No outro dia de manhan muito cedo, abraado com a av e com a priminha
que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o ltimo adeus quella
querida casa, quelle amado valle em que fra criado... N'essa noite
estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns
meses na ilha Terceira.

Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e
teve larga conferencia com a av.

Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar...
no fim do terceiro dia estava cega.

Joanninha era uma criana a esse tempo, parecia no intender nada do que
se passava. Mas quem a observasse com atteno, veria que ella dobrou de
carinho e de amor para com a av, e que se no tornou a rir para o
frade...

Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos,
que era a feio dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e
mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o
tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendes enrijaram-lhe,
os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos
cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como
que se lh'a torrassem n'uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porm era o
dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja no vinha seno no fim da tarde e
demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e
tremia-se d'ella. As notcias que consolavam, e os terrores que matavam,
o frade  que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a
esperar.

E assim se tinham passado dous annos at  sexta-feira em que primeiro
vimos junctas  porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
at d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontr-los.




CAPITULO XVII.


     De como, chegando outra sexta-feira e estando a av e a neta 
     espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda
     de Lisboa.--Porque razo muitas vezes a mais animada conversao 
     a que mais facilmente pra e quebra derepente.--Nova demonstrao
     de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hbito
     no faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
     verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do
     veo que cobre os mysterios da nossa historia.


Passaram-se aquelles oito dias no valle, no ja como se tinham passado
tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolao e
desconfrto, mas em positiva anciedade e aguda afflico pela certeza
que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
pequeno exrcito do D. Pedro.

Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes
e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado
at s pacificas solides do valle com as notcias de combates
sanguinarios, de commoes violentas, de desacatos sacrilegos, de
vinganas e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribudas
pelos que se defendiam.

Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre
temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais
pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.

O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!

No seu poiso ordinario aop da porta da casa, Joanninha com os olhos
extendidos, a velha com os ouvidos lerta, devoravam o espao na
direco de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante
ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do
frade.

E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que no deram
fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto , da banda de Lisboa,
para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.

Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porm mais
cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a frmula de saudao
costumada:

--'Deus seja n'esta casa!'

--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeo
involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a
voz.

--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de
d'onde vem tam tarde?'

--'Chego de Lisboa.'

--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'

--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda
visitao do Senhor  condemnada terra de Portugal...'

--'E ento, diga'...

--'Boas novas, boas novas trago!'

--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'

--'No  tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'

--'Pois que succedeu, padre? No me tenha n'esta horrivel suspenso.
Diga: onde est elle? Alguma desgraa grande lhe aconteceu, oh meu
Deus!..

--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um
de tantos perdidos? Encher a sua medida, ir aps dos outros... caminha
nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'

A stas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
de indifferena e desprzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
aquella pausa de toda a conversao grave e ntima em que os pensamentos
so tantos que se atropellam e no acham sahida na voz.

Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expresses mentia ao seu
corao--no mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica 
epiderme para deslocar a inflammao interior, elle roava o peito com
as asperides de sua doutrina e de seus principios rigidos para
amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.

O frade estava por fra, o homem por dentro.

O observador vulgar no via seno o burel e a corda que amortalhavam e
cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas
inflexes d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes
que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegao;
mas o teu sacrificio  como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu
no tens fra para o cumprir.'

No o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam
tremer, e que para toda a affeio, para todo o sentimento humano
julgava morto o corao do cenobita.

Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perptua
escurido de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava
debalde para desprender das affeies do mundo, aquelle seu pobre
corao que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e
admirao as sobrehumanas fras que imaginava no frade; e desanimada de
o podr seguir n'essas alturas da perfeio evangelica, recahia, mais
desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher
e de me.

Oh! no sabe o que  tormento, o que  inferno n'este mundo, o que no
soffreu destas angstias!

Mas permitte Deus que as padea quem no tem grandes culpas, grandes e
irreparaveis erros que expiar n'este mundo?

Eu creio firmemente que no.

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Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a
razo com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chro
exclamou:

--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu
podr, por aquella preciosa cruz sbre a qual se derramaram as ltimas
lagrymas da minha desgraada filha, Diniz!...'

--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que
fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! no conjure o
demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que  fra de penitencias
mal pude domar ainda... que so a morte poder talvez expellir. Mulher,
mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que
ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruio... este
cadaver tem um unico ponto vivo no corao... e o dedo do teu egoismo
ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que ests sempre contra mim! Justia
eterna de Deus quando sers satisfeita?'

Rompra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e
medonho ao fazer sta ltima imprecao mysteriosa. As derradeiras
syllabas quasi que lhe morreram nos beios convulsos, e ao balbuci-las
deixou-se cahir, exhausto e como quem mais no podia, na cadeira que
Joanninha lhe chegra.

A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito
immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu
proprio podr.

Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.

O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e,
como quem emerge, por grande esfro, de um pso enorme d'aguas que o
submergiam, sacudiu a cabea, sorveu um longo trago de ar, e disse na
sua voz ordinario, so mais debil:

--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos est vivo; e exaqui, vinda
pelo consul de Frana, uma carta d'elle.'

Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.




CAPITULO XVIII.


     Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a
     velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hbito e o
     monge.


O frade intregou a carta a Joanninha, que, lanando os olhos ao
sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme
de saber alguma coisa. Elle com voz trmula e sobresaltada accrescentou:

--'Adeus, que so horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me diro...'

--'Poisqu' disse timidamente a velha 'no quer ouvir o que elle nos
escreve?'

--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a
pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei
chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu
para Carlos... morri.'

--'Diniz!' exclamou a velha fra de si 'Diniz!..'

O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O
qu, minha irman?'

--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois
no hade ouvir ler a carta d'elle?'

Fr. Diniz no respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabea sbre
o peito, e abraando-se com o bordo, no deu mais signal de si.

A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido
agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dvida o que se
passava, e com mais confrto e serenidade na voz disse:

--'Abre, Joanna, l, minha filha.'

Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que
ella incerrava.

--'No les?' acudiu a av com impaciencia: 'L, l alto, Joanna.'

--' para mim so a carta' disse ella friamente.

--'Para ti so, como?' tornou a outra.

--' para mim so sta carta... no diz nada que...'

--'No diz nada!' replicou a av 'Pois!... L, l alto; seja como for,
l, e oiamos.'

Joanninha parecia hesitar ainda; lanou os olhos ao frade, achou-o na
mesma attitude impassivel; voltou-se para a av, viu-a anciada e
anxiosa... leu.

A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, no continha
seno as ingenuas expresses de um amor fraterno nunca esquecido, longas
saudades do passado, poucas esperanas no futuro, quasi nenhumas de se
tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porm era com a prima: para a
desconsolada av, para ninguem mais... nem uma palavra.

Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns
abraos, umas saudosas lembranas, e no sei que phrase incompleta e mal
articulada em que se pedia a benam da av.

A velha abanou a cabea tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja
Deus!'

Joanninha crou at o branco dos olhos... Inda bem que a no podia ver a
av! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mo trmula e os olhos arrazados
d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvao e
agradecimento. Joanninha crou outra vez, e logo se fez pallida como a
morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austro Fr. Diniz
approv-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluos suffocados... Seriam d'elle?

A av e a neta abraaram-se e choraram.

Nenhuma d'ellas disse palavra sbre a carta: a velha tinha percebido a
piedosa fraude de Joanninha...

Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e
essas duas crianas! E a maior parte da gente que  _gente_, vive
assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appgo! Oh
que enigma  o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado,
e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so
viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicra.

Soube-se que fra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses
passaram de anno... e outra carta no veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas
peripecias, o grande drama da Restaurao chegava rapidamente ao fim.
Eram meiados do anno de 33, a operao do Algarve succedra
milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fra tomada,
Lisboa estava em podr d'elles. Os tardios e inuteis esforos dos
realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do vero. Ja
outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas comeavam a
impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pr do sol, Fr. Diniz
apparecia no valle mais curvado e mais trmulo que nunca. Vinha do
exrcito realista que ento cercava Lisboa.

Joanninha no era alli, a velha estava so.

--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?
Tem escapado a stas desgraas, a esses combates mortaes?'

--'No sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se no pde
obter a menor informao. As linhas esto fechadas e guarnecidas como
nunca: tudo indca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'

--'Deus seja com!..'

--'Com quem, minha irman?'

--'Com quem tiver justia.'

--'Nenhum a tem. De um lado e de outro est a ambio e a cubia, de um
lado e de outro a immoralidade, a perdio e o desprzo da palavra de
Deus. Por isso, vena quem vencer, nenhum hade triumphar.'

--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'

--'Isso, irman Francisca, isso! Pea a Deus que d a victoria a seu
neto, e  impiedade por que elle combate. Pea a Deus que venam os
inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os
profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande no hade ser
esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, s baionetadas, do
pobre convento de San'Francisco, o velho guardio--que lhe no hade
fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado
deante do altar inclinar a cabea como os antigos martyres para cahir
na presena do seu Deus s mos do seu...'

--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da
sua bcca!.. Meu neto, o meu Carlos no  capaz... oh meu Deus!..'

--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razo.'

--'No sabe a verdade elle... Carlos est inganado, cuida... no sabe
seno meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...'

--'Hade o qu?'

--'Heide desingan-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me
na sua presena, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide
arrastar na poeira de seus ps stas cans e stas rugas... morrerei de
vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a
verdade.'

Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia stas mysteriosas
e tremendas palavras da bcca da velha, que Fr. Diniz no ousou
cont-la; ouviu at ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e
erguendo ento a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom
friamente decisivo que tanto impe aos animos apaixonados:

--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldico, a maldico eterna de Deus
sbre a sua cabea para sempre!... Oh mulher, pois no lhe basta que
elle me abhorrea--no lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor...
quer... quer tambem que nos despreze?'

A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia,
levou as mos aos olhos como se os tapasse para no ver. Ento disse com
desconsoladas lagrymas na voz:

--'A vontade de Deus seja feita!'




CAPITULO XIX.


     Guerra de postos avanados. Joanninha no bivac--De como os
     rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
     retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram
     este nome.--A sentinella perdida e achada.


A velha disse aquellas ltimas palavras com uma expresso de dor tam
resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido,
e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.

N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na
direco de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:

--'Av, av!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e
mulheres... tanta gente!'

Era a retirada de 11 de outubro.

--'Deus tenha compaixo de ns!' disse a velha: 'O que ser padre?'

--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se
verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'

Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que
fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em
guerra civil...

Alguns feridos, que no podiam mais, ficaram na casa do valle intregues
 piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
Diniz e os acompanhou a Santarem.

As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a
poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel
fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o ltimo posto militar
occupado pelo seu exrcito.

No tardou muito que a fra toda, todo o intersse da guerra se no
concentrasse n'aquelle, ja tam pacfico e ameno, agora tam desolado e
turbulento valle.

Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar d pelo
homem--dar triste e lugubre decorao de scena ao sanguento drama de
destruio e de miseria que alli se a concluir. As ltimas folhas das
rvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sbre a terra apaulada
torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas
cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as
oliveiras seculares...

Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolao e morte emtrno da
casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.

E que era feito, no meio d'sta desordem, que era feito da nossa pobre
velha, da nossa interessante Joanninha?

Apenas se estabeleceu a posio dos dous exercitos, Fr. Diniz queria
lev-las para Santarem; mas no foi possivel. Instancias, rogos, ordem
positiva, tudo foi em vo. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher
tmida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.

--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa
como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem
passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer seno aqui? sta
casa sei-a de cr, stas rvores conhecem-me, estes sitios so os
ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega,
ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'

--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o
frade.

--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha  uma criana, e tem mais juizo,
mais energia d'alma, mais saude e mais fra do que--mulheres no
fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre,
ficaremos aqui melhor do que em Santarem podmos estar. Deus nos
defender...'

Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperana que animava a
velha, e que a prendia tam fortemente alli, no era extranha ao corao
do frade. Ella no ousava nem alludir de longe a essa esperana, mas
sentia-se que l a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter  casa em
que nascra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A
velha, repitto, nem alludia a tal esperana, mas sentia-se que a tinha:
percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou no se atrevesse a
contrariar razes que lhe no davam, cedeu e callou-se.

O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares;
mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praa de guerra
como Santarem era agora?

Brevemente se viu que a av tinha accertado. A franca e ingenua
dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da
velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graas tambem 
cooperao efficaz do commandante do psto, um bom e honrado cavalheiro
transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena poro da
casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel
viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e
nenhum outro hbito de suas vidas se interrompeu.

E pouco a pouco, os combates, as escaramuas, o som e a vista do fogo, o
aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos
mortos--a guerra emfim em todas as suas frmas, com todo o seu
palpitante intersse, com todos os terrores, com todas as esperanas que
a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e no ha vida, por
mais extranha, que o tempo e a repettio dos actos lhe no faa
natural.

Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!

Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as
amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperana, ja uma
depois de outra, am renascendo as plantas, am abrolhando as rvores;
logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.

A guerra parecia canada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de
intentadas transaces gyravam por toda a parte.

No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a
ver-se todos os dias, comeavam a ver-se sem odio: principiaram por se
dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi
amigavelmente. Muta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
sbre as altas questes d'Estado que dividiam o reino e o traziam
revlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus
gabinetes!

Joanninha que, pouco a pouco, se habitura quelle viver de perigos e
incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o nimo, aguerrindo-se.
Tudo se affazia quelle estado: at os rouxinoes tinham voltado aos
loureiros d'aop da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques
d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e
vibrante.

A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e
elegante janella _renascena_ de que primeiro nos namormos, leitor
amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos
os exercitos, alli se acostumaram a v-la com o nascer e o pr do sol:
alli, muda e quda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos
seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...

E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era
conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a
saudavam os soldados de ambas as bandeiras!

E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns
e outros por tacita conveno parecia stipulado que aquella suave e
angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas,
como a pomba domstica e valida a que nenhum caador se lembra de mirar.

Os costumes de guerra so menos soltos do que se cuida; no nimo do
soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas frmas ha menos rudeza
do que se pensa. A farda  sim vaidosa e presumida, cr muito nos seus
podres de seduco, mas no  brutal seno no primeiro impeto.

Joanninha penava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de
consolao para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos
muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.

Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fra extendendo, de
dia a dia, as suas excurses pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo
fim da tarde, at um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais
para o sul e perto do logar donde,  noite, se collocavam as derradeiras
vedetas dos constitucionaes.

Um dia, ja quasi psto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que
adormeceu ou que suas meditaes a distrahiram--o certo  que os
rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha no
voltava.

Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as
disposies costumadas para a noite.

O official dos constitucionaes que andava collocando as suas
sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refro de
tropa. Ps-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares
convenientes, e chegava emfim aop d'aquelle grupo de rvores:

--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli est um vulto.'

--'No  ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no psto:
'ninguem que importe;  a menina dos rouxines. Estou vendo que
adormeceu no seu poiso costumado.'

--'A menina dos rouxines! Que cantiga  essa que me cantas tu l?'

O soldado deu a explicao popular do seu ditto, mostrou a casa do
valle, e continuava incarecendo sbre os meritos e virtudes de
Joanninha...

O official no o deixou acabar:

--'Para a rettaguarda, e silencio!'

Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas
que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'rvores.

Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a
somno slto.




CAPITULO XX.


     Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
     Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
     do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
     esquissado  pressa para satisfazer s amaveis
     leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gsto dos nossos
     governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
     nacional uniforme do exrcito portuguez.--Em que se parece o auctor
     da presente obra com um pintor da edade-mdia.--De como os abraos,
     por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
     que paream, sempre teem de acabar porfim.


Sbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeado de grammas e de
macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
profundamente.

A luz baa do crepusculo, coada ainda pelos ramos das rvores,
illuminava tibiamente as expressivas feies da donzella; e as frmas
graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
vaporoso e vago das exhalaes da terra, com uma incerteza e indeciso
de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia  imaginao
exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graas femininas.

Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
lh'o preparra a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
recendente dos prados.

Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeio--Joanninha no
estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espsso da ramagem,
que fazia sobreceo quelle leito de verdura, sahia uma torrente de
melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
admiraveis de irregularidade e inveno, como as barbaras endeixas de um
poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
rouxinoes do valle que alli ficra de vela e companhia  sua protectora,
 menina do seu nome.

Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
do ltimo capitulo se referiu, cessra por alguns momentos o delicioso
canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
distancia, voltou p ante p e entrou cautellosamente para debaixo das
rvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e no o suspendeu
outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
tam sentidos, que no disseras seno que preludiava  mais terna e
maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.

O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traos do
novo actor que lhes vou appresentar em scena.

Teem razo as amaveis leitoras,  um dever de romancista a que se no
pde faltar.

O official era mo, talvez no tinha trinta annos; psto que o tratto
das armas, o rigor das estaes, e o sllo visivel dos cuidados que
trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feies
de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
como precisa um corao de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitao das
modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
desabotoado e descahido para traz, porque a noite no era fria; e viu-se
por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caadores,
realada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
incarnado...

Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordaes--que
essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
n'esta terra, proscreveram do exrcito... por muito portuguez demais
talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
em uniforme da bicha!

No pude resistir a esta reflexo: as amaveis leitoras me perdoem por
interromper com ella o meu retratto.

Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
sou como aquelles pintores da edade-mdia que interlaavam, nos seus
paineis, distichos de sentenas; fittas lavradas de moralidades e
conceitos... talvez porque no sabiam dar aos gestos e attitudes
expresso bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
a penna de supplemento e illustrao ao pincel... Talvez: e talvez pelo
mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...

Ser; mas em mim  irremediavel, no sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retratto.

Os olhos pardos e no muito grandes, mas de uma luz e viveza mmensa,
denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexo...
mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
facil na ra, facil no perdo, incapaz de se offender de leve, mas
impossivel de esquecer uma injria verdadeira.

A bcca, pequena e desdenhosa, no indicava comtudo suberba, e muito
menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
inquestionavel e no disputada.

O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
alta e desaffogada.

Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
piquena animao, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
pouco vulgar e difficilmente bem intendido.

D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexes d'expresso
que lhe dsse.

N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
rvores, animava-o uma viva e inquieta expresso de intersse--quebrado
comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
face, como a antiga e desbotada cr de um estfo que se tingiu de
novo--que  outro agora mas que no deixou de ser inteiramente o que
era...

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
inesperado que lhe rompeu a cerrao n'um canto do ceo...

Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que no direi
mancebo porque o no parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impresso.

--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu  luz ainda bastante do
crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
exclamao: ' ella sem dvida. Mas que differente!... quem tal diria!
Que graa, que gentileza! Ser possvel que a criana que ha dois
annos?..'

Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mo
adormecida e a levou aos labios.

Joanninha estremeceu e acordou.

--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
Carlos, meu primo... meu irmo! era falso, dize: era falso? Foi um
sonho, no foi, meu Carlos?..'

E progressivamente abria os olhos mais e mais at se lhe espantarem e os
cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.

--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
no morreste... Falla  tua irman,  tua Joanna; dize-lhe que ests
vivo, que no es a sombra d'elle... No es, no, que eu sinto a tua mo
quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
meu Carlos! dize, falla-me: tu ests vivo e so? E es... es o meu
Carlos? Tu proprio, no  ja o sonho, es tu?...'

--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'

--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'

--'Joanna!... prima... minha irman!'

E cahiu nos braos d'ella; e abraaram-se n'um longo, longo abrao--com
um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
primeiro beijo d'amantes...

O abrao desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
na terra so limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
a habitam.

Seno... invejariam os anjos a vida da terra.

Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mos o
rosto, o peito, os braos do primo, palpava-se depois a si mesma como
quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
sem nexo:

--' Carlos... Carlos: foi falso.  meu primo... Minha av tambem sonhou
o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz no  o que disse, nem ninguem:
eu e a av  que o sonhmos. Mas elle aqui est, vivo... vivo! e nosso,
nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a sta hora! No deve ser isto...
Valha-me Deus! E que diro? E Jesus!--L isso no me importa; deix-los
dizer: mas no deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
av!... Que n'isto no ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
eu fui criada!.. Mas quem no souber, pde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
minha av morre de alegria, coitada!..  verdade: vou adeante
preveni-la, prepar-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! no  preciso: paraqu?
Ella  cega, coitadinha, no sabes?'

--'Cega, que dizes? minha av est cega?'

--'Pois no sabas? Ai!  verdade, no sabas. Tantas coisas que tu no
sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
Mas no fallemos agora n'essas tristezas que ja la vo. Em ella te
sentindo aop de si,  o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
ditto muitas vezes, e eu bem sei que  assim. Mas ouve: um dia havemos
de fallar--ns dois sos-- vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
sabes... Agora vamos, Carlos.'

E fallando assim, tomou-o pela mo e sahiu para o valle aberto,
froixamente acclarado ja de myradas de estrellas scintillantes no ceo
azul.




CAPITULO XXI.


     Quem vem l?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o
     terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situao _ordeira_,
     a mais perigosa e falsa das situaes.


As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da
primavera suspirava brandamente; na larga solido e no vasto silencio do
valle distinctamente se ouvia o doce murmrio da voz de Joanninha,
claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella
levava pelo mo e que machinalmente a seguia como sem vontade propria,
obedecendo ao podr de um magnetismo superior e irresistivel.

Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas
de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o
voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem l?'

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de
allarma que os chamava  esquecida realidade do stio, da hora, das
circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os
transportra ao den querido de sua infancia, accordaram
sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada
flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os
expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...

Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, 
luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia
brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem no eram dos verdadeiros e
mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no
meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios
em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_!

Joanninha abraou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mo
ao punho da espada.

--'Quem vem l?' tornaram a bradar as sentinellas.

--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes
brados?'  o grito da guerra que nos manda separar;  o clamor cioso e
vigilante dos partidos que no tolera a nossa intimidade, que separa o
irmo da irman, o pae do filho!..'

--'Quem vem l?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se
aquelle stridor bao e breve que tam froixo  e tam forte impresso faz
nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas
espingardas.

O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam
ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos
contendores.

Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegao, cuidam podr
passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que so,
por isso mesmo, objecto de todas as desconfianas, alvo de todos os
tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa
posio que tem as revolues.

Joanninha conheceu o perigo que os ameaava; e com aquella rapidez de
resoluo que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasies,
disse para Carlos:

--'Falla aos teus, faze-te conhecer e pe-te a salvo. manhan nos
tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'

--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'

--'No tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.

Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:

--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'

Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no cho, e o riso
contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de
Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'

--'Ves, Carlos?.. Adeus! at manhan.' disse ella baixo.

--'At amanhan se...'

--'Se!.. Pois tu?..'

--'Ouve: no digas a tua av que me viste, que estou aqui:  foroso, 
indispensavel, exijo-o de ti...'

--'E manhan me dirs?..'

--'Sim.'

--'Prometto: no direi nada... Mas, oh! Carlos...'

--'Adeus!'

Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para
o lado opposto. Mas elle parou e no tirou os olhos d'aquella frma
gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, at que
desappareceu de todo.

E elle immovel ainda!

Fascaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonaes
que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham deps ellas... Eram
as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sbre o seu commandante
que no conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.

Uma das ballas ainda o feriu levemente no brao esquerdo.

--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e
erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem!
Fizeram a sua obrigao. Um de vocs que me aperte aqui o brao com este
leno.'

--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo
espao 'Carlos! falla-me, responde: no te succedeu nada?'

--'Nada, nada! Socega.'

E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel
n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.

Um mais doutor disse para os outros:

--'O nosso capito no se descuida: ainda hoje chegou, e j ns l
vamos, hem?'

--'O nosso capito  d'aqui: no sabes?'

--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home'  capaz!'

--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda:  uma prima.'

--'Ah! prima. Ento no ha nada que dizer.'

--' a que elles chamam aqui...'

--'A menina dos rouxinoes? Essa  maluca.'

--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o .'

--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'

--'Maluca.'

--'E a Lady ingleza que?..'

--'Maluquissima essa! No me hade admirar se a vir cahir do ar um dia
por ahi como bomba. E no hade dar mau estallo!'

--'Podra! E incontrando-se com a prima ento!..'

--'Mas elle  prima ou  irman?'

--' uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!..
dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
se sabe...'

--'Oh! elle ha frade no caso?'

--'Ha, e que frade! Um apostolico s direitas! Tam feio, to magro!
apparece por ahi s vezes. Eu j o lombriguei um dia: e que famoso tiro
que era! Quasi que me arrependo de no ter...'

--'Isso! hoje iamos matando o nosso capito por instantes. Olha agora se
lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que ...'

--'Um frade!'

--'Um frade no  gente?'

--'No senhor.'

--'Est bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece  que ns
temos cedo muita pancada rija.'

--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'

Accenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo socgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a
guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos
os sentimentos da natureza.




CAPITULO XXII.


     Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
     velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
     botes.--A Joanninha que elle deixra e a Joanninha que
     achou.--Obrigaes d'amor, triste palavra.--A mulher que elle
     amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos
     leitores. Declara que com os hypocritas no falla.--Quem hade
     levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma
     coisa ao pensamento.


No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer
communicaes importantes para o commandante do psto avanado, foi
conduzido  presena de Carlos e lhe intregou uma carta: era de
Joanninha.

Fiel  sua promessa, ella no tinha ditto nada do incntro da vspera:
dizia a carta. E que a av estava doente e afflicta; que para a animar e
consolar, lhe dera notcias do primo, como vindas por pessoa que o vra
e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que
aquelle estado de anciedade no podia prolongar-se. Que a saude da pobre
velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era mat-la no
lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e
aprazava por fim o mesmo stio da vspera para se tornarem a ver, e para
concertarem o que havia de fazer. Todas as precaues estavam tomadas, e
o consentimento dado pelo commandante do psto contrrio para haver toda
a segurana n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitao extraordinaria lhe
amotinra o sangue, lhe desaffinra os nervos. Bem tinha desejado vir
para aquelle psto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber
de mais perto da sua familia, v-los talvez, mais dia menos dia,
incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e
graciosa criana com quem vivra como irmo desde os seus primeiros
annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criana era a que elle tinha deixado, uma criana a brincar, a
colhr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criana
que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o no tinha deixado nunca
em sua longa peregrinao, cuja saudade o accompanhra sempre, de quem
se no esquecra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais
occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...

Mas era uma criana!.. era a imagem d'uma criana.

 certo, sim: e nas batalhas, em presena da morte... no longo crco do
Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva
esperana, no descorooamento dos mais tristes dias, a doce imagem de
Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que
levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no
vero, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braos
para passar no hynverno os alagadios do valle,--essa querida imagem no
o abandonra nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glrias--mais
esquecidias ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o
sentimento de seu corao.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no
mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a
allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mo do anjo que ajoelha
em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio
d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde
sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solido, entre
aquellas rvores,  tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem,
sancto Deus! No ja a mesma Joanninha de ha tres annos, no a mesma
imagem que elle trazia, como a levra, no corao; mas uma gentil e
airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdra,
comtudo, da graa, do incanto, do suave e delicioso perfume da
innocencia infantil em que a deixra!

No esperava, no estava preparado para a impresso que recebeu, foi uma
surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e
sentimentos.

Qual fosse porm a precisa e verdadeira impresso que recebeu, nem elle
a si proprio o podra explicar: era de um genero novo, unico na historia
de suas sensaes: no a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo
de a analysar.

Sera annncio d'amor?

Mas elle tinha amado, amado muito e devras... e cuidava amar ainda, e
devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do corao, era
obrigado a amar ainda.

Oh obrigaes d'amor, obrigaes d'amor! se vs no sois, se vs ja no
sois seno obrigaes!..

No o pensava Carlos, no o cria elle assim: leal e sincero tinha
intregue o seu corao  mulher que o amava, que tantas prvas lhe dera
d'amor e devoo; que descanava em sua f, que no existia seno para
elle: mulher ma, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um
espirito, de uma educao superior, que atravessra, desprezando-as,
turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer at elle,
para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o
qual se tinha por tam seguro para no ver na graciosa prima seno?..

Seno o qu?

A innocente criana que alli deixra?

Mas no  verdade isso: outra era a impresso que Joanninha lhe fizera,
fosse ella qual fosse.

O que era ento?

E sbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?

E amava-a elle ainda?

Amava.

E Joanninha?

Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava
sendo n'aquelle momento.

O que lhe ella fra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo:
o que lhe ella ser... Pdes tu, leitor candido e sincero,--aos
hypocritas no fallo eu--pdes tu dizer-me o que hade ser manhan no teu
corao a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou
interessante?

Pdes responder-me da parte que tomar manhan na tua existencia a
imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
lhe ests notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza
das linhas, a expresso verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de manhan, responder-me-has
tambem da parte que ficar tendo em tua alma ess'outra imagem que l
estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai
impallidecendo, descrando... ja lhe no vejo seno os lineamentos
vagos... ja  uma sombra do que foi... Ai! o que ser ella manhan?

Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, no accuses, no
julgues  pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
Filho da Deus mandou levantar  primeira mo que se achasse innocente...
A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois  verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher
a quem promettra, a quem estava resolvido a guardar f. E essa mulher
era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posio no mundo...
e tudo lhe sacrificra a elle exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que
os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de
gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste,
que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
Georgina; e  tudo quanto por agora pde dizer-vos,  curiosas leitoras,
o discreto historiador d'este mui veridico successo: no lhe pergunteis
mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas
perfeies, que o seu amor sem limites, que a sua confiana sem reserva,
no podiam ter rival, nem a haviam de ter.

Mas aquelle beijo, aquelle abrao de Joanninha... oh! que lhe tinha elle
feito? Como o sentra elle? Como lhe guardra o seu talisman o corao e
a alma?..

No, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de
quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fra em
claro.

A imagem de Joanninha l apparecia, de vez em quando, como um raio de
luz transiente e magica, no meio d'ess'outras vises do passado que a
reflexo lhe acordava. Ai! essas era a reflexo que as acordava...
aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...

Ha sua notavel differena n'estes dois modos de accudir ao pensamento.

A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem
sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a
tarde.




CAPITULO XXIII.


     Contina a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
     Carlos.--Dana de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
     familia.--Veremos,  a grande resoluo nas grandes
     difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
     todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.


No ha nada como tomar uma resoluo.

Mas hade tomar-se e executar-se: alis, se o caso  difficil e
complicado, pouco a pouco as dvidas solvidas comeam a inliar-se outra
vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
ainda no vistas da questo... em fim, se o intervallo  largo, quando a
resoluo tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja no 
por fra de razo e convico que se faz, mas por capricho, ponto
d'honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderaes da noite lhe recorreram
ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
avivaram, se animaram, e lhe comearam a danar n'alma aquella dana de
fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
_malucos_.

Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?

Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da av que
tanto amra, em cujo maternal corao elle bem saba que tinha a
primeira, a maior parte... da av que tam carinhosa me lhe tinha sido!
Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
cegaria ella?

Havia ahi mysterio que Joanninha indicra, mas que no explicou.

Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
desgraas, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabea
aos ps de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
grande crime... um ser de mysterio e de terror.

Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
ntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim ser tudo, mas tu no pdes
abhorrecer esse homem.'

Sim, mas sbre Fr. Diniz pesava uma accusao tremenda, que o fizera, a
elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusao horrivel que
tambem comprehendia a pobre velha, aquella av que o adorava, e que
elle, ainda criminosa como a suppunha, no podia deixar de amar...

E d'estes medonhos segredos saba Joanninha alguma coisa?

Esperava em Deus que no.

Desconfiaria alguma coisa?... O qu?

E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
labios da innocente criana com o esclarecimento de taes horrores?

Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
porque fugira da casa paterna?

Havia de?..

No.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E no havia de ir ver a av, no havia de entrar na casa dos seus a
consolar a infeliz que s vivia d'uma esperana, a de ver o filho de sua
filha?

No, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e  sua honra
de o no tornar a cruzar mais.

Mas que diria ento elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?

Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
desculpa, depois o tempo daria conselho.

_Veremos_!-- a grande resoluo que se toma nas grandes difficuldades
da vida, sempre que  possivel espa-las.

Carlos disse: '_Veremos!_'

Tomou todas as disposies para podr estar seguro e socegado no stio
onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descanar o
espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril  immenso, interminavel. E as ltimas horas pareciam
as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja no tinha que
inventar para fazer: pz-se a pensar.

Que remedio!

Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
A imaginao, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
 redea slta pelo espao...

Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
todas stas feies, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiavam. O
desgraado...--Porque no heide eu dizer a verdade?--o desgraado era
poeta.

Inda assim! no me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; no 
que fizesse versos: n'essa no cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
teem certas organizaes privilegiadas de que se fazem os poetas e os
artistas.

Eis aqui um fragmento de suas aspiraes poeticas. Vejam as amaveis
leitoras que no teem metro, nem rhyma--nem razo... Mas emfim versos
no so.


'Olhos verdes!..

'Joanninha tem os olhos verdes...

'No se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.

'Nem o fogo--e o fummo das paixes, como nos pretos.

'Mas o vio do prado, a frescura e animao do bosque, a fluctuao e a
transparencia do mar...

'Tudo est n'aquelles olhos verdes.

'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?

'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
quanto tinha que dar.

'Os olhos azues de Georgina no dizem seno uma so phrase d'amor, sempre
a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_

'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que stas
palavras: _Ama-me, que es meu!_

'Os olhos de Joanninha so um livro immenso, escripto em characteres
moveis, cujas combinaes infinitas excedem a minha comprehenso.

'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?

'Que lingua fallam eles?

'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?

'A assucena e o jasmim so brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...

'Roxa  a violeta, e o junquilho cr de ouro.

'Mas todas as cres da natureza vem de uma so, o verde.

'No verde est a origem e o primeiro typo de toda a belleza.

'As outras cres so parte d'ella; no verde est o todo, a unidade da
formosura creada.

'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.

'O ceo  azul...

'A noite  negra...

'A terra e o mar so verdes...

'A noite  negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
bellos como a noite.

'Nas trevas da noite luzem as estrellas que so tam lindas... mas no fim
de uma longa noite quem no suspira pelo dia?

'E que se vo... oh! que se vo emfim as estrellas!..

'Vem o dia... o ceo  azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
para elle.

'Oh! o ceo  azul como os teus olhos, Georgina...

'Mas a terra  verde: e a vista repousa-se n'ella, e no se cana na
variedade infinita de seus matizes tam suaves.

'O mar  verde e fluctuante... Mas oh! esse  triste como a terra 
alegre.

'A vida compe-se de alegrias e tristezas...

'O verde  triste e alegre como as felicidades da vida.

'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'


Ja se v que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
ao pensador de taes extravagancias, tinha razo e saba o que dizia.

Infelizmente no se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
se pde obter o fragmento que deixo transcripto.

Que honra e glria para a eschola romantica se podessemos ter a
colleco completa!

Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....

Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
surdos do corao--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
que se no soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.

E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
renascena de collete  Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!

Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
grammatica, sim) e com mais triumphante desprzo das absurdas e
escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que no
produziu nunca seno Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Cames e o
Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
outros nomes tam obscuros como estes?




CAPITULO XXIV.


     Novo Gnesis.--O Adam social muito differente do Adam
     natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro
     por suas ms reflexes.--De como Joanninha recebeu o primo com os
     braos abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor,
     meia prazer.


Formou Deus o homem, e o ps n'um paraizo de delicias; tornou a form-lo
a sociedade, e o ps n'um inferno de tolices.

O homem--no o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem
contrafeito, appertando e forando em seus moldes de ferro aquella pasta
de limo que no paraizo terreal se affeiora a imagem da divindade--o
homem, assim aleijado como ns o conhecmos,  o animal mais absurdo, o
mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e
proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo
ainda e suberbo com as recordaes do passado, baixo vil e miseravel
pela desgraa do presente.

D'estas duas tam oppostas actuaes constantes, que ja per si sos o
tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema
chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais
desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado
este perfeito modlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o
homem, desfigurou-o, contorceu-o, f-lo o tal ente absurdo e
disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden
phantastico de sua creao,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe,
invertendo com blasphmo arremdo as palavras de Deus Creador:

'De nenhuma rvore da horta comendo comers;

'Porm da rvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comers se
quizeres viver.'

Indigesto de sciencia que no commutou seu mau estomago, presumpo e
vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito
a que o homem no desobedeceu como ao outro: tal  o seu estado
habitual.

E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de
sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspirao de voltar  natureza e
a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sbre elle, e o
prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo
doloroso de suas frmas.

Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijo.

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...........................................................................

Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra
patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que
sahra das mos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado
apprto das constrices sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da
natureza, como era o nosso Carlos.

Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade,  ainda
fraco, falso e acanhado.

Demais, cada tentativa nobre, cada aspirao elevada de sua alma lhe
tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnaes d'esse
grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.

Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no
primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexo descia-o 
vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.

Dos melhores era, mas era homem.

Os seus pensamentos, as suas consideraes em toda aquella noite, em
todo o dia que a segura, na hora mesma em que ia incontrar-se com o
objecto que mais lhe prendia agora o esprito, seno  que tambem o
corao, todas participavam d'aquella fluctuao inquieta e doentia de
seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas
relampejava por acaso.

Dvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella
organizao d'aquella alma.

Assim chegou aop de Joanninha que o esperava de braos abertos, que o
appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
modestia, e com o riso da alegria no corao e na bcca lhe disse:

--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aop um do outro e
conversemos, que temos muito que fallar. D ca a tua mo. Aqui na
minha... Est fria a tua mo hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh!
agora vai aquecendo... tanto tanto...  demais! Ters tu febre?'

--'No tenho.'

--'No tens, no: a cara  de saude. E como tu ests forte, grande, um
homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via
nos meus sonhos!.. Que  extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo,
no te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como
vens agora, forte, so, alegre. Mas tu no ests alegre hoje, como
hontem; no ests... Que tens tu?'

--'Nada, querida Joanninha, no tenho nada. Pensava...'

--'Em que pensas tu? dize-me.'

--'Pensava na differena dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava
comtigo.'

--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'

--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena,
desinquieta, travssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas,
trepando a essas rvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao
collo, que trazia s cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam
criana como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre,
cantando...'

--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
depois! No houve nunca mais um so dia de alegria n'sta casa. Oh!..
deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que no gsto d'elle?'

--'No gostas?'

--'Nada: tenho-lhe averso. E Deus me perdoe! parece-me que  injusta a
minha antipathia.'

--'Porqu?'

--'Porque elle  teu amigo devras. Um pae, Carlos, um pae no tem maior
ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'

--'Deus lhe perdoe!'

--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'

--'No, mas...'

--'Bem sei o que queres dizer: e tens razo.'

--'Tenho razo!'

--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe  um grande
peccado.'

--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'

--'Sei, sei tudo.'

--'Tu!'

--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha av... a nossa boa, a nossa
sancta av, Carlos!.. quem a cegou  fra de lagrymas que lhe fez
chorar quelles pobres olhos que, de puro canados, se apagaram para
sempre... Minha ricca av!--E porqu, meus Deus, porqu!'

--'Porqu?'

--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabea de tu seres
mau christo, inimigo de Deus, que te no podias salvar... tu meu
Carlos! V que cegueira a do triste frade.'

--'Bem triste!'

--'Mas olha que o diz de boa-f e pelo muito amor que te tem... que  um
amor que eu no intendo: e o mesmo  com minha av, que treme deante
d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e
por ns todos... por mim no tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
Mas o seu amor  dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em
dizer que matam.'

--'Matam, matam!'

--'Nossa av  elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos,
sempre escrupulos! O seu Deus d'elle  um Deus de terrores, de
vinganas, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para
elle tudo  peccado, maldade... No o posso ver.'

Carlos respirava como desopprimido de um grande pso, ouvindo as
explicaes da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita
ignorancia dos fataes segredos da familia.

--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,
Joanninha, como se avm elle, como te tracta?'

--'Commigo no se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse
que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha
av! Inda bem que hoje no  sexta-feira, seno no vinha eu ca.'

--'Porqu? Ainda vem todas as sexta-feiras?'

--'Sempre o mesmo. manhan ca o temos por peccado, que  sexta-feira.'

--'No te vejo ento manhan aqui?'

--'No decerto, aqui. Mas vamos, que a isso  que eu venho ca hoje, para
te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o
meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade
ser. Quando has-de tu ir ver a av?.. a nossa me; que ella  nossa me,
Carlos, no conhecmos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu
dizer que ests aqui? A pobre velhinha est tam doente! Ha quinze dias
que se no levanta da cama.'

--'Coitada da minha pobre me!.. Oh! se no fosse!.. Deixa estar,
Joanninha; um dia ser. Por agora, no pde ser: bem vs. Como heide eu
atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um psto inimigo?--A minha
vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por
todos os modos a perdia, e talvez...'

--'No senhor, Sr. Carlos, essa desculpa no basta. Vai n'um anno que
aqui temos a guerra  porta de casa, e ja sabemos como isso  e como as
coisas se fazem. O commandante do nosso psto  um homem de bem, um
cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens...
elle sabe o estado da minha av, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto
licena para tu vires em toda a segurana. Pensas que elle no sabe que
estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; s lhe no expliquei quem tu
eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notcias de
outros, e que precisava fallar-te. No ps dificuldade alguma:  uma
pessoa excellente, bom, bom devras.'

--' mo o teu commandante?'

--'Mo elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros
tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as
sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi
isso, Carlos?'

--'Nada, criana, foi uma pergunta  toa.'

--'Pois ser; mas no me franzas nunca mais a testa assim, que te
pareces todo...  que nunca vi tal parecena...'

--'Com quem?'

--'Com Fr. Diniz.'

--'Eu com elle!'

--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi ests tu na mesma.
Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos
dizem que nos parecemos tanto.'

--'Querida innocente!'

E beijou-lhe a mo que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas
vezes com um sentimento de ternura misturado de no sei que vaga
compaixo, vindo de l de dentro d'alma com no sei que dor, meia dor
meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.




CAPITULO XXV.


     O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa
     contradico da nossa natureza.--De como os olhos verdes de
     Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o corao da
     mulher que ama, sempre adivinha certo.


Carlos tinha a mo de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de
lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e
diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.

Dizer tudo o que elle sentia  impossivel: tam incontrados lhe andavam
os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os
sentidos.

Por muito tempo no proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram
assim longos discursos.

Emfim, Joanninha voltou  sua primeira insistencia e disse para o primo:

--'Olha, Carlos, manhan  sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz:
quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle no lhe recusa
nada...'

--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa av,
nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei
eu no tornar a ver. E se minha av...'

--'Basta: no lhe direi nada. Mas  nossa av quando lh'o heide dizer, e
quando hasde tu ir ve-la?'

--'Porora no: preciso licena de Lisboa, ou do quartel-general quando
menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que
nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda  mais defesa. E
sem isso--tu bem sabes que as minhas resolues no se mudam--sem isso
no o fao. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'

--'E quanto tempo, quantos dias se hode passar?'

--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'

--'E a minha pobre av, coitadinha! a morrer de saudades...'

--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou
bom, que me no falta nada, que tenho esperanas de vos ver muito cedo.'

--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: no, Carlos?'

--'manhan  sexta-feira...'

--'manhan  o dia negro... nem eu queria: manhan no pde ser, bem
sei. Mas, tirado manhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'

--'Sim, querido anjo, sim.'

--'Promettes?'

--'Juro-t'o.'

--'Succeda o que succeder?'

--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa no... no 
possivel.'

--'O que , Carlos? que pde haver, que pde succeder que te impea
de?..'

Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a
verdade e no ousou...

Porqu?.. E que verdade era essa? No a direi eu, ja que elle a no
disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrio do meu heroe.

Pois era discrio a d'elle?

No... em verdade, era outra coisa.

Era um pensamento reservado?

No.

Era teno m, ingano premeditado, era?..

No, tambem no.

O que era pois?

Era a dvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
obrigada, a necessaria falsidade do homem social.

Carlos mentiu e disse:

--'S se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'

Mas no era isso o que elle receiava; no era esse aquelle motivo unico
e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces
relaes de convivencia a que tam prestes se habitura, que ja lhe
pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. No era, no; e
Carlos tinha mentido...

Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se
pallida... d'ahi corou tambem.

--'Carlos, tu no es capaz de mentir...'

--'Joanninha!'

--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'

--'Sou... oh! sou. E amo-te...'

--'Como d'antes?'

--'Mais.'

--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem
seno a ti.'

--'Joanna!'

--'Carlos!'

Iam a cahir nos braos um do outro... A singela confisso da innocencia
ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro,
aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar  mulher menos
arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo corao, ditta mil
vezes com os olhos, nenhum homem descana nem se tem por feliz, por
certo de sua felicidade, em quanto a no ouve proferir pelos
labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do
futuro, que  a ltima e irrevocavel sentena de um longo pleito de
anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra
_amo-te_, Joanninha a pronuncira tam naturalmente, tam sincera, tam sem
difficuldades nem hesitaes, como se aquelle fosse--e era decerto--como
se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e
habitual de sua vida.

O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes,
Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento
depois--oh pasmosa contradico de nossa dupplice natureza! um momento
depois dera a vida pela no ter ouvido. No primeiro instante ia
lanar-se nos braos da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do
mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua
felicidade.

--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereo...
sabes tu se deves?..'

--'Sei. Desde que me intendo, no pensei n'outra coisa; desde que d'aqui
foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha av, e
ella...'

--'E ella?..'

--'Ella abenoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraou-me,
beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de
alegria que ha muitos annos tinha tido.'

Carlos no respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel
expresso de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que
resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que
um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feies--os raios
d'essa alegria comearam a amortecer, a apagar-se. A lucida
transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da
agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles;
tinham o lustro bao e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas
pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de
suas esttuas.

--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.

--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.

--'At depois de manhan, Joanna.'

--'Pois sim.'

--'Depois de manhan te direi...'

--'No digas.'

--'Porqu?'

--'Porque  excusado: ja sei tudo.'

--'Sabes!'

--'Sei.'

--'O qu?'

--'O que tu no tens nimo para me dizer, Carlos; mas que o meu corao
adivinhou. Tu no me amas, Carlos.'

--'No te amo! eu!.. Sancto Deus! eu no a amo...'

--'No. Tu amas outra mulher.'

--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'

--'Sei tudo.'

--'No sabes.'

--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu no pdes,
que tu no deves abandonar, e que eu...'

--'Tu?'

--'Eu sei que  bella, prendada, cheia de graas e de incantos,
porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor no era para se dar
por menos.'

--'Joanna, Joanninha!'

--'No digas nada, no me digas nada hoje... hoje sobretudo, no me
digas nada. manhan...'

--'manhan  sexta-feira.'

--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de
tornar a ver-te. Adeus Carlos!'

--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'

--'No; estou certa que no.'

--'At manhan... at depois de manhan.'

--'Adeus!'

Abraaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido
e recatado... os beios de ambos estavam frios, as mos trmulas; e o
corao comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.

Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na
vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio,
a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram
outros... outros, tam outros e differentes do que foram!

Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem
nenhum accidente, ao seu destino.




NOTAS




NOTAS

AO LIVRO PRIMEIRO.


*Nota A.*


     Que viage  roda do seu quarto, quem est a beira dos Alpes

                                                            pag. 1.


 visivel alluso ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,
_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em
Turim, e que muitos suppoem que fsse concluido em San'Petersburgo.


*Nota B.*


     Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)

                                                            pag. 2.


 puramente historico isto; e tambem  verdade que em grande parte
d'aqui se originou a persiguio brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos
meses.


*Nota C.*


     N'uma _regata_ de vapores

                                                            pag. 3.


_Regata_ chamavam, e no sei se chamam ainda, em Veneza s carreiras de
barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em
Inglaterra, onde  moda e popularissima.


*Nota D.*


     Eu coroarei de trevo a minha espada

                                                            pag. 24.


Estes versos so uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu
de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas
_Flores sem fructo_, pag. 56 a traduco d'aquelle bello fragmento.


*Nota E.*


     Depois de tantas commisses de inquerito, deve de andar orado o
     nmero de almas

                                                            pag. 25.


Os protocollos das commisses de inquerito de ha oito para dez annos a
sta parte, sbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em
Inglaterra,  a prva real dos grandes calculos da economia politica,
sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.


*Nota F.*


     There are more things etc.

                                                            pag. 26.


A traduco chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare :

    Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra
    Do que sonha a tua van philosophia.


*Nota G.*


     Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_

                                                            pag. 28.


Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.
Sue, _Os Mysterios de Pars_.


*Nota H.*


     Fossem l  rainha Anna

                                                            pag. 34.


Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do
clebre gabinete chamado de _All-wits_.


*Nota J.*


     Quando chegou alli pelos Prazeres

                                                            pag. 56.


Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do
leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a
que alli existia com sta invocao desde antes do terreno ter o
presente destino.  notavel a coincidencia do nome.


*Nota K.*


     O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e no queria saber de
     partidos

                                                            pag. 64.


 facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso
personagem da historia do Condestavel, no pelas chronicas mas pelo
drama que tem o seu nome.


*Nota L.*


     Do _Sacr-Coeur_ e das suas elegantes devotas

                                                            pag. 89.


O convento que tem este nome em Pars,  casa de educao de meninas
nobres, e recolhimento de senhoras tambem.


*Nota M.*


     Graciosa sculptura de Antonio Ferreira

                                                            pag. 106.


Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princpio d'este,
modelava em barro com a mesma graa e naturalidade flamenga, com que
pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas so tam
estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de
Saxonia antiga.


*Nota N.*


     Ave phenix que nasceu de nossos avs no saberem grego

                                                            pag. 115.


A fbula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa
quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_,
palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avs por ditto de uma
passarolla com que os outros nunca sonharam.




INDICE.


Prologo dos editores.      pag. v

Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar
na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
immortalizar-se escrevendo stas suas viagens. Parte para Santarem.
Chega ao Terreiro do Pao; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi
lhe succede. A Deduco-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e
um bom charuto. Travam-se de razes os ilhavos e os bordas-d'agua, e os
da cala larga levam a melhor.      1

Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas stas viagens.
Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilizao; e
mostra-se como ella  dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e
por seu escudeiro, Sancho Pana.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
Supplicio de Tantalo.--A virtude galardo de si mesma; e sophisma de
Jeremias-Bentham.--Azambuja.      13

Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade
do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas
eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questo
para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de
economia-politica e de moral social.--Quantas almas  preciso dar ao
diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um
ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este
seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de
direito.--Belleza e mentira no cabem n'um sacco.--Pe-se o A. a caminho
para o pinhal da Azambuja.      23

Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e
divagava elle, no caminho da villa da Azambuja at o famoso pinhal do
mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Dmades e do poeta e philosopho
ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda
erudio.--Discute-se a materia gravissima se  necessario que um
ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexes de
zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este
capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao
seguinte.      31

Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e no o acha. Trabalha-se
por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
trabalho.--Transio classica;--Orpheu e o bosque do Mnalo. Desce o A.
d'estas grandes e sublimes consideraes para as realidades materiaes da
vida:  desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do
marquez do F. que adorava o choito.      39

Capitulo VI.--Prva-se como o velho Cames no teve outro remedio seno
misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se
razo, e tira-se depois ao padre Jos Agostinho.--No meio d'estas
disceptaes academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo 
preciso ter f n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao
outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraa
de Cames em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e
o Cocyto sempre so melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o
A. em procura do marquez de Pombal, e d com elle nas ilhas Beatas do
poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixo do
marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
d'elle e da sua luneta s perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este
mundo e ao Cartaxo.      47

Capitulo VII.--Reflexes importantes sbre o Bois-de-Boulogne, as
carruagens de mollas, Tortoni, e o caf do Cartaxo.--Dos cafs em geral,
e de como so o characteristico da civilizao de um paiz.--O
Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua
fra e toda a sua glria a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e
Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Prva-se
evidentemente que M. Guizot  a ruina de Albion e do Cartaxo.      59

Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que
o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do
imperador D. Pedro ao exrcito liberal. Batalha de
Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que no  philosopho e
chega  ponte de Asseca.      71

Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente
levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsiderao do
capitulo antecedente.--Livros que no deviam ter titulo, e titulos que
no deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e
Silvio-Pllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexes e  Ponte da
Assecca.--Traduco portugueza de um grande poeta.--Origem de um
dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi
jacobino desde piqueno.--Inguio que lhe deram.--A duqueza de
Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.      79

Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por
entre umas rvores.--Conjecturas vrias a respeito da ditta
janella.--Similhana do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel
inferioridade do homem que no  poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de
Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi
completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admirao e pasmo
seu.--Verificam-se as conjecturas sbre a mysteriosa janella.--A menina
dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crtica dos
elegantes muito para rir.--Comea o primeiro episodio d'esta Odyssea.      91

Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os
philosophos quizeram tirar, mas no lhes foi concedido; aos romancistas
sim.--Applicao d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,
tendo declarado no captulo nono d'esta obra que no era philosopho,
agora confessa, quasi solemnemente. que  poeta, e pretende manter-se
como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos
juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo
admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do corao.
Por uma deduco appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a
dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas stas grandes theorias 
posio actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
captulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a
duvidar da sua qualificao para o desimpenhar: pede votos s amaveis
leitoras. Decide-se que a votao no seja nominal, e porqu.--Dido e a
mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha
estava  porta a dobar, e imbaraando-se-lhe a meada, chamou por
Joanninha, sua neta.      99

Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraou a meada da av, e do mais
que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. D o A. insigne
prva de ingenuidade e boa f confessando um grave seno do seu Ideal.
Insiste porm que  um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher
desannellada com um Sanso tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da
natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes
de Joanninha.--Religio dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.
Perigo em que ella se acha  vista de uns olhos verdes.--De como estando
a av e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se
interrompe a conversao.--Quem era Frei Diniz.      109

Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,
socialmente e artisticamente.--Prva-se que  muito mais poetico o frade
do que o baro.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o
baro, sua clasificao e descripo linneana.--Historia do castello do
Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
no so a cholera-morbus, e que  preciso refazer o 'Judeu errante'--De
como o frade no intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao
frade.--De como o baro ficou em logar do frade, e do muito que n'isso
perdmos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os
bares a gritar contos de ris.--Como se contam e como se pagam os taes
contos.--Predileco artistica do A. pelo frade: confessa-se e
explica-se sta predileco.      121

Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distraces e divagaes, prosegue
o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
manga a beijar a av e  neta, e do mais que entre elles se
passou.--Ralha o frade com a velha, e comea a descubrir-se onde a
historia vai ter.      133

Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que no foi para o
depsito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se no parecia nada com a
de Condillac.--Suas opinies sbre o liberalismo e os liberaes.--Que o
podr vem de Deus, mas como e paraqu.--Que os liberaes no intendem o
que  liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se
fossem.--Prva-se, pelo texto, que o homem no vive so de po, e
pergunta-se o de que vivia ento Fr. Diniz.      147

Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porqu?--Dos
antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
depois de ser frade.--Emigrao.--Explicao incompleta.--De como a
velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
aziago.      155

Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a av e a
neta  espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da
banda de Lisboa.--Por que razo muitas vezes a mais animada conversao
 a que mais facilmente pra e quebra de repente.--Nova demonstrao de
dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hbito no faz o
monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar
da velha com o frade, levanta-se uma ponta do vo que cobre os mysterios
da nossa historia.      171

Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre
o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hbito e
o monge.      181

Capitulo XIX.--Guerra de postos avanados, Joanninha no bivac.--De como
os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
nome.--A sentinella perdida e achada.      191

Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do
seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado
 pressa para satisfazer s amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e
pessimo gsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao
mais elegante e mais nacional uniforme do exrcito portuguez.--Em que se
parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-mdia.--De como
os abraos, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais
interminaveis que paream, sempre teem de acabar por fim.      203

Capitulo XXI.--Quem vem l?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa
o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situao _ordeira_, a
mais perigosa e falsa das situaes.      215

Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
botes.--A Joanninha que elle deixra e a Joanninha que
achou.--Obrigaes d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e
se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.
Declara que com os hypocritas no falla.--Quem hade levantar a primeira
pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento.      225.

Capitulo XXIII.--Contina a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
pensamento de Carlos.--Dana de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau
da familia.--Veremos,  a grande resoluo nas grandes
difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos
os poetas moyen-ages do nosso tempo.      235.

Capitulo XXIV.--Novo Gnesis.--O Adam social muito differente do Adam
natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por
suas ms reflexes.--De como Joanninha recebeu o primo com os braos
abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia
prazer.      247.

Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde
tambem.--Pasmosa contradico da nossa natureza.--De como os olhos
verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o
corao da mulher que ama, sempre advinha certo.      261.

Notas.      275.




Notas:

[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem
faltava um brao.

[2] Clebre urso do Jardim das Plantas em Pars.

[3] Pag. 40, 41, 42.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+--------------------+--------------------+
  |          |     Original       |     Correco      |
  +----------+--------------------+--------------------+
  |#pg.    3| venceder           | vencedor*          |
  |#pg.   15| Cervantos          | Cervantes          |
  |#pg.   18| moracho           | maracho*          |
  |#pg.   40| esperavava         | esperava           |
  |#pg.   41| maldadades         | maldades           |
  |#pg.   62| caf               | harem*             |
  |#pg.   89| tinha-nimo        | tinha nimo        |
  |#pg.   95| esquerlo           | esquerda           |
  |#pg.   97| um historia        | uma historia       |
  |#pg.  106| toda o movimento   | todo o movimento   |
  |#pg.  118| trababalho         | trabalho           |
  |#pg.  126| conte              | conter*            |
  |#pg.  129| aeronantas         | aeronautas*        |
  |#pg.  134| paasos             | passos             |
  |#pg.  163| memoraval          | memoravel          |
  |#pg.  203| demij-our          | demi-jour*         |
  |#pg.  223| didireitas         | direitas           |
  |#pg.  228| as alagadios      | os alagadios      |
  |#pg.  240| infeitavam         | infeitiavam*      |
  |#pg.  276| viagem             | visita             |
  |#pg.  286| em em logar frade  | em logar do frade  |
  |#pg.  288| d'ad'mor           | d'amor             |
  +----------+--------------------+--------------------+


* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild
respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de
acordo com o original.

Foram adicionados travesses onde a sua falta foi notada.

As indicaes dos nmeros de pginas que se mencionaram na seco de
"Notas do Primeiro Livro" e "ndice", foram corrigidas para corresponder
ao local correcto.





End of Project Gutenberg's Viagens na Minha Terra, by Almeida Garrett

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***

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increasing the number of public domain and licensed works that can be
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