The Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys

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Title: Nas Cinzas

Author: Gontran Borys

Translator: Augusto Ernesto de Castilho e Melo

Release Date: November 25, 2009 [EBook #30543]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***




Produced by M. Silva




        Notas de transcrio:

        Este texto  uma transcrio do original de 1875, tendo-se
        actualizado a grafia para a variante europeia da lngua
        portuguesa (pr-acordo ortogrfico de 1990).

        Foram corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes.




                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS

                               TRADUO DE

                                 L. C. M.


                                  C & C


                                  LISBOA
                      EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.
                        RUA LARGA DE S. ROQUE, 100




                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS




                        Imprensa nacional--1875




                               NAS CINZAS

                                   POR

                              GONTRAN BORYS

                               TRADUO DE

                                 L. C. M.




                                  LISBOA
                      EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.
                        RUA LARGA DE S. ROQUE, 100




I


Se perguntsseis hoje diante de dez pessoas quem  Andr Sauvain, nove
delas achariam ridcula a vossa ignorncia, e a dcima no hesitaria em
soltar uma gargalhada. A ningum  permitido desconhecer uma gloria
nacional: entretanto ningum conhecia h sete anos aquele nome, to
celebre agora.

Nessa poca, ainda Andr Sauvain no era um pintor ilustre. Ocupava, ao
cimo da rua dos Mrtires, um _rez-de-chausse_, to prprio pela
humidade a criar cogumelos, como pela escurido a inspirar tragdias. A
habitao do jovem pintor limitava-se a uma s casa, que acumulava as
funes de sala, quarto de cama, _atelier_ e refeitrio. E nem por isso
ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palcio.

Andr era um rapaz vigoroso, com msculos de ao, esbelto como um
vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho
e retorcido, pra aguada, cabelo alourado e abundantssimo,
assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que no
causaria estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a
blusa rafada, que trajava, ia to bem  sua figura nobre e elegante,
como um gibo do melhor veludo.

Numa bela e clara manh de Dezembro Andr Sauvain acabava de retocar um
_Faust au sabbat_: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu
quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodgio.
Atravs das vidraas do seu quarto descobria-se parte de uma casa
esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prdio era o
constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora
reflectia execrvel claridade no _atelier_, ora lhe interceptava
completamente a luz. Andr lanava-lhe pela milsima vez a sua maldio,
quando de repente viu abrir-se uma janela, e aos ouvidos do mancebo
chegaram as ltimas notas de uma canoneta entoada por voz fresca e
harmoniosa: no tardou que a essa janela se mostrasse uma cabea de
mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabea arrancou ao pintor um
grito de admirao e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a
imediatamente.

H no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma pea de 40
francos, que  a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com
a risonha expanso da inocncia a iluminar-lhe o rosto. A boca  uma
cereja: deseja-se colhe-la com os lbios. A brisa de maio brinca
travessa com os bastos anis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos
negros, de extraordinria viveza, crepita a jovialidade.  a primavera,
 a alegria,  a mocidade em flor. Pois, embora o no creiam, esse rosto
encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao _atelier_
de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos.

A jovem vizinha do pintor tinha na mo um grande ramo de violetas, e
voltando-se para falar a algum, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto
antes eram bem lgubres os pensamentos de Andr Sauvain. Na confuso de
monstros, de demnios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro,
entrevia amargamente no esprito o smbolo da sua existncia atribulada.
Estava triste como a morte. Porm a gentil viso dispersara os
fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. Andr sentiu o
corao bater-lhe com fora desusada. Era de jbilo. Teve uma vertigem e
baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos
fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora
sinfonia da esperana.

Foi apenas um relmpago. A viso desaparecera; a janela fechou-se. E
Andr, querendo continuar o seu trabalho, no pde, porque lhe tremiam
os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa
com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabea entre as mos. A noite
veio surpreende-lo assim. Ento cada objecto assumiu para ele um aspecto
fantstico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave
perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longnquo
de uma canoneta; olhou para o seu quadro, e s viu nele um turbilho de
cabeas louras, iluminadas por grandes olhos pretos.

E por toda a parte, no centro da casa, por detrs dos modelos de gesso e
dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das
telas esboadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo
de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.

--Ser assim que nasce o amor? perguntou Andr a si prprio, tomando-se
o pulso. Depois, levantou-se aterrado:

--Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!




II


Nesse tempo (refiro-me ao ano da graa de 1853) Andr Sauvain, bem que
fosse proprietrio, no jantava todos os dias. Verdade  que a _sua
propriedade_ no valia sessenta escudos, e no lhe rendia sequer um
franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia;
uma runa musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa.
Mesmo assim, Andr podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais
horrvel misria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o corao quele
pardieiro pelas razes profundas, a que chamam recordaes; tinha l
nascido e l morrera sua me.

Alm da humilde casinha de seus pais, Andr Sauvain s possua... a sua
pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um co! Devera
ter comeado por dizer: nem um soldo! O resto depreendia-se por
simples ilao. Vivia de esperanas e de privaes; frugal alimento, que
o conservava sadio e alegre. Tanto de vero como de inverno,
levantava-se com a aurora, pintava at  tardinha, e aproveitava-se da
escurido para percorrer Paris em todas as direces; depois recolhia
extenuado de fadiga, deitava-se s apalpadelas, para economizar azeite,
e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a
circulao do sangue e entretinham-lhe a actividade do crebro. De
noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes
artrias, onde circulam sem cessar correntes humanas, esto saturadas de
fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores
invisveis...

Aqueles prodigiosos passeios eram as nicas extravagncias de Andr.
Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros
divertimentos, que no fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro
abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de
plateia lhe cerceava dois dias de subsistncia.

Alm de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um
_terno_[1]  loteria; consistia ela em reunir alguns centos
de francos, no s para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda
para cobrir com modesta lousa a pobre viva, que repousava a um canto do
pequeno cemitrio da aldeia.

Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu _atelier_, onde perigosas
imagens lhe perturbavam o esprito, exclamou: Se amo, estou perdido! O
amor e o trabalho so dois inimigos mortais. No amemos!

Ora, prometer no amar equivale a jurar que no nos cair uma telha
sobre a cabea. Andr reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginao
corria  desfilada, e ele j no era senhor de a fazer parar! Jantou em
trs garfadas e com trs suspiros, segundo o uso imemorial dos
namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o
aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca
rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a cano alegre a
prenderem-se-lhe ao corao com as suas garras de diamante.

Era vspera de Natal. Em toda a linha dos _boulevards_ humildes barracas
de madeira branca irradiavam o plido claro das suas lanternas sobre as
suas vizinhas fronteiras, magnficas lojas, cintilantes de gs e de
doirados. Por entre esses dois cordes de luz cruzavam-se torrentes de
ociosos passeantes. Aquele rudo, aquela claridade, o perpassar da
multido buliosa e festiva, foraram Andr Sauvain a baixar  terra.
Voltou a si, como um dormente que desperta em sobressalto, e, poucos
minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava,
surpreendia-lhe o olhar ainda distrado, e vivamente lhe excitava a
ateno, uma fisionomia na verdade singular.




III


Defronte da vidraa de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma
multido curiosa e vtima do suplcio de Tntalo.

No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa
estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.

A longa barba, espessa e grisalha, caa-lhe sobre o peito, onde se
bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao
passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava
coberta de manchas lvidas. No obstante o termmetro marcar dez graus
abaixo de zero, cobria-lhe a cabea um chapu pardo, cujas abas moles e
cansadas j no tinham cor aprecivel; uma sobre-casaca no fio, quase
erma de botes, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da
temperatura, e os braos mergulhavam at aos cotovelos nas
algibeiras de umas velhas calas de ganga.

Estava ali; boquiaberto e imvel. Os seus olhos, brilhando vidos sob
grossas plpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das
rbitas para devorar os tesouros gastronmicos perante eles expostos:
perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsiches
enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno,
cujos lombos prateados vergavam sob pedaos de gelo... tudo o tentava, e
as suas ventas dilatadas aspiravam com fora as emanaes culinrias que
saam pelos ventiladores.

De repente Andr viu-o empalidecer e vacilar; mas no tardou que o
desconhecido cobrasse animo e mil impresses rpidas transpareceram
sucessivamente no seu rosto extraordinrio. Foram elas: a raiva
concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embarao
tmido. Passou a mo curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados,
mais ainda pela atraco dos comestveis do que pelas luzes. Depois
estudou, uma a uma, com angustiosa ateno as figuras que o rodeavam
inclinadas para a vidraa. Por fim franziram-se-lhe os lbios num amargo
sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapu, e
soltando um suspiro, enxugou o crnio calvo, onde brilhavam grossas
bagas de suor. Foi ento que descobriu Andr Sauvain, o qual, parado
a pouca distncia, o observava com crescente interesse. Vendo-se
espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe
coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irnico,
tornou a pr o chapu no alto da cabea, e balanceando-se  moda dos
marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:

--Ento, mancebo, que temos? Serei porventura um fenmeno? Julga-me
empalhado?

Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metlica, e mais
notvel ainda pela sua acentuao provenal muito pronunciada.

--Desculpe-me, senhor, balbuciou Andr um pouco atrapalhado. No tive
inteno de o ofender.

--Com mil bombardas! assim o creio. Ento julgou conhecer-me, heim?

-- a primeira vez que o vejo!

--Outro tanto no digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes
examinavam Andr dos ps  cabea; parece-me t-lo encontrado algures...
ou ao senhor ou a algum muito parecido consigo!... Em Roterdo, suponho
eu... ou em Calcut... talvez na Filadlfia?...

--Nunca me afastei tanto de Paris, disse Andr.

--E eu venho c pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei.
Mas ento que fazia a, em xtase diante da minha pessoa?

--Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua
fisionomia interessou-me.

--Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabea de
Scrates... ou de stiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso
extinguiu-se-lhe logo numa contraco nervosa; tornou-se mais plido, e
segurou-se, para no cair, ao ombro do moo pintor.

--Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem
deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou
para o fundo.

Andr, muito inquieto, amparou-o at ao mais prximo banco e sentou-se
ao p dele.

--No  nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...

Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as foras. Depois de alguns
minutos de silncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mo
uma das pontas da sua longa barba, e fitando Andr Sauvain, com o seu
olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente:

--No receia comprometer-se, senhor?

--Como?...

--Mostrando-se na companhia de um miservel maltrapilho como eu.

Andr encolheu os ombros.

--No tenho preconceitos, respondeu ele, nem to pouco amigos, ou mesmo
conhecidos: os meus meios no me permitem esse luxo. Alm disso no
estou muito mais bem vestido do que o senhor...

--Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista...  o que
me convm!

--O que lhe convm!... Que quer dizer?

--Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pr do sol,
procuro na turba um homem de corao!... No vi seno homens gordos e
irrepreensivelmente trajados, raa de que desconfio, e por isso
ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar ...
nauseabundo. Nem todos o entenderiam.

--Ento o que ? perguntou o pintor. Pode dizer...

--Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.

Andr sentiu um calafrio no corao.

--Ufa! exclamou o desconhecido, at que enfim soltou-se o segredo! Sim,
mancebo, h trs dias que estou em Paris, e h quarenta e oito horas que
no como! Eis a razo por que me encontrou estupidamente pasmado
defronte dessa exposio culinria. Com mil bombardas!  cruel mostrar
assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer gua na boca at a
um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma
noite em que o tinido dos garfos e o _glu-glu_ das garrafas se fazia
ouvir atravs das janelas... E as cibras do meu estmago sugeriram-me o
pensamento de que, no meio de um milho de indivduos que vo sentar-se
 mesa; seria estpido deixar-me morrer  fome por no querer dar-me ao
incomodo de articular duas slabas. Enfim chegou o senhor... a sua
fisionomia inspirou-me confiana... parece-se com... com quem diabo se
parece das pessoas que tenho conhecido?... No importa, falei... o pior
est passado!

Andr remexia j nas algibeiras.

--Espere! disse o velho segurando-lhe o brao. Vai oferecer-me
dinheiro... e partir com a convico de que o roubaram. Obrigado.
Chamo-me Pedro Toucard;  um nome, que no rima com mendigo, nem com
tratante. Preste-me um servio.

--Qual?

--Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto,
aqui onde me v; e, se no morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraos...

--Um meio... imediato? disse Andr. No conheo nenhum. Mas aqui est a
minha bolsa, partilhemos.

E tirou de dentro dela duas peas de cinco francos, que era toda a sua
fortuna.

As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou aquele metal, como um
amante trado contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.

--Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!...
eu que o possu aos montes!... Como  belo o dinheiro!... Mas... no...
no... exclamou ele recuando um passo, no recebo esmolas!

--No  esmola,  apenas um emprstimo! lhe tornou Andr.

E, quer ele quisesse quer no, foi metendo uma das peas de cinco
francos na mo calosa do desconhecido.

quele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa
inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrvel
luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um
pardo esverdeado, tornaram-se-lhe hmidos e brilhantes.

-- ento a pobreza emprestando  misria? disse ele com voz rouca,
retendo a mo de Andr nas suas e apertando-a com energia.

Depois, enxugando as plpebras com as costas dos seus felpudos dedos,
exclamou:

--Ora adeus! sou um espertalho, e por mais depressa que a fortuna
corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? Andr
respondeu apenas com um grito abafado.

Plido, com o corao palpitante, seguia com os olhos uma mulher,
cujo vestido roara por ele ao passar.

Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros
sob um chapu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.

--No ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.

Porm o pintor j ia longe; desprendendo a mo das do velho, lanara-se
desesperadamente atrs da sua viso.

Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a
sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:

--Uma esmola disfarada...  pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com
quem diabo se parece ele?...




IV


Andr Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcanou e passou adiante do
chapu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a
Deus, e ousou enfim encarar... uma decepo!

No era ela!

--Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa.
Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro...  o mesmo que
fazer crculos na gua com luses de oiro. Sou porventura um homem, ou
no o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criana loura.

Passou a noite jurando no pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as
brasas da insnia. Eis a razo por que, na manh seguinte, quando a
senhora Poussignol, porteira de bigode e com os ps da largura de pratos
sopeiros, invadiu o _atelier_ no desempenho do seu oficio de servente,
achou Andr empoleirado sobre trs cadeiras, espreitando, atravs do
seu postigo envidraado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas
cerradas.

--E esta! exclamou ela com voz masculina.

--Quem mora ali? perguntou o pintor.

A senhora Poussignol arregalou os olhos na direco que lhe indicava o
dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rap, e brandiu a vassoura
com gesto feroz.

--Aquilo?... disse ela, no  coisa que preste!

Andr sentiu-se assomado de violenta indignao.

Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de
cadeiras, pediu  porteira que continuasse.

--Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma
moblia de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo
a luz... Eis-a est!

--E ela? interrogou Andr.

--Ela!... O locatrio chama-se Germinal.  um empregado reformado, um
velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um
soldo, e que nem  capaz de largar seis liards pelas festas do ano!

--E ela? repetiu Andr.

--Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida  janela...
Felizmente perde o seu tempo; o senhor Andr  o rei dos trabalhadores,
e no levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a prpria
Vnus!

Andr empalideceu.

--Como!... pois pensa que  por minha causa? Nunca dei por tal.

--Pudera!... Todo entregue s suas pinturas, no repara em mais nada.
Pois h bastantes dias que ela deita o lzio para c. V-se muito bem l
de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...

--Mas quem  ela? exclamou Andr impaciente.

--Ora!  a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura
de um lacrau, tal e qual! No pode deixar de ser algum antigo criminoso,
que tenha a conscincia carregada de assassnios.

--Que ideia!

-- o que lhe digo. Em primeiro lugar, h onze anos que no pe os ps
na rua! no se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze
anos! Que pensa daquilo?

--Ser.

--Qual historia! Tem tanta sade, como o senhor ou como eu, mas tem medo
de ser filado, ora a est! S apanha ar num jardim de bonecas, do
tamanho do _Constitucional_ desdobrado... e isso porque o proprietrio
lho permite de graa... At causa d!...

--E ela? insistiu Andr.

--A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e
remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa
alguma desde o atentado de Ficschi. O vesturio preocupa muito pouco
esse velho papa-moscas. Quando sente passos no ptio, foge para casa a
sete ps; se batem  porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e s
se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma
carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se  possvel que um
cristo honrado tenha semelhantes sustos?

--E ela?

--Ela?... Deve confessar-se que  uma criatura bem ageitadinha,
desembaraada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um
pintassilgo, chilreando desde pela manh at  noite!... Mas, apesar
disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o
pai Germinal apenas tem seiscentos francos da penso de reforma, e, se
no fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.

--Mas, disse Andr, linda como ela ... sim, pareceu-me bonita!...

--Isso l!...  linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a
porteira.

-- verdade, disse Andr tentando sorrir, e... deve ter muitos
namorados?...

--Ora, pois no! Aquilo tem um juzo... uma seriedade! Quando sai  rua
podia... vadiar o seu bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias,
mas... no senhor! compradas as provises e entregue o seu trabalho,
volta para casa de corrida, e s trata de divertir o velho maroto do
pai, que ento fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum
remorso tivesse a pesar-lhe no estmago!

--Que espcie de gente costuma receber?

--Gente?... em casa dele!

--Sim.

--Receber?... o sr. Germinal!... Essa  melhor! Se ele nem um gato
conhece no mundo inteiro!

--E... os vizinhos?

--Sabe l sequer quem so! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.

--Com a breca! murmurou Andr despeitado;  com efeito um ente bem
misterioso, e parece-me assaz difcil domestic-lo!

--Pois se eu lhe digo que  um urso! No h exemplo de que tenha
dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e  filha. E pelo
que toca a sair do seu buraco, era mais fcil deixar-se fazer pedaos...

Uma pancada, discretamente batida na porta do _atelier_, interrompeu a
senhora Poussignol.

--Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.

A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela
abertura.

--Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.

Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mos, o que produziu
rudo semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar
assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porm, e continuou,
articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da
laringe por um saca-rolhas invisvel:

--Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na
qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...

Andr desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor
Germinal, aterrado, lvido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.

--E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...




V


Se a ferrugem, esse perxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma
humana, escolheria, para encarnar, o individuo que Andr Sauvain tinha
diante de si.

O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante
seis meses em sitio hmido.

Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relgio
de caixas de prata, at aos botes do colete. Cor de ferrugem era o seu
fato cheio de cerziduras e lustroso,  fora de gasto, nos cotovelos,
nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suas
sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedao de crnio
amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos
orlados de um crculo desbotado como os dos peixes cozidos, os
lbios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que
nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era tambm a sua voz, e
at se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.

Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor
Germinal no tinha de modo algum a aparncia de um ex-bandido. Era um
homem tmido, humilde, vtima de um contnuo mal-estar e de uma
trepidao nervosa inexplicvel, sempre com o ouvido  escuta, e a
ateno alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo
verdadeiramente fenomenal para o seu carcter, parecia obrar sob a
presso de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonmbulo
recalcitrante, que o magnetizador dirige.

E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,
lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que Andr Sauvain
dispensou ao pai da sua... quimera loura.

--Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faa favor!... Que
amvel surpresa!... Que excelente ideia teve!... No sei como
agradecer-lhe...

Pouco faltou para que Andr ajoelhasse.

O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precaues, que davam
a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,
esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:

-- hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestvel
verdade, Andr entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.

--Com efeito  dia de Natal... Uma grande festa!

--Muito grande.

--Felizmente o tempo est bom.

--Muito bom.

--Ainda que bastante frio.

--Muito frio.

Neste perodo da conversao houve uma pausa de cinco minutos. Andr
contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma
das mos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O
senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mo, e com ela
esfregou a outra.

--Parece-me, prosseguiu este, que por ocasio de tal solenidade,
poderamos permitir-nos... um leve extraordinrio...

-- to curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a
concluso a que queria chegar o seu interlocutor.

--Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor  meu
vizinho...

O corao de Andr cessou de bater.

--Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrvel esforo,
sim... tomo a liberdade... de o convidar...

--Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.

--Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um
tal... Ah! senhor, disponha de mim... perteno-lhe em corpo e alma!...

--No exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um leno
cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peo-lhe
unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas
s oito e dez minutos... para passar o sero... modestamente... em famlia.

--Em famlia! repetiu Andr extasiado.

--Ento... aceita?

--Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delrio!

O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma s pea. Parecia
consternado.

--Nesse caso, disse ele em tom lgubre, at  noite.

--At  noite, meu respeitvel vizinho! modulou Andr, que interrompeu o
rudo de raspador, apertando nas suas ambas as mos do senhor Germinal.

Este ltimo encaminhou-se para a porta.

--Haver, acrescentou com voz abafada... sim... haver talvez... uma
garrafa de cidra.

--Adoro a cidra!

O senhor Germinal abriu a porta.

--E... sim... creio poder afirmar que haver tambm... castanhas.

--Sou doido por castanhas!

A porta fechou-se.

Andr Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a
Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_,
executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra
igual no h memoria!

Pelo que respeita  senhora Poussignol, apenas teve foras para repetir:
Ora essa!

Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso
sobre a caixa das tintas, derramando algumas.




VI


Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por
que prodgio aquele misantropo, que durante onze anos no se aventurara
fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus
semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele
o aniversario do Natal!

O pintor no se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.

s oito horas em ponto, agitou, no sem sobressalto, o fio de ferro que
correspondia  campainha do seu amvel vizinho.

Andr tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira
roupa lavada; contudo sentia-se pouco  vontade. Quando Rosa olhou para
ele, fez-se to branco como a prpria camisa, e pela primeira vez
deplorou o comprimento dos seus braos e pernas, das quais no sabia o
que fizesse.

Pelo que toca  jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto
tornou-se da cor do seu nome.

O arranjo de casa do senhor Germinal, no s era totalmente desprovido
de magnificncia, mas at deixava adivinhar a presena de um mau
hspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que
ali reinava, fazia alegrar o corao: cada mvel fora conquistado 
custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido,
espanado e lustroso, como convm a um trofu domstico.

A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para
Andr houve tambm certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o
pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a
embriaguez da alma, o delrio da imaginao... so esses a que me refiro.

Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criana. Para
certificar-se de que no sonhava, Sauvain beliscava os braos de vez em
quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros
a suave msica da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o
_fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora,
ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como,
enfim, quando ela inclinava a cabea, o candeeiro iluminava de reflexos
doirados os anis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil,
sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina
de purssimo marfim, Andr viu-se obrigado a reconhecer que no dormia.

O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _cart_ ao seu jovem
vizinho... que nem deu por isso!

O pintor no notou tambm as singulares contraces nervosas do seu
parceiro, que estremecia ao menor rudo exterior, empalidecendo ao
fechar longnquo do porto do ptio, e saltando na cadeira quando a
escada rangia sob a presso de passos humanos. Bem podia cair um raio
sobre a mesa, que Andr no repararia em tal!

s onze horas retirou-se este, cambaleando como um brio, posto s
tivesse aceitado um clice de cidra; e quando Rosa,  despedida, lhe
tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe
dilatava at ao infinito, e que dentro dele se abrigava o cu inteiro,
lmpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cndida
plumagem.

Enquanto a Rosa, depois de Andr partir, fazendo um colar dos seus
braos nevados ao pap Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces
enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:

Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papzinho!

E, feito isto, voou para o ninho.

O senhor Germinal, vendo-se s, esfregou as mos por tal forma, que
ter-se-ia jurado estar ali um batalho de maranos raspando cones de
acar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo
quarto, at que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura,
fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precaues, arredou
o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama,
levantou uma tbua, deixando a descoberto uma profunda escavao, meteu
por ela o brao e exumou um volumoso rolo de papeis.

Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de ndoas, tinham
o selo do banco de Frana. Eram notas de mil francos.

O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e
depois, acamando-os num mao, contou-os ainda outra vez.

Eram noventa e dois.

O senhor Germinal no devia conservar dvida alguma sobre o seu numero e
valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.

E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito
restitudo ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e
disse em voz baixa:

Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio,
a minha Rosinha ser feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.




VII


Voltou a primavera. Na da rua dos Mrtires havia um jardim, separado do
ptio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vrios
talhes, de modo que cada locatrio, mediante um pequeno aumento na
renda, gozava de uma pequenssima nesga de terreno, que podia cultivar a
seu bel-prazer.

Andr Sauvain no participava dessa regalia.

Mas, quando as folhas, ainda franzidas, comeavam a romper do seio dos
rebentos, quando as aves ensaiavam j os seus gorjeios, e o ar
amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de plido azul, o moo
pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.

Havia quatro meses que, por uma srie no interrompida de milagres,
Andr se tornara indispensvel ao misterioso velhote; contava-se com
ele, agora, como com um gnio do lar.

O pintor no se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplao
daquela flor animada, que tambm ia desabrochando ao calor da primavera.
Uma manh estavam eles ss no seu paraso de doze ps quadrados; um raio
de sol, escorregando  beira do telhado, cujas ardsias coloria de azul,
deixara-se cair nos laos que lhe armavam os ramos das rvores e as
novas vergnteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo
de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se j o
zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que
tinham aberto as suas corolas durante a noite.

Eu tambm, dizia Andr, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam
copadas rvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali
passeio... em sonhos. Se l voltasse, parece-me que cada tronco
estremeceria sob o seu invlucro de musgo, que o lagarto viria alegre
mostrar-se  fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada
para acorrer jubilosa, que a gua do tanque se agitaria de contente, que
a parreira enlaaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria
com voz comovida: Bons dias, Andr! S bem vindo!... Pobre Andr! j
no s a criana que ns encantvamos; j no tens as faces rosadas, a
fronte lmpida, a franca alegria, a gargalhada espontnea de ento!
Agora... s um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos
teus brinquedos j se esqueceram do teu nome; o campons, que te trouxe
s costas, passa e no te conhece. Mas ns, amigos humildes como somos,
conhecemos-te ainda, Andr; deixaste entre ns a melhor parte das tuas
recordaes, e irs encontra-las l em baixo, naquele banco carunchoso,
onde tua me te embalava cantando.

Rosa escutava-o comovida, entranando um ramo de pervincas.

--Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim.
Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doura;
dir-se-ia que reflectem, como a gua lmpida de um regato, a imagem
daqueles companheiros da sua infncia.

-- porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que
na minha alma h de sagrado, me sobe aos lbios e aos olhos. Ah! se a
esperana transparece neles to claramente como as mgoas, dar-se-
acaso que no descobrisse ainda?...

No concluiu. Nunca tinha dito tanto!

Rosa, sentindo bater o corao e com as faces em rubor, curvou a cabea
e esperou. Mas Andr no teve nimo para continuar. O silencio apenas
foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaava por
cima dos dois jovens.

--Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe
confiou, a ltima vez que o viu.

O sorriso de Andr extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.

--Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por
spera brisa, e quando transpus a porta, as rvores desfolhadas e as
folhas em redemoinho, s me enviaram um gemido, que acolhi com lgrimas...

Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras
e inquietas.

--H doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu ento
treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma
carta, que beijei; continha apenas estas palavras: Estou muito doente,
meu querido filho, e queria abraar-te. Um quarto de hora depois,
partia eu... a p, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o
meu po enquanto caminhava, matando a sede na gua lodosa dos fossos da
estrada, repelindo o sono, que me fechava as plpebras... Cheguei enfim!
A porta estava aberta... entrei chamando minha me... vi-a imvel,
branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado
dela, ardia uma tocha... Ca de joelhos no meio do quarto... sem
gritos, sem lgrimas, sem ideias... Minha me estava morta!

O pintor proferiu estas ltimas palavras com a voz entrecortada pela
comoo. Rosa pousou-lhe timidamente a mo sobre o ombro.

--Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo
terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha
casa deserta... menos deserta que a minha alma!

Rosa deixara cair o ramo; os anis louros do seu cabelo escondiam-lhe os
olhos.

--Parece-se com sua me, Andr?

--No, Rosa; pareo-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num
naufrgio, e que eu no cheguei a conhecer... A pobre viva nada mais
possua, neste mundo, alm do meu afecto: a sua existncia decorrera
triste e solitria; ramos pobres; foram-lhe necessrios prodgios de
dedicao para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua
consolao... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser
rico, respeitado, celebre... Minha me morreu!

Rosa estava de p, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma
prola lquida cair-lhe sobre a fronte.

--Como eu a teria amado! suspirou a jovem.

Andr pegou-lhe nas mos, atraindo-a brandamente para si.

--Minha me morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada
preencheria o horrvel vcuo, que em mim causou a sua falta. Porm,
Rosa, acredita-lo-?... A par dessa indelvel saudade insinuou-se,
pouco a pouco, uma ternura no menos forte, ainda que de outra natureza.
Ao princpio, era apenas um grmen, um gro dourado que o acaso lanara
no meu caminho, mas... o grmen cresceu, o gro desenvolveu-se em
planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canes, de murmrios
e de perfumes!...

Andr sentiu tremer, entre as suas, as mos de Rosa. Contudo... ela
sorria atravs das lgrimas.

--E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de
minha me? Dir-lhe-ia: Rosinha, tambm te amo muito... a ti, que me
terias amado! Amo-te, porque s boa, inocente e piedosa; porque o teu
esprito encantador tem mil delicadezas; porque me substituste nos
sonhos de meu filho; porque s a luz dos seus olhos, a flor da sua
esperana, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peo-to eu! ama meu
filho, que te ama tanto!

Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cndido.

--Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois no o sabia, Andr?

Sauvain empalideceu, e estreitou nos braos a donzela, cujas faces
se encenderam em pudico rubor.

Neste momento ouviu-se aquele, j mui conhecido, som de raspador, e 
porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado,
mais ferrugento do que nunca.

--Muito bem! disse ele em tom levemente irnico, ento quando  o
casamento?




VIII


Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a
furtar mas.

--Senhor, balbuciou Andr, no pense que... Juro-lhe, pela minha honra,
que  a primeira vez que...

--Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que  um parvo! interrompeu
o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de
si, ameaando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.

Quem, ento, ficou de todo embatocado foi o pintor...

Pois supe, continuou o senhor Germinal, que iria eu prprio meter o
lobo no aprisco, se no tivesse... c o meu plano?

--Ser possvel!... exclamou Sauvain

--Tudo  possvel, meu caro. E possvel que,  fora de deitar o nariz
fora da janela, esta criana reparasse em certo vizinho;  possvel que
o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; 
possvel que, adivinhando ele o que de ordinrio atormenta uma rapariga
de dezassete anos, a seguisse  dita janela e aventurasse um olhar por
cima do ombro da filha;  possvel enfim, que, por entender que ao longe
se v mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.

Andr lanara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mos
apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos
lbios a alva mo da donzela.

--Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida!
repita diante de seu pai aquelas palavras, que h pouco me iluminaram o
corao!

--Amo-o; Andr! disse ela ingenuamente e sem hesitar.

--No se morre de alegria!... exclamou o enamorado moo.

--E o senhor... meu bom amigo... meu pai... d-ma?

--Ela ama-o, Andr! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas
levante-se da, vizinho! h mais janelas e mais inquilinos, no prdio!

Andr obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifcio, o corao
tocava-lhe a rebate, e no crebro sentia ressoar uma banda regimental.

--Escute-me, disse o velho.

--Sou todo ouvidos!...

--No se vive s de ar: no lhe parece?

-- verdade, infelizmente!...

--Bem. E que trar o senhor para a comunidade conjugal?

Andr mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem
encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no
caminho.

--Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha
perseverana e... a minha f no futuro.

--Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levars em dote a
teu marido?

--A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convico.

--Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possus exactamente o
mesmo capital, que eu possua quando casei.

--E foi feliz, afirmou Rosa.

--Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladro, que se
apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas gals que
o esperam!... feliz, como o condenado  morte, que afoga a razo numa
orgia efmera, e que despertar no cadafalso!... No sabe, Andr, quanto
custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem
desejaramos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,
estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miservel
vestido de chita!... sorrir foradamente para nos esconder as plpebras
avermelhadas pela viglia!... definhar-se; a fogo lento,  mingua de um
pouco de suprfluo!... E tu ignoras tambm, minha pobre Rosa, o que 
ver entrar  noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso
de um trabalho mecnico, humilhado por superiores insolentes,
escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo,
para poder ganhar um salrio irrisrio, em calcar aos ps a sua
inteligncia e a sua dignidade!... Tu no sabes, repito, o que 
sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever
prxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um bero, murmurando: Que
ser desta criana, quando eu lhe faltar?

Rosa e Andr achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que
desafiavam a adversidade.

--Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porm eu, que o sei
por experincia prpria, jurei sobre o tmulo de minha mulher, morta de
misria, vtima de privaes de toda a espcie!... que nunca daria minha
filha a um homem pobre.

Andr levantou-se, plido e com as feies transtornadas.

--A no ser que ela tenha um dote razovel... concluiu o velho.

Os dois jovens ficaram aterrados.

--Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.

--Senhor! bradou Andr, trmulo de indignao, se o que diz  um
gracejo...  bem cruel!

Pap Germinal esfregou as mos, produzindo desta vez o rudo de um
raspador colossal.

--Senhor Sauvain, a quantos estamos do ms?

--Oh!... o senhor est abusando...

--Responda-me por favor: quantos so hoje?

--No sei!... 8 de maio, creio eu.

--Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha
possui um dote.

--Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrdula.

--Isso pouco me importa, disse Andr, o essencial para mim...

--Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, no consentiria eu
que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.

Desta feita, o susto sufocou Rosa e Andr. Pareceu-lhes palpvel que o
senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].

Mas o velho, sempre srio, tirou convulsivamente do bolso um grande mao
de notas de banco, folheou-o perante os olhares atnitos dos dois
namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: Noventa e dois mil
francos! Tome l, meu genro!




IX


Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mos do
senhor Germinal, cuja misria igualava a de Job!... O caso era de
natureza a inspirar suposies extravagantes: at Rosa se inquietou.

--Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?

--Pertence-te a ti; pois que to dou.

--E de onde lhe veio tanta riqueza?

A fronte do velho enrugou-se; at aquele momento desenvolvera inslito
desembarao, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu
constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.

--De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?

--Certamente!...

--Das minhas economias.

--Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessrio!... quando
no era raro ignorarmos na vspera se jantaramos no dia seguinte!

--Minha filha,  bom sofrer no presente para assegurar o futuro.

--Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de
remdios e de dinheiro para os comprar!

--Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.

--Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pde poupar perto
de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?

--H muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crnio; os
pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos,
e os francos em notas do banco.

--Para isso mesmo era necessrio recorrer ao cambista, e h doze anos
que meu pai no pe os ps fora de casa!

--Ests importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor
de palha, passou ao amarelo do enxofre; alm de que... h mais de doze
anos que tive uma herana...

--Agora diz que o herdou!...

--Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou Andr secamente.

--Ao que parece...

--Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a me de Rosa morreu 
mngua do necessrio!...

--Vo para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se- acaso que me
tomem por um ladro?

--Meu pai!...

--Vizinho!...

--Minha filha... Meu amigo... No querem o meu dinheiro, no  assim?
julgam-no de origem impura? Pois no o queiram. Reembolso-o, e... basta
de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e no falemos
mais em tal!

--Senhor, exclamou Andr, afiance-nos ao menos que existe um motivo
grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...

--Nada mais desejam?... Pois bem;  verdade, com a breca! Tenho um
motivo grave... gravssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!

O senhor Germinal estava extremamente agitado.

--Porm, continuou Andr, como o consideramos um dos homens mais
honrados deste mundo...

--No carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.

--Ora... ainda bem! Graas a Deus! exclamou o velho, respirando mais
livremente.

E, enlaando Rosa nos seus braos, envolveu-a num olhar cheio de
ternura, e beijou-a na testa.

--Criana m!... murmurou ele, ests com muita pressa de abandonar o
teu velho pai?... Porque no esperas cinco ou seis anos?

--E quinze, porque no? resmoneou Andr.

--Ns no te deixaremos, pap!

O senhor Germinal abanou a cabea.

-- o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste
arganaz desengonado!

--Obrigadssimo pelo elogio, disse o pintor.

--E, a final de contas, se no casasses com ele... nem por isso adoecerias!

--Perdo, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!

--Est bom! basta! interrompeu o velho assustado; j mo disseste... E
foi mister essa ameaa, continuou ele entre dentes, para me resolver...

No disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco atravs do
usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de sbito:

--Vamos! abracem-se diante de mim!

O pintor no se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.

--E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A
riqueza de minha filha no deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.

--Antes duplicar as minhas foras, lhe tornou Andr; quero ganhar um
dote igual ao de Rosa, e... ganh-lo-hei!

--Ento v para o seu _atelier_, e volte depois para jantar connosco. 
sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!

Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram
a soltar dos lbios, ouviu-se no ptio o rumor de uma violenta altercao.

Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol,
discutiam calorosamente:

--Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.

--A casa de um dos seus inquilinos, j lho disse, com mil demnios!
respondeu um baixo profundo, de timbre metlico e pronncia meridional.

--Qual inquilino?

--De certo o menos tolo.

--Isso no basta... Como se chama ele?

--No sei.

--Ora essa!...

O senhor Germinal, ao ouvir o som de um rgo humano, mudara de semblante.

--Quem est a? perguntou ele, quem  esse homem?... que quer?...
Vamo-nos embora, no digam que estou em casa!

Os olhos rolavam-lhe assustados nas rbitas; os membros tremiam-lhe, os
queixos batiam um no outro a seu pesar.

--Mas, disse Rosa, no pode ser para ns, meu pai; no conhecemos pessoa
alguma!...

--Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.

--Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.

--Sempre esta doena nervosa! respondeu a jovem. A presena de um
desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem , meu amigo... e
sossegue-o.

Andr subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora
Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de
pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.

--Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para c vem
_barrado_, fregus! Safe-se quanto antes, quando no grito  da guarda!

--No faa tanta bulha, tiasinha, cale-se a!... Com mil amarras!... Por
quem me toma, voc?

--Por um velho larpio, que tratava de se encaixar c em casa! Ah, seu
grande velhaco! julgava que o no viam, quando passou diante da minha loja?

Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido
fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento
achar-se em frente de Andr, cujo rosto admirado aparecia por cima da
sebe de buxo.

--Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E, caminhando direito ao
pintor, estendeu-lhe a mo, gritando:

--Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
encontrar!

Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapu e
cumprimentou-os com galantaria.

--Desculpe-me, senhor; peo mil perdes, menina, se os interrompo na sua
conversao... So apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem
amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...

--Perdo, senhor, disse Andr, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?

--Que diabo!... pois no me reconhece?

--Confesso que no.

--Ora olhe bem para mim, com a breca!

Andr olhou. A sua verificao deu em resultado: uma cabea calva, um
nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco
srdido, umas botas acalcanhadas, e um chapu pardo. Tudo isto,
iluminado por dois olhos buliosos, brilhantes e cheios de malcia,
despertou-lhe pouco a pouco a memoria...

--Ento no se recorda? perguntou o recm-chegado.

--Ora espere!...

--Em 24 de Dezembro,  noite... na vspera de Natal...

--Ah!... sim!...

--Defronte da vidraa...

--De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou s suas ordens, meu bravo!

Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da
visita lhe no dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor.
Esfregava lentamente as mos, soprando como uma baleia ferida. Rosa
contemplava Pedro Toucard.

-- um novo conhecimento, disse-lhe baixinho Andr, sorrindo-se; esta
noite lhe contarei como o adquiri.

E despediu-se do pai e da filha.

--Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a
honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil
amarras! observou ele a Andr, seguindo-o; e o pai parece bom homem...




X


s vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas
tivessem todos uma s cabea, para lha cortar de um golpe, Andr Sauvain
desejara, nesse momento, que o gnero humano tivesse um s peito, para
poder estreita-lo amigavelmente nos braos.

Portanto, fez boa cara e bom acolhimento quele indigente desconhecido,
cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasio.

--Irra!... mancebo, disse-lhe o provenal enquanto atravessavam o ptio,
pode gabar-se de me ter dado que fazer! H quatro meses que corro Seca e
Meca por sua causa.

--Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?

--Nem o nome, nem a morada... No momento em que lhe perguntava uma e
outra coisa, zs! partiu como uma bala!

--Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...

--Farsista!... A verdade  que lhe desagradava o papel de meu credor, e
queria tacitamente dar por saldada a minha dvida.

--Ora... uma bagatela!

--Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem
 noite; reconheci-o  luz de um bico de gs, quando atravessava para a
rua dos Mrtires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrs de si, mas
as minhas pernas j no so setas, e cheguei justamente a tempo de
receber com a sua porta na cara. No eram horas para visitas. Tomei o
numero da casa, e eis-me aqui!

--Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no _atelier_.

Pedro Toucard entrou, com o chapu  banda, bamboleando-se e retorcendo
com af uma das pontas da sua barba grisalha. Comeou reembolsando o
pintor da mdica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais 
vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma
familiaridade cada vez maior.

Num volver de olhos, inventariou a moblia e permitiu-se fazer um
trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a
examinar vrios esboos; fez careta a uns, e sorriu para outros com
ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas  parede, e
descobriu sucessivamente uma, duas, trs, quatro cabeas de mulher...
sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.

--Bravo! exclamou ele.

--Que temos? interrogou Andr descontente.

--A virgem do jardim! Sim, senhor!... No  digno de d, meu amigo...
porque naturalmente  correspondido!

--Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada
sem-cerimnia, estou com pressa; tenho um negcio urgente, e se lhe no
sou j preciso...

--No vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com
mil bombardas! e  por isso que me interesso no que lhe diz respeito.
Alm de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ningum se
corrige nesta idade, com todos os diabos!

--Tanto pior! observou-lhe Andr.

--Pelo contrrio, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
habituado a eles, h sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.

Andr sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.

--Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.

--Para qu?

--Ora essa!... para que me conhea bem. Embora por sorte mofina me veja
reduzido a um ente miservel, velho e pobre, sou com tudo um patusco
aproveitvel; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
prestou servios.  falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um
homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.

--Pelo que toca  minha felicidade, lhe tornou Andr, outra pessoa se
encarregou dela.  negcio concludo. Porm... no lhe agradeo menos a
boa inteno, meu bravo!

--Vejam l como so os rapazes! Este julga-se completamente feliz,
porque vai desposar a sua bela das tranas doiradas!

--Como o sabe?

--Que grande mistrio! Qualquer caraba o teria adivinhado, s de os ver
ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos
de memria!... Mas, meu caro... a felicidade no consiste s numa
afeio, aguda ou crnica; a felicidade, no obstante o que tm dito os
trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!

E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenrias haviam ornado
com bambinelas de seu lavor.

--Dar-se- acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
perguntou Andr, rindo.

--Presentemente no, respondeu o provenal, contemplando
melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal
necessrio... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o
futuro; ainda hei de _trepar_, creia!  a minha sina! E, quem sabe?...
talvez que eu algum dia lhe compre quadros.

Andr contemplou com admirao aquele sexagenrio, falando do futuro, na
idade em que geralmente s se pensa no repouso.

--Nada o faz desanimar! disse o pintor.

--E tenho boas razes para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
minha historia?

--Venha ela!

O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.

--Pode a gente fumar em sua casa?

--De certo!

Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mo uma das pontas da sua
longa barba, e contou por mido o que ns vamos contar... por grosso.




XI


Pedro viera ao mundo sob a influncia de uma estrela buliosa, e trouxe
a bossa da especulao. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o
diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de l saiu. Foi este que
obrigou Pedro, ainda criana, a trocar umas vacas, de que lhe haviam
confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na
sua opinio, o grmen de uma casa de comrcio. Mas Pedro foi agarrado;
Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeou as suas
operaes em mais larga escala.

Dentro em pouco, o seu furor pelo negcio, a necessidade de agitao, o
seu carcter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente
insuportvel. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indstria,
pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro
quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabea
recheada de projectos, de clculos e de empresas futuras. Levava consigo
um pacote de pees, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera
barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos
rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.

Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profisso.
Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer gua vai. No tinha
as pernas muito compridas, mas a ambio forneceu-lhe botas de sete
lguas, e lanou-se a galope atrs da fortuna.

Desde ento, a sua vida no foi mais do que uma carreira desenfreada. S
 sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
maiores extenses. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de
locomoo conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco
anos a p, a cavalo, em burro, em dromedrio, em piroga, em paquete, a
nado, em diligncia, pela posta, em patacho... traficando, vendendo,
comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em pelias, em
azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S.
Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Gnova,
expositor em Londres, mestre de dana em S. Petersburgo, caador em
Arkansas, vendedor de pio em Canto, fotografo em Madrid, livreiro em
Leipziek, e... um tanto corsrio por toda a parte, exerceu cem
profisses, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.

Dez vezes alcanou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem
mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais
depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recarem em
zero... E sempre assim, durante meio sculo!

O acaso, que tomara por bssola, brincava com este homem, como um
colegial com uma pela, lanando-a a grande altura, ou mergulhando-a no
fundo de um poo. Porm ele comprazia-se no meio destas alternativas,
que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligncia. To ardente
no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existncia faustosa nos seus
dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro s mos cheias, e
saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma cdea
de po e de um cachimbo de tabaco, no se importando de servir de criado
queles mesmos que recebera  sua mesa.

Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava s pelas comoes
corrosivas da perda e do ganho.

Entretanto fixara um limite  sua futura riqueza, e dissera consigo:
No irs alm! Queria dois milhes. Por varias vezes conseguiu o seu
fim; mas... vinha um incndio, uma falncia, uma revoluo, um
cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma
caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, bano e pedras
preciosas. Pelo caminho calculou os lucros provveis dessas mercadorias,
e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua
ltima tentativa. Eis seno quando, uma nuvem de salteadores rabes
ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus
servos estrangulados. E Pedro, sempre filsofo, recomeara pacientemente
a sua teia despedaada.

Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitrias em derrotas, sentiu
chegar os sessenta anos; e, como aventureiro j saciado de fadigas,
opulento  medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da
ptria. Porm a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os
seus marinheiros e aniquilara a carregao, arruinando Pedro pela dcima
ou duodcima vez.

Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma
tbua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delrio uma
sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pde
sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braos com um
ttano, dirigiu-se para Paris. Foi l que Andr Sauvain o encontrou
andrajoso e faminto.

--E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que
escutara esta narrativa com crescente interesse.

--Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
dinheiro, comprei fsforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos,
serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moo de recados,
escritor pblico, contratador de bilhetes de teatro, professor de
esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me v, possuo
j alguns centos de francos, que me produziro avultados lucros. Vou
alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando
tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.

--Com que fundos?

--Com os da minha inteligncia, respondeu Pedro Toucard, batendo na
testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!...
Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num ms
teria ganho o qudruplo!

--Ou ficaria sem nada...

--Qual histria! s os tolos  que se enterram, e eu tenho olho vivo...
Aposto que ainda me ver milionrio!

--Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audcia, j  ter
confiana em si!

--Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
preferido da fortuna: abandona-me s vezes, mas volta sempre para junto
de mim... As ideias vm-me, como aos outros o ar que respiram; uma
palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um co, uma
tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma
ideia... Eis porque eu tenho confiana!...

Assim falando, o provenal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.

--Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraos,
leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me
depara... este, por exemplo, e zs! uma ideia me...

Interrompeu-se de sbito, e o seu olhar ficou fixo no pedao de papel,
que lhe estava servindo para demonstrao...

--Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.

--Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se tambm. O velho fez-se
amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudrio, e por fim agarrou
no pulso de Sauvain, e apertando-lho com fora, balbuciou:

--Que numero  o desta casa?

--Oitenta e sete.

--Rua dos Mrtires?

--Sem dvida.

--H c algum que se chame Germinal?

--H, sem dvida!... respondeu Andr estupefacto.

--Aonde mora?

--Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava h pouco!...

--Com mil raios! bradou Pedro.

E, num salto de jaguar, atravessou o _atelier_, abriu a porta, correu
para o ptio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e
desnorteado.

Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.

-- o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
Toucard.

O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta  queima-roupa, respondeu
apenas com o seu eterno raspadouro.

--Sim senhor, disse Rosa.

--Muito bem!... continuou o provenal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
sou...

No teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar
com os braos, e caiu pesadamente sobre o banco.

--Meu pai!... exclamou Rosa assustada.

--Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.

--Aconteceu... que tudo est desfeito, articulou o velho com voz
estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho!
Separem-se... pois nunca sero um do outro. Depois, dirigindo-se
bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade,
disse-lhe:

--Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas,
seguido pelo provenal, no menos agitado do que ele.

Rosa e Andr entreolharam-se com terror: dir-se-ia que cara um raio ao
p deles. Por um movimento espontneo, a jovem refugiou-se nos braos do
seu amado Andr.

--Separar-nos!... murmurou ela.

--Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.

--Mas... que significa isto, meu Deus?! Andr, no auge da desesperao,
meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois,
abatido, deixou pender a cabea sobre o peito. Nesse instante, descobriu
por terra o pedao de papel, que ocasionara esta peripcia. Levantou-o.

Era um pedao de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos
de anncios.

O pintor leu o que se segue:

Aos herdeiros ou parentes do senhor Onsimo Toucard, falecido em 8 de
maio de 1872, roga-se com instncia, para seu interesse, que se dirijam
a M. Germinal, rua dos Mrtires, n. 87.




XII


 indispensvel agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
anos atrs.

Em 1842, num esplndido domingo de primavera, o senhor Germinal, ento
empregado numa repartio publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da
margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difcil de descrever.

Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barmetro; atravs
da espessa nvoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem
vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de
trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o cu; cem vezes
perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboara na mesa, com a
ponta da raspadeira, rvores, campanrios, carneiros e choupanas. Tantas
distraces num empregado-modelo, atraioavam algum projecto,
amorosamente acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse
taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia
no prximo domingo a Viroflay.

Nesta poca, o senhor Germinal roava pelos seus quarenta e sete anos, e
havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se 
mesma hora, na mesma cadeira,  mesma secretria, com as mesmas mangas
de lustrina, em frente dos mesmos indivduos, e recebendo o mesmo
ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e trs francos e
trinta e trs cntimos.

O senhor Germinal passava, e com razo, entre os seus chefes e colegas,
por um homem de medocre inteligncia, mas trabalhador assduo, de
inteira probidade e inflexvel honradez. As suas ideias, somadas,
ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e
alinhadas, como uma tbua de Pitgoras. Quando  noite se deitava,
exausto de fadiga, com os dedos inteiriados de segurar a pena, e o
esprito baralhado de algarismos, no pensava sequer em meter-se nas
questes sublimes da politica, religio, moral ou filosofia, que fazem
divagar nas alturas o pensamento dos que nada tm que fazer.
Limitavam-se os seus esforos de imaginao  saudade de sua falecida
mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho
no dia seguinte; depois, o sono envolvia-o nas suas pesadas dobras e
levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma
dessas veleidades maldosas, que mancham a conscincia, o agitava sequer
por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.

Aquela existncia de ostra pegada ao rochedo, far compreender o
extraordinrio alvoroo, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva
de uma digresso, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele
classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava,
respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas
vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer prximo de beijar sua
filha, que tinha ento cinco anos, e de apreciar, por intuio prpria,
os progressos que ela fizera em sade, estatura e vigor, durante os
dezoito meses, em que deixara de a ver.

O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Pscoa, para
desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza
humilde e tmida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina
para resistir ao sopro gelado da misria. Morreu de parto, deixando-lhe
uma filha, com as suas feies, e a quem o empregado ps o nome de Rosa,
em memoria dela.

A criana era dbil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moa e robusta,
que levou a pequerrucha banhada das lgrimas de seu pai, e prometeu
restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
efeito, cumpriu to bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a
de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deix-la mais
tempo em casa da ama, e mesmo v-la s de longe em longe, porque a
despesa das viagens abria sensvel brecha no seu modesto oramento.

Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se
sentia ligeiro como um pssaro. Entreabria-lhe os lbios, cor de
ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa poca...) e o rudo de
raspador, produzido pelo esfregar das suas mos, confundia-se com os
silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem;
ele porm acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria
talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse
veloz sobre os seus cordes de ferro, acusava-o de lentido, e vinte
vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraa, se
afastava dele.

Entretanto ia depressa! e to depressa, que nenhum dos viajantes se
recordava de semelhante celeridade.

As rvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a
estrada, fugiam arrebatados num turbilho infernal... Apareciam e
desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a
rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos
exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confuso
extraordinria... um vertiginoso turbilho... uma miragem louca, anloga
 que reflectiria uma onda violentamente agitada...

Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;
entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mos
uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.

E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...

Houve um momento solene, um momento longo como um sculo, um momento
durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as
conscincias, e pensou nos entes queridos que o prendiam  vida...
Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!...
Eram 8 de maio de 1842.

Como escapou o senhor Germinal quele desastre? Ele mesmo nunca pde
recordar-se.

 mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do
animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria
atravs dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas
recuperou o esprito, o seu primeiro acto foi voltar atrs e auxiliar os
socorros, que de todos os lados acorriam.

Passou-se ento um facto, que deixou na sua vida indelvel impresso.

Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar,
desprendeu-se-lhe dos braos, e entregou-lhe uma carteira, murmurando
estas palavras:

--Guarde:  um depsito... que lhe confio... Entregue-o pela sua prpria
mo a... Eu chamo-me...

Fez um esforo supremo para concluir, mas no pde; caiu morto no
_wagon_, que comeava a ser invadido pelo fogo.




XIII


No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Intil 
acrescentar que foi de carruagem.

Quando se reinstalou na sua habitao, a senhora Possignol recusava-se a
reconhec-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O
seu semblante parecia uma plancie devastada por um ciclone; para o
corpo fez  involuntria aquisio de um tremor nervoso; e para o
esprito, a de dois cuidados graves: o depsito, que lhe fora confiado;
e sua filha, que trouxera consigo, no querendo estar por mais tempo
separado dela, depois de ter visto a morte to de perto.

A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu
as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imvel ante um
objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.

Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no
couro, em letras outrora douradas, o nome de Onsimo Toucard.

Continha noventa e dois mil francos.

Perante aquele mao de papeis, que representavam mais de sessenta anos
do seu ordenado, o digno burocrata por pouco no perdeu os sentidos;
eriaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um mvel, com o
qual barricou a porta.

Depois, prosseguiu nas suas investigaes com ardor febril.

No levaram essas muito tempo: a carteira no continha papel algum, que
pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco,
s forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e vrias
despesas, escritas com m caligrafia, umas a lpis, outras a tinta.

O vivo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que
os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se
confusamente; a final, exausto por to diversas comoes, arrecadou a
carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do
travesseiro, e deitou-se.

Se o sono no chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da
janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chamin, insinuavam-se
ladres, que esquadrinhavam na gaveta com deplorvel afinco.

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em
p, descalo, imvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a
perguntar a si prprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma
tbua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz
engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demisso da secretaria,
e fazer valer os seus direitos  aposentao.

 secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! S cuidava em
desencantar a famlia Toucard, e desembaraar-se de uma aterradora
responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais
prximo comissariado de polcia, mas o senhor Germinal no era do feitio
de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como
ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria
aquele rosto contrado, sentia aquela mo fria apertando a sua, ouvia
aquela voz agonizante a dizer-lhe:

--Entregue-o pela sua prpria mo a...

Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem
fosse: Onsimo dissera Pela sua prpria mo... e isso era o
bastante para o senhor Germinal no se arredar um passo da vontade
expressa do moribundo.

Ps mos  obra sem tardana. Durante muitos meses, viram-no sair
quotidianamente ao romper de alva, para s voltar depois de noite,
estafado, modo e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_,
gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da
prefeitura de polcia, por pouco no pegou de estaca em cada uma das
legaes estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles
e seus subrbios, revolveu cu e terra, e contudo no descobriu em parte
alguma vestgios da passagem ou da morada de Onsimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco
aboloreciam no buraco,  merc dos ladres ou do incndio; e a
pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de
sorrir  mscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas no
podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas
correrias infrutferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que
enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para
sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar
um anuncio nos jornais... depois dois... depois trs... depois vinte...

 medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais
frentico, mais nervoso, mais pusilnime. Os noventa e dois mil
francos invadiram-lhe o crebro, submergindo todos os seus pensamentos.
Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as
faculdades morais a ponto de no ousar mais afastar-se de casa, e disps
as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntrio.
Primeiramente, matriculou Rosa em um colgio prximo, com a condio
expressa de a virem buscar todas as manhs, e traz-la de tarde. Depois,
contratou com uma agncia de anncios para que, at nova ordem, o seu
reclame fosse publicado duas vezes por ms. E feito isto, aferrolhou-se
dentro de casa e entrou de sentinela.

Ningum o rendeu do seu posto; e a adquiriu, pouco a pouco, uma doena
singular. Ou fosse porque aquela perptua expectativa, sempre alerta e
sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou
porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele
predisposies latentes, comeou a manifestar sintomas de avareza.
Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mos, trmulas de
voluptuosidade, no mao das noventa e duas notas de banco, a
amarrot-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio
_fru-fru_... E ento, envergonhado de si mesmo, afastava-se de sbito,
fazendo votos sinceros pela apario de um Toucard qualquer.

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colgio j a
enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domiclio paterno, a
sua fisionomia, fresca e lou, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solido, e a
loucura no tardaria. Contudo, a influncia daquela criana adorada no
tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direco s suas
inquietaes. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as
promessas que as mulheres fazem,  essa a nica que geralmente costumam
cumprir. O vivo admirava nela as feies queridas da sua defunta; tinha
a mesma graa, a mesma afectuosa alegria, a mesma expresso no olhar,
mas tambm a mesma dbil constituio. O pobre pai suspirava, vendo-a
estragar, em grosseiras ocupaes, as suas mos pequeninas e brancas;
empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

 fora de temer para ela a misria, acostumou-se gradualmente a
desejar-lhe o impossvel... isto , _dinheiro_. Os seus vagos, instintos
de cobia pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistncia desde
que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que,
contemplando a carteira de Onsimo Toucard, o senhor Germinal dissera
consigo:

--Se o no reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no crebro do senhor Germinal, alastrou-se
como uma ndoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e
dois mil francos: ar, sol, espao, prazeres e sade... tudo
simultaneamente lhe passou pela imaginao fascinada. Em vo se
desculpava para com a sua conscincia, murmurando:

-- uma simples hiptese!... A hiptese era j uma esperana, que fizera
mudar de causa a sua impacincia e agitao; tanto estremecera de
jbilo, quanto estremecia agora de receio,  vista de um estranho;
cessara de publicar anncios, e cada dia, que passava, era riscado no
almanaque, como um perigo de menos a evitar.

Trs anos decorreram ainda, e foram terrveis! A penso do senhor
Germinal, at ento suficiente para um velho e uma criana, no o era j
para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educao de
Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua
enxerga, a braos com a febre ou com a fome, sentindo atravs do tabique
sua filha a chorar, tivera horripilantes tentaes, relativas a esse
dinheiro, que dormia intil ao alcance da sua mo. Contudo no tirou
dele a mnima parcela, nem sequer trocou uma nota.

Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero at ao
superlativo, chegou, de concesso em concesso, a formar o seguinte
raciocnio:

Fiz tudo quanto era humanamente possvel para descobrir os herdeiros de
Onsimo: o meu dever est cumprido. Restituir esta soma ao estado, que
no carece dela, seria um absurdo. Acaso no quereria a Providencia
compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me
utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.

Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma
casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim
dos cios e distraces, de que at ento fora privada a sua mocidade.
Mas, logo que pegou nas notas com a inteno formal de se apossar delas,
empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia
cometer um roubo.

No  de urgncia, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos...  uma
criana nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco
de bem-estar  nossa pobre casa. A verdade  que no nos falta o po!
Esperemos mais dois anos... Doze anos  um prazo razovel...

Todavia,  provvel que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre
pelos mesmos escrpulos, se Rosa lhe no houvesse confessado o seu amor
por Andr Sauvain.

Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas
hesitaes. Convenceu-se de que existia uma sria paixo, de parte a
parte; estudou o pintor, afeioou-se-lhe, e, meio desesperado, meio
satisfeito, resolveu conceder-lhe a mo de Rosa, com os noventa e dois
mil francos, no dia em que expirasse o dcimo segundo ano do depsito.

Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a conscincia
oprimida e o esprito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos
aos dois jovens.

Vimos j como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro
Desmancha-prazeres.




XIV


Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento,
estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do
outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam plidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provenal luziam como carbnculos; torcia a barba a ponto de
quase lhe arrancar os cabelos.

--Como amos dizendo, comeou ele, os parentes ou herdeiros de Onsimo
Toucard foram rogados, com instncia, para, a bem de seus interesses, se
dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mo
existem alguns fundos, os quais devem pertencer queles, no  assim?

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade
que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda
negar o depsito, e desembaraar-se de Toucard, mentindo; mas... no se
 honrado impunemente!

--Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e
aproximou a cadeira.

--Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

-- ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando
tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiana.

--Em que grau era parente de Onsimo Toucard?

Uma vermelhido, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provenal;
abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior.
Contudo, aps alguns segundos de reflexo, recobrou o seu habitual
desembarao e respondeu:

--Em grau muito prximo; sou seu irmo, e o nico representante da
famlia, hoje extinta.

--Ento... porque no deu sinal de existncia durante doze anos?

--A razo  simples. H doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e
apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,
ignorava a morte do meu pobre Onsimo, e s esta manh a soube.

--De que modo?

--Por um dos seus anncios.

--H cinco anos que os no publico!...

-- possvel que o pedao de jornal, em que o encontrei, datasse dessa
poca... Mas no percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herana?

--No calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

--Aproximadamente... talvez. Meu irmo era scio da minha casa
comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidmos, partilhando os lucros,
que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onsimo morreu em
8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

--Foi em Paris que se efectuou a partilha?

--No, em Liverpool.

--Nesse caso, quando seu irmo faleceu estava em Frana, havia quatro ou
cinco dias apenas?

--Um ou dois, se tanto.

--E o senhor?

--Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para
Calcut, sem pressentir que nesse mesmo dia Onsimo esticava a canela em
Versailles.

--Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

--Presumo-o; ele tinha teno de l fixar a sua residncia...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitao.

--Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos
que possuo, mas desculpar-me- se exijo provas mais palpveis da sua
identidade...

--Ora essa! disse o provenal;  muito justo. Felizmente trago sempre
comigo os meus papeis, visto no ter domicilio certo, nem fechadura
segura...

E dizendo isto, a mo do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e
reapareceu  superfcie, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lanou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente
convencido. Aquela carteira era irm gmea de outra, que por tanto tempo
namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimenses, e os mesmos caracteres,
outrora dourados, indicando o nome do seu proprietrio: Pedro Toucard.

--Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certido de baptismo, disse o
provenal; eis aqui, tambm, diferentes passaportes; e enfim, duas
cartas de Onsimo... Conhece-lhe a letra?

--Conheo, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negcios e tinham a assinatura de
Onsimo Toucard. Ambas as cartas comeavam por estas palavras: Meu
querido irmo...

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e
comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. No podia
conservar a sombra de uma dvida.

--Senhor, disse ele ao provenal, cujos olhares impacientes revistavam
todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herana,
reconheo-o por irmo e herdeiro de Onsimo Toucard. S me resta...

--Entregar-me a herana, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a
pois... meu bravo!

--Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraada seu irmo
pereceu.

Ora!... ora!... ora!...  intil. No percamos tempo precioso!

--Entretanto...

--Que morresse de bexigas, ou tsico, pouco importa. O positivo  que
morreu; agora vamos s contas...

--Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e
porqu, ele me confiou as suas ltimas vontades.

--Pois sim, diga l! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi to conciso, quanto parecia desej-lo o seu
interlocutor.

--Pobre Onsimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um
grande traste!

Porm, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma orao
fnebre to pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:

--Que quer! Nas famlias numerosas,  raro deixar de haver... h sempre
algum tratante... Mas tratemos agora...

--Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e
dep-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco
mais.

--Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, brio de alegria.
Viva a Frana! e vamos  Bolsa! Com a breca! faro bem em ter cuidado
comigo, l na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, no possuir dois
milhes, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassvel e pensativo ante aquela exuberncia
de jbilo. Para ele estava consumado o sacrifcio...

Pedro bateu-lhe no ombro.

--No lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma
recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabea.

--Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital
devem ter produzido uma continha menos m...

--Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso?
Estes valores so os prprios que recebi em depsito; no saram de
minha casa!

--Farsista! Ento no os empregou em aces, em rendas, em obrigaes,
em terras, ou em inscries sobre hipoteca?... em suma, no os fez
render de alguma forma?

--No, senhor.

--E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

--Certamente!...

--Ignorava ento, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de
catorze anos?

--No o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de
outrem?

--Magano!... disse Pedro, sorrindo com ar incrdulo.

--Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignao, esquece que, se acaso
eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

--Isso  verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

--E com efeito, este quarto no  dos mais luxuosos... Decididamente, a
virtude  uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

--Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.

--O que ? perguntou este ltimo.

-- a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anncios,
aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e
cinquenta cntimos.

--Com mil amarras!... Ora v passear, mais as suas contas de boticrio!
exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui
tem o mao, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

--No aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com
firmeza. Cansado de lutar, o provenal cedeu, porque estava ardendo por
ver-se dali para fora, e esboar nova especulao. Reembolsou-o dos mil
quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mos do velho,
disse-lhe:

--Meu bom amigo, eu sou espertalho, e conhecedor de fisionomias. Gosto
de ler na sua, posto no seja das mais belas... O senhor  teimoso como
um burro, mas  o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto no
ficar assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapu na cabea, enfiou
as notas nos bolsos das suas calas esfarrapadas, e, radiante, com os
olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu
a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco plido ainda, mas desta vez
tranquilo... e quase alegre tambm!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.




XV


 tnue sombra do microscpico jardim, atravs das moitas de lilses,
distinguiam-se dois rostos juvenis, que no tinham vontade de rir.

Rosa e Andr, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da
tempestade. Lendo o anncio, tinham quase atinado com a verdade, e as
ltimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, no bastavam palavras para desarreigar as firmes razes da
esperana, e Rosa encostando a loura cabea no ombro do seu prometido,
tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva  varonil repetir:--Amemo-nos,
apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provenal,
envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.

--Olhe, disse Pedro parando; ali est o que nos rejuvenesce trinta anos,
meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforando-se por mostrar-se
severo, bradou:

--Rosa!

--Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

--V j para casa.

Ela ergueu-se com tmida lentido e, oferecendo a fronte aos lbios de
seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de splicas e
de amargura.

--Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso
de falar com Andr.

Rosa afastou-se sem voltar a cabea. No queria que lhe vissem as lgrimas.

--E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se
tivesse pisado uma serpente; decomps-se-lhe a fisionomia e, segurando o
senhor Germinal pela gola do casaco:

--Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um
momento.

--O do senhor Sauvain.

--E quem  que se chama assim?

--Este mancebo.

O provenal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de
Andr, que mediu com olhar inflamado.

--Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

--Certamente!...

--Nasceu perto de Granville?

-- exacto.

--E seu pai era marinheiro?

--Era.

--A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulao... h
vinte anos?

--Sim, mas porque acaso?...

--Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,
tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o
chapu.

--E sua me? continuou ele ofegante.

--Minha me...

--No receberia ela?...

--O qu?

--Quero dizer... sua me... Onde est sua me, senhor?

--Minha me morreu. Conheceu-a, porventura?

--Eu! exclamou o provenal, nunca a vi.

--Entretanto...

--No, j lho disse; nunca a vi na minha vida!

--Ento teve relaes com meu pai?

Toucard no respondeu. A sua agitao atingiu propores assustadoras.

--No! no! mil vezes no! balbuciou ele, tropeando no chapu sem
reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde no digo
que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com gua, destinada
provavelmente  rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes,
o seu crnio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imerso, sacudiu-se como um co molhado, e
sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e Andr observavam-no com crescente estupefaco.

--Que  isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim
assim? Que disse eu, que tanto os espante?

--Nada disse por ora, respondeu Andr, mas peo-lhe que me explique...

--A explicao ser curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um
marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que
morrera num naufrgio: eis o motivo por que o seu nome me abalou.
Demais... sou propenso  apoplexia... a menor comoo faz-me subir o
sangue  cabea! Mas no faam caso... j passou.

O provenal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando
noutra coisa. As suas feies expressivas revelavam a maior irresoluo.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.

Andr Sauvain no se contentou com to sucinto esclarecimento.

--Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a trs passos daqui,
quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

--Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que no contava. O
senhor vai pr casa... Se duas ou trs notas de mil francos... ou mesmo
quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser teis
nesta ocasio, no faa cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mo trmula o mao das notas.

Andr corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

--A que ttulo me faz esse oferecimento? perguntou ele.

--A ttulo de amigo.

--Vimos-nos apenas duas vezes!...

--A ttulo... de antigo amigo de seu pai.

--Conhecia-o de leve, segundo disse.

--Ento... a ttulo de gratido. Fez-me um favor, quando eu precisava...
 a minha vez agora. Que diabo!...

--Agradeo-lhe a inteno, mas recuso.

--Porqu?

--Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para
aceitar qualquer emprstimo, no sabendo quando poderei pag-lo.

--Ora? que importa isso?...

--Importa-me muitssimo!

--Com mil bombas! que esquisitices! e que demnio de casa esta, onde se
recusa aceitar o que tantos outros...

Um relgio da vizinhana vibrou no espao.

--Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar
faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho!
Vais aventurar-te sobre um terreno movedio... Prova a essa scia de
imbecis que lhe s superior no artigo _inteligncia_.

--Um momento, senhor, disse Andr; rogo-lhe que me explique...

--Coisa nenhuma, neste momento!...

--Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do cho o chapu, amolgado em dez partes, brandiu-o com
gesto majestoso, e partiu exclamando:

--A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.




XVI


-- fora de dvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relaes
com a minha famlia. Mas, porque far mistrio disso? , na verdade, um
homem surpreendente! Que impacincia, que febre de agiotagem! Veja como
corre!...  um furaco!

--Sim... um furaco, murmurou Germinal, passando amigavelmente o brao
pelo de Sauvain, um furaco que derrubou os nossos _castelos no ar_!
Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. Andr obedeceu, cerrando os
punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferncia, que iam ter, e, j ardendo em
indignao, revestia-se de uma trplice couraa para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal tambm no se sentia em leito de
rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mos, piscou os seus olhos de
peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis
vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crnio, cor de ferrugem, e essa circunstncia
fez notar a Andr, no sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e
deprimida, tinha bem caracterstica a bossa da teima invencvel.

O senhor Germinal comeou pela narrao do seu triste encontro com
Onsimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas ms
tentaes reprimidas, as suas esperanas, os seus receios e os seus
desalentos.

Quando acabou, Andr disse-lhe friamente:

--Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua conscincia ficou em
repouso; est tudo o melhor possvel. Porm devia ter a certeza de que
ns, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaramos
sem hesitao ao seu legtimo proprietrio.

--No tenho a menor dvida, retrucou o senhor Germinal; sei que  um
mancebo digno. Quanto melhor o conheo, mais o aprecio... Teria orgulho
em chamar-lhe meu filho...

Andr tornou-se plido, mas fingiu no ter ouvido aquele condicional.

--Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversmos um pouco sobre coisas
mais importantes; voltemos ao que esta manh se combinou...

--Que foi o que se combinou? disse o vivo, corando.

--Que hoje mesmo se fixaria a poca do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

--No me entendeu, pelo que vejo?

--Peo perdo: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depsito, e
que o restituiu. Mas, que tem de comum uma aco to simples com o
facto, muito mais importante, de que depender o nosso futuro?

--No h surdos piores do que os que no querem ouvir! replicou
asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade
material de minha filha...

--No, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a
podiam reclamar. Para quando prefixa a bno nupcial?

--Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por
aquela obstinao sistemtica. Como ousa o senhor pretender associar 
sua a sorte de Rosa? Onde esto os seus meios de subsistncia? H-de ela
viver neste cacifo? Viro os filhos, e com eles as dificuldades, os
expedientes, as dvidas, os cuidados, a doena... a morte!

--Nego-o energicamente! retorquiu Andr, no menos furioso. Mas, embora
o senhor tivesse carradas de razo, era tarde para desdizer-se. Se
este consorcio lhe desagradava, para que veio, h quatro meses,
procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque
incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

--Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

--E pensa que deixar de amar-me por lho ordenar?

--Ignoro-o, mas no casar consigo.

--Ora, senhor!... se o casamento fosse s permitido s pessoas ricas,
extinguir-se-ia o sol.

--Pois que se extinga. No casar com minha filha;  escusado pensar
mais nisso.

--No pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se
aniquila  vontade, como a chama de uma vela! Rosa  o sangue das minhas
artrias, a seiva da minha mocidade, o paraso da minha alma, a
primavera do meu corao!... Pea-me que viva sem respirar, mas no ouse
pedir-me que esquea Rosa!

--Peo-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em v-la
miservel! A imagem de sua me... tenho-a sempre diante dos olhos! No
casar com minha filha!

--Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundncia e do
luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela no encerrava no
peito o grmen de uma doena mortal? E com que direito aquilata
pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,
acorrentado a um trabalho estpido, e cujo nfimo salrio nunca aumenta,
embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moo,
corajoso, inteligente e forte?

--No ponho em dvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,
quando os resultados forem apreciveis, j Rosa ter os cabelos brancos.
No possuir minha filha, senhor Sauvain.

--Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

--No gracejemos, peo-lho!... Oua, senhor Andr: vim falar-lhe, movido
por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. D-me a sua palavra de
honra de que no tentar ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe
acalentar iluses inteis. Com essa condio...

--Nunca!

--Nesse caso, esto quebradas as nossas relaes.

-- a sua terminante deciso?

--.

--Basta. Graas a Deus h leis em Frana; no se coage ningum. Rosa e
eu esperaremos...

--A minha morte?

--No, senhor; a maioridade de sua filha.

--Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, at ento, desculpar que eu
lhe feche a minha porta, e ter a bondade de renunciar 
conversao de minha filha.

--Engana-se! v-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela;
mesmo contra sua vontade!

--Tomarei as medidas necessrias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaador, saiu do _atelier_.

Apenas transps o liminar, Andr correu atrs dele. Arrependia-se da sua
arrogncia. Queria lanar-se-lhe aos ps e enternec-lo  fora de
splicas; mas, quando ia a alcan-lo, as abas flutuantes de um
enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz
como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. Andr
voltou desanimado; ao desnimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero;
depois... os projectos extremos, as resolues insensatas, e at uns
vagos desejos de lanar fogo ao edifcio, precipitar-se atravs das
runas fumegantes, estreitar Rosa nos braos e fugir com ela... fosse
para onde fosse!...

Andr Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um
tigre na jaula. Perto da noite, no podendo conter-se, trepou quatro a
quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou  campainha,
primeiro timidamente, depois com mais fora.

Nenhuma resposta.

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou
o patamar com as suas imprecaes. Mas ningum apareceu, a no ser um
vizinho desagradvel, que resmungou vagamente as palavras: comissario de
policia.

Depois disto, Andr desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do
canap, estorcendo-se e invocando Rosa.

Aps muitas horas deste exerccio incoerente, um colosso ficaria
prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono
febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez
minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia no
surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com
queixumes angustiosos, o chamava por entre soluos. Correu  porta, e,
com os cabelos eriados e o ouvido  escuta, olhou para fora.

J nascera o sol; tnue claridade se coava a custo atravs das nuvens
escuras; a chuva caa vertical e em grossas gotas, marulhando no ptio
pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso.
Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa,
hermeticamente fechadas, no deixavam filtrar o mnimo raio de luz.

O frio da manh atenuou a sobre-excitao febril de Andr; tornou a
deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ningum j
sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que
ele aproveitaria essas ocasies, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e
finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexes,
adormeceu sossegadamente, e to deveras, que a senhora Poussignol, na
sua habitual visita matutina, no logrou despert-lo inteiramente.

--E esta!

Tal foi a exclamao, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os
olhos e contemplou a porteira, que estava de p, em frente dele, com o
bigode eriado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus
sapatos de ourelo, como um pato nos seus ps espalmados.

--Ento, disse ela, no o tinha eu prevenido!...

--De qu?

--De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

--Que gente?

--A famlia Germinal.

Andr sentou-se de sbito no canap.

--Faa favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

--No lhes falto ao respeito, mas isso no impede que eu volte  minha
primeira opinio, de que aquele homem  um antigo criminoso.

--Ainda a mesma tolice!

--Tolice!... A prova  que fugiu, e a polcia vai-lhe no encalo.

--Do senhor Germinal?... Voc endoideceu!

--Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

--O que foi? Vamos, explique-se! bradou Andr com impacincia.

--Esta manha, s quatro horas, ainda no era dia claro, bateram nos
vidros do meu quarto. Quem ? perguntei eu.--Sou eu, Germinal,
responderam. Era j caso para admirar!... pois no era? Um homem que,
durante doze anos, no deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem
mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me,
acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo
de um brao e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia
um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o ms por
inteiro, pespega-me dez francos na mo (primeiro dinheiro dele, a que
vejo a cor--sempre  bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e no
sabe quando voltar; mas que me no inquiete eu pelos mveis, porque
brevemente os mandar buscar. Ento, a menina Rosa, que continuava a
chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porm o pai levou-a
de repelo. Puxei a corda e... boas noites!

Andr parecia uma esttua.

--Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal;  impossvel!

--A prova  que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mos da senhora Poussignol, que ficou
pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama
no fora desfeita.

Andr, lvido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou
nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele
mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas,
que lhe recordava a ausente, encostou-se  parede, inclinou a cabea
sobre o peito e perdeu os sentidos.




XVII


Durante quinze dias, Andr Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um
co que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moo, com a fisionomia espantada, os
cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vesturio em desalinho,
correr como um doido atrs de qualquer transeunte, mir-lo em face, e
logo voltar-lhe as costas para correr atrs de outro, teria acusado
mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bictre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo
dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou
escrupulosamente os mveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um
acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se
agarrou, com ambas as mos a essa suposta tbua de salvao!
Interrogou, suplicou, afagou, ameaou, e maou de mil maneiras o
infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residncia do fugitivo, ou
ao menos algum indcio, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vtima no lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um
ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a moblia do
senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vsperas de empreender uma
longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaos, ou oferecer-lhe os tesouros de
Golconda, que ele no saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ningum
ops dificuldades  remoo dos moveis. Andr seguiu-os com os olhos at
 esquina da rua; levavam-lhe a ltima esperana.

Depois recomeou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o
dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam
gritar e a quem se no paga. Mas a natureza tem os seus limites; este
estado de exaltao originou uma febre cerebral, e o pobre Andr desceu
rapidamente o declive que conduz ao cemitrio.

Felizmente, sua me moldara-o em bronze: a doena apenas o apalpou de
leve, e, no obstante a senhora Poussignol ter chamado dois mdicos, o
pintor escapou. O seu fsico restabeleceu-se  custa do moral:
Andr, sempre profundamente melanclico, atirou-se ao trabalho como quem
se atira a um poo.

Este gnero de suicdio no era dos menos eficazes: Andr prosseguia
nele com uma pertincia de mau agouro, e qualquer outro convalescente,
menos bem construdo do que ele, no duraria trs semanas com semelhante
af.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo.
A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do esprito. E a
arte ganhou com isso: a pintura de Andr ressentiu-se das tribulaes da
sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fria
de concepo, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que
no teriam de certo brotado das plcidas inspiraes de um esprito
tranquilo. O homem feliz j no existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso tambm entrou em cena. Como Andr, a tudo indiferente,
no corria atrs do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a
fama e o dinheiro correram atrs dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de
quadros, que at ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas
telas por preos fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodgio!... e
aumentou-os de seu moto prprio.

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava
j na opinio de alguns ricos amadores, e que, se Andr quisesse, o
oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dvidas que contrara durante a
doena, e voltou  sua lida obstinada.

O vero acabou lentamente. A julgar pelo nmero de encomendas, os
crditos de Andr no diminuam; apenas concludo um dos seus quadros,
era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um
capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o
annimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom xito teria enlevado Sauvain; agora
era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida
para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer
lhe escrevera, e repetia a si mesmo: De que me serve isto?

Contudo, a abastana substitura a pobreza; nada impedia Andr de trocar
o seu escuro cubculo da rua dos Mrtires por um _atelier_ mais cmodo e
decente; todavia no o quis deixar. Invisveis cadeias o ligavam ali.
Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo
pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na
flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela
lhe fizera a primeira confisso do seu amor?... daquele banco, onde
se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas to
venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo
na fadiga.

Porm, quando veio o outono, quando as rvores, que vira frondosas e
virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... ento abandonou-o a
coragem:  sua fictcia actividade seguiu-se uma indolncia invencvel;
como o trabalho o no matara, amaldioou o trabalho e aborreceu-o;
plido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem
foras, nem energia, passou os seus dias, inteis, ruminando a prpria dor.

Como as folhas caam das rvores, uma a uma, assim se desprendiam as
suas quimeras. Crenas de gloria e crenas de amor... todas iam pelo
mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estao cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os
seus ltimos adeuses, em que o cu se vela num crepe cor de opala, bruma
transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estao
temerosa, em que o enfermo melanclico pressente o seu prximo fim, e
busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E Andr, pressentindo tambm o inverno para a sua alma, buscava ao redor
de si um conforto, uma dedicao, uma simpatia... Mas... debalde:
nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente
ou no futuro, nenhuma ligao, nenhuma alegria, nenhuma esperana! Em
tudo o deserto, em tudo o vcuo, em tudo o desalento!...

Ento, prostrado de corpo e desfalecido de esprito, com o peito
entumecido de lgrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da
criana em aflio. Bem como a prola, lanada nas ondas, volta 
superfcie, assim uma palavra de h muito esquecida, subindo do fundo da
sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lbios: Minha
me!

Oh, maternidade! afeio purssima e inexcedvel, consolao
sobre-humana, nico amor desinteressado, nico apoio... que resiste
quando todos os outros se nos despedaaram nas mos, e ainda quando os
mais indelveis sentimentos se esvaram em fumo! Maternidade! santa
encarnao do sacrifcio! O homem s te aprecia quando te perde!

Oh! se sua me vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela
teria derramado naquele corao o blsamo da sua ternura! Como o
embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mes tiram do
vocabulrio dos anjos!...

Ai dele! sua me era morta!

quela recordao pura, tanto tempo abandonada por amor de uma
ingrata, Andr corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu mximo desejo fora cobrir com uma
campa as cinzas da viva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as
runas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessrio possua-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta
esperava.

--Coragem! exclamou Andr. A caminho!...

E, numa linda manh de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando
sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga
satisfao em pensar que ia morrer no tugrio em que nascera. Para
cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a p, como no
tempo em que era to alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua me no
tinha rival no corao do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de
entre as rvores do caminho. Agora no acontecia o mesmo: a seu pesar,
uma outra imagem substitua a primeira. Queria chorar pela santa guarda
da sua infncia, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde
concentrava o pensamento no termo da sua peregrinao; a cada passo
voltava insensivelmente a cabea para trs. Em vo evocava o semblante
frio e macilento da morta; a memoria s lhe reproduzia um rosto animado,
com olhos negros e cabelos louros...

Assim caminhou Andr por muitos dias, descansando nas estalagens dos
almocreves, bebendo na palma da mo, dormindo no meio dos campos
matizados de amarelo e prpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o
entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os
efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os
seus poros, no intervalo abenoado, que vai da ceifa  vindima. Somente,
quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma
dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.

Enfim, uma tarde,  hora do crepsculo, Andr atravessou a ltima
aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados  soleira das
suas portas, as velhas fiando na roca, as crianas semi-nuas, as frescas
mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando
a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, to plido e com
os ps embranquecidos da poeira.

Uma hora depois, Andr avistava o seu casebre.




XVIII


L estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O
vento da Costa no o derrubara de todo.

Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do cu, com
o seu tecto de verde musgo, e as rvores desfolhadas do velho jardim.
Uma brisa spera, precursora do inverno, fazia bater as portas das
janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam
tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.

Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano.
Balouava-se pacfico, com o seu montono e solene murmrio: da
superfcie das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual
gigantesco sudrio.

Andr parou, possudo de religiosa comoo; abriu a porta carunchosa e
entrou em casa. Um odor indefinvel se exalava daquele recinto,
onde ningum penetrara depois da morte de sua me.  luz indecisa do
dia, que acabava, Andr pde distinguir o grande leito de colunas, com
os seus cortinados de ramagens e flores fantsticas, a arca de nogueira,
o crucifixo com palmas bentas, os escabelos macios, e as redes da
pesca, herana de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapearia por
acabar. Parecia que a obreira sara de casa... momentos antes.

Andr beijou aquele pedao de estofo, que as mos de sua me tinham
bordado.

Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chamin. E a,
mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
lareira vazia, transportou-se em esprito ao sombrio passado.

O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
estalido do vigamento, Andr comprazia-se em fantasiar que sua me
estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e
que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lbios...

Entregue completamente s suas recordaes, dizia de si para consigo,
que, se Deus recompensa o martrio, a pobre mulher devia ser bem feliz
no outro mundo.

O pintor no confessara tudo a Rosa.

Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietrios dos
arredores, a me de Andr preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da
costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se
dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuam,
e afinal desapareceu, abandonando  misria a esposa e o filho
recm-nascido.

Trs anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo
da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulao.

Bela e virtuosa, fcil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava
seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Alm disso, no obstante as
brutalidades de Sauvain, no cessara de ama-lo. Dedicou  sua memoria um
culto, alis pouco merecido, e conservou-se viva.

Ento comeou para ela uma vida herica, toda de sacrifcios e
abnegao. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho
uma educao conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego
que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si
enfim...

Mas Andr iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietao
incompreensvel, tinha sede de movimento e de espao; comeavam a nascer
as suas asas de artista... No tinha ainda doze anos, quando um
escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua
inteligncia precoce, props-lhe lev-lo consigo. Andr bateu as palmas
de alegria; e a viva, engolindo as lgrimas, deixou-o ir.

Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: Andr veio logo, mas
chegou s a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Aquela sbita doena, aquela morte inesperada, fulminaram a criana de
surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua me, mas
apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viva um
grito estridente, acudiram e encontraram-na plida e trmula, com o
rosto desfigurado, segurando-se a um mvel para no cair no cho. Por um
prodgio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho;
deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. No
podia duvidar-se de que, mais uma desgraa pousara a sua mo de ferro
sobre aquela humilde existncia... Que desgraa fora, nunca o soube Andr.

Quantas vezes, desde ento, torturara ele o esprito para penetrar o
sinistro enigma?

Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas
paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstrua, na sua
imaginao ardente, mil hipteses contraditrias; e as rajadas
impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como
gargalhadas de escrnio, mofando de suas loucas conjecturas...

Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre
filtrava-se glacial humidade. Andr, transido de frio, ergueu-se enfim
s apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira
contgua, e a ajuntou algumas achas, que disps na lareira.

Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa no era fcil.

Um monto de cinzas, extintas havia doze anos, obstrua a chamin. O
pintor quis desvia-las; porm, ao enterrar a p, tocou num objecto duro,
resistente, metlico, que no pde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e
limpou-o ao forro da blusa.

Era uma chave ferrugenta, de mui exgua dimenso e de forma particular.
Evidentemente s podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um
indispensvel de mulher.

Andr olhou em volta de si, mas no descobriu nenhum utenslio daquele
gnero. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que
comeou a crepitar.

O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar
o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
intrigava-o; no sei que vaga intuio lhe segredava ao ouvido que,
entre aquela chave e o mistrio que procurava desvendar, havia
talvez ntima relao...

De repente,  fora de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
brincado em criana com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.

Sua me apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou
na feira de Granville... Conservava-a como uma relquia, e nela guardava
o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?

Andr comeou a procur-la, e, sempre guiado pelas suas recordaes,
descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da
arca de nogueira. Tomou-a nas mos e, pelo seu pouco peso, julgou que
estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.

A caixa abriu-se; continha apenas um papel.

Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta
inglesa, indicava a procedncia de Liverpool.

Durante alguns minutos, o pintor ficou imvel, perplexo, comovido, em
frente daquele escrito, que sem dvida encerrava o segredo da morte de
sua me.

Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
primeiramente a assinatura. Ao v-la, escapou-se-lhe dos lbios um
grito de surpresa.

No fim da terceira pgina de uma caligrafia incorrecta mas de traos
vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!

Depois, Andr leu o que se segue:

Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe
seja desconhecido,  o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero
interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever,
informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.

H nove anos, que a senhora chora Onsimo Sauvain, seu marido; porm
Onsimo Sauvain no morreu.

Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio,
do qual ele era marinheiro. S eu e ele, dentre toda a tripulao,
tivemos a boa fortuna de escapar.

Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados,
igualmente desprovidos de recursos, associmos os nossos destinos. Seu
marido  um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas
empresas, e, navegando de conserva, levmos a cabo no poucas
especulaes lucrativas.

Desde o princpio, e sem dizer-me a razo, manifestava ele o desejo de
passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmo, e de
Onsimo Sauvain, que era, transformou-se em Onsimo Toucard. Ora eu, que
no sou tolo, no tardei em faz-lo dar  lngua. Confessou-me que
deixara por a... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que no
tinha grande empenho em tornar a v-los. A coisa pareceu-me ignbil;
disse-lho claramente, porm ele mandou-me para o diabo. Entretanto
persegui-o com tais instncias e ameaas de desmentir o boato da sua
morte, que me prometeu, no sem repugnncia, escrever-lhe logo que
tivesse adquirido meios suficientes para viverem cmoda e honradamente.

Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e m
fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidmos as nossas contas. A
parte de Onsimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade
dissolveu-se; ele renuncia ao comrcio, e quer, segundo diz, gozar em
paz da sua modesta abastana. Quanto a mim, que no me contento com to
exguo capital, reembarco para a ndia, daqui a trs dias, e vou de novo
tentar fortuna.

Onsimo volta para Frana, e jurou-me reintegrar o domiclio conjugal;
mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas
cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais,
inclino-me a crer que ele roer a palavra a este seu criado, continuando
a deixar a esposa em viuvez, e que dissipar em orgias o capital,
que pertence legitimamente a seu filho.

Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
convenientes, impea seu marido de cometer novas loucuras, imperdoveis
na sua idade, e tambm para que procure restituir o pai a seu filho.

Talvez esta advertncia v demasiado tarde; porventura estar morta, ou
tornaria a casar a mulher de Onsimo... Em todo o caso, obedeo s
ordens que me dita a conscincia.

Onsimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudnimo
que adoptar; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, no
me parece difcil que consiga descobri-lo.

Queira aceitar, minha senhora, as expresses do profundo respeito
de==_Pedro Toucard_.

Quando Andr voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
estremeceu ao pensar na impresso dolorosssima, que ela devia ter
produzido em sua me.

Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte
civil  vida de famlia!... Saber que esse homem era relativamente rico,
e no lhe importava sequer se seu filho tinha po!...

Sem dvida, aquelas terrveis decepes, as suas iluses
violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe
tempo, nem foras, para comunicar a Andr a noticia, que tivera.

Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porm elas danavam em
vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraar a meada
dos acontecimentos, que o acaso enredara em to extraordinrias
complicaes.

Ento... aquele viajante, vitima da catstrofe de 8 de Maio, era seu pai!

Ento... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas
mos de um estranho, pertenciam-lhe!

Ento... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
encontrar, o herdeiro de Onsimo, morou defronte dele todo esse tempo!

Ento... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera,
era Andr quem enriquecia a mulher que amava!

Ento... Pedro Toucard, levado ali por essa srie de singulares
coincidncias, abusou do seu falso parentesco com Onsimo para
apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter
para os seus legtimos donos!

Andr compreendia agora a extraordinria comoo do provenal ao ouvir o
nome de Sauvain. A conscincia do aventureiro era elstica, mas ainda
no estava gangrenada; apesar dos seus escrpulos, no pudera
vencer o seu frenesim de especulao, nem deixar fugir a ocasio de
traficar mais uma vez.

Entretanto tinha, sem o saber, despedaado a felicidade futura de Rosa e
de Andr!

Pela memoria de minha me! exclamou o pintor, juro que lhe farei
restituir o dinheiro!

E logo um claro de alegria lhe iluminou e reanimou o esprito.
Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios
enrgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso no
teria ento mais nenhum obstculo, que opor ao seu casamento com Rosa.

Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabea escandecida, e
teve um pesadelo.

Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata
macia, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por
doze cavalos... Andr perseguia-o, correndo a bom correr... Queria
gritar: Agarra, que  ladro! mas a sua garganta no soltava o menor
som... E Pedro fugia sempre, semeando s mos cheias, por sobre a
multido, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de
Sauvain...




XIX


Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em
face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo
as nvoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a
imensidade lquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro;
assim, no corao de Andr, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo
se evaporara ao sol da esperana.

Uma resoluo firme substitura todas as suas indecises. O seu programa
era:

1.--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fcil, vista a
excentricidade da sua pessoa, e a ateno que no podia deixar de atrair
sobre si.

2.--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.

3.--Lanar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelndia,
agarra-lo  viva fora, desposar Rosa, e ser feliz.

Nada mais simples!

Andr saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao cu de
azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitrio da
aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper
do sol.

Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel
recordao, ante um montculo invadido por ervas parasitas e por
parietrias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada
entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braos dessa
cruz, j no se distinguia.

Andr ajoelhou na relva hmida, e ficou assim por muito tempo. S quando
rumores longnquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se
tranquilo, mas em profundo recolhimento.

No mesmo dia, encomendou uma lpide tumular, que pagou adiantada, e
entendeu-se com um arquitecto para as reparaes do seu pardieiro e do
velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque
decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.

Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou
a pr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao
empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
Paris no ltimo comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, no
tinha tempo a perder.

No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de p no seu _atelier_,
escovando o chapu para correr em busca do provenal.

--Por onde comearei? perguntava a si prprio; onde poderei mais
facilmente encontra-lo?... Ora... j sei! na Bolsa! Foi para l, que ele
transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir
apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.

Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e Andr,
petrificado de espanto, recuou trs passos.

Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!

--O senhor!... exclamou Sauvain.

--Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembarao. Bons
dias, caro amigo!...

E, como Andr lhe no estendesse a mo, agarrou-a ele quase  fora,
estreitando-a nas suas.

Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:

--Ento, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco
mudado... um tanto plido... mais magro... mas bem disposto e
animado, o que me causa imenso prazer.

-- muita bondade!... lhe tornou Andr, com voz ironicamente ameaadora.

--D-me prazer, palavra de honra! porque no foi sem uma tal ou qual
inquietao, que embarquei esta manh para a rua dos Mrtires...

--E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver at que ponto
chegava semelhante impudncia.

--Primeiramente, porque h muito que o no vejo... Lembra-se de que a
minha ltima visita data de h quatro meses?

--Lembra-me muito bem!... resmungou Andr com os dentes cerrados.

--Em segundo lugar... sim...  porque tenho uma confidncia... um pouco
difcil, para fazer-lhe.

--Uma confidncia!

--Ou, mais propriamente, uma confisso... Ora, imagine o senhor que tem
suas razes de queixa contra mim... graves razes de queixa!...

--Realmente?

-- exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha conscincia tem
andado opressa: hoje transborda e impele-me s confisses...

Perante este arrependimento, real ou fingido, a clera de Andr
esvaiu-se quase de sbito.

--Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos;
e visto que se emenda, no tenho coragem para lhe querer mal. Para todo
o arrependimento, misericrdia!...

--Estou pronto a escut-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.

O provenal torceu os cabelos grisalhos da barba e coou a orelha.

--Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
trepar ao cimo do Himalaia... A coisa  dura, que tem diabo!...

--Ento, disse-lhe Andr sorrindo, no diga nada, meu bravo! E intil,
porque eu sei tudo.

--Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!

--Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, no  assim?

--Dos seus... Ai, com mil bombardas!  certo que sabe tudo!... Mas quem
diabo podia instru-lo de uma coisa, que ningum neste mundo...

--Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.

--Eu!...

--Ora leia.

E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.

Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.

--Reconheo a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu...
doze anos. Mas juraria que essa carta no tinha chegado ao seu destino!

--Enganava-se.

--Conveno-me porm de que, h quatro meses, quando embolsei este
dinheiro...

--O meu dinheiro, quer dizer?

--Seja... Conveno-me de que o senhor ignorava o contedo dela?

--Ignorava-o ainda h quarenta e oito horas.

E Andr contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar,
desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de
tantos mistrios!

-- indubitvel que existe uma Providncia! disse Pedro abanando a
cabea. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que
cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, no fosse eu o
primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!

--Ai! suspirou Andr, no  do dinheiro que eu mais tenho lamentado a
falta!

--Sim, sim, adivinho!... e  isso o que torna o meu crime imperdovel!
Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desapario
de Rosa, levada por seu pai, no se sabe para onde. Pobre rapaz!... e
fui eu... eu!...

--Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.

Os olhos cintilantes do provenal fixaram-se em Andr com inquieta
surpresa.

--Com a fortuna! exclamou ele, o senhor  um filosofo s direitas!

--Porqu?

--Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destri as suas esperanas
de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete,
conversa tranquilamente com ele!...

--A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
encontrado de improviso esta manh, no responderia pelos meus gestos.
Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez
mal... sim... visto estar pronto a restituir...

--Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! j no nos entendemos!...

Andr deu um pulo, com os lbios a tremer-lhe de raiva.

--Ol! mestre Toucard, dar-se- acaso que pretenda conservar?...

--No pretendo nada, com mil raios!... No olhou para mim? Ora examine o
meu exterior!...  esta porventura a aparncia de um capitalista? Terei
ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil
francos?

Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem lguas de possuir semelhantes
ares.

Envolto em srdidos farrapos, enlameado at ao pescoo, ter-lhe-iam
oferecido dois soldos  esquina da rua. Luzia-lhe a pele atravs dos
buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.

O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libr da
misria. Uma ideia horrvel lhe descomps as feies.

--Ol!... que  isso? disse o provenal, assustado com a palidez dele;
agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de
gua. Feridas de dinheiro no so mortais.

--Oh! articulou o pintor angustiado,  ento verdade?

--O qu?

--O que eu suponho...

--No sei o que supe, mancebo. O facto  que estive na alta, e
depois... veio a baixa.

--Portanto est tudo perdido!

--Fundido, destrudo, evaporado!

--No resta coisa alguma?

--Restam-me... dvidas.

--E a herana de meu pai?

--Foi para casa de seiscentos diabos.

--Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha
sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.

O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mos nas
algibeiras das calas despedaadas, e poderia mesmo jurar-se que um
vago sorriso de infernal satisfao lhe assomara aos lbios.

--Vamos, mancebo!... disse ele. No hesite: bata-me, estropie-me,
mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladro; nem valho a corda com
que me enforcarem!...

Andr largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.

Cego pelas lgrimas, sufocado pela indignao, aniquilado pelo
desespero, caiu prostrado numa cadeira e s pde balbuciar estas palavras:

Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...

Pedro pareceu sinceramente comovido.

--Ah!... resmoneou ele, procurando em vo no crnio calvo um punhado de
cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraado contava
com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido,
velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!

E nisto, infligindo a si prprio as maiores injrias, desenfiava um
rosrio de pragas.

Entretanto a dor de Andr atingia o seu paroxismo. Encostado  mesa, com
o rosto esmagado entre os punhos contrados, fazia esforos incrveis
para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.

--Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que no haja, sobre queda,
coice! O enguio triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um
espertalho, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
reembolsa-lo-hei ento do capital e juros. Quer que lhe assine uma
obrigao de cem mil francos, pagvel na minha primeira veia de fortuna?

Andr ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
pranto.

--Fora daqui, miservel! exclamou ele. No tente a minha desesperao
com as suas covardes zombarias!... Saia!

--No estou zombando, disse o provenal; e juro-lhe pela minha honra...

--Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.

--Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
seria v-lo rico e satisfeito.

--E por isso me roubou o meu patrimnio, no  assim?

--Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco j estavam no meu
bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: Leva-nos! Foi, graas a ti,
que Onsimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!...
Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-s... decuplicar-nos-s! Andr,
Rosa, toda a famlia ser feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!... Com
a breca, levei-as!... Se esta explicao lhe no basta, pegue numa
pistola, e abra-me a cabea; at me faz favor!... Ou ento... arraste-me
ao banco dos rus, para que me condenem s gals.

Andr, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tdio.

--No, replicou por fim. No me esqueo de que foi amigo de meu pai; no
me esqueo desta carta... a nica aco honesta da sua vida! No me
vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!

Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.

Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba,
reflectiu, e inclinando-se para Andr, que lhe voltava as costas, murmurou:

--Senhor Sauvain...

--Ainda aqui! exclamou o pintor.

--Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
consolao, que o cu se encarregou de castigar-me. Estou mais
miservel, senhor Andr, do que no dia em que me fez a esmola... que to
pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna
mendigar, vou direito daqui lanar-me ao rio. Adeus!

--Espere!... disse Sauvain.

E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.

--Leve isso.

--Eu!...

--Arrecade isso, j lho disse, e v-se embora.  em memoria de minha
me, a quem tentou prestar um servio. Eu... de nada preciso j.

Toucard guardou o dinheiro; porm os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
lampejavam humedecidos.

--De que me serve viver, retorquiu ele, se no me perdoa?... se no
recobro o sono, que me foge?

O pintor encolheu os ombros.

--O que est feito, est feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a
minha raiva, todo o meu dio, todo o meu desprezo, no ressuscitariam
uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... V em paz; perdoo-lhe!

O aventureiro ficou imvel, e como fulminado de espanto, no limiar do
_atelier_. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canap, e, com o
semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado
insensvel ao mundo exterior.

--Este, sim!... que tem um corao de oiro sem liga! murmurou ele com
singular expresso. Se a sorte lhe no sorri...  uma grande velhaca,
com mil bombardas!

E saiu.




XX


Imaginem um homem cado do alto de uma torre, uma massa de carne
ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vem tudo cor de sangue; os
ouvidos s recebem rugidos confusos; a inteligncia flutua ao acaso; e o
corpo inerte, despedaado, intil, sofre demasiado para continuar a
viver, mas no o bastante para conseguir morrer.

Assim estava Andr Sauvain.

Precipitado do alto das suas esperanas, vegetou quinze dias sem pensar,
sem aco, sem ter conscincia do tempo, nem das alternativas do sol e
das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutvel das horas.

Porm, um dia, despertou de sbito daquela assustadora prostrao.

Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos de Rosa, que
pintara na poca da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta
de si, nas condies de luz mais favorveis; depois, fechou  chave a
porta do _atelier_ e desprendeu da parede uma pistola, que
cuidadosamente carregou.

Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mo.

Davam onze horas num relgio prximo.

-- ltima pancada do meio dia, disse Andr falando consigo, farei
saltar os miolos.

Era uma espcie de prazo, que concedia  Providncia. E com efeito, no
podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos
recursos!...

Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro
retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves,
aquelas pupilas lmpidas, aquelas frontes resplendentes de inocncia,
Andr recomendava-se s recordaes da sua amada, e os seus lbios
murmuravam palavras ininteligveis.

Deu meio dia.

Andr pegou na pistola.

--Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.

--Uma carta?... repetiu Andr, uma carta dela!... Era tempo!

Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu a porta, pegou na
carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.

No era de Rosa!

A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando
algum dinheiro,  conta, pelas reparaes da casa.

Andr ficou aterrado.

Apagara-se-lhe da memoria aquela dvida sagrada. Recordava-se dela
agora, mas no tinha dinheiro, e s o trabalho podia dar-lho.

Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!

O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.

--Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!...
Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!

E lvido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de
quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.

O industrial anuiu de bom grado.

--Esperava-o com impacincia, disse-lhe este homem; apresenta-se agora
uma ocasio, magnfica para si, e bastante lucrativa.

--Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.

--Eis o negcio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores
de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possvel.
Pediu-me que o relacionasse com um pintor de talento, e eu
falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a
fresco; convm-lhe?

--Convm.

--Nesse caso,  necessrio comear a obra quanto antes. O meu fregus
habita na sua propriedade: v procur-lo.  um homem generoso e
inteligente. O senhor entender-se- perfeitamente com ele.

--Como se chama?

--Aqui est a direco: Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise. 
no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O stio  delicioso,
e creio que o senhor no ter razo de queixa.

--Irei amanh, disse Andr. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain
desembarcou em Audily pelas trs horas da tarde. No pde conseguir que
lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ningum conhecia aquele
nome, o qual decerto era novo no pas; mas, aps diferentes
investigaes, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno
castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina.

--Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente
trabalhado e com porto ao centro, separava da estrada pblica os
jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda,
tapetada de verde relva, que se estendia em suave declive at 
entrada do edifcio, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois
pavilhes simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam
destinados, um para cavalaria, e o outro para habitao do porteiro.
Este individuo destacava, no limiar do porto, tomando o fresco e
olhando para as moscas.

Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoo
descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes
brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchao.

--Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou Andr.

A esta interpelao, o porteiro nada respondeu. Lanou um jacto de
saliva negra, fitando Andr, a quem mediu de alto a baixo. O volume da
face direita passou para a esquerda: o inchao era de tabaco.

--Ao que parece, disse ele, o senhor  o tal pintor?

--Ah! exclamou Sauvain admirado, j esto prevenidos da minha chegada?

O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a lngua de
fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o
abdmen e retinir os brincos.

--Os artistas so alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o
senhor tambm entra...

--Se entro!... em qu?

--Na farsa.

--Qual farsa?

--A que vai representar-se.

--A quem?

--Ao senhor Nuavias, j se v!

--No entendo.

--Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faa conta de que
eu nada disse... Suponha que me no participaram coisa alguma... que
ignoro tudo...

E os brincos a tinirem, e o abdmen a danar, e o rosto passando de
vermelhusco a purpreo, e de purpreo a roxo.

--Seu amo est c? lhe tornou Sauvain com impacincia.

--No, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem flego; ainda no
veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspirao.

--Eu!... Est enganado.

--Ele no deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde...
Regozijo-me de antemo, palavra de Jacinto!

--Esses negcios no so da minha conta, disse Andr. Na ausncia do
senhor Nuavias posso ver a casa?

--Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto
eu enfio um casaco e vou buscar as chaves. No me demoro cinco minutos.

Andr fez um sinal de anuncia, e dirigiu-se pensativo para uma rua
arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no crebro
fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o
esprito.

Flores em profuso, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas
rvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num
crculo encantado. O sol do outono, j declinando para o horizonte,
derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o
dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera,
orlando o cu azul.

Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama
to tranquilo, e ao mesmo tempo to cheio de vida?... Nenhum rumor se
ouvia; nem um som, alm dos agudos assobios dos melros, e dos seus
prprios passos sobre a areia. Andr sentiu percorrer-lhe as veias
delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil
perfumes, transformou a sua agitao nervosa numa languidez
fantasiadora. E, enquanto o sol, prximo do seu ocaso, lhe estendia aos
ps as trmulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele
sossegado den.

Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro! Que delicia lhes
seria vaguearem a ss, silenciosos, com os braos enlaados, por aquelas
alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos
radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente
traria para junto de seus lbios! E mais tarde... que delicia, ainda,
contemplarem ambos uma linda criana, brincando alegre na relva do
parque!...

A voz do porteiro arrancou bruscamente Andr quelas perigosas alucinaes.

O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libr, e
munido de nova dose de tabaco.

--Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.

Andr seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao
exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposio,
faltava talvez um certo cunho de elegncia ntima, que revela sempre a
presena de uma mulher.

--O sr. Nuavias  casado? perguntou Sauvain.

--Ainda no, mas no tardar, disse Jacinto, soprando como um cachalote.
Deveras... o senhor no est na confidencia?

--Nem pouco, nem muito!

--Pois bem!  precisamente a respeito do seu prximo casamento, que se
prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.

--E essa surpresa em que consiste?

--Isso  querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu
j comeo a rir, s com essa ideia!... Demais, a futura ser igualmente
mistificada.

--Ela  bonita?

--Encantadora, segundo dizem.

--Nova?

--Muito nova.

--E ele?

--Tambm  moo.

--Amam-se?

--Apaixonadamente!

Andr suspirou.

Nesse momento ouviu-se o rpido rodar de uma carruagem.

-- o patro! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,
silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo at  base, pondo em
movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.

--Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas
no se impaciente, que j vou dizer a meu amo que o senhor o procura.

E saiu, apertando as ilhargas.

Andr encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;
espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem,
as flores dos canteiros balouavam-se como turbulos.

Andr padecia. Aquele recndito lugar, aquela pacfica habitao,
aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre
reunir, tudo enfim... at a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava
no corao, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o
inconsolvel!... quele retiro festivo? Que figura faria, se o
envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?

Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.
Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a
cabea, mordeu o leno para no estoirar de riso, depois conduziu o
pintor atravs de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma
vasta sala, j invadida pelas sombras do crepsculo, e fugiu.

Ao principio, Sauvain julgou-se s.

Por uma grande porta envidraada, que abria para o jardim, penetravam
livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porm Andr distinguiu,
dentro em pouco, a um canto do fogo, que acabava de apagar-se, os
contornos indecisos de uma mulher sentada.

--Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.

Um grito vibrou, como uma nota de cristal.

--Andr...  Andr!...

E a forma vaga ergueu-se de sbito. Um ltimo raio de sol, que
borboleteava nas vidraas, iluminou um perfil de anjo.

Esse grito, essa voz, essa viso, penetraram no peito de Sauvain, como
uma lmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.

--Rosa!... murmurou ele, s tu?... ou  o teu fantasma?...

Um fantasma! No: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo
flexvel e palpitante, que se lhe lanou nos braos! Foram duas mos
pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaaram o pescoo! Foi o puro
hlito de Rosa, que lhe deslizou nos lbios!

E Andr, deslumbrado, louco, fora de si, brio de felicidade, embebia-se
na contemplao de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto
comovido, radiante de jbilo, envolto numa aurola de cabelos louros...

Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do
terrao. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma
sombra estreita e alongada, trajando fantsticas vestes, que ondeavam em
volta dela, como um lenol cor de ferrugem dependurado num pau.

A sombra no soltou uma palavra, como convm a uma sombra que se
respeita; porm, um som singular atravessou o espao; jurar-se-ia que a
sombra estava raspando uma noz moscada. A este rudo prolongado, os dois
jovens despertaram do seu xtase, e Andr, chorando e rindo ao
mesmo tempo, Andr mais brio do que se tivesse esvaziado seis garrafas
de Champanhe, atirou-se ao pescoo da sombra, exclamando:

--Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido
sogro!

A sombra debateu-se violentamente.

--O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?

--Ora essa!... Abrao-o.

--Quer dizer... que abraava minha filha?

--No o nego, meu sogro.

--E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Probo-o!...

--Ora!...

--No h _ora_, nem _meia ora_... Vamos! largue-me!...

--Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...

--Largue-me, com trezentos demnios!...

--Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve
prolong-lo? Sejamos felizes... que no  sem tempo!

--O senhor zomba de mim?

--Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar,
quando a sua presena e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este
terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...

--Com a breca! interrompeu o senhor Germinal;  de uma rara
impudncia!... Pretende acaso dizer...

--Que o enterneceram a minha dor e as lgrimas de Rosa... enfim, que  o
melhor dos homens? Sim? meu sogro!  o que eu quis dizer: abracemo-nos!...

--Para trs, senhor! bradou o velho exasperado, no junte o escrnio 
sua indigna aco!

--Como!... disse o pintor estupefacto; de que escrnio... de que aco
indigna fala?

--Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui
enganado! negue as suas tenebrosas maquinaes! Ah!... julgou que
triunfaria por uma cilada?

--Eu!...

--Pois bem!... desengane-se! A minha deciso  irrevogvel! No possuir
minha filha!

--Uma cilada!... eu, que o supunha longe de Frana! eu, que teria dado
vinte anos da minha vida para descobrir...

--Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas
cartas?... acrescentou ela em voz baixa.

--As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?

--De muitas, que lhe enviei s escondidas?

--Pois escreveu-me?... a mim...

--Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!

--Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as
aqui no bolso.

--Tem-nas?... Oh, meu pai!...  bem mal feito!...

--Horrvel, minha filha!... Teria sido mais moral no interceptar a
correspondncia amorosa, no te parece?

--Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha
parte era impossvel!...

--Mas... que outra inteno podia traz-lo aqui? Faz favor de dizer-me?

--Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!

--E a ns, disse Rosa, a esperana de uma encomenda importante; pois eu
continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma poro delas
considervel.

--O senhor Nuavias?

--Sim.

--Quem lho inculcou?

--A modista, para quem trabalho. E Andr?

--O meu comprador de quadros.

--Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.

--O acaso!... suspirou Andr; divino acaso, ou antes Providncia,
que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, s mil vezes bendita!...

--Senhor, disse Germinal, delira certamente!...

--Creio que sim, meu sogro... e muito!

--J fez fortuna?

--Oh, muito pouca!

--E ainda ama minha filha?

--Apaixonadamente!

--Contudo renuncia  sua mo?

--Isso de modo nenhum!...

--Ento, nada de amizade, nem de relaes entre ns!... V para o diabo!

--Porm...

--No lhe dou minha filha!

--Entretanto...

--No casa com minha filha!... No casa com minha filha!... No casa com
minha filha! J disse.

O senhor Germinal esganiava-se debalde; Andr tinha mais slidos
pulmes, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu
adversrio, bramindo:

--Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!

Enfim, a sua clera fazia exploso. Andr estava farto de sofrer; e,
sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escurido da sala para beijar
Rosa, unindo-a docemente ao corao.

Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensao tinha olhos
de lince.

--Ah! Vocs querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu
chapu... Partamos imediatamente!

--Ainda no! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.

E logo a sala se iluminou de sbita e viva claridade.

No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma
serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem
baixo, de espessa e forte construo, enluvado de fresco, engravatado de
branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o
recinto a dez passos de distncia. Avanou majestosamente, com os
polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo
ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.

O senhor Germinal e Andr suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se
confusos.

--Ento!... exclamou o magnfico intruso; h bulhas aqui? Com mil
amarras!...

--Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dvida...
Pedro, o aventureiro! Mas, que transformao!...

Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita sua,
curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crnio resplandecia, como um
espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em pleno dia. Uma
cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso
abdmen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes
anis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de
napolees.

Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,
desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus
cales curtos, que punham em relevo postias barrigas de pernas, de
dimenses enormes. Pedro sentou-se ao p do fogo, apoderou-se das
tenazes e atiou o lume.

Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos
danaram alegremente sobre os mveis esculpidos, sobre o luzidio
sobrado, e sobre as guarnies de seda azul com franjas de prata.

--Chegue-se para o lume, compadre! as noites esto frias. Aproxime-se do
fogo, minha linda menina!... e tambm o senhor, amigo Sauvain!...

Disse. E era espectculo digno de admirar-se o sorriso diablico de
Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a
boca aberta do senhor Germinal.

Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo
escanhoado, continuou:

--Ol, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com
um homem, que os reuniu... contra vento e mar!

--Pois foi o senhor!... exclamou Andr. E os dois amantes estreitaram
as, mos do aventureiro.

--Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraso.

--Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as
suas culpas!

--Apre!... ento passa-me quitao das noventa e duas mil libras?

--De todo o corao! suspirou o pintor; ainda que...

--Ainda que lhe fariam ptimo arranjo, na presente conjuntura; no 
assim? E a menina Rosa no me recompensar tambm?

--Bem o desejara, disse ela, apresentando a cndida fronte aos lbios
encortiados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, no
posso...

--No pode oferecer seno o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro,
entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me
rejuvenescido!

--Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caoam comigo!.... No
sou aqui ningum?... Com a breca!...

--O compadre, disse Toucard com ironia, , como ns, hospede do senhor
Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa.
Mas... acrescentou, interrompendo-se de sbito, que  aquilo?... que
vejo eu ali?

--Onde?

--Acol... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogo.

-- uma chave! exclamou ela.

--Com efeito, disse Andr apanhando-a,  uma pequena chave, que me faz
recordar...

--Oh!... A que demnio de fechadura pertencer ela? regougou Pedro.

E inequvoca expresso de benvola malcia transparecia no seu enrugado
rosto.

--Ah! agora penso eu... No servir por acaso essa chavinha naquele
cofre, que ali est?... atrs de si... sobre a jardineira...

Andr voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante  que
deixara em Granville, na sua arca de nogueira.

--Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum
cofrezinho igual que o senhor desenterrou a nica aco louvvel da
minha vida: estas caixas so de bom agouro!

E dirigindo-se a Rosa:

--Veja o que essa contm, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da
chamin, merece ateno!... Seria algum gnio benfazejo, que a deixou
cair? Reviste sempre, Rosinha!...

--Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de
confiana!... Que dir o senhor Nuavias?

--Aprovar, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...

A jovem no se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o
gnio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para
um desenredo agradvel.

Abriu a caixa, e tirou de dentro um mao de papeis cetinosos.

--Notas do banco!... exclamou ela.

--Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor
Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como no  possvel
dar-lhes melhor aplicao, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas.
Tome-as l, compadre...

--A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porqu?...
com que direito?... o que significa?...

--Tanta pergunta ao mesmo tempo! V sempre guardando... Continue a
buscar, minha filha...

Um adereo de diamantes!... e um colar de prolas!... murmurou Rosa,
deslumbrada.

--Isso  consigo, minha menina.  o presente de noivado do senhor
Nuavias... Procure mais...

--Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias  o
senhor, ou  o diabo?...

--Nem um, nem outro... Querem conhec-lo?

--Quero... quero... quero... gritaram trs vozes ansiosas.

--Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias,
que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse
afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, ...

--... quem?

--Andr.

--Eu!...

--Sim? sem a menor dvida! Nuavias  apenas o anagrama de Sauvain.

--Porm, esta casa...

--Ah! tem razo... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,
senhora noiva...

Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados,
com selo, cobertos de mauda escrita, e rubricados por dois tabelies.
Continham um acto legal e autntico, assegurando a Andr Sauvain a
propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).

--Senhor!... exclamou o pintor fora de si,  demais!...  demais!... No
posso aceitar...

Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se
grave e sisuda.

--Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate,
a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais
cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mgoas, se me
apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda no
tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu
patrimnio. Dessa experincia, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer
ter-me-ia morto, porm o senhor... corao nobilssimo!... para o homem,
que lhe despedaara a vida, teve ainda uma ltima e sublime esmola!...
Pois bem! seja generoso at ao fim... no recuse os meus dons... no me
deixe remorsos...

--Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este osis
encantador... com a condio, porm, de restituir-lho quando a fortuna o
houver atraioado.

--Com mil amarras!... Espere por isso! Graas a Deus, estou curado da
febre de traficar; viverei como um bom burgus; o meu amigo Germinal
ensinar-me- o gamo; e nunca mais especularei, seno em sonhos.

--Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se
trata!... Que diabo est o senhor para a a falar em erros, remorsos, e
patrimnio?... Que significa todo esse aranzel?...

--Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas
virtudes raras, e to raras que me converteram...

--E quais so essas virtudes?...

--O perdo das injrias, disse Pedro, apertando a mo a Andr... e a
inteira probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.

Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crnio.

--Tudo isso para mim  hebraico, replicou o pai de Rosa. A nica coisa,
que pude coligir, foi que o senhor est milionrio!...

-- verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depsito
sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que ,
arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou
portanto um grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando
penso nisso, sobe-me o corao  garganta, e sinto-me tremer como...
como o seu _Faust au sabbat_, Andr!... um quadro admirvel! que, entre
parntesis, possuo em Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram
j o seu peso em oiro?

--De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na
conspirao?... Traidor!...

--Ora!... e tambm a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os
criados desta casa, e at o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu
elevei  categoria de guarda-porto, e que hoje tomo a liberdade de
recomendar  sua benevolncia.

--Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo,  possvel que tentassem
inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe que nada percebeu!

--Nem eu to pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor
Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu
genro!

--Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mos a
garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza,
gloria e felicidade, tudo encontraria...

--NAS CINZAS, concluiu Pedro Toucard.

FIM

    [1] Reunio de trs nmeros, cuja extraco simultnea era uma sorte
    feliz.

    [2] Hospital de alienados.




OBRAS PUBLICADAS

PELA

EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.


TEATRO

Os sabiches--Comdia original em 4 actos, por E. Biester, 250

Ao calar das luvas--Comdia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100

O afilhado de Pompignac--Comdia (traduo) em 4 actos, por L. C. M., 200

Um homem poltico--Comdia (imitao) em 3 actos por Aristides
Abranches, 200

O fidalguinho--Comdia original em 3 actos, por Ferreira de Mesquita, 200

Abenoado progresso--Comdia original em 1 acto, por Rangel de Lima, 100

As campainhas--Comdia (traduo) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

Joo o britador--Drama (traduo) em 5 actos, por L. C. M., 250

As trs rocas de cristal--Mgica em 3 actos e 17 quadros, por Aristides
Abranches, 300

A famlia--Drama original em 5 actos, por J. R. Cordeiro, 300

Quem desdenha--Comdia original em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

Caso de conscincia--Comdia (traduo) em 1 acto, por Pinheiro Chagas, 100

Lus XI e o poeta--Comdia (traduo) em 1 acto Ferreira de Mesquita, 160

A mosca branca--Comdia (imitao) em 3 actos, por Duarte Santos, 200

A cruz de prata--Drama (traduo) em 5 actos, por L. C. M., 300

N. B. A quem comprar a coleco completa (15 peas) 40 por cento de
abatimento.


ROMANCES

As duas flores de sangue--Original, por Pinheiro Chagas (1 volume), 500

As doze espadas do diabo--Traduo de Guilherme Celestino (2 volumes), 800

Cludio--Original, por Jlio Csar Machado (1 volume), 500

Nas cinzas--Traduo por L. C. M. (1 volume), 300


NO PRELO

Uma noite em Florena--Traduo de Guilherme Celestino (1 volume), 400

Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importncia em
estampilhas ao escritrio da empresa, rua larga de S. Roque, n. 100,
1. andar.


Imprensa Nacional--1875





End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***

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International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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