The Project Gutenberg EBook of A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco

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Title: A Neta do Arcediago

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: August 20, 2009 [EBook #29740]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO ***




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    Notas de transcrio:

    No livro impresso a partir do qual foi feita esta transcrio,
    existia um grave erro de impresso na pgina 179, no pargrafo
    que comea com a frase: "No obstante a escaramua, a cohorte
    estendia por longe o terror." Este erro de impresso tornava
    ilegvel o pargrafo, pelo que foi corrigido de acordo com uma
    edio das obras completas de Camilo de 1984.

    Foram ainda encontrados diversos erros de impresso, que por
    no terem qualquer impacto na interpretao do texto, foram
    corrigidos sem qualquer nota.

      *      *      *      *      *


                           A NETA DO ARCEDIAGO.




                           A NETA DO ARCEDIAGO.

                                   POR

                         CAMILLO CASTELLO-BRANCO.


                             SEGUNDA EDIO.


                                  PORTO,
                    EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
                   Rua dos Caldeireiros, n.os 18 e 20.
                                  1860.




PORTO: 1860--TYP. DE SEBASTIO JOS PEREIRA,
Rua do Almada, 641.




A NETA DO ARCEDIAGO.




I.

UM BERO BORRIFADO DE SANGUE.


Convm, primeiro, saber quem  este cavalheiro, que salta garbosamente
d'uma carruagem com uma dama vestida de branco, defronte do theatro de
S. Carlos, em Lisboa, em uma noite de fevereiro de 1838.

Por no apurar impaciencias, diga-se tudo j. Este cavalheiro  Luiz da
Cunha e Faro. Aquella dama ... Nem tanta bondade! No se pde dizer,
por ora, quem  a dama. Se o leitor  esperto, como supponho, ha de
adivinhal-a logo, e, de certo, fica muito contente da sua penetrao.

Luiz da Cunha e Faro tem vinte e cinco annos.  um homem feio, segundo a
opinio masculina, que se acha em harmonia com a sua. No era esta,
porm, a opinio das mulheres. Algumas que por capricho, em publico, o
desdenhavam como feio, desmentiam-se em particular... No digo que
fossem todas; mas tambem no  preciso o suffragio de todas para a
reputao d'um homem feio.

A que chamam v. ex.as feio? Feio  o demonio, dizia minha av. So e
escorreito  o essencial--dizem as velhas, quando as illuses da
formosura no tem nada a fazer com ellas, nem, por isso mesmo, ellas
teem direito a optar entre o feio e o bonito.

Luiz da Cunha era trigueiro; tinha a pelle bronzeada da cara pegada aos
ossos, que lhe sahiam, principalmente os malares, em proeminencias
cadavericas. Os bordos das orbitas muito salientes contribuiam muito
para que o brilho dos olhos negros e grandes luzisse mais na escuridade
das cavernas, debroadas sempre d'um annel bastante escuro para destacar
da cr geral de azeitona. O nariz era notavel pela ausencia total do
cavalete. A bca no se lhe via, coberta pelo bigode espsso, que se no
encaracolava nas guias, e cahia em luzentes recurvas sobre ambos os
labios. Ora aqui est o que  um homem feio.

Perguntava muita gente a razo physiologica da cr africana de Luiz, to
diversa da alvura ingleza de seu pae Joo da Cunha e Faro, que, por esse
tempo, contava quarenta e cinco annos, e passava ainda por um dos bellos
homens de Lisboa.

Pouca gente respondia physiologicamente a tal reparo, porque muito pouca
sabia que Luiz da Cunha era filho d'uma mulata.

Agora  que ninguem poder allegar ignorancia. Eu tenho a honra de
responder  curiosidade, que foi longo tempo a mortificao de pessoas
muito sizudas.

Sabia-se geralmente que o nascimento de Luiz fra uma das multiplicadas
aventuras amorosas do fidalgo, seu pae; mas a outra metade productora, o
complemento da machina, em que o mysterioso artefacto se fabricra, isso
 que os amigos intimos de Joo da Cunha e Faro ignoravam.

O leitor no perderia muito ignorando tambem. Ainda assim, se no
quizerem passar ao capitulo segundo, tambem nada perdem, e ficam sabendo
tanto como eu.

Joo da Cunha frequentra a universidade de Coimbra, quando era mania
dos fidalgos deixarem medrar seus filhos na seva opulenta d'uma fidalga
estupidez. Em quanto seu irmo mais velho estudava veterinaria para se
no deixar enganar em compras de cavallos, Joo da Cunha estudava
mathematicas para se distinguir na carreira militar.

Cursava o segundo anno, com admiravel aproveitamento, quando chegou a
Coimbra um moo brazileiro, filho de portuguez, casado com uma mulata,
filha d'um rico fazendeiro de caf, e fabulosamente rica, segundo era fama.

A inteno do brazileiro era formar-se em naturaes para
scientificamente explorar os vastos terrenos do Mexico, onde seu sogro
desenterrra o mais grosso do seu cabedal.

E, com effeito, matriculou-se, ao mesmo tempo que sua mulher, desejosa
de cultivar o espirito, recebia em casa lies de francez, e inglez.

Ricarda chamava-se ella. No lhes quero dizer que era bonita, porque
receio que zombem da minha franca ingenuidade; porm, no chegue este
capitulo ao fim, converta-se-me esta penna em sovela, se eu no gostasse
da senhora D. Ricarda, e a no amasse com o delirio de Joo da Cunha.

Pois elle ousou?... Ousou... Miserias inherentes ao peccado original! O
primeiro homem cahiu, e bem forte devia ser esse primeiro homem, sahido
das mos do Creador, com toda a substancia e rigidez d'uma obra
perfeita, com todas as harmonias e segredos para desmanchar o sortilegio
da tentao!... Como no cahiria o academico, degenerado pelas fraquezas
de tantas geraes que vieram at elle, desde o Eden?

Que tinha, pois, Ricarda de seductora?

O que ella tinha! Sabem o que  ter um corao de lume, lume que no se
esconde, em quanto ha olhos que o dardejem em lavaredas electricas?
Sabem o que  o nervo optico, ferido d'esse galvanismo da alma, que se
lhe ca nas fibras, que se communica aos musculos, que se injecta na
pupilla vertiginosa, que se lana fra do corpo em scintillas
contagiosas, at vos pegar uma febre, que se no cura com a quina? Sabem
o que  a voluptuosidade da mulher dos tropicos? No crem que o sol, a
prumo, se infiltra n'ella, e a queima desde os quatorze annos, com uma
sde insaciavel de gosos ternos, morbidos, e elanguescidos como a
requebrada cantilena d'uma carioca?

Ricarda, alm de tudo isto, tinha cousas de encantar. Dizia uma cousa
singela com tantos artificios de graa, de meiguice, e de cansao, que
mais valiam as simples palavras d'ella, que os beijos mais suavemente
chilreados de uma europa. As perolas, que to lindo lhe faziam o
sorriso brando, raro se mostravam, porque, se os olhos diziam tudo, o
sorriso no lhe vinha auxiliar os gestos. E a flexibilidade das frmas?
Que donaire, que gentileza, que perfeio de estudo, ou que
naturalidade to caprichosa em enriquecl-a!

Bem haja, pois, Joo da Cunha, que adorou a omnipotencia do Creador, sem
perguntar ao abbade de Salamonde a gravidade da culpa, adorando a mulher
do seu proximo, de mais a mais, seu contemporaneo. Bem haja, digo eu
meio resolvido a rasgar este periodo, se o leitor, por uma sobrenatural
revelao, me no diz que bem pde ser que o academico no esteja
condemnado pela mesma razo que Magdalena foi salva. Amar muito! Sem
esta virtude, Deus sabe se a acta das santas nos faria meno da
dedicada galilea!...

No quero inculcar a santidade de Joo da Cunha. Creio at que o homem
nunca se lembrou d'estas honras posthumas, e a universidade, com quanto
produza grandes doutores para a mitra, ainda no deu um para a igreja. O
mathematico era capaz de renunciar  canonisao se lhe pedissem a troco
o sacrificio de abjurar o amor, que o trazia to longe da sciencia, e
to avsso s obrigaes academicas, que, antes de Paschoa, tinha
perdido o anno por faltas, e dissera incriveis disparates em duas
lies, que o desacreditaram.

Joo da Cunha soubera insinuar-se na confiana do brazileiro. Era sua
visita em vespera de feriado. Fallava francez com Ricarda, e solvia, em
mathematica, as difficuldades que o obtuso marido no vencia.

Seria impertinencia alongar de sobejo este episodio, que no vem ao
essencial da nossa historia. O leitor, amigo da conciso, quer que eu
lhe diga se aquella mulher de fogo se conservou incombustivel, como o
amiantho, na presena do estudante. No, senhores. Fosse pelo que fosse,
a brazileira parece que no tinha ideias muito claras a respeito dos
deveres conjugaes. Seu marido, allucinado pela sciencia, retirou-se c
de baixo para to alto que no podia vr a terra onde sua mulher
vacillava ao p de um abysmo. Acordou, uma manh scismando n'um _x_, que
o fizera adormecer s duas horas. Chamou sua mulher, que o costumava
saudar em francez do quarto proximo. D'esta vez no ouviu lingua alguma
das que se entendem no globo. Entrou no quarto para contemplal-a no
somno feliz de quem no estuda mathematica. Achou um leito vazio.
Correu a casa toda, chamando-a, com sobresalto, que no era ainda o da
certeza. Nem a criada encontrou! Volveu ao quarto de Ricarda. Reparou
que sobre a commoda no estava um cofre de marfim. Era o adereo de
Ricarda: os seus brilhantes que valiam uma fortuna; os mais ricos
diamantes que deram as Minas Geraes; as melhores pedras do Novo-mundo, o
valor de quatro dotes opulentos!

Desde esse dia, o brazileiro no tornou s aulas. Sabe-se que foi curado
d'uma congesto cerebral. Viram-no, dous mezes depois, sahir de Coimbra,
sem estender a mo aos amigos, compadecidos do seu infortunio. Passra
por entre elles sem os vr. Reputaram-no doudo, e vingaram inutilmente a
affronta que o enlouquecra, execrando o infame Joo da Cunha que lhe
roubra sua mulher.

Mas, um dia, dez mezes depois, passra o brazileiro na rua do Ouro, em
Lisboa, e vira n'uma taboleta de ourives um annel com uma esmeralda,
cravejada entre doze brilhantes.

--Quanto pede por este annel?--perguntou elle.

--Dous contos de reis.

--Comprou as pedras separadas, ou o annel?

--Comprei o annel.

--Ha muito tempo?

--Ha dous mezes.

--O vendedor era portuguez?

--Creio que sim.

--Garantiu-lhe a legitima venda de que era seu? Creio que me no
entende... Tem a certeza de que este annel no fosse um roubo?

--O cavalheiro que m'o vendeu  um fidalgo.

--Conhece-o?

--Conheo, sim...

--Desculpe estas perguntas, porque eu quero comprar o annel, e no o
faria sem a certeza de que manh me fizessem as perguntas que eu lhe fiz.

Pouco depois, o ourives recebia dous contos de reis por um annel que
comprra por cincoenta moedas. Contente da veniaga, esquecra-se da
reserva que lhe fra pedida, quando o comprou, a respeito do vendedor. A
alegria fizera-o indiscreto e expansivo. Dous contos de reis era
dinheiro para trinta Judas, e demais o ourives no sabia o valor do
segredo.

--Visto que me comprou o annel, vou dizer-lhe quem m'o vendeu; mas v.
s. guarde segredo, no porque seja um furto; mas porque  um melindre.
Este annel foi-me vendido por um dos primeiros fidalgos de Lisboa; mas o
homem pediu o segredo do seu nome, para que o no julguem em ms
circumstancias. A v. s. posso dizer-lhe o nome...

--De certo pde, mesmo porque eu estou em vesperas de embarcar para o
Brazil, que  o meu paiz.

--L me pareceu logo que v. s. era brazileiro... Por c no ha quem d
assim dinheiro por uma obra de gosto... Pois, senhor, o ex-possuidor
d'este annel foi Antonio da Cunha e Faro, e quem aqui m'o vendeu, com
ordem sua, foi seu filho Joo.

--Penso que conheci em Coimbra esse cavalheiro--disse com mal fingida
serenidade o marido de Ricarda.

--Pde ser, porque segundo ouvi dizer, o tal senhor Joo da Cunha estuda
em Coimbra.

--Pensei que esse sugeito no estava em Lisboa.

--Ha quinze dias de certo estava; se quer fallar com elle para ir seguro
do que lhe digo, ainda que eu lhe prometti de no dizer quem me vendeu o
annel, pde v. s. procural-o em casa de seu pae no Campo Grande.

--No duvido da sua palavra.

O brazileiro passou a noite d'esse dia encostado s arvores fronteiras
do palacete de Antonio da Cunha. De madrugada vira entrar um embuado,
que se lhe afigurou Joo da Cunha. Ao escurecer d'esse dia viu sahir o
mesmo vulto suspeito, e seguiu-o. No Campo Pequeno viu-o entrar numa
sege de praa, que desappareceu pela estrada transversal.

Na noite immediata, a pouca distancia da sege, que esperava Joo da
Cunha, estava um cavalleiro encoberto pelo muro da quinta do conde das
Galveas. A sege partiu e o cavalleiro seguiu-a de longe, para que o
tropel do cavallo se no tornasse suspeito.

A meia legua, na azinhaga de Campolide, parou a sege. Joo da Cunha
entrou n'um largo porto, que se abriu no momento em que elle apeava.
Caminhou por debaixo de uma extensa parreira, que formava uma fresca
abobada de folhagem  entrada da casinha campestre, em que morava Ricarda.

O brazileiro de certo no viu a casinha, porque o porto fechra-se nas
costas de Joo da Cunha. O boleeiro entrra com a sege n'uma cavalharia
a cincoenta passos distante do porto. O marido de Ricarda adquirira
aquella imperturbavel paciencia, que vem depois dos frenezis da
vingana. Quasi um anno de meditao e estudo na desforra, que mais
convinha  sua honra, era sobeja reflexo para no perder com uma
imprudencia a victoria que, to depressa, lhe deparra o acaso do annel.

Retrocedeu para Lisboa.

No dia seguinte passou, a p, defronte do porto onde entrra Joo da
Cunha. Estava fechado. Circuitou o baixo muro que marcava a pequena
quinta. Trepou no lano que lhe pareceu mais accessivel. No viu alguem.
As janellas da casa,  hora do calor, estavam fechadas com persianas
verdes interiormente corridas. Desceu para subir outra vez ao muro que
fechava a quinta na parte mais remota da casa. Saltou dentro. Os ces de
fila acorrentados ladraram; mas o aviso no inquietou ninguem.

O brazileiro embrenhou-se n'um caramancho, enxugando o suor que lhe
empastava a camiza. Permaneceu ahi cinco horas.

s nove ouviu o rodar da sege; ouviu ranger os gonzos do porto; ouviu
abrir-se, mais perto, a porta e janellas como se at alli no vivesse
ninguem n'aquella casa, cujo aspecto risonho bem poderia ser mentiroso.

Minutos depois ouviu passos distantes, que faziam rumorejar a folhagem.
E estes passos eram cada vez mais proximos. Viu dous vultos. Eram j
distinctas as suas palavras:

--E quando partiremos, Joo?--perguntava Ricarda.

--Logo que eu te veja convalescida de modo que possamos viajar sem perigo.

--Pois eu no estou boa?

--Ainda no. Faz ainda manh um mez que soffreste muito... para fazeres
completa a minha felicidade... Um filho teu, Ricarda!...--O brazileiro
ouviu o ciciar tremulo d'um beijo.

--Mas que podemos recear agora? Vamos embora de Portugal. Consegui que
v comnosco a ama de leite do nosso Luizinho. No nos falta nada...
Olha, Joo, eu no posso assim viver to fugida do mundo. No temos
necessidade d'isto. Se queres que eu assim viva, obrigas-me a crr que
eu pratiquei um grande crime, pelo qual devo ser proscripta da vida.

--E no vivo eu tambem proscripto da sociedade, para viver comtigo s?

--No ha comparao. De dia vives com os teus, de noite comigo. Eu
queria que tu viesses aqui passar ssinho, com o corao cheio de
saudades, as horas aborrecidas d'estes longos dias... Vive sempre ao p
de mim, Joo, e eu viverei contente em toda a parte.

--Pois partiremos, minha filha. Mas  necessario fugir, porque meu pae
de certo me no deixa sahir de Portugal. A morte de meu irmo morgado
veio tolher o meu futuro. Meu pae quer entregar-me a administrao da
casa que me pertence, e eu, habituado a obedecer-lhe desde creana,
acho-me prso de braos quando  preciso ser mau filho...

--Ser mau filho!...--atalhou Ricarda com resentimento.--Antes ser mau
com a pobre mulher que no sentiu os braos prsos para ser m esposa...
no  assim?

Joo da Cunha sentra-se no banco de pedra fronteiro ao caramancho, em
que o brazileiro retrahia o halito para no perder uma palavra, em
quanto a longa distancia lhe no permittisse uma pontaria infallivel de
pistolas que lhe oscillavam nas mos convulsas.

--Parece-me que ests canado de mim...--continuou Ricarda, offendida
pelo silencio de Joo  ultima pergunta, que lhe custra a ella uma dr
de corao, um desgosto amargo do seu amor proprio.

--Canado de ti... No, Ricarda... O amor no se cana assim. No tenho
tido, desde o primeiro dia em que me viste, uma pequena desigualdade
comtigo. Tudo o que te prometti foi pouco para o grande sacrificio que
me fizeste; mas, se te no dou mais,  porque mais no pde dar o
corao. Podsses tu ser minha esposa... podsse eu convencer-te...

--De que me amas? No  assim que se convence uma mulher... O que eu
quero  a tua alma... No me lembrou nunca ser tua mulher, como se diz
da que se d por obrigao de casamento, para ser assim mais feliz...
No fallemos n'isto... Essa palavra esteve para ser a minha morte... no
poder nunca trazer-me felicidade. Ainda que eu hoje fosse viuva, no
quereria ser tua mulher, Joo.

--Porque?!

--Porque me obrigarias um dia a ser criminosa, como fui...

--De que modo te obrigaria eu a seres criminosa?!

--Considerando-me apenas uma companheira de casa, a quem no  obrigao
fazer carinhos, porque a mulher casada  uma posse sem disputa,  uma
roseira que d uma flr, e scca para nunca mais reverdecer... Eu sei
que fui muito amada, muito estremecida por...

--Por teu marido...

--Sim... mas, dous mezes... e, ao cabo de dous annos, esse homem dava-me
a importancia que se d a um socio d'uma casa commercial, e dizia-me que
no vira ainda as suas lies, quando eu me sentava ao seu lado com
receio de ser grosseiramente despresada com o seu silencio. Todas as
tuas qualidades pessoaes me no fariam impresso nenhuma, Joo, se
aquelle homem me soubesse ao menos mentir.

--Foi preciso que elle te despresasse para eu te possuir o corao.

--Foi... Pois tu crs que a mulher se degrada por prazer, sem que a
violentem a isso?! Quem faz a mulher desgraada e despresivel na sua
desgraa  o homem. Tenho pensado muito no que fui para explicar o que
sou...

--E, se elle te amasse hoje, Ricarda?

--Se me amasse hoje, despresal-o-a, porque no poderia amar outro
homem, depois que te conheo.

--E se eu te despresasse?

--Se me despresasses, morreria, matava-me.

--No morrers, minha filha...

Joo da Cunha abraou-a com vehemente transporte. Colou-lhe os labios
ardentes no collo de encantadora nudez, sorvendo-o em beijos deleitosos.
Ella deixou-se inclinar para o seio d'elle, como desmaiada em ebriedade
de ternos deliquios. Toda esmorecida e alquebrada, os proprios
olhos, sempre fogo, pareciam apagar-se, para que a morbidez das
palpebras, pendendo amortecidas, dissessem ao sequioso amante que
aquelles olhos se fechavam para no verem o passado, e deixavam ao
corao, estreme de remorsos, o goso das delicias do momento.

O marido de Ricarda deu um passo para distinguir os vultos entre as
frondes da amoreira. O prazer devra tl-os aturdidos para no ouvirem
esse passo, e dous que se seguiram. Aquelles braos no se desenlaavam.
O extasis poderia ser apenas um extasis de dous amantes que se perdem
nas altas regies do puro espirito; mas o brazileiro, na sua phantasia
allucinada, imaginou um crime, que deveria deixar-lhe a elle um remorso
eterno, se o no interrompesse com a morte.

Duas balas voaram de duas pistolas. Ouviu-se um grito. Ricarda levra a
mo ao seio. Joo da Cunha corrra atraz d'um vulto que rompia a direito
as murtas do caramancho em precipitada fuga. Mas, j perto do
assassino, sentiu uma dr agudissima no hombro direito e esvahimentos de
cabea.

A este tempo, o brazileiro era preza de dous enormes ces, que o filaram
no momento que elle lanava a mo a uma viga da parreira por onde
descra. Os ces laceravam-no, saltando-lhe ao peito. O indefeso moo
arremessra as pistolas inutilmente aos ces, que redobravam de furor.

Os criados de Joo da Cunha, ouvindo os tiros, correram na direco.
Encontraram o cadaver de Ricarda, e alguns passos distante, seu amo que
dizia em voz desfallecida: matem esse assassino, que me matou.
Correram onde latiam os ces. Viram um homem encostado ao muro
defendendo-se dos saltos d'elles com as pernas, que retiravam sempre
cravejadas por uma nova dentada. No seria preciso o brao d'outro
assassino, se a lucta se demorasse entre as feras e o brazileiro quasi
morto de cansao, e derramamento de sangue. A misso dos ces acabou
quando principiou a dos homens. Duas choupadas no peito abriram mais
larga fenda ao sangue. Mataram-no sem resistencia.

..........................................................................

Eu esbocei com repugnancia este quadro. Ser demasiada fidelidade
dizer-vos que a sepultura do brazileiro foi os oito palmos de terra,
onde cahiu morto? Ainda bem que os ces o no devoraram a pedaos como
um passatempo durante a noite. Ricarda foi enterrada no cemiterio, de
noite, de combinao com o parocho. Os criados conduziram  sege Joo da
Cunha, que no quiz retirar-se sem reconhecer o assassino.

Dizem que beijra as faces mortas de Ricarda, e derramra algumas
lagrimas, que lhe fazem muita honra.

A sege que o conduziu, tornou a Campolide para transportar ao palacete
do Campo-Grande um menino d'um mez nos braos da ama.

Joo da Cunha beijando o neto que seu filho lhe entregava, na supposio
de que o ferimento era mortal, dizia l comsigo:

--Parece filho de mulata! Bem me disseram a mim de Coimbra que meu filho
fugira com uma!

Joo da Cunha foi curado em poucos dias. A bala quebrra-lhe a clavicula
direita e sahira sem ferir algum vaso importante. O enfermo deixou-se
tratar, e no consta que tentasse romper o apparelho para se escoar de
sangue.

--Queria viver para o seu filho.-- como elle explicava o desejo da vida.

Isto passou-se em 1813; e o romance comea em 1838.

J sabem que o filho de Ricarda  Luiz da Cunha e Faro, que apeou 
porta do theatro de S. Carlos.




II.

O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIOADA.


Joo da Cunha era, pouco mais ou menos, o que so todos os homens. O seu
corao, viuvo do amor de Ricarda, vestiu lucto um anno. O choque fra
muito forte, para que a mais robusta organisao se no resentisse,
longo tempo. A convivencia, com homens que no conheciam os precedentes
da sua mysantropia, no a procurava. Vivia s, com seu pae, e com seu
filho. Recordava a ephemera felicidade de alguns dias, rematados por uma
hora de sangue. Ora, estas recordaes, por que foram muito repetidas,
pouco a pouco enfraqueceram, e o corao familiarisou-se com ellas. O
que primeiro fra terror, veio, depois de um anno,  brandura das
reminiscencias que no mortificam, porque o tempo  o principio gerador
de imagens novas que desfazem sempre as impresses das velhas. O ferro
abre profundos sulcos no cortix da arvore: depois, as fibras da camada,
vigorosa de nova seiva, passam por cima, e deixam como signal uma cizura
imperceptivel.

Dous annos depois da catastrophe, Joo da Cunha no fugia das aventuras
que o perseguiam. Riqueza, talento, e fidalguia, afra os dotes
physicos, auctorisavam-no a no deixar aos vinte e dous annos uma
carreira que encetra com to m fortuna.

Do seu corao, repartido por muitas paixes passageiras, nunca usurpou
a seu filho a maior parte.

Em quanto elle crescia em corpo e extraordinaria penetrao, o pae, que
no sabia sl-o, alargava-lhe os desejos, adivinhando-lh'os, e prohibia
 ama, aos mestres, e ao av a mais ligeira contrariedade s
vontades caprichosas do menino.

Luiz, aos doze annos, era um despota com os criados, com os mestres, e
tratava o pae como se trata um irmo, quando no ha a recear a correco
paterna. Joo da Cunha gostava da desenvoltura do pequeno, e ufanava-se
de leval-o, como maravilha,  sociedade dos homens e mulheres do grande
mundo, que lhe achavam muito sal nas suas respostas, e no cravam s
galhofeiras liberdades do pequeno Ismael, como lhe chamavam, alludindo 
desconhecida Agar, que o sol da Africa bronzera.

Luiz era tanto mais caro a seu pae, quanto a sua intelligencia, com
pequeno esforo, aproveitava nas irregulares lies dos mestres
soffredores. Aos quinze annos, o filho de Ricarda era homem, e, como
homem, as puerilidades, as folias que o entretinham at aos quatorze,
trocaram-se em ar reflexivo, em consciencia de si proprio, e at em
certo respeito ao pae, supposto que este lhe no invectivasse as
licenas, que os de fra lhe censuravam.

--Eis-aqui o que  o espirito!--dizia Joo da Cunha ao seu capello, que
muitas vezes agourra mal da livre educao dada a Luiz--Assim que
chegou  idade da razo, ahi est meu filho obedecendo espontaneamente
ao instincto dos deveres. No o v to pensador n'uma idade em que a
imaginao trabalha sempre?

--No duvido que pense--respondeu o padre, solemnisando a resposta com
um sorvo de rap--mas, se v. ex. me d licena, parece-me que seu filho
pensa em alguma loucura.

--Essa  boa! O padre que razo tem para tanta severidade com meu filho?

--Que razo tenho? Ora oua v. ex. Seu filho namora a filha do
merceeiro que mora ao lado.

--Deixe-se d'isso, padre; o meu filho apenas tem dezeseis annos, e ella
ainda  mais nova.

--Isso no  razo, e desculpe-me v. ex. a liberdade de replicar. Deus
sabe as intenes com que me intrometto em cousas, que no so de todo
estranhas ao meu ministerio. Eu quando fallo  com documentos na mo.

--Alguma cartinha de namoro... Isso so rapaziadas sem consequencia.

--No  cartinha de namoro.

--Algum cordo de cabello, ou alguns suspensorios com a firma do
rapaz... Isso faz rir.

--No  cordo nem suspensorios.

--Ento acabe l com isso, padre! Que ?

-- uma escada de corda que sobe ao segundo andar d'aquella casa.

--E sabe se elle faz uso d'essa escada?!

--Ha quinze noites seguidas que sobe s duas horas da noite e desce s
quatro.

--O rapaz  capaz de quebrar uma perna!

--E eu receio que o pae da rapariga seja capaz de lh'as quebrar ambas.

--N'esse caso, encarrego-o de o reprehender; mas no lhe diga que eu o sei.

--Parece-me que lhe no far grande abalo ainda que v. ex. o saiba. Seu
filho no o teme, nem lhe reconhece direitos sobre a liberdade de subir
e descer escadas de corda.

--Est enganado.

--Oxal que sim. Eu de mim reprehendi-o j, e elle respondeu-me se eu
fazia o favor de lhe ir segurar a escada para que ella no balanasse
quando elle descia, com grave risco das suas pernas, que ficavam
enleadas nas cordas transversaes. Aqui est o que  uma zombaria que no
parece d'um menino de dezeseis annos! V. ex. ri-se? Ora, queira Deus
que no chore ainda...

--Pois que quer que eu faa, padre?

--Que o castigue com severidade, ou o faa entrar no collegio dos Nobres
para ser castigado longe dos seus olhos. V. ex. perde seu filho. Est
cavando um manancial de desgostos, que no remediar... Elle ahi vem...
Se quer, retiro-me, para v. ex. lhe fallar.

--Pois sim, retire-se.

Luiz entrou apertando a mo ao pae, que lh'a estendeu com a familiar
etiqueta d'amigo.

--Vem c, Luiz. Tu s um homem, e  preciso fallarmos como homens. Sei
que sobes por uma escada de corda ao segundo andar d'aquella casa...

--Ento, de certo sabe tambem que deso...--atalhou com sorriso ironico
o filho de Ricarda.

--Responda-me com seriedade. Sabe que eu posso fazl-o retirar d'esta
casa, logo que o menino proceda de modo que merea ser castigado?

--V. ex. pde tudo; mas eu queria saber o que fiz que merea castigo.

--Assim  que deve responder-me. Sei que se introduz em casa do merceeiro.

-- verdade, meu pae. No nego seno o que no fao. Foi o padre Joaquim
que lh'o disse?

--No sei quem foi...  isto verdade?

-- verdade; mas o padre Joaquim merece dous bofetes.

--O padre Joaquim  seu amigo. Se o menino observar os conselhos d'elle,
ha de ter um proceder exemplar; e, se os no attender, obriga-me a
castigal-o asperamente, bem contra minha vontade. No quero que se diga
que um filho de Joo da Cunha escala as janellas dos visinhos. O peor
que pde acontecer-lhe, meu filho,  ser surprendido n'essa casa, e olhe
que de certo o no respeitam para o deixarem descer tranquillamente como
subiu.

Pouco depois, Luiz da Cunha sahiu do quarto de seu pae, e passando pelo
capello deu-lhe um abrao, que o fez impertigar-se com a grave
compresso das costellas. Luiz ria-se, e padre Joaquim desencadeava-se o
mais prestes que podia dos braos tenazes do seu discipulo de latim.

As correces paternas aproveitaram muito, por isso que, na noite d'esse
dia,  hora costumada, Luiz da Cunha agatinhou rapidamente a escada, e
iou-se para a varanda. Pouco depois que entrra, o logista, avisado por
quem quer que foi, subiu ao segundo andar. Luiz da Cunha fugiu
precipitadamente, e quando descia, na altura do primeiro andar, o
robusto confeiteiro levantou os ganchos da escada, e deixou-a pender
para o centro da terra, em plena condescendencia com as leis da gravitao.

O filho de Joo da Cunha recuperou os sentidos quando uma patrulha da
policia o entregava ao pai, que, a essas horas, recolhia, e no  bem
liquido se tambem elle debaixo do capote trazia uma escada de corda.

Luiz da Cunha desmanchou algumas articulaes, cuja collocao o fez dar
ao diabo a filha do confeiteiro. O pae ameaou com um chicote o seu
pundonoroso visinho; mas, pelos modos, o minhoto no era homem de
transigir pelo mdo d'uma arrogancia dos actos dos Sousas e Faros. A
rapariguinha nunca mais appareceu na janella, e, no fim da semana
immediata, casou com o caixeiro, rapaz dos suburbios de Guimares, muito
fino, que  hoje capitalista, e no foi ainda codilhado por governo
nenhum. J vem que a filha do confeiteiro no perdeu nada, visto que o
marido no a encontrou lesada physica nem moralmente. Estes  que so os
felizes. No sabem nada de psycologia, nem de anatomia: no descriminam
imperfeies da alma nem do corpo.

Joo da Cunha teve assomos de rigidez paterna. Luiz desconheceu-o,
quando o viu, sombrio e carrancudo, ordenar-lhe que seguisse o padre
capello ao collegio dos Nobres. Obedeceu sem hesitar um momento. Entrou
no collegio, onde os mestres prevenidos trataram de captar-lhe a estima,
habitual-o  casa, para se dispensarem da outra ponta do dilemma.

Luiz recebeu alegremente os companheiros que os mestres lhe escolheram.
Eram os mais estudiosos e mais ajuizados. Acharam-no docil, e
persuadiram-se que lhe tinham inoculado o amor do estudo, e o
esquecimento das liberdades por que fra, aos dezeseis annos, encerrado
no collegio.

Joo da Cunha, maravilhado da mansido de seu filho, visitou-o,
indemnisando-o com afagos das asperezas que precederam a sua entrada no
collegio. Luiz no se mostrou magoado com as asperezas, nem lisongeado
com os carinhos. Estava melancolico, e dizia o padre Joaquim, sempre
agoureiro aziago, que o menino meditava uma nova loucura, fosse ella
qual fosse.

Prophecia de padre Joaquim era infallivel. N'essa noite, Luiz cortou em
tiras os lenoes e o cobertor. Saltou para a crca. Partiu a cabea ao
hortelo com um fundo de garrafa dos aguilhes do muro, quando o
indiscreto gallego lhe agarrou uma perna para a no deixar seguir o
destino da outra.

Luiz recolheu-se a casa de Jos Bento de Magalhes e Castro.

Este senhor Jos Bento  uma pessoa que ns conhecemos da FILHA DO
ARCEDIAGO.  justamente aquelle que casou com Rosa Guilhermina, em 1825;
que comprra n'esse anno o fro de fidalgo, e fizera a sua nova
residencia em Lisboa, por isso que os invejosos no Porto tinham a
petulancia de rir-se da pedra d'armas que elle fizera lavrar no seu
palacete do Reimo.

Em Lisboa fra bem recebido, particularmente por Joo da Cunha e Faro,
que, segundo dizem, lhe vendra cara a considerao. D. Rosa Guilhermina
era bem acolhida na roda que torce o nariz aristocratico aos que chegam
sem garantias d'algum conspicuo de linhagens. A maledicencia dizia que
Joo da Cunha no era indifferente  mulher do senhor Jos Bento. Tanto
no ouso eu dizer, e a calumnia  mancha que no pega nos meus romances.
Pcos de imaginao, sim; mas arreados de phantasias que desdouram o meu
proximo, isso nunca.

Luiz, sempre acceito com os seus gracejos a D. Rosa, fugindo do
collegio, surprendeu-a com um abrao estouvado. Pediu-lhe que no
dissesse nada ao pae, e o deixasse sentar praa em marinha, que era a
sua vocao. D. Rosa prometteu-lhe tudo, e avisou Joo da Cunha, que, a
essas horas, recebia a fatal nova da fuga do filho. A filha do arcediago
pedia-lhe uma entrevista, antes de encontrar-se com Luiz. O fim era
combinarem o meio de o levarem com brandura a entrar em casa, onde de
certo a violencia o no levaria. Joo da Cunha annuiu, e o filho de
Ricarda foi recebido com affabilidade por seu pae.

No era j possivel domal-o com violencias nem com afagos. Luiz da Cunha
tinha um roteiro fixo pelo destino, cuja absurda influencia  necessario
acreditar na vida tragica de certos homens, que nos compadecem, que nos
nauzeam, e que nos assombram!

Joo da Cunha, certo da sua inefficacia paterna, resumiu a sua
auctoridade ensinando o filho a salvar as apparencias, porque os
escandalos eram atroadores, e promettiam-lhe uma vergonhosa expulso das
casas honestas. O merceeiro visinho, no obstante a sua coragem, passou
pelo desgosto de curar-se d'uma dura carga de pau com que o amante de
sua filha, auxiliado por campinos embriagados em noite de tourada, o
mimosearam dentro do seu proprio balco. Toda a importancia de Joo
da Cunha foi necessaria para torcer a justia, visto que o logista
era affecto em extremo  politica vigente, o que provra mais d'uma vez
com o cacete na mo. Um outro pae, que ousou repellir de sua casa o
fidalgo, chamando-lhe mulato perdeu a orelha esquerda n'esta honrosa
lucta, sem por isso, ainda assim, salvar a filha da deshonra. Um irmo
d'uma estanqueira, que morou ao Pote das Almas, pagou com cada de tres
mezes, afra as custas do processo, a audacia de quebrar a cabea ao
amante de sua irm, que lhe viera, em noite de luminarias, recitar
debaixo da janella umas coplas em que lhe pedia escandalosamente licena
de cear com ella.

Esta classe de mulheres era a menos ponderosa na balana da opinio
publica. Algumas d'estas aventuras faziam rir as mulheres distinctas por
nascimento e por muitas outras qualidades que no lustravam muito o
nascimento...

Luiz da Cunha l foi entre ellas receber os applausos, e achou que a
vereda nova, em que se lanra, levava mais depressa ao capitolio. O que
elle queria era a reputao de conquistador, que principiava a declinar
de seu pae, e justo era que no sahisse da familia.

O filho de Ricarda era jactancioso. Costumava, com os seus amigos, fixar
o dia impreterivel de tal ou tal triumpho, e bebia com elles no _Isidro_
 saude da victima destinada.

Se acontecia acharem-se presentes os parentes da victima illustre, o
impudente no calava o nome, nem respeitava as conveniencias do pudor,
visto que os seus amigos o no respeitavam.

O Ismael, que as damas desdenhavam pela cr, se no fosse o terrivel
sestro da denuncia, em fins de jantares, poderia enriquecer o seu
cathalogo com muitas illustraes do sexo, que j n'esse tempo era fraco.

Mas a fatuidade indiscreta perdeu-o no conceito das menos pundonorosas.
Pouco e pouco repellido, Luiz da Cunha aos vinte e cinco annos, era
detestado, acolhido com desprso em todas as casas, excepto na de Jos
Bento de Magalhes e Castro, que, em 1837, era j visconde de Bacellar.
Rosa Guilhermina foi a unica mulher que exerceu uma sombra de ascendente
fraternal sobre o filho de Ricarda. Os seus rogos afastaram-no
muitas vezes de abysmos, em que a sua queda seria mortal. Tinha sido
ella quem o salvra de casar-se com a mulher que mais sria impresso
lhe fizera, quando se viu arremessado com infamia d'entre tantas que
elle pozera no pelourinho da ignominia.

Esta mulher era uma infeliz encontrada n'um primeiro andar da rua do
Ouro: uma d'essas que vem, com os hombros ns e as tranas enfloradas,
pedir-vos da janella com um aceno e um sorriso o preo do espectaculo a
que se offerecem, por esse sorriso e aceno voluptuoso.

Luiz da Cunha sympathisra com a libertinagem da mulher que lhe ensinava
cousas novas para o corao, no combalido de todo ainda pela podrido
do vicio. As duas almas comprehenderam-se maravilhosamente, porque se
encontraram na profundidade do mesmo charco. Luiz encantou-se d'esta
mulher. Pediu-lhe o exclusivo da sua alma, e foi feliz na spplica.
Liberata, desde esse dia, foi d'elle, exclusivamente, como a filha que
foge apaixonada do seio materno. Encontrou uma bem mobilisada
aposentadoria, servida de criados, e da opulencia que os brilhantes de
Ricarda, prodigalisados em ultimo recurso por Joo da Cunha, lhe
permittiam. Aquelles brilhantes reservra-os elle, sem escrupulo, para
patrimonio do filho da sua esquecida amante.

Envergonhado d'esta unio torpe, Joo da Cunha admoestou o filho; e,
quando esperava despertar-lhe o brio com os topicos d'uma sentimental
censura aos seus rasos instinctos, Luiz respondeu-lhe que tencionava
salvar Liberata da infamia, casando com ella.

O primeiro impeto de clera paterna foi correr sobre o filho e soval-o a
ponta-ps. Luiz estranhou a lisonja, e pde muito sobre si para no
receber o pae na ponta de um punhal.

Expulso de casa, recorreu  viscondessa de Bacellar, que lhe prometteu
reconcilial-o com o pae, com tanto que elle despresasse essa mulher, que
o arrastava com ella ao mesmo abysmo de perdio. Luiz prometteu no
casar; mas despresal-a nunca. Se seu pae lhe negasse recursos, disse
elle que seria ladro para sustental-a, ou morreriam de fome, abraados.

Joo da Cunha, sabendo este heroismo, reconheceu que seu filho era a
vibora, que elle trouxera no corao, para o morder com o remorso
expiador do seu crime, cujo saldo com a Providencia comeava vinte e
seis annos depois.

E aceitou a proposta. Continuou a dar-lhe recursos para uma dissipada
grandeza com que a libertina se infatuava, soberba do seu dominio sobre
o homem, que se no pejava de assentar-se, ao lado d'ella, na mesma sege
e no mesmo camarote.

Dizia-se que Liberata era fiel ao fascinado moo. Amigos de Joo da
Cunha tentaram vencl-a com promessas, para darem ao desgraado uma
surpreza que o fizesse detestal-a.

No o conseguiram. A necessidade no a forava. O ouro servia-lhe
prodigamente os mais exquisitos caprichos. O corao afizera-se-lhe
quelle caracter, e a pontualidade do amante no lhe deixava um instante
vago para meditar uma traio.

O leitor de certo adivinhou j quem era a mulher que apeou, com Luiz da
Cunha e Faro, da sege,  porta do theatro de S. Carlos. Agora, se a
imaginao lhe no  escassa, afigure-a no camarote 15 da 2. ordem, e
ver uma perfeita senhora, adestrada em salas, meneando garbosamente um
leque, fitando com requebro airoso o oculo branco nas faces que se
retrahem envergonhadas, e sorrindo com deslavada alegria ao amante, todo
carinho e atteno para ouvir-lhe alguma obscenidade allusiva a qualquer
das damas, que no ousam fixal-a de face. Liberata era o que devia ser.

Hoje  moda regenerar, em romances, estas mulheres. A imaginao,
cansada de reduzir a virtude ao crime, trata de fecundar a virtude no
alcouce.

Em quanto a mim, as Liberatas no se regeneram. A de Luiz da Cunha
danava lubricamente a cachucha, quando lhe fallavam em virtude.




III.

ASSUCENA.


Consta da FILHA DO ARCEDIAGO que a filha do memoravel Leonardo Taveira,
arcediago de Barroso, houvera de legitimo consorcio com Augusto Leite,
uma filha, chamada Assucena.

Quando Rosa Guilhermina contrahiu segundas nupcias com Jos Bento de
Magalhes e Castro, tinha seis annos a creana.

O filho do retrozeiro no se affeioou  filha de sua mulher, com quanto
a meiga menina o acarinhasse com meiguices, e lhe chamasse pae. Em pouco
se conhecia a rude insensibilidade do padrasto. As menores travessuras
de Assucena eram para elle o resultado do mimo demasiado que sua me lhe
dava. A esperteza, que Rosa admirava em sua filha, dizia o senhor Jos
Bento que era malicia; e, por entre dentes, resmungava que no seria
ella quem levasse a agua ao seu moinho. Era uma das suas phrases
favoritas este annexim, que o filho da senhora Anna Canastreira retivera
na memoria, rebelde sempre para o imperativo do verbo _laudo_, como em
tempo competente se disse.

Rosa doa-se da indifferena, ou, melhor, da antipathia de Jos Bento
pela creana. Nunca lhe perguntou a causa d'esta ingratido aos mimos de
Assucena:  que no contava com a delicadeza de seu marido n'uma
resposta. A coaco em que a tinha o caracter brusco do assassino do
mestre de latim, a reserva nada familiar com que um ao outro se
tratavam, collocava-os a distancia do que vulgarmente se
diz--confidencias domesticas.

Jos Bento no tinha a rusticidade nem a doura de indole de Antonio
Jos da Silva, o desventurado esposo de Maria Elisa, to desventurada
como elle. (J l esto ambos!) Se aos dezoito annos, o aprendiz de loio
annunciava uma bestialidade mythologica, a natureza, modificada pelo
dinheiro, enxertra n'aquella cabea, hermeticamente fechada, uma finura
maliciosa.  primeira vista, o senhor Jos Bento parecia um pensador, um
homem experimentado, e at um presidente d'uma companhia de viao, ou
orador gosmento de associaes commerciaes, que, s muito depois,
tiveram Ciceros em _patois_.

O capitalista era amigo de Rosa Guilhermina: no podemos duvidar que o
era; mas o seu modo de ser amigo era excentrico. A approximao dos
extremos confundira o pequeno espirito de Jos Bento com o grande
espirito d'algum marido fatigado de caricias, anhelante de paixes
incisivas, e incapaz de se amoldar s formulas burguezas da
tranquillidade domestica. O moo fidalgo, no primeiro anno de casado,
foi o que seria no quadragesimo, se Rosa Guilhermina no morresse em
1849. Nunca lhe deu mostras de aborrecido, porque tambem nunca se
mostrou enthusiasmado com a posse. Teve sempre a constancia
imperturbavel dos felizes alarves. Nenhuma mulher valia mais que a sua,
nem a sua valia mais que as outras.

Rosa Guilhermina no esperava que sua filha succedesse na herana do
marido, nem, quatro annos depois de casada, tivera ainda um filho, nem
depois o teve, que protegesse a sua irm, habituando-se a consideral-a tal.

O seu pensamento foi ageital-a para tudo o que  trabalho, dotando-a com
a educao, cultivando-lhe o espirito para que a formosura no fosse a
unica prenda que podsse merecer-lhe um marido com patrimonio.

Em Lisboa, Jos Bento no se oppz  entrada de Assucena n'um collegio.
O excellente corao da menina, arrancado ao de sua me, comprehendeu,
em tenra idade, que a sua posio no mundo dependia de si. Docil s
mestras, que lhe adoravam a angelica humildade, o trabalho, a orao, e
o estudo fizeram-na um modelo entre todas as suas companheiras. A
melancolia scismadora que, aos quatorze annos, a estremava dos folguedos
da sua idade, era um vaticinio de muitas lagrimas que verteria sobre
as flres da mocidade, queimando n'essas o germen que nunca mais lhe
desabrocharia outras.

Em 1838, Assucena tinha dezoito annos, e era ainda alumna do collegio
para onde entrra aos dez. A viscondessa de Bacellar conseguira de seu
marido a influencia e os meios para que ella entrasse nas
commendadeiras, ordem meio monastica, meio profana, em que a vida
retirada se suavisa com todas as magnificencias do luxo, e se approxima
da sociedade sem conhecl-a pelo ponto de contacto em que o corao se
infecciona.

Antes de entrar nas commendadeiras, como secular, Assucena veio passar
com sua me dous mezes.

Aos dezoito annos, estranhava o mais vulgar da sociedade. Lra muito, e,
s com sua me, dava ideia de no ter desaproveitado o tempo, nem
enganado os mestres. Na presena de estranhos o seu acanhamento dava-lhe
ares de idiota. Crava s mais simples lisonjas  sua formosura, e
folgava todas as vezes que as portas da sala se no abrissem a visitas.
A presena dos hospedes privavam-na de expandir-se a ss com sua me que
a beijava, como se faz a uma creana.

Assucena era trigueira como seu pae, e no podia chamar-se formosa,
seno em verso. A formosura, que no  seno a harmonia rigorosa das
frmas,  muito rara. O que no  raro  a graa, a sympathia, o
indisivel que vos encanta, sem vos dar tempo a estudar a irregularidade
de um nariz, ou o defeito d'uma testa.

Engraada e sympathica era, como nenhuma, a neta do arcediago. O
sobr'olho cerrado castanho escuro, e o buo que lhe assombrava o labio
superior, no fino, mas graciosamente arqueado, eram as feies mais
distinctas depois dos olhos brandos e amortecidos, to fra do commum em
rosto trigueiro. Gentil de corpo, alta como sua me, mais flexivel que
ella, mais delicada de mo, ao longo da qual corria uma penugem que
denunciava o brao delicioso, Assucena era a mulher para os sentidos e
para o corao; para a voluptuosidade do amor animal, e para os
arrobamentos do amor do espirito.

Luiz da Cunha e Faro no se recordava j de Assucena, quando a viu,
surprendido, em casa da viscondessa.

--Quem  esta mulher?--perguntou elle ao ouvido da viscondessa.

-- minha filha.

--Sua filha! a menina que eu vi, ha bons nove annos?

--A mesma. No o apresento, porque ella  muito acanhada, e d de si uma
triste ideia, quando a foram a fallar.

-- galante senhora! Que olhos, e que sobrancelha! Aquellas pestanas so
divinas! Tem um olhar de santa! E aquelle buo? Ha de perdoar-me,
senhora viscondessa; mas a filha de v. ex.  capaz de me fazer doudo!

--No zombe, senhor Luiz da Cunha. A minha Assucena no  capaz de
endoudecer ninguem, e principalmente v. ex., que no pde endoudecer,
porque a demencia d ideia do juizo anterior a ella...

--Bem a entendo, senhora viscondessa. Quer dizer que ninguem perde o que
no tem... V. ex. no sabe o que eu sou capaz de sentir. At hoje tenho
usado o mau corao; o bom ainda no entrou em servio. Vinte e seis
annos no  tarde para que eu me regenere. Sonhei esta noite que era
virtuoso, e que dava lies de moral no largo do Rocio a quem me queria
ouvir. Depois, tornei a sonhar, e fazia milagres: puz uns dentes 
baroneza de Lemos, que est alli mascando com as gengivas quatro phrases
de aafetida a seu marido, e fui  beira do Tejo conversar com os
peixinhos que saltaram ao Terreiro do Pao, passeando em scco para me
darem honras de Santo Antonio.

--Comece com as suas impiedades, senhor Luiz da Cunha... Olhe que eu
retiro-me d'aqui... Quando ha de perder o vicio da maledicencia? Que lhe
importam os dentes da baroneza de Lemos?

--Tem v. ex. razo. Sou um grande malvado, mas permitta que eu corrija
a sua accusao. Eu no disse que me importava com os dentes da
baroneza, que  cousa que ella no tem. Eu sonhei que milagrosamente lhe
dava duas ordens de dentes, e lh'os dra quasi todos mollares, porque me
consta que ella gosta de tortas, em que os outros se dispensam. Se isto
 perversidade, minha amiga, no sei o que  virtude. Deixemos a velha,
e fallemos na juventude do nosso seculo. A senhora D. Assucena fica
na sua companhia?

--No, senhor. Vai entrar nas commendadeiras.

--Isso  incrivel! Pois v. ex. quer inutilisar aquella creatura,
roubando-a  sociedade!! Isto  barbaro! Declaro que no consinto!

-- pena que v. ex. no consinta! Eis-ahi uma difficuldade que eu no
tinha prevenido! O seu consentimento  uma formula indispensavel!

--Quer que eu lhe diga uma verdade? Estou recebendo uma impresso
extraordinaria! Sinto por sua filha o que nunca senti! Ser ella a
redemptora d'esta alma que anda em penas ha onze annos? Parece-me que o
amor  que me ha de salvar. Ora olhe, eu tenho imaginado que posso ainda
ser feliz. V. ex. acredite que tenho sido muito muito desgraado...

--No o parece.

--Diz bem... no o parece; mas creia que no tive ainda oito dias de
felicidade na minha vida. O mundo julga-me mal. Todas estas vertigens,
que apparentemente me do o caracter d'um homem embriagado de
felicidade, so misturadas d'uma especie de nausea de mim proprio, d'um
vacuo de verdadeiros prazeres, e tal que, nestes ultimos mezes, tenho
desejado seguir um outro caminho por onde a verdadeira ventura me foge.
E quero perseguil-a. Realmente lhe digo que estou cansado d'este viver.
A sociedade despreza-me, e eu dou razo  sociedade. De certo lh'a no
dava, se eu me quizesse absolver dos meus desvarios. Aqui entre ns:
quem me perdeu foi meu pae. Se me tivesse negado os meios com que se
nutrem os vicios, eu no seria vicioso, ou, se o fosse, o trabalho, como
preo do vicio, ter-me-ia fatigado, ha muito. Olhe: se eu tivesse
nascido n'outro seculo, se  que todos os seculos no tem os mesmos
vicios, seria outro homem. V. ex. bem sabe que na sociedade no se
fazem santos. Eu vim por aqui dentro com os braos abertos para receber
todas as immoralidades, e vieram-me todas ao encontro, sem eu chamar
nenhuma.

--Naturalmente--atalhou a viscondessa, sorrindo--foi a filha do
merceeiro que o chamou...

--Isso no foi immoralidade, minha senhora; ou, se o foi, queixem-se
do peccado original, de que tanto me fallou aquelle pobre padre Joaquim,
que, em quanto a mim, foi o unico homem virtuoso que no recebeu a
herana da culpa de Ado, e morreu intacto como algumas virgens das que
se conhecem pelos necrologios. A filha do confeiteiro no soube o que
fez, e eu tambem no. A natureza exerceu sobre ns o seu immortal
despotismo, e foi preciso que os homens viessem desmanchar  pancada o
que ella fizera com beijos.

--Foi a natureza que lhe ensinou a botar a escada de corda ao segundo
andar?

--Nada, no, minha senhora. Foi meu pae.

--Como seu pae!?

--Palavra de cavalheiro, o caso foi assim: debaixo da cama de meu pae vi
umas cordas, que terminavam por dous ganchos. Fiz o meu raciocinio, por
que j n'esse tempo estudava em logica as causas e os effeitos. A escada
era o effeito d'alguma causa. Sem saber nada de mechanica, calculei a
importancia social da escada, e mandei fazer uma semelhante ao meu
criado do quarto. Ora aqui tem com angelica sinceridade a historia da
escada de corda. Agora, pergunto eu: desarranjei eu a felicidade da
filha do merceeiro? No a tem v. ex. visto no theatro, ao lado d'uma
especie de gallego com collarinhos em frma de panno de falua? Esta
especie de gallego  marido d'ella, tem cem contos de reis em
inscripes, e no sei que no Banco Commercial, e tem a commenda da
ordem de Christo. D'esse peccado da infancia, absolvo-me eu; dos outros
 responsavel a sociedade.

--No diga a sociedade. V. ex. tem zombado de todos os deveres. Tem
reduzido seu pae a um estado de tristeza que faz d. Tem-se divorciado
de todas as pessoas de bem. Affronta a opinio publica apresentando-se
nos lugares mais frequentados com uma mulher, sem pudor, uma libertina
que nem ao menos o salva de se degradar com ella em publico. Se me acha
ainda uma constante censora dos seus desatinos,  porque sei a historia
triste do seu nascimento, sympathisei com os infortunios de sua me, e
tomei sobre mim o inutil zlo da honra de seu filho. No tenho
conseguido nada: nada espero conseguir. Deus sabe quantas lagrimas me
tem custado este desvelo quasi maternal. Por vontade do visconde, j
v. ex. no entra n'esta casa. Reprehende-me todos os dias a
familiaridade com que o recebo, e  preciso que eu o traga illudido com
a esperana de que um dia ser possivel a sua reforma de costumes.
Senhor Luiz da Cunha, pense no futuro. Conda-se de seu pae, que j no
tem animo de ouvir pronunciar o nome d'um filho que perdeu como seu
amor. Veja que pde ainda remediar o mal que fez... Aparte-se d'essa
mulher. Viva com seu pae. Convena pelo seu procedimento as pessoas, que
j no acreditam na possibilidade da sua emenda. Eu tambem me persuado
de que v. ex. deve estar cansado. Creio que deve ter momentos de
envergonhar-se; outros de remorso, e outros de esperana. No cerre os
ouvidos ao que a esperana lhe promette. Se o instincto do bem lhe
aconselha a virtude, obedea-lhe, e ver como a vida lhe pde ainda ser
agradavel. Olhe que a virtude tem consolaes incomparaveis com os
prazeres momentaneos do vicio. Tenho quarenta annos. Sei o que  o
mundo. Combino todos os desgostos para os saber afastar de mim, e
recebo-os, quando elles so mais fortes, como desvios do errado caminho
em que entrei aos quinze annos. V. ex. no sabe que mulher lhe falla,
nem imagina o prazer que me daria se me viessem dizer que a virtude no
fra repellida d'esse corao que todo o mundo considera fechado para a
luz da honra.

--Fez-me impresso, senhora viscondessa! Tem-me assim fallado tantas
vezes, e nunca me feriu tanto. Eu no sei bem se o que me aconselha 
possivel... Creia que vou empregar os esforos. Se o no conseguir, 
porque no posso,  porque ha em mim um desgraado condo de fora
sobrenatural.

A conversao, n'este sentido, foi demorada.

..........................................................................

No dia seguinte, Liberata recebia de Luiz da Cunha um bilhete que a
eximia dos compromissos de fidelidade, auctorisando-a a dispr de tudo
que lhe fra dado. O bilhete foi recebido de manh, e  tarde o lugar de
Luiz da Cunha estava preenchido pelo primeiro oppositor  vacatura. Na
proxima noite de theatro, Liberata, no camarote, ria, olhava,
requebrava-se do mesmo modo, com a notavel differena de que o seu
companheiro era um capito de marinha ingleza, que accumulava s
delicias de uma conquista de tal ordem os gosos d'uma solemne embriaguez
de vinho.

Joo da Cunha acreditou na regenerao do filho, quando o viu entrar
contrito em casa, to diverso do que fra, accusando-se por uma tristeza
silenciosa, e captivando a benevolencia dos familiares com palavras
brandas. Por conselho da viscondessa de Bacellar, orgulhosa do seu
triumpho, Joo da Cunha no lhe disse uma palavra de reprehenso. O
passado no veio nunca irritar o pae, nem envergonhar o filho.

Os incredulos riram da subita mudana do mulato. Os crentes no poder
maravilhoso da converso explicavam o phenomeno por um toque
sobrenatural. No faltou quem dissesse que a reforma do peccador fra
obra d'um egresso varatojano que operra admiraveis converses nas casas
onde almoava e jantava. No sabiam dizer ao certo se tambem convertra
alguem nas casas onde dormia. Eu tambem no, supposto que acho muito
possivel o caso affirmativo.

O que sei de sciencia certa  que Luiz da Cunha no conhecia o dito
egresso melhor que eu e o leitor. Penso que o varatojano perderia o seu
latim, se tentasse engrossar com a moral franciscana os alicerces
fundados pela viscondessa de Bacellar. A emenda do filho de Ricarda no
tinha nada com a moral christ, pelo menos o atheo no sabia que a moral
de Jesus  o codigo por que se rege a honra sobre a terra, e se
conquista no ceo a eterna bem-aventurana, que no  exclusivo dos
pobres de espirito.

Joo da Cunha passava algumas noites com seu filho em casa do visconde
de Bacellar. Rosa Guilhermina revia-se na sua obra, e agradecia a Deus
tl-a feito instrumento da sua vontade, para, com braos debeis,
arrancar do abysmo um filho, restituindo-o ao amor de seu pae.

Assucena no se maravilhava do presente de Luiz da Cunha por que no lhe
conhecra o passado. Sabia, por meias revelaes de sua me, que aquelle
homem desmerecra no conceito do mundo, por causa do seu mau
procedimento. Os crimes, as infamias, as impudencias nem sua me lh'as
explicava, nem ella saberia comprehendl-as. O que ella via era um
mancebo melancolico, quasi sempre calado, fixando-a com frequencia,
fugindo d'ella se os olhos se encontravam, trocando palavras de absoluta
necessidade, e conversando com viveza, e muitas vezes, com sua me, como
se ella s lhe merecesse attenes. Andaria aqui um incentivo de vago
ciume? A manifestao inexprimivel d'um germen de sympathia? O
resentimento do desdem que Luiz da Cunha aparentava por ella?

Se vos digo que sim, no digo cousa nenhuma do outro mundo, e obedeo 
verdade.




IV.

CONTAGIO.


Nem eu nem vs sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que  a
sciencia do homem physico, no se sabe. A psycologia tambem no diz nada
a este respeito. Os romances, que so os mais amplos expositores da
materia, no avanam cousa nenhuma ao que est dito desde Labo e Rachel
at  neta do arcediago e o filho de Ricarda.

Dizer que o amor  a sensualidade, alm de grosseira definio, 
falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que no rasteja nunca
no raso estrado das propenses organicas.

Dizer que o amor  uma operao puramente espiritual  um devaneio de
visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo
tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem
e bebem  maneira dos mortaes, e at das divindades do cantor de Achyles.

Eu conheo homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo
amor como o phosphoro em presena do ar. Eis-aqui um phenomeno
eminentemente importante. Elle, s, sustenta em these que o amor no tem
nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que  um fluido.  pena,
porm, que eu no saiba o que  fluido para me dar aqui uns ares
pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de
certo, o no privavam de continuar a comer, e a dormir.

A prova de que o amor no est na cabea, nem no corao,  que Luiz da
Cunha e Faro tinha uma cabea incapaz de calcular as consequencias
d'uma aco boa ou m, e um corao desbaratado, verminoso, apodrecido
para nutrir em si uma flr das que nascem aromatisando a imagem que o
amor l insculpiu com maviosos traos.

Assucena, pelo habito da convivencia, perdra a estranheza, e
familiarisra-se com o moo to bem aceite e to desvelado por sua me.
O sobresenho de seu padrasto com o filho de Joo da Cunha tornra-lhe a
ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua
me, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a
razo da grosseira indifferena com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se ssinhos, porque a viscondessa no prevenira o filho
de Joo da Cunha da sua sahida  noite, nem prohibira, por inadvertencia
talvez, a sua filha a recepo de visitas.

Os embaraos de Luiz, a ss com ella, eram improprios d'um rapaz de
sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se
salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que no deixam
nunca descahir a conversao nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, s com ella, deduziu do
seu acanhamento que a amava muito. Assucena j no crava na presena de
Luiz da Cunha; e, s com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava
denunciando.

Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um
cumprimento, cuja elasticidade se no descobriu ainda.

--Est v. ex. em vesperas de recolher-se s Commendadeiras...--disse
Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais
facilmente, chegaria a um vasto assumpto.

-- verdade...--respondeu ella com mimo e tristeza--D'amanh a quinze
dias...

--To cdo!... E est desejosa de se vr l, no  assim?

--Desejosa, no. Eu antes queria estar com minha me...

--E ella no lhe faz a vontade?

--Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas meu padrasto, no
sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo
aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa me.

--O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio,
parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe so pezados e
suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremssos, como v.
ex. ter observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor 
que devo  senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que
minha me, porque uma me deixa muitas vezes perder um filho, e esta
nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste,
salvou-me.

--Tenho reparado que ella  muito sua amiga. Se v. ex. fosse meu irmo,
de certo minha me lhe no daria mais estima...

--E porque me no faria Deus seu irmo?--atalhou Luiz com ar infantil, e
meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem
desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco
sobresahia  cr purpurina do pejo.

--Esta pergunta--proseguiu elle, com affectuosa tristeza--fez-lhe uma
impresso muito diversa do que eu pensava! V. ex. cra, e a pergunta
no  das que ferem a susceptibilidade do corao. Magoou-a o meu
innocente desejo de ser seu irmo?

--No me magoou...

--Pois ento diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que
ainda lhe no disse uma s palavra indiscreta...

--No me magoou, senhor Luiz da Cunha... j lh'o disse... O que eu
senti... no foi pezar, nem alegria... Fez-me impresso essa pergunta,
por que...

--Diga, no se arrependa... o seu corao ia fallar...

--Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se no seria muito
bom que...

--Eu fosse seu irmo?

-- verdade...

--E cra por isso? Um desejo to puro e to santo diz-se, e no se
esconde...

--Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha me, e ella
perguntou-me cousas estranhas para mim... Se no fosse ella, isto que
lhe disse com difficuldade, no teria duvida em dizl-o s minhas
mestras do collegio, por que no sei onde est o mal d'este desejo.

--No tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua me prohibiu-a de
manifestar o bom conceito que v. ex. faz de mim?

--No, senhor... S me disse que me no habituasse a pensar no senhor
Luiz da Cunha, por que o corao em se habituando a fantasias, custa-lhe
muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que
minha me tem razo. V. ex. no pde ser meu irmo.

--Mas amigo, mais que irmo, no poderei tambem?

--Amigo... sim...--Assucena crou de novo, e balbuciou estas duas
palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel
oscillao nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a
fora expansiva do espirito com os estorvos compressores da educao.

--Pois ento... sejamos--continuou elle--sejamos o mais que podmos
ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me no
responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a
responsabilise pela promessa? Tambem no serei capaz de mortifical-a, e,
se o fosse, no poderia chamar-me seu amigo. Quando acontea que a minha
amizade lhe seja pezada...

--Pezada?!

--Sim; quando se dem motivos fortes para que me esquea...

--Que motivos?!

--Se lhe derem um marido...

Assucena levou instinctivamente o leno aos labios, como para esconder o
rubor que lhe assomava.

N'este momento, entrou Joo da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate,
que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu
o caso, que no tinha nada de mysterioso seno o facto de se acharem
ssinhos seu filho e a filha da viscondessa. Joo da Cunha sentiu o
abalo prophetico d'alguma desgraa. A anciedade no lhe concedia
delongas. Como Assucena pediu licena para retirar-se, Joo da Cunha
perguntou ao filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para
o pae:

--Como venho encontrar-te ssinho com Assucena?

--Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha
encontral-a ssinha, creia v. ex. que eu no subiria.

--Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um
namoro com a filha da pessoa que to cara nos , e tanto por ti se tem
sacrificado?

--Comprehendo, meu pae. E d'onde  que v. ex. deduz que eu namore
Assucena?

--Surprendi-a d'um modo que revelava emoes que no so as d'uma
singela conversao.

--Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como pde sl-o
uma irm.

--Luiz, esses rogos no se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmos
s os faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laos
fraternaes,  uma fico. Os teus amores tem sido todos faceis,
d'aquelles que a seduco no precisa mascarar com um titulo impostor; e
por isso no sabes ainda prver as consequencias d'esse improvisado
parentesco. Eu tive muitas irms, como esta que tu adoptas, e todas
ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.

--Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo 
Providencia um novo corao.

--Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas 
preciso que meu filho saiba muitas cousas que no aprendeu na vertigem
da dissoluo em que viveu onze annos. Quando o corao  nobre, tambem
ha paixes que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as
outras que comeam pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o
amor que faz victimas, no  o infame privilegio dos homens pervertidos.
Os de nobre corao tambem deshonram, tambem pervertem, e fazem
victimas. O avarento pde viver uma longa existencia sem um remorso, sem
roubar o po do seu semelhante, logo que elle alimente a sua sede de
ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de condecoraes,
pde ter sido um barbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando
choupanas que encerram velhos e creanas.  um algz condecorado, ao
qual Deus no pergunta o que fez de seu irmo;  uma consciencia
tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada est limpa de
sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por estrada
desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o trabalho;
o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinaria.
Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambies, que aspira tambem
s glorias; mas glorias e ambies do corao, as que elle julga mais
innocentes, as que a sociedade lhe no crimina no seu principio, as que
por fim se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de corao,
e em tedio de si proprio, no declinar das foras physicas para a
sepultura das chimeras. Este homem fui eu, e s tu. O corao perde-nos,
Luiz. O homem que se d exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre
alcatifas de flres, e resvala n'um abysmo. Principia, com o proposito
de ser honrado, um commercio de sensaes brandas; e acaba enfastiado
d'ellas, ancioso d'outras que no depara. Depois, como indemnisao do
que perdeu, encontra o desprso dos outros; como companhia das suas
horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do
charco, onde elle a lanou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como
refrigerio das sdes que o calcinaram na mocidade, encontra na
velhice... um filho, que lhe encrava uma cora de espinhos sobre o
stigma do crime com que a sociedade o manda  presena de Deus...

--Meu pae!--atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia.--Eu no sei
o que fiz para merecer-lhe admoestaes to sevras!

--Isto no so admoestaes, Luiz... No sei o que disse... Lembra-me
que o meu fim era uma cousa muito importante... No dediques uma
affeio perigosa  filha da viscondessa. Pra aqui. Ama uma mulher, que
possas fazer tua esposa, ou no ames nenhuma, por que eu sei que o teu
amor tem o contagio da morte...

Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma inveno mal
fingida. Se quizesse ser verdadeira, diria que estivera no seu
quarto, saboreando, ssinha, uma felicidade que principiava por lagrimas.

..........................................................................

As confusas recriminaes de Joo da Cunha no cahiram em corao
inerte. Luiz nunca respeitra tanto seu pae. Supposto lhe no
comprehendesse as comparaes do ambicioso e do general com os affectos
do corao, achra uma dr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso
n'essa condemnao a si proprio, n'essa tocante ideia d'uma cora de
espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pae, onde a sociedade
gravra o lema da deshonra.

Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da
ultima em que o vimos, sem grande esforo, erguer o vo do corao de
Assucena.

A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o
incommodo de Joo da Cunha, que periodicamente soffria accessos de
sangue  cabea, ameaos de congesto cerebral, que o debilitam pelas
repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites,
ao p de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as
doenas do pae eram indifferentes ao filho, e at a formalidade d'um
cumprimento lhe era pezada.

--Que differena!--dizia D. Rosa a sua filha--Quem diria que Luiz da
Cunha passaria as noites ao p de seu pae! Onde estava um nobre corao!
 vista d'isto, ninguem deve perder a esperana de salvar um homem
abandonado de todos! A sociedade  a que atira o desgraado  miseria...

-- miseria!--atalhou Assucena.

--Sim, minha filha. O desprso com que so repellidos os infelizes, que
no podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo,  muitas vezes a
causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando
em malvadez. Deixam-no ssinho, e elle precisa de viver em sociedade.
Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra
irmos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae,
minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... No
entendes esta linguagem, Assucena... Oxal que nunca recordes
palavras de tua me, ditas como um desafogo a quem lh'as no entende...
Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem s para
desgraados... e tu, filha, s feliz, s innocente, s um anjo.

--Elle  ainda desgraado?

--Pde ser feliz...

--Eu queria que elle o fosse; mas  to triste... Elle era assim d'antes?

--No. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia s minhas
admoestaes com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos
como quem conta aces meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi
queixar-se da sua m estrella, foi no dia em que te viu...

--Em que me viu!?...--atalhou Assucena, sem poder conter as palavras,
que vinham do corao sobresaltado.

--Porque me fazes esse reparo to admirada?!

--Admirada... no!...  que...

--No te escondas aos olhos de tua me, que  inutil, minha filha. Leio
em todos os coraes, e nunca se me escondeu um s pensamento do teu...
Amas Luiz da Cunha?

--Minha me!...--exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mo, e
fazendo um aceno negativo.

--No te assustes, Assucena. Eu no crimino essa affeio, que  muito
natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o no amarias.
Hoje... era quasi impossivel que o no amasses... Luiz tem alguma cousa
fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe
apertar a mo em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem
affectos. Mas olha, Assucena... tua me vai fallar-te como todas as mais
deviam fallar a uma filha que se d'um collegio aos dezoito annos. Se
tivesses vivido c fra, no era necessario dizer-te que s ha uma
posio que te convm com Luiz da Cunha. Se no fres sua esposa, que
poders tu ser para elle?

--Sua irm.

--No ha irms pelo corao, minha filha. Quererias ser sua esposa?...
Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga.
Agora no sou tua me, visto que  de uma me que sua filha de
ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?

--Queria...

--Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto no te daria uma moeda
de cobre como dote, e eu no posso tambem dar-t'a porque sou pobre como
tu. Luiz da Cunha no tem patrimonio, no pde succeder na herana de
seu pae,  pobre como ambas ns, logo que seu pae lhe morra. Vs o que 
o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a no proverem com
o trabalho s suas precises,  uma desgraa. Tu serias muito infeliz,
quando teu marido te dissesse no temos po. Minha filha, eu j soube
o que  no ter po. J desfiz um meu vestido para que tu no andasses
nua. J andei sem leno na cabea para que tu no tivesses fome. J me
ajoelhei comtigo nos braos, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes
que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos
valeu a ambas,  hoje uma desgraada, no de fortuna, porque eu privo-me
de muito para que ella tenha tudo.  desgraada... pobre Maria Elisa...
porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas
paixes... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...

--No chore assim, minha me...

--Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presena...
So mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma
confidente, e, se o no s tu, quem o ser? Nos sales  preciso rir
sempre. Com meu marido,  necessario ser o que elle ... Comtigo posso
ser o que sou... Minha filha, tua me vai pedir-te um favor...

--Favor!... que quer, minha querida me?

--Esquece Luiz da Cunha.

--Esquecl-o...

--Se no pdes esquecl-o... resigna-te, no alimentes esperanas, no
lh'as ds a elle...

--Isso sim... isso posso fazl-o... Quer minha me que eu me recolha j
hoje ao convento?

--Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irs quando tens de ir...

--Mas eu no devo vl-o mais...

--Porque no? Assim o amas?!

--Pensei que poderia vl-o todos os dias. No queria seno ser sua irm.
Diz a me que no posso... no o serei; mas no tenho coragem... no sei
como hei de dizer-lhe que o no sou, porque elle ha de perguntar-me a
razo porque no sou sua irm, sua amiga, e eu no sei o que hei de
responder-lhe.

--Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irm?... Cras!... responde,
Assucena.

--Prometti...

--Quando?!

--Uma noite que a me sahiu, elle veio adiante do pae...

--Porque me no disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?

Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe
tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no
seio de sua me, que chorava com ella.

--Foram tardias todas as minhas reflexes, minha filha?--disse a me com
a voz cortada, procurando vr a face de Assucena.

--No foram... Eu serei o que minha me quizer que eu seja; mas no sei
porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.

--Eu no te digo que o maltrates...

--Se elle me procurar, no lhe fallo.

--E porque no?

--Porque... seria peor... seria enganal-o, porque no posso esquecl-o.

--Desde quando o amas, minha filha?

--Tinha eu dez annos, e elle dezesete...

--Oh filha!--interrompeu a me, sorrindo--isso no era amor!

--No sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi,
depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de
minha me...

--E disseste-lh'o?

--Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razo no me
crimina d'este affecto de irm...

--Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra razo, a da
experiencia, venha desmentir a que te falla hoje...

--Penso que no... Hei de seguir sempre os conselhos de minha me. Farei
tudo o que posso. Se  possivel esquecl-o, empregarei todos os esforos
para isso. Diga-me a me quaes elles so.

--Terrivel pergunta!--disse a filha do arcediago, no fundo da sua
consciencia.

--No me responde, minha me?

--No o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto,
pde ser que Deus permitta um milagre.

--Esquecl-o?

--Esquecl-o, ou poder ser sua mulher. No  esta a inteno de Luiz da
Cunha?

--No sei. No temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle
me tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me
lembrar que  necessario um dote.

--E sem o consentimento de tua me?

--Minha me quer a minha felicidade...

--Confia-te a mim, Assucena... eu contino a ser a tua amiga. Hei de
fallar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.

O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta
aberta nas mos.

--Rosa--disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos--l essa
carta.  chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas.
Seno, eu t'as leio:


_Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que est
uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa
mesada que a senhora viscondessa lhe d. Acho prodigalidade despender
cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula,
como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que
sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes.
No sei, ainda assim, como ella pde fazer tanto com cincoenta mil reis
mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; no posso
colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c._


Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta
eram a denuncia do emprego que ella dava s suas economias. O filho da
senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a,
soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rap na palma da
mo esquerda.

--Que dizes tu a isto, Rosa?

--Que hei de eu dizer, Jos! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a
levar d'este mundo.

--Mas, em quanto Deus a no leva,  preciso pr cobro a isto. Sabes a
maneira como?

--Diz, meu amigo.

--Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves esto pagos com
usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o
diabo da asneira na cabea, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do
Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, dste-lhe uma casa mobilada de
tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e
andou de amante em amante, at que lhe dste cinco mil cruzados para
ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapua!
Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros
cincoenta, que naturalmente so remettidos por ti. No te ralho Rosa: o
mal feito no tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da
nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma
libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a
entrar n'um convento, onde a no conheam, e sustenta-a l. Assim ha de
dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e
vadias. No estou por isso.

--Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peo-te que lhe no
suspendas a mesada. Faz isto que te supplca tua mulher.

--Farei; mas tu no te lembras de fazer economias para essa rapariga que
no tem nada de seu?

--Qual rapariga? minha filha?

--Pois quem?

-- a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de atteno.
Tenho pensado no futuro d'esta menina.

--Pois j no queres mettl-a no convento?

--Quero; mas o convento, sem profisso, no  futuro. Diz-me, meu amigo:
tu ds um dote a minha filha?

-- a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que j
respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar
com grande dote, ou no casar. O grande dote no o dou; com pequeno dote
no serve seno a algum amanuense de tabellio. Pediu-t'a alguem em
casamento?

--No; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...

--Com quem?

--Com Luiz da Cunha.

--Ests tla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle
valha hoje mais do que valia ha tres mezes?!

--Acredito: no tem nada do antigo homem.

--No ter; mas pelo sim, pelo no, sempre te vou dizendo que para tal
casamento no se um pataco da minha gaveta. Tomra eu o que por l anda
por casa do Joo da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo!
J no tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos
cruzados que me deve, afra a fiana que eu lhe prestei para um titulo
de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem
juizo, Rosa. No te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vs com
ares de convertido, tudo aquillo  hypocrisia. Agora vou entendendo a
razo de tal mudana. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com
a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher,
qualquer dia vinha, com dous ponta-ps, pedir-te que lhe dsses um
bocado de po. s vezes pareces to esperta... e ces em cada alhada,
que nem uma cosinheira! Querem vr que a rapariga est namorada com o
senhor Luizinho?!

--Basta, Jos... No fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta
muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos
entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?

--Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis
moedas por mez, e uma creada de cozinha, e outra do quarto. Se 
necessario mais alguma cousa,  pedir por bca, em quanto est aberto o
cofre.

--No  preciso mais nada, meu amigo.

--Poucos padrastos fazem outro tanto...

--Tens razo, Jos.

--E quando lhe apparea um digno marido, no terei duvida em lhe dar um
dote; mas no para Luizes da Cunha, e outros que taes. Ficas zangada?

--Porque? Fico-te de todo o corao agradecida. Tudo que fizeres em bem
de minha filha  uma esmola de caridade.

O visconde desceu ao escriptorio a descontar letras do governo, e Rosa
Guilhermina fechou-se no seu quarto com a filha.

Antes de annunciar-lhe o que se passra, tinha dito com as lagrimas o
mais que poderia dizer-se.

Assucena, beijando-a meigamente, dizia:

--Adivinho tudo, minha querida me. No se afflija, que eu para ser
feliz, no preciso do dinheiro de meu padrasto.

--Precisas... precisas...--respondia a me, abraando-a com frenetica
ternura.




V.

UM ANJO CAHIDO.


Luiz da Cunha era estranho s apressadas solicitudes da viscondessa de
Bacellar com o futuro de sua filha. Como a no pedra, nem mesmo
significra a alguem intenes de casar-se, da sua parte nenhum esforo
punha para vencer as difficuldades do casamento, quando se dssem.
Votado inteiramente a velar a convalescena de seu pae, as saudades de
Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas no tanto que elle no
esperasse com impaciencia, todos os dias, noticias indirectas de sua
irm.

Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe
resuscitra nas ruinas do corao, era um sentimento de fantasia, um
impotente esforo da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada
de revezes na alma, de ignominias que entram como habito nas propenses
do homem, que se cr irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de
boamente a converso religiosa como consequencia do remorso como temor
de Deus; mas negue-se a reforma do espirito em cousas do amor, em
nobreza de affectos, em dedicaes fervorosas.  impossivel essa
reforma. No renasce o amor no peito cansado; no mais desabrocha no
tremedal a flr dos perfumes ideaes, que, s no ar puro de um corao
juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.

O amante de Liberata no podia ser o interprete do corao de Assucena.
Um sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixes
impetuosas, entrava cansado no amor tranquillo para o qual  necessaria
muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,
mais cga do que se imaginava,  paixo impetuosa.

Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos,
no se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando.
Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem
que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de
lisonjas, qual d'ellas mais impostora, perderia depressa a memoria dos
differentes thuribularios, e, ao sentir no corao impressos os traos
de uma imagem, outra imagem viria desfazl-os depois. O amor repartido 
o amor sem consequencias perigosas. A razo conserva sempre o seu
dominio. A luta com tres -lhe menos difficil que a de um s; e a
donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver me experimentada, leva
a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta annos no tem.
Antes de amar a realidade, o corao da virgem, na vida rma, no perfume
innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e
extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspirao sem condies.

Tal fra Assucena.

As prticas judiciosas de sua me poderiam impressiona-la de passagem;
mas o amor, que vencra o pejo, que se formra em si, e de tal fora que
nem os desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os
mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das
algibeiras d'um padrasto.

Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou
regularmente as suas visitas  viscondessa. O trato grosseiro do
visconde era cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa
desmerecra um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em
compensao, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido
antes da sua declarao.

E, certo, eram.

Assucena despediu-se de Joo da Cunha na vespera da sua entrada nas
commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi v para
esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras
balbuciantes denunciaram-na, no a Luiz que a adivinhava; mas a Joo da
Cunha que a no imaginava to fragil  tentao do filho.

A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o
desejo que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se
fizera depois da emenda: poderei eu ser ainda feliz, amando? era essa
pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.

E sabem, leitores, quanto duram estas illuses em homem que deu da sua
alma tudo quanto podia s puras ou s impuras paixes?  devaneio d'um
dia: accesso febril que arrefece no dia seguinte:  o mentiroso
rejuvenescer de algumas horas.

Se eu podsse lutar com as difficuldades d'uma affeio despresada!...
Se houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois
de captivo, me lanasse de si com a ponta do p, para que ao menos, eu
sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitao do amor proprio!

Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e no o
encontram.

Para esses de que serve o amor sem rebuo, a dedicao espontanea e
descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella,
se a ultima scintilla de piedade generosa se apagou no corao do seu
verdugo amado. E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.

O amor angelico de Assucena fra outra vez recebido por Luiz da Cunha,
esquecido j das primeiras emoes.

A filha de Rosa entrra no convento, onde encontrra faceis amigas que
se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os
conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras,
illustres em nascimento, e at illustradas no espirito, olhavam as
cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas so. Menina de
dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais
penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a
pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do corao
applicava-se-lhe amor a grandes dses. Ora a barateza da droga nunca
deixou morrer ninguem  mingua de antidoto.

O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse no lucutorio
quem quer que fosse, que se no deixasse possuir d'uma heroica
abnegao, porque o mundo no valia o sacrificio. A sua mais presada
amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na
sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria misso de convidar o filho de
seu primo Joo da Cunha a tomar ch na sua grade, em dia dos seus annos.

Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima,
nem entrra em tal convento. Aceitra o convite porque desejava mostrar
que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao
convento.

A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida
intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher
devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um
cro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de
realal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposio com os
estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.

Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi
diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava
era Assucena.

A viscondessa sabia d'estas visitas, e no as prohibiu a sua filha,
despresando assim as insidiosas prevenes da intriga, que d'este modo
procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima
prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina
sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua me, concebendo os
melindres d'um amor contrariado, no fallava de proposito em Luiz da
Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.

O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos
_escandalosos_ amores da sua enteada, protegidos pela _escandalosa_
secular Leonor Machado.

Jos Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informaes, que
recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro
de Assucena, impz-se a dolorosa obrigao de prohibir a sua filha
intelligencias com Luiz da Cunha.

Assucena recebeu silenciosa a correco; mas, em silencio, se
promettia no lhe dar o pso que sua me lhe dava. Era tarde para ella,
e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor,
e por ventura o patrimonio de Assucena, alcanado por astucia, faria as
delicias da sua vida.

Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenes  prima. O
visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor Joo da Cunha as
cartas que recebra. Joo da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um
pouco parecido com o que fra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de
costumes no consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres
do espirito. Como no fallou em materia, o caso no era to pavoroso
como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.

Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua
das Flres, espaou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se,
portanto, as hostilidades. O visconde ameaava a enteada de retirar-lhe
as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmo a Assucena, quando seu
estupido padrasto a desamparasse.

E tudo isto exacerbava a paixo de Assucena, que, agradavelmente
humilde, no sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua
alma.

A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, at ento,
exercra sobre o corao das professas, e muito menos das seculares.

Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia,
correndo pressurosa  grade, quando Luiz da Cunha apeava no pteo. Alli,
a pobre menina alliviava da sua dr oppressiva, chorando, e bebia a
longos srvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemo, trazia
preparado em estudadas palavras de esperana.

Mas qual esperana era essa? Que planos eram os d'elle?

Muito communs, e muito infames.

Luiz da Cunha, invocando o seu _eu_ d'outros tempos, encontrou-o.
Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que no  nada
extraordinaria, porque no cansam por ahi cavalheiros muito probos, e
exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos
resultados.

O filho de Joo da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do
vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe
cuidado. Os poucos bens de livre nomeao estavam hypothecados a dividas
enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de
Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. Joo da
Cunha, segundo o pensar dos medicos, no resistiria a um dos ataques
cerebraes que repetidas vezes o ameaavam com a morte, annunciando-se
por uma sombria tristeza, e desordem de ideias,  maneira d'aquella em
que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso
de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava
enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso
esforos e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisao.

Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde,
quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de
sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a,
forar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.

O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se
maquinalmente  vontade do amante, por isso que sua me acabava de lhe
fazer sentir que o visconde resolvra fazl-a entrar n'um convento do
Minho, em Bairo. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado
abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na
fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da crca, sobre
que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelo, que devia
abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma
escada que lhe foi iada ao postigo. Recebeu-a nos braos murmurando o
vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiana que lhe merecia, e
entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrra com Liberata.
Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?

Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda,
a precipitao d'um anjo em cada dia!?

Homem, que crs na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:

Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dar a
consciencia do erro? A perdio? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe
presta? A contrio? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...

Valha-nos Deus!...........................................................

..........................................................................




VI.

ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.


A fuga de Assucena no admittia conjecturas. As commendadeiras
explicaram-na com admiravel promptido, menos Leonor Machado que, no
auge do seu pasmo, no atinava com a causa de semelhante resoluo, nem
podia comprehender por onde ella fugira! Ingenua creatura!

A noticia foi depressa  viscondessa de Bacellar. A pobre me desmaiou
sem lr as ultimas linhas da carta, que a consternada abbadessa lhe
escrevra. O visconde, encontrando-a desfallecida, lra tambem a carta,
e passados os segundos da surpreza, dra-lhe para rir com estupida
imbecillidade.

Tal fra o estridor da gargalhada, que Rosa Guilhermina volveu a si para
contemplar, com os olhos lagrimosos e absortos, o estranho espectculo
de Jos Bento, que batia com o p direito no cho e com a mo direita na
esquerda, exclamando, entre frouxos de riso:

--No t'o dizia eu? Ahi est o convertido Luiz da Cunha!... Ahi est a
innocentinha Assucena! Sou um criado do senhor convertido, e da senhora
innocentinha! Agora pega-lhe com um trapo quente. E dizem que s
esperta! Os espertos cem em cada langar, que no sei o que te diga,
Rosa! Ora beija as mos ao teu Luizinho que t'a pregou na menina do
olho! Isto havia de acontecer tarde ou cdo! Eu sempre tive quizilia com
tua filha, e com o mulato; por alguma cousa era.

--Est bom, Jos; tens razo; no me mortifiques mais porque me matas.
Tem piedade de mim que sou me. No s pae; se o fosses, em vez de
gargalhadas, chorarias...

--Choraria! pois no! Se fosse pae, mandava o tal bregeiro de presente
ao diabo. Havia-lhe de arrancar o corao pela bca. Se fosse
pae--accrescentou o assassino do mestre de latim, morto a garfo--no
descanava em quanto os no arrebentasse a ambos. Como no sou, no
tenho nem quero ter direito algum sobre tal mulher. L se avenha.

--L se avenha!--exclamou Rosa, estendendo-lhe os braos
supplicantes--L se avenha... no  assim, Jos! Assucena  minha filha,
 filha de tua mulher... sou me que tenho de sentir a deshonra d'essa
desgraada!... Por compaixo, meu amigo, por compaixo no a abandonemos!

--Que queres tu agora? que eu v buscal-a para casa na minha carruagem?

--No... Pelo amor de Deus no zombes com a desgraa...

--Pois que queres?

--Que te unas a mim para fazermos com que Luiz da Cunha case
immediatamente com ella.

--E que tenho eu com isso? Eu sou algum padre que os case? Isso  l com
o prior.

--Jesus! tu no s to cruel como ests fingindo, meu querido Jos...
Finges que me no entendes... Paciencia! Queres-me morta.... pois
sim.... eu te farei a vontade.

--Ora percebam este disparate! Que tenho eu com o casamento de tua filha?

--No tens nada; mas se fallares com Joo da Cunha...

--Fallarei. No queres mais nada?

--E te compadecres de minha filha para que ella tenha um bocado de po...

--Agora entendi... O tal patife s casar com Assucena dotada...

--No sei, Jos; no sei se casar com ella sem dote; pde ser que sim;
mas so ambos pobres, bem sabes que Joo da Cunha deve tudo que
poderia deixar a seu filho... No a desamparemos.

--Digo o que disse, Rosa. No dou nem um pataco para que ella case com o
filho da preta, com o amante das mulheres perdidas, com o infamador das
senhoras honestas, e com o perdulario, que dissiparia n'um anno toda a
minha fortuna, se podsse metter-se em minha casa.  mais facil eu
recebl-a em casa...

--Deshonrada, infamada, perdida...

--Sim;  mais facil recebl-a assim, que aceital-a casada com esse
desastrado galopim, hypocrita, e infame que deshonra a filha da unica
senhora que o no repelliu de sua casa. Eu tenho sentimentos... Bem
sabes que os tenho desde que estudei latim na travessa do Laranjal...
Sei, ha muito, o que  ter nobreza d'alma. Assucena no  minha filha;
mas que me apparea esse vil seductor, e ver quantos dentes lhe ficam
na bca.

O dialogo prolongou-se n'uma luta de afflico da parte da infeliz me,
e um immutavel proposito da parte do padrasto.

Joo da Cunha, contra o seu costume, entrava ao meio dia em casa do
visconde.

Vinha em miseravel estado. As veias da face enturgeciam do sangue que
lhe subiu  cabea em borbotes. O mal aggravou-se na presena de Rosa,
que lhe viera ao encontro, banhada em lagrimas, soluando palavras
inarticuladas. O visconde, impassivel, encarava Joo da Cunha com
sobrecenho.

--Tem um excellente filho, senhor Cunha!--disse Jos Bento, balanando
a cabea com pungente ironia, e solfando no pavimento com o p direito.

--Tenho um desgraado filho, senhor visconde!--murmurou Joo da Cunha,
cahindo extenuado sobre uma cadeira, e amparando a fronte calcinada na
mo ardente como ella.

--Eis-ahi continuou o inexoravel credor--o que  um fraco pae, que
deixou crescer seu filho  lei da natureza Agora regale-se, senhor Cunha!

--No me despedace, visconde! Respeite a minha dr!--murmurou o
atormentado pae, erguendo as mos na indescriptivel ancia da sua
vergonha.

--E quem  que respeita a dr d'essa me, que est ahi chorando ao p
de si?

--Sou eu, visconde, sou eu. Somos ambos paes; comprehendemo-nos
chorando....

--Agora!... Remedeiam alguma cousa?

--Venho aqui para combinarmos a maneira de remediar esta desventura.

--De que maneira?--exclamou a viscondessa.

--Esse desgraado escreve-me uma carta... Eil-a aqui: visconde... Leia,
que eu no posso.

--Nem eu!--disse bruscamente o visconde--que me importa a mim a carta de
seu filho? No tenho nada com elle: entendam-me d'uma vez para sempre.

--Eu leio...--disse Rosa tomando a carta com soffreguido.

Lendo-a, fechou-a, e disse a Joo da Cunha:

-- impossivel.

--Impossivel!

--Meu marido no dota Assucena, e, portanto... minha filha... est perdida!

--Perdida? no!--atalhou Joo da Cunha--Em minha casa ha umas spas; e,
em quanto eu viver, meu filho aprender o officio de sapateiro para no
morrer de fome, depois da minha morte. Eu vinha aqui pedir uma esmola
para o futuro de Assucena; no venho pedir o preo da reparao da sua
honra.  preciso que me entenda, senhor visconde. Meu filho  neto dos
Cunhas e Faros. No mercadeja com a deshonra das suas amantes; no
calculava com as suas migalhas quando arrancou a filha d'esta senhora
aos braos da virtude...

Joo da Cunha, alteando cada vez mais a voz, e embaralhando as ideias em
desalinhada precipitao, denunciava o ataque periodico de sangue, que
se lhe injectava nos olhos, transpirando na testa em frias bagas de
suor. Nem o visconde o entendia j, nem elle mesmo seguia com
consciencia o curso arrebatado dos pensamentos, quando de improviso
levou as mos  cabea, exclamando:

--Senhora viscondessa, se no sou sangrado j, morro, ou endoudeo!

O visconde condora-se. Deu ordens prestes, e o facultativo veio
rapido. Depois de copiosa sangria, eram pouco sensiveis as melhoras.
Joo da Cunha estava febril, e fallava em delirio. Sacudindo os braos
vertiginosamente, pedia que lhe afastassem dos olhos o espectro de Ricarda.

Decorridas horas, progredia mais intensa a febre, mais frenetico o
delirio. As afflices agglomeravam-se no corao de Rosa, em quanto seu
marido curava serenamente dos seus negocios, sem enganar-se no quebrado
de uma operao arithmetica, em seu prejuizo.

A crise de vida ou morte passra; mas os medicos disseram que Joo da
Cunha no recuperaria o seu completo juizo por muito tempo, ou talvez
por nunca mais. Era o decimo ataque que soffria.

Entretanto, um criado de Luiz da Cunha esperava no Campo Grande, local
do palacete dos Cunhas, a resposta. Cinco horas depois, vira descer da
carruagem, nos braos de dous medicos o pae de seu amo. Approximra-se,
para ser reconhecido, os medicos disseram-lhe que se afastasse, e os
lacaios afianaram-lhe a demencia do fidalgo.

Tal foi a resposta que Luiz da Cunha recebeu.

N'essa mesma noite, o filho de Ricarda entrou no quarto de seu pae.
Apertou-lhe a mo, chamou-o tres vezes inutilmente, e,  quarta, ouviu
as seguintes palavras, que pareciam ser ditas ao facultativo presente:

--Diga a meu filho que seja honrado casando immediatamente com essa
menina. Que venha para esta casa, com sua mulher, que ser minha filha.
Que aproveite os poucos annos da minha vida para se formar em
mathematica, e assentar praa depois, que foi essa a mais esplendida
carreira de seus avs, valentes generaes, quasi todos mortos no campo da
honra, sem uma nodoa ignominiosa. Em quanto elle vai estudar, sua mulher
poder mover  piedade o padrasto, e levantar do cho alguma esmola que
elle lhe atire como um osso a um co importuno. Se lh'a no dr, nem por
isso ser menos filha de Joo da Cunha; porque mais vale ser filha de
Joo da Cunha, que enteada do filho d'um retrozeiro do Porto. Que venham
ambos vr-me.

--Eu estou aqui, meu pae.

--E que no se perca em Coimbra como eu me perdi...--continuou elle,
surdo s interrupes incessantes de Luiz--Foi l que me atirei a este
fsso, d'onde no ha sahida, nem pela porta da contrio. No se segue
do meu crime a expiao em meu filho. Se causei a morte de Ricarda, no
fui eu que a matei; foi seu marido. Se se reconciliaram na presena de
Deus,  bem que eu pague o sangue com o sangue: mas meu filho, esse no...

Luiz da Cunha no decifrava das vagas exclamaes de seu pae a resposta
do visconde. Retirou-se para Lisboa, e entrou em uma casa da rua do
Principe. Subiu a um terceiro andar, e recebeu nos braos a inquieta
Assucena, que chorava e tremia.

--Porque choras?

--Estava ssinha, e muito triste, Luiz...

--A tua criada no te fez companhia?

--Ninguem m'a pde fazer... Ou tu, ou ninguem... Agora, no choro, nem
tremo... Que resposta deu minha me?

--No sei: meu pae est effectivamente doudo. No comprehendi nada do
que elle disse; mas, a acreditar o delirio em que o encontrei, o
visconde no lhe respondeu do modo que suppnhamos.

--E ento?

--E ento, minha filha, s o que eras para mim. Bem sabes que te no amo
por calculo, nem te adoro menos se os meus planos falharem.

--Eu bem o sabia, Luiz! O dinheiro no faz a tua felicidade nem a
minha...--disse ella abraando-o com o acanhamento do pudor.

--De certo no, Assucena. O caminho que temos a seguir  sempre o mesmo.
Rica ou pobre sers minha esposa.

O amor no se finge. A tibieza das phrases triviaes de Luiz da Cunha
diz-nos que o arrependimento veio, mais cdo do que devia esperar-se,
manifestar um enthusiasmo sobre posse. No se acredita, sem ter
experimentado, a subita mudana que transforma o homem, quando a posse
absoluta da mulher, que se lhe d,  logo misturada de desgostos
imprevistos. Um rapto, de que se espera um dote,  um pso aborrecido
quando a esperana, fugindo, apenas deixa nos braos do raptor uma
mulher sem illuso, nem prestigio. E, peor ainda, quando o amor 
debil, o corao extenuado no aceita os sacrificios grandes, que, raras
vezes, acrisolam o amor de fantasia, como era aquelle de Luiz da Cunha.

Querem vl-o tal qual era nas primeiras vinte e quatro horas de
convivencia com a filha de Rosa Guilhermina?

Chegou a conceber o pensamento de fazl-a entrar no convento em quanto o
escandalo no era publico! Por vergonha, lhe no fez a ella a proposta
reparadora da sua virtude! A virtude, portanto, na opinio d'este homem
era um attributo bem facil n'uma mulher!

Passaram-se alguns dias, sem Assucena desconfiar da frieza do seu
amante. A nudez, e os gestos de impaciencia que elle, ao quarto dia, no
podia esconder, traduziu-os ella como inquietao pela perigosa
enfermidade de Joo da Cunha.

Luiz sahia de noite, a visitar seu pae. No o encontrava nunca nos
intervallos lucidos, e sabia que os accessos eram cada vez mais duradouros.

Resolveu, sem consultar Assucena, escrever  viscondessa. A carta foi
ter s mos do visconde. O visconde devolveu-lh'a aberta, com estas linhas:

_Em minha casa no ha quem responda s infames cartas do senhor Luiz da
Cunha. Se quer dinheiro, trabalhe. Sahiu-lhe errado o seu calculo. Creia
que me no enganou a mim, que tenho experiencia para conhecer os
patifes. O que lhe vale ao senhor  essa mulher no ser minha filha...
De hoje em diante, os seus portadores a esta casa sero corridos a
chicote._


Estas linhas provocaram toda a irascibilidade de Luiz da Cunha. A ameaa
era feita em termos muito insultantes, e o brio no tinha ainda expirado
no filho de Joo da Cunha. A carta recebra-a elle em casa de seu pae.
N'essa noite no veio  rua do Principe, e mandou um bilhete
desculpando-se com a gravidade da doena de seu pae. Assucena viu a sua
desgraa a um raio de razo n'esse bilhete. Eram apenas decorridos vinte
dias, depois da sua fuga! Chorou uma noite inteira, e escreveu a sua me
uma longa carta, que rasgou.

Luiz da Cunha apeou no pateo dos Paulistas, esperando o visconde de
Bacellar que era certo s onze horas de passagem para o Banco, ou para a
praa commercial.

Vendo-o, parou diante da sua carruagem. O boleeiro sustou os cavallos, e
o visconde, sem auxilio de criado, saltou da portinhola com resoluo.

O filho de Joo da Cunha no entreteve o palavriado preliminar n'estes
conflictos. A sua arma era um chicote, e a do filho da Anna Canastreira
eram os braos musculosos. Travou-se a luta. Cada murro bem puxado do
visconde, Luiz recambiava-lh'o na face em chicotada, que se repetia
sobre o vergo da primeira. Os criados do visconde soccorreriam o amo,
se no encontrassem de frente os criados de Luiz da Cunha. Eram dous os
grupos de gladiadores; e o povo, sem ser romano, parecia, pela sua
inercia, gosar o espectaculo curioso entre os dous athletas.

O capitalista fra ferido na face pelo martello do chicote. Os cabos de
policia, e a guarda do correio, supposto que tarde, empregaram a fora.
O capitalista teve logo ahi um fiador, que o salvou de entrar entre
bayonetas. Luiz da Cunha do corpo da guarda foi  administrao, e d'ahi
ao Limoeiro, d'onde sahiu afianado quarenta e oito horas depois. Tudo
isto foi ridiculo a no poder ser mais! Cada qual explicava o caso com
uma anecdota. A fuga de Assucena era acontecimento que no passra d'uma
roda muito restricta; e, portanto, era livre a inveno aos interpretes
do pugilato.

Passra-se uma noite e um dia de solido para Assucena. Como seriam
entretidas aquellas quarenta e oito horas! Que presentimentos, que
receios, que saudades, que reprehenses da consciencia atormentariam a
pobre menina! Fechada no seu quarto, rejeitra o alimento que a
indifferente criada lhe offerecia. A sua dr tinha frenesis, que a
extenuavam. Todo o seu esforo em resignar-se era baldado, quando a
esperana lhe mentia nos passos que subiam a escada e paravam no
primeiro ou no segundo andar.

Depois de quarenta e oito horas, sem noticia de Luiz, o desespro
fortaleceu-a resolvendo-a a procural-o em casa de seu pae.

 noite, sahiu com a criada, perguntando de rua em rua o caminho do
Campo Grande.  porta de Joo da Cunha estava um criado. Pediu-lhe que
chamasse o senhor Luiz da Cunha; responderam-lhe que no estava l, e
que o mais certo lugar onde o encontraria era no Limoeiro.

--Prso!--exclamou Assucena.

--Sim, minha menina, prso pela vigesima vez por causa das suas
patacoadas. No chore, creaturinha, que o senhor Luiz ha de sahir
brevemente.

--E porque o prenderam?--perguntou a criada.

--Porque deu umas chicotadas no visconde de Bacellar, assim como quem
no quer a cousa.

Assucena sentiu-se arrefecer do glo que comea na alma, e vem em
calefrios  sensibilidade exterior. Encostou-se  criada, pedindo-lhe
que no perguntasse mais nada. Atravessou, sem murmurar um gemido, sem
um queixume, parando exhausta de foras a cada instante, a grande
distancia que a separava da rua do Principe. Entrando no seu quarto,
cahira de face sobre o leito, no para repousar, mas para reprimir os
gritos que podiam ouvir-se no segundo andar.

E ouviram-se.

Era meia noite. A criada adormecra, indifferente aos gemidos da ama,
que lhe no aceitava as imbecs consolaes. Assucena, s e s escuras,
porque a vela se extinguira, abrira a janella do seu quarto; mas a noite
de Janeiro era tenebrosa e frigidissima. A filha da viscondessa de
Bacellar tiritava de frio, de susto, e at de terror de si mesma.
Sentava-se sobre a cama, lanando sobre os hombros o cobertor. Fitava o
ouvido a cada tropel remoto de passos. Desenganada, ajoelhava com as
mos erguidas pedindo a Deus que lhe dsse vida at que a luz do dia lhe
deixasse procurar Luiz. Assucena passava por um d'esses soffrimentos em
que se julga possivel a morte instantanea.

Depois, as trvas da noite romperam-se em relampagos successivos, e o
quarto illuminava-se de clares azulados. A aterrada menina correu a
fechar a janella, quando uma chuva fria lhe aoitou as faces. A dr
immensa s tinha expanso nos gemidos. Lanou-se sobre o leito sem
reflectir que a escutavam, invocando Maria Santissima, pedindo
compaixo a sua me, chamando Luiz com alarido de demente, e soluando
de modo que, a distancia, simulava uma mulher que se contorce entre os
braos que a matam pela asphixia.

No andar de baixo morava uma devota senhora, que accendia duzias de
velas, e rezava duzias d'oraes a Santa Barbara. O quarto d'ella estava
ao p do de seu irmo, o conego Bernab Trigoso, que dormia no quarto,
cujo tecto era o pavimento do de Assucena.

Foi elle o primeiro que ouviu os gemidos, os passos, o abrir e fechar da
janella, o ranger do leito, e ultimamente os gritos.

Chamou sua irm, e disse-lhe que escutasse. D. Perpetua Trigoso applicou
o ouvido, e affirmou que no era illuso do conego os estranhos gritos
da mysteriosa menina que alli morava.

--Vamos ns l, Bernab?--disse ella quando seu irmo lhe pedia o
capote, e a mandava sahir do quarto para elle se vestir.

Subiram ao terceiro andar cada um com sua vela mystica, das que a
senhora D. Perpetua accendra  santa das trovoadas, e bateram  porta.

Assucena, sem pensar nem discernir, como desintorpecida d'um lethargo,
foi apalpando na escuridade, imaginando que era aquelle o bater de Luiz
da Cunha. Abriu com precipitao, e recuou espavorida ao aspecto um
pouco funebre de Perpetua que lanra um chale de cachemira escura sobre
a cabea, franjada na testa por cabellos brancos. A figura magra,
macillenta e cadaverica do velho, no era menos assustadora, vista ao
claro da vela que lhe betava de sombras as rugas profundas do rosto.

--No se assuste, visinha--disse o conego, entrando--ns somos os
moradores do andar de baixo, e, como ouvissemos gemidos c em cima,
viemos em soccorro, se  que podemos servir de algum bem  pessoa que
nos cortou o corao com os seus gemidos.

--Era talvez mdo dos troves...--accrescentou D. Perpetua, dando tambem
um passo para dentro da porta.

--A menina estava s escuras?--tornou o conego.

--Sim, senhor.

--E no tem criada?--disse a irm.

--A criada est a dormir.

--Quer a menina vir comnosco para a nossa casa at ser dia?--disse o
conego.

--Vou... se me concedem esse favor--respondeu sem titubear Assucena.

--Pois ento, menina--atalhou Perpetua--cubra o meu chaile, ou v buscar
o seu, que est muito frio na escada.

--Eu no posso ter mais frio...--disse a filha da viscondessa.

--Nem mais febre--tornou o conego, apalpando-lhe as mos com singular
carinho--Ora venha, venha comnosco. Anda l com ella adiante, Perpetua,
que eu fecho a porta.

Perpetua assentou Assucena no seu esteiro; embrulhou-a em cobertores; e
deu-lhe uma chavena de caf com um golo de genebra, por conselho de seu
irmo. Depois sentou-se a par com ella, que no cessava de tiritar,
Bernab veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao p d'ellas. As
lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas
no conhecia a dr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o
semblante da pobre menina, fez a sua irm um gesto significativo, tomou
com paternal ternura as mos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:

--Minha filha, porque soffre? Abra o seu corao. Se lhe no podrmos
ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua
respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que
tem: falla com um padre, que  seu pae espiritual.




VII.

PERDIDO SEM REDEMPO


Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados  administrao do
bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de
cabea  rasgada cortezia que ella lhe fizera.

A sege de Liberata retrocedra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da
Cunha. Quando os soldados pararam  porta da auctoridade, e Luiz, sem
reparar na sege, desapparecra no interior do pteo, Liberata acenou a
um dos soldados, que se chegou  portinhola. Perguntou por que fra
prso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que
podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno servio do informador, e
pediu-lhe que subisse  sala da administrao, e dissesse ao ouvido do
prso que uma pessoa, que elle encontrra, em uma sege, lhe mandava
offerecer no s dinheiro, mas at a influencia dos seus amigos, se com
isso era possivel a sua immediata soltura.

O soldado no conseguira fallar ao prso; mas soubera de um official de
diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito s podia ser solto com
fiana, e no estava presente ninguem que o afianasse.

Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope,
correu algumas ruas, e parou  porta de um conselheiro, official-maior
d'uma secretaria de estado. S. ex. no recolhra ainda da secretaria. A
protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do Pao, e
fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de
ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao
official-maior o seu _porte-monnaie_. O conselheiro veio rapidamente 
portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e
partiu para a administrao do bairro.

Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fra remettido ao juiz
criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prso acabava de sahir para o
Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afianal-o. O juiz
aceitou respeitosamente a fiana, e prometteu mandal-o soltar o mais
depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porm, o conselheiro, quando uma
carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que
no aceitasse fiana, paliando quanto podsse a soltura
inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaava a existencia do
visconde de Bacellar.

Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi  cadeia,
procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e
contou-lhe rasgadamente os passos que dra. O preso agradeceu-lh'os com
aviltante submisso, no sentindo a vergonha de ser unicamente protegido
por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe,
sorrindo, se melhorra de fortuna, despedindo-a do seu servio. Luiz da
Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que
vivra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova
no ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque no
encontrra rapaz to perfeito, nem to despreoccupado das asneiras
sociaes, como Luiz da Cunha.

Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a
ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella no chegasse,
Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem
viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a
procurasse na rua de S. Bento, n. 46.

Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida
meiguice a mo. Em quanto lhe dava a mo direita, Liberata lanava com a
esquerda no chapo de Luiz o _porte-monnaie_. Sahiu.

Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer
todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitra
o juiz, e, taes elles eram, que s, no dia immediato  tarde, Luiz da
Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos
servios, que ella pagou com um beijo.

Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma
sege, e corre  rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?

No foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu  primeira estao
de seges no Terreiro do Pao. Montou a que lhe pareceu mais bem servida
de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodr. Subiu pela rua do
Alecrim. Tomou caf no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vr a
casa n. 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava
um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae
estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passra peor,
depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batra no visconde de
Bacellar. No apeou para lhe no irritar os padecimentos. Veio para o
theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as
costas, se elle os encarava de frente. Achou-se ssinho no salo, e
ssinho no banco em que se sentra. Depois da meia noite, despediu o
boleeiro defronte do palacio das crtes, e seguiu a rua de S. Bento at
 casa n. 46.

Dos moveis que Luiz da Cunha deixra  sua amante, nem uma cadeira
existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e
mau gosto no invejava o apparato da garrida decorao das salas d'um
brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de
porcellanas, de relogios, de ces e patos de vidro, de conchas
variegadas, de ricas encadernaes em marroquim de livros nunca abertos,
de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.

A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profuso. Um americano,
antecessor do conselheiro, e successor do capito de marinha ingleza,
tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que
despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua
amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul
despoticamente o no mandasse prso a bordo d'uma embarcao que o levou
a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.

O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de
Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus
caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambio.

Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que no
era nada comparando-a  sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como
era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos
limites d'uma fiel amante.

--Achas que estou muito rica?--disse Liberata, puxando-lhe com meiguice
uma orelha.

--As apparencias so d'isso...

--Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?

--Eu bem sabia que te no faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me
separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma poca de demencia,
que me dura ha quatro mezes.

--Que tens tu feito ha quatro mezes?

--Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppr  natureza, fazendo-me
pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz
quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!

--Com que ento _eu e os teus cavallos_! O diacho da mistura no  nada
amavel! Mas conta-me c... disse-me o conselheiro...

--Qual conselheiro?

--O actual... no sabes quem ficou por teu fiador?

--Pois o conselheiro  o teu amante?

--Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do
visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. J
casaste?

--No, nem caso.

--Nem casas? ento, tenho mais uma companheira...

Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a
Assucena, que n'este momento se lhe afigurou de joelhos, pedindo a
Deus a morte. Esta viso desvaneceu-se como o raio instantaneo de sol em
ceo revolto de nuvens escuras.

--Diz-me c, Luizinho--continuou Liberata, lanando-lhe o brao direito
sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello--queres
ser outra vez meu?

-- impossivel.

--Porque? Tens l a tua fidalga das commendadeiras... J me no lembrava...

--No  por isso.

--Pois ento?

--No tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha me
esgotou-se; meu pae est doudo, e no me conhece...

--E  por isso que querias casar com a filha do visconde?

--Adivinhaste; mas o visconde no lhe d nada, e eu nada tenho que lhe
dar como amante, e muito menos como mulher.

--Queres tu uma cousa? No digas a ninguem que s meu amante, e no se
te d que o conselheiro o seja. Queres?

--No; porque terias de me sustentar. A mim o que me convm  sahir j
j de Portugal.

--Porque?

--Quero vr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na
Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.

--s tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que
nada feito, toma o rumo de casa, e a me ha de recebl-a, se a no
quizer vr onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu
mettes-te em casa de teu pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para
a tua Liberata. Em quanto eu tiver um annel, tens tu um casaco, em se
acabando, fizemos trinta annos  justa. Has de crr que sou tua amiga
apesar das tuas ingratides? Deu-me para aqui! Sympathisei comtigo, e se
fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui est. Nada de tristezas. Vamos cear,
que j ouvi a campainha tres vezes. Inda c tenho os criados que me
dste, e no so capazes de dar um pio. Quando souberam que tu c
vinhas hoje, at danaram a gta... Tu ficas sendo de hoje em diante o
dono d'esta casa, e o conselheiro  o nosso mordomo, sim?

Luiz da Cunha enlaou o brao pelo de Liberata, que lhe cingia a
cintura, e entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes
variegados, pequena parte d'uma soberba copa. A ca era servida por um
criado, de gravata e collte branco. Luiz respondeu com um abrao
familiar  cortezia affectuosa do seu antigo escudeiro de quarto.

O _et cetera_  a palavra latina que eu conheo mais util nos usos
sociaes. Com um _et cetera_, ou dous, fica historiada esta noite; mas
ainda um terceiro de certo no diria que Luiz da Cunha no dia seguinte,
quando se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoo,
recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta:


                                                          _Assucena._

_No te verei mais. Os obstaculos ao nosso casamento so invenciveis.
Uma desordem, que tive com teu padrasto, obriga-me a sahir de Portugal.
Escreve a tua me, e diz-lhe onde moras para que ella te procure, e te
receba em sua casa. Se eu um dia tiver colhido algum bom resultado dos
meus projectos, tornarei a Portugal, e sers ento minha esposa, assim
como eu o serei teu, toda a vida, pelo corao. Demoro-me escondido em
Lisboa alguns dias; mas, por evitar mais amarguras, antes quero no
tornar a vr-te. Lembra-te que eu sou muito infeliz para te resignares
na tua infelicidade._

                                                      LUIZ DA CUNHA.


O portador voltou, dizendo que a carta fra recebida por um velho, que
tinha geitos de padre.

--Quem ser este padre?!--dizia Luiz da Cunha a Liberata.




VIII.

PROVIDENCIA OU ACASO?


Assucena contra com pueril ingenuidade a sua vida ao conego Bernab
Trigoso, e a sua irm. No lhe occultou o seu nascimento, nem as menores
circumstancias da sua fuga. Disse quem era o seu amante, e reparou que o
conego, ao ouvir tal nome, exclamra de modo que no queria ser ouvido:

--Santo Deus!

A senhora D. Perpetua, virtuosa sem momos de beata, pedia  sua
predilecta Senhora das Dres que permittisse a reparao da falta de
Assucena. O conego, crente no remedio do ceo, mas intelligente bastante
para se no abandonar inerte s operaes invisiveis da Providencia,
prometteu  sua hospeda empregar todos os meios possiveis para destruir
os obstaculos ao seu casamento.

--Mas--accrescentou elle--eu no creio que o senhor Luiz da Cunha
recompense o amor que a menina lhe tem.

--Porque? Pelo amor de Deus diga-me porque...

--Porque no acho muito proprio de um amante o silencio de quarenta e
oito horas, sem lhe dar por escripto, ao menos, certeza de que vive.

--Se elle est prso!

--Mas os prsos no esto privados de escrever.

--Estar doente...

--Estar... no aventemos explicaes, menina. O tempo nos dir tudo.
Logo que seja dia, eu vou informar-me do que  feito do senhor Luiz
da Cunha. Agora v descanar um bocadinho no quarto de minha irm. So
quatro horas. Tenha esperanas em Deus, que  pae, e em mim que hei de
ser para a menina o que seria para uma filha.

Quando foram horas de se abrirem os tribunaes, Bernab Trigoso colheu
informaes de Luiz da Cunha. Soube que elle na vespera fra solto,
afianado pelo conselheiro Costa e Almeida. Nenhumas outras informaes,
alm das que lhe deu o carcereiro de uma visita,  cada, de certa
senhora ricamente vestida, que viera em sege sua.

Recolhendo a casa, sua irm disse-lhe que Assucena adormecra momentos
antes, e era peccado acordal-a d'aquelle dormir, que parecia sereno como
o de um anjo.

--Creio que a infeliz--disse elle--deve perder a esperana em tal homem.
Eu por mim, julguei-a perdida desde que ouvi pronunciar tal nome.

--Pois quem  elle?

-- um flagello da humanidade...  um homem que tem dado brado com os
seus escandalos. No te recordas das historias que nos contava o padre
Joaquim?

--O capello de Joo da Cunha?

--Que  pae de Luiz da Cunha... Aqui tens o abutre em cujas garras cahiu
a pobre pomba. Desgraada menina!  preciso preparal-a para o desengano...

--Quem sabe o que Deus far?

--Eu no sei o que Deus far; mas sei o que os homens so capazes de
fazer. No abandonemos esta victima do erro. Desculpemol-a, que tem o
seu perdo na innocencia com que nos contou a sua vida. Se esse homem a
procurar, achal-a-ha em nossa casa. Se nunca mais a procurar, a nossa
casa ser o abrigo de Assucena.

A criada da neta do arcediago desceu ao segundo andar, dizendo que um
portador trazia uma carta para a senhora D. Assucena. O conego mandou
descer o portador, perguntou de quem vinha a carta; o criado respondeu
que era do senhor Luiz da Cunha, e no tinha resposta. Redarguiu
Bernab, inquirindo a residencia do senhor Luiz da Cunha: o moo
respondeu que no tinha ordem de a dizer.

As suspeitas do conego fortaleceram-se. Esta carta era uma despedida
na sua opinio. Reflectiu se devia entregar-lh'a, ou ll-a. Perpetua
animou-o a abril-a, visto que a inteno era evitar algum desgosto
mortal  infeliz menina. O conego leu a carta; e ficou satisfeito da sua
temeridade.

--No se lhe mostra esta infame carta--disse elle.

--Era capaz de morrer a desgraadinha!--accrescentou a irm.--Mas que
lhe dirs, se ella te pedir noticias d'esse mau homem?!

--Digo-lhe... eu sei c o que hei de dizer-lhe!... Digo-lhe que se
resigne... e pedirei a Deus que lhe d coragem para o desengano...
Veremos... Talvez a possa salvar, servindo-me das palavras d'elle, que a
matariam, se ella as lsse todas...

Assucena tossira. D. Perpetua foi p ante p escutar. Ouviu-a soluar.
Abriu a porta, e uma fresta da janella. Encontrou-a de joelhos aos ps
do leito. Abraou-se a ella com os olhos humidos das lagrimas, que lhe
arrancra seu irmo com as suas, lendo a carta.

--Sabe-se alguma cousa?--exclamou Assucena.

--Vamos l dentro fallar com meu irmo, minha filha. Elle j veio, e
alguma cousa lhe dir.

--Pois, sim, vamos...--disse, correndo impetuosamente meio vestida.

Entrando na salta em que o conego almoava, D. Perpetua fl-a sentar ao
p da cadeira de seu irmo, em quanto lhe apertava com os ganchos o
cabello em desalinho. Bernab, risonho e com ares de quem vai dar uma
boa nova, deu-lhe a sua chavena de ch, escolheu-lhe a torrada mais
appetitosa, e os biscoutos mais torrados. Assucena queria rejeitar; mas
o conego teimou com brando afago, e conseguiu que ella sorrisse 
pertinacia d'um papagaio que, por fora, queria participar das spas de
seu amo na mesma chicara.

Findo o almoo, o conego, por um gesto, fez sahir sua irm. Assucena no
despregava os olhos dos labios d'elle, e achava insoffrivel a demora das
informaes que lhe promettra.

--Est anciosa pela resposta, minha menina?

--Estou... Fallou-lhe? Viu-o?

--No o vi, nem lhe fallei.

--Meu Deus!... ento?

--Vi uma carta d'elle, escripta a um seu amigo, que me procurou j hoje...

--Para que?

Bernab Trigoso no pensra maduramente nas respostas, e luctava com as
difficuldades do improviso.

--Para que?... No se apresse, minha filha. Quero primeiro convencl-a
de que tem Deus a seu favor. Assucena no  to infeliz como se imaginava.

--Pois diga, senhor, diga tudo o que sabe... Elle vem?

--Ha de vir, mas por em quanto no. Ora diga-me qual queria, vl-o
perseguido por seu padrasto, ou salvo da perseguio longe de si?

--Antes longe de mim; mas eu irei viver com elle no fim do mundo.

--Isso  que  impossivel...

Assucena estava cr da cra. As lagrimas estancaram-se-lhe; e as
palpebras penderam-lhe amortecidas. J no ouvia as palavras do conego,
depois do _impossivel_. Quizera em vo suster a cabea no brao tremulo.
Cada vez mais coada, at os labios se fizeram brancos. Um ai,
desentranhado do corao, foi seguido d'um vgado; o padre recebeu-a nos
braos, e chamou sua irm, para ajudal-o a leval-a  cama.

--Este acontecimento no se evitava--disse o conego.

--Ella sabe tudo?

--O mais necessario. Agora resta imaginar a convalescena que  onde
est o maior perigo. Se eu podsse fallar  me d'esta menina...

--Querias entregar-lh'a?

--No; hoje o meu maior prazer era restituir a felicidade a esta
senhora. Queria salval-a com a presena da me.

--Poder ser peor...

--No . O remedio d'este mal so as torrentes de lagrimas, e essas s
ella as pde verter com fructo no seio de sua me... Perpetua, no te
separes d'ella; falla-lhe em sua me, e dize-lhe que sahi para bem seu.

Bernab Trigoso, quando entrou no pteo do visconde de Bacellar,
perguntaram-lhe se era o padre que vinha confessar a senhora
viscondessa. Respondeu que no era o confessor da senhora viscondessa,
mas era um conego da patriarchal que precisava fallar com s. exc.

Conduziram-no ao quarto d'ella. Rosa Guilhermina estava de cama, com
dous medicos  cabeceira, que retiraram, quando o conego entrou. Um dos
medicos, quando se retirava, abrara o conego, e disse  viscondessa:
Eis-aqui o ultimo homem dos tempos de virtude. Estimo bem vl-o 
cabeceira do seu leito, senhora viscondessa! E ficaram ss.

--No tenho o gosto de conhecl-o...--murmurou ella com a voz enfraquecida.

--No importava conhecer-me antes d'este momento. De certo, eu no
poderia evitar os desgostos por que v. exc. est passando...

--Terminaro brevemente... Estou quasi morta.

--No morrer. Deus no nos d a vida como um instrumento, partido no
primeiro estorvo, que nos embaraa uma suave carreira. Viemos para
trabalhos, senhora viscondessa; e o mais soffredor  o mais benemerito
aos olhos do Altissimo. Venho fallar-lhe de sua filha.

--Sim?... Oh! foi Deus que o mandou!.. Onde est minha filha?

--Na companhia de uma senhora que  minha irm, e na minha companhia,
que sou um padre.

--Pois esse homem...

--Quer-me fallar de Luiz da Cunha?

--Sim...

--Esse homem abandonou-a.

--J!... sem a salvar da deshonra!

--O que ns queremos  salval-a da morte.

-- mais feliz se morrer! Levai-a meu Deus, levai-a para vs!

--Deus no se aconselha, senhora viscondessa. Ella vive, porque Deus o
quer. Confiou-m'a, e eu quero encaminhal-a de modo que Deus a chame,
quando a gloria do ceo lhe seja dada como um premio de virtudes na
terra, amaldioada para os anjos.

--Mas...  impossivel recebl-a em minha casa...

--Eu no quero que a receba em sua casa, minha senhora. Sua filha 
como se fosse minha. Debaixo das minhas telhas mora a honra e a
abundancia. Assucena no precisa seno chorar, para renascer para a
felicidade, que eu prometto dar-lhe. Chorar... chora ella sempre; mas 
preciso que o seu corao se abra s suas lagrimas, para lhe perdoar...

--Eu perdo-lhe...

--Bem... mas o seu perdo ha de ser-lhe dado a ella, abraando-a,
convencendo-a de que  possivel a sua rehabilitao. E, depois, seja um
segredo para todo o mundo a existencia de sua filha em casa do conego
Bernab Trigoso.

--Se eu viver, dar-lhe-hei tudo o que podr para a sua subsistencia.

--No precisa de nada sua filha. Se v. exc. consente que ella seja da
minha familia, deixe-me inteiro o cargo de pae. O seu mais precioso
sustento  o do espirito. Esse  que eu pedirei a Deus que m'o no
escasse, e talvez o consiga.

--Quer que eu procure minha filha?

--Supplico-lh'o.

--Se eu tivesse foras...

--Experimente, senhora viscondessa; parece-me que posso prophetisar-lhe
que ter foras. Trata-se de salvar uma filha. V. exc. sentir-se-ha
melhorar quando se convencer de que o anjo cahido se levanta, com a dr
da sua ignominia adormecida. No lhe falle em Luiz da Cunha, bem nem
mal. Ha de abominal-o, sem que lhe lancemos em rosto a perfidia d'esse
miseravel, que, no fim de tudo, no  menos lastimavel, porque o seu fim
deve ser triste. Deixemos-lhe a elle o cargo de se fazer detestavel. Uma
mulher apaixonada s recebe bem as censuras da sua consciencia. Illuda
sua filha com uma piedosa mentira. Diga-lhe que ninguem falla da sua
desgraa, que as poucas pessoas que a sabem se empenham em desmentil-a,
fazendo crr que Assucena vive na companhia d'uns parentes no Porto. 
preciso mesmo que v. exc. faa acreditar que a enviou para alguma
quinta longe de Lisboa.

Posso dizer que ella est no Minho, onde meu marido comprou uma quinta
em meu nome para eu poder legar a quem quizesse por minha morte, e
talvez eu conseguisse que meu marido me concedesse dar-lh'a j; mas
elle, depois da desordem com Luiz da Cunha, enfureceu-se contra ella,
contra mim, contra todos...

--J lhe disse, minha senhora, que sua filha no precisa de quintas, se
lhe no prohibe ser mais minha filha que sua.

A conversao prolongava-se, quando foi annunciado o confessor da
viscondessa. A enferma, pela subita animao que o conego lhe
emprestra, e pela desordem de ideias que lhe confundiam o exame de uma
confisso geral, mandou dizer ao padre que resolvra adial-a.
Entretanto, Bernab Trigoso retirava-se, porque a viscondessa lhe pedra
que occultasse de seu marido, se elle entrasse no quarto, a causa da sua
vinda quella casa.

As syncopes de Assucena repetiram-se na ausencia do conego. D. Perpetua,
receosa dos resultados, chamra medico para consultal-o se devia chamar
confessor. O medico nem receitou nem votou pela precipitao dos
sacramentos. Colligiu das timidas informaes da virtuosa senhora que a
enfermidade de Assucena era uma forte affeco moral.

O conego, tambem assustado, no abandonava o leito de sua filha
adoptiva. As consequencias eram mais graves do que elle suppozera.
Assucena j no chorava, nem perguntava nada com referencia a Luiz da
Cunha. Tinha os olhos em extasis, e a boca meio-aberta respirava
acceleradamente. Sahiam-lhe do corao gemidos convulsivos, como o arfar
tremido da creana, quando cessa de chorar, mas, ainda animada pelos
beijos da me, parece queixar-se. Estes periodos duravam uma hora. Se
lhe perguntavam o que sentia, respondia com melancolico sorriso: nada.
Se lhe davam consolaes, que no podiam deixar de ser fundadas em
frouxas palavras de esperana, a filha de Augusto Leite acenava com a
cabea, como se dissesse: no me salvam com a piedosa mentira.

Bernab fallava-lhe a linguagem que aconselhava  viscondessa,
dizendo-lhe que muita gente se persuadia que Assucena, por causa do
namoro de Luiz da Cunha, fra tirada das commendadeiras, e conduzida a
uma quinta no Minho por ordem de sua me.

Este balsamo no prestava refrigerio algum  ferida. Bernab Trigoso,
sabendo muito, no sabia tudo do corao. Estes remedios aproveitam
quando a mulher despresada esquece o amante para se lembrar da sua
reputao. Assucena no tinha ainda pensado no que o mundo diria d'ella.
Luiz da Cunha era a sua ideia unica, e a face torpe d'esse homem no se
voltra ainda para que a infeliz lh'a visse pelos olhos da reflexo. O
systema, pois, de Bernab no era vantajoso como elle o suppunha. O
soffrimento silencioso augmentava: o pulso impetuoso recahia n'um
marasmo insensivel, para depois referver em borbotes de sangue. O
medico aconselhava uma qualquer impostura, se no havia consolaes
verdadeiras que a salvassem. Era possivel a morte, dizia elle;--era
possivel uma loucura; era tudo possivel, menos cural-a d'aquella
desesperada situao com remedios da botica. Se  uma paixo por causa
d'algum amor infeliz,--accrescentava o doutor--mintam-lhe de modo que
possamos allivial-a d'esta crise, e reduzil-a a estado menos anormal
para que se colha algum resultado das palavras.

Aproveitou o conselho. O conego fingiu a recepo de uma carta d'um seu
amigo em que se lhe promettia o breve enlace de Luiz da Cunha com
Assucena. A innocencia tem credulidades sem critica nem senso. A pobre
menina, sem discernir quem poderia escrever tal carta a um homem
estranho a Luiz da Cunha, acreditou-a. Deu-se uma notavel alterao nos
symptomas. O medico nunca alcanra um triumpho to barato, nem to
util. Conhecer a alma , em muitos casos pathologicos, a mais prestante
medicina.

No dia immediato, soube o conego que a viscondessa visitava de tarde sua
filha. Preparou-se, felicitando-a por ter merecido a Deus to excellente
me. Dissipou-lhe os receios, a vergonha, e at o medo que se lhe
incutiu, temendo que sua me viesse dissuadil-a do seu casamento.

--Sua me--dizia o conego--naturalmente no lhe falla em Luiz da Cunha.
A menina no deve tambem fallar-lhe n'elle.

--Porque? no ha de elle ser meu marido?

--E que tem isso? O corao de sua me  bondoso; mas no se segue
que a bondade desvanea o melindre natural. Calar tal nome  uma prova
de respeito com que deve retribuir a generosa amizade de sua me. 
provavel que ella pouco lhe diga. A sua primeira expanso ser de
lagrimas. Receba-as que so, talvez, as que salvam a infeliz senhora da
morte.

No se enganra o conego. Rosa Guilhermina fraqueou quando recebia nos
braos Assucena. Desmaiada, podra reputar-se morta, se o corao no
batesse violento no seio da consternada filha.

Bernab, amparando-a tambem, perguntava a Assucena quanto daria por
salvar sua me.

--Dou a minha vida!--exclamou ella.

--E, se sua me lhe pedisse o corao, e no a vida?

--Tudo, tudo, senhor!

--E, se ella lhe pedisse que renunciasse o amor de Luiz da Cunha?

--Para salval-a?

--Sim, para salval-a.

--Morreria, mas renunciava...

--Melhor lhe fra ento morrer!...--disse em voz soturna Bernab,
afastando a viscondessa esvaida dos braos da filha, e fixando n'esta um
olhar de severa reprehenso. A neta do arcediago deixou cahir os braos,
e pregou os olhos no cho. Ora o rubor, ora a pallidez revesavam-lhe no
rosto afflicto. Dr e vergonha, amor e arrependimento, esperana e
desespro, eram por ventura as variadas sensaes que lhe occorreram,
atropellando-se para lhe fazerem mais difficil a consciencia da sua
situao. A infeliz no podia combinar as palavras esperanosas do
conego com o repello e olhar severo que acabava de soffrer.

--Venha comigo, menina...--disse D. Perpetua receiando algum accidente
dos que lhe davam depois do dia anterior.

--Eu no vou sem que minha me me falle.

--Deixe-a tornar a si; depois, ficar ssinha com ella.

Assucena obedeceu. Minutos depois, Bernab sahiu da sala em que ficava a
viscondessa, esperando a filha, deitada n'um canap.

O conego disse quasi ao ouvido de Assucena, que entrava na sala:

--Perante Deus  responsavel pela vida de sua me. Ella no lh'o dir;
mas digo-lh'o eu. No dia em que a menina se julgar feliz, amando um
infame, matou sua me.

Assucena entrou na sala atordoada por estas palavras.

Bernab Trigoso esfregava as mos em ar de jubilo.

--Porque ests assim contente?--perguntou D. Perpetua, alegrando-se
tambem de anticipao.

--Contentissimo! Salvei-as ambas! Aqui a grande difficuldade era salvar
a filha! Bemdito seja Deus, que nunca me abandonou n'estas difficuldades!

--Pois ento? como  que salvaste a menina?

--Puz em luta dous sentimentos fortes. A me que morre por sua filha, e
o amado que despresa a sua amante. Ha de vencer o mais nobre, que  o
primeiro, e tem em seu auxilio um corao ainda puro. Vers, Perpetua; A
viscondessa no lhe falla em Luiz da Cunha. Este silencio s de per si 
uma pungente accusao  filha. A viscondessa d indicios d'uma morte
proxima. Assucena comea desde j a sentir o remorso de a ter matado. A
ancia de salval-a ha de vencer a ancia da saudade. Por fim  a me que
triumpha, e no triumpharia se viesse lanar-lhe em rosto a deshonra. 
Deus que me manda. Creio que salvaria Assucena sem o conselho do medico.
Escusavamos, talvez, uma mentira...

-- verdade, Bernab!--atalhou pungida a senhora D. Perpetua.

--Mas, emfim, Deus sabe as intenes com que a gente mente para tornar
menos hediondo o crime do seu semelhante... No ouves soluar na sala?

--Ouo... so ambas...

--Bem, bem!

--Escuta, Bernab...

--Que ouves?

--Palavras... _perdo_... _no me mates_... _amaldioada_...  a me que
falla...

--Bem, bem!

Pouco depois, abriu-se a porta da sala. Bernab Trigoso, com sua irm,
entraram. Me e filha enxugavam as lagrimas. A viscondessa
abraou-se a D. Perpetua, pedindo-lhe que fosse me de sua filha,
forando-lhe a mo para aceitar uma bolsa. O conego reparava na luta
silenciosa em que sua irm parecia afflicta e envergonhada. Cheio de
affabilidade, tomou da mo de Rosa Guilhermina a bolsa, dizendo:

--Muito obrigado a v. ex.

Depois, no patamar da escada entregou-lhe com dignidade a bolsa,
solemnisando o acto com estas palavras:

--Aceitei o dinheiro na presena de sua filha para que ella se persuada
que  sua me que a sustenta, e no se considere em obrigao a
estranhos.  a quarta vez, senhora viscondessa, que lhe digo que em
minha casa ha abundancia, e independencia, e honra. Espero da sua
bondade que me no forar  repetio, porque me desgosta. Outro
assumpto: que vaticina?

--Penso que minha filha se condoeu de mim, e esquecer o infame... 
preciso no a abandonar... Virei, todas as vezes que podr, observar o
bom resultado das suas diligencias, senhor conego. Se lhe parecer que 
util afastal-a de Lisboa...

--No convm... A cura ha de operar-se aqui, se Deus me conceder vida,
que ser breve, porque a velhice e os padecimentos trazem sempre a gente
em redor da sepultura...




IX.

HERANA DE VIRTUDE E OURO.


No era possivel tirar um sorriso dos labios de Assucena. Muito era j
evitar as occasies das lagrimas, no primeiro mez da sua convalescena.

A recahida era possivel  menor tentao de Luiz da Cunha. E, por isso,
os cuidados do conego eram solicitos em prevenir um bilhete, ou qualquer
meio de que o perverso se servisse, em algum momento de caprichoso
desejo. Bem sabia Bernab Trigoso que Luiz da Cunha existia, quasi
invisivel, em Lisboa. As informaes eram-lhe dadas por um beneficiado
da S, seu discipulo em virtudes e em sciencia, unica pessoa, que
frequentava sua casa. Para corresponder s recommendaes do conego, o
padre Madureira entrara no segredo do viver de Luiz da Cunha. No o vira
nunca no theatro, nem nos cafs, nem no Passeio Publico; mas soubera
casualmente d'um boleeiro que uma sege de praa o ia buscar todas as
noites, depois das onze e meia, a Campolide. O padre Madureira, que, em
pesquizas, teria sido um habil agente do santo-officio, indagou da casa
em Campolide, e pde apenas vr-lhe o porto. Era justamente aquella
onde, vinte e cinco annos antes, tinha sido assassinada Ricarda, e
enterrado seu marido.

O prescrutador alapou-se n'um casebre fronteiro, e viu que, s onze
horas e meia, uma sege parava defronte do porto. O padre estava a p:
era necessario seguil-a, e, para isso, desceu da sua dignidade
sacerdotal s astucias de gaiato, e sentou-se na taboa. O impeto da
corrida no dava tempo  desconfiana do sota. A sege parou na rua do
Collegio. O padre apeou primeiro que Luiz da Cunha, e sumiu-se na
travessa do Pombal. Depois, seguiu-o de longe, e viu-o entrar em uma
casa da rua de S. Bento, reparando na subtileza com que a porta fra
aberta e fechada. O padre no era de meias informaes. Queria, por
fora, distinguir  luz azulada da lua o numero. N'esta difficultosa
empreza, demorra-se, sem attender a um vulto, que desembocara da
travessa de Santa Thereza, e caminhava para elle, deixando, alguns
passos atraz, dous outros vultos parecidos, pelo capote e chapo
derrubado, com os importantes sicarios de qualquer drama em cinco actos.

O primeiro dos tres chegou, hombro com hombro, a par do irreflectido
Madureira.

--Que quer aqui o senhor?

--No queria nada--respondeu, retirando-se o observador.

--No quer nada, e est com os olhos espetados n'aquella janella!
l--disse o encapotado para os da rectaguarda--Conhecem este homem?

Approximaram-se os dous, e responderam negativamente.

--Que est voss aqui fazendo?--tornou carrancudo, com voz de tyranno,
sem descobrir a cara, o interruptor de uma analyse innocente.

--Responda!--recalcitrou um dos dous--quando no metto-lhe quatro
pollegadas de ferro na barriga.

O padre no era connivente na proposta, e evitou o melhor que pde
aceital-a, explicando d'este modo a sua paragem n'aquelle sitio:

--Eu vi aqui entrar um sujeito, e desejava muito saber que casa  esta.

--E conhece o sujeito?--perguntou o que tinha certa authoridade, e certa
polidez no metal de voz.

--Conheo, sim, senhor, mas s de vista.

--E com que fim quer saber a quem pertence esta casa?

--Para satisfazer a minha curiosidade.

--Pois, se est satisfeita, retire-se.

Madureira estava satisfeitissimo at com o inesperado desenlace.

Ainda assim, mudou de proposito, quando ouviu tres pancadas na mesma
porta onde entrra Luiz da Cunha. Cobriu-se com a esquina da travessa
Nova, e esperou. Ao segundo toque, foi aberta a porta. Um vulto entrra:
dous foram postar-se na travessa de Santa Thereza. Vinte minutos depois,
vira sahir um vulto, menos volumoso do que entrara. Viu correrem sobre
elle os outros dous, ouviu gritos de soccorro, e divisou um corpo
cambaleando at cahir. Duas patrulhas correram ao local do grito.
Madureira confiou nas garantias da guarda civica, e aventurou-se a tirar
a ultima concluso dos seus principios. Foi, e viu, nos braos dos
soldados, Luiz da Cunha com as mos tintas de sangue, que lhe
transsudava do collte branco, e da gravata. Eram duas punhaladas, pelo
menos: uma no peito, e outra no pescoo.

--O senhor viu como isto foi?--perguntou um soldado ao padre.

--No senhor, eu vinha na travessa Nova, quando ouvi gritar.

--Conhece este homem?

--Nada, no conheo.

--Quem  o senhor?--perguntaram a Luiz da Cunha, que sahira do torpor em
que o deixra o abalo.

--Moro no Campo Grande, no palacete de Joo da Cunha.

--Olha que firma!--murmurou um soldado para o seu companheiro de
patrulha--Bem me parecia a mim que o conhecia... Este foi o que jogou o
murro com o visconde de Bacellar, nos Paulistas! D'esta vez parece que
topou com a frma do seu p...

Luiz da Cunha foi conduzido por dous gallegos do chafariz, apenados por
cabos de policia, em uma cadeira, sobre duas trancas de carreto, a casa
de seu pae.

Madureira, apenas luziu a fresta do seu quarto, na rua das Gavias,
correu  rua do Principe, onde expz na melhor ordem as aventuras da
noite; s no soube dizer que o vulto, que o accommettra, e desempalra
o furo da casa de Liberata, fra o conselheiro Costa e Almeida, que
no era to _excellente creatura_ como a sua amante o imaginava.

Deixemos o padre Madureira com Bernab Trigoso, e vamos espreitar mais
dentro o que elle no viu, nem saber contar ao espantado conego, e 
espavorida Perpetua.

O conselheiro fra avisado por cartas da infidelidade de Liberata. 
primeira no deu credito.  segunda deu algum, porque lhe marcava a hora
da entrada. Viu com os seus proprios olhos, porque a sua duvida era tal,
e tamanha como o pleonasmo da phrase. Depois que o viu entrar, quiz
bater  porta; mas faltou-lhe o animo na conjectura de ter de
encontrar-se com o rival. Na segunda noite, sem inspirar desconfianas a
Liberata, entrou armado, fortalecido pelo ciume. Procurou-o em todos os
cantos, com finura e resoluo, e no o viu. No dia seguinte, recebe a
terceira anonyma: dizem-lhe que o concorrente sahia quando elle entrava.
Preparou-se. Chamou dous criados, e deu-lhe instruces, que elles
desempenharam d'um modo que no deixou nada a desejar, porque o julgaram
morto, e as instruces eram assim pontualmente executadas.

Liberata ouvira os gritos de soccorro, quando o conselheiro parecia
querer distrahil-a vibrando o teclado do piano. O criado, por um aceno,
significou-lhe a catastrophe. A enfurecida amante de Luiz veio 
janella, e perguntou a um grupo de soldados e cabos de policia o que
acontecra. Responderam-lhe que fra alli apunhalado um rapaz de boa
familia do Campo Grande. Liberata voltou para dentro, entrou no seu
quarto, correu desfigurada com um punhal  sala, onde passeava o
conselheiro, e desceu-lhe sobre o peito uma punhalada, que elle amparou
no brao.

--J fra de minha casa--bradou ella--quando no grito aqui-d'el-rei
contra um ladro, contra um assassino!

--Cale-se, que eu retiro-me.

--J s assassino! manh hei de publicar o seu nome nos jornaes, como
matador de Luiz da Cunha, se elle morrer. Fra de minha casa, patife!

O official maior cozeu-se com o corrimo, mais receoso da lingua que do
punhal.

Liberata mandou montar a sege. Era um galopar vertiginoso para o
Campo Grande! Encontrou defronte do palacio do conde das Galveas a
cadeira, que conduzia Luiz. Apeou. Chamou-o, beijou-o com frenesi; fl-o
entrar na sua sege; mandou adiante o criado de taboa chamar um medico;
deu ordem para que a sege volvesse vagarosamente, e entrou em sua casa
com o filho de Ricarda desfallecido nos braos, pela perda de sangue,
que ella em vo quizera estancar com os lenos, e at com as meias de
sda branca, servindo-se das ligas, e fitas dos sapatos como compressas.

O medico declarou que as feridas no eram irremediavelmente mortaes.
Luiz da Cunha foi curado com extremo desvelo. Um mez depois dava um
passeio de sege, ao escurecer, a par da sua estremecida amiga.

As indagaes da policia aclararam todo este mysterio. O conselheiro no
foi poupado  irriso publica, e a dedicao de Liberata era celebrada
como um heroismo incompativel com tal mulher. Alguns litteratos
promettiam um drama em tres actos sobre bases to dramaticas. Outros
escreviam poesias em versos grandes intercalados de pequeno, sem que se
promettia a rehabilitao de todas as Liberatas. E com isto, os pobres
rapazes, se fizeram algum mal, foi a elles, porque, desde esse dia, at
no Bairro Alto procuraram victimas a salvar do abysmo, e sahiram de l
espancados por algum marujo, que entendia melhor de fado e vinho, que de
regenerao e amor, e ellas tambem, pelos modos.

..........................................................................

Bernab Trigoso reduzira Assucena a um entorpecimento moral, semelhante
 indifferena. Eram passados quatro mezes, depois da sua quda. A
infeliz erguia-se sem sensibilidade: parece que perdra, com a
esperana, a memoria do passado. Ainda assim, Bernab no se atinha s
apparencias. Era necessario sondal-a.

Fallou-lhe em Luiz da Cunha como incidente n'uma conversao sobre o seu
passado no collegio. Assucena pedira-lhe que no fallasse em tal homem.
Replicra o conego, perguntando-lhe se lhe seria ento indifferente a
vida ou a morte de Luiz.

--Antes quero que viva.

--Porque o ama ainda?

--Porque me queria vingar...

--Vingar-se!...

--Sim... vingar-me pelo remorso...  impossivel que elle no venha a
sentil-o...

--Isso  do corao?

--Do corao, sim, meu querido amigo. Eu tenho hoje odio a esse homem,
porque me vejo amada de todas as pessoas, e aborrecida por elle, depois
de me perder... Minha me que devera despresar-me, ama-me... V. s., e
sua irm adoram-me como se eu fosse d'esta casa... S elle!...  elle o
que me esquece... o que me deixou, desamparada!...

--Desamparada?... E Deos no a acolheu?

--E sabe elle se eu a estas horas peo uma esmola!

--No... nem lhe importa saber... Quer que eu lhe diga a ultima aventura
d'esse homem?

--No... no me importa... Onde est elle?

--Em Lisboa.

--Em Lisboa?! No me disseram que fra para o Brazil?!

--Quando foi conveniente dizer-lh'o. Hoje pde saber que Luiz da Cunha
vive em Lisboa, debaixo das mesmas telhas com a unica mulher digna
d'elle...

--Cale-se, por piedade, meu amigo...--interrompeu ella.

--Pois que? No me disse que lhe era indifferente...

--Basta-me o odio que tenho no corao... No posso com mais...

--Odio  muitas vezes demasiada importancia ao que  smente
despresivel. Eu quero que Assucena se lembre de Luiz da Cunha para
perdoar-lhe no seu corao, conversando com Deos, se os infortunios
d'esse homem forem taes, que possam attribuir-se a expiao do crime em
que Assucena foi a primeira victima.

--Perdoar-lhe... eu!

--No gosto d'essa exaltao de clera, filha. Em quanto ella existir,
no est cauterisada a ferida. Eu vou experimental-a.

Bernab Trigoso contou as scenas observadas por Madureira, e as outras
colhidas de informaes que eram j do dominio publico. Assucena
escutou-as com atteno. A arte valeu-lhe muito. Manteve silenciosa
impassibilidade, quando o conego esperava alguma commoo. Mas, apenas
livre das vigilancias de Perpetua, fechou-se no seu quarto, e chorou. O
seu soffrimento devia ser um tumultuoso acervo de muitas dres: odio,
amor, ciume, saudade, desesperao, consciencia da sua quda nos braos
de tal homem, a preferencia em que era sacrificada a uma mulher perdida!

O incidente passou com alguns dias de profundo abatimento. As visitas de
Rosa Guilhermina, as diverses domesticas, que o conego lhe dava
despertando-lhe o gosto pela musica, pela pintura, prendas em que se
distinguira no collegio; e, de mais, a enraisada affeio com que pagava
pequena parte da amizade que lhe dava esta familia, considerada a sua,
pareciam tornal-a indifferente s reminiscencias, se ellas existiam, das
suas passadas desventuras.

Assim correram dez mezes, que eu deixo passar sem analyse, porque em
poucas linhas se diz que a viscondessa de Bacellar recuperra, se no um
resto de contentamento, que perdera com a desgraa da filha, ao menos um
ar de saude, que os medicos lhe no promettiam. O visconde, preoccupado
com a alta e baixa de fundos, esqueceu a affronta recebida nos
Paulistas, e nunca perguntou o destino de Assucena. Luiz da Cunha de
quem no proximo capitulo fallarei mais de vagar, vivia com Liberata.
Joo da Cunha estava, se no rematadamente doudo, ao menos tres partes
do dia, fechado no seu quarto, dizia em voz cavernosa cousas
inintelligiveis.

Ao cabo de dez mezes Bernab Trigoso adoeceu, e prophetisou a sua morte,
antes que os medicos lh'a mostrassem n'uma das pontas do fatal dilemma.

O seu primeiro acto foi um testamento verbal, dito a sua irm,
fechando-se com ella em longa prtica. Os fins da sua vida foram suaves,
tranquillos, e auxiliados de todos os soccorros espirituaes. A
viscondessa de Bacellar ajoelhou muitas vezes aos ps do seu leito.
Assucena, sempre ao lado do enfermo, no podia chorar na presena
d'elle, porque o venerando velho dava visiveis signaes de que lhe era
custosa a morte, se via lagrimas inuteis nas faces da que elle chamava a
sua cora de triumpho sobre os vicios da terra. A filha de Rosa
Guilhermina s acreditou na perda do seu bemfeitor, quando o moribundo
apertou entre as suas, quasi frias, as mos de Perpetua e as d'ella,
dizendo-lhes:  agora!... cerrando os olhos sobre tudo que lhe era
caro, fechando os labios com a palavra Deos e aceitando, j no limiar
da eternidade, convertidas em flres, as lagrimas, que enxugra aos seus
irmos de exilio.

..........................................................................

O conego Bernab Trigoso passava por pobre, attendendo  sua velha
chimarra, s suas sempre velhas botas de cano alto, e ao seu arruado
tricorne. O seu espolio, s conhecido de sua irm, era dinheiro, herana
de seu pae, de seus avs, thesouro at preciosissimo para a numismatica,
pela variedade de moedas de prata e ouro desde D. Affonso III.

D. Perpetua no tocou n'essa caixa quadrada, com dimenses bastantes
para conter uma riqueza que lhe no servia de nada a ella. Mostrou-a,
sem abril-a, dias depois da morte de seu irmo, a Assucena. O seu
patrimonio est aqui, minha filha. Eu fui a depositaria, mas a menina 
a dona. Meu bom irmo no teve animo para lhe dar os seus ultimos
conselhos. J morreu, j l est na presena de Deus; mas elle v e ouve
o que fazemos e dizemos. Parece-me que bem cedo vou ter com elle. Tenho
sonhado todas as noites, que meu irmo me chama para si...  tempo de
cumprir as ordens do nosso amigo. Depois da minha morte, Assucena ser
tambem minha herdeira. Eu tenho uma quinta no Lumiar, onde fui nascida e
creada, e onde desejo morrer. Partirei para l o mais cedo que possa
ser, Assucena vai comigo, porque sua me me deu consentimento. Se Deus
chamar a contas a minha alma, digo-lhe, em nome de meu irmo, que viva
n'essa quinta, que fuja d'esta terra d'onde vai fugindo a religio e o
temor dos juizos divinos. Tome como director da sua vida o padre
Madureira, que aprendeu a ser virtuoso com meu irmo. Com o tempo, a
menina ha de entrar na casa de sua me, e ento estar livre de todas as
perfidias do mundo; mas, em quanto o no fizer, viva recolhida com a sua
boa alma no seio do Senhor; esquea-se dos seus desgostos, dando-se ao
prazer de dar esmolas sem ostentao, que foi sempre a constante
virtude do santo, que Deus nos levou para a crte celestial. Ha quasi um
anno que vive n'esta casa: j agora ha de fechar os olhos s duas
pessoas, que mais lhe quizeram, e que a deixam no mundo a pedir ao
Senhor pelas suas almas. Nunca se ha de esquecer dos seus amigos, porque
meu irmo est no ceo pedindo por ns, e brevemente pediremos ambos pelo
nosso anjo.

A singela prtica acabou por lagrimas, que a interromperam.

Os sonhos de D. Perpetua so o inexplicavel effeito de uma causa
superior ao entendimento.

Como o seu desejo era morrer onde nascra, a irm do conego mudou para o
Lumiar, com Assucena, e o padre Madureira, constante companhia das duas
senhoras, depois da morte do seu mestre e amigo.

D. Perpetua Trigoso, durante dous mezes, foi exemplar em obras de
caridade, como se devesse ser essa a ultima lio de Assucena.

Setenta e tantos annos, com todos os achaques de velhice, explicam a
rapida consumpo que, n'esses dous mezes, convenceu Perpetua de que em
verdade seu irmo a chamava. Sacramentou-se uma tarde, com symptomas
ainda de vitalidade para alguns dias. Entregou-se o seu testamento ao
padre Madureira. E fechou o cyclo das suas virtudes, convidando a sua
attribulada amiga a presenciar a morte d'uma mulher sem a consciencia
d'uma injustia. S ella conheceu o seu fim, como se o anjo da
bemaventurana lh'o segredasse. Morreu, abenoando Assucena, e
passando-lhe s mos a cruz que no podia j suster no brao hirto pela
aridez cadaverica.

..........................................................................

Assucena era herdeira de quarenta mil cruzados. Nunca se julgou to
desvalida. No sabia a significao encyclopedica da palavra dinheiro.




X.

COMO OS ANJOS SE VINGAM.


Um anno corrra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias,
comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando
para Deus um vo; a outra afundando precipitadamente na regio das
trevas, na infinita desesperao.

O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em
casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratra na
convalescena dos ferimentos, obrigra-o a sentimentos de gratido, e a
taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preo, que
Liberata, to incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com
cynica desenvoltura da sua rehabilitao, projectada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias,
entrra na regio philosophica dos deveres sociaes, e confeccionra
certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, no tem direitos ao nosso respeito.
Primeira maxima.

O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato quelle que o d, porque
assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio
douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinio publica, quando 
feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira.

A felicidade est em ns, no se reflecte dos juizos estranhos. Quarta,
muito parecida com outra da s philosophia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de ns  aquella que melhor serve as nossas
propenses, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente
de seios ns no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede  opinio publica consentimento para amar uma, ou a
outra,  um tolo. Sexta.

_Et cetra._

E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era
esta a mulher, que mais servia as suas propenses, e mais credito
adquirira sobre o seu reconhecimento.

Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixo se allia
ao nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vl-a saltar-lhe
ao pescoo, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta
a gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata
tambem tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas
entre as do seu amante no se encontravam algumas, que eram a base
fundamental de todas as outras no catecismo d'ella. Eram estas:

Toda a philosophia sem dinheiro  uma tolice.

No ha nada que se parea tanto com o mendigo como o philosopho pobre.

Bolsa vasia, intelligencia manca.

Sem dinheiro no se affrontam os desprsos da sociedade.

Se no s rico, no sejas corrupto, porque o teu sapateiro no s te
despresa, mas d-te com o tira-p.

Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.

A deshonra, que se estorce n'uma esteira,  que nunca se rehabilita.

Rehabilitar-se  ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.

Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata  muito sria
proposta de Luiz da Cunha.

--Ests doudo!--accrescentou ella, batendo as palmas--Tragam-me uma
camiza de fora para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar
comigo!... Tu fallas srio?!

--Fallo srio... fallo-te com o corao.

--Pobre corao! Pois ainda tens d'isso? No nos fica bem fazermos de
creanas... Eu no sou Assucena, meu trampolineiro...--dizia ella,
anediando-lhe as guias do bigode--Que ser feito d'essa illustre menina?

--No sei... dizem que est no Minho em uma quinta do padrasto... Mas
diz-me c, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

-- uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda
asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria,
pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico
para sustentar o meu marido pobre.

--Mas hoje no acontece assim.

--Se no acontece hoje, acontecer manh. Desde que o conselheiro foi
despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vo gualdidas. A
sege e os cavallos esto  espera de comprador; os brilhantes iro
depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz,  necessario
adquirir outros. Ora agora, imagina tu que s meu marido, e v l se te
convm ficar atraz da porta, muito caladinho, para no assustar o amante.

--Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te
sacrificarias ao amor e  posse d'um s homem.

--Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os
credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este
vestido de sda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita
de uma costureira?! Parece que no tens gastado cincoenta mil cruzados a
teu pae! No te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo
extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas
que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas
resolvido a pr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balco!

-- porque te amo, Liberata, e no sei como hei de indemnisar-te.

--No me deves nada: ests recebendo o juro d'uma divida. Sem ti,
meu Luiz, no era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em
espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz
perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O
capito de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O
americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje s tu um irritante de
muitos; mas, em quanto podr sustentar fidelidade, sou tua captiva.
Quando no podr, digo-te adeus por algum tempo.

--E despedes-me?

--Que remedio! mas por ora no. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se
no offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separao por
algumas horas... Deixar-te eu, isso  que nunca.  c um capricho de
mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres
aproveitadas...

Eis-aqui a posio social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fra
ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma
permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava ssinho um
curto passeio.

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural,
fatigou-o. Liberata conheceu o cansao do amante, e no se affligiu,
porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetio das
mesmas sensaes, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habitura-se a julgar commum de dous os
cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que no trazia de
fra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levra, no
lhe dava canceira a restituio dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se
congregavam em fraternal espoliao alguns negociantes, alguns bachareis
vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre
infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda,
e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasies, que foram muitas, sentia assaltos da
consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se
infame. As maximas, que forjra na cama, durante o periodo da cura,
no lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A
devassa philosophia no lhe desvira, com lubricos esgares, os olhos
despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, l em
baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com
Liberata esta importante prtica:

--Meu caro Luiz, chegou a occasio de darmos um saudoso abrao por algum
tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a
pedra philosophal. Feitos os meus calculos, no podemos assim viver mais
quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege j l vo; as
minhas pulseiras, e o meu collar esto empenhados. Tu tens jogado mais
d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai
ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. J te disse
que no sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos
vamos reduzindo  d'aquellas que tem o inferno da desesperao, embora
digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo
trabalho honesto,  a suprema ventura. Ser; mas eu deixo essa ventura 
mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

--Isso quer dizer que...

--Adivinhaste, Luizinho. No precisas acabar a phrase: tens uma
penetrante intelligencia. No achas que tenho razo?

--Tens...

--Agora o que deves fazer  as pazes com teu pae, e v se elle te faz
seu herdeiro, ou se o visconde d  enteada um bom dote. Logo que eu
tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto
 que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

--Vejo que s sempre a mesma mulher!

--No te comprehendo bem.

--s a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

--Justamente a mesma.

--Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na
mesma noite do dia em que a deixei.

--Tal e qual.

--A mesma dissoluta.

--Essa censura  mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma
garantia para a tua subsistencia?

--No quero nada.

--Pois ento, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me
compraste. As nossas contas esto saldadas.

--Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputao.

--Fra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu no me sacrificaste nada;
quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me
queria indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu
no fosse dissoluta, o que seria de ti?

--s muito infame lanando-me em rosto taes favores...

--Tu no cras, meu bom amiguinho. A differena entre ns  toda a meu
favor, e, se no ha outra, a unica, que conheo, est entre o vestido e
as calas. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma
occasio de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em
quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada:
obrigado, rapariga!

--Hei de embolsar-te das tuas despezas...

--Como quizeres.

--Hei de atirar-te  cara com essas migalhas.

--De certo m'a quebravas, porque o volume no ser pequeno. Ainda assim,
v se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que
feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica,
e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho no pde, sem
deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da
Cunha sahiu impellido por um forte empurro, e levou com a porta na
cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o
mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde no entrra durante
oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de
vigia. Estava completamente doudo: no conheceu o filho, supposto se
deixasse beijar na mo, com um sorriso de amargo desprso.

Os herdeiros presumptivos de Joo da Cunha, inimigos figadaes do filho
bastardo, tinham judicialmente assumido a administrao do vinculo. Os
bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo
estava sujeito  restricta deliberao d'uma tutela, que lhe concedra
apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.

Luiz no podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a no querer
limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria
expulso, logo que o doudo morresse.

O annel de ferro, que o apertava, no tinha um lo mal soldado por onde
elle se evadisse  desgraa. No tinha um amigo a quem pedisse um
conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os
credores unicamente; e d'esses, alguns eram to insoffridos, que se
retiravam appellidando-o ladro, ou fugindo  bca de um bacamarte com
que o devedor insoluvel os ameaava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de no ter umas
botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso,
que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentrao. N'essas, a imagem de
Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz no podia
comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a no era compadecer-se.
Era imputar-lhe a causa das desgraas, que o assoberbavam: cerrao
absoluta de todas as suas esperanas.

Viveu assim dous mezes.

Joo da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congesto
cerebral. Dizem que fra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O
enigma dos dous cadaveres no lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda
todos suspeitavam que fosse a me de Luiz; mas esse outro cadaver, que
lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podsse ser.

Seu sobrinho, filho de uma sua irm, successor no vinculo, mandou
immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de
homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que
foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida
para todas as impresses. A consciencia da desgraa vestira-lhe a
sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli no entrava nada
n'aquelle corao ossificado. Se alguma emoo estava reservada para
animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os
meios infames, com tanto que podsse tornar ao mundo e convertl-o em
fel, em escarneo, em vingana.

Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma
esperana absurda o lisongeava!

Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria
assentar praa. O commandante conhecia-o, e condora-se da miseria com
que se lhe apresentava um moo, que elle vira disputar em luxo e
devassido com os mais distinctos da sua fileira.

Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de
furriel, na primeira promoo.

Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou
incivil, respondia com insultos  menor correco do preceptor. Um dia
travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O
mestre de esgrima foi ferido sriamente por traioeira cutilada, e Luiz
da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguio do momento.

Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa.
Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela tera parte do valor.
Seguiu, Tejo acima, at Santarem. Refez-se de alimento para seguir
jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de
prso,  qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas
cronhadas d'arma.

No dia seguinte  tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em
conselho de guerra. D'esta vez no o soccorreram as solicitudes de
Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o
momento posterior  deliberao do conselho de guerra. Dizia-se que o
mais encarniado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar,
que promettra uma commenda da Conceio ao auditor, se conseguisse
que o conselho militar condemnasse o ro a degredo perpetuo.

O padre Madureira, com o seu sestro observador, no podia ignorar o
essencial d'este successo. Condodo dos revezes d'aquelle infeliz,
contou a Assucena, com sua permisso, os doze mezes da vida de Luiz da
Cunha, desde as punhaladas at  entrada na cada. Cedendo  sua boa
alma, deixava transpirar a compaixo das palavras, e attribuia a
expiao  serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais
tarde o levariam  forca.

A compadecida censura do padre tinha um ecco no corao de Assucena. Os
infortunios de Luiz da Cunha no podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um
momento de dolorosa exaltao, ella dissera que queria vingar-se, dez
mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns
mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que to cruel
lhe fra. A religio, sucessora de todas as affeies de Assucena,
operra em sua alma a maravilha do perdo para todas as injurias, d'onde
quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e no podendo
explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o
livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas
suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infraces da
lei divina. Esta anomalia intellectual  a enfermidade de muitas pessoas
dedicadas, sem critica, s cousas da f, e descahidas, quando mais
intentam levantar-se, nas grosseiras crenas do fatalismo, do destino,
do estava escripto de Mafoma, e do _qu Deus impulerit_ de Cesar.

Assucena viera a convencer-se do _que tem de ser_ a respeito de Luiz da
Cunha. Entendeu que uma vontade, superior  d'elle, o obrigava a ser mau
para os outros, que serviam de instrumento providencial  sua desgraa.
A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e no admira
que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fros de san
doutrina.

D'esta conjectura ao perdo era logica a passagem.--Perdoar-lhe para
amal-o--dizia ella na sua consciencia--isso nunca, em quanto a mo de
Deus me no desamparar, mas perdoar-lhe para que a justia divina
se aplaque; oxal que a sua felicidade dependesse do meu perdo,
que to recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...

Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego,
e de sua irm. Est n'essa crena a explicao da fervente supplica que
ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrra
compungido as desventuras de Luiz. No sei se as almas lhe responderam;
mas, de todo o meu corao, creio que sim. No se explicam certos actos
que divinisam a creatura, se a no considerarmos tocada d'um magnetismo
que mana de fonte sobrenatural. No posso conceber o heroismo do perdo
de Assucena, sem concebl-a sujeita  vontade d'um impulso divino, d'um
condo de predestinada, d'uma qualquer fora, que no seja esta, que
imprime o movimento nas aces triviaes de cada homem, incapaz de
produzir o que outro homem no produz.

Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia;
mas a coragem  o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha,
visto que no tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prso seja
solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz no saiba nem por
sombras que  ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e
padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, no tem uma s
palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os
recursos, supposto se tema de no vencer os inimigos poderosos de Luiz.




XI.

SO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM S O CHRISTO.


O visconde de Bacellar, com quanto no fosse parte contra Luiz da Cunha,
seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico.
Difficultava-se, portanto, a soltura por fiana, que a lei no concedia
na reincidencia do delicto, aggravado agora, por desero e roubo, e
entregue por isso  summaria jurisprudencia militar.

Padre Madureira, aconselhado, descorooou diante dos obstaculos; mas
Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do
dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.

O mestre de recruta, seguro de que no morria da cutilada, transigiu por
dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusao. O conselho
militar, movido  piedade por no sei que figuras rhetoricas do agente
de Assucena, despresou a virulenta accusao do auditor, acalorado por
suggestes do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro
de Buridan, entre o codigo e a peita no mesquinha, negociada pelo
escrivo do processo, absolveu o ro, dando assim um testemunho da sua
moralissima independencia de viscondes.

O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de priso,
e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio no vingou, 
vista da limitada pena. Soubera que um brao poderoso o protegia,
aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal
proteco poderia vir, e julgou-se ainda debaixo da tutelar
influencia de Liberata, que no podia deixar de ser o seu anjo valedor,
em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou  sua
sala, deixando-o s com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato
de fivela.

--O senhor Luiz da Cunha--disse Madureira--deve ter conhecido que alguem
o protege. Ignora quem , e eu, supposto que tenha sido o solicitador da
sua soltura, no venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

--Pois eu no hei de saber a quem devo tantos favores?!

--A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratido, e deseja no ser
conhecida. Receba os beneficios, e no queira vr a mo invisivel que o
protege, porque a no pde vr. Quem quer que , no limitou ainda a sua
caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenes de lhe dar os meios para
que o senhor deixe Portugal, e v no Brazil, ou na Africa, tirar algum
interesse do capital que se lhe dr aqui. Faz-lhe conta aceitar este
beneficio?

--Aceito, cheio de reconhecimento.  o maior favor que me pde fazer
esse Deus, que me ampara, seja quem fr. Mas sou soldado, e preciso que
me dem baixa.

--Ha de tl-a. O senhor tem dividas?

--Tenho dividas; mas essas no me inquietam, porque os meus credores so
ladres civilizados.  dinheiro de jogo, que eu no pagaria ainda que
podsse.

--Mas alguem quer que o filho do fallecido Joo da Cunha se retire
honrado de Portugal, apparentemente ao menos.

--Isso meu caro senhor,  obra difficultosa. Eu no sei bem o que devo;
mas, por um calculo approximado, no pago essas ladroeiras que me
fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me dsse
quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.

-- admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se
arruinasse at ao extremo de ser soldado para no morrer de fome...

--Meu amigo, na adversidade  que se fazem os grandes calculos, e que se
traam os grandes planos.

--Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos
produzam cem em cinco ou seis annos, s se meditam quando o corao
est de todo em putrefaco, e as algibeiras vazias...

--Parece-me que tem razo, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

--No me convm que o senhor me conhea, nem o meu nome lhe  uma cousa
de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razo...

--Sim, tem razo; mas no me lembra a que respeito eu disse que o senhor
tinha razo...

--Tambem no importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha?  a sua
presena d'espirito!

--Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peo-lhe acredite que
nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de
me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo
dia e a certa hora...

--Que foi o que o conteve?

--Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnao, que me
promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de
meu pae, e  hoje do supremo conselho militar... Isto no vem nada ao
caso... O facto  que me no suicidei, como o senhor v, e desde ento
entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria
fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra
fabulosa.

--Est, portanto, resolvido a sahir?

--Se fosse j, era uma fortuna.

--Ha de primeiro cumprir a sua sentena; ha de aqui receber os recibos
dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles so.

--No me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...

--Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos,
ser sufficiente...

--Mas no lhe disse eu j que devo mais de oito contos, que so vinte
mil e tantos cruzados?!

--Sero pagos.

--Mas quem  que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a
bondade de me dizer a quem devo beijar as mos. Isto parece-me um lance
de novella! J me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!

--Do seu nascimento?! pois o seu nascimento  um segredo para alguem?

-- metade d'um segredo, pelo menos para mim. No sei quem foi minha
me, porque meu pae, que tinha razes para saber melhor que ninguem quem
ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e
teria mais dinheiro que eu... No posso atinar com outra pessoa... No
tenho amigos, no sei d'onde me possa vir esta restituio, no me
consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim,
aqui anda mysterio que o senhor padre pde pr-me em linguagem
portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fr necessario
esconder a beneficencia como se esconde um crime.

--J lhe disse que no denunciava o seu bemfeitor.

--_Seu_, ou _sua_?

--No tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um
cavalheiro no me interrogando mais sobre tal assumpto.

--Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.

--Ora, diga-me, senhor, no tem pena de si? A sua quda no lhe tem
custado horas d'uma tormentosa reflexo?

--Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no
sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que no
sou insensivel  sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me
espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a
minha ultima desgraa com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer;
mas, ao cabo de tudo, reconheo que as minhas desventuras so fataes,
no as posso encadear, no sei prevenil-as, sou victima da minha
organisao, obedeo ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no
mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro
representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e
abrir a golpes o segredo do meu corao. No consigo nada com isto, e
evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de
que se no se com o corao purificado? Antes de assentar praa, tive
muitos d'esses exames de consciencia, e fugia d'elles, e de mim,
aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraa; mas
o que se no reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a
esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, no ha reforma possivel
n'um philosopho descalo. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que
os bons instinctos renascem no corao do perverso, quando o terrivel
assedio das desventuras levantam o crco. Um rapaz, affeito ao luxo das
commodidades, e pervertido n'ellas, no se divorcia voluntariamente do
vicio, na indigencia. Se meu pae no est doudo n'essa occasio, e me
recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me no
nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava
por uma subita transfigurao. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado;
entendi que no havia Providencia para mim, e desobriguei-me de
respeital-a.

--E lucrou, desobrigando-se?

--No: bem v que sou desgraado, e talvez nunca recue n'este caminho em
que vou.

--Mas deve recuar...

--Cr que  possivel? Diga l como se  honrado.

--Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para ns.

--Os outros tem sido para mim algozes.

--Todos?

--Todos, sim.

--Ento o senhor no tem feito victimas?

--D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os _honrados_ pelo
suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso
que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraado sou eu.

--E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar
ser feliz?

--No sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame
padrasto, e naturalmente achar, como todas as outras, um marido, que
no lhe encontre desfalque nenhum no corao. Essa mulher  um exemplo,
que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se
ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria,
fazendo a completa ventura do marido. Como fugiu comigo, o padrasto
insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a
cabea...

--E a abandonar a pobre menina, que no era responsavel pelas
antipathias do padrasto...

--So cousas ligadas... o abandono explica-se por no poder
explicar-se... Digo-lhe sinceramente que no sei o que havia de fazer a
essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a  me; e
conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da
miseria, fazendo-a testemunha dos esforos criminosos que eu faria para
no cahir... No me enganei... Assucena  hoje mais feliz sem mim...
Estimo at que ella ignore a minha situao. O senhor conheceu-a?

--No a conheci.

--Conhece a viscondessa?

--Sim, senhor.

--Como est essa pobre mulher? Ser ella a minha protectora?!

--No, senhor.

--De certo, no, por que o marido no a deixa entrar nos fundos do
casal.  um grande patife! Tenho pena de no ser poeta! Queria escrever
em verso chulo a biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do
Porto! O responsavel da desgraa de Assucena  elle, que a no quiz
remir da deshonra com o valor de duas duzias de pretos dos centenares
d'elles, que ainda hoje so empilhados por sua conta no poro dos seus
navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado!
Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Dem-me uma
independencia, e vero que hei de esforar-me para ser bom. Os homens
ho de vir destruir-ma, e eu serei forado a lutar com elles. Como tenho
contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido,
em vez d'um ai, receberei um escarro na cara.

--Experimente o procedimento da honra, no em Portugal, porque os seus
precedentes so pessimos para uma rehabilitao. Empregue o capital, que
lhe derem, n'um ramo de commercio licito; aspire  independencia sem
fausto; habitue-se a uma tranquilla mediocridade; agouro que
voltar um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e
enojado das tristes recordaes do que foi.

--Pde ser................................................................

..........................................................................

Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os
seus creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.

Cumprida a pena, o prso recebeu com o alvar de soltura a baixa, e
folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.

Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em
que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta
coaco  sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um
camarote, nos cafs, nos passeios, e nas praas. O desconhecido padre,
porm, dra-lhe como preceito a recluso no seu quarto, e Luiz obedecia,
maniatado pela dependencia do capital promettido.

O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da
pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que no era a ancia de
beijar as mos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade.
Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se no
obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa
pessoa,  por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e
at inutil indagao.

Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e
ahi lhe disse que o capito do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro
seis contos de reis, e algumas cartas de recommendao para negociantes
portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.

A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de
Bernab Trigoso que no desamparasse o desgraado, e lhe alcanasse de
Deus para ella a bemaventurana, quando as suas virtudes a remissem das
culpas na balana da divina justia. A viscondessa de Bacellar entrou
n'esse momento, a contar  filha o pasmoso procedimento de Luiz da
Cunha, pagando as suas dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde
poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de
seu marido a espantada narrao do successo, e no podra ser superior
ao pasmo de Jos Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade
de Assucena, quando o caso no era de se ouvir sem pasmo.

--Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!--perguntava a viscondessa.

--Qual mulher, minha me?

--Essa dissoluta, que o teve  sua mesa?...

--No foi, minha me... Fui eu.

--Tu!

--Fui eu, minha me!

A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraou, a chorar, sua filha,
exclamando:

-- uma lio de virtude que ds a tua me.

--Um segredo eterno, sim?--disse Assucena a tremer.

--Sim... sim... um segredo eterno... Esta virtude recebe-se mal...
Ficaste pobre, minha filha?

--Eu nunca posso ser pobre.. O espirito do meu bemfeitor no me
desampara...

--E no... Teu padrasto disse que te recebia em casa logo que Luiz da
Cunha sahisse de Portugal.

--No aceito, minha me... No  por odio que lhe tenha...  que preciso
viver ssinha para gosar os poucos bens do espirito que tenho... Quem me
tirar da solido, mata-me...

--Mas vivers ssinha com tua me, no meu quarto...

--No posso entrar n'essa casa... Quando me recordo d'ella, cerra-se-me
o corao... No queira que eu soffra mais, minha boa me. Se seu marido
lhe no prohibe, venha vr-me muitas vezes; mas considere-me sem
familia, sem apgo a nenhuma cousa do mundo, triste e s, por prazer e
por necessidade...........................................................

..........................................................................




XII.

FASCINAO DO ABYSMO.


Raro ser o peito de homem onde no bata apressado o corao, que deixa,
na patria, uma infancia com recordaes suaves, ou uma adolescencia
alternada por prazeres e amarguras.

Deve ser-lhe tristissimo o ultimo adeus dos olhos ao ceo do seu bero!
Bem digno de compaixo ser aquelle que lhe vira as costas, com as faces
enxutas! Esse ir mais duro da alma que o homicida, fugindo do lugar do
delicto! Esse amaldioou-se a si, primeiro que a patria o amaldioasse;
e, espedaando os vinculos, que o ligavam aos deveres de homem, no sabe
o que  familia, no sabe o que  sociedade, sente, com tedio de si
proprio, que no tem patria nenhuma!

Tal era o filho de Ricarda.

Em quanto o marinheiro, com o barrete na mo, e os olhos turvos de
lagrimas, dizia um mudo adeus s montanhas de Portugal, e orava, com a
santa poesia da f, a supplica de feliz viagem ao Senhor, que faz bramir
a tempestade, Luiz da Cunha observava com risonha curiosidade as varias
physionomias dos seus companheiros. De tantas nem uma s deparou sem
signaes de mgoa. Parece que todos levavam da terra uma recordao
saudosa! O proprio capito, de braos cruzados,  ppa da galera,
absorvido nos longinquos cimos das montanhas cinzentas, no se
differenava, no ar melancolico, do tenro moo, arrancado pela ambio
aos braos da me, que o deixou ir sem resistencia, dando-se como certa
a prosperidade em que tornaria a vl-o.

Quem mais dava nos olhos, pelo chorar ancioso, era uma senhora vestida
em rigoroso luto, com vo preto descido, e com dous meninos, um de dous
annos, outro de peito ainda, sentados no collo d'uma preta, criada sua.

--Aquella dama chora por ella e por mim!--disse, com zombeteiro
sorriso, Luiz da Cunha ao capito.

--E o senhor no leva saudades de ninguem?

--No, senhor. No levo, nem deixo. No tenho patria, nem familia. No
sei se fra dos lagos da Allemanha tambem ha ondinas. Se n'este mar me
namorasse de uma, casava com ella, e viveriamos na mesma concha.

--Bem se v que no deixa em Portugal ninguem que lhe seja caro. A
quatro milhas da patria, nunca tive passageiro nenhum, que risse de to
boa vontade!

--Pois alguma vez havia de encontrar o impio contra a religio do
amor-patrio. No sei o que  isso, e dou-me os parabens de o no saber.
Aquella mulher por que chora? so saudades?

--Saudades, sim, do marido, que deixa na sepultura.

-- o unico lugar seguro onde podia deixal-o. Se fr ciumosa, pde ir e
tornar, na certeza de que o no surprender n'uma infidelidade...

--No zombe de cousas to srias, senhor Cunha. C no mar respeita-se a
religio...

--E em terra, estes piedosos marinheiros convertem-na em libaes de
canada!... Vejo que  um bom catholico, senhor capito!

--E o senhor no  catholico?

--Eu no sei o que sou, melhor do que o senhor. Sou este homem que v.
Tanto sou em terra como no mar. No me canso a pensar em cousas
superiores ao meu bom-senso, e vivo  discrio da fatalidade como este
navio  merc das ondas... Ento aquella senhora viuva  brazileira?

--Sim, senhor. Enviuvou ha dous mezes, e vai ao Brazil tomar conta da
administrao da sua casa.  uma rica fazendeira de caf e canna.

--No leva com ella algum parente?

--No, senhor. Leva duas criadas, e aquelles dous meninos. Coitada! como
no ir aquelle corao! No ha ainda oito mezes que ella aqui passou
to contente com o marido, que era doudo por ella! Mal diriam elles! A
vida  um engano! Quando penso nos trabalhos, que se procuram, para
amparar dous dias de vida, d-me vontade de viver em descanso com meus
filhos, comendo um bocado de po estreme, e ensinando-os a despresarem a
enganadora ambio de riquezas, que por fim... alli tem o exemplo!...
Quanto daria aquella senhora por ter seu marido vivo! Dava de boamente
os trezentos contos que tem...

--Trezentos contos! parece-me muito conto!

--Admira-se? pois tomra eu o que ella tem d'ahi para cima...

As reflexes melancolicas do capito, cerca da rapidez da vida, no
impressionaram Luiz da Cunha: mas o fecho da lamuria philosophica, os
_trezentos contos_, foi um valente encontro  sua insensibilidade. Se
n'aquelle momento fosse possivel abrir-lhe o craneo, e analysar-lhe o
cerebro, ver-se-ia um arfar vertiginoso nas bossas predominantes
d'aquella maquina! O capito, sem o pensar, jogra um ariete  alma
petrificada do passageiro, e abrira larga brecha por onde iam sahir
planos de infame calculo.

A viuva retirra, quasi nos braos das criadas,  sala de r. Luiz da
Cunha desceu tambem, dominado por um pensamento que no supportava
delongas. To radiosa lhe fulgira a esperana de angariar uma fortuna
colossal, e to susceptivel de realisar-se lhe parecra um casamento com
a fazendeira de caf, que, desde esse momento, o experimentado
aventureiro julgou-se protegido pelo diabo cxo de Le-Sage, e prometteu
no perder occasio de captar a benevolencia da viuva.

Como ella tivesse recolhido ao seu beliche, para esconder dos
indifferentes as incessantes lagrimas, Luiz meditou de vagar o seu
plano, estudando o papel adaptado ao caracter da viuva, e afivelando-se
uma mascara, visto que todas se ajustavam  perversa flexibilidade da
sua physionomia moral.

Convindo na conveniencia de representar mui sriamente, arrependeu-se
das imprudentes facecias com que respondra s graves perguntas do
capito. Entendeu, porm, que a maneira de desvanecer o prejudicial
conceito, que merecra ao maritimo, era explicar a sua sarcastica
jovialidade como um pretexto para illudir-se d'um profundo dissabor, uma
d'essas pungentes ironias com que o desgraado imagina vingar-se do
verdugo destino, que o persegue.

Entrou em scena, e desempenhou magistralmente. O capito, sincero e
rustico, mais conhecedor dos escolhos do mar que dos outros, que se
topam nas tempestades da vida, condoeu-se da pathetica narrao
inventada pelo passageiro, alludindo  perda de um corao, que lhe fra
caro,  ingratido d'uma aleivosa mulher, que injurira com a perfidia a
sua generosa alma. Por causa d'ella--dizia o comico--abandonava o caro
bero natal, o ceo dos seus amores de moo, cheio de illuses, mortas,
calcadas, perdidas para sempre! E to grande fra essa dr, tal
desespero involvra de negro a sua alma--proseguia elle, enrugando a
fronte, e correndo por ella a mo com a mais velhaca naturalidade--que
protestara affrontar com o escarneo todos os sentimentos nobres, pois
que os seus tambem o tinham sido por uma traioeira mulher, colligada
com miseraveis inimigos.

E, dito isto, no mais rigoroso ademan do palco, retirou-se, deixando o
capito contristado, e condoido da sorte do pobre moo, que to cdo
perdra o gosto da vida.

Os passageiros da galera _Boa-Sorte_, informados pelo capito, olhavam
para Luiz da Cunha com certo ar de respeito e de triste curiosidade. O
silencio funebre de tal homem, sombrio sempre, movra o natural
interesse dos sinceros companheiros, e no passra desapercebido a D.
Marianna, supposto que as suas penas fossem de sobra, para se dar
cuidado com as estranhas.

Luiz da Cunha felicitou-se do grande passo que dra. O que no parece
nada, era j muito para elle. Esse interesse, essa especie de curiosa
compaixo, o attencioso silencio com que duas palavras suas eram
escutadas, eram, com effeito, acquisies, que lhe valiam, na
opinio d'aquelle publico, uma considerao, que ninguem contrariava.

Havia um s motivo, que descerrasse um ligeiro sorriso nos labios de
Luiz: era o menino mais velho de D. Marianna, a criancinha de dous
annos, que, attrahida pelos agrados do passageiro, lhe dava a
preferencia nos carinhos. A me lisongeava-se d'este acolhimento, e
chorava, porque mais vivas a assaltavam as recordaes de seu marido, ao
qual to caros eram os afagos do menino.

Luiz, amestrado pelo contnuo estudo, no tratava de mitigar com o
balsamo banal dos seus companheiros a ferida da saudosa viuva. Pelo
contrario: dizia-lhe que chorasse, se perdra um ente querido, um
extremoso marido, metade da sua alma, o melhor da sua existencia, um
homem digno d'ella. Como consolao, apenas lhe dizia que o encarasse a
elle, e veria alli enxutos os olhos, que derramaram lagrimas de sangue,
e por fim mirraram-se, como o corao exsangue, rido e resequido,
debaixo da sua lousa. Dizia-lhe que para ella no era impossivel a
ventura, porque, cdo ou tarde, encontraria em um segundo marido o
reflexo das virtudes do primeiro; seria, outra vez, ditosa, porque ha
anjos privilegiados que o Altissimo no abandona, mesmo quando os deixa
ssinhos na terra, onde encontraro um amparo, que lhes adoce as
saudades d'um outro partido, sob a lousa da sepultura.

Este estylo de cabea no era mesquinho em figuras. Os periodos eram
artisticamente arredondados, acizelados, torneados como os hombros d'uma
estatua. Os discursos, sempre decorados da vespera, no tinham falha que
os fizesse tinnir mal aos ouvidos de Marianna. Em tudo, e at nos
improvisos, havia uma razo de ordem connexa, um rigor lgico de
honradez, um espantoso triumpho da corrupo eloquente sobre o gaguejar
da ingenuidade sempre boal e descozida nos seus discursos.

Luiz da Cunha no se escondia para estes ligeiros dialogos com Marianna.
Em occasio de almoo ou jantar, e no sempre,  que elle se interessava
na conversa dos que por delicadeza procuravam consolar a viuva, sempre
inconsolavel.

O pequeno Antoninho afizera-se tanto a Luiz, que chorava, se o no
levavam de manh ao beliche do seu amigo. Marianna agradecia ao
carinhoso soffredor de seu filho tantos favores, e ficava contente se
Luiz lhe dizia que era devedor quelle menino dos raros momentos de
prazer, que Deus ainda lhe concedia por intermedio d'um innocente.

Vejam que estudo!

E assim passaram vinte dias de viagem. As amarguras de Marianna tinham
transigido um pouco com a natureza, que parece no ter sido feita para
os soffrimentos duradouros, e desmente sempre os propositos d'um lucto
perpetuo, variando as sensaes com magica destreza.

Menos lagrimosa, ou mais resignada, que  o que sempre se diz, a viuva
no fugia da mesa, apenas terminava a refeio. Demorava-se na palestra,
silenciosa sim como Luiz, mas respondia com um aceno affirmativo s
attenes, que os brazileiros de torna-viagem lhe davam, nas suas
conversas dissaboridas. Luiz fazia-se estranho a ellas, fingindo-se
abstracto em scismadoras tristezas de que o compadecido capito, ou D.
Marianna o acordavam com esta ou outra semelhante pergunta:

--Que tem, senhor Luiz da Cunha? Em que pensa!

--No _nada_, minha senhora.

--Sempre assim! Quando vir um dia de o vrmos alegre?

--O dia final.

--Que ideia to triste! Ento no espera, com vinte e oito annos, to
novo, encontrar n'esta vida a felicidade?

--No, minha senhora.

--No pde ella apparecer-lhe como um acaso?

--A morte.... e essa  certissima.... espero-a com a segurana de quem a
v continuamente diante dos olhos.

--No falle na morte.... Eu tenho esperanas de o vr feliz.... Ha de
encontrar no Brazil uma menina, muito linda e innocente, que lhe encha o
corao d'um novo amor...

--No tenho espao para elle. Onde est o demonio no pde entrar um anjo.

--Mas Deus pde mais que Satanaz--replicou Marianna.

--Isso  verdade!--confirmaram tres brazileiros.

--Pois Deus realise a sua generosa vontade, minha senhora.

Luiz da Cunha, com esta resposta, lanou a sonda ao corao da viuva. O
que ella l encontrou, no o sei eu; mas que Marianna fez um gesto de
resentimento, isso foi um facto, que no escapava  fina observao de
Luiz da Cunha, nem  do leitor ou leitora, que so pessoas das muito
raras, que eu conheo, com vista dupla para lr um corao na ruga
repentina da testa, ou no ligeiro morder do labio.

Seria indiscreta a verso feita por Luiz do repentino baixar d'olhos da
viuva? No era, no. O desejo que ella affectava de o vr feliz pelo
encontro d'uma linda e innocente menina, no era realmente o seu desejo,
se a menina linda e innocente no era ella.

Como essa pobre mulher, durante um mez de viagem, chorou todas as
lagrimas, que tinha perpetuado  memoria de seu marido, isso explica-se
pela inactividade das glandulas lacrimaes, quando a aco vital se
concentra no corao. A sua desesperada angustia, nos primeiros mezes de
viuva, no podia durar muito. Dr, que se expande em soluos, que
rejeita consolaes impotentes, e no espera nada dos recursos
ordinarios, mata depressa, ou depressa se desvanece. Ora, a dr d'uma
viuva de vinte e cinco annos est, mais que nenhuma outra, sujeita
quelle aphorismo, que no li em Hippocrates, mas nem por isso devem
deixar de o aceitar como regra de physiologia experimental.

E, depois, quando o aphorismo no frizasse com o facto, dou-vos uma
razo mais forte, mais experimentada, e menos especulativa que as
theorias incertas cerca do corao.

Fra necessario que Marianna tivesse sempre a seu lado um anjo a
segredar-lhe os precedentes de Luiz da Cunha, para que ella se no
deixasse illaquear na rde habilmente lanada  sua fraqueza. O aspecto
grave, austero, e melancolico do cavalheiro, que no faltava  menor
cortezia d'uma refinada polidez; a venerao com que todos os
companheiros de viagem respeitavam a sua tristeza sombria; a bondade que
o seu sorriso respirava quando Antoninho, fugindo do collo da me, voava
com um beijo aos braos d'elle; a sensatez das suas reflexes a
respeito do justo pranto da viuva, que perdeu um bom marido, to raro
entre os pervertidos filhos do seculo; os seus momentaneos extasis,
quando a palavra amor lhe roava fugitivamente os labios; e, finalmente,
a certeza, dada pelo capito, do illustre nascimento de Luiz, visto que
na sua carteira levava uma ordem de seis contos de reis, que lhe fra
entregue por um padre, especie de mordomo ou cousa que o valha do
mysterioso passageiro: todas estas contingencias reunidas, e outras
muitas que nem a propria viuva saberia explical-as, davam a Luiz da
Cunha um ar de grandeza, de distinco, de sympathia, que, em poucos
dias, causra em Marianna vergonha da sua propria fraqueza, e at pesar
de ter encontrado tal homem.

De mais a mais, os olhos de Luiz, to expressivos e ardentes nas suas
queixas contra o destino, baixavam-se submissos, se encontravam os olhos
d'ella, em que a curiosidade no era menos significativa que a ternura.
E porque se baixavam esses olhos? Mal vai ao corao da mulher quando
esta curiosa pergunta a incommoda! De dia para dia redobra-lhe o desejo
de entender esses olhos equivocos, essa modestia encantadora. Se elles
se esquivam em confessar-se, ou se a palavra timida os no denuncia, o
que era desejo, na mulher j ferida, torna-se em ancia de resolver o
problema. Chega a assustar-se d'essa apparente submisso, d'essa mudez
desamoravel. Quem sabe se aquelle olhar, fugindo aos olhos d'ella, quer
dizer que o corao foge tambem? E ento entra na empreza o mais forte
inimigo da mulher: o amor-proprio, esse conselheiro intimo, que a salva
raras vezes da queda, e, demonio de soberba, impelle-a quasi sempre 
perdio, vendando-lhe os olhos do juizo, e dando-lhe aos do amor a
vista dupla, o vr penetrante, que, em linguagem do tempo, se chama a
razo livre, a sanctificao do instincto. Era o amor-proprio o que
fizera na face de Marianna um signal de resentimento. Ainda que Luiz da
Cunha representasse o papel de atraioado amante, extenuado para novas
paixes, a viuva, como todas as mulheres nas circumstancias d'ella,
formosa e rica, tivera uma vez e outra a vangloriosa ideia de resuscitar
aquelle homem, que se julgava morto. Que nos perdem as feiticeiras
florinhas com que o Senhor matisou as agruras da existencia; mas uma
fragilidade muito sensivel, e que muitas vezes as prejudica na sua
isempo,  o orgulho de acorrentar a fera, que faz estragos
desenfreada, ou insuflar uma existencia nova no homem, que adquiriu nota
de cansado. Arriscada empreza todos os dias commettida com mau successo!
A inexoravel serpente do den est sempre assobiando aos ouvidos da
eterna Eva. A vaidade, creao contemporanea da primeira mulher,
continua a offerecer-lhe em taa de ouro o sumo do pomo, doce na
superficie, e fel no fundo. A que intenta prostrar a seus ps o
conquistador soberbo, para que a fascinao do seu engodo seja inveja s
que no poderam tanto,  sempre victima, se o homem, que facilmente se
d aos ferros, no tem ainda passado a linha da vida, alm da qual est
o completo cansao do corpo e da alma, tristes socios de um tardio
desengano. A que intenta restaurar no corao do homem as potencias,
atrophiadas pela perfidia, no sabe que ser ella a offerenda expiatoria
do crime de outra mulher; no sabe que o trahido recupera as foras,
convertendo-as em vingana, porque tudo que n'essa alma existia nobre e
santo, bem pde ser que no sobrevivesse  morte d'um primeiro amor
galardoado com o desprso.

Leitora, no se enfade v. ex. com o longo periodo que vem de lr, se 
que o leu. No seja ingrata  lhanesa com que se lhe mostra o homem tal
qual , e com que se trazem do insondavel da sua alma  luz da analyse
cousas que v. ex. no v em si, e muito raras vezes descobre n'elle.

Se D. Marianna tivesse encontrado na abundante leitura de romances uma
outra Marianna em face d'um outro Luiz da Cunha, parece-me que saberia
resistir aos primeiros assaltos do amor, victoria que alcanou a habil
hypocrisia, adestrada em doze annos de infamias. No quero, porm, com
isto dizer que D. Marianna succumbisse, como imbecil, ao prestigio do
excentrico companheiro de viagem.

O que ella tinha de peor era no ser imbecil. Foi cousa que seu defuncto
marido no apoiava a tendencia d'ella para o maravilhoso. A indole,
acalorada pelos romances, seu passatempo querido, manifestra-se de
um modo assustador para um marido, no convencido da sua superioridade a
todos os outros homens, perante sua mulher. O fallecido fazendeiro de
caf era um homem excellente; mas, a respeito de intelligencia, no
fallemos n'isso. O verniz que tinha, pouco ou muito, era obra de
Marianna, que sinceramente o presava, desde que elle entrra como feitor
em casa de seu pae. Diga-se de passagem que este bom homem, aos trinta
annos arrebatado por uma febre typhoide, era nosso patricio, nascra nos
Arcos de Val-de-Vez, d'ahi sahira aos doze annos, e ahi voltra rico
para morrer nos braos de seus parentes, que tirou da miseria. Tantas
virtudes, mantidas pelo trabalho, so sobeja honra  memoria do marido
de D. Marianna. No precisamos, mentindo, encarecer-lh'a com dotes que
elle no tinha, e, por isso mesmo, no approvava em sua mulher.

Mostrra-lhe, talvez, uma intuio clara que as tendencias romanescas de
sua mulher a precipitariam. Viu bem.

No sei se Marianna tinha sonhado o typo de Luiz da Cunha, como se diz
em verso; se o tinha sonhado, encontrou-o na realidade, o que  alguma
cousa peor. Os traos do astucioso caracter moral no discordavam do
physico. Para a sua physionomia triste e sympathica arranjra-se Luiz da
Cunha uma alma to ao natural, que deixra a perder de vista as
imperfeies da natureza. A arte, em quanto a mim, pde mais que a sua
rival.

Sem arte no encaminhava Luiz da Cunha as cousas a ponto de Marianna ir
sentar-se, alta noite, a seu lado, na tolda, contando silenciosa as
estrellas do ceo, entre as quaes dizia o impostor que procurava a fada
do seu destino.

--Se a vir--dizia Marianna--pea-lhe que lhe diga o meu.

--O seu destino posso eu dizer-lh'o, senhora D. Marianna.

--Qual?... diga, diga.

--Ha de ser venturosa, venturosa sempre.

--E sou eu venturosa? Ssinha no mundo...

--Quem tem o corao povoado d'anjos nunca est ssinha... Qual
ser o homem que a no adore? Pde v. ex. rejeitar o culto, pde
julgar-se s em quanto no encontrar uma alma afinada pela sua; mas, em
quanto se  adorada, no se pde julgar ssinha...

--E que valho eu para ser adorada?

--Vale as mais santas esperanas d'um homem com o corao vioso, ainda
rico de todas as illuses, puro ainda de toda a mancha; vale um preo
inestimavel; vale uma existencia. Tivesse eu esse corao, com
esperanas, com vigor, com pureza.... no me tivessem vasado n'elle
torrentes de fel que m'o queimam...

--Sem esperana?

--Nenhuma esperana... tenho-lh'o dito como uma confidencia que se faz a
uma irm...

--E eu no posso crl-o... Deus no quer que a sua vida acabe to
cdo... Ha de haver alguem, que lhe faa esquecer essa mulher, indigna
de si...

--Onde encontrarei eu outra?

--Onde a encontrar? Talvez no Rio de Janeiro, onde ha tantas... e to
seductoras...

--Oh! que santa prophecia  essa!... V. ex. no me conhece... no se
conhece...

--No me conheo!... Que quer dizer?

--Nada, minha senhora.

--Diga... no me deixe dar uma m significao s suas palavras.

--Pois sim, digo; mas que a no v eu ferir... promette perdoar-me?

--Pois que me dir que eu no deva perdoar-lhe?!

--No se conhece; porque, se alguma mulher podia dar-me a mo, afastando
de sobre mim a pedra sepulcral... J me comprehendeu...

Marianna baixra os olhos, e estremecra. Subira-lhe s faces o calor do
corao. Sentira em si uma confuso de ideias, uma embriaguez de
felicidade e receio, uma tal perturbao que, n'aquelle momento, quizera
antes no estar alli, supposto que em parte alguma podsse estar melhor.

Luiz da Cunha, encostando a face  mo direita, pozera a mo de modo que
os olhos retorcidos no perdessem um movimento de Marianna.-- o que eu
tinha previsto--disse elle a si proprio, sorrindo mentalmente.
Passados alguns segundos dramaticamente taciturnos, Luiz, como de um
rapto, sahiu do seu extasis, e perguntou com a mais artistica commoo:

--Offendi-a? Lembre-se que prometteu perdoar-me.

--Perdo-lhe todo o mal que me faz...

--V como sou infeliz?

--Infeliz!... qual de ns  mais?

--To infeliz que fao mal a quem eu quizera dar todas as felicidades da
terra, se tivesse a omnipotencia d'um Deus.

--O mal que me faz... poderia converter-se, se Deus o quizesse, em
ventura de ambos...

--Poderia!... eu bem sei que podia... Snr. D. Marianna... eu devera
tl-a encontrado no principio da minha juventude.... Eramos hoje tudo
que o desejo pde imaginar de mais feliz, de mais invejavel... Segue-se
que  mentira aproximarem-se os entes que o destino talhou para se
unirem... Quando se encontram, j a desgraa os traz desfigurados;
vem-se, e no se conhecem; fallam-se, e no se comprehendem; abraam-se,
e sentem-se frios como a pedra de um tumulo, como dous cadaveres, que se
levantam, a par, da mesma campa...

--E  o que ns somos um para o outro? Julga-me to mal, senhor Luiz da
Cunha!

O filho de Ricarda ergue-se impetuosamente, d quatro passeios no
tombadilho, afastando os cabellos da testa, e pra defronte da viuva,
com attitude o mais ridiculamente sinistra que pde imaginar-se.

--Senhora D. Marianna!

Ella fixou-o, erguendo-se tambem assustada.

--Senhora D. Marianna! ouve uma voz celeste, que a manda salvar-me?  o
instrumento sobrenatural do meu anjo de redempo? Responda...

--Que posso eu responder-lhe?

--Obedea ao seu corao... Este momento pde marcar uma nova poca na
minha vida...

--Senhor Luiz da Cunha...

--Responda, Marianna... no receie ferir-me com uma palavra negativa...
Eu preciso mesmo do ultimo desengano...

--Que hei de eu dizer-lhe... sem que me tenha dito...

--Que a amo?... No o adivinhou ainda, Marianna?!

A viuva encostou-se  amurada do navio, e pousou a barba na palma da mo
direita, cujo brao tremia em perceptivel convulso. Um raio da lua
reflectiu-se nas lagrimas d'ella. Luiz da Cunha teve um d'esses raros
momentos de compaixo, que costumam assaltar o infame: devra ento
maravilhar-se do magico prestigio da impudencia.

O capito subia ao convez, e olhou com indifferena para os dous
passageiros, que no eram suspeitos a ninguem. Marianna, dizendo-se
influxada pelo ar da noite, desceu  camara, pedindo a Luiz da Cunha que
se recolhesse tambem. Era do plano astucioso obedecer.

Desde o dia immediato, repararam alguns passageiros na frequente
conversao da viuva com o homem mysterioso. O capito, prevenido por
elles, reparra tambem que os passeios na tolda eram certos todas as
noites. O que elles todos notavam era uma sensivel differena nos
estranhos costumes do companheiro. J no era preciso instar com elle
para assistir ao almoo. Acontecia muitas vezes encontrarem-no j com
Marianna, conversando em tom que subia uma oitava acima quando entrava
alguem. Viam-os, depois de almoo, ao p da agulha, fugindo da r onde
se agrupavam os passageiros. Para admirarem o phenomeno magnetico do
iman com o norte, achavam os criticos que era tempo de mais. Murmurou-se
que havia namoro, e censuravam a leviandade de Marianna, que tanto
chorra, e to depressa esquecra o marido. Mas no passava d'isto a
murmurao.

Com trinta e cinco dias de viagem, chegaram ao seu destino. A bordo da
galera vieram os parentes de Marianna. Luiz da Cunha, apresentado por
ella a seus tios, como pessoa a quem devia muitas finezas, foi convidado
para sua casa, e aceitou com arteira difficuldade, que as instancias
convencionadas de Marianna venceram.

O filho de Ricarda recebeu a ordem dos seis contos de reis, fechada n'um
envolucro em branco, qual o padre Madureira a entregara. Dentro d'esse
envolucro, junta  ordem, estava uma carta designada a Luiz da Cunha.
Abriu-a, e leu:


_Luiz da Cunha foi remido da ignominia, do degredo, da fome, e da morte
por Assucena. Se esta certeza lhe no valer um arrependimento nobre,
sirva-lhe ao menos de vergonha perante a sua consciencia._


A perplexidade do promettido esposo de Marianna durou poucos segundos.
D'aquella alma j no era possivel arrancar vergonha nem remorso. O
padre Madureira enganra-se. Queimando a carta, Luiz da Cunha entendeu
que o segredo voava nas cinzas d'ella. Estabeleceu tranquillas
conjecturas cerca da riqueza de Assucena: d'onde lhe viriam perto de
quarenta mil cruzados?

Occorreram-lhe hypotheses, quasi todas ignobeis, e sordidas. E, como
nenhuma era mais provavel que as outras, Luiz da Cunha resolveu, um dia,
embolsal-a d'esse emprestimo.

Hospedado em casa d'um tio de D. Marianna, a sua vida, posto que
inactiva, era regular, e bem procedida. No aceitou apresentaes nas
salas da boa roda, porque D. Marianna as no frequentava, como viuva.
Visitava-a todos os dias em familia. Escrevia-lhe todas as manhs, e
recebia de tarde o menino, que era o pretexto para a entrega das cartas.

Viuva de onze mezes, D. Marianna, administradora da sua casa commercial,
declarou, por delicadeza, aos parentes, que, passado o lucto, casava com
Luiz da Cunha. No se oppozeram estorvos, que seriam inuteis. O noivo
era bemquisto: informaes de Portugal era tarde para havel-as: o astuto
soubera dirigir o plano de modo que se no pedissem a tempo.

Casaram.

No dia immediato espalhra-se no Rio que D. Marianna casara com um
infame aventureiro, fugido de Portugal, depois que os seus crimes l no
cabiam.

Esta terrivel nova fra levada pelo capito da galera, que se informra
em Lisboa, para saber se Luiz da Cunha seria o que parecia no primeiro
dia de viagem, ou nos outros.

Era tarde. O mais que podiam os interessados na felicidade de Marianna
era verem desmentida a calumnia, ou confirmado o boato pelo procedimento
do marido.




XIII.

EXPLOSO DA INFAMIA REPRESADA.


Eram passados tres mezes. No havia razo nenhuma para acreditar a fama,
confirmada por ulteriores indagaes. Luiz da Cunha no desmerecra nada
nas esperanas de Marianna, e vivia  merc da vontade d'ella, que era a
primeira a lembrar-lhe os bailes, o theatro, e os passeios, que o bom
marido frequentava com ar de aborrecido.

Os que tinham como certos os escandalos de Luiz em Portugal, estavam com
elle em suspeitosa guarda, no querendo acceitar como possivel a sua
emenda. Andava aqui inveja da avultada riqueza que a fortuna da
caprichosa lhe dra; o todo, porm, d'esses cabedaes, em terrenos e
predios urbanos, no podia considerar-se propriedade alienavel da viuva,
que era simples administradora de seus filhos. Ainda assim, a sua meao
avaliavam-na em cem contos de reis.

Como quer que fosse, Luiz da Cunha estava rico. A administrao
economica da casa, em poucos annos, podia dobrar o que era legitimamente
seu por mutua escriptura.

O marido de Marianna chegou a acreditar na sua regenerao. Sabia das
suas intimas confidencias que de todas as mulheres a que menos amava era
a sua; mas tambem no sentia os imperiosos estimulos de procurar emoes
nas outras. A paz, as commodidades, o luxo, a considerao, bem-estar
que nunca experimentra, agradavam-lhe. Constavam-lhe as informaes
idas de Portugal, e queria, at por capricho, desmentil-as. Signal
era de que a opinio publica alguma cousa valia j na sua. Este symptoma
enganaria o mais sisudo physiologista do corao, quando o proprio Luiz
da Cunha acreditava na estranha reforma das suas tendencias.

Basta dizer-vos que D. Marianna chamava-se feliz, e alardeava com
soberba a sua boa escolha na presena dos que faziam cro com a
maledicencia, mordendo a reputao de seu marido.

Deliciosos tres mezes!

Mas ao quarto.... Porque no morreu aquella pobre senhora no terceiro?
Porque no se aplacou o inexoravel destino d'aquelle homem? Porque ha de
ser to brutal, to despota a desgraa atirando abaixo das felizes
illuses a victima a que deu trgoas d'alguns mezes?

Mas, ao quarto, Luiz da Cunha viu uma danarina no theatro, e fixou-a
com tal curiosidade, que o corao de Marianna palpitou dolorosamente.
Quiz desviar-lhe a atteno da perigosa mulher, e no pde. Quiz, no dia
seguinte, com um subtil pretexto, sahir para os arrabaldes da capital,
mas seu marido, com pretextos ainda mais subts, adiou a sahida.

A danarina era franceza. Tinha a seu favor todos os demonios alados da
seduco. Era fresca como um ramalhete de camelias. Tinha os olhos mais
maliciosos, mais voluptuosos, mais zombeteiros que podem descender de
uma costella do homem, amputado no seu barro primitivo. As pernas to
expostas  avidez da analyse, no invejavam a correco proverbial das
de Diana caadora. Nos braos, d'um setim transparente, destacava-se a
rde das veias azuladas, onde o sangue bulioso vos deixaria suspeitar
se eram aquelles os braos roubados  Venus de Milo. O p, que nenhuma
sevilhana teve nem mais pequeno nem mais arqueado, obedecia ao frenesi
das evolues, ou encontrava o dente da tarantula, cada vez que tocava o
invejado pavimento do palco. Era a Paquita que Asmodeu inventra para
Clefas. Era a creatura de Lucifer em competencia com as creaturas de Deus.

Luiz da Cunha no experimentra ainda as paixes tempestuosas do
theatro, a mordedura d'esses desejos enfurecidos pelo ciume de muitos
concorrentes, essa garganta que sorve com o ouro as illuses nobres
do corao; emfim, essa vertigem, que faz de um amor vendido um triumpho
 custa do desdouro em publico, e das lagrimas no recinto domestico.

Era foroso ao homem de todas as situaes conhecer esta.

Marianna no precisava de mais provas; eram desnecessarios os avisos das
suas amigas: uma boa esposa est muito perto do corao de seu marido; a
sombra de uma ligeira infidelidade sente-se logo no escurecer da alegria
tranquilla que se lhe irradia dos olhos enxutos. Vem logo as lagrimas
accusarem o que os labios no accusam. Vem a pallida melancolia enturvar
os sorrisos descuidados da dce paz.

Era assim que ella se queixava de Luiz da Cunha, que parecia estranho a
essas timidas manifestaes de ciume. Se os labios deixavam passar um
gemido, ninguem a consolava, porque no queria testemunhas. Luiz
costumava enrugar a testa com fastiento gesto aos suspiros repetidos de
sua mulher.

Entretanto, o allucinado empregava todos os processos conhecidos para
satisfazer a ancia pertinaz. Fez grandes offertas de dinheiro,
repellidas sempre. Cortejou a bailarina, valendo-se umas vezes da
brandura hypocrita, outras da violencia natural. Nem de uma, nem da
outra maneira. Ao lado da franceza estava um amante, francez tambem,
caprichoso, ciumento, e espadachim. Luiz da Cunha fra ameaado por
elle, e conteve-se em quanto as esperanas lhe no falliram.

Marianna j transigia com a infidelidade; mas no queria vr-se
sacrificada, no corao do esposo, ao amor sensual d'uma mulher sem
alma. Os seus amigos lamentavam-na; os infamadores tenazes de Luiz da
Cunha batiam as palmas. A infeliz tentou uma dolorosa lucta comsigo
mesma. Advertiu seu marido do que se dizia; pediu-lhe que no dsse aos
seus inimigos o prazer de o apregoarem tal qual as informaes de Lisboa
o pintavam.

Luiz da Cunha riu-se, dizendo com grosseira altivez, que os seus
inimigos podiam ser atados em feixe com um chicote, e mandados de
presente ao diabo.

As promessas redobraram, e a bailarina cahiu do pedestal do
capricho, onde quizera ter-se como em pedestal de virtude.

Cedeu, e com tanto escandalo que na noite de proximo theatro, em pleno
espectaculo, Luiz da Cunha recebeu do rival uma bofetada na face,  qual
respondeu com chicotadas, que lhe deram a primazia na lucta. Tratou-se
um duello, que Luiz da Cunha disse no aceitava, porque era filho de um
dos mais nobres fidalgos de Portugal, e no media o seu florete com um
troca-tintas da Frana. O francez, dias depois, abandonava o Rio para
evitar um assedio de traioeiros punhaes, comprados por Luiz da Cunha.

A bailarina estava sob o exclusivo dominio do novo amante. O seu fausto
centuplicou em grandeza. Prendas d'um valor enorme, arrancadas pela
prodigalidade do ouro a especuladores astuciosos, eram o preo da
escandalosa rival de Marianna.

Os amigos d'esta, finda a estao do theatro, expulsaram a danarina,
com artificiosa violencia, ou por dinheiro que Marianna deu como se o
restabelecimento da sua ventura dependesse da ausencia da franceza.

Luiz da Cunha foi surprendido pela fuga da segunda Liberata que lhe
tocra o corao. Disfarou a affronta em publico; mas, de portas a
dentro, desforou-se do ultraje despresando Marianna. Esta mulher era
sublime! Quiz convencer a sociedade de que era outra vez feliz, para
readquirir o bom nome de seu marido.

Luiz da Cunha comprehendeu-a, deu ares de compadecido, fez sobre si um
esforo, e convenceu-a do seu arrependimento. Vejamos porque.

Dois mezes depois, Marianna era outra vez ditosa. O detrimento que a sua
casa soffrra, estava remido. As dissipaes com a mulher do theatro,
posto que exorbitantes, no doiam no corao da nobre senhora. Esses
calculos deixava-os ella  curiosidade dos mesquinhos louvados dos seus
haveres. O que ella queria era o corao de seu marido, e esse
capacitou-a elle de que fra sempre seu, at mesmo na embriaguez
vertiginosa d'essa fatal loucura com a franceza.

Chegou a primavera, e Luiz da Cunha projectou com sua mulher uma visita
s primeiras capitaes da Europa. Marianna desejava vr Paris,
Veneza, e Londres: no queria, porm, tornar a Portugal. O marido
conveio da melhor vontade na excepo, e partiram.

Em Paris, mal se hospedaram, Luiz da Cunha sahiu a colher informaes da
danarina _Carlota Gauthier_. Fra escripturada para Madrid. Em breves
dias viu com sua mulher os objectos menos notaveis de Paris. A
impaciencia ralava-o. Inventou uma epidemia para retirar-se, e prometteu
a Marianna voltar.

Em Madrid foi acolhido por Carlota, que no teve pejo de receber o
abandonado amante, phantasiando a violencia com que fra arrastada a
bordo a uma embarcao.

Luiz propz-lhe abandonar o theatro, a troco de doze contos de reis
annuaes. O seu desenlace devia ser immediato: nem uma s vez appareceria
no palco. Luiz da Cunha evitava assim que sua mulher visse a bailarina,
e explicasse a viagem  Europa, e a sahida precipitada de Paris.

Carlota aceitou: rompeu as escripturas; e o amante pagou a condemnao.

Marianna no podia comprehender as sahidas frequentes de Luiz,
deixando-a s n'uma hospedaria! No se queixava para no ser, talvez,
injusta com as abstraces de seu marido. Suspeitou um passageiro namoro
com alguma madrilense d'entre tantas to seductoras, e cujo garbo ella
no podia invejar. Por necessidade de conviver, relacionou-se com uma
familia portugueza, hospedada no mesmo hotel. Fugia de revelar os seus
pezares; mas uma das senhoras portuguezas adivinhou-lh'os. O marido
d'esta sabia quaes eram as distraces de Luiz da Cunha. O rompimento da
escriptura era sabido de todos. O amante de Carlota era apontado. S
Marianna ignorava o que em Madrid era materia de ociosa analyse, at ao
momento em que a senhora portugueza lhe aclarou o segredo das frequentes
sahidas.

Marianna adoeceu. Luiz suspeitou a inutilidade dos seus cuidados em
esconder de sua mulher o escandalo, que dava a todo o mundo,
galardoando-se d'elle, e guardando-se apenas d'ella.

Na incerteza, convidou carinhosamente Marianna a continuarem a sua
viagem. A desgraada, apegando-se ao derradeiro fio da esperana,
imaginou que a danarina ficaria em Madrid.

A ancia de sahir restabeleceu-a, e partiram; mas, ao dar o ultimo adeus
 dama portugueza, disse-lhe esta ao ouvido:

--Se vo para Paris, saiba minha amiga, que a danarina j para l
partiu ha dous dias.

..........................................................................

--No vamos para Paris...--dizia, depois, Marianna a seu marido.

--Porque, minha filha?

--Porque receio a epidemia.

--Sou informado de que j no ha peste em Paris.

--Ha, ha...

--Como sabes que ha?!

--No  s a peste,  tambem a morte para esta desgraada mulher, que
trazes pelos cabellos a ser testemunha das tuas infidelidades... dos
teus desprsos...

--Isso  uma calumnia, Marianna.

--No vamos para Paris, meu querido amigo... no vamos, no? J vi
tudo.... no quero vr mais nada de l. Vamos para a Italia... sim?

--Iremos; mas  necessario fazer escala por Paris.

--Tenho entendido... hei de ser morta por essa mulher!...

--Que mulher?!

--Carlota...

--Ora adeus! quem zombou assim da tua credulidade? Eu no sei d'essa
mulher.

--Desde que te despediste d'ella em Madrid?

--Tem juizo minha creana... Tu j sabes que a parte que tens em minha
alma no pde ser substituida por ninguem, e muito menos por comicas...

--Desgraadamente tenho a certeza do contrario... Queres dar-me uma
prova de estima? Fazes-me um favor que eu te agradecerei de joelhos?

--Que , Marianna?

--Vamos para nossa casa.... Vamos ser felizes como temos sido... Eu
esqueo-me de tudo; nunca te fallarei d'esta mulher; mas vamos j...

--No tem geito nenhum esse contra-senso.  um disparate que faria rir
os nossos conhecidos!

--Pois que riam elles, e no chore a tua amiga. Vamos, Luiz?... fazes-me
a vontade?

--No posso.

--No pdes?! Que maneira  essa de responder-me?! Lanaste-me um olhar
que nunca te vi! Santo Deus, que como a ter mdo do teu aspecto! Ser
possivel que tu sejas o homem que se disse?

--No sei o que sou: fica n'aquillo que te parecer.

--Pois bem, Luiz, manda-me para os meus filhos, e fica tu em Paris.

--No irs, Marianna. Has de ir comigo.

--Hei de ir j para minha casa... Tenho um presentimento que morrerei
longe dos meus filhos... Desliga-te de mim, faz o que quizeres; mas no
sejas to mau, que me obrigues a acompanhar-te nos teus desatinos.

Esta afflictiva scena passava-se n'uma estao onde parra a diligencia
para os passageiros almoarem. Luiz da Cunha deixra sua mulher, quasi
de joelhos, e viera para uma janella trautear uma aria. Depois, irritado
pelo imperioso _hei de ir j!_ voltou-se para dentro com arremesso,
crusou os braos, fez um gesto affirmativo de cabea, e deu uma d'estas
risadas cortadas que significam desprso e ameaa.

Marianna sentiu-se cahir desamparada, desvalida, na convico de que seu
marido era um malvado. Vendo-se ssinha, tremeu da sua situao. Forte
em todos os sentimentos, tal terror se lhe incutiu, que receou pela
vida. Como a avesinha, escondendo a cabea sob a aza para no vr o
assassino que lhe mede com a pontaria o corao, Marianna escondeu a
face entre as mos, cambaleou um momento, e recuou sobre um canap, onde
cahiu desfallecida.

Luiz da Cunha, vendo de um lance de olhos todos os resultados d'um
possivel divorcio, ou mais ainda, da morte de sua mulher, reprehendeu-se
da inconveniente aspereza, intentou reconciliar-se com Marianna, e
comeou o seu novo plano, rapidamente concebido, tomando-a nos braos,
chamando-a com ternura, e cobrindo-a de beijos.

Marianna viu com espanto a doura dos olhos de Luiz, e por pouco
no cede ao impulso de abraal-o. A que, momentos antes, tremra de mdo
diante do malvado, eil-a agora, quasi perdoando, arrependida do
criminoso susto que tivera! Quantas mulheres assim! Quantas
transfiguraes da martyr que pena, para o anjo que perda! Quantas
lagrimas o homem enxuga com um falso sorriso!

--No me tenhas odio, Marianna...--dizia elle, inclinando-a sobre o
brao esquerdo, e anediando-lhe os cabellos.

--Odio... no tenho; mas queres que eu no soffra?!

--Quero... farei o que tu quizeres... No queres que vamos a Paris? No
iremos. Vamos para a Italia, sim?

--E de l para nossa casa?

--Iremos, filha... tornaremos para Madrid; vamos a Cadiz, e de l
embarcaremos para a Italia... queres?

--Sim, sim, agradeo-te de todo o meu corao o sacrificio...

--Sacrificio! nenhum, Marianna! Tu no crs que s para mim a primeira
mulher, que no tens uma rival que possa mais que a tua vontade?

--Queria acreditar; mas tu...

--Eu que? Sou fraco... sou um miseravel ludibrio do destino; mas tu
vences esse destino, quando queres... s hoje para mim o que eras ha um
anno sobre o mar...

--Oh!... se eu fosse!...

--s, filha. No me vs arrependido? Queres-me de joelhos a teus ps?

E o farcista fez meno de ajoelhar, quando Marianna se lhe lanou ao
pescoo, beijando-o, banhando-lhe de lagrimas a face, soluando,
comprimindo-o com a vehemencia de toda a sua paixo acrisolada pelo
ciume, e expansiva pelo prazer do triumpho sobre a rival.

Em Madrid, Luiz da Cunha foi to caricioso, que Marianna recordava os
primeiros dias do seu noivado, e no os achava mais gratos, mais
ligeiros nas suas rapidas horas do delicioso arrobamento.

Furtando-se poucos instantes  companhia d'ella, Luiz da Cunha escrevra
a Carlota ordenando-lhe que o esperasse em Veneza, mas desconhecida, com
um pseudonimo, porque assim convinha  tranquillidade de ambos.

Quando, pois, D. Marianna, cheia de jubilo, sahia para Cadiz, a
danarina, nomeando-se _Julia Lamotte_, chegava a Veneza, e isolava-se
n'um hotel, sacrificando a publicidade, que to grata lhe era, 
prestao annual de sessenta mil francos, dos quaes apenas recebra em
Madrid cinco mil.

Em Veneza, um dos primeiros homens que Luiz da Cunha encontrou,
fixando-o com ar provocador, foi o francez, que fugira aos sicarios
escravos do amante de Carlota. O brigo que partira a cabea ao visconde
de Bacellar, e acutilra o mestre de esgrima, tinha tanta maldade como
bravura. No se apavorou do gesto ameaador do francez, rodeado de
francezes. Caminhou para elles, com duas pistolas engatilhadas, na
presena de sua mulher, que permanecra estupefacta sem atinar com a
causa nem com o desenlace d'este estranho encontro. O grupo dos
francezes, os homens mais delicados do mundo, respondra com um sorriso
 arrogancia de Luiz. Um d'elles, approximou-se de Marianna, com o
chapo na mo, e disse-lhe com affectuosa urbanidade:

--Sabemos respeital-a mais que seu marido. No receie consequencias
tristes. Os aggredidos so cavalheiros.

Luiz da Cunha, depois da ridicula provocao, metteu as pistolas nas
algibeiras, deu o brao a sua mulher, e saltaram na gondola que os
esperava.

Marianna pedira inutilmente a explicao d'aquelle successo. O marido
evadia-se s perguntas, dizendo que detestava os francezes, e imaginra
que um d'aquelles o escarnecra.

Deu-se um encontro que respondeu s apprehenses da brazileira.

A gondola ia abicar na ilha de S. Lazaro, ao mesmo tempo que desatracava
outra gondola com uma dama, e um jokei. A perturbao de Luiz no foi
visivel para sua mulher, que no desviava os olhos pasmados da face da
dama, que se approximava na direco da sua gondola. J perto, Marianna
fez-se livida, convulsa, encostou-se, quasi esvahida, ao brao do
gondoleiro, repellindo o de seu marido, e, ajudada a saltar ao caes,
sentou-se, murmurando:

--Como eu sou desgraada, meu Deus!

Acontece que um mau marido, repetidas vezes surprendido em flagrante por
sua mulher, indignado contra a m fortuna dos planos, volta-se contra
ella, por no poder vingar-se do demonio invisivel que lh'os frustra.
Esse tal, em quanto uma ardilosa desculpa o pde justificar, transige
com as lagrimas da esposa, e finge serenamente a contrio; mas, se a
contumacia no crime, todas as vezes descoberto, lhe inutilisa as
invenes refalsadas, e o exautora de prometter emendar-se, o que at
alli eram brandas desculpas converte-se depois em odio s algemas, em
emancipao do jugo, em crime sem pretexto, nem escusas.  o cynismo que
se desmascara.  a impostura que se revolta contra o claro da verdade.

Para ser-se tal no importa ser menos perverso que o marido de Marianna.
Luiz da Cunha, se n'aquelle instante devia odiar a imprudente Carlota
que no evitra tal encontro, irritou-se contra as lagrimas de sua
mulher, que no proferira uma s palavra offensiva, nem, sequer, queixosa.

--Vamos--disse elle com aspereza.

Marianna ergueu-se, quiz aceitar o brao de Luiz, e no pde suster-se.

--No posso.--E sentou-se.

--Se no pode, tornemos a entrar na gondola.

--Pois sim.... No te zangues, Luiz, que no te fiz mal nenhum. Se  a
minha presena que te impacienta... pouco tempo te enfadarei... Vamos...

Estas palavras, quasi ditas como um segredo, para que o gondoleiro as
no escutasse, no commoveram Luiz. Pelo que no rosto se lhe via, era
mais de crer que lhe exacerbassem a clera. As contraces da testa, o
morder dos beios, o arfar das azas do nariz, os impetos das mos aos
cabellos e ao bigode, denunciavam a subita renascena de toda a
perversidade do corao que lhe atirava golphadas de sangue negro  face.

D. Marianna como dias antes em Madrid, fugia de encontrar semelhante
aspecto. Alguma cousa havia ahi que s pde vr-se e imaginar na cara
assignalada pela predestinao do patibulo!

Os frageis vinculos de respeito que prendiam marido e mulher estavam
partidos. Desde esse dia, Luiz da Cunha seria escandaloso sem
justificar-se; imporia silencio a Marianna; fruiria todos os direitos da
infamia sem empecilhos, nem covardes explicaes dos seus actos.

O programma d'esta nova phase vamos ns ouvir-lh'o no _Albergo di
Italia_. D. Marianna est encostada ao peitoril d'uma janella, com a
face apoiada na mo direita, com os olhos, brilhantes de lagrimas, fitos
na lua que se levanta sobre o Lido, purpureada como os arreboes que
bordam o horisonte das montanhas tyrobanas.

Est s.  meia noite, e seu marido no vem. Depois que a deixou no
hotel, sahiu, e nem sequer lhe disse que voltava. Ha cinco horas que
chora, e sente-se menos opprimida: no sabe ella dizer se deve este bem
s lagrimas, se s oraes.  que orou muito; e, depois, quando levantou
da taboa os joelhos, raiou-lhe na sua escuridade uma luz, uma esperana,
qualquer cousa divina que no era da terra.

E foi sentar-se, s escuras, fitando o ceo, com a imaginao mais
tranquilla, com as palpitaes mais serenas, com a face aljofrada de
lagrimas suavissimas. Mas a esperana qual seria? No sabia ella dizl-a.

 uma hora entrou Luiz da Cunha.

--Ainda a p?!--perguntou elle em tom suave.

-- um prazer contemplar este ceo--disse Marianna no mesmo tom.

--Que lindas noites se gozam em Veneza!

--Muito lindas.

--Gosto de te vr assim, Marianna.

--Assim!... como?

--Sem as impaciencias terriveis do ciume.

--Ah!... Tambem eu gosto de me sentir assim.

--O ciume  cousa que no existe na boa roda. Em Veneza, e em Paris no
ha ciume.

--E amor?

--Um pouco, em quanto dura. A civilisao  a liberdade das pessoas e
das cousas: bole com tudo, toca em todos os sentimentos, entra nos
juizos da cabea, e enraiza-se nas aspiraes da alma.

--No te entendo, Luiz...

--Entendes, que tens muita intelligencia. E queres que te diga? Nenhuma
mulher de fina educao pde ser feliz, como esposa, se no estiver
possuida de certos sentimentos de tolerancia com as faltas do marido.

--Vou entendendo agora, e admiro a minha ignorancia de ha pouco... Ora
diz, meu amigo, falla, que me encontras em hora de ouvir tudo... Mas
olha, Luiz... Esta noite no te recorda aquella primeira noite, no mar,
quando me dizias: _ mentira approximarem-se os entes que o destino
talhou para se unirem: quando se encontram j a desgraa os traz
desfigurados; vem-se e no se conhecem; fallam-se e no se
comprehendem_... Era uma noite assim formosa como esta... Se ento nos
no comprehendemos, Luiz, hoje comprehenderemo-nos melhor?...

--Eis-ahi um incidente bem romanesco, minha amiga! Vejo que em Veneza ha
de necessariamente conversar-se em linguagem de romance!... A recordao
das minhas palavras o mais que prova  que tens uma feliz memoria...

--Que tu no tens... bem se v que as esqueceste... Creio que vens
zombar comigo, Luiz.

--No, Marianna; no venho zombar. Estou capitulando comtigo. Vamos
combinar bases novas sobre que deve assentar a nossa felicidade. Todos
os casamentos so felizes, quando entre marido e mulher se d uma
perfeita harmonia de vontades. Negas isto?

--No.

--Da desharmonia resultam a desordem domestica, as contrariedades
pequenas, as desavenas constantes, e tudo isto porque se no entendem,
nem se combinam. Entenderem-se e combinarem-se  fazer uma alliana de
se no importarem reciprocamente das suas aces.

--No entendi, Luiz; ou entendi uma infamia de que te no considero capaz.

--Pois que entendeste, Marianna?

--No ouso dizl-o.

--Eu me explico, e bem vs que o fao com toda a serenidade. Serei muito
teu amigo, no teremos nunca o menor desmancho no nosso bem-estar, se tu
quizeres ser indifferente ao meu procedimento com as outras mulheres.

--Serei, Luiz; mas com uma condio...

--Qual?

--Conduz-me a minha casa, e depois torna para aqui, ou faz o que quizeres.

--E qual  o teu fim?

--Educar os meus filhos.

--Naturalmente, depois, lembravas-me que a tua casa no podia soccorrer
as minhas dissipaes...

--Esse receio fica-te bem; mas  vileza que ainda me no lembrou.

--E porque no queres tu ser feliz como eu posso sl-o? Eu pago
tolerancia com tolerancia....

--Isto no se cr, Luiz! Dar-se-ha caso que tu vens...

--Embriagado?

--Sim...

--No venho embriagado, Marianna; e a prova de que o no estou,  que se
fosses um homem, n'este momento, tinhas a cabea partida nas lages da rua.

--Pois esquece-te que sou mulher, e faz-me essa esmola.

--Basta! no lhe soffro nem mais uma palavra, senhora! Recolha-se ao seu
quarto!

Marianna ergueu-se. Tal era a placidez do seu semblante, que nem os
gritos brutaes de Luiz lhe alteraram a pallidez. Passou por diante
d'elle com os olhos no cho. Entrou no seu quarto, onde encontrou
chorando a escrava que a crera, e lhe crera os filhos. Era uma amiga.
Lanou-se nos braos d'ella, suffocando os soluos.

Luiz da Cunha sahira.

--No se deixe morrer, minha senhora--disse a escrava.

--Deixava-me morrer, se no tivesse os meus filhos. Quero viver para
elles e...  preciso fugirmos, Genoveva.

--Fugirmos!

--Sim, seno, este homem mata-me, ou eu morro de desesperao.

--Como ha de a gente fugir? No conhecemos aqui ninguem...

--Pela manh has de levar ao correio uma carta para o ministro do Brazil
em Vienna. Vou escrevl-a. Se vires entrar esse homem, avisa-me...

A carta para o ministro brazileiro seguira o seu destino. D.
Marianna, se podsse rehavl-a uma hora depois, sustaria o seu
desesperado projecto de fuga. A infeliz illudira-se. O corao d'esta
mulher no deixra sahir o amor pelas feridas das incessantes
punhaladas. Luiz da Cunha, o homem de um anno antes, imaginra-o ella
sob a influencia de algum diabolico prestigio da danarina. No podia
conceber semelhante mudana! No podia capacitar-se da ignominiosa
tolerancia que elle lhe offerecra! Amava-o ainda.

Mas elle no a deixava muito tempo illudida. O seu proceder parecia um
proposito para desenganal-a. Indifferena, desprso, e at abandono de
dias inteiros, seguiram-se ao ultimo dialogo que lhe ouvimos. J no
rebuava a affronta, nem pretextava sahidas.  hora do dia, embalava-se
com Carlota nas gondolas de Rialto, e mostrava-se com soberba
impudencia, ao lado d'ella, ao fim da tarde, na Ponte dos Suspiros.

Marianna j no ignorava nada. A preta dedicada para apressar a fuga,
como taboa de salvao para sua ama, espreitava Luiz, ou pagava a quem
lhe espionasse os passos, que no careciam de espionagem. Cahira
extenuada de soffrimento no leito, ao p do qual seu marido passava o
tempo necessario para calar umas luvas, quando sahia de manh para vir,
se vinha, jantar  noite. Luiz da Cunha aconselhava-lhe os passeios, e
para isso lhe vestira um jokei que a acompanhasse, e lhe dra plena
liberdade de gosar, na sua ausencia, no s os prazeres do lympido ceo,
mas os da terra que valiam bem a pena de sahir dos amos que a molestavam.

Uma ironia por consolao! Um escarro nas faces cadavericas da infeliz!

Uma tarde, quinze dias depois que D. Marianna escrevra ao ministro
brazileiro, chegou a Veneza o primeiro addido d'aquella embaixada, e
procurou no hotel uma senhora brazileira.

Marianna ergueu-se para recebl-o, e soube que era elle o encarregado de
dispor a sua sahida para o Brazil. O addido, em poucas horas, colhra
cerca de Luiz da Cunha as precisas informaes: assim lh'o ordenra o
ministro para no annuir imprudentemente ao capricho de uma senhora
casada. As informaes eram muito peores do que a ultrajada esposa
fizera saber ao ministro, velho amigo de seu pae, e de seus tios.

Um navio estava prestes a fazer-se  vela para o Rio de Janeiro.
Marianna apenas tinha tres dias para preparar-se. Na sua situao, tres
horas seriam de sobejo. O addido devia retirar-se de Veneza, quando o
navio tivesse sahido. Marianna no hesitou, nem pediu delongas.

Acabava de sahir o addido, quando Luiz da Cunha entrou. A brazileira
estava chorando.

--Minha amiga--disse Luiz--tinha teno de jantar comtigo; mas, se me
ds mlho de lagrimas, retiro-me.

--Eu  que no aceito o teu convite. Retira-te, se queres, que eu no
janto hoje.

--N'esse caso, no jantarei s... Como ests?

--Boa.

--Optimo. Mas essas lagrimas no se esgotam...

--So lagrimas de alegria.

--Ainda bem. V se te reanimas para irmos a Milo, na semana proxima.

--Estou reanimada.

--Melhor. E depois vamos a Turim, a Berlim, a Napoles, _et cetera_.

--Iremos. Estas viagens regalam-me o corao.

--Estou gostando do teu joco-srio! Vaes-me sahindo uma _pretenciosa_
falladora.

--Estarei calada, Luiz!

-- melhor.

--Mas, se me no levas a mal, sempre te farei uma pergunta...

--No ha pergunta sem resposta... Venha de l isso.

--Como se pde ser homem to cruel?

--Como se pde ser mulher to impertinente?--respondo, perguntando.

--No tenho mais que te diga.

--Falla, se tens l mais alguma pergunta de algibeira.

--No tenho nenhuma; comtudo... se tens paciencia, has-de ouvir-me. Eu
tenho filhos, de cujo patrimonio sou administradora.

--J sei.

--Os meus filhos podem pedir-me contas d'esta administrao.

--No digas mais nada, que eu j te matei a charada no ar. Queres dizer
que eu gasto mais do que os rendimentos da tua meao. Dir-te-hei que
no consinto que me lances em rosto a minha dependencia da tua fortuna.
Isso  vil.

--Sou vil,  o que se segue; mas repara, Luiz, que te no lancei em
rosto a tua dependencia.

--A cousa bem traduzida l vai dar. Queres despedir-me do commercio de
bens?

--No: o peor  se te despedem...

--Quem?! Que quer isso dizer?...--replicou elle, colerico.

--Nada...

--Minha querida senhora, para no irmos adiante, fiquemos aqui... At
manh...

--At manh, Luiz.

No dia seguinte, o conviva de Carlota Gauthier no veio a casa. A
escrava soube que o marido de sua ama sahira para Peschiera com a
franceza, que disse, no hotel, voltaria passados tres dias.

O immediato era o dia aprazado para a sahida do navio.

O addido conduzia de madrugada D. Marianna, e sua escrava, a bordo.
Genoveva levou sempre sua ama desfallecida nos braos. Dizia-se a bordo
que a pobre passageira parecia morta, e no desmaiada.




XIV.

CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.


Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao p
do pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas
creanas, embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como
a brisa tpida que os arremedava no bulicio da ramagem.

Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia,
os tinha j prevenido contra os perigos do local, ao vr os vultos
teimou que entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com
saudade para as deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como
arrastado, na direco do barco.

Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz
que fugisse.

--Fugir a que? So tres, e eu s fujo a trinta.

--Foge Luiz, que eu suspeito...

--Que suspeitas?

--Que algum d'elles ...

--O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecl-o.

Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos
marchavam para elle to serenos como se tivessem ouvido o tinnir do
gatilho..

--Parem, quando no mato-os!--exclamou Luiz.

--Pois atira, miseravel!--disse um dos tres.

Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou, aperrando-os
de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.

--Estou desarmado, covardes!--gritou elle, quando as primeiras pauladas
de cacetes curtos lhe estalavam na cabea, nos braos e no peito.

--Chama os teus sicarios do Brazil!--dizia o antigo amante de Carlota,
sovando-lhe a cara de pontaps, quando elle, j em terra, coberto de
sangue, perdra o accrdo.

A danarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera
ao largo, graas  prudencia do barqueiro.

Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla
pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de
descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.

Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. No vendo os
vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforo inutil
que punha para erguer-se sobre os braos macerados. O barqueiro veio em
auxilio da consternada moa. Tomaram-no entre os braos, deitaram-no na
pra do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.

Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as foras lh'o
consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o,
indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova,
por causa d'ella.

Em Veneza, Luiz da Cunha que no dra, durante quinze dias, noticias
suas a Marianna, com quanto se no doesse muito de tal falta, achou que
era prudente procural-a, que no fosse ella, desesperada, sustar no
Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.

No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma
madrugada, havia treze dias, e no voltaram.

Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo,
menos os bahs d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o
esclarecesse! Chamou o criado, que ficra com as chaves, esperando que
lh'as recebessem:

--Com quem sahiu a senhora?

--Com um cavalheiro.

--Seria de Veneza?

--No, senhor: vi-o aqui entrar uma s vez, antes d'ella sahir com elle.

--E os bahs, quem os transportou?

--Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.

Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um
navio com carregao de vidros para o Rio de Janeiro.

A sua situao pareceu-lhe embaraosa! A primeira ideia foi seguir
quanto antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu
ternamente que o no acompanhava, porque no tornava ao Brazil. Ainda
assim, renunciando generosamente o amante  esposa, a bailarina
aconselhava-o que a seguisse, embora ella ficasse devorada de saudades.

Esta sublime abnegao impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos
gritos do presentimento, as consequencias da appario de Marianna,
ssinha, aos seus parentes.

Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que
ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna,
forada pela saudade, poderia de l chamal-o, pedindo-lhe perdo.

Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade,
no azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente
como se uma nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a
ultima libra dos dez contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes
pagamentos  bailarina, de cinco mil francos cada mez. Contava-lhe com
ingenua candura a sua vida, os seus haveres, e at desceu  pueril
pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem economias, em quanto
lhe no chegava uma ordem para saccar em Londres um cabedal mais duradouro.

Carlota,  palavra economias sentiu que o corao lhe fazia no peito
uma pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.

 maneira do corao, a danarina resolveu fazer tambem uma pirueta na
primeira occasio.

A occasio veio-lhe ao encontro dos desejos. Um conde austriaco
hospedra-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes
discricionarios para convencer a moa. A proposta foi aceita,
estipuladas as condies, e Carlota desappareceu com o conde na estrada
que devia conduzil-a a Paris.

Luiz da Cunha--diga-se a verdade--no sentiu muito a ausencia da sua
companheira de quarto. A paixo diminuira na razo directa das libras. A
sensualidade ia-lhe arrefecendo  maneira que o espirito se lhe occupava
em meditaes sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de
contacto entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde.
Teve a imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e
concordou, o mais racionalmente que pde, que aquellas duas eram d'um
estofo muito superior s outras.

O peor era a pobreza que o ameaava!

Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham
cahido na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de Joo da
Cunha, dos quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario
com que sahira do Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e
nenhum amigo, nenhum credito, nenhuma esperana que lhe no deixasse
antever o futuro pela face da indigencia. Angustiado no dilemma,
resolveu abandonar a Europa, que to cara lhe era, e vestir uma mascara
de bronze, como se precisasse de encobrir a vergonha, para lanar-se aos
ps de sua mulher, se  que ella lhe no correria aos braos, banhada em
lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execuo immediata,
porque as ultimas libras urgiam.

Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a fora diabolica que
o empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se 
prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia
n'um navio de escala para Buenos-Ayres.

N'esta viagem, no ha memoria d'alguma aventura digna de meno na
biographia do filho de Ricarda. Contaram, porm, os seus companheiros de
viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprso com que
a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi
assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante o dia, e
passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros
tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se
na sua camara.

V-se que o cynico no tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas
no era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo
colerico, o concentrado rancor do algoz que no pde estalar os grilhes
que o condemnam a morrer no desespro da immobilidade.

Pois a hora do remorso no sora para este homem?! Ainda no. Talvez
nunca. O remorso  o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactura uma
alliana insoluvel com o demonio, cuja existencia no  para mim uma
fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cdo com pesar ao impulso,
encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe
no corao humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da
virtude. Mas, perdidas as noes do dever, raspada de sobre o corao a
palavra honra a lucta j no existe, o anjo bom fugiu espavorido, o
remorso  impossivel.

E era-o para Luiz da Cunha.

Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre,
sequioso de prsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a
victima desprevenida.

Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. S, imaginra
todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a
vingana de Marianna, privando-se no s da tutella dos enteados para
diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria
meao. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se
de qualquer modo era a sua teno, se uma bem estudada impostura o no
reconciliasse com Marianna.

Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no
mesmo hotel viu o nome de Francisco Jos de Proena. Saibamos de
passagem que Proena era um official do exercito portuguez, que seguira
as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho
d'um brigadeiro, visitava-se com Joo da Cunha, e fra da roda de Luiz.

O marido de Marianna encontrra-o no Rio de Janeiro, luctando com a
adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de
amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para
tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proena.

O portuguez fra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido.
Civil, bem morigerado, e prudente, colhra muito na escola da desgraa.
Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relaes, alcanou aura de
honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico no
deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que
germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em
Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as
mercs, e os sacerdotes da apotheose.

Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu
protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua
mulher.

Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista
o nome _Francisco Jos de Proena_. Guiaram-no ao quarto d'elle.
Proena, com o corao alvoroado da surpresa, abraou Luiz.

--Tu aqui!...--exclamou elle.

--No imaginei encontrar-te fra do Rio!

--Vens de l? J vejo que no.

--Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?

--Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.

--Se ignoro tudo!... Sei que Marianna est l...

--Sabes que ella est l? E sabes como ella est?

--Doente, talvez...

--Doente, no... morta.

--Homem! isso  extraordinario! Tu no mentes?

--A brincadeira seria de mau gosto. No minto, Cunha. Pensei at que o
saberias.

--Isso  incrivel! Pois Marianna est morta?!

--E sepultada ha cinco mezes.

--Que infernal vida a minha!

As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoo no se
differenava nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.

--Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...

--Matei...

--Tardio remorso!...

--Conta-me tudo.

--Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a
esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu no
vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna no recebia visitas, nem
os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vl-a, no o consegui. Um
d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era to
nobre que no pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua
fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do
ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de
indignao. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa.  carga
cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a
administrao da casa de seus filhos, para que tu no viesses continuar
a dilapidl-a. Tua virtuosa mulher pediu que a no mortificassem, visto
que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna
tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi
mudl-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens
bem simples a historia, e realmente te digo que  uma historia bem
fertil de lances desgraados... Dste um pontap na fortuna, Luiz, e com
esse pontap arremeaste tua mulher  sepultura...

--Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehenses, alm de inuteis, no
me soam bem.

--Desculpa-me se te fallo com franqueza to rasgada. O facto de seres
meu credor no me humilha at ao silencio approvador dos teus crimes.

--Os meus crimes... no so meus.

--Pois de quem?!

--D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente
perdido!...

--Comparativamente ao que perdeste... ests.

--E pobre...

--Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis que te devo, e o
pouco que tenho acima d'esse capital  tua disposio.

--Minha mulher fez testamento?

--No. Tudo que tinha pertence aos filhos.

--Mas uma escriptura _causa mortis_ que fizemos?

-- nulla: foi logo annullada. D. Marianna no podia dispr do que era
dos filhos: podia apenas legar-te a tera; mas no testou. Aconselho-te
que no vs ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos
teus enteados. No vs, que sers morto. O teu nome desperta odios
n'aquelles mesmos que recebeste nos teus jantares. Tens um s amigo, que
se conda de ti. Sou eu.

--E qual ser o meu futuro?

--O que podres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, no.

--Em que negocias?

--Negociei em escravos.

--Tens sido feliz?

--Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.

--Queres tentar comigo uma empreza d'essas?

--No. Hoje o meu commercio  menos rendoso, mais pacifico, supposto que
mais laborioso.

--No sei o que so emprezas laboriosas...

--Tenta; pde ser que a fortuna te d ainda outro abrao; mas as costas
d'Africa esto coalhadas de negreiros.

--Que dinheiro dispensas?

--Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te
empresto... como quizeres.

--Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?

--Pdes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido.
Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em
Guin.....................................................................

..........................................................................

N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o
adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as
condies da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os
dedos scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro no
pescoo. Ouvira, silencioso, o contracto, e seguira-o at  porta do hotel.

Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia
uma entrevista, a ss, atraz da igreja das Mercs, ao escurecer.
Recommendava o bilhete um segredo inviolavel.

O temerario foi, sem consultar Proena, e encontrou o homem que vira em
casa do negreiro.

--O senhor quer ser rico?--perguntou o mulato.

--Quero.

--Ninguem responde com mais conciso, nem mais depressa. Se quer ser
rico, siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros
morrem no poro: os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por
cabea.

--Pois que rumo devo seguir?

--Primeiro; o senhor  capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?

--Sou.

--No o sendo, a sua existencia valer menos que um preto asmatico.
Segundo: tem coragem?

--Tenho, penso eu.

--Quer entrar comigo n'um commercio que  um pouco menos infame que o da
escravatura? Quer ser pirata?

--Pirata! O senhor est a zombar comigo?

--No tenho mais que fazer! Chamei-o mesmo de proposito para zombar com
o senhor! Ora vamos, quer ou no?

--E o senhor assegura-me que se enriquece em pouco tempo?

--Asseguro-lhe que nos fazemos n'um momento proprietarios da propriedade
que outros adquiriram em muitos annos.

--E os contratempos?

--Os do mar?

--No digo isso: a defeza que pde ser mais poderosa que o ataque...

--Ah! o meu amigo raciocina assim? J vejo que me no serve... At  paz
geral, meu caro senhor. Segredo, ouviu?

--Mas oua, que eu no me deliberei ainda. No me julgue algum miseravel
poltro. Quer o senhor entrar no meu quarto, e fallemos l?

--Ento, entre o senhor no meu, que  mais perto. Cear comigo, e
dormir, se quizer, com a melhor das minhas escravas.




XV.

LOGICA DO INFORTUNIO.


Luiz da Cunha aceitra a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande
espanto de Proena, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato,
explicando esta nascente amizade por certo mysterio, que elle no dizia,
porque no soubera inventl-o. Proena, suspeitando as intenes de
Cunha, porque lhe no eram estranhos os boatos que corriam muito
deshonrosos para o mulato, deu-se pressa em sahir de Buenos-Ayres com a
sua carregao de cortumes para a Bahia.

Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo.
Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro
dois navios com aspecto mercantil, iando a bandeira da republica
argentina. Costearam a provincia do Rio-da-Prata at ao Paraguay. Ahi
fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.

Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola
em dois navios de alto bordo que lhe passavam  pra. A manobra foi
rapida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos
navios, que lhes fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou
uma ameaa de morte aos hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que
zumbiu nas gaveas.

Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao claro da artilheria
viam-se d'um lado e d'outro, como vises phantasticas, as faces
enraivecidas de aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos
aggredidos resolutos  morte com bravura.

O mulato dra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava
da lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, no obedecra.  que uma bala
lhe fizera  ppa um rombo. Os bravos tinham descido ao poro a
calafetarem inutilmente a fenda.

Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da
victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.

-- abordagem!

Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os
netos de Cortez no admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis
ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para
puxarem o carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que no
tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu
companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra
a covardia. Sem a fora moral da honra, o musculo do infame ennerva-se,
e a existencia, que devia ser-lhe um pso, -lhe ainda cara! Segredos.

Os prisioneiros foram levados s Antilhas para serem garrotados. Alguns
foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettra aos capites o resgate da
sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.

Chegra a nova  Bahia, onde Proena negociava. No se fallava em Luiz
da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de
educao distincta, fra prso, e demorra com astuciosas promessas o
seu processo.

Proena no tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau
da infamia. Apressou-lhe quanto pde soccorros, e, calando o nome do
prso, solicitava a sua liberdade.

Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram
descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se
d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador no consentira,
sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a
eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes
que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha
soubera dar-se prestigio, porque adivinhra a indole da authoridade.

Foi processado e condemnado a tres annos de priso em Porto-Rico. Tres
annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para
esse homem, desamparado de todos, forado a pedir esmola, como um
ladro, pela grade da enxovia! No ter elle, ao menos, a coragem do
suicidio?!

No tinha.

O governador mandava-lhe umas spas, e umas calas velhas. Uma senhora
desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os
lenoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente
resignao do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma
candeia.

Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de
Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de
ferro umas couves,  o mesmo que pagava danarinas a cinco mil francos
por mez;  o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de
reis. E, comtudo, no tem ainda trinta annos! Que futuro!

Proena vem a Porto-Rico, ao quarto mez de priso de Cunha. Procura o
governador, com valiosas cartas de recommendao, e historia-lhe
vagarosamente a vida do prso. O governador espanta-se de tanto crime, e
cr na magica influencia de Satanaz sobre o desgraado. Uma das
circumstancias que mais o pungem  o illustre nascimento de Luiz da
Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dr collectiva da raa: o vexame e a
condolencia de uma sympathica compaixo. Vencido pelas instantes
lamurias de Proena, quiz ser arbitro na liberdade do prso, assim como
o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da
Cunha, com cinco mezes de carcere,  solto. Respira o ar da liberdade, 
senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro,
sem incentivo algum s foras que lhe sobejam ainda para commetter
difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A
que reservatorio do inferno ir elle invocar um outro genio?

Que lhe falta?

Luiz da Cunha fra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou
n'uma sala particular, onde encontrou Proena. No crou: a commoo
forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de
encontrar um homem que, de certo, no viera alli para o deixar sem
dinheiro.

O expatriado  que no podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de
Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pso da
ignominia.

--Vieste salvar-me?--disse serenamente o pirata infeliz.

--J ninguem te salva... Vim alcanar a tua liberdade para
experimentares uma nova posio social. Cahiste muito no fundo. J no
ha brao que te levante.

--Parece-me que no. Venho de estudar na solido da masmorra.
Philosophei o melhor que se pde com os meus principios experimentaes.
Conclui que sou uma machina. No tenho vontade, nem aco. Quero vr
onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados
da vida, que morte ser a minha. Tenho trinta annos. Proena! como se
pde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!

--E que sers tu?!

--Eu sei!... o mais natural na minha situao  pedir uma esmola.

--E s capaz de pedil-a?

--Que duvida! Morrer de fome  escolher de todas as mortes a mais
indecente.

--E gracejas!

--Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me
reduziu a isto?! Zombemos com ella.

--Mas no ha outro recurso contra a fome seno pedir esmola?

--Ou roubar.

--E o trabalho?

--Ah! sim... no me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu no
sirvo para nada, no tenho fora nem vocao.

--Adquire-a, Luiz. Tu no me conheceste em outro tempo? Imaginaria
alguem, ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e
mais tarde um negociante de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me
algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoo. No pedi
esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mos... no vs estas durezas?
Esto calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre
como esmola. Trabalha, Luiz.

--Diz-me l em que...

--Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupaes, e recebes
uma parte grande dos meus interesses.

--No te sirvo de nada, Proena. O que fazes  dar-me uma esmola.
Emprestas-me algum dinheiro?

--Que fars com esse dinheiro?

--Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...

--Feliz! Quem far a tua felicidade em Portugal?

--Uma mulher.

--Como Marianna?

--No me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa
infeliz... Eu no sou de bronze, Proena. Vi-me to afflicto uma noite
na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdo, cuidando que a via.
Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar...
Palavra de honra! no me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...

--Tu no tens remorsos, Cunha... No fallemos n'ella; concordo... O nome
d'essa infeliz sa mal nos teus ouvidos... e  uma profanao na tua
bca... Queres ento ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de
fazer feliz... Vejo que a desgraa tem comtigo momentos de zombaria...
Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia
de alguns mezes.

--s um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que
me emprestas... Ris-te?  porque no sabes os meus planos.

--Os teus planos... O que me faz rir  a facilidade com que te illudes,
a inexperiencia do que s, a intimativa com que te confias a uma
esperana imaginaria. Que mulher de Lisboa descer at Luiz da Cunha com
a sua riqueza? Estou fra de Portugal ha oito annos, e conheo a tua
vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro. Quem te no
conhecer em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao
ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de
immoralidades.

--Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.

--De Bacellar, justamente.

--Isso  um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.

--No sei se  um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo no
 calumniador. Todas as informaes confirmam as d'elle. O que ser
feito d'uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no
primeiro mez, trocando-a pelos amores da celebre Liberata?

--No fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu no creias que a
mulher que me ha de fazer feliz  justamente a que fugiu das
Commendadeiras?

--Vejo que  grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por
ti... Estar ella anciosa da tua chegada como Marianna?

--Ests impertinente, Proena!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?!
Marianna morreu; no posso dar-lhe vida; se podsse, dava-lh'a... Que
mais queres?

--Nada, Luiz... Que hei de eu querer?  que no acho natural a tua
felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.

--E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil
cruzados, depois que a abandonei?

--Se  verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse
cho fulminado de vergonha!

--Vergonha... de que?

--Ha em ti um defeito de organisao, Luiz!... Tu no s o homem moral.
Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da
sociabilidade. No te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre
tem a ferocidade nativa. Tu s uma aberrao, Cunha. Digo-te, com as
lagrimas nos olhos, que ests perdido, perdido para sempre... Receio
muito que encontres um cadafalso no teu caminho.

--Ests funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo 
desmentil-a... Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que
me combatam.




XVI.

TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PO!


Em uma tarde de Agosto de 1842, Assucena passeava ssinha entre os
renques de loureiros e amoreiras da sua quinta do Lumiar. Abria e
fechava com apparente distraco um livro, e, se lia, poucas linhas a
fatigavam.

Veste ainda de lucto pelos seus bemfeitores, ha tres annos mortos. Sobre
o leno de gorgoro que lhe cobre o pescoo, traz pendente um collar de
contas de azeviche com uma pequena cruz de pau preto, embutida de
lavores de madre-perola. Este adorno est em harmonia com o livro em que
l, e profundamente medita:  o thesouro de Kempis, a Imitao de Christo.

Sentra-se, lendo mentalmente estas linhas:

Cr-te indigno da consolao divina; mas sim merecedor de muitas
tribulaes. Quanto mais se compunge o homem, mais amarga lhe  a
sociedade. O bom no depara ahi seno incentivo para lagrimas. Ou pense
em si ou nos outros, reconhece que sem amarguras ninguem vive aqui. E
tanto mais angustiado se v, mais dos outros se compadece. As compunes
intimas, e a nutrio das dres merecidas, so filhas dos nossos vicios
e peccados; deslumbrado por elles, no temos vista para contemplar o
ceo. Se mais vezes pensares na morte, que na vida, fervorosa ser a tua
emenda. Se scismares nas penas do inferno e do purgatorio, e do corao
as temeres, ser-te-ho leves os trabalhos da vida, e no tremers de
susto. Fechra o livro, ergura para o ceo os olhos lacrimosos, e
murmurra:

--E serei eu grande peccadora, meu Deus? No terei eu seguido a vossa
santa lei? Terei deixado cahir a minha cruz, seguindo-vos?

Parra uma carruagem.

-- minha me!--disse alvoroada Assucena, sahindo-lhe ao encontro.

Rosa Guilhermina vinha triste.

--Estranho hoje a sua physionomia, minha querida me! Que ? teve algum
desgosto com o padrasto?

--No, filha... Como ests?

--Bem v que estou boa.

--Com lagrimas nos olhos...

--Foi de lr o meu querido livro... Faz-me sempre este bem.

--Que fizeste hontem, filha?

--O que fao todos os dias. Assisti s tres missas na capella; dei ao
meio dia o jantar aos pobres; de tarde rezei a via-sacra; depois, passei
um bocadinho aqui com o padre Madureira; tomamos ch  noite; rezei a
cora de Nossa Senhora, e deitei-me. Hoje fiz o mesmo; esperava minha
me, e o padre...

--Minha filha, eu entendo que s muito excessiva nas tuas devoes.
Padre Madureira j me disse que te fazia mal tanta religio. Tu queres
comprehender o incomprehensivel, e prejudicas o teu espirito... e a tua
saude.

--No, me. Eu no acho nada incomprehensivel na religio de Jesus
Christo. Leio muitos livros mysticos, porque no tenho outro recreio,
nem o quero; rezo muito, porque no devo ser ingrata aos beneficios que
Deus me faz, e peo  sua divina vontade continue a fazer-m'os. Com isto
no sou pesada a ninguem...

--Mas tudo que  de mais...

--Servir a Deus  sempre de menos, minha me.

--Mas ha cousas que denunciam fraqueza de razo.

--Em mim?

--Sim. Sei que vaes de noite acompanhar o viatico aos enfermos.

--E ser isso fraqueza de razo?

-- uma demasia de virtude que no fica bem a uma senhora de vinte e
dois annos.

--Porque?... Todos me tratam com tanto respeito...

--Mas... no fazes bem: pde-se servir a Deus com suavidade.

--Isto no me custa; mas, se a me no quer, no tornarei.

--E que inveno  essa de trazer as contas por fra do leno?

--Pensei que no importava trazl-as assim, ou de outro modo.

--De certo, no importa; mas poder alguem chamar-te visioneira.

--Alguem! Eu no conheo ninguem. O padre Madureira no me diz nada; a
me de certo se no ri de mim; os outros, ainda que me vissem, no me
envergonhavam com a sua zombaria... A me no acaba de crr que me no
importa nada o mundo?

--Nem queres que te fallem em cousas do mundo?

--Se me affligem, no... Queria dizer-me alguma cousa?... Vejo-a triste,
e quer desabafar comigo... Diga o que tem...

--Uma afflico que tu no imaginas... e no devo dizer-t'a...

--Se no deve dizer-m'a, terrivel cousa ! Ento, no posso eu
consoll-a...

--Se eu soubesse que te no affligias...

--Isso no prometto, me; mas, ainda que me afflija, quero soffrer comsigo.

--E se fr cousa que tenha mais relao comtigo de que comigo?

--Se tiver remedio, remedeia-se com o auxilio de Deus; se no tiver,
paciencia. O Senhor ha de dar-me foras e resignao... Mas que pde
ser? Alguma calumnia?

--Ninguem ousa manchar a tua reputao, minha filha.

--A minha reputao!... Ai! minha querida me, se soubesse o mal que me
faz quando pronuncia essa palavra...

--Pois porque no hei de pronuncil-a?

--Pelo amor de Deus, calemo-nos... Diga o que ...

--Tens animo, filha?

--Jesus que me aterra!

--Sabes que Luiz da Cunha est em Lisboa?

--Se o sei?... quem m'o havia dizer!...

--Tu descras, filha.

--Deus d-me animo... No  nada, minha me...  isso s que me queria
dizer?... Deixl-o estar... No tenho nada com elle...  feliz?...

--Muito infeliz... Vem pobre...

--Eu no pergunto se vem rico... Ser virtuoso? ter temor de Deus?

--Vem cheio de crimes. Dizem-se em Lisboa cousas horriveis d'este homem.
Casou muito rico...

--Isso j eu sabia, que m'o disse o padre Madureira.

--Mas abandonou a mulher...

--Coitadinha!...

--E morreu atormentada.

--Compadeceu-se d'ella o Altissimo... Foi feliz... Rezemos-lhe pela
alma, minha me.

Assucena ergueu as mos, murmurando o _padre-nosso_. A viscondessa
reparou na exaltao religiosa de sua filha, e capacitou-se das
suspeitas do padre Madureira. Estas exaltaes eram uma ameaa de algum
grande desmancho intellectual.

Assucena obedecia s mais extravagantes preoccupaes religiosas:
abraava todos os prejuizos populares: desauthorisava a razo, calando-a
com fanaticos receios. Dra-se na sociedade, como incentivo de risos, se
fosse possivel sustentar a vehemencia das suas crenas em publico.

Depois da orao, Assucena pediu silencio a sua me, que se retirou
maravilhada da impassibilidade da filha; mas segura de que as astucias
de Luiz da Cunha no poderiam nada contra ella. E era essa a sua afflico.

Padre Madureira viera  hora do ch. A neta do arcediago no dissera uma
palavra do dialogo com a viscondessa. Porm o padre, com grandes
rodeios, ia dar-lhe, dizia elle, uma espantosa novidade. Assucena
atalhou, dizendo:

--J sei. No fallemos em tal cousa.

--J sabe!! mas no sabe tudo, minha senhora.

--Sei tudo. Vem desgraado...

--E to desgraado que lhe pede uma esmola.

--A mim?!... Santo Deus! Como sabe elle que eu...

--Perdo, senhora D. Assucena. Attenda-me. Eu tive uma imprudencia; mas
o meu fim era justo e nobre. Quiz punir Luiz da Cunha para que a dr da
culpa lhe despertasse no corao sentimentos de honra. Fiz que elle
soubesse no Brazil, por uma carta minha, quem o salvra da ignominia e
do degredo, rehabilitando-o para o futuro com os meios necessarios para
experimentar uma nova estrada.

--Deus lhe perde... senhor padre Madureira... o mal que fez! Eu
perdo-lhe, e Deus Nosso Senhor me receba estas lagrimas em desconto dos
meus peccados.

--Luiz da Cunha--proseguiu o padre--depois de mil revezes, apparece em
Portugal, e encontra-se comigo, quando eu sahia do cro. Pergunta-me se
v. exc. ainda vive. Vacillo na resposta. Quero at fingir que no
conheo tal homem. Insta comigo para que lhe responda. Digo-lhe que
Assucena vive; mas no para o mundo. Quero vl-a--exclama elle--quero
pedir-lhe perdo!  impossivel--disse-lhe eu.

--Sim, sim,  impossivel!...--atalhou Assucena sobresaltada.

--Quer lanar-se-me aos ps... eu tento fugir-lhe... segura-me pela mo,
e exclama com desespro: tenho fome! estou ha tres dias sem po! d-me
uma esmola!

--Oh meu Deus!--bradou Assucena, escondendo o rosto nas mos.

--Eram horriveis as visagens d'aquelle infeliz!--continuou o
padre.--Disse-lhe que viesse a minha casa; dei-lhe de comer... Sahi,
deixando-o  mesa. Fui dar ordem n'uma hospedaria para que o
sustentassem, e mandei-o para l... Que  isto?--interrompeu-se
impetuosamente Madureira, tomando Assucena nos braos--Minha filha...

Estava desmaiada.

Os haveres da neta do arcediago estavam reduzidos  quinta do Lumiar.
Extremas economias permittiam-lhe pagar diariamente duas missas por alma
dos seus bemfeitores, dar jantar a vinte pobres, e sustentar-se com
muito pouco.

Assucena no aceitra nunca uma mealha de casa de seu padrasto,
remira-se com o seu pouco, embora sua me esgotasse todos os
subterfugios para melhorar-lhe as commodidades. Que poderia ella fazer
em bem de Luiz da Cunha?

Padre Madureira tinha apenas o seu mesquinho ordenado do cabido, como
beneficiado simples. Tambem no podia.

--Que faremos?--perguntou ella ao padre.

--Tenho pensado n'um meio; e no vejo outro.

--Qual? foi Deus que lh'o inspirou?

--Arranjarei quem empreste quatrocentos mil reis, com juros, e o
pagamento a prazos, hypothecando esta quinta. Com este dinheiro
alcanarei um emprego para Luiz da Cunha, longe de Lisboa.

--Sim, sim, longe de Lisboa.

--Dir-lhe-hei que  o mais que posso fazer-lhe.

--Sem dizer-lhe que eu concorri para isto...

--Farei a sua vontade.  conveniente que elle o ignore.

Dias depois, era despachado Joo Maria das Neves escrivo do Juizo
ordinario do concelho de Ribeira de Pena, na Provincia de Traz-os-Montes.

Joo Maria das Neves equivalia a Luiz da Cunha e Faro. O requerente
nunca subiu as escadas da secretaria. O seu agente foram os quatrocentos
mil reis da neta do arcediago.

Na ante-vespera da sua sahida de Lisboa, Luiz da Cunha quiz saber o que
era feito de Liberata.

Ao escurecer, porque no sahia de dia, foi  rua de S. Bento, e parou
defronte da casa n. 40. Viu as janellas occupadas por um rancho de
senhoras, e deduziu que Liberata j no morava alli.

Accendeu um cigarro na vela do tendeiro, que morava defronte, e como por
mera curiosidade perguntou quem morava defronte.

-- a familia d'um empregado.

--Aqui ha tres annos morava l uma mulher...

--Era boa rolha! chamava-se Liberata.

--Justamente... Que  feito d'essa mulher?

--Eu lhe conto o que sei. Depois que aqui  minha porta deram umas
facadas n'um tal Luiz da Cunha que morava no Campo Grande, e que lhe
comia a ella a mesada que certo figuro lhe dava, a mulher metteu-se com
um jogador que a trazia nas pontinhas. Chegou a ter duas seges a
bebeda![1] Vai, se no quando, a mulher adoece, e o tal
jogador nunca mais ahi veio. Esteve de cama onze mezes, vendeu tudo
quanto tinha, os trastes at fui eu que lh'os penhorei por cento e
cincoenta mil reis que me devia do gro para os cavallos, azeite, arroz,
&c. &c. &c.

    [1] Respeitemos a fidelidade.

--E morreu?

--Qual morrer! A mulher tem sete flegos como os gatos. D'alli foi para
o hospital acabar de se tratar, e no ha muito que me disseram que a
viram no Bairro Alto; mas mora  porta da rua, para no ter o trabalho
de subir e descer as escadas.  no que veio parar a tal matrona das
carruagens.

--Sabe em que sitio ella mora?

--Eu, graas a Deus, no ando por essas casas, mas quem me disse que a
vira foi aquelle barbeiro que mora acol! Se tem muito empenho em
sabl-o, isso  facil,

--Faz-me muito favor.

O tendeiro voltou, dizendo que Liberata morava na travessa da Agua da Flr.

Luiz da Cunha agradeceu cordialmente a indagao, e subiu pela travessa
Nova, mais absorvido que nunca na inconsequente trapalhada das cousas
humanas.

Ao voltar na esquina da rua da Rosa das partilhas viu uma mulher de
chale vermelho, saia branca, leno atado na cabea com as pontas em
grande lao para as costas, sahindo d'uma taverna abraada com um marujo.

Pela voz, de certo era ella, cantarolando um landum que outro marujo
arpejava na guitarra. Acabando a cantiga, o marujo phylarmonico, fazendo
um bordo largo de encontro a Luiz da Cunha, grunhiu:

--Ponha-se  capa, quando no vai a pique, s paralta!

Luiz da Cunha recuou.

--Canta Liberata... se no queres levar com a banza nos rizes!--tornou o
marujo, perfilando-se com o grupo.

E Liberata cantou outra copla das privilegiadas da travessa da Agua da
Flr.

Ella e os marujos sentaram-se na escaleira d'uma porta.--Vieram depois
outros marujos e mulheres em saia branca batendo as palmas, e saltando
s costas dos marinheiros, que as indemnisavam dos carinhos com amaveis
pontaps.

O escrivo do juiz ordinario permaneceu encostado  esquina da rua da
Rosa, at s dez horas. Os marujos debandaram, e Liberata recolheu-se
ssinha.

Luiz bateu  porta.

--Quem nos honra?--perguntou ella.

--Abre.

--Quem s?

--Abre sem receio.

--No conheo flamengos. Diz l o teu nome... Se s o patavina d'hontem,
vai-te com o diabo.

--Abre, Liberata.

--Eu conheo esta voz...--murmurou ella.

Abrindo a porta, recuou, exclamando:

--s tu, Luiz?!

--Em que estado te encontro!

--Que queres? tornei ao que fui... Nada de lamurias. Como tu me
conhecestes, isso  que eu admiro! Pois vs em mim algum signal da
mulher de ha tres annos?!

--Apenas te conheo a voz, e os olhos. Que  isso que tens na cara?
parece que te queimaram com vitriolo?

--Estas ndoas vermelhas?

--Sim.

--Eu sei c o que isto ? Est bom... no fallemos em mais nada, seno
mtto uma faca no peito. Eu j fujo de abrir a porta a ociosos que me
vem fallar na minha formosura, e nas minhas carruagens! Acabou... Nem
carruagens, nem formosura. O diabo o deu, o diabo o levou. Tu tambem
ests acabado! Disseram-me que estavas rico,  verdade?

--No: apenas tenho um bocado de po para cada dia.

--No te faas pobre que eu no te peo nada.

--Pois, Liberata, eu venho pagar-te uma divida do pouco que posso, assim
como a contrahi do muito que podias. Depois d'amanh vou empregado
para a provincia, queres vir comigo?

--Pois tu querias-me l assim?

--Quero... serei o teu enfermeiro.

--Olha l o que dizes!

--No me desdigo.

--Eu tenho este vestido que vs.

--Comprar-te-hei o que fr da primeira necessidade.

--Pois tu ainda gostas de mim n'este infeliz estado em que me vs?!

--Gosto. Ha uma unica pessoa que se parece comigo n'este momento pela
desgraa. s tu. Quero viver comtigo. Quero vr se a rehabilitao 
possivel para ambos ns.

--Agora creio que . Olha, Luiz, toda a minha philosophia desappareceu.
Eu no t'o dizia que sem dinheiro no ha philosophia? Sabes tu que tudo
isto me parece um sonho!... Ha mais d'um anno que me embriago todos os
dias para me esquecer... Hei de contar-te a minha vida... Eu no
esperava vr-te mais; mas v tu o que  o presentimento... Ainda no ha
quatro horas que eu dizia:--Que impresso faria eu n'este estado a Luiz
da Cunha! O que so as cousas d'esta vida!... At parece que recuperei
o som da palavra, fallando com o meu amante dos tempos felizes! Ai! quem
me dra ser bella para te agradar ainda! Diz-me c: esta machina no
ter concerto?

--Veremos.

--Eu era ainda bella se me tirassem da cara estas manchas vermelhas.
Sinto ainda a robustez dos trinta annos; o que me falta  o fogo da
alma... V se fazes de mim outra mulher, que eu prometto de fazer a tua
felicidade... No me vs a chorar? Isto  galante! Cuidei que chorara
pela ultima vez quando entrei, no hospital, pobre, e abandonada do
infame que me reduziu a este estado...

--No chores, Liberata... Vamos vr o que  o futuro. At manh.

--Pois deixas-me?! Vou comtigo j.

--No. Preciso illudir alguem.

Luiz da Cunha deixara alguns cruzados novos sobre uma banqueta de pinho,
e sahiu.

Liberata no provou somno. As lagrimas incessantes eram-lhe d'um
sabor novo. Nunca ella fra to infeliz como n'essa noite. Havia no seu
soffrimento alguma cousa que disputaria  alma do cynico um momento de
compaixo. N'aquella degradao no diremos que as lagrimas regeneram;
mas por isso mesmo que so inuteis, como o orvalho sobre a flr
arrancada e scca, a mulher que as chora,  bem que nos apiedemos
d'ella, mostrando-a como exemplo, mas que a infeliz no veja que 
mostrada com escarneo!




XVII.

AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.


E dez dias depois, Joo Maria das Neves tomava posse do cartorio
d'escrivo do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena.  escusado
dizer-vos que Liberata o acompanhra, e, ao decimo dia de convivencia
com Luiz da Cunha, eram visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia
macerada. Passado um mez, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas
cr de aafro, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba
de poder tanto no espirito d'aquella mulher, unica no mundo para elle,
unica pessoa que o no repellira, que se confira  sua vontade,
entregando-se-lhe sem condies.

O homem abandonado, s, desatado de todos os liames sociaes, revoca as
potencias da sua alma para consubstanciar-se no corao da unica pessoa
que o no abomina. Ha exemplos de affeies ferventes do salteador de
estrada para a mulher que o recebe nos braos; do que aguarda na enxovia
o dia do patibulo, do assassino por officio para a mulher que a chorar
lhe d esperanas de perdo. O instincto do sangue no adultera o da
sociabilidade. A ancia d'uma affeio recresce, quando o opprobrio vem
de todas as bcas pedir o exilio do execrado de entre os homens.

Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. No ha hypocrisia no
afan com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se
os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno,
sem outra convivencia, encontral-os sentados ao fogo, contando-se
mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes so saudadas com
estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro,
 necessario que ahi se amem, que ahi se reconheam, ahi se centralisem
na mesma aspirao, e no tenham de que se envergonhar, um ante o outro,
de infamias passadas.

Reconheceram-se, e amaram-se.

Pois no seria amor a soffreguido d'aquelles beijos? No seria amor a
anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais,
nos paos do concelho? No seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha
fallava de sua esposa aos cavalheiros da terra?

Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos
dos processos judiciarios. Valra-se d'um velho amanuense que tomra
sobre si a administrao do cartorio. Entretanto, o proprietario no
curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos,
que eram poucos.

Luiz da Cunha conhecra um contrabandista de Chaves, que lhe picra o
desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata no se oppunha ao
arbitrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso
contrabandista aventurra os seus capitaes, e outros contrahidos de
emprestimo em arrojadas emprezas.

--Se a fortuna no encravar a roda--dizia elle a Liberata--em dous
annos, iremos viver em Paris.

E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus
caprichos. O escrivo no curava do officio, e raras vezes pedia contas
ao regente. As suas continuadas excurses tornaram-se suspeitas; mas, no
concelho, ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia
das melhores sdas os arredores por preos modicos, e enviava para o
Porto e Braga valiosas carregaes. No fim de dous annos, o
contrabandista celebrava os annos de Liberata com um rico adereo
comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de Portugal por mais um anno,
visto que no achava doze contos dinheiro sufficiente para de Paris
metter, em grande, o contrabando em Portugal.

Tentra uma arriscadissima entrada de sdas, quando os guardas-fiscaes,
logrados sempre, velavam as fronteiras desde Mono a Verim.
Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o
contrabandista prso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que
possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante.
Choraram, abraando-se no carcere? No. A antiga amante do conselheiro
dizia a Luiz, sorrindo:

--Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui
buscar ao Limoeiro.  fado meu! O pior  no termos um conselheiro, que
nos d a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijes em casa, e muito
amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario
publico Joo Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes
de Lisboa reproduziram a accusao. Ia ser demittido, quando o ministro
se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns
quatrocentos mil reis...

O escrivo continuou funcionando. Vendeu o adereo de Liberata, e tentou
novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com
quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o
galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeio. Grudava um
bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a
perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lanava com um piparote
para a nuca o chapo sevilhano.

--Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!--dizia
o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivo estava remido do preo com que comprra a liberdade
dois anos antes. Resolvra dar o ultimo assalto  vigilancia dos
guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preo, que podiam augmentar
seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas
pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a
cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram
os bacamartes, com o contrabandista  frente. Liberata no se afastra
de ao p do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os
guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da
Cunha fugiu, e a destemida cavalleira, com a clavina despejada,
esporeava ao lado d'elle.

--Ests salvo--disse ella--mas eu estou ferida.

--Ferida! aonde?

--No peito... e creio que morrerei!

--No digas tal... Apeia-te.

--No, que ouo ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu
cahir, no me levantes, que me no ds vida.

Galoparam alguns minutos. Pararam. J se no ouvia o ruido dos cavallos
nas extensas veigas de Pinhel.

--Apeemos--disse Luiz.

--Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vs?

--Vejo sangue...

-- no corao que eu sinto a bala. Isto no tem remedio...

--Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.

--No posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.

--Isto  atroz!... No te posso salvar!...

--Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora  que as nossas
contas esto saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz
defender-te da morte do corpo.  um bom fim o meu! As mulheres
virtuosas... raras so as que assim morrem... Se me no encontrasses
perdida de todo, no poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos,
Luiz...  a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu corao... Como 
bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se
deixa... com tanta saudade.. Que dr!... o peor  deixar-te pobre...
e... s... no mundo.

Liberata expirou.

As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces
mortas d'essa mulher......

So quatro horas da madrugada.

Bateram  porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem  janella e
v um vulto disforme na escurido.

--Quem ?

--Um passageiro que pede a v. s. licena para poder enterrar o
cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.

--Eu no concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil.
No conheo o senhor, e no sei se se trata de esconder algum crime
debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e
depois fallaremos.

O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado
por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que
se no constipasse, que estava suado.

Era saber muito!

Luiz da Cunha pousou o cadaver na parede do adro. Ouviu passos. Eram
jornaleiros que sahiam para o trabalho. Chamou dous com promessa de boa
paga. Mandou-os abrir uma sepultura no adro. Desceu a depositar o
cadaver. Beijou-o na face. Assistiu ao attrro. Pagou aos operarios, e
montou o cavallo de Liberata, que farejava o sangue de sua dona.

--Ainda me no venceste, demonio!--Hei de vingar-me da sociedade que me
quebrou o ultimo amparo! Hei de vingar-te, Liberata!

Era um como rugido facinoroso esta exclamao.




XVIII.

A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.


Desde agosto de 1842, poca da appario de Luiz da Cunha em Lisboa,
Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte
que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de
resignao, e abandono  vontade divina.

Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a
misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque,
muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis at com a
sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do
visconde condoido, a uma distraco em viagem. Assucena recusava-se, e
rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua me.

Queriam adivinhal-a, e no achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a
sua devoo era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com
que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta
noite.

As admoestaes no aproveitavam nada. Esperavam todos os dias
encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a
julgassem, era alguma aco peccaminosa, que desmentisse a rigidez do
seu ascetismo.

Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre  Virgem Me que
fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnao eterna,
descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.

E seguiram-se assim, sem alterao para Assucena, os dias de seis annos.
Em 1848 morreu a filha do arcediago quasi repentinamente: mas desde
muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma
quinta no Minho, unica disposio que a mulher de Jos Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve
passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe
trouxesse um tabellio.  solemnidade e bom tino da supplica, no
resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em
quanto vivo, com a condio de elle fazer cumprir o legado de tres
missas diarias: uma por alma do conego Bernab Trigoso; outra por alma
de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua me. Por
morte do padre, a quinta passaria  Santa Casa da Misericordia com as
mesmas condies para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava
para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou,
supplicou, mas no conseguiu demovl-a do proposito.

--A minha sahida d'esta casa--dizia ella-- o maior sacrificio que eu
posso fazer. Deus m'o acceitar, porque no servio de Deus me sacrifico.
Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para
os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu
bemfeitor.

--E deixa o seu bemfeitor com tamanha presena d'espirito, senhora D.
Assucena!

--Deixo-o com a mais violenta dr de corao.  o cilicio com que
martyriso o meu espirito. Deus me levar em conta esta renuncia da
convivencia com o meu bom amigo.

Madureira no podia constrangl-a, receando abreviar uma loucura
irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no
Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a,
alargando-lhe o corao pela amplitude do co, que, n'aquelle local,
convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia,
que deve ter precedido a das dres terrenas.

A quinta de Caldellas  um eden. As aguas prateadas do rio Homem
banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franas das acacias,
enastradas no salgueiro, suspira a virao rescendente do perfume das
flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor
crera alli tudo que a inveno pde realisar de mais vioso, de mais
lympida frescura, de mais poetico devaneio.

O edificio  antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escla,
respigada em todos os modlos, e acizelada pela phantasia do que ahi
quizera eternizar debaixo d'esse formoso co os prazeres innocentes
d'outras eras, d'outros idilios que raros coraes concebem hoje.

Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares,
outr'ora confidentes de segredos que a mo do amor lhes entalhra na
casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.

 essa a herana da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em
deliciosos instantes a padre Madureira.

Chamavam-no a Lisboa as suas obrigaes clericaes, e o quasi abandono em
que deixra a quinta do Lumiar. Fra, promettendo  lacrimosa Assucena,
vir ahi passar todos os estios. Deixra-a acariciada pela velha serva
que j o fra do conego Trigoso. Dispz o arrendamento da quinta para
evitar  nova possuidora canceiras d'administrao. Afflictivo fra
aquelle adeus! Assucena dos braos d'elle corrra a lanar-se aos ps da
cruz.

E, depois, o oratorio, a capella, as devoes eram a sua vida. Ninguem a
encontrava fra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas
atravz de um vo negro, no cro da capella em dias santificados.

Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais,
no para ella que, toda absorta em Deus, no tinha ensejo de comparar-se
com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto,
lhe observava os gestos, os temores pueris, as vises beatificas, e at
a imaginaria convico de que o conego, em frma de cherubim, a visitava
em sonhos.

E, se acontecia descer,  tarde, s margens do rio, sentia refrigerar-se
no corao, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza,
punha a mo no seio que se agitava em estranhas commoes d'um
sentimento incognito, de uma saudade inexprimivel. E, de repente,
ao riso succediam as lagrimas;  instantanea frescura das rosas da
face a pallidez do susto. Assucena fugia, dizendo que offendra o Senhor
com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluando a cada
vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.

Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia.
Empregou uma religiosa severidade para arrancl-a  mystica exaltao;
mas era tarde. O disparate principiava nas devoes de Assucena. No
queria entrar na capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que
vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno
de duzentos annos o fundador d'aquella casa.

Um habil confessor no podra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa
senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixo desditosa,
franqueava-lhe as portas do mundo para que se no perdesse na regio das
chimeras. Assucena respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela
explicao das lagrimas e do silencio, gritava pela misericordia divina.

Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que
no tornaria a vl-a seno douda.

Previra bem.

Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena
estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque
em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos,
conservados ainda nos seus bahs de educanda. O padre respondeu com o
pasmo e com as lagrimas  gargalhada.

--Porque chora?--disse ella, com tristeza.

--Porque choro? Oh minha filha!... no me pergunte porque choro...

--Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraado tinha
fome...

--Quem?

--Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me
mordeu no corao. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o
infeliz! A deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... No quero que
ninguem me vingue...

--Assucena!...

--Se eu fosse outra, procurava-o na cada... Fui eu que o abandonei
primeiro... quando o meu padrasto o pz a ferros... Que me importava a
mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado
este abandono!?...

--Isto parece incrivel, meu Deus!--exclamava o padre, voltando a face
dos olhos abrazados de Assucena.

--No me fuja, senhor padre Madureira. O senhor no tem culpa nos meus
infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraado,
e que lhe deu um bocado de po, quando elle disse que tinha fome...
Oua-me... Onde est Luiz?

--No sei, senhora.

--Pois eu quero vl-o para perdoar-lhe...

--O seu perdo no melhora os infortunios d'elle. Deus  que perda...

--Sim, sim, Deus...

Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: Deus! Deus! Madureira
seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados
no pavimento, diante do oratorio.

Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da
gta coral. Sentou-a ao p de si, e disse-lhe com voz tremula de
compunco:

--Minha filha... Venha comigo para Lisboa...

--Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.

--Luiz da Cunha?

--Sim.

--Viu-o alguma vez n'estes sitios?--perguntou o padre suspeitoso.

--Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no porto pela parte
de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.

--Fallou-lhe?

--No; nem elle podia vr-me... Tem as barbas at  cintura; vestia uma
jaqueta de pelles, e ia to triste, to macilento!... Teria elle fome?

--E se elle lhe pedisse de comer?

--Dava-lhe tudo quanto tenho! Para que quero eu esta casa, esta quinta,
estas cadeiras, esta camiza, se eu morro muito cdo?! Que venha, e eu
dou-lhe tudo! No quero que o persigam, j disse! Hei de accusar
diante de Deus quem o matar!

..........................................................................

Padre Madureira viveu na quinta de Caldellas alguns mezes. Quando se
retirou, deixou Assucena aos cuidados de um egresso, vindo de Lisboa por
escolha d'elle. Era irremediavel a demencia. Assucena recusava receber
facultativos, e irritava-se em frenesis quando lhe pediam que se
deixasse visitar por um medico. Se fugia  vigilancia do egresso, ia ao
porto fitar o ouvido; ouvindo tropel de cavallo, espreitava;
desenganada da sua louca esperana, sentava-se na pedra, chorando com
mavioso mimo, com infantil resentimento, at que o seu guarda,
inventando promessas, a conduzia a casa.

E nunca a to bella alma d'aquella mulher resurgiu das trevas!

Aos longos dias da desgraa seguiu-se a longa noite da demencia!




XIX.

UM VEIO NOVO A EXPLORAR.


E Luiz da Cunha?

Deixra Liberata na sua ultima paragem, e fra ao concelho de Ribeira de
Pena exercer o seu officio. Os lucros de dois annos de contrabando
perdra-os na fatal tomadia. Estava, outra vez, pobre: faltava-lhe a
coragem animadora de Liberata; cahiu n'um estupr moral, em que o
pensamento do suicidio muitas vezes lhe esvoaou sobre o cabo do punhal,
sem poder entrar com elle no corao. Luiz da Cunha no podia aniquilar-se.

Os jornaes gritaram contra o empregado publico, de novo contrabandista.
O ministro, que j no era o mesmo que o despachra, demittiu-o.
Demittido, desencadearam-se contra elle as malevolencias do concelho,
onde nunca praticara erro de officio, que no dirigia, nem extorso, que
no precisava. Retirou-se para o Porto, onde chegou na memoravel noite
da resistencia  contra-revoluo de 9 de Outubro de 1846. Associou-se
ao motim popular que prendra o duque da Terceira. Deu morras ao
ministerio reaccionario, indicando-se victima dos Cabraes.

Entrou no servio da junta governativa, foi tenente quartel mestre d'um
batalho de artistas, alcanou o despacho de director d'uma alfandega da
raia, e distingiu-se com bravura em Torres Vedras, e Val-Passos.

Quando os hespanhoes interventores entraram em Valena, o tenente
quartel mestre arrostou com impotente heroismo o collosso. Metteu-se
debaixo das balas, e as balas, cruzando-se-lhe em redor,
respeitaram aquelle homem, que parecia ter o sllo invulneravel do
primeiro assassino, a prerogativa de Caim.

Desarmada a junta suprema, Luiz da Cunha ficou no Porto, vivendo de
pequenos emprestimos que alguns amigos politicos lhe faziam, e de
pequenas esmolas que algum membro da junta patrioticamente lhe dava.
Assim viveu at 1850, na agua furtada de uma estalagem da rua de S.
Sebastio, d'onde foi expulso porque no pagava. Casualmente, deparou um
seu conhecido camarada que servira a junta, como sargento de cavallaria.
Convidado por elle, foi ser seu hospede ahi para os sitios do Marco de
Canavezes. Luiz da Cunha conheceu que o seu hospedeiro amigo era um
homem tambem mysterioso. O ex-sargento de cavallaria, nos primeiros
dias, teve a delicadeza de no catechisar o seu hospede aos principios
da communidade sem as theorias socialistas. Fartava-o regaladamente 
sua mesa; levava-o de patuscada a casa da sua amazia; punha  sua
disposio uma rica egua de raa para passeios, e ensinava-o a matar
perdizes com finissima pontaria.

Uma noite acabavam de cear, e Luiz da Cunha historiou o mais
sentimentalmente que podia a morte da heroica Liberata. Jos do Taboado
(era a graa do hospitaleiro), enthusiasta pela gloria, propz uma
ovao  memoria de Liberata, a qual, como todas, foi freneticamente
recebida pela senhora Joaquina Vsga, intima do proponente, e bem aceita
ao hospede enternecido.

--Meu caro Neves!--disse, depois, Jos do Taboado--acabemos com isto!
Queres ser dos meus?

--Se quero ser dos teus?

--Franqueza, e viva amizade! Sabes quem sou?

--Sei que s um excellente amigo...

--Dos meus amigos; mas inimigo dos ricos. Eu sou chefe d'uma quadrilha
de salteadores. Tira o chapo na minha presena!

--C estou descoberto...--disse Luiz, sorrindo-se, e descobrindo-se.

--Agora cobre-te. Enche esses copos, Joaquina...  tua saude, Neves! 
saude do meu chefe de estado maior! Aceitas?

--Aceito!

--Toca!--E deram-se as mos com vertiginoso transporte.

--Sers rico em pouco tempo...--continuou o chefe--para que diabo queres
tu as excellentes foras que tens? Como  que cumpres o protesto de
vingana que fizeste, quando te mataram Liberata, porque roubavas a
fazenda nacional?

--Tens razo..............................................................

..........................................................................

Dias depois os jornaes do Porto pediam fora para debellar uma poderosa
quadrilha de ladres que assaltavam as casas famosas em dinheiro.
Citaram a morte d'uma senhora, rica proprietaria do Douro; a de um padre
muito rico das circumvisinhanas de Villa Real; e varios assaltos em
frma a casas inutilmente defendidas. Um destacamento de infanteria dera
caa aos salteadores, que resistiram com intrepidez admiravel.
Contava-se o heroismo do chefe, que saltava vallados com um ferido no
aro da sella. O ferido era Luiz da Cunha.

No obstante a escaramua, a cohorte estendia por longe o terror.
Proprietarios isolados refugiavam-se nas povoaes, e as povoaes velavam
armadas com os olhos fixos nas fogueiras que os ladres acendiam nas
quebradas das serras. Ninguem, porm, ousava desalojal-os das suas tendas.
As almenaras ardiam at ser dia; as roldas e sobre-roldas velavam durante
a noite, e Luiz da Cunha, abraado  sua clavina de dous cannos, dormia
tranquillo com a face sobre os apparelhos da sua egua fiel.

Jos do Taboado no mentira. O filho de Joo da Cunha e Faro tinha ouro,
muito ouro, podia retirar-se com um passadio honesto, e adquirir at uma
reputao honrada. O seu pensamento era passar  Africa em 1853, com o
louvavel intuito de commerciar em generos licitos com a metropole. Jos
do Taboado promettra-lhe acompanhal-o, e, para isso, liquidava os
ultimos saldos com alguns proprietarios, incursos na condemnao de
Proudhon.

O filho de Ricarda tinha quarenta e um annos. Julgal-o-iam de cincoenta;
mas os cabellos brancos no tinham nada com o vigor feroz da alma. O seu
fito era voltar a Lisboa, rico, alardeando a passada infamia, com
tanto que arrastasse com correntes de ouro aps si o respeito publico.
Desejava lanar aos ps de Assucena esse dinheiro que ella lhe
emprestra. Desejava levantar no cemiterio publico um faustuoso
monumento a Liberata, como insulto s mulheres do grande mundo. Quatro
annos de fortuna, e o seu sonho seria visto  luz da realidade! A sua
fama teria alguma cousa de horrivel heroismo. O seu nome, partido o
brao vingativo, seria levado aos vindouros como a tradico d'um
meteoro que abrira um rasto de fogo entre os homens.

Jos do Taboado, que no se alteava s concepes arrojadas do camarada,
admirava-o como um grande homem, gostava de ouvil-o, e dizia que a sua
linguagem no parecia d'um simples escrivo do juizo ordinario. Levava-o
a casa de cavalheiros de nome, que hospedavam affavelmente o salteador
(no importa explicar o disparate), e os cavalheiros maravilhavam-se do
estylo puritano do supposto Neves, e mais ainda da vasta noticia que
elle dava de paizes estrangeiros, dizendo, ao mesmo tempo, que nunca os
vira.

Encontraram-se uma noite em casa d'um fidalgo de Basto, onde concorreram
outros, discutindo linhagens. Excepto os presentes, que eram todos
representantes de illustres governadores das possesses portuguezas,
todos os outros eram netos de almocreves, de lavradores, e at de
ciganos, afra os eivados de sangue judeu, que eram muitos.

Um dos detractores citou, como em distraco, seu tio Joo da Cunha e
Faro. Luiz, agitado por tal nome, prendeu astutamente o incidente do
parentesco  conversao, dizendo que conhecra Joo da Cunha e Faro, em
Lisboa, onde fra caixeiro em 1838. Perguntou se morrra.

--Morreu doudo--respondeu o senhor Bernardo de Malafaia e Alvim de
Castro e Leite Pereira de Menezes e S Corra de Sepulveda e Cunha e
Faro &c. &c. &c.--Morreu doudo. Foi o malvado bastardo que o matou.

--O bastardo?!--atalhou Luiz.

--Sim: o filho d'uma mulata que elle roubou em Coimbra...

--Sabes se j morreu esse homem?--perguntou um senhor com quinze
appellidos.

--No sei; mas  de crr que sim. Ainda vos no contei a passagem dos
ossos?

--J; mas conta-a ao amigo Neves, que  romantica.

--Pois l vai. Haver sete annos que eu fui a Lisboa e hospedei-me em
casa de meu primo Ignacio da Cunha, que succedeu no vinculo de meu tio
Joo da Cunha. Era no vero, e resolvemos passar alguns dias n'uma
bonita casa de campo que meu primo tem em Bemfica. Foram comnosco o
primo Alvaro de Castro, o primo conde de Santa Justa, o primo D. Pedro
de Malafaia, o primo D. Antonio de Alvim, o tio Monsenhor Menezes, &c.
&c. &c. Estavamos sentados debaixo d'um caramancho, e disse o primo
Joo da Cunha, apontando para a lea das amoreiras: Alli foi que morreu
a amante de meu tio Joo. Contou-nos que um velho criado, morto alguns
mezes antes, lhe contra tudo, e lhe dissera o sitio onde fra enterrado
o marido e assassino d'essa tal Ricarda, porque os criados deram cabo
d'elle.

Quando ouvimos isto, tivemos, todos  uma, desejos de procurar os ossos
do tal marido. No outro dia, viemos cavar no sitio, e com effeito demos
com os ossos, e o primo D. Antonio de Alvim, mexendo na terra, encontrou
um riquissimo annel de brilhantes com uma enorme esmeralda. Procuramos
mais, e achamos a folha de um punhal com as letras que diziam Rio de
Janeiro. No topamos mais nada. O que eu posso dizer-lhe, senhor Neves,
 que o annel foi vendido por duzentas moedas, por signal que o primo
Ignacio da Cunha as perdeu todas contra um valete, em casa do primo D.
Jos de Castro e Alvim.

-- uma interessante historia!--disse Luiz da Cunha em abstracta
meditao--E a tal brazileira onde foi enterrada?

--Na igreja,  o que disse o tal criado.

--E o filho d'essa brazileira era o tal bastardo que matou o pae!

--Justamente.

--E no acha que o pae foi bem morto pelo filho?

--Homem! essa  de cabo de esquadra!

--Se o tio de v. exc., o senhor Joo da Cunha, foi causa da morte da
mulher d'esse homem, no era justo que o filho de tamanho crime fosse o
verdugo do pae, a viva reminiscencia d'esses dous cadaveres, o aguilho
constante de remorso que o enlouqueceu?

--O nosso amigo est muito rasoavel nos seus discursos... Essas
doutrinas so de bons tempos...

--E o caso  que elle diz bem!--atalhou um fidalgo depondo as cartas do
voltarete--o filho foi o instrumento com que a Providencia castigou o pae.

--Ento, n'esse caso, muita gente pagou innocentemente--replicou o
senhor Bernardo de Malafaia &c.--O tal bastardo foi o aoute da
humanidade. Perdeu umas poucas de mulheres, matou outras, esteve prso
nas Antilhas por pirata... fez o diabo.

--E, por fim,  natural que se suicidasse...--disse Luiz da Cunha.

-- o que elle devia ter feito ha muito--concluiu o expositor da scena
dos ossos.

O filho de Ricarda projectou ajuntar s suas futuras obras um monumento
a sua me.




CONCLUSO.


So 24 de Setembro de 1853.

 meia noite.

Assucena pergunta ao egresso inseparavel:

--Que barulho  esse que fazem l dentro?!

--J disse a v. exc. que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de
ladres apparecra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que
esta casa seja atacada, porque dizem l por fra que vive aqui uma
senhora muito rica.

--Eu muito rica! J o fui... agora no tenho nada...

--Pois sim; mas os ladres no se persuadem d'isso, e quem sabe se viro
c? Os caseiros,  cautella, chamaram gente, e tratam de se pr em
defeza no caso que elles ataquem. V. ex. ainda que oua tiros no tenha
medo.

--Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que no tenho
nada, e elles vo-se embora.

--As cousas no correm assim, minha senhora. Salteadores no acreditam
na palavra das damas. O melhor  defender-se cada qual, e eu estou certo
que elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vo prgar a outra
freguezia.

O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada
para ao p de Assucena, e foi juntar-se ao povo.

--Que temos, rapazes?--perguntou elle.

--Os homens ahi esto.

--Quem os viu?

--Ns. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do porto, e
vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro.
Depois buliram na tranca e abriu-se a porta.... Qul-os vr?...
Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias....
Elles l vem....  rapazes, aqui  que se conhecem os homens! Quando eu
disser fogo  fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os
vir... Olha... quatro j eu lobrigo... Alli!... alli no se perde um
quarto.... Deixa-os chegar mais....  agora!... Fogo!

Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e  detonao succedra
uma infernal algazarra dos defensores.

--Leva arriba, rapazes!--gritava o regedor aos seus--Cerca, tem mo,
por esse lado...

E desceram ao pteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da
capella dava quella infernal orchestra de berros e tiros um tiple
horroroso. Os ladres recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com
denodo, um momento; mas a populao que os cercava no cedia aos impetos
da cohorte, militarmente, organisada em batalha  voz do chefe.

A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A
quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos
retiraram: um tinha cahido, e no se ergura mais. Em redor d'este
cadaver agglomerou-se a multido. Approximaram-lhe da cara um archote de
palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.

No era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e
levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de
pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...

--Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxal que tivesse um momento
de contrio! E no est mal trajado... Deixem-no aqui ficar at amanh,
porque  necessario que o administrador o mande levantar...

Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de
catalepsia.

--No tenha medo, minha senhora.

--Mataram alguem?

--Ficou um; mas l vo os outros, que eram bastantes.

--Rezemos por alma d'esse que morreu...

--Pois sim, rezemos--disse o egresso, ajoelhando ao p d'ella.

--Poder salvar-se?--disse ella, interrompendo a orao.

--Deus  pae de misericordia.

--Quem sabe se elle roubava por ter fome?...V vr se elle no estar
morto... poderemos ainda cural-o.

--Aquelle est bem morto, minha senhora.

--Ento rezemos: _Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o
vosso nome_... No posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito
afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu
vestido de seda preta de manga curta; os meus canhes de velludo preto;
o meu leno de ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de
cazemira vermelho...

--Est com o accesso; no traga nada--murmurou o padre ao ouvido da criada.

--No ouves, Anna? Ento! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!

--V, v dar-lhe essas cousas--tornou o egresso, e sahira para que ella
se vestisse.

Assucena collocou-se diante do espelho.

--Como so grandes estes cabellos!...--disse ella, puxando dois
graciosos pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla
inferior. Procurou anciosa uma tesoura, e aparou-os.

--Agora sim--disse ella com risonha satisfao--Assim estou mais bella
para o noivado.

A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho,
enfeitando na cabea desgrenhada o leno dos flores amarellos, e
puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.

--Agora, vamos.

--Onde, minha querida senhora?!

--Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.

--Esperal-o... a quem?

--s tola! Pois no sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?

--Oh minha Me Santissima, compadecei-vos d'ella!

--Que ests a dizer? Vens, ou vou s!?

O egresso entrou, chamando por Anna.

--Que ?! Onde vai?!--perguntou elle a Assucena espavorida.

--Vou esperal-o.

--No sahir d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.

--No quero! Vou ssinha, sem medo nenhum. O meu Luiz  valente...

-- melhor acompanhal-a....--murmurou o padre.

E sahiram pela porta do jardim.

--Que linda noite!--disse ella, saltando entre os buxos.

--Est muito fria a noite, senhora D. Assucena.

--Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no corao! Quantos annos tenho
eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso
sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece...
morre por elle... Sou sua mulher... Jurou-m'o nos braos d'elle quando
eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor
violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das
lagrimas que tenho chorado n'este desterro... Elle no tarda, e depois
fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo  muito valente!

--Recolha-se, minha senhora.

--Recolher-me?! s Commendadeiras?

--Ao seu quarto...

--No quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao porto esperal-o.

O egresso seguiu-a.

Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do
costume ao lado, Assucena perguntou:

--Que  aquillo?!

-- o corpo do ladro que morreu--disse o padre, querendo afastal-a.

--Quero vl-o... coitadinho!

--No veja, senhora D. Assucena... A vista no  agradavel.

--Quero vl-o... no tenho medo aos mortos...

E forou a desprendl-a o brao do padre. Levantou um tio da fogueira,
approximou o claro azulado da face do cadaver,... soltou um grito que
se no descreve, nem se imagina, deixou cahir o lume, correu n'um
impeto vertiginoso, com as mos agarradas  cabea pela quinta abaixo,
na ladeira que conduzia ao rio Homem.

 ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso
para Luiz da Cunha principiava alli. Foi abenoada a bala que o salvou
do patibulo.

O egresso no podia alcanar Assucena na carreira... Gritou por
soccorro, por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a j perdido
de vista, quando ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.

No _Braz Tizana_ de 24 de Setembro de 1853 l-se o seguinte:


_Um cadaver._--No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu o
cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido
de sda preta, e parece ser pessoa de considerao.

No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno l-se o seguinte:


_Signaes d'um cadaver._--A mulher que appareceu morta acima da ponte de
Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta
annos; cabello e sobre-olho castanho-escuro; bca e nariz regular; rosto
redondo; labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns
cabellos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buo; vestido de
seda preta com pouco uso; manga curta; canhes de velludo preto; grade
preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de panninho
entranado, cr de flr de alecrim e vermelho, com tres espartilhos no
peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta,
barra, e ramos pretos; na cabea um leno grande azul, com ramos
amarellos, de algodo, e barra da mesma cr; saia de morim branco em bom
uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com
cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e
moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se no sabe quem
seja.

L-se no _Portuense_ de 10 de Novembro de 1853:


Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a appario de um cadaver
de uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimares. Tornaram os jornaes
a fallar n'este cadaver dando as mais minuciosas informaes de
vestidos, de physionomia, de idade, e at de conjecturas sobre o genero
de morte que soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo
silencio e nem ao menos respirou a noticia de menor acto administrativo
na investigao d'este acontecimento. Pde ser que se dsse um drama
muito mysterioso, com peripecias muito horriveis, mas o publico tem
direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se
suicidou?


A resposta ao _Portuense_  um livro.

FIM



Indice

        I.--UM BERO BORRIFADO DE SANGUE.
       II.--O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIOADA.
      III.--ASSUCENA.
       IV.--CONTAGIO.
        V.--UM ANJO CAHIDO.
       VI.--ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.
      VII.--PERDIDO SEM REDEMPO
     VIII.--PROVIDENCIA OU ACASO?
       IX.--HERANA DE VIRTUDE E OURO.
        X.--COMO OS ANJOS SE VINGAM.
       XI.--SO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM S O CHRISTO.
      XII.--FASCINAO DO ABYSMO.
     XIII.--EXPLOSO DA INFAMIA REPRESADA.
      XIV.--CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.
       XV.--LOGICA DO INFORTUNIO.
      XVI.--TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PO!
     XVII.--AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.
    XVIII.--A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.
      XIX.--UM VEIO NOVO A EXPLORAR.
            CONCLUSO.





End of Project Gutenberg's A Neta do Arcediago, by Camilo Castelo Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A NETA DO ARCEDIAGO ***

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