The Project Gutenberg EBook of Estrellas Funestas, by Camilo Castelo Branco

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Title: Estrellas Funestas

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: March 18, 2010 [EBook #31694]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESTRELLAS FUNESTAS ***




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OBRAS

DE

CAMILLO CASTELLO BRANCO

EDIO POPULAR

L

ESTRELLAS FUNESTAS



VOLUMES PUBLICADOS

    N. 1--Coisas espantosas.
    N. 2--As tres irmans.
    N. 3--A engeitada.
    N. 4--Doze casamentos felizes.
    N. 5--O esqueleto.
    N. 6--O bem e o mal.
    N. 7--O senhor do Pao de Nines.
    N. 8--Anathema.
    N. 9--A mulher fatal.
    N. 10--Cavar em ruinas.
    N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar
    N. 13--Divindade de Jesus.
    N. 14--A doida do Candal.
    N. 15--Duas horas de leitura.
    N. 16--Fanny.
    N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho.
    N.os 20 e 21--Horas de paz.
    N. 22--Agulha em palheiro.
    N. 23--O olho de vidro.
    N. 24--Annos de prosa.
    N. 25--Os brilhantes do brasileiro.
    N. 26--A bruxa do Monte-Cordova.
    N. 27--Carlota Angela.
    N. 28--Quatro horas innocentes.
    N. 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!
    N. 30--A filha do Doutor Negro.
    N. 31--Estrellas propicias.
    N. 32--A filha do regicida.
    N.os 33 e 34--O demonio do ouro.
    N. 35--O regicida.
    N. 36--A filha do arcediago.
    N. 37--A neta do arcediago.
    N. 38--Delictos da Mocidade.
    N. 39--Onde est a felicidade?
    N. 40--Um homem de brios.
    N. 41--Memorias de Guilherme do Amaral.
    N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.
    N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.
    N.os 47 e 48--O judeu.
    N. 49--Duas pocas da vida.
    N. 50--Estrellas funestas.




ESTRELLAS

FUNESTAS

QUINTA EDIO

1906
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernao
Movidas a electricidade
_Rua Augusta--44 a 54_
LISBOA




1906
OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAO
Movidas a electricidade
*Da Parceria Antonio Maria Pereira*
_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1. andar_
LISBOA




A QUEM LER


Venho j a declarar que me desgosta o titulo d'este meu romance; mas no
 esta a primeira vez que meus actos, invenes e palavras me desgostam,
embora extranhos applaudam uns e outras.

Tem uma certa graa, mixto de luz e escuridade, aquelle titulo: o que
no tem  verdade, verdade moral, acommodada  minha philosophia.

No romance que publiquei, intitulado AS TRES IRMS, rematei dizendo que
no ha bons nem maus destinos, como se dissesse que o homem  o
responsavel, o agente, o motor arbitrario de suas aces, das quaes lhe
advm o socego ou a inquietao, a dita ou a desdita, a publica estima
ou a desprezadora abominao.

Quem tal cr e disse, rejeita e desadora estrellas propicias ou
funestas, como cousa de agouros, de crendices, de poetas, e de vulgar
superstio.

O titulo, pois, tem muito com a frma, e pouquissimo ou nada com a
substancia d'esta novella. Quem no quizer chamar-lhe ESTRELLAS
FUNESTAS, emende para os MAUS CAMINHOS DA DESGRAA, ou outro titulo
de seu sabor, que eu de tudo me contento, se o no denominarem INVENES
DO AUCTOR.

Historia mais verdadeira nunca eu a escrevi. Por verdadeira de mais,
estiveram os apontamentos d'ella a olvidarem-se-me na escuridade para
onde os afastaram deferencias, appellidos e pessoas, umas que se prezam
em si, outras, menos em si, e muito em seus antepassados.

Deliberei, depois de censurado por pessoa que, a meu instar, me cedera
as notas, a dar  estampa successos, que a bem merecem, por serem de
lio a infelizes, caidos em abysmos por suas proprias mos abertos.
Para me expr  somenos tacha de indiscreto, mudei nomes, sentindo no
poder mudar localidades, que ento l se ia abaixo, na rampa das
chamadas conveniencias, o timbre da verdade historica, a cr, a
essencia, o melhor das obras de arte.

Se, mesmo assim, muitos leitores, maiores de cincoenta annos, levantarem
o sendal com que lhes quiz encobrir algumas feies da verdade, e as
divulgarem a seus amigos, d'aqui me despeno da coima de linguareiro,
offensor de cinzas illustres, e assoprador d'ellas aos olhos de quem os
fecha para no ver os peccados de seus avs, contentando-se com ve'-los
retratados na lona, e ennobrecidos nos bens herdados.

Dou-me pressa em destruir prevenes. Varram de sua ida a perspectiva
de que eu v quebrar lages e carneiros por essas egrejas e capellas,
chamando a juizo de homens as ossadas que, de muito, se ficaram
esperando a volta do espirito para o supremo dia. Longe d'isso. Tenho
escassamente uma pobre penna de historiador; so leveiras de mais as
minhas mos para sustentarem a balana dos julgamentos, cujo fiel, para
obedecer ao ouro fio, releva que penda em dedos, menos encodeados na
cenosidade dos vicios.

Aquietem, pois, seus escrupulos os fieis  religio dos tumulos. Ho de
ir comigo ao longo de um salo, em cujas paredes, sob profundos tectos
de castanho armorejados, pende uma galeria de retratos, uns carrancudos
como a philauca, outros sorrindo ironicos, como em desprezo da nossa
contemplao. As arrogantes effigies, ao cabo de contas, ficaro rindo;
e ns bem pde ser que passemos chorando, porque somos de uma gerao
que no pde, nem quer, fazer riso da desgraa.

Esta historia  innocente. Podem le'-la senhoras de imaginao
impressionavel, e os moos descontentes da vida incolor e monotona que a
sociedade lhes prescreve. O auctor, quando era capaz, no enganou alguem
escrevendo: ahi esto uns trinta volumes a defende'-lo da calumnia, se
alguem o argue de romancista corruptor. Agora, que est velho, dobrada
obrigao lhe corre de desvanecer preconceitos, que disparam em desordem
da vida, e sacrificam os thesouros da paz ao pobre do corao, que to
mal os paga, por no ter cousa boa que dar por elles.

Cr o auctor que ha, no caminho da vida, muitas paragens alegres, se o
caminheiro as sabe ver com os olhos j canados de perseguir as
fugitivas vises. Nem podia deixar de ser assim, a menos que a
verdade, filha do co, no fosse um mal. E a verdade, para uns tempor,
e serdea para outros, a final, a todos allumia, como o sol do Senhor,
que primeiro doura a colmada choa do montanhez, e depois desce os
flancos da serra, doura e lustra os zimborios dos palacios, e verte do
seu zenith um raio nas cavernas onde a formiga passeia por entre as
unhas do leo.

Aquellas paragens verdadeiras do caminho da vida so hospedagem commum;
todavia, os mais dilectos do anjo bom, que alli recebe os peregrinos,
so os mais infelizes, os mais quebrantados da jornada, os que subiram
at l o desfiladeiro das illuses, e bem mereceram a graa do anjo,
rebaptisados na agua de suas lagrimas.

Sentado n'uma d'essas paragens  que eu conto esta historia s pessoas
que a quizerem ouvir por complacencia com a minha velhice, e porque eu
lhe assevero que este e todos os meus romances, olham a prevenir o
leitor contra os infortunios procedentes da mentira do corao.




ESTRELLAS FUNESTAS




PRIMEIRA PARTE


I

Alardeava em Lisboa suas pompas, liberalidades e desperdicios de rico
morgado da provincia, Gonalo Malafaya, primogenito e unico de uma das
tres nobilissimas e mais opulentas casas do Porto.

Ha muitos annos foi isto. Ahi por 1778  que o fidalgo portuense dava
invejas aos da crte, e a muitos namorados se atravessava, tentando a
constancia das damas, e sando com a victoria, de que elle se lograva
por mera ostentao, e nada mais que mareasse seu pundonor, ou o d'ellas.

Algumas d'essas damas levavam-lhe vantagem em pureza de sangue, e pouco
o desegualavam em bens de fortuna. Admiravam-se os amigos de Gonalo
Malafaya que elle rejeitasse allianas de bom partido, vistas as
condies das donas. Respondia elle que, desde menino, estava o seu
casamento pactuado com D. Maria das Dres, sua prima carnal, tambem
filha unica, e successora de grandes vinculos nas provincias do norte.

D. Maria das Dres, menina de treze annos, sara do convento de Arouca,
onde fra educada com suas tias, e vestira o magestoso habito de aia da
santa rainha Mafalda, costumeira j esquecida n'aquelle mosteiro,
fundado por uma rainha portugueza d'aquelle nome.

A joven aia sau do mosteiro, com os seus bellos olhos menos levantados
ao co que inclinados ao espelho, e viu-se bonita, por comparao com as
feias. Achou-se, ao mesmo tempo, na primavera da vida e na do anno.

Parece que a natureza inteira lhe estava dando uma festa. Recordar-se do
seu quarto sombrio do convento, e das rabugentas admoestaes e
querellas de suas tias, era-lhe um retrospecto enjoativo. Seus paes
andavam como a amostra'-la de casa em casa, maravilhados do juizo da
morgadinha. O juizo de Maria das Dres, a olhos extranhos, teria antes
nome de mau genio, pois no era mais que uma desmesurada vaidade de sua
pessoa, e altivez com que tratava mordomos, caseiros, creados, e ainda
pessoas independentes de sua casa, que a no hombreavam em fidalguia.
Esta prenda lhe incutiram as tias, freiras que passavam por boas, e
santas mesmo seriam; mas muitas vezes estariam a pique de perderem suas
almas, pela peccaminosa soberba com que disputavam primazias de linhagem
com as suas conventuaes. Na cella das duas senhoras ou se falava de
milagres ou de fidalguia; e era ordinario passarem da linguagem,
edificativa de sua visionaria crena em milagres, ao vanglorioso
discurso de sua arvore genealogica, em demerito de alguma illustre
religiosa bernarda, que, por sua parte, mofava da philauca das nossas
velhas senhoras, a quem Deus ter perdoado a fragilidade, por ser a mais
inoffensiva de quantas ha.

O maior mal, proveniente d'isso, foi a vaidade da sobrinha; se, porm,
seus paes gostavam d'ella assim, pde dizer-se que a educao de Maria
fra perfeita,  vontade dos paes.

Soberba com os fidalgos, que a requestavam,  que ella no era, nem os
seus quatorze annos extranhavam a linguagem galanteadora. J l no
convento a aia de Santa Mafalda ouvira falar muito de corao s
religiosas que o traziam exteriormente amortalhado no habito;
presencera por l muitas borrascas passageiras de ciumes; ouvia
conversaes pouco recatadas das freiras com as novias cerca de certos
primos que alli vinham de longes terras a estiarem saudades nas grades,
e banquetearem-se do refeitorio monastico. Era tudo sto de si to
trivial n'aquelles tempos, que um pae, impondo a suas filhas a
profisso, tacitamente lhes dava a partido poderem ellas violar o voto
pela mesma razo que elles lhes violavam as propenses. E, portanto,
nenhuma religiosa, em annos desculpaveis, se pejava de tratar questes
de amor, quando ia para o cro, ou voltava do cro, mixturando os
psalmos de penitencia com os alambicados conceitos em que, por via de
regra, comeavam e findavam aquelles amores. E como ninguem se
escandalisava de tal, quer-me parecer que o peccado seria
insignificante.

Como disse, concorreram desde logo  mo da herdeira os mais nobres
appellidos d'estas provincias, uns tendo-a visto, outros no a vendo
nunca; uns amando-a de repente, outros aborrecendo-lhe as maneiras, e
mesmo a boca defeituosa. Maria das Dres l tinha no seu patrimonio
tempero com que adubar-se para todos os paladares; ella porm dizia a
suas amigas, empenhadas a favor de irmos ou parentes, que o seu
casamento estava justo desde o bero com o primo Gonalo Malafaya.

N'aquelle tempo, semelhantes contractos entre duas familias, cujos
contrahentes eram dois meninos no bero, eram inquebrantaveis. As
creanas, aos sete annos, j se conheciam como esposos futuros; e,
conforme iam crescendo e ouvindo falar do casamento, no tinham mesmo
tempo de crar um do outro, quando, aos quatorze annos nupciaes, a
esposada arrumava as bonecas para cuidar do marido. Raras vezes
acontecia rebellarem-se os filhos compromettidos, contra a vontade dos
paes. Se se amavam, era uma fortuna, tambem rara; se no se amavam, o
que fariam era mutilar o corao, atrophia'-lo  custa de lhe abafar as
pulsaes, e deixa'-lo para ahi estar no peito, em lethargia, cujo
despertar, j fra de tempo, trazia s vezes grandes desgraas e inuteis
lies.

A esta regra usual, quiz o acaso contrapr uma excepo, incutindo no
animo de Gonalo Malafaya extraordinarios affectos a uma dama
lisbonense, e no de Maria das Dres imperiosa inclinao a um cavalheiro
de Amarante.

Pediu Gonalo aos paes licena para casar com a menina, mandando-lhes um
traslado da arvore genealogica da sua amada. Os velhos responderam-lhe
negativamente, com muitas razes, sendo a primeira razo do casamento
evitar a demanda por causa dos vinculos de Freijoim e Aguas Santas;
segunda razo, andarem ligadas as duas familias, atravs de nove
geraes desde 1530; terceira razo, a palavra dada, entre fidalgos que
a tinham em maior valia que a propria vida. Seguiam-se outras razes,
rematadas por esta paternal caricia: _Se desobedeceres  honra, aos paes
e aos deveres a que teus appellidos te obrigam, conta com a nossa
maldio._

Gonalo abafou os respiradouros do corao, e sau de Lisboa, caminho de
sua casa. Muito sizo teve elle em conhecer o nenhum remedio do seu mau
destino, e fugir  presena da senhora, expediente unico de salvar-se, e
salva'-la de maiores dres. Salvaria?...

Alem de qu, o mancebo, para distrair saudades na jornada, ia pensando
em sua prima, que elle vira galantinha, aos oito annos, e acompanhra a
Arouca, tendo elle doze. Lembrava-se de lhe ter dado flores, e recebido,
nas festas do anno, umas bocetas de murcellas muito enfeitadas, com
trama de papel dourado, e as iniciaes da prima floreadas e entrelaadas
nas suas. Depois, uns versos, que ella lhe mandra para Lisboa,
escriptos naturalmente pelo capello de Arouca, frade bernardo, que
apanhra as musas de surpresa.

Com estas e outras imaginaes, conseguira Gonalo empanar o retrato da
fidalga da crte, viso teimosa que ainda a revezes lhe apparecia
n'algum relance poetico da jornada, onde assombreavam arvores, ou
herveciam prados, ou murmuravam fontes. A saudade  a poesia de todo o
homem. O que melhores poetas teem dito, melhor o teem sentido pessoas
que nunca fizeram versos. Onde virdes um homem recolhido com a sua
saudade, ahi est um poeta, porque a poesia no quer dizer seno enlevo
doloroso.

Entretanto Maria das Dres, sobejamente senhora de seus olhos e
palavras, ia alimentando esperanas ao morgado de Amarante, e nutrindo
as suas  sombra da ostensiva indifferena dos paes. Estes, porm,
avisados ou surprehendidos, atalharam o pendor da filha, dizendo-lhe que
bem sabiam que o seu galanteio era um brinquedo; mas convinha pr-lhe
termo, porque estava a chegar de Lisboa o primo Gonalo. Maria,
acostumada a dizer desassombradamente seus pensamentos, declarou que
antes queria casar com o de Amarante, a quem amava. Rebateram-lhe os
paes a frivola razo, com outras eguaes na substancia e na frma s que
demoveram Gonalo, mas Maria, menos reflexiva ou mais animada, replicou
com um secco e desabrido no quero, ousadia que deu em resultado ser a
menina ameaada de entrar outra vez no mosteiro de Arouca, e esperar l
que o juizo viesse.

Maria, mediante os carinhosos conselhos da me, cedeu  vontade do pae;
e afastou-se do solarengo do Tamega, o qual, prezando-se de cavalheiro
tambem se retirou aos seus senhorios, respeitando a conveno feita
entre as duas familias sobre o consorcio dos seus representantes.

Chegou Gonalo de Malafaya, no remate d'este episodio.

Viu sua prima, e reparou logo n'uma verruga que ella tinha a um canto da
bocca, e no desaire que lhe dava aos beios. Achou-a mal ageitada de
corpo, desgraciosa nos meneios, rustica nas palavras, e com manifestas
tendencias a medrar muito em largura, e a no espigar mais. Assim devera
ser. Se elle vinha affeito s gentilezas das damas da crte, d'aquellas
tantas que elle amra, todas bem fallantes, discretas, esbeltas,
apertadas de cinta, arrastando soberanos donaires com muito garbo,
dzendo tudo como quem canta, extendendo aquelles gemebundos _ans_, como
cauda das palavras, geito to antigo em Lisboa, que j, em 1650, D.
Francisco Manuel, faz riso d'essas modulaes esquisitas, de que o nosso
fidalgo portuense tinha tantas saudades! Em summa, Gonalo no gostou da
prima.

Ora Maria das Dres,  primeira vista, achou que o primo Gonalo vestia
uma casaca muito bonita de seda azul com bordados muito casquilhos nas
portinholas, e que tinha um p pequenissimo, quasi todo coberto por uma
fivella de ouro rendilhado em galantes feitios. Ouviu-o falar com grande
encarecimento das fidalgas de Lisboa, especialmente de uma que era filha
do conde de Miranda, a qual, para ser amada, o falar era sobejo, que,
mostrando-se, cego devia ser quem a no adorasse. O pobre mancebo parece
que assim estava desabafando a sua paixo, ou refrigerando a saudade,
que mais se assanhra, comparando a senhora de Lisboa com a prima do
Porto. Naturalmente, Maria das Dres, resentiu-se dos gabos indelicados
s meninas de Lisboa, e com intencional preferencia a uma filha do
conde, cujo nome Gonalo pronunciava, suspirando, como pessoas beatas
suspiram proferindo o nome do santo ou santa de sua devoo. Desde ahi,
a fidalguinha comeou a amuar-se, e a metter  galhofa o primo, ora
arremedando-lhe a cantoria do palavreado  lisboeta, ora tomando
posturas comicas de pernas e de braos, imitando-lhe as attitudes
palacianas, que bem pde ser Gonalo as exaggerasse um pouco. O que
certissimamente aconteceu foi Maria das Dres no gostar de seu primo.

Aqui temos, pois, os dois noivos, face a face, quando o enxoval da
esposada est prompto, e o palacete do moo se preparava, e os primos de
longe teem j convite para dia designado.

Maria das Dres teve a innocente coragem de dizer a seus paes que
aborrecia o primo Gonalo.

--s tola!--disse-lhe o pae.

--s uma creana!--accrescentou a me.

E continuaram a azafama, para que tudo sobejasse nos festejos nupciaes,
excepto a alegria dos desposados. Gonalo Malafaya ousou ainda
contrariar a vontade paternal, dizendo a medo, que um casamento
assim no promettia seno desgraas. O velho rebateu victoriosamente a
frioleira do filho, contando-lhe em miudos a historia do seu casamento,
e do casamento de seu pae, e de seu av. Eram tres historias, que o
leitor dispensa saber, e tem razo. A moralidade de todas era que tanto
elle, como seus illustres pae e av, tinham casado com primas, sem amor
nem vontade, e com muita repugnancia; e, apesar de tudo, tinham vivido
felizes, ou pelo menos resignados, visto que, ajuntava o velho, o
corao pouco tem que ver com o casamento, e casamento ser tudo quanto
ha mau, mas escravido de certo no . E a este proposito, discorreu o
velho Malafaya alguns despropositos, que iam mal a seus cabellos
brancos, e bem podiam chamar-se o prefacio desmoralisador de um
casamento. Porm, como estas causas, postas em balana com a
indisposio matrimonial do filho, inclinassem para o peor lado o fiel,
o velho cuidou equilibrar os pratos lanando no mais leve os vinculos
litigaveis de Freijoim e Aguas Santas, os quaes rendiam seis mil
cruzados, e estavam na casa com mui duvidosa legalidade.

Na ante-vespera do casamento, as duas familias, lavradas as escripturas
para segurana dos bens livres, foram de passeio, Douro acima,  Pedra
Salgada, onde um dos contrahentes tinha uma quinta.

Era pelo tempo do savel. Os pescadores de Valbom carregavam nos barcos
as redadas da sua pescaria, Maria das Dres entretinha-se a contemplar a
labutao dos pescadores, e as rimas de peixe extendidas no areal.
Aguilhoada pelo appetite, exclamou:

-- minha me! tenho vontade de comer savel; mande comprar um, que eu
tenho vontade de savel assado!

Toda a gente riu urbanamente do appetite da menina, excepto Gonalo que,
em sua consciencia, classificou de grosseirismo o desejo, e muito boal
a maneira de o exprimir. Ento, para seu maior flagello, lhe acudiu 
ida a recordao de uma merenda a que assistira em Cintra com a filha
do conde; na qual merenda de indelevel saudade, a perfumada e espiritual
menina escassamente comeu um tero da aza de pombo, um olho de alface, e
dois gomos de laranja, e, ainda assim, a pedido do amantissimo Gonalo;
que, se elle no insta, quella compleio angelica bastaria o cheiro da
madresilva. Se ao menos, Maria das Dres tivesse cobia de savel, e o
no comesse!... Seria um gosto pueril, sem o desagradavel espectaculo da
deglutio, em que ella era de todo o ponto natural, sem ter na menor
conta os preceitos da cerimonia, que mandam engulir to subtilmente que
nos no ouam o rumor do mastigar. Maria das Dres mastigava o savel com
a presteza de mandibulas egual  impaciencia do seu appetite. Comeu,
antes de jantar, na presena do noivo e dos numerosos parentes, duas
grossas postas do pescado, como a filha do conde de Lisboa, em identicas
circumstancias, ouviria em delicias, duas odes anacreonticas, recitadas
pelo noivo  sombra dos arvoredos da sua Cintra.

Ora eu que, at certo ponto, no estabeleo estremas entre as mulheres,
e as julgo eguaes perante a lei do amor honesto, opponho-me 
distinco, que Gonalo fazia entre as duas senhoras. O meu parecer 
que se Maria das Dres amasse o primo, comeria apenas o tero da aza do
pombo, e o olho da alface, e os dois gomos de laranja; e que a filha do
conde, se no amasse Gonalo, comeria as postas do savel fresco, se o
tivesse em Cintra. A sciencia ha de andar sempre s aranhas n'estes
mysterios do corao relacionados com o funccionalismo do estomago.

Depois do jantar, durante o qual a morgada demonstrou que o svel fra
um prologo curto de um grande livro, Gonalo retirou-se com a sua dr a
um recanto da quinta, onde havia um tanque, em que nadavam patos, 
sombra de copados chores. Indo Maria das Dres vr rebanharem-se os
seus patos, deu de rosto com o primo, que estava lendo umas cartas, j
avincadas do muito uso.

--Estavas aqui?!--disse ella, em ar de retroceder.

--Vem c, prima Maria das Dres--disse elle emmassando as cartas na
carteira de marroquim.--Senta-te ao p de mim.

A menina foi sentar-se ao p d'elle, atirando migalhas de cavacas de
Arouca aos patos.

--Gosto tanto destas aves!--disse ella. Creei-as no convento, e
trouxe-as comigo. Olha como ellas me conhecem!...

--Hei-de mandar vir de Lisboa--disse Gonalo--um casal de patos
reaes, para te dar, prima, que so muito lindos.

--Eu gosto mais d'estes--atalhou ella.

--Mas, se eu te der outros, tambem has-de gostar d'elles, prima Maria
das Dres?

--Tambem, mas estes fui eu que os creei, e os outros j de l vem
creados pela filha do conde provavelmente...

Fez Gonalo um gesto de espanto, e de zanga, vendo a ironia mais
expressiva no rosto que nas palavras da prima.

--A que veiu aqui a filha do conde!?--disse elle com azedume.

-- que tu ests sempre, a proposito de tudo, com a filha do conde s
voltas. Ninguem veste, nem fala, nem anda como ella. Se a prima Peixoto
faz um rico vestido, a filha do conde tem um mais rico. Se eu compro um
collar de granadas, a filha do conde tinha um de esmeraldas. Se a prima
de Simes vem  cidade vestida de campo, como se vestem na Frana as
damas da crte, a filha do conde  que sabia vestir-se a preceito,
quando cavalgava por Cintra, com admirao de toda a gente.  sempre a
filha do conde para tudo! Por isso  que pensei que os patos reaes
tambem eram da filha do conde.

Gonalo Malafaya ficou atordoado, j pela affronta feita  mulher cujas
cartas apaixonadas estivera lendo, j pela extranheza que lhe causou o
desembarao da menina, que, at quella hora, simulra completa
indifferena, ouvindo-o falar da filha do conde de Miranda. Fez-se,
porm, uma instantanea mudana no espirito do noivo, saudavel mudana
que lhe lisongeou a vaidade. Julgou elle que Maria o accusava de
desleal, e de puro ciume rompia n'aquella insolita ironia contra a
lisbonense. Isto, que parece nada, foi grande parte na quietao de
Gonalo. O ciume da mulher, de quem se no espera nem pede amor,  uma
revelao agradavel, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do
corao.

Depois de alguns instantes de silencio durante os quaes Maria continuava
a esmigalhar cavacas aos seus dilectos patos, disse Gonalo:

--Eu tenho falado na filha do conde de Miranda por que ella  o
ornamento da crte e o modlo das fidalgas.

--Deixa'-la ser...--atalhou Maria--Que tenho eu com isso? Eu c, visto,
e ando, e falo como sei, ou como me ensinaram; e ella faz o mesmo; se o
faz melhor, seu proveito. Por que no casaste com ella, primo?

--Por que nossos paes querem que eu case comtigo. E tu por que no
casaste com o Magalhes de Amarante?

Maria crou, e deu graas ao seu anjo da guarda, quando viu entre as
arvores proximas um rancho de senhoras e homens que andavam em busca dos
noivos.

Gonalo apenas teve tempo de lhe dizer:

--No te parece que a nossa unio ser uma grande desgraa?

A prima no respondeu; levantou-se de golpe, e foi de corrida ao
encontro das senhoras que traziam abadas de rosas para espalharem sobre
a noiva e Gonalo que recebeu friamente a graa.

Seria ajuizado conjecturarmos que, depois d'aquelle desamoravel
colloquio dos primos, um ou ambos rompessem abertamente contra a
submisso, fugindo ao abysmo, que para elles nem sequer j se escondia
debaixo de flores. Ambos o estavam vendo em toda a sua profundeza.
Nenhum d'elles fiava de sua indole a resignao precisa para no
blasphemar contra Deus ao despedaarem-se na queda. Nenhum acceitava a
cora do martyrio como necessaria. Maria se recusasse formalmente, seria
castigada com o convento. Quem no ha-de chamar paraizo terreal a um
convento, se o compara com as infernaes torturas da vida intima em unio
indissoluvel? Gonalo, desobedecendo a seu pae, que punio podia temer?
Dissabores domesticos, privaes de recursos, a venda de seus cavallos,
um guarda-roupa menos recheado de sedas e velludos, prohibio de ir a
Lisboa, recluso em alguma das quintas do Douro. Mas que monta isto, em
confronto da liberdade de gastar  larga, e chamar seu ao ouro que se
atira por entre as grades de um captiveiro? Que tem que a peonha seja
bebida por vaso de relevante preo? E a peonha das unies odiosas e
odientas, tragada gotta a gotta, ha ahi morrer de mais lentas e
espantosas dores, quando as victimas se no buscam refrigerio na
desvergonha e no crime?

A estas perguntas a razo do homem oscilla, e cae em abuses
injudiciosas. Ento me lembra o destino, a fatalidade e as estrellas
funestas. Mas  to avesso  minha razo dar de barato ao nada a
explicao dos mysterios da vida humana, que antes quero acreditar que
alguns paes infelicitam os filhos, por se acostumarem  infelicidade
propria; e alguns filhos, olhando de longe para o infortunio, rebordam o
ponto negro, que l est, das cores variegadas e formosas que a
imaginao nova lhes empresta. Nos primeiros annos da vida, a ida da
desgraa formamo'-la imperfeitamente. Tantos so os vagos bens que
anhelamos, a tantas miragens do deserto nos fogem os olhos namorados,
que nunca o absoluto infortunio, as plagas infinitas sem fonte de agua,
nos parecem possiveis, nem experimentadas pelos mais famosos infelizes.
Os romances do-nos espectculos de maxima desventura; as tragedias
ensanguentam a pagina onde vertemos lagrimas; a voz publica relata
supplicios da vida particular denunciados pelo gemido ou pelo escandalo.
Que vale isso para imaginaes juvenis? Ninguem se cr talhado para o
molde das miserias excepcionaes. Alm de que, tal homem que a sociedade
considera desgraado na vida intima, com sua esposa, vem ao mundo, e
sorri, e folga, e aporfia em prazeres com os mais felizes! tal esposa
que tem fama de martyr ou de algoz de seu marido, vem ao mundo e
rejubila, e captiva os olhares, que principiam piedosos e acabam por se
desviarem descrentes de um martyrio, que deixa sorrir a martyr, ou de
uma crueza que tinge de amavel brandura o semblante do algoz.

E assim  que a penetrao de ler em almas, e ver no sorriso as
lagrimas, e no gesto meigo o arremesso do tigre, s pde da'-la muita
experiencia de dores proprias, muito estudar-se cada um em suas chagas e
na industria com que as escondeu de alheios reparos. Isto no o faz a
mocidade, no o podia fazer Gonalo Malafaya, nem D. Maria das Dres. No
instante em que um ao outro tacitamente se disseram ou podiam dizer:
ahi esto os pulsos para as algemas; mas o corao  livre--n'esse
momento o anjo da desgraa matizou-lhe de flores a garganta do
despenhadeiro, e elles acintosamente se cegaram, pedindo cada um  sua
imaginao o segredo de desatar as algemas do pulso e acorrentar com
ellas as dos deveres.


II

Casaram. As exterioridades, promptas sempre a mascarar hypocritas ou a
desmentir infelizes, esmeraram-se no esplendor do cortejo, nas festas
incansaveis de um mez, que apenas chegou a satisfazer a ancia de folias.
Era numerosa a parentella, derramada em tres provincias. Viera toda a
felicitar os noivos, e nenhuma voz amorosa lhes disse em que preceito
assentava a felicidade conjugal. Os emboras fundavam na certeza de se
unirem duas familias, que continuavam uma varonia ininterrupta de cinco
seculos. Diriam mais que j no havia medo que algum intruso viesse
enxertar-se no tronco illustre dos Malafayas e Azinheiros. Os velhos iam
 sala dos retratos, e affirmavam que o bispo de Leiria Lopo Azinheiro,
e a Dona abbadessa de Lorvo Mafalda Azinheiro, e o governador de
Mombaa Heytor Malafaya se estavam sorrindo de contestes com tal
casamento. E os outros parentes iam ver a alegria dos retratos, e os
retratos em verdade pareciam sorrir da inepcia da sua posteridade;
porque o bispo fora um virtuoso prelado: a abbadessa morrera em
cheiro de santidade; e o governador de Mombaa, se no morreu santo--que
o governar na India era pouco azado molde para santos--era pelo menos
esperto, consoante as chronicas o descrevem.

No se persuada o leitor que lhe est imminente uma trovoada de
escandalos e offensas  moral. O infortunio da vida intima de dois
casados existe sem delictos, sem vergonhas nem aggravos, que resaltam em
injurias ou insultos  dignidade humana, das janellas para a rua. O
marido pde ser desditoso, sem deslustre de sua honra; a mulher pde ser
m e intoleravel, sem enlamear sua fama para sacudir o stigma  face do
marido.

Ha umas mulheres que D. Francisco Manuel, na sua preciosa CARTA DE GUIA
DE CASADOS, denomina _bravas_.  este o termo que friza a primor em D.
Maria. Das bravas, como a representante dos Azinheiros, diz assim o
citado philosopho:

Cuidam com falso discurso, algumas mulheres, que como ellas guardem a
lei devida  honra de seus maridos, em tudo o mais lhes devem elles de
soffrer quanto ellas quizerem que lhes soffram.

E accrescenta:

 este um mero engano, por duas razes; a primeira porque nada se lhes
deve s honradas de guardarem a obrigao, em que Deus, a natureza, o
mundo e o medo as tem posto... A segunda...

A segunda razo desconcerta com o nosso proposito. Abaste-nos saber que
Maria das Dres, ou porque no sentia o corao, ou porque lhe
comprimia os impetos com a sua indole soberba, ou finalmente porque se
revia e estimava na pureza de sua consciencia,  de todo o ponto
averiguado que sobre sua memoria podem os panegyristas afoutamente
encarecer-lhe a lealdade sem macula.

O mesmo quizera eu dizer de Gonalo Malafaya; mas esto aqui ao meu lado
os apontamentos protestando contra as demasias da minha caridade, sendo
certo que as piedosas fraudes tamanha censura merecem no romance como na
historia.

Gonalo era um homem amavel, cortezo, audacioso, e mestre em astucias,
aprendidas heroicamente na crte, que era ainda, com pequenas
cambiantes, a mesma crte de D. Jos I, successora da outra do nosso
Luiz XIV. A piedade de D. Maria I influira nas festas de egreja, nas
pompas do culto, e apenas se fizera reflectir na vida das salas. O
impulso estava dado; a religiosidade da soberana seria inefficaz a
empecer-lhe o passo, ainda mesmo que a sentinella inquisitorial no
tivesse adormecido na sua guarita, de embriagada que estava de sangue.

Nenhum outro fidalgo portuense rivalisava em merito palaciano com
Gonalo Malafaya. Amavam-n'o as mulheres pelas graas e chistes da sua
conversao, moldada sempre s leis da cortezia e da elegante seleco
das finezas. Prezavam-n'o os mancebos, dado que o invejassem, pelas
lies de phrase, e de attitudes, e das mil insignificancias que n'uma
sala completam o homem de primor. Os velhos fidalgos, que, em
Lisboa, tinham visto os Marialvas e os Vimiosos, diziam que o Porto
seria assombro da crte, se os seus mancebos fidalgos fossem fadados de
indole to prestante, como a de Gonalo, para se affeioar aos grandes e
raros modelos, que, na capital, mantinham as tradies do bom seculo. O
bom seculo dos velhos  sempre o seculo em que elles foram rapazes,
amados e requestados das meninas coevas, as quaes, ao mesmo tempo, esto
lamentando, do alto dos seus setenta annos, a baixa condio em que a
humanidade se vae degenerando.

No entanto, quem visse o festival cavalheiro nas salas do Porto, nas de
Lamego, nas de Amarante, amando, gracejando, planeando caadas, bailes e
folguedos, quem diria as amarguras escondidas n'aquella alma? Sobre a
ferida da infinita saudade d'aquella filha do conde, suspirosa sempre
d'elle e votada ao claustro por seu amor, que travo de fel D. Maria das
Dres lhe espremia! Hora de paz uma s lhe no dava em casa a esposa.
No era o corao alanceado por ciumes, que sacudia a farpa; era j a
phantasia engrandecendo o ultrage para dar vulto s queixas. Na vida
intima, desvelava-se o desamor da esposa; mas para materia da accusao
tudo lhe vinha a talho, quer o marido revelasse tristeza taciturna, quer
se expandisse em simuladas alegrias. Se melancolico, era o fastio d'ella
que o entristecia; se alegre, eram as noticias da filha do conde que
tinham chegado. Se o acompanhava aos bailes, afeiava o aspecto de to m
sombra, que, por contagio, diffundia tristeza em todas as
physionomias, e mandava tirar a sege, quando o marido se mostrava mais
empenhado no jogo, na dana ou na conversao. Em casa, compendiava os
artigos do libello accusatorio, em que muitas vezes eram calumniadas
senhoras innocentes, e intenes de mera cortezia. Explicaes eram
exasperar-lhe a sanha; o silencio era confirmao de suspeitas; um
sorriso em resposta era redobrar o ultrage pelo escarneo; um gesto
desabrido, uma ameaa  justia do queixume. Quando os pretextos se
demoravam na phantasia fatigada de crea'-los, Maria das Dres lanava
mo de creancices. Deixava cair de proposito uma porcellana, e gritava
contra o marido que a tinha mudado do seu local costumado. Gonalo tinha
dois partidos a seguir; ou confirmava com o silencio a falsidade, e
ento o despeito recrescia com o supposto desprezo; ou a contestava com
acrimonia, e ento sobrevinham altercaes, que por parte d'ella,
terminavam em syncopes de raiva.

Gonalo recolhia regularmente  meia noite, e achava a esposa a passear
na antecamara, assoprando s mos, se fazia frio, e fingindo que
tiritava. Perguntava-lhe mansamente o marido porque no se tinha
deitado. A resposta era um descomposto aranzel de invectivas contra elle
e contra as familias que lhe tomavam o marido para lhe divertirem as
noites de inverno. Deixou Gonalo de ir aos saraus. Maria das Dres, 
terceira noite de dolorosa absteno, perguntou-lhe se elle ficava em
casa para dormir ao fogo, e se casra com ella para lhe ensinar a
brincar com as tenazes. Tornou-se Gonalo aos habitos antigos, e
conformou-se com a dura pena de adormecer embalado pelos convicios
revelhos e repisados, os mesmos sempre na phrase e na toada, a monotonia
nos queixumes, a mais horrivel de quantas ha!

Este viver durou um anno, cinco annos, dez annos, vinte e quatro annos.

N'esse longo e penivel discorrer de dias concatenados, vejamos se algum
incidente nos convida a variar de linguagem e a descanarmos o espirito
em algum ameno remanso.

Decorridos dois annos, nasceu uma menina, que foi chamada Maria
Henriqueta. cerca do nome, renhiram quinze dias os esposos, e sete
mezes j tinham disputado, antes d'ella nascer. Claro  que argumentaram
em hypothese at ao nascimento. Sendo menino queria ella que se chamasse
_Ruy_,  semelhana de seu vigesimo segundo av; sendo menina, _Maria_,
porque nos ultimos quatro seculos, todas as senhoras morgadas da familia
se chamavam Marias. Gonalo desejava que fosse _Heitor_, sendo rapaz, e
_Beatriz_, ou _Mafalda_, na outra hypothese.

Venceu a me, e chamou-se a menina Maria Henriqueta.

As formosuras que deu aos anjos a escola christ, vertendo  tela as
cres e os feitios desenhados de bello ideal, todas tinha Maria, aos
oitos annos de edade. Quem a via to linda, e ao mesmo tempo melancolica
e meiga, sem abrir nos labios infantis o sorriso de seus annos, cuidava
que, alguma hora, as azas de anjo lhe implumariam as espdoas, e
ella as desferiria em vo para Deus, que a mandra  terra a mostrar que
bellezas povoam a bemaventurana, e como as almas l andam vestidas.

Bem pudra aquella pomba depr no regao maternal um raminho de
oliveira, e alumiar n'aquella casa o primeiro dia de paz. Por ventura, a
tristeza do anjo seria a magua de no ter o condo de conciliar seus
paes. Pde ser que as caricias fossem poucas no bero, e  mingua
d'ellas, a menina crescesse como orphanada de corao, e sedenta das
meiguices, que ella andava mendigando a troco das suas.

Quantas vezes a pequenina acordava alvoroada aos gritos de sua me, e
s estrondosas disputaes dos dois, em competencia de phrenesis!
Quantas vezes a sua ama de leite fugiu com ella para lhe reconciliar o
somno, afugentado pelo medo dos berros e das visagens da me!

Raras vezes Gonalo se entretinha com a filha, porque Maria das Dres, 
falta de outros peguilhos, at das muitas caricias do pae  menina
tirava assumpto para bravezas de genio. Umas vezes por aperta'-la de
mais; outras, por atordoa'-la com os balanos; outras, porque a fazia
chorar; outras vezes, porque as cocegas a faziam rir, em risco de
rebentar uma veia. O pae, afinal, largava de enfadado a creana, e saa
de casa com os dentes e punhos cerrados, como se assim afogasse a
serpente que lhe empeonhava os mais innocentes gosos.

O amor de Maria das Dres  filha tinha accessos de doudice. Acontecia
arrancar-lh'a dos braos a ama, quando receava que os bolos e
tombos, em que a me a trazia do seio para o regao, lhe tolhessem a
creana. A menina ganhra  me uns medos taes, que dava a fugir, quando
lhe podia cortar as voltas. Estes passos, algumas vezes, lhe custavam
castigos, que tornavam a innocente cada vez mais assustadia. Com o pae
era differente o apego de Maria. Mal lhe ouvia a voz, corria-lhe aos
braos, e saltava-lhe n'elles, como se quizesse librar-se no ar, e ir-se
alando, de nuvem em nuvem, at esconder-se no co! Se Deus te dsse
ento as tuas azas! D'este amor ao pae, eram mais que muito frequentes
os reparos de Maria das Dres, que desfechavam em disparates de louco
ciume, e declamaes contra a Providencia, que nem sequer lhe deixava os
afagos de sua filha. Gonalo respondia acarinhando mais a creana,
talvez com malicioso prazer; mas cara lhe saa a malicia, que ouvia
improperios sem conta nem medida, e a muito custo salvava a menina da
vingana da me, fula de raiva.

Fez Maria nove annos, e j sobejavam luzes de razo para ver sua me, e
compara'-la, sem poder confundi'-la, com as outras senhoras. Sentia j
uns toques de compaixo, quando via o pae injustamente accusado, e
devorado de impaciencias, tanto mais dilacerantes quanto a prudencia as
afoga nas lagrimas intimas. Alguma vez ousou a menina pedir  me que
cessasse de mortificar o pae e humildemente offerecia o rosto  bofetada
que lhe vinha em retorno da supplica. E nem assim Maria se queixava ao
extremoso pae. Escondia-se a chorar no seio da sua ama, a quem ella
muito de alma chamava me e pedia amparo nas occasies em que a
irritabilidade de Maria das Dres recrudescia contra quanto a rodeava,
ou lhe fugia s sanhas.

Avisado miudamente pela ama, que afinal fra expulsa, determinou Gonalo
Malafaya mandar educar sua filha n'um collegio inglez em Lisboa, no
tanto para prende'-la, como para subtrai'-la  me. Fra plano d'elle
chamar mestres a casa, uns nacionaes, e outros extrangeiros, que era
esse o usual systema da fidalguia d'estes reinos; mas o pobre homem,
levando a filha ao collegio, sobre aparta'-la dos rigores da me,
poupava-se a augmentar em casa as testemunhas do seu desgraado viver,
que seriam tantas quantos fossem os mestres, e estes deviam ser muitos,
se andassem  caprichosa escolha de sua mulher. Disse elle timidamente o
seu intento a Maria das Dres. Ocioso  dizer que foi contrariado com
estirados e repetidos discursos. Tal motivo deu fonte caudal para
querellas de algumas semanas. Gonalo, feito o seu proposito, cogitou em
machinar traas para tirar a menina; mas nenhuma lhe dava azo a sar-se
bem com o seu louvavel intento. O que elle queria evitar era o ruido do
facto, e a preciso de explicar, em abono seu, os precedentes que o
motivaram.

A sociedade apenas desconfiava dos desgostos surdos de Gonalo; e este
por vaidade ou por interesse de cousas menos louvaveis da sua vida
exterior punha todo o seu cuidado em desmentir ou affrouxar a
curiosidade publica, sempre em ancias de escandalos, para
dessedentar-se das sequides da vida quotidiana.

Um successo, apparentemente casual, proporcionou o afanoso desejo de
Gonalo. Os paes de Maria das Dres tinham ido a vindimas ao Alto-Douro,
e ali adoeceu mortalmente a me. Vieram apressados portadores com
liteira a buscar a filha, por quem a moribunda chamava com incessantes
brados. A tempo isto foi que Maria Henriqueta estava de cama com leve
mas febril doena. Sua me ainda tentou leva'-la, se bem que no
desconfiada da alegria occulta no animo do marido; mas os medicos
contravieram ao desarrasoado desejo. Sau Maria das Dres a assistir 
agonia de sua me, que foi demorada, e por l se deteve at s honras da
sepultura, uns trinta dias.

Entretanto, a menina convalesceu, parece que s da alegria de se ver
convalescer nos braos do pae, com a ama querida ao seu lado. Gonalo
fizera chamar a ama para ser no collegio a aia da filha. Deu-se pressa
na partida para Lisboa, e deixou aos paes o encargo de aquietar as iras
da esposa, quando ella voltasse do Douro.

Ento contou Gonalo a seu pae as miudas scenas de sua desgraa. Carecia
este de sensibilidade para receber a revelao como castigo. Chegada a
sua vez de falar, o velho contou ao filho a longa historia de seus
proprios infortunios, soffridos uns com desprezo, outros com paciencia,
e todos na certeza de que no ha ninguem feliz. Cau-lhe a proposito
contar uma arrastada historia de um rei poderoso da Asia que mandra
chamar ao fim do mundo um philosopho para que este lhe resuscitasse um
amigo, e que o philosopho promettera dar vida ao morto, tirando a
concerto que o rei mandaria escrever no tumulo o nome de um homem de
trinta annos que nunca soffresse um desgosto. Mandou o rei procurar tal
homem em todo o mundo; e como o no achassem os enviados, o morto
continuou a dormir o seu somno eterno, e o rei mandou o philosopho para
a sua terra.

Ouviu Gonalo o conto, e despediu-se do pae, promettendo dar a sua filha
a felicidade que perdera por obediencia, podendo ser ditoso com a
mulher, que a sua alma escolhera.

--E os vinculos de Freijoim e Aguas Santas!--replicou triumphantemente o
velho.


III

Estava ainda no Douro Maria das Dres, quando recebeu o inesperado golpe
em uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e
outra, no menos humilde, e mais reflectiva do marido. Ento
comprehendeu ella o silencio de Gonalo, tendo-lhe ella escripto para o
Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando
que a me, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa,
por ter escripto duas, sem receber, sequer, resposta da primeira.
Aquelle _sequer_ denota que a snr. D. Maria das Dres queria receber
resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde pde chegar o
mau genio!

Esteve a senhora algumas horas arquejante de clera sem saber que
deliberao tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a
despeito da vontade d'ella, a casra com o primo. O velho ouviu os
clamores, e disse:--Se tua me vivesse, essa santa poderia contar-te o
que me soffreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu c fico chorando
n'este mundo!... Eu casei por honra da familia, e para me forrar a
questes de vinculos e direitos de successo, que meu sogro podia
disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha
filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem  que no soffre n'este valle de
lagrimas, Maria?

No sei se Christovo Azinheiro tambem sabia a historia do rei que
mandou chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e
esta, sem lhe dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que
a paciencia tinha limites e a desgraa a tinha emancipado. Mal a
entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:--Lembra-te que s minha
filha, e que tens dois santos na familia, o snr. bispo de Leiria, e a
snr. dona abbadessa de Lorvo.

Maria das Dres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu
a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda
tinha vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas
das conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que
tinham apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.

Abriram-se as portarias  bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas
as religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.

--Vieste ver-nos, pomba;--disseram as tias, convulsivas de jubilo e de
velhice.

--Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.

--Como assim? Tu queres tornar para o convento?

--Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e morrer n'elle, se me
deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha,
a luz dos meus olhos, o meu corao, a minha alegria, tudo o que eu
tinha n'este mundo. Casaram-me  fora, e agora querem  fora matar-me.
Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde vivi os annos felizes da
minha infancia, e  sombra de minhas tias, que me no tolheram a
felicidade. No tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da
minha riqueza tirarei smente os alimentos necessarios. Sou rica do que
 meu; se o no fosse, pediria a minhas tias um quinho da sua tena.

--Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas--Isto no sei o que
me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu,  desesperao de
ciume!... Olha l, porque vens tu vestida de d? Morreu-nos algum primo?
Seria o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito
velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que  nosso primo pela linha
lateral dos Azeredos Pita-Rellas?

--Foi minha me que morreu--atalhou Maria das Dres limpando uma lagrima
espremida pela raiva no afgo declamatorio.

Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da
me de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o
mosteiro. Confluiram todas as religiosas  cella, e cada uma garganteou
o mais plangente que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas
freiras anojadas declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas
cadeiras de solla, a receber os pesames e as visitas nocturnas.

Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar,
gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, no
se compadecia com o seu desafgo. J arrependida de entrar no mosteiro,
e incapaz de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada
senhora, no dia seguinte ao da entrada, mandou metter os machos 
liteira e partiu para o Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de
douda, no conceito de umas senhoras, e a conjectura de que a perda da
me a enlouquecera, na opinio de outras. Em quanto s venerandas
Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem pasmadas, no se moveram
das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem a p quedo que os
tres dias do nojo expirassem.

Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonalo Malafaya
provando-a, sobre todas, mais dorida poro da sua vida. Tentaram-n'o
saudades a ir ao mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professra
Beatriz, filha do conde de Miranda. Enganra-se com o seu corao o
sensivel fidalgo, cuidando que podia ver impunemente a mulher unica do
seu amor, a recordao agridoce de sua mocidade. Bem sabia elle que
havia de chorar; mas esperava com as lagrimas apagar o incendio, se as
cinzas escondessem alguma fala da antiga chamma.

Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu
ao chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes
magestosas e tristes; mas tristes a olhos mortaes, que mais bellas
no as podiam inventar homens para as noivas do co.

Era ainda formosa, ou mais formosa era ento a chorada Beatriz dos
sales da crte, dos esplendorosos saros, das invejas dos moos, e das
mil brilhantes esperanas, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamra a
si, dotando-a com a perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do
corao os dons, que mal soubera merecer-lhe o homem amado; e, em cambio
d'elles bafejou-lhe de eterno maio as flores da face e a juventude do
espirito.

Maravilhou-se Gonalo de a ver to gentil: e ella, mal recobrada da
torvao da surpresa, espantou-se da mudana do galhardo moo que ella
amra.

Quizera a religiosa fugir; mas o corao ia attrado para a doce voz,
que era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.

--A que veiu aqui?!--perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre o
escapulario.

--Vim atormentar-me--respondeu Gonalo--Vim procurar as torturas, que
faltavam ao meu martyrio.

E contou Gonalo com pueril sinceridade a historia da sua vida, como
filho amimado conta a sua me desgraas, que se vo consolando ao
refrigerio dos prantos d'elles.

De instante a instante embargavam-lhe os suspiros a voz, e os vgados
lhe annuveavam as idas. Com rosto socegado ouviu Beatriz as lastimas,
os remorsos, e as confessadas cobardias do seu arrebatado
interlocutor; e, com immutavel rosto, respondeu por estas memoraveis
palavras:

--Eu tambem tinha pae e me que me amavam muito, e cavalheiros que muito
me queriam. Fui pedida para esposa, e meus paes mandavam ao meu corao
que respondesse. Amei-o, senhor; e, se por si me perdera, Deus sabe que
eu s de mim havia de queixar-me. Preferi-o, e com a cega preferencia,
que lhe dei, esperei-o at  hora em que m'o disseram morto para mim. Se
morreu tambem para a felicidade, amargamente o sinto. Quem me dera ver
toda a gente feliz, os meus inimigos mesmo, se acaso os tenho! Depois 
que eu lhe poderia dar um grande exemplo de coragem; mas... para que? De
sobejo me contento com ser exemplo de infortunio. Meus paes no me
queriam religiosa; meus parentes conspiraram todos contra mim; e
comtudo... sou religiosa, amortalhei-me, sepultei-me, e fiz da chamma do
meu amor a luz, que alumia sepulturas, e nem sequer aquece a lampada que
a encerra. Separados para sempre, sr. Gonalo Malafaya! No temos que
esperar um do outro, seno narrativas de lagrimas, que recrudescem a
amargura, e nada remedeiam. Peo-lhe pelo amor, que lhe tive, me no
procure mais, nem me desassocegue inutilmente. Eu achei aqui a paz,
depois de muito a pedir a Deus. Pea tambem; rogue, e faa da sua
paciencia um direito  misericordia divina. Viva para sua filha, se
outra imagem no tem no corao. Adeus.

Beatriz dos Anjos, inclinando de relance a vista embaciada ao
locutorio, sumiu-se na escuridade dos corredores, que vo da portaria
para o interior do mosteiro. Gonalo tartamudera palavras, sem sentido,
e quedra-se estupefacto, com os olhos fitos na lamina crivada do
palratorio.

Voltou a Lisboa o allucinado fidalgo, e de tamanha tristeza se
entranhou, que nem as caricias da filha o despenavam. Errou com a
escandecida mente por quantas absurdezas se offerecem ao desatino da
paixo. Roubar ao mosteiro a religiosa, e fugirem para remotos climas
no foi o maior nem o mais original dislate da sua phantasia. Rebelde
aos preceitos recebidos, escreveu primeira e segunda carta a Beatriz, e
recebeu-as abertas, com a terceira fechada. Um frade capello ou
confessor de Odivellas, lh'as entregou, e quiz asserenar-lhe os
transportes com os mais justos dictames, e piedosas reflexes que
suggeria o caso.

Ouviu Gonalo, uma hora, o apostolico varo, e sentiu despontarem-se os
espinhos de sua dr, amollecidos pelos prantos a que o forava
suavemente a compungitiva linguagem do monge. No levantou mo d'elle o
enviado de Beatriz. Buscava-o a miudo na sua soledade, e cada dia lhe
ministrava lenimentos novos, hauridos da inexhaurivel fonte do Evangelho.

Com o decurso de algumas semanas, Gonalo Malafaya conformou-se com a
desgraa irremediavel, e habituou-se a invocar o auxilio do co, se
vergava, alguma hora, ao confrangimento de desesperada saudade.

Maria Henriqueta conheceu nos primeiros dias de collegio os mais
saborosos instantes de sua infancia, seno os primeiros. Tinha muitas
meninas a ama'-la, as mestras  competencia de meiguices, muitas creadas
a servi'-la, e a sua ama querida a inventar-lhe sempre as innocentes
delicias, que a pobre menina desconhecera sob o olhar severo e glacial
de sua me.

Custou-lhe lagrimas o adeus do pae; mas foram as primeiras e ultimas que
chorou alli.

Depois de sessenta dias de ausencia, entrou Gonalo em sua casa no
Porto. Avisra elle de antemo os paes para l o esperarem, temendo o
primeiro encontro com a mulher. Recebeu-o a me nos braos, e disse-lhe
ao ouvido:

--Olha que Maria das Dres est douda furiosa.

Achegou-se o pae da outra orelha, e disse-lhe:

--Talvez seja preciso amarra'-la.

Gonalo encarou em ambos, e respondeu:

-- a felicidade que lhes devo, meus carinhosos paes.

A me entendeu, sem merecer creditos de esperta, a ironia, e replicou
mansamente:

--Tens razo, meu filho! tens razo...

E o pae accrescentou em outro tom:

--s vezes dois puxes de orelhas curam estas doudices.

Maria das Dres, com o seu feio costume de escutar, ouvira as palavras
do sogro e exclamra:

--Dois puxes de orelhas!... Quero vr se ha mo que se atreva a isso!

--Cala-te ahi!--bradou o velho.--Se fosses minha mulher, havia de...
esganar-te! Fizeste desgraar meu filho, que  um anjo, todos o
respeitam e amam, menos tu que s uma vibora peonhenta! Gonalo, deixa
tudo!--exclamou, voltado ao filho--deixa tudo a essa mulher, e vem para
nossa casa. Poupa os teus dias; foge a esta diabolica creatura, e o
mundo saber da minha bocca a razo porque lhe foges.

Maria das Dres tinha de ordinario uns deliquios de reserva para as
crises em que a palavra era menos significativa de sua consternao ou
raiva. Occasionou-se-lhe ensejo optimo para um. Desmaiou, caindo com
toda a segurana da sua pessoa n'um bufete da sala de espera.

Gonalo sentou-se extenuado em frente de sua mulher; pendeu a cabea
para o seio, e, com as mos na cabea, parecia recurvar as unhas sobre o
craneo.

--Que inferno!--exclamou elle.--Que inferno este, meu pae! Que vida to
escura a minha, agora, e sempre! Estou no vigor dos annos, e  foroso
que os acabe por minhas mos, ou que me deixe despedaar hora a hora por
esta mulher! Tinha uma filha, que podia ser-me allivio, e fui obrigado a
separa'-la de mim para a furtar  influencia nefasta d'esta senhora, que
nem boa me ! Nem me, santo Deus! Nem a virtude das feras coube em
partilha a esta que me deram por esposa!

Chorava a me de Gonalo, e o velho estava passado menos da dr, que do
arrebatamento do filho.

Maria das Dres ouvira tudo, e provavelmente descerrra as palpebras
para observar a gesticulao do marido. Abriu de todo os olhos
esgazeados; affastou da fronte os cabellos, como fazem nas tragedias as
doudas, ou as arriscadas a isso; levantou-se cambaleando, segundo a
arte, e tirou-se do salo, assoprando como serpente ferida na cauda.

Vacilou Gonalo entre ficar ou recolher-se  residencia de seus paes. A
me instava pela sada, conformando-se  primeira vontade do marido;
este, porm, reflectindo um pouco, disse que mais acertado seria o
filho, depois de liquidar contas com os caseiros e conhecer a fundo o
estado de sua casa, cuidar em separar-se judicialmente, allegando com o
depoimento dos servos o genio intractavel da mulher.

--Fez-me o casamento, pae,--disse Gonalo--e quer desfazer-m'o agora!...
Assim devia ser; mas o peior  eu hei de ser at  morte um escravo
d'ella, ou da ignominia da minha situao. A separao d causa a juizos
vilipendiosos, meu pae; e eu, sobre todas as calamidades, no quero
affrontas. J agora hei de soffrer e morrer aqui. Ho de regosijar-se da
sua obra... Quero que sintam o remorso de me acabarem lentamente a vida,
que to feliz se me antolhava; matassem-me antes! antes a morte, que
assim, ao menos, poupar-me-iam a ser testemunha da outra infeliz, que
tambem mataram!  alma do co, perdoa-me tu, pelas dores com que aqui
estou expiando a minha fraqueza!...

Os velhos no entenderam cabalmente a apostrophe, e de si para si
ficaram em que o filho estava menos escorreito e so de seu juizo.

Recolheu Gonalo  sua camara, e n'ella passou alguns dias encerrado,
sem ver a mulher. Ahi recebia as visitas, que, prevenidas pelo velho
Malafaya, evitavam perguntar-lhe pela prima Maria das Dres.

Esta, encerrada tambem no seu quarto, apenas recebia a visita do medico,
e a do capello, santo homem, que  mingua de eloquencia christ, se
estava sempre benzendo, sem dar a razo de tamanha prodigalidade do
signal da cruz.

N'este critico intervallo, Maria das Dres absteve-se de governar a
casa, e de transmittir suas ordens aos creados. Os negocios do governo
culinario corriam sob a fiscalisao do padre, que mostrou sua especial
vocao no desempenho d'elles. Almoo, jantar e ceia, s horas, nunca
faltou, bemdito seja o Senhor!

Passados dias, foi o medico portador de uma carta de Maria das Dres a
seu marido. Dizia em resumo o escripto que ella imperiosamente queria
recolher-se a casa de sua familia, por j no poder supportar o
flagello, que seu pae lhe apparelhara. Mais dizia, que se voltra do
Douro alli, fra causa d'essa imprudencia querer ella entregar a seu
marido as chaves de suas gavetas, e as preciosidades, que elle trouxera
dos seus. Posto isto, rematava dizendo que fra sempre uma esposa digna
e sem mancha; ao passo que seu marido era um homem de costumes
estragados, merecedor de outra mulher, capaz de vingar-se, pagando
affronta com affronta.

Gonalo leu a carta e respondeu verbalmente ao doutor:

--Que faa o que quizer. Que v para o pae se lhe apraz; que se deixe
estar, se est bem; na certeza de que, l ou aqui, a nossa separao
est resolvida para sempre.

Maria das Dres ouviu a resposta, pediu ao medico o favor de retirar-se,
saltou fra do leito, vestiu-se em grutesco desalinho, e entrou, com
furial aspecto, no quarto do marido.

Sentou-se Gonalo no leito, como attonito da improvisa appario.

--Que quer, prima?--gaguejou elle.

--Quero ouvi'-lo; quero ouvir da sua bocca as palavras que me disse o
doutor.

--Se lh'as elle disse... que mais quer?

--Diz-me o primo que v para meu pae?

--Se quizer.

--No quero!

--Pois no v.

--Eu no ando s suas ordens! Sou sua mulher. Entendeu?

--Entendi.

--E ento?

--Ento o qu! Que  que me diz?

--Que no saio d'esta casa que  minha.

--Deixe-se estar.

--Mas o senhor que disse mais?

--Que a nossa separao est resolvida para sempre.

--Isso  se eu quizer.

--Quer queira, quer no.

--Eu allegarei as minhas razes em justia.

--No temos que ver com a justia. A prima Maria das Dres tem os seus
aposentos n'esta casa, e eu tenho os meus.  n'este sentido que eu
entendo a separao.

--No quero!--exclamou ella, batendo com o p rijamente no tapete.

--Em tal caso, obriga-me a sair d'esta casa.

--E eu vou procura'-lo onde estiver.

--A prima  uma senhora. Fio da sua nobreza que se poupar e me poupar
a vergonhosos alardes.

--Qual nobreza, nem qual vergonha? Sou sua mulher! no  mais que
dizer--no me serves--e acabou-se tudo! Recorro s leis. Quero saber
porque sou abandonada. Fui-lhe infiel, primo Gonalo? Atraioei-o?
Faltei aos meus sagrados deveres de esposa?

--Nunca o suspeitei.

--E o primo faltou? Responda.

--No tem resposta.

--Tem. Tem resposta. O senhor  que no tem alma nem vergonha. Quer ir
viver com outra? Diga-o francamente, que eu n'esse caso vou-lhe fazer
presente das joias, j que o senhor a faz proprietaria dos meus
direitos. Escusa de sair: pde traze'-la para aqui. Veja l primo... se
precisa de aia a dama, estou eu aqui que lhe sirvo.

--Cale-se, senhora!--bradou Gonalo.--O despejo da phrase offende
tanto como o despejo da aco. Esto ahi as suas creadas a ouvi'-la.
Felizmente que no est aqui uma menina de onze annos para lhe decorar
essas palavras, aprendidas no sei onde, nem com quem. Prima Maria das
Dres! attenda-me com o seu silencio, se pde. Este viver  impossivel.
A senhora apurou-me a paciencia at ao extremo. Soffri-a emquanto o
facto da separao me pareceu desairoso. Sacrifiquei-me  dignidade, que
foi sempre o melhor timbre de nossas familias. Baldei as dores surdas
que padeci. Ninguem me compensa, nem a sua indole se chegou a condoer de
mim. Mudei, prima, mudei completamente. Quer saber a minha deliberao
final? Digo-lh'a livre de medo que m'a embarace. Em ultimo recurso, fujo
de Portugal, e deixo-a. Irei onde me no conheam, nem me denunciem 
sua perseguio. Felizmente sou rico. Bom  que eu alguma vez conhea as
vantagens de ser rico. O que  meu basta e sobeja. Posso ainda viver
alguns annos tranquillos; em toda a parte hei de achar amigos.

--E amigas...--atalhou ella.

--E amigas, diz bem a prima; porque no.

--Basta!--vociferou Maria das Dres perfilando o dedo indicador com o
nariz.--Basta! no se envergonha agora que o estejam escutando as
creadas? Faa o que quizer. Abandone-me; mate-me; sacrifique-me aos seus
caprichos, primo, que eu deixo a minha causa  Providencia, e a sua alma
ao remorso.

Gonalo sorriu, e Maria das Dres, atirando para o pescoo uma aba
do gabo de castorina, sau com toda a magestade d'uma rainha colerica.

O padre capello, que tambem tinha o vzo de escutar, j se tinha
benzido vezes sem conta com ambas as mos.


IV

Poude muito comsigo Maria das Dres, enfreando o genio; mas desmedrou a
olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de
espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonalo dois mezes a
sua palavra. Saa por portas remotas do repartimento em que sua prima
vivia. Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por
salas de amigos e parentes at noite alta. Recolhia a tempo que sua
mulher dormia; e, finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das
frequentadas pelas senhoras.

Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias,
umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro
o marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o
velho Malafaya andava solicitando a canonisao de seu filho martyr.
Deu-se a feliz conjunco de se encontrarem os dois velhos em casa de
uma familia, empenhada na reconciliao dos casados. Deram ambos
amigavelmente as causas da desordem, cederam-se mutuamente as
sem-razes de parte a parte, e vieram s boas, pactuando o afervorarem a
harmonia, na vespera do Natal,  mesa do amigo e parente commum, que
lhes proporcionra o encontro.

Assim se fez.

Gonalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dres, instada
pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na
mesma sala da ceia. Achava-se presente o deo da S, sujeito de grandes
lettras, e abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do
discurso, quinze dias antes. No foi discurso o que sau da uberrima e
caudal veia do prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a
quereriam ter feito. Se lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos,
 mixtura com os versos gentilicos, era uma pea litteraria com que eu
faria os meus creditos, se a podesse reproduzir, e o leitor m'a
attribuisse ao meu corcovado engenho. Corcova-se o engenho, como a
espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e geadas de infortunio
regelam e abatem as altivezas do genio. No assim ao conspicuo deo da
S portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de cro,
rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas
feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas
familias, em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caa a
talho de fouce.

Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas
como punhos, comeavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de
fio. Os velhos fidalgos, para em tudo attingirem o sublime dos
conceitos, at com acenos de cabea confirmavam o bem cabido e
apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta s
capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:

... Finalmente,  chegada a hora, a propicia hora de dois coraes se
approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de
longiquas arvores, se esto suspirosos namorando! Abra o mais forte os
doces braos, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradia creatura,
que seno fra toda amor, seria toda divindade. _Toto Dea, tota pulchra,
tota vel amor._ (Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do
imaginoso deo: no me occorre ter lido cousa to delambida na
antiguidade). Finalmente, tornou elle--se dois so os culpados, o
reciproco perdo abra-se j em perfumes de reciproco amor. Para enxugar
as lagrimas, beijos; para delir injurias, sorrisos; para cicatrizar
chagas do peito, abraos. Vamos, felizes esposos; renasa a paixo, o
ardor da chamma antiga, _veteris flamm_, n'esta hora em que renasce
para o amor e para a f da humanidade o redemptor da culpa, o redemptor
das paixes ms, aquelle que disse: a carne da minha carne, o osso do
meu osso: _caro ex carne mea, os ex ossibus meis_. Disse.

Heytor Azinheiro tomou a filha pela mo; Christovo Malafaya abarcou
pela cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.

Gonalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dres cingiu o brao ao
collo do esposo, e ficou em duvida se devia desmaiar.

No teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deo conservava
ainda a face escarlate do rescaldo da inspirao. Houve ahi fidalgo
enthusiasta da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma
hora depois, cuidaria Sileno achar o espelho.

Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, s
provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.

Mas nos labios de Gonalo no avoejra um riso em toda a noitada, que
prendeu com o dia; nem os de Maria das Dres se abriram com palavra
carinhosa ao esposo.

Voltaram de brao dado a casa; almoaram juntos, e falaram de Maria
Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da
menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.

Decorreram dias serenos, se no felizes em comparao dos passados.
Maria queixava-se, mas com brandura: Gonalo ia confessando suas
demasias de impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito.
O padre capello continuava a benzer-se, mas j era de pasmado da
mudana que o Senhor fizera nos casados, mediante as oraes d'elle.
Modesta piedade!

Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha
em Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.

Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, danava com muito garbo
e limpeza o minuete, arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido,
e levava o toucado a maravilhosa altura, sem desluzir a graa. No
tocante a linguagem, em poucos mezes, todos a julgariam pura lisboeta.
Um dizer morbido, preguioso e indolente, como cortado de gemidos, cousa
mais de enfeitiar ouvidos nunca Maria das Dres imaginou que pudesse
ouvir dos mellicos labios de sua filha.

No ponto de belleza, no ha ahi cousa que mais diga. Altera-se,
desempenra-se, alargra de espdoas, mingora de cintura, pisava to
geitosa de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso
bater de translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no
olhar da me. J ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fra, se
seus paes a tivessem mandado educar  crte, em vez de a soterrarem n'um
brutificador convento, onde as mulheres eram todas umas, e
ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graa nem calor. Cohibia-se
Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com medo de
relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque
dos taes quaes merecimentos d'ella.

Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se
trocaram, e essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a me
quizera levar comsigo para o Porto, desejo inepto que o marido
impugnava, dizendo que a educao da filha estava em principio.

Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo
de vr o mosteiro de Odivellas. Sabia ella que farte da profisso da
filha do conde, e anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a
mulheres, que no sabem o que fazem nem o que desejam. Recusou-se,
primeiro, Gonalo; meditando, porm, que s uma casualidade traria s
janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos Anjos, condescendeu. Fra,
porm, to prompta a condescendencia, que D. Maria fez p atraz, e
demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram lembrar a
esposa, antes de regenerada pelo discurso do deo, que santa gloria haja.

Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e ento iam pegando em
permutao de remoques, mui dispostos a despregarem em formal
descompostura. Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul
sereno do provisorio co cobriu mais alguns dias de bonana.

Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vr livre do suborno da me,
que a induzia a pedir ao pae a sada do collegio. Se alguma vez por
temor ou respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o
mesmo era implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonalo a
vontade; e, dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a
sada, com promessas de l voltarem.

Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da S. Estava sobre
a terra o sapientissimo deo. Ruim agouro!

Aquelle dobre funeral, annunciando o trespasse do eloquente conciliador,
era o presagio de futuras discordias.


V

A educao seria alguma cousa no genio de D. Maria; mas o temperamento
era tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se no girava desempedido, e
resfolegava pelas valvulas da altercao, da teima e do conflicto.
Renhir era o principio vital da sua compleio. Carecia de
contrariar-se, quando no topava estorvos a desafia'-la  disputa. Uma
sua intima dizia que Maria das Dres, em dias mal humorados, chegava a
beliscar-se para se irritar contra si propria. Isto ser de mais;
cumpre, porm, duvidar em cousas mais disparatadas. A mulher, em geral,
 um complexo de bons e maus prodigios. Releva que tenhamos sempre
apontada a admirao s multiplices frmas de espirito, em que a mulher
se transfigura, segundo os varios incidentes de seu modo de ver e julgar.

Gonalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o
proposito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D.
Maria estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.

Durante o largo espao do divorcio, represra ella enchentes de fel, que
ameaavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mo extranha
desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gotta cogulasse e
desbordasse a represa insoffrida.

O indiscreto gal occasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o
assim dizer, em frageis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava
enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e
infernal seduco, que trazia na sua carteira inscriptos em catalogo os
homens que  sua chamma fatidica se tinham abrazado, pagando com o ouro
e com a honra, e alguns com o futuro bem de suas familias, a gloria de
morrerem  ponta de um florete extranho, ou  bocca da propria pistola.

A denuncia fra vestida com o maravilhoso costumado por quem relata
historias d'esta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida
mesmo da singularidade da belleza, que, a meu ver,  singularidade de
pouco momento, quando alguma tragedia lhe no d o relevo. Tragedias na
vida da cantora havia apenas as do libreto, em que ella mesmo assim
figurava na parte inoffensiva dos comparsas, e tinha sempre a cargo
lamentar a prima-dona, que morria s mos do tyranno, ou o gal que lhe
pedia por grande merc um pouco de verdete para se matar, como trado ou
desamado pela ama d'ella.

Pobre Persini! (chamava-se ella Persini) se Deus te julgasse pelo
depoimento dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus
ossos!

Ossos  que ella tinha muito acotovellados por aquelle corpo acima, se
havemos de acreditar os oculos de alguns coevos. Concordam, porm, todos
em ter sido Gonalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos
poucos amadores que saram vivos dos paos encantados d'aquella Armida.

Como quer que fosse, D. Maria das Dres estourou, conflagrou-se,
reaccendeu o antigo inferno, e constituiu-se o natural drago da sua
obra. Extranhou Gonalo as arremettidas, que o descostume tornra novas.
Desaffeito de soffre'-las, rebateu-as com virulencia, como corrido
d'aquella docilidade com que n'outr'ora ia aparando as frechas no escudo
da paciencia, e fugindo. Agora, adargou-se com uns modos despejados de
impudor; e, no que dizia, dava a pensar que a sua vontade era soberana,
e os seus caprichos inviolaveis.

D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os annos
orassem j pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas
ameaas, e at cuspiu a tentao de as dizer  cara do demonio tentador,
que est sempre de espia em conflictos d'esta especie.

Gonalo recalcitrou no vicioso amor  artista, e D. Maria na exploso
dos ciumes, se eram ciumes, que eu no me atino bem a dar-lhe o nome.
Ciosas temos ns visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar
_ciume_ o que , em boa definio, _vaidade_. Vaidade seja, ou, se
quizerem, ciume a indomavel raiva de D. Maria, o sar deshonrada em
busca d'elle, o aldrabar  porta da cantora, se l farejava o marido, o
alliciar lacaios para a espancarem  sada do theatro, o induzir-lhe
a creada a ministrar-lhe uns ps de ratos, que, de fracos e revelhos, j
as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor symptoma de dyspepsia.

A guerra caseira chegou a termos de se ameaarem no calor da refrega.
At alli nunca o marido exorbitra das leis da delicadeza prescriptas a
homem que se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ella lhe
acrisolra a impaciencia, que o desvariado Gonalo chegou a abrir e
vibrar a mo em direitura s faces intactas da mulher. Maria das Dres
correu a tirar pela gaveta de um toucador de ebano, e sau de l com um
punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a mo viril o brandia.

Gonalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe
colera, e medo tambem. Como quem pede treguas, o cavalheiro, pasmado do
arrojo, cruzou os braos, e disse:

--Mulher de faca! pasmosa cousa!

--Um cavalheiro de mo erguida para sua mulher! vergonhosa
cousa!--replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graa
para ella, e de mofa para elle.

--Est, pois, demonstrado--redarguiu o pallido Malafaya--que estou aqui
 merc do punhal da prima Maria das Dres!... Extranho destino o meu!
No basta matarem-me o corao, e o futuro?... estar escripto que o meu
corpo morra s mos mimosas da minha esposa?

--No!--bradou ella--no em quanto o senhor, me respeitar como senhora,
se me no quizer respeitar como esposa. Convena-se porm de que as
affrontas de mos ho de ser repellidas como as affrontas de palavras.

--Que quer de mim, prima Maria das Dres?

--Quero que me respeite para que o mundo me respeite.

--A senhora  que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.

--Forada pelas suas devassides, sr. Gonalo! Basta de vexames! Temos
cada qual seu caminho a seguir.

--Que quer dizer?

--Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto
ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de
tudo. Maria Henriqueta... quero-a comigo.

--A lei no lh'a concede.

--Ha de conceder-m'a! Eu provarei aos juizes que Maria Henriqueta no
deve ser entregue a um pae, que no sabe ser marido. Veremos quem
triumpha, sr. Gonalo! Veremos se uma me sabe advogar os interesses e a
moralidade de sua filha.

Cedeu Gonalo o campo e sao pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe
o alvoroo os letrados, assegurando-lhe que a menina no podia ser
disputada ao patrio poder com allegaes extranhas  moralisao d'ella.

Quando n'essa noite voltou a casa, achou Gonalo signaes de grande
rebolio, e deparou-se-lhe o capello benzendo-se, e tartamudeando a
nova da sada da fidalga, com os seus bahus para casa de seu pae.
Suspeitoso de um attentado maior, tramou Gonalo vigilante espionagem
aos passos e designios da prima. Logo, na tarde do seguinte dia, soube
que D. Maria das Dres ia a Lisboa, com o projecto de tirar a filha do
collegio.

N'essa mesma noite partiu Gonalo para a crte, petrechado de boas
recommendaes para debellar quaesquer ardis judiciarios da consorte,
favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.

Ento se viu quanto sobreleva amor de pae a todas as affeies
mesquinhas, que muitas vezes armam ciladas e quedas mortaes, d'onde no
ha ahi erguer-se um homem para a honra.

Esqueceu-lhe, n'um momento, a Persini, que o esperava com a ceia,
lardeada de convivas de sua estofa, e cavalheiros da tempera de Gonalo.
Nem chispa de saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada.
Anceava-se em Lisboa, e ante si no via seno a angelical figura de
Maria Henriqueta extendendo-lhe os braos, como a pedir-lhe resgate do
captiveiro que a me lhe queria infligir. Mal apeou do tressuado
cavallo, que devorra leguas ao sabor do amo, foi Gonalo cuidar de
requerer intimao judicial  directora do collegio para no entregar a
menina a sua me, sob qualquer pretexto, e com qualquer auctorisao.
Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pae desfadigou-se em
aturadas conversaes com Maria Henriqueta, a qual viava em
formosura  competencia com os dons do espirito.

N'um d'aquelles dias, Gonalo Malafaya, passando diante do palacio do
conde de Miranda, recordou as noites venturosas que alli passra, e
recolheu-se triste. Tristezas de corao, aos quarenta annos, se
procedem de saudades da bemaventurana dos vinte, so golpes que rasgam
fundo, e curam em falso, por no fecharem, digamo'-lo assim,
cauterisados pelo ardor das lagrimas.

Ao outro dia, Gonalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a
esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha elle visto, e
vozes de perdo lhe colhera dos labios balbuciantes em crispaes da
agonia; mas agonia de santa fra a sua.

Deu-se pressa no caminho de Odivellas, e parou indeciso no pateo do
convento, remirando as janellas onde entreviu rostos mimosos de
buliosas novias, enquadrados na touca do habito. A madre porteira
chamou o estarrecido cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguem.

--Alguem desejava ver, minha senhora.

--Quem?

--Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.

--Com os anjos est--disse a porteira.

--Morta?!--exclamou Gonalo.

--Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?

Gonalo apoira-se no rebordo da parede, contiguo  roda, e, encostando
a testa  pedra, chorou.

A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da
meia-porta, e disse-lhe:

--Se quer descanar, eu peo ao sr. capello que lhe d um quarto na
residencia.

--Agradecido, minha senhora. Eu vou-me j embora. Queira dizer-me:
Beatriz morreu ha muitos mezes?

--Ha dezoito.

--Eu vi-a ha dois annos, e pareceu-me saudavel.

--Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio ha dois annos?

--Fui, minha senhora.

-- do Porto?

--Sou do Porto.

--Pois v com a Virgem; e pea a Deus que lhe perde o mal que veiu
fazer  nossa desgraada menina. Com sua licena.

A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonalo, a passo incerto e
vagaroso, sau da alameda.

A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.

Lembrou-se da filha. Ai d'aquelles que soffrem e dizem: No ha quem me
veja as lagrimas!

Esporeou o cavallo, e descavalgou no collegio. Ia subindo as escadas, e
ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao
mainel. A mais aspera e aguda d'aquellas vozes era a de D. Maria das Dres.

--Em que momento, meu Deus!--exclamou Gonalo, com tamanha dor, como
se o peito se abrisse para romper fra o brado.

Em que momento! digamos ns. Ei'-lo a buscar um corao que lhe entenda
as lagrimas vertidas por outro corao que a dor matra. E a mo
terrivel da mysteriosa Providencia, conduz-lhe aos olhos, tumidos de
lagrimas, a mulher que, n'aquelle instante, mais odiosa devia ser-lhe!


VI

Se bem que desalentado para a lucta, Gonalo Malafaya subiu ao terceiro
andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando  porta de uma
sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito
silencio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em
transporte de jubilo, aos braos do pae. Maria das Dres tremia de ira
como de frio, e mudou de cres at permanecer n'um amarello de greda,
que era a sua usual expresso de extremo phrenesi.

--Que vem a ser isto?--disse Gonalo serenamente.

A directora respondeu:

--Vem a ser que a sr. D. Maria das Dres quer levar a menina, e a
menina recusa ir. Eu disse  senhora que v. ex. estava em Lisboa e me
no prevenira da sada da sr. D. Maria Henriqueta, razo porque me
opporia, ainda mesmo que a menina quizesse sar. A senhora irritou-se
contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que
fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex. dizendo que ia buscar
uma ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui
vir o pae, no dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada.
Felizmente que v. ex. veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.

--Tenho resolvido--disse Gonalo.--Minha filha contina a estar aqui. A
prima Maria das Dres  uma creatura sem alma, nem sombra de juizo.
Envergonhe-me e envergonhe-se  sua vontade; mas saiba que Maria
Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens
regias.

--Visto isto, eu nada valho?--disse Maria das Dres em tom
commovente.--Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser me; mas,
a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, no 
verdade? Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, s feliz.
Primo Gonalo, folgue de me ter esmagado o corao at me l no deixar
nem sequer a imagem de minha filha.  foroso que eu viva em odio de
todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faa-se a vontade de
Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: ha de custar-me
muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo que  mau e infame se
consegue com a fora de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem
para ti; que  esta a ultima vez que te vejo. Tu amars a minha memoria,
quando souberes que tua me podia ser boa, se alguem houvesse
misericordia das dores que lhe causa.

Maria Henriqueta foi espontaneamente ao p de sua me, e beijou-lhe a
mo, commovida. Apertou-a ao ceio com insolito estremecimento a me,
e teve-a assim, at que as lagrimas saram aos olhos de ambas.
Quebraram-se os animos das senhoras hostis a Maria das Dres. Movia o
trance d'aquelle adeus. Era me e filha; e o s titulo de me quer-se
respeitado, que  santo, salvo se o cunho sacratissimo d'elle foi delido
com execrandas torpezas, que s de pensa'-las se doe e peja o corao.
Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a
creatura, despojada de religio, descada de dignidade, atolada em
abominaes, que desconhecem feras, no fosse a ultima, a espantosa
hediondez da materia, desaamada em sua estupida fereza! Oh! quo triste
 ento o dizer-se aquella mulher  me! Aquella innocente menina foi
levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquell'outra mulher,
que se diz sua me!  lea da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando
lhe sondaste a fora das garras, e da tua pra j lhe fortaleceste as
unhas frageis, quo mais benigna tu s!...

Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido
do pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe
compadecimento para sua me. Dizia mais que o discurso do defunto deo.
Tirava por elle com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando
 beira da me a esposa consternada, com mansas palavras, com perdes e
amor.

Gonalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento,
mas resoluto. Compreendeu-o Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a
mo submissa de sua me. Foi silenciosa a scena, menos de suspiros e
soluos, que durez de alma seria se os circumstantes no se enternecessem.

--Prima Maria das Dres--disse Gonalo--seja este anjo que nos
reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu
amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que s de ns
pdes gosar?

Maria apertou a mo do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.

Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria.
Aos olhos de todas j Maria era esposa e me respeitavel. A
reconciliao rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na
dignidade de sua mulher.

Sau Gonalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha,
e estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa,
resolveu residir na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido
da Persini, que, quella hora, se estaria lembrando de Gonalo como de
um amante, cujos traos physionomicos, a custo, distinguia das feies
dos successores. Chamava-lhe tragica a opinio publica; e a pobre
Persini no era seno a comedia humana real e pessoalissima.

Pelo que respeita a Maria das Dres, o seu esquivo anjo de condio
benigna voltra a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em
passeio s suas inflammadas cavernas a pedir conselho ao chefe das
legies, infernaes, que enxameavam d'antes nas varas dos cevados da
Juda, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das familias.

Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca
monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto
seu natural lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas
em educao. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diverso de
cuidados. O grande mal da sua condio estava no scismar ssinha, e
devanear por desconfianas e zelos, quasi nunca injustos, diga-se a
verdade secca e breve.

Gonalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes,
estava melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu
em Odivellas. Sangrra pelas lagrimas o orgo que lhe era um aleijo
sensivel, e a causa efficiente dos seus maiores desgostos domesticos.
Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angustias, se
fosse mais fiel marido, e menos insoffrido nos acommettimentos da ciosa
esposa.

Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil
taboa da sua felicidade.  um caso que podia sobejar a um romance
especial, que eu vou dar pela summa.

Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os
galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O
fidalgo ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o
portuense; lembrou-se, porm, d'este galhardo despique, a tempo que
Malafaya vinha em jornada para o Porto.

Desembaraado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou
em merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se j com um
corao alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.

Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixo, a saude, e
por ventura a esperana. A pertinacia de Athayde era digna de premio;
mas, em geral, as mulheres, quando no ganham asco a quem as solicita
importunamente, so umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento
dos logrados, e se lastimam do assedio que soffrem.

A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o
repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!--attrahi'-lo a
confidenciosas relaes. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de
professar, se Gonalo no voltasse.

E Gonalo no voltou, nem o tempo desfez o que a paixo allucinada n'uma
hora designra.

Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya,
Beatriz entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.

Athayde, perdidas as esperanas, exulara no extrangeiro, onde, muitas
vezes resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos,
e quasi extinctos os fogos sob o glo dos quarenta e dois annos, voltou
 patria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando sempre
a chaga de saudade como quem no queria morrer de outra.

Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonalo Malafaya, ao qual as
freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de
Beatriz dos Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da
concentrao, quer de velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o
encarregava de vinga'-la. N'este presupposto, sau  luz do dia o
encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residencia
do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do
inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da edade
mdia! Relance de melodrama, que seria muito de vr no palco! Em 1799
era ja um desconcerto de juizo a tragica faanha!

Gonalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D.
Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de
barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.

--Francisco de Athayde, justamente--replicou o vingador s delicadas
duvidas do portuense.--Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778
vinte e tres annos.

--Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade--redarguiu Gonalo.

--Amigo, no. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.

--Duvidarei te'-lo em to extranha conta, emquanto v. ex. me no
disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.

--Matou Beatriz dos Anjos.

Gonalo empallideceu, e como  luz de um sinistro relampago, viu aquelle
homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de
uma arvore de Cintra.

--O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a
mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonalo balbuciou:

--Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a
escolhera para sua esposa, e a chamou ao co, quando j bastava como
conforto a desgraadas, o exemplo que ella dera.

--Palavras, senhor! No vim a ouvir palavras. Que tem v. ex. padecido
por expiao d'aquella morte?

--Muito, sr. D. Francisco de Athayde.

--No o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da
mocidade, o timbre da sua voz  sonoro como nos tempos em que jurava
paixes que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex. vive para si,
para sua esposa, para sua filha, para as glorias do tempo e para uma
velhice agradavel e tranquilla.

--Erra v. ex. o seu juizo. Tenho sido muito desgraado, sou, e
se'-lo-hei sempre. A minha expiao  a vida. Mas quer-me parecer
extranha a inteno com que v. ex. me procura. Posso, em breves termos,
saber a sua misso?

--Simples. Beatriz de Noronha no tem um irmo que lhe vingue a morte.
Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordao
das suas armas, e um brao, que pde com ellas.

--Vem portanto, v. ex. desafiar-me?

--Sim, senhor.

-- uma pendencia melindrosa. Peo a v. ex. que medite tres dias.

--Medito-a ha vinte e dois annos.

--E cr que o derramamento do nosso sangue ser agradavel  doce alma de
Beatriz dos Anjos?

--.

--V. ex. est influenciado por uma viso. Beatriz dos Anjos perdoou-me.

--Eu no perdo. A mim me vingo, se ella no quer vingar-se.

--Isso  outro ponto. Muda de rosto a questo. V. ex. vem desafiar o
seu antigo rival. Esqueamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso
duello serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou
indigno d'ella?

--Mostrar o que fr de sua vontade.

--Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe
enviar os meus juizes e testemunhas.

--Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a
arma de sua escolha.

--Rejeito as condies e a escolha da arma. Duvido da regularidade do
seu juizo.

--Ultraja-me?--bradou o Athayde em tremuras.

--No quero ultraja'-lo, senhor. Prope-me v. ex. um homicidio a
occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade.
Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex., na
causa do desafio, e nas condies propostas.

--Em summa, no quer bater-se.

--Entenda-o assim, se lhe apraz.

--E sabe que desforra me fica?

--A do insulto publico.

--Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

--Quando v. ex. queira.

Sau D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonalo
Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presena de um numeroso
publico, que saa da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha
certeira ao corao de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu
florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os
inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no
ataque. Gonalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado
de povo, que se acotovellava para escutar as razes da extranha briga de
dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, s
reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com
inuteis esforos para desentalar-se da multido. Prosperou-lhe a ventura
passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o
brao, e por amor de quem o povolo lhe deu passagem.

Este successo turvou profundamente a paz que o pae de Maria
Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as
caricias da filha.

Fra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos
coevos dos amores que levaram Beatriz  campa, e D. Francisco de Athayde
 enfermaria dos loucos.

Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias
depois. Athayde sau da sua modorra em accessos de furia pedindo uma
victima para a sepultura de Beatriz de Noronha.

Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do
lastimavel cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia
rehabilitadora das razes degeneradas estava no hospital de S. Jos,
onde foi recolhido D. Francisco, d'onde sau seis mezes adiante, para o
jazigo de seus maiores.

Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, querer
Deus que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes
arcanos que os sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam
descortinar! Permittisse o grande do co e da terra que alguma vez a
poesia d'este baixo lodo se elevasse  verdade eterna pelo raio da
inspirao de cima!


VII

Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerena da sociedade,--a
quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritra o proceder do
amante ditoso de D. Beatriz--sau de Lisboa Gonalo Malafaya e sua
mulher, com destino ao Porto.

Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara
prenda na educao das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre
d'-la prompta no prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da
discipula. Maria das Dres combateu a cedencia do marido, allegando a
inutilidade de falar francez n'uma terra onde ninguem sabia semelhante
lingua. Gonalo, porm, que se prezava de a saber, contradictou a esposa
com victoriosas razes.

So pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno
seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital.
Velleidades de corao, antigo pomo de discordia, essas no voltaram
mais. Da triste sombra do amargurado homem, at os convidativos
prazeres do vicio iam fugindo. Os abysmos s se cavam aos ps de quem os
anda palpando. Amores de alta sociedade, amores de capricho, apavoram-se
das cans, e querem pugnar com robustos coraes, e atrevidos
emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo. Ora, Gonalo era
a viva expiao do passado, a sombra baa do palaciano, que vencia os
rivaes com o s desprezo das praas em conquista. Viam aquelle homem
extenuado passar abstrado hombro a hombro das suas glorias de outro
tempo, e no as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia;
segue-o a indifferena, e bem pde ser que a derradeira phase seja a
irriso. Esqueceu, pois, Gonalo Malafaya, o querido das damas, o mestre
dos mancebos, o perfeito-fidalgo, epitheto antonomastico, e geralmente
aceite, que lhe deram as fidalgas edosas, que tinham visto a crte de D.
Joo V.

Fechra-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr. D.
Maria das Dres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante
apathia do marido os supprimira temporariamente.

Comeou Gonalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O
guardio dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a
erudio do padre Theodoro de Almeida ficra largo tempo disseminada nos
espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das
freiras e dos monges,  que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e
armazenava pharmacopa religiosa para, no inverno da vida, se medicar
em enfermidades geradas nos desvarios da primavera. Com freiras era
menos assiduo, mas muito estimado e desejado. Denominavam-n'o as
mysticas benedictinas o fidalgo do milagre. Vinha a ser o milagre a
mudana que faz o tempo e a desgraa no homem, que em si mesmo abrange
mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros
d'aquella poca.

N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas
filhas ao comeo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes  grade
cumprimentar o fidalgo do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do co
e da terra, ditas com tanta uno e graa que nenhuma novia ou freira
nova as ouviu, que se no sentisse mais conformada com a religio. E,
tanto era assim, que j soltava a intriga suas rasteiras serpes por
entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se o fidalgo chamava
umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com extranhos
inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos dentro
dos limites da candura monastica.

Recebia Gonalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou
enfeitadas por mos de anjos.

D. Maria das Dres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa
em bandejas de prata, no fez d'ella grande cabedal para altercar; mas,
com a repetio dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de
entrar no convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras
bentas, bafejou-lhe o seu demonio meridiano, e ahi comeou ella a
averiguar quem fosse a freira perturbadora da sua paz. Deram em
resultado as averiguaes que eram todas, excepto as entrevadas, as
religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula novia at 
gottosa abbadessa.

Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela
communidade benedictina.

--Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonalo?! Deste agora em
freiratico?--perguntou entre grave e ironica a sr. D. Maria das Dres.

--Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas
e velhas amigas. Na mocidade no as visitava, seno de longe a longe;
agora que somos velhos todos, bom  que nos vamos despedindo na
ante-camara da sepultura.

--E s procuras as velhas, primo?

--No, prima Maria das Dres. Ha por l umas senhoras novas filhas de
amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.

--Coitadinhas! e so umas santas: no  verdade?

--Deus sabe se ellas so santas: eu sei apenas que so excellentes
creaturas.

--Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...

E n'este ponto, a sr. D. Maria das Dres fez uma longa resenha de
senhoras que seu marido achra excellentes creaturas; depois, fechado o
catalogo no breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera,
que feriu desagradavelmente o tympano do marido.

Ergueu-se Gonalo e sau murmurando:--_Amplius, amplius, domine!_ que em
linguagem quer dizer: _Ainda mais, ainda mais, Senhor!_ como quem dizia
que viesse do co mais fel para o seu calix, pequeno para tamanhas culpas.

N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardio dos franciscanos,
politico de vasto alcance, e propheta da proxima invaso franceza. Tinha
o santo varo a gazeta de Lisboa que, em suas apreciaes, era a
epigraphe de sumarentos discursos cerca da liberdade, da politica
europa e de Napoleo. Escutava-o Gonalo aprazivelmente e
maravilhava-se de tanta sciencia sob to humilde habito.

Recolhendo a casa, alheado em combinaes de politica fradesca,
encontrou sua mulher amuada e colorida de certa amarellido, presagio
infallivel de tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em
relampagos e coriscos de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre
homem se empedrou de susto. Fugiu para o seu quarto, e de l fitava o
ouvido  trovoada que reboava fra.

Deixou de ir a S. Bento o fidalgo do milagre. As senhoras
escreviam-lhe a miudo, ou mandavam os capelles cumprimenta'-lo. Em uma
das cartas de saudao assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi
Maria das Dres, quem, ausente o marido, abriu, por acinte, a carta.
Leu-a, e escreveu debaixo das assignaturas:

No sejam tolas. Vo rezar. Tenham juizo. E, se no teem que fazer,
faam camisas para os pobres, que  isso o que faziam as antigas
congregaes de monjas benedictinas.

E devolveu a carta.

As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas no
me consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece
desnecessaria  salvao.

Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar
meadas em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonalo contando
o succedido. Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.

Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de
sua prima, mal pde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem
camisas para os pobres.  muito bom ter graa s vezes. Gonalo perdoou
a imprudencia  mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a
meditar no successo, quiz-lhe parecer que andra menos evangelicamente a
freira denunciante da indiscrio de sua mulher.

Certa a esposa de que seu primo deixra de frequentar grades, e vendo
que lhe faltava pedra onde mordessem os arpos da sua indole, deixou-se
ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e
ralhando com os servos para entreter o vicio, e com o capello que
continuava a benzer-se.

Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroou-se o
pae em preparativos de jornada, e D. Maria quiz acompanh-lo, e foi,
vencida curta resistencia.

J a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava
mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a
deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro
caso em que as opinies dos paes se harmonisaram, negando a licena.
Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua
ingleza; Gonalo, porm, to caprichosas achou as lagrimas, que nem
sequer curou de enxuga'-las com caricias.

Maria das Dres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras
asperezas:

--No se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Ests bem
aviada comigo, se tens assim as lagrimas  bica para qualquer
contrariedade! Ahi est o que vem a ser educao de collegio! Muito
mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por
d c aquella palha! Bonita educao, no tem duvida!

--Est bom!--disse Gonalo com mansido.--Excedes-te nas grandes e nas
pequenas cousas. No queremos que Maria Henriqueta estude inglez: est
dito tudo.

--Ento achas bonita aquella choradeira!

-- uma creancice que no merece discusso. D'aqui a dias j ella se no
lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa,
Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de ns
que de mestres. Se tua me quizer iremos no anno que vem, se as guerras
tiverem acabado, visitar as capitaes de Frana e de Hespanha. Estudaste
nos livros; agora  bom que estudes nas magnificencias da arte e do
engenho humano. Gostas do meu plano?

--Gosto do que quizerem que eu goste--respondeu carrancuda Maria
Henriqueta.

O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua
alma: V-se que foi creada sem me, me pelo carinho, e pelo castigo.
Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas,
e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o
apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando
castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a
contrariem seus paes...

Em quanto Gonalo cogitava n'estas e n'outras razes, Maria das Dres
discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de
encara'-la, e torcia os alamares do roupo, com simulada impaciencia.
Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e
ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como
aterrada do seu futuro.

Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na
palavra _futuro_!

Gonalo Malafaya, a ss, com as suas previses sinistras, dizia assim no
esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:

--A minha desgraa est em meio caminho. Envelheci a soffrer quando
minha filha comea a viver para me prolongar o martyrio at 
decrepidez! Alli est uma filha de Maria das Dres! Deixei-a ssinha com
a natureza, no pude corrigir-lhe as propenses: hei-de agora luctar com
o genio de ambas, azedado pela discordia em que vo viver. Como hei-de
ser justo, se forem ambas injustas? O que far a raiva e o desespero no
corao insoffrido de minha filha? Porque , meu Deus, que eu fiava o
bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?

Proseguiam as meditaes de Gonalo, quando sua mulher lhe entrou de
golpe no quarto, e disse com sobresalto:

--No sabes, primo Gonalo?

--O qu?

--Estou espantada!

--Que ? Fala...

--Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!

--Que viste?!--exclamou Gonalo, erguendo-se.

--Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...

--Isso que tem de extraordinario?!

--Tem muito! No me interrompas! Vi-a lanar  rua uma carta, e vi um
militar apanha'-la.

Gonalo sentou-se como desfallecido. Levou as mos  fronte, que previa
suor de afflico. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e
com grande esforo, disse:

--Peo-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal
respeito. Faz de conta que no viste nada. S prudente, se me desejas
vida a mim, e honestidade a tua filha...

Maria das Dres murmurou apenas:

--Entendam l o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a
honestidade de uma filha!...


FIM DA PRIMEIRA PARTE




SEGUNDA PARTE


I

No fra o anhelo de saber linguas que ensinra a Maria Henriqueta a
fagueira eloquencia com que venceu o pae, e conseguiu estudar francez.
Deus sabe com que repugnancia ella decorava as declinaes e os verbos,
e com que enfados velava as noites para dar lies diarias, com applauso
do mestre. Cuidava a educanda que, fazendo prodigios no conhecimento do
francez conseguiria do pae licena para deter-se mais um anno em Lisboa,
com o ensino de outro idioma.

Vamos  explicao natural d'estas maravilhas de estudo e sede de saber.

Desde os seus quinze annos que Maria se inclinra aos sorrisos de um
cadete de cavallaria, galhardo mancebo de cabellos louros, cintura
fabulosa, e maneiras de summa elegancia.

Era o cadete da provincia de Traz-os-Montes, filho segundo de uma nobre
casa de Mirandella, aparentado com illustes familias de Entre-Douro e
Minho e chamava-se elle Filippe Osorio Guedes da Fonseca. Abundavam ao
moo as sobras de sua mezada, e converteu-as todas ao seu noviciado de
amor. Primeiro alliciou a creada do collegio para receber as cartas da
mo do creado, alliciado tambem. A educanda correspondeu  fogosa e
sincera declarao do amante, com os mais apaixonados termos, que lhe
ensinou uma companheira mais velha e j experimentada nas excellencias
do estylo epistolar.

O cadete, no satisfeito plenamente com as cartas, alugou, na visinhana
do collegio, um andar de casas, que tinham saguo commum e janellas
fronteiras. Maria, sabedora do expediente amoroso do moo querido,
classificou o feito de suprema prova de amor, e deliciou-se em
embriaguez de ternura n'aquelles vagos anceios dos dezeseis annos, que
tanto levantam a mulher a foros de anjo, como do com ella em razo,
desenfeitada de todos os prestigios.

No era para isso o amor de Filippe Osorio. Amavam-se como duas creanas
pela innocencia do seu amor, e como dois noivos pelo alcance de suas
esperanas. Era o enlevo a subi'-los ao co, e o instincto a baixa'-los
 terra. Mas que instinctos to humanos, to legaes, to christos!
Casarem-se! Companheiros de uma longa vida, comeada em duas formosas e
explendidissimas primaveras! Que bonitos amores, e quem nos dera a todos
ns amar assim vinte vezes na vida!

Deu f a directora do collegio do namoro. Admoestou suavemente Maria
Henriqueta, e a candida menina respondeu-lhe;

--Olhe, minha senhora, leia as cartas de Filippe; eu lh'as leio todas,
se quer!...

A directora montou os oculos, e leu, com admiravel pronuncia e
conhecimento de toada dramatica, um massete de cartas, que era um
corao em prosa!

Em uma das primeiras dizia elle quem era, o seu nome, o nome de seus
avs, os seus parentes, o seu destino, os seus anhelos  gloria, a sua
gloria de ser amado. Vinha portanto Filippe Osorio a ser um dos
primeiros nobres de uma provincia, e um dos mais finos amantes do globo.

A directora dobrou as fartas hastes dos oculos, embocetou-os, escutou o
oraculo de uma pitada de esturrinho, e disse;

--Mas seu pae no a mandou para aqui com o intento de a menina arranjar
marido. Concordo nas boas intenes do seu joven namorado; mas 
necessario que seu pae concorde n'ellas.

--Mas que preciso tem meu pae de ser chamado j para isto, que  um
brinquedo? Se algum dia eu me resolver a ser esposa de Filippe, ento
consultaremos meu pae, e eu farei o que elle ordenar.

Ouviu a directora um amigo antigo da casa, homem maduro e previdente. O
consultado respondeu:

--Deixe divertir-se a pequena, minha senhora. Namorar n'aquella edade 
como abrirem-se as flores em abril. (Sobre ser amigo da casa, era o
sujeito o poeta dos annos da familia). Se avisam o pae, sabe o que
acontece?  elle tira'-la de c, e a senhora perde trezentos mil ris
annuaes que recebe, afora os presentes dos presuntos, dos chourios, dos
paios e das murcellas de Arouca: Minha senhora! tome o meu conselho.
Emquanto a janella do visinho no atravessar o saguo, e se lhe metter
em casa, deixe-os conversar, deixe-os perfumar os ares com a recendencia
dos seus innocentes amores.

Silvou uma pitada a matrona, e disse:

--Tambem me parece... a janella c no entra, sem ser por arte magica.

--Tambem me parece--redarguio o amigo da casa--e a magia  uma mentira...

--Isso  conforme, meu caro amigo! A gente tem visto cousas!...

E ficaram n'isto, porque um e outro tinham visto cousas admiraveis em
magia no theatro do Bairro Alto, no da rua dos Condes, e mesmo fra do
theatro.

Continuaram os doces colloquios. Nunca to immaculada paixo se nutriu
de puros desejos atravs de dois, tres, quatro, cinco annos.

Filippe, no decurso d'este tempo, foi promovido a alferes e j ostentava
as divisas de tenente de cavallaria, quando D. Maria das Dres o viu
levantar a carta.

Tudo o mais que eu dissesse para esclarecer o mysterioso desejo de
linguas, que Maria Henriqueta exprimia com lagrimas, seria uma
impertinencia.

Agora sabem o porqu d'aquelles prantos, e digam-me se ella no tinha
raso, amante cinco annos, cinco annos embalada pela esperana de cada
noite, ditosa pela realidade querida de cada dia, afeita quelles olhos
negros, quelles cabellos louros, quella melodia de palavras, que
pareciam cantadas a um arpejo de anjos! Nunca ninguem chorou com mais
amargura intima, penso eu!

Se ella dissesse ao pae que amava Filippe!... Porque lh'o no disse?
Porque se no confessou em to innocente culpa?

No o saberei eu bem dizer. Um instincto adivinhador do animo paterno?
No. Foi uma razo menos nebulosa.  que o pae lhe havia dito um anno
antes: Eu medito em te casar com um dos primeiros titulares da
provincia;  um conde, minha filha, no mais nobre que ns, mas
egualmente antigo, e... conde! Com que legitima soberba te verei
condessa, minha filha!...

Maria Henriqueta ouviu em alvoroo, e disfarava a dr da lanada com um
sorriso. Notou o pae que ella se purpureava; e disse entre si: como o
pudor  lindo!

A carta expedida pela janella, devia ser um partir-se o corao de
l'-la. Despedia-se Maria de Filippe Osorio, emprazando-o para
encontrar-se com ella no co, a no querer elle commetter algum
desesperado arrojo que a salvasse.

Houve-se com ella de modo o pae, que nem uma s palavra equivoca lhe
disse. D. Maria das Dres, incapaz de reprimir-se, alguns remoques
aventurou, provocando-a a revelaes que ella no fez. Como a casual
chegada da me  janella lhe foi despercebida, Maria Henriqueta deu
pouco valor a umas ironias, que de leve lhe apalpavam o seu segredo.

Triste como a saudade sem desafogo, entrou Maria no sombrio palacio de
seu pae. Em redor de si eram tudo cortezos enjoativos, fidalgos de
muita edade, perguntando-lhe se vira D. Carlota Joaquina, e meninas de
sua edade, que se agrupavam a um lado ciciando segredinhos, allusivos ao
ar enfatuado de Maria, com o que, de puro respeito, se estavam sorrindo.

Concorria tudo, pois, a exasperar a tristeza da morgadinha. As mesmas
caricias do pae a enfastiavam; o semblante aspero da me recordava-lhe
os repelles que soffrera em menina, e os annos dourados que deixra no
collegio. Saltavam-lhe involuntarias as lagrimas dos olhos, em presena
das familias que a visitaram, em todas as noites da primeira semana.
Fugia das salas, encerrava-se no seu quarto, e rompia em gritos, em que
a irritabilidade nervosa tinha maior aco. As noites desvelava-as a lr
as cartas de Filippe, escriptas em cinco annos. Estas leituras, longe de
socegar-lhe o animo, aguilhoavam-n'a a impetuosos transportes do leito
para as janellas, sorvendo a anciados haustos o ar da noite. Sentava-se
constrangida  mesa, e raro alimento aceitava da mo carinhosa do pae.
Pedia frequentes licenas para levantar-se, e buscava, em secreto, o
seio de sua ama, para chorar com desafogo, falando em Filippe.

Em nome da ama vinham as cartas d'elle. Digno de tanto amor nenhum
outro homem o seria mais. Atrevia-se de frente com as difficuldades, e
promettia-lhe a redempo, se ella permanecesse constante. O seu
primeiro triumpho consistia em conseguir passagem do seu regimento para
a guarnio do Porto. Era concesso difficil, n'aquelle tempo em que o
prospecto de proxima guerra punha em sobresalto conselheiros da cora,
que s curavam de organisar o exercito. Venceu o moo, com o patrocinio
de poderosos amigos de seu pae, os obstaculos da transferencia, e avisou
Maria Henriqueta, marcando-lhe o dia de sua chegada ao Porto.

Cobrou animo a menina, j enferma, e apostada a morrer. A vida do
corao radiou a todos os rgos exanimes e desconcertados. Nem mesmo o
estomago foi extranho quella festa das visceras.

Maravilhou-se da mudana o pae; e Maria das Dres ficou de sobreaviso
para espionar o motivo de to breve como extranha conformidade.

Gonalo, menos atilado ou malicioso que sua mulher, attribuiu a mutao
 ordem natural das cousas e das pessoas. Maria Henriqueta
esqueceu-se--dizia elle  consorte suspeitosa e incredula.--So assim as
mulheres em geral e o corao gasta-se como tudo que  susceptivel de
consumpo. O philosophico entono com que o aphorismo foi atirado 
circulao das idas, no impressionou vivamente D. Maria, que era uma
senhora de mean habilidade para digerir a sciencia occulta dos aphorismos.

No dia anterior ao da chegada de Filippe Osorio, annunciou Gonalo a
sua filha a visita do conde de Mono, inquerindo ella a causa do grande
rebolio que ia em casa com a innovao de tapetes, de cortinados, e de
moveis, chegados da capital.

--Vem ser nosso hospede alguns dias;--accrescentou o pae--Cuida tu,
minha filha, em tirar dos bahs os teus melhores vestidos e enfeites
para que elle, n'um relance de olhos, conhea em ti uma senhora educada
na crte. Pdes falar-lhe em francez, que elle viveu em Pariz. Vers que
homem de crte, que ar de quem tratou face a face com Luiz XVI e com
Maria Antoinette! Feliz serias se, como creio que ha-de succeder, lhe
tocasses o corao!

--Eu!... disse Maria com tregeito de espantada.

--Tu, sim, minha filha!--respondeu o pae, cuidando que o espanto era a
natural expresso de quem se julgava indigna de to egregio esposo--No
te disse eu, ha um anno, que projectava casar-te com um conde?

--Disse, meu pae.

--Ento, j vs que me no esqueci da promessa. Favor, em ligar-se 
nossa estirpe, no me faz nenhum. A sua origem foi a nossa. Todos viemos
da Cantabria; procedemos todos dos heroes de Covadonga, capitaneados por
Pelagio. Alli se ajuntaram as reliquias dos reis godos, e d'essas so
oriundas as nossas familias, posto que seus avs fossem meros fidalgos
acantoados em seus solares quando de Hespanha veio a infeliz rainha
Ignez de Castro, de um ramo da commum arvore que bracejou mui honradas e
nobilissimas frondes por Castella.

Maria Henriqueta no ouvia nada d'estas maravilhas. Estava como morta
nos sentidos exteriores.

Gonalo exclamou com affectuosa vehemencia:

--Tu descras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!? Responde...

No respondeu, nem desmaiou.

Sacudiu-a com brandura o pae, tomando-a para o seio, e osculando-a na
fronte.

--Fala, minha filha! Que sentes tu?

Maria pde falar, quando os soluos lhe desembargaram a voz, e disse:

--Lembre-se, meu pae, do seu casamento. Queira a minha felicidade...

--Pois no quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar
em fazer-te condessa de Mono!...

--No posso acceitar tal marido, meu pae...

--No pdes?!--atalhou, em tom menos suave.

--No posso ama'-lo... e no amar um esposo deve ser a maior das
desgraas...

Maria das Dres entrou n'este momento, e ouviu as ultimas palavras da
filha, que tremeu ao ve'-la.

--E como sabes tu que no hasde amar o conde, se o no viste
ainda?!--replicou o pae.

--Sei que me  impossivel ama'-lo... Pde ser um anjo do co, que eu no
o amarei... Casar sem affecto, meu pae, sacrificar-me por toda a minha
vida, estando eu to nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu
de boa vontade professo, e me irei esconder e penar como filha
desobediente; mas no me obriguem a casar, que eu tenho animo para me
matar no dia seguinte.

--Tens razo, filha!--exclamou Maria das Dres--Tens razo! Casamentos 
fora, em quanto eu fr viva, no os tolero na minha casa. O homem vem
ahi manh. Se gostares d'elle, e elle gostar de ti, casem-se; se no,
passe por l muito bem o snr. conde, e tu deixa-te estar, que ests bem
na tua casa.

--Que conselhos maternaes so esses, prima Maria das Dres!--interrompeu
Gonalo.

--So conselhos, que minha me me no deu, primo Gonalo. Repito: Maria
Henriqueta no hade casar obrigada. Minha me,  hora da morte, pediu-me
perdo de me ter obrigado a casar; e eu no quero nem heide pedir o
mesmo perdo a minha filha.

--Temos uma grande lucta, Maria das Dres!--exclamou o marido.

--Pois luctaremos--respondeu ella, esgrimindo com os braos e com a
cabea.--Maria Henriqueta! tu tens por ti a razo, e tua me... Veremos
de quem  a victoria.

--Eu no queria que meus paes se indispozessem por minha causa--atalhou
a menina--O que peo a ambos  que me queiram na sua companhia, e me
deixem gosar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz; para que
heide eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ella no est?

--Maria!--tornou severamente Gonalo--Eu sei que saste de Lisboa
apaixonada. Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por l
esquecido com os devaneios da mocidade; e calei-me porque um pae deve
fingir-se extranho a creancices sem resultado. Agora vejo que  grave o
teu desvario, e aceito a obrigao de t'o corrigir. Vamos a perguntas,
que te devia ter feito. Quem  o militar, que levantou da calada uma
carta lanada por ti?

Respondeu Maria passando da pallidez ao escarlate, e vibrando toda n'uma
convulso afflictiva.

--Responda, senhora!--repetiu o pae com o aspecto mal assombrado.

--Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade--ajuntou a me, em tom de
mansido, e modos protectores.

Maria murmurou:

--Era um tenente de cavallaria... Chama-se Filippe Osorio Guedes da
Fonseca...  de Mirandella, e  fidalgo...

Gonalo expediu uma casquinada de riso, e disse:

--Fidalgo!... tenente de cavallaria!... fidalgo de Mirandella!--quem so
n'este mundo os Fonsecas de Mirandella?... Hei de perguntar por isso ao
meu mordomo de Lamego, que  de Mirandella, e chama-se Melchior Fonseca.
Precisamente  tio do sr. Filippe, tenente de cavallaria!...

E deu segunda casquinada, com uns tregeitos mal cabidos nos seus nobres
ademanes.

Maria das Dres no ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido.
Por espirito de contradico, ou por pena da filha, tomou-a pelo
brao, e disse-lhe:

--Vem d'ahi, Maria Henriqueta.

--Onde a leva? disse irritado o marido.

--Onde hei de eu leval'-a?--redarguiu a esposa na mesma entonao.

--Quero que ella me responda!

--Pois faa-lhe as perguntas com geito e modos. Que quer perguntar-lhe?
Vamos, ella aqui est para responder. Diga l.

--Tudo que tenho a dizer--retorquiu Gonalo Malafaya exasperado contra
me e filha-- que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pae,
quando  necessario ser juiz.

--No quer mais nada?--concluiu D. Maria das Dres.--Anda d'ahi, menina!

E saram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o
cho que pisava.

Gonalo atirou-se sobre um canap, e exclamou:

--Castigado at ao fim! Nem a submisso d'esta filha que eu amo
tanto!...  de mais,  meu Deus!

Entraram os creados a pedir ordens para a localisao das alfayas vindas
da capital. Gonalo saltou enfurecido do canap com as mos
enclavinhadas nos cabellos, e exclamou:

--Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!

Os servos fizeram p atraz e encontraram, ao sarem espavoridos, o
capello, que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, 
mingua de co.


II

Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Mono. As
carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre
hospede, estacionaram  porta do palacio, condemnado s chammas,
esperando que o dono descesse. Gonalo, quando a parentella ia entrando,
compoz o semblante, vestiu-se a primor, e sau a entrar na sua melhor
equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que to vaidosa e
jubilosamente tomra.

O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passra alguns dias,
visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva
chegou aos Carvalhos e esperou.

Era o conde de Mono um fidalgo creado em crtes, e conhecido nas
extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendao
era a tolice, o dom de engranzar parvoiadas, que relevavam de chiste
por serem ditas n'uma algaravia de linguas, s perceptiveis por alguns
vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fra menos exacto, ou nimiamente
credulo Gonalo Malafaya, dizendo que o conde de Mono sabia falar
francez, por ter estado em Frana. O conde era refractario aos idiomas,
e com o seu, propriamente, andava to desavindo, que os fidalgos de
Lisboa no o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhana de Galliza,
que defronta com Mono, introduzira na linguagem familiar do conde
muitos termos espurios, cuja verso fiel s os aguadeiros de Lisboa
podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na crte as
damas e os moos intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de
agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos pem, data das visitas
do conde quella cultivissima terra, que tem l tambem os seus dizeres
ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graa e tal affectao que no
ha ahi cousa que mais diga!

Saa o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de
cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias
militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o aodado
cavalleiro, perguntou-lhe o conde:

--Vae para o Porto?

--Sim, senhor.

--Ento podemos ir de camaradas.

--Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazo.

--Se no  mais do que isso, ahi vamos--disse o conde, atirando o
acicate aos ilhaes do cavallo.

Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo--_vamos_, se  que Filippe Osorio
podia rir.

Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos
assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter,
nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham
grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de
longe, antes de lhes apertarem a mo. O tenente de cavallaria aventou
logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que
elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo
lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito
formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em
casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda
mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor
esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais
linda da Europa; mas Filippe to abstrado ia que nem a curiosidade o
espertou.

--O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da
dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...

--Tenho...--disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra
de ferro lhe batesse no peito.

--Tem? pois a menina de que lhe falo  d'esta familia.

--Conheo um fidalgo chamado Gonalo Malafaya.

--Sem tirar nem pr.  o pae d'ella.

--Pae d'ella!... Como veio s suas mos o retrato de...

Susteve-se Filippe to bruscamente, que s o conde de Mono deixaria de
notar as perturbadas perguntas de companheiro.

--O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de
Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi l ensinada
n'um collegio, e fala o francez perfeitamente.

Filippe, com quanto alvoroado, estava longe de presentir o desfecho de
taes revelaes, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear
falando de Maria, quando mais no fosse.

--Mas,--insistiu elle--com que fim o sr. Gonalo Malafaya mostrou ao meu
amigo o retrato d'essa menina?

--Isso so contos largos; mas l vae a historia. Em primeiro logar, o
senhor no me conhece?

--No tenho a honra...

--Eu sou o conde de Mono.

Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao
peito, e outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.

--Nunca ouviu falar de mim?--tornou o conde, notando a nenhuma
reverencia com que o militar ouvira o seu nome.

--Ouvi, sim, senhor.

--Agora, se lhe no custa, diga-me o senhor quem .

--Sou um official de patente; mas os meus appellidos so populares, e
escuso de os dizer a v. ex. como recommendao.

--Isso que tem? Se no  fidalgo ainda o pde ser, que d'essa massa se
fazem. Armas ou lettras, diz l o ditado dos velhos. De c se vae a l.
Meus avs tambem foram da militana, e eu ainda conheci na minha casa
tres generaes velhos como a S de Braga.

--Mas vamos  historia, se lhe no custa--disse Filippe com simulado e
affectuoso sorriso.

--Vamos  historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a
falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa,
porque l por fra era umas mos rotas. Aquellas francezas foram os meus
peccados, meu caro senhor! Dei l jantares a duquezas que era um pasmar!
E olhe que em Pariz um jantar, que faz pasmo, j ha de ser de um tal
tamanho!... Como lhe vinha contando, quando voltei a Portugal, e vi o
empenho em que estava a minha casa, resolvi tomar estado com menina
rica, ainda que me ficasse a perder de vista em fidalguia. No pde ser
tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta s regalias, e
fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mos. No inferno
esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando
o negocio me sau mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei
as minhas vistas s ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor
morgadio era o de Gonalo Malafaya, por ter s uma filha. Fui at ao
Porto, ha tres annos, assim como quem no quer a cousa, e fiz por me
encontrar com o Malafaya. Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro
que diz, e deixei-me dizer que me no desconviria ligar  minha
casa uma menina que fosse to nobre e to boa herdeira como a filha
d'elle. No arranjei bem o palavreado?

--Perfeitamente--disse Filippe ancioso pelo remate, como se o no
tivesse adivinhado, desde que soube que falava com _um conde_, que
tantas lagrimas custra a Maria Henriqueta:

Continuou o conde:

--O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa,
deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:--Deixemos completar a
educao de minha filha, e depois falaremos.--Passados quasi dois annos,
recebi em Monso uma carta do Malafaya com o retrato da menina.  meu
amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais
perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que  apaixonar-se um
homem, no atinar mais com a cabea? Foi o que me aconteceu a mim! Vim
logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! Eu quero a sua filha, mesmo
sem nada, se  possivel! Elle entrou a rir, e disse-me: A minha filha,
alm da riqueza e da formosura, tem o melhor corao que Deus formou em
peito de mulher. Nunca me esqueceram estas palavras!...

Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo:
mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher--que  o
diabo de saias segundo ouo--de modo que foram para Lisboa um por cada
vez, e por l se deixaram estar at ha pouco, que vieram para o Porto.
Ha de haver quinze dias que o Gonalo me escreveu, dizendo-me que
era chegado o tempo de eu ser apresentado  minha noiva, e effectuar-se
o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou
casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma
grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?

--Digo que faz muito bem; mas se me d licena--continuou Felippe com a
mais destra e bem fingida serenidade--farei uma advertencia.

--Diga l sem cerimonia.

--Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr. D... Chama-se ella?

-- Maria.

--Pela sr. D. Maria?

--Se tenho certeza de ser amado? Eu sei c! Ella ainda me no viu.

--Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex. de que ella o ame, vendo-o?

--O senhor est muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres
gostam de mim. Ponto  que eu as metta  bulha! Diziam l os meus
caseiros, quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o
besouro diabolico. Em Frana, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe
que estive para me bater muitas vezes por causa de namoros muito serios
com as aafatas da crte.

--Tudo creio, porque reconheo em v. ex. meritos para tudo; mas
supponha por um momento que D. Maria o no ama?

--Porque no ha de amar-me? Essa  fina!

--Supponha que ella ama outro homem?

--Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.

--E v. ex. tambem faz de conta que o no sabe.

--Est claro.

--E se ella dr a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira
desculpar esta pergunta.

--Diz o senhor que ella pde rejeitar-me para casar com outro?

-- uma supposio...

--Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para
essas brincadeiras. Ou eu ou elle.

--Iria v. ex. disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?

--Se elle fosse fidalgo ia; seno, mandava-o varrer do meu caminho pelos
meus lacaios.

Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando
soltou uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso,
entendeu que a sua ameaa afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E
riu tambem, em prova de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.

Nunca mais o tenente de cavallaria pde encarar no seu companheiro de
jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou
adiantava para no emparelhar com elle.

Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da
ceia, durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe
chamou  meia noite o seu lacaio, e mandou arrear os cavallos.
Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde no seu primeiro somno,
o somno da felicidade estupida que lhe derramra nas palpebras as suas
narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as dulcissimas
vises de um noivo da mais formosa mulher da Europa.

Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya,
descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira
carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam
em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libr, tudo reconheceu, porque em
tudo se atavam recordaes de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada
larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito.
Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu
a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do porto indicado, e
ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libr, se
podia falar a uma mulher chamada Eugenia.

Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar
com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das
senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia
elle, lanando-lhe dinheiro em ouro ao regao, que Maria alli viesse. Da
negativa passou Eugenia  hesitao e d'ahi, movida pela angustia do
moo--angustia com liga de ouro--foi disfaradamente procurar a menina.

E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.


III

Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou
como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dres a
encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida,
recommendando-lhe curta demora.

 entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito,
como se fosse inadvertida, e por surpresa, a appario. O melhor recosto
para um vgado era certamente o dos braos, que se abriram a recebe'-la:
mas o accidente foi instantaneo: o corao predominou o espasmo nervoso.

Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena
pathetica; porm, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros
e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem
depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.

--No tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a me est dirigindo o
arranjo dos aposentos do conde--E, voltando-se a Filippe,
continuou:--J podes imaginar quem  este infernal conde, que se espera...

Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor j teve a
complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com
tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.

Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por
ter captado em seu favor a me, cuja vontade era mais efficaz e
prestante que a d'elle.

Passaram a combinaes de futuro, prevendo hypotheses desgraadas, como
violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era
de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.

Disse Maria que fiava muito de sua me, mas muito mais de si propria.

Se a perseguio fr tal, que me no deixem respirar--disse a
menina--em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadea de
ns, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que
abenoe a nossa eterna unio, e assim unidos, sem vergonha do mundo,
arrostaremos com todos os revses.

Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e
julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular
o contentamento do corao da amada, contou-lhe que seu pae o protegia
declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu
casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em
toda a parte encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse
perfeita.

Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia
no extrangeiro. Amor, amor,  que ella anhelava, como as aves do co que
avoejavam de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a
cupula dos mares, sem cuidarem de pedir  terra ou s aguas um
poucochinho de alimento.

Estas cousas, de si to simples, ditas por amantes, embeberam duas
rapidas horas, que pareceram annos  timorata Eugenia. J D. Maria
procurava a filha, quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da
ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presena do guarda-porto.

Reparou a me no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposio de
que ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixra o pae.

--Maria Henriqueta--disse D. Maria das Dres--eu quero-te mais animada.
J te disse que  fora no te casa teu pae. Conta commigo, e vers que
tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto no te quero dizer que cases
com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.

Maria abraou a me com tanta effuso de reconhecimento, que, para assim
dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dres sentiu arfar o
corao de sua filha, e to estranha e dce lhe fra a sensao, que
poude n'esse instante ajuizar da ternura maternal.

Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco
de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto,
pedindo  me que a desculpasse de ir  sala por estar doente.

--Quero que vs  sala;--disse Maria das Dres--Escusam-se fingimentos,
quando as contas esto lanadas, eu sou por ti com a minha vontade de
ferro.

Gonalo Malafaya entrra carrancudo. J elle presumia que o tenente de
cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relao que o pasmado conde
fizera do militar, que o deixra a dormir em Albergaria despedindo-se em
latim. Instou Malafaya em meudas averiguaes, s quaes o conde
respondera sinceramente, dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no
tocante ao amor de Maria Henriqueta.

Isto bastou  desconfiana e penetrao de um pae precavido.

O conde foi apresentado a D. Maria das Dres, e teve o infortunio de
acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a
homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. No detestava menos
os ps grandes e o simonte; e o conde, sobre ter ps grandes, aspirava
com desgraciosa preteno o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um
relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flres,
sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito
admirada da numerosa turba dos convidados, e passou s mos de D. Maria.

--Essa caixa, minha senhora--disse o conde--esteve j nas mos mais
lindas de Frana. _Madame la duchesse de Choiseul_ honrou-me muitas
vezes tomando pitadas da minha caixa.

--Quem?--disse D. Maria.

--A senhora duqueza de Choiseul.

--Tem as mos muitos lindas?--replicou a fidalga.

--Lindissimas, minha senhora.

--Mas o nariz, se toma tabaco, no pde ser muito lindo... Aqui tem a
sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde.  um
traste muito bonito; mas o tabaco d-lhe ares de um deposito de
immundicie com paredes de ouro.

--Que grosseria!--murmurou Gonalo ao ouvido da senhora.

D. Maria das Dres olhou de travs o marido e disse:

--Temos historia....

Gonalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e
prendeu a atteno s variadas conversaes dos fidalgos. D. Maria pediu
licena, sau da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais
roagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.

--Quero que te admirem!--dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias,
e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de
scintillantes colares.

Fez-se um silencio de egreja em festa de paixo, quando Henriqueta
assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se
adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o
espasmo collra aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a
quem maior obrigao de cumprimento impunha o seu especial logar entre
todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o
brao direito afastado do tronco e a mo esquerda sobre o corao,
que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao cho os olhos,
inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do
canap. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de
golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no co e os mancebos
relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonalo ao
hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canap, e o
fidalgo, que tratra duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de
acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira
baixa, em que a seda do calo, que vestira nos Carvalhos, parecia
rebentar pelas costuras repuxadas.

--Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,--disse o conde gaguejando.

--Sim?--respondeu Maria--muito estimo que no tivesse incommodo.

--E falei muito a respeito de v. ex. com um companheiro de jornada...

--A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma
pessoa que no conhecia.

--Ora se conhecia!

--A mim? Pensei que nunca me vira...

--Mas vi o retrato que  o mesmo; s no  to lindo.

Ficou satisfeito de si: cuidou que nos sales de Versailles nunca se
dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.

--O meu retrato!--redarguiu Maria--No cuidei que lhe fosse conhecido...

--Aqui o tenho sobre o corao em caixilho de ouro e perolas. Foi seu
excellentissimo pae que m'o deu, e no podia dar-me melhor cousa seno o
objecto amado de que me deu a copia.

Outra fineza subtil que o poz em admirao de si proprio! No semblante
de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como
vestigio, uma visagem de tedio, que no mais se desfez nas tres horas
que durou seu supplicio.

Da sala passaram  casa da ceia.

Maria das Dres que, por acinte, se assentra ao p da filha, durante o
colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella,
protestando resgata'-la da continuao do seu inferno n'aquella noite.
Estavam os cavalheiros em p ao redor da mesa, esperando que as senhoras
viessem tomar logar, quando D. Maria das Dres entrou, dizendo que sua
filha, alm de estar habituada a no cear, sentia um leve incommodo que
a privava de vir  mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos
respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se  sua camara.

Gonalo reclinou a vista  esposa, como quem diz:

--Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?

O conde de Mono no provou bocado. Vinham-lhe  garganta uns suspiros
to dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais
sonetos que os de Petrarcha. Desvelava-se em servi'-lo Gonalo
Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguou o appetite! Os
brindes eram todos em honra d'elle, e elle agradecia humedecendo os
labios no rebordo do calix, e suspirando como quem d o que pde na muda
eloquencia do corao.

E Maria das Dres levava o leno branco aos labios para sorrir; e o
padre capello benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem
mentalmente da gulodice de alguns commensaes.

Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas
exclamaes ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu
uma de suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama
de Gaya, S. Christovo e Candal, posto que o templo da S lhe cortasse
um retalho das bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da
janella, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa
presena, e logo reconheceu n'elle o companheiro de meia jornada.
Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o
vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na m
conjunctura de ser conhecido.

Visitou Gonalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as
saudaes do estylo, disse:

--Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!

--Viu?! Est bem certo d'isso? Onde o viu?

--Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli por outra rua, e
no me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a
mim o homem ia para o quartel!

--Aqui, atraz da S, no ha quarteis...--disse Gonalo com meditativa
anciedade.

--Em que est v. ex. a cogitar? Parece que ficou assim a modo de
pensativo!

--No, sr. conde. Eu tenho estes modos distrados; mas nada significam.

--Vamos a falar--tornou o conde--a respeito do casamento. Pela minha
parte, meu prezado amigo, est o negocio feito. Veja v. ex. se quer que
eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha  uma deusa.
Acredite que ella ha de ser feliz a no poder ser mais. Hei de adora'-la
toda a minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso 
saber se ella gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito
agradaveis olhos, e que estava contente ao p de mim. Depois l me
affligiu que ella no fosse  ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um
talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar n'ella!

Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a
quem deu horas de folgada fara, nenhuma o impressionou. A sua primeira
paixo era Maria Henriqueta, paixo que rompeu violenta e inopinada como
as irrupes das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde
que a vira, perdeu a consciencia de seus meritos, o que elle denominava
o seu besouro diabolico para fascinar mulheres. O suspirar  ceia,
e o velar no leito era a duvida, a excruciante duvida, unico besouro
infernal e roedor, que se apascenta em corao humano, semelhante ao
ciume na peonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Mono, edade
critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a
vida futura do homem est definida para sempre; se apodrecem, as
particulas corrompidas giram no sangue, gangrenam o corao, segregam
rios de lagrimas, e ahi  ento o morrerem afogadas todas as esperanas,
e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um
cadaver moral. E as compleies sem o sexto sentido do ideal,
desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, so por igual
sujeitas  lei commum do amor, que levanta  gloria, e engolfa nos
tremedaes do crime. Terrivel  esta raia que nivella o talento com a
estolidez! Parece que est na materia a faisca universal, que pega os
grandes incendios: e os poetas--bem hajam elles!--to aporfiados andam
em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que . O
conde de Monso  que no sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe
apertavam no seio os pulmes suspirosos e que unhas de abutre lhe
arregaaram as palpebras veladoras! Ento lhe acudiu  memoria, para
flagela'-lo, o dialogo com o militar; e vieram apprehenses, e os
retraos dos menores gestos do companheiro, e a significao mysteriosa
de palavras, ento ouvidas desattentamente. Estas combinaes cresceram
de ponto, quando viu no rosto de Gonalo signaes de assustadora
suspeita, com referencia  appario do militar. Recolhido em si,
engrandeceu o vulto das desconfianas, e enterrando no seio o estilete
das peores conjecturas achou l o pensamento sanguinario de matar seu
rival, fosse elle quem fosse.

Quando os nossos rivaes acham isto no peito,  prudente teme'-los.




IV

Gonalo disse a Maria das Dres:

--Tenho quasi a certeza de que est no Porto o tal bigorrilhas de
Mirandella.

--Deix-lo estar. Cada qual pde estar onde quizer.

--Assim ; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta.
Acompanhou at meio caminho o conde, e j hoje esteve perto d'esta casa.

--Pde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faa?

--Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o
conde.

--Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar  muito simples. Temos
aqui o abbade  porta, e a egreja defronte.

--Isso no  responder. Tu j sabes que Maria no quer o conde.

--Pois se o no quer, tambem eu no. Diz ao conde que trate de sua vida.

--Mas a minha palavra est dada.

--Dste o que no podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua
palavra. Eu falarei com elle.

-- melhor que fales com tua filha, e a convenas.

--Deus me livre d'isso... Eu  que estou convencida de que minha filha
iria ser desgraadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu
tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente!
Faz vontade de lhe offerecer a cabea de um macho para enfeitar a cora
de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, ps grandes, ano dos
assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!

--Tenho entendido...--disse Gonalo com resignada
amargura--Estragaste-me Maria Henriqueta!

--Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os
frades e as freirinhas te davam cabo da razo! Se fosses rapaz, e visses
um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como ests a envelhecer,
entendes que est alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a
menina, deixa-a viver, no lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos
de a engrandeceres! D-lhe alegria, no lhe ds titulos... N'uma
palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta no o ama.

--Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua
filha.

--Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante
marido. Ir para um convento, e pde ser que eu v com ella. Vs-te
assim livre de ambas: e depois vae para as grades entreter-te com
as delambidas santinhas, que ns havemos de louvar a Deus o favor de uma
cella onde no chegam figures da laia do teu conde.

E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.

Maria Henriqueta faltou ao almoo, e foi desculpada por sua me, sendo
por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo corao, que 
um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonalo Malafaya licena para
mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o
comprimento D. Maria das Dres, e voltou, em nome de sua filha, muito
penhorada das attenes do illustre hospede. Tinham que vr e de que rir
estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio
de defuntos.

Em quanto D. Maria das Dres, depois do almoo, ficou  mesa conversando
com o conde, Gonalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que
por um cabello no foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma
carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de
melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir 
mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietaes do espirito eram
muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria
deixao das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente
compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de
um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda
estima de irmo. D'aqui saltou, pouco methodico, para os gabos
enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura
d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com
que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia
odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenas e
moralidades as suas intenes. Realou os brilhos de uma alta posio na
sociedade, e de uma cora de condessa. Matizou-lhe as delicias da crte,
para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no pao as
brilhantes occupaes de seu pae e avs, podendo sua esposa
considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afra a vantagem e
gloria de educar e elevar seus filhos  sombra de reaes telhas.

Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas
lagrimas, ancias de lanar-se de joelhos aos ps do pae e abrir-lhe a
alma, e deixar l ver a imagem do homem, que para todo sempre a
maniatara ao seu destino.

--Que respondes, Maria Henriqueta? No conseguiu teu pae mover-te?
Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?

Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluos lhe permittiam:

--No posso, meu pae, no posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido
desde hontem a morte!...

--Basta;--disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de
entrar no mosteiro de Arouca?

--Entrarei, meu pae.

--E que has de l estar emquanto eu for vivo?

--Estou prompta, se  sua vontade que eu v.

--No  vontade:  violencia que fazes ao meu corao. Pensas que eu
poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o
rosto de um pae  insensivel s ignominias do corao de sua filha? No
coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avs, uma
srie de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por
no poderem elevar-se mais alto. Sei que est no Porto esse aventureiro.
Toda a minha prudencia ser necessaria para o no mandar chibatar pelos
meus creados. No o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco
a tua dignidade, que  a minha.

E, baixando a voz, continuou com resguardo:

--Contas com a proteco de tua me? Ests bem aviada! Vers por que
estradas ella te conduz  desgraa. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo,
e fugiste d'ella para o meu corao, que te acceitou. Agora foges de mim
para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua
felicidade.

Saindo em direitura  sala do almoo, onde a fidalga ficra conversando
com o hospede, parou Gonalo para ouvir o que diziam, temendo que sua
mulher estivesse aniquilando as esperanas do noivo. Desconfiou com
acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:

--So cousas muito melindrosas, sr. conde--Dizia D. Maria das Dres
respondendo ao titular.--O amor no vem depois, se no tem j vindo
antes do casamento. Est v. ex. enganado pela inexperiencia. Os
experimentados  que sabem o que  casar na esperana de alcanarem do
tempo o milagre, que no fez o corao. To infeliz seria v. ex. como a
minha filha. O desagrado de uma situao contra vontade,  que faz as
impaciencias do genio, as irritaes que so o fel de quem o d aos
outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar
com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se no
houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar,
ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros
infortunios, que so as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui
casada  fora, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque
no hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e
torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes no
obedecerem cegamente? A desgraa ha de ser util a alguem, penso eu, sr.
conde; e por isso bom  que a minha desgraa seja util a minha filha, e
a v. ex.. Renuncie  ida de casar com Maria Henriqueta. O conde de
Mono ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e
nobilissima.

Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:

--No pde ser.

--No pde ser o qu?!--redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.

--Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonalo Malafaya 
que ella case comigo.

Era muito affrontosa para Maria das Dres esta brutal sada. Levantou-se
ella de um salto e exclamou:

--No casar, sr. conde, porque  vontade minha que Maria Henriqueta
faa a sua vontade.

--V. ex. tem um genio dos meus peccados!--atalhou o conde com um
comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.--Ora queira
sentar-se, minha senhora... Isto no vae a ralhar.

--Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou
mandar-lhe meu marido, e peo desculpa.

Gonalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um
corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O
homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o
que sua prima tinha asseverado. Era, porm, improrogavel a demora, desde
que o hospede ficou ssinho, sentado  mesa, a contar os palitos de
rama, que crivavam um javali de prata, imagem do corao d'elle, na
analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.

Entrou Gonalo com aspecto de ro, se no era antes o exterior de grande
amargura.

--Pelo que vejo--disse o conde--sua senhora oppe-se ao casamento! V.
ex. fez mal em m'o propr antes de saber, se era vontade...

--Minha prima--respondeu urbanamente o fidalgo--verdadeiramente no
se oppe;  que sentiu, melhor que eu, a indisposio de Maria
Henriqueta para o casamento, e...

--Ento  a menina que me rejeita?

--No o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.

--E v. ex. porque m'o no disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para
isso; e s agora  que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da
nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.

--Recebo com humildade as censuras, que v. ex. me fez--tornou Gonalo,
ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com
que decidira do destino da filha--Pensei que Maria Henriqueta via o
mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu corao. Enganou-me o amor de
pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella.
Minha filha vae entrar n'um mosteiro;  a satisfao que eu posso
unicamente dar a v. ex..

--Deixe-se d'isso!--atalhou o conde--Nada de mosteiros! Se a duvida do
casamento est na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudar
de idas a meu respeito. Ponto  que fale com ella, e lhe v ganhando o
corao pouco e pouco. Pois se a menina s me viu uma vez, hontem 
noite, como ha-de ella j gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua
filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto c fica por minha conta.

--Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu dou ordem a minha
filha para ir  sala. Queira v. ex. vir l espera'-la.

Quando Gonalo voltava de acompanhar o conde  sala, sau-lhe a esposa
ao encontro, e disse-lhe:

--s tolo, meu querido primo! Desconheo o teu antigo entendimento e
desembarao!

--Que queres dizer n'isso?

--Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que
vae ella a fazer  sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu no
lhe dissesse j?

--Que o despersuada ella mesma.

--Se ella o no persuadiu de cousa nenhuma, com que razo a foras a ir
despersuadil'-o? Tu desces da tua posio, e obrigas a descer tua filha!...

Gonalo sacudia vertiginosamente os braos, de enraivecido contra si
proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os
expedientes.

Maria das Dres condoeu-se do marido, e ajuntou:

--Maria ir  sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que v,
e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta
irrisoria situao s a franqueza nos pde salvar depressa.

Annuiu Gonalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar
sem testemunhas.

Foi Maria das Dres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O
conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do
trem dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o
afogueamento de uma colera expansiva no rosto.

Sentou-se, e esperou que falasse o conde.

--Est melhor, minha querida senhora?--disse elle titubiando.

--Estou boa, sr. conde, e v. ex. parece-me excelentemente saudavel.

--No dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de
hontem  noite.

--Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeo a prova
de estima.

--E de amor apaixonado, minha senhora.

--Esse sentimento  que eu de todo desmereo, por que no lh'o posso
retribuir. Devo dizer a v. ex. que vou entrar n'um mosteiro, em
satisfao  vontade de meu pae.  aprazivel para mim satisfaze'-lo de
um modo, quando me  de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae
deve merecer a benevolencia do sr. conde pelos esforos que empregou em
convencer-me a ser esposa de v. ex.. Resisti, por que no posso. A
dignidade de meu pae est salva; e eu salva me considero da
responsabilidade de fazer desgraado o sr. conde, por condescendencia
com a vontade de meu pae.

--Ahi ha outra cousa, minha senhora...--atalhou o fidalgo.

--Que pde haver?

--V. ex. ama outro homem.

--Amo.

--Ah!... diga-me isso... Provavelmente  mais rico e mais fidalgo que eu?

-- um homem. Que lucra v. ex. em saber-lhe as qualidades, que o
meu corao no discute?  um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que
amarei at  morte.

--Isso ha-de passar com a reflexo, minha senhora. Pde ser que elle no
seja to digno de v. ex. como eu, nem a ame com tanto fogo.

--Ser minha a infelicidade; basta-me, porm, ser amada como sou.

--Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...

--Com que fim?

--Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...

--Que o acompanhou algumas leguas?  esse de certo.

--Est bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, no tem duvida... 
um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...

-- um militar que comeou por onde comeam os generaes mais nobres.
Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; no
o pdem ser sem justificarem a nobreza de quatro avs. E de mais, sr.
conde, so cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento
que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex. encontre
n'outra esposa a fortuna que eu de certo no posso dar-lhe.

Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e sau
magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradies
ainda se vislumbram nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a
vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos
antigos tempos.

Vae agora o mundo to deslavado e peco, a dignidade senhoril est
pautada por esquadria to arrazada, que, em caso identico, a menina
mandada a uma sala entender-se com um conde cerca da impossibilidade de
ser d'elle, ou no ia l, ou era necessario ir l busca'-la desmaiada
n'um insulto flatulento.


V

N'essa mesma hora, o conde de Mono, digno de si e de seus avoengos,
mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente
de jornada e sau da camara  sala para despedir-se de Gonalo Malafaya,
e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os
aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar:
tamanha era sua vergonha que j o consolava a sada do conde, vexado por
elle. Tanto, porm, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto,
augmentava o da averso  me e  filha.

Chamado segunda vez, foi Gonalo receber as despedidas do hospede de
vinte e quatro horas incompletas. J encontrou na sala a prima, com
prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os
agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais  piedade que  irriso.

 piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os
amores desditosos s acareiam d para as victimas resignadas. Umas
ha que de antemo se desopprimem em traas de vingana, e essas mais so
para incutir malquerena que pena.

O adeus de Gonalo Malafaya foi um aperto de mo convulso. O conde, para
mostrar-lhe intelligencia de muda expresso, disse com sombra de riso:

--No tem duvida, sr. Malafaya... O mundo d suas voltas; veremos onde
isto pra!...

Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direco do seu solar no
Alto-Minho, quando o corao lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso
impeto de sustar as redeas, e revirar a cabea do cavallo para o Porto.
Os dois mochilas deram praa ao galope desapoderado do ginete, e
seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.

Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu
primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na
pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de ento, fez grande ruido, e
chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a
fer-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem
esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a lev-lo ao
apuro da desesperao!

Ao outro dia, contavam umas s outras as familias nobres que os
Malafayas tinham vexado o conde de Mono, despedindo-o na ante-vespera
do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a
geral opinio de que o conde fra indignamente ultrajado, e Gonalo
um baixo offensor para to alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria
saber se Maria Henriqueta rejeitra o marido. Era pormenor, que
humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante
causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo
de Gonalo e de D. Maria das Dres.

Resolveu o fidalgo sar do Porto com sua familia a residir
temporariamente em uma quinta do Douro, e de l enviar a filha ao
convento de Arouca.

Empeceu Maria das Dres o plano, contradizendo-o com a preciso de
mostrar aos seus detractores que alli estavam a p quedo recebendo os
tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que
elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou
d'este theor:

--Se te julgas bem condemnado pela opinio dos nossos _amigos e
parentes_, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta no damos o campo
 inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para
onde quizeres. Em quanto  ida de tua filha para Arouca, esse  o desejo
d'ella; mas  preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta ser
mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso
occasio, com encerr-la por castigo n'um convento. Castig-la, porqu?
perguntar o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a
mo do conde, o mundo far os seus commentarios de modo que o tal
desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonalo, e no
precipites uma resoluo, em que temos muito a perder; e a ganhar
no sei o qu. Um convento  uma casa com umas portas muito grossas; mas
as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que no fizeram
votos de l estar, querem sair.

A fora moral de Gonalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si
mesmo, deixava-se j ir no pendor da fatalidade. No contrariou a
mulher: no quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu at que ao seu
quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.

O conde de Mono no voltra ao Porto para deshonrar Gonalo nem
assoalhar o seu desdouro.

Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de
cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta
averiguao, disseram-lhe que, no troo de cavallaria 6, destacado no
Porto, entrra um tenente transferido de Lisboa, moo nobre de
Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas
desnecessarias.

Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em
attitude de entrar no pateo.

--O sr. conde!--disse Filippe com amigo sorriso.

-- verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho
contar-lhe o resto da historia, se  que a no sabe.

Peo ao leitor que marque  margem do livro, com uma cruz, este dizer do
conde, porque no acha outro, que valha a nota.

--O resto da historia?!... Refere-se v. ex. quelle casamento, que fez
favor de me contar ha dias?

--Pois ento!

--Ah! agradeo extremamente a confidencia. Queira subir.

--No subo.

--Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Mono. No teimo, porque a
minha casa  uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como
ornato. Se o no molesta a minha companhia, vamos andando e conversando
at ao quartel, que tenho obrigaes a cumprir.

O conde encarou-o com arremesso e disse:

--O senhor est certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um
amante da filha de Gonalo Malafaya, _que ou eu ou elle_?

--Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte,
dita por v. ex..

--No esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!

--Eu!... O sr. conde  exquisito! Zombar eu de cousa que no merece a
zombaria!

--O senhor  o homem que D. Maria Henriqueta ama. No o negue, que, m'o
disse ella.

--Mesmo sem lh'o ella dizer, eu no o negaria. Adiante.

--Adiante o que?

--Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.

A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que no ser minha nem sua
Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de ns
ha-de morrer.

--E o que viver pde casar com ella, no  assim? Eu cuidei que v. ex.
tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em
quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se
fr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto.
V. ex. j fez favor de me dizer que teve em Frana muitos duellos, e eu
sinceramente lhe digo que no tive ainda nenhum. Todas as vantagens so
do meu contedor. Estou s ordens, depois de cumpridas as do meu
regimento. Est satisfeito?

--Os seus fros?

--Os meus fros de fidalgo, pergunta?

--Sim.

--Quer v. ex. saber se me ha de matar como fidalgo ou como peo?

--No me meo com pees.

--Isso agora  uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de
gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a
immodestia de lhe dizer que v. ex. sabe quem eu sou, nem eu creio que
denegue f  dama, que lhe disse meu nascimento e educao. Agora 
minha vez de lhe perguntar pelos seus fros, sr. conde de Monso.

--Os meus... fros? pergunta-me o senhor a mim...

--Pelos seus fros de honra, os fros da sua dignidade, os fros da
sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir
contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta.
Pergunto ao desprezivel conde de Mono, se  mais estupido que abjecto,
vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me v entre
si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas
de a fazer perjura. A tal provocador  natural que eu pergunte pelos
seus fros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder
com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mos e deshonrar-lh'o debaixo dos
ps. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade no pde contas a homens
de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe
pesa no vacuo da cabea. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no
meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar manh o
sangue por ella, em quanto v. ex., cevando na inercia os seus estupidos
orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de
uma senhora, que eu prezo como irm, e v. ex. deseja como mulher, para
desempenhar a sua casa destruida em dissipaes. Nem este supremo
desaire lhe falta! At  vista!

O conde de Mono estava pertencendo ao dominio da fara. Olhos
arregalados e queixo pendido  a maxima expresso do espanto. No conde
era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feies. A cada
palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu
derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava as arterias. Tinha
razo o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os
labios tremiam em crispaes, que pareciam ascuas de lume. O conde
ignorava que as idas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de
um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra
elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes
de servirem  ferocidade. Isto  um assassino! dizia no fro da sua
consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia no
 o termo proprio. Cobardes so aquelles que sossobram na defeza de sua
justia. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos,
que lhes fazem rosto, esses so apenas infames na aggresso; e, quando
fogem, prestam involuntaria homenagem  justia. Pode-se jurar que o
conde de Mono no meditava n'estas distinces, ao retirar-se do local
em que o deixra petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como
a certificar-se de que ninguem presencera o insulto, e foi seu caminho
murmurando por entre os dentes cerrados:

--Tu m'as pagars, ou eu no seja quem sou!


VI

Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a
fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia
as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e
confiavam nos milagres da sua constancia.

O pae de Filippe era pessoa de grandes relaes com a fidalguia
transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o
chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a
Gonalo Malafaya o acerto do casamento com um moo to bem prosperado em
sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar,
sem desaire, com os mais qualificados no reino.

A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das
Dres, que eram tambem os de Gonalo; mas preponderavam n'ella mais.
Confluiram  me de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da
mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma aafata de
D. Carlota Joaquina escreveu-lhe em nome de sua ama.  onde podia
chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que
da riqueza da noiva.

Maria das Dres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a
petio da aafata. Gonalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso
de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve
medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a
conjurao dos seus matadores.

Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor
do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os
impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.

Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello
negro, e no tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma s
no tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas
parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinra a pelle. Inclinava-se
j para o cho, como a pedir  terra que o acolhesse e escondesse do seu
mau anjo! Nas horas de solido, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes:
 Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de
uma vez no corao, para que eu morra de uma s agonia!

Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio,
arreado de sedas, de librs, de equipagens, de tudo que morde a inveja,
e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!

Ergueu-se um dia Gonalo Malafaya, ao cabo de uma noite infinita de
calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o claro sinistro da
demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de
almoo, ao qual desde muito o fidalgo no assistia. Entrou inesperado,
cruzou os braos, e exclamou com energica vehemencia:

-- manh!

--manh o qu, primo Gonalo?

--Que a m filha ha de entrar no convento de Arouca, seno hei de dar-te
um punhal para que m'o enterres no peito.

--Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex. o determina.

-- manh--bradou elle.--Eu morrerei depois de manh. Quando eu
estiver sobre terra, se do convento, cospe na minha cara, e levanta-te
com a herana da casa de teus avs e com a minha maldio.

Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com
as mos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da
filha. Deu alguns passos at defrontar com ella, e disse:

--Essas so as menos amargas que tu choras. Outras viro... tenho aqui
na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem
que me aponta ao peito o ferro, com o brao guiado pela mo de minha
mulher.

--Penso que enlouqueceste, primo!--disse Maria das Dres.

--Emmudece, serpente!--exclamou em furia o transfigurado
velho.--Enroscaste-te  minha mocidade, mataste aquella creatura divina,
mataste a minha alegria, empeonhaste o corao de tua filha, e ests
agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de
remorsos!...

A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os
receios da loucura no eram de todo panicos. N'aquellas accusaes era
manifesta a injustia.

Bem viram que Maria das Dres foi de todo alheia s desventuras de
Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto
desde a sua infancia. O leitor pde negar sua sympathia ao caracter de
Maria das Dres; mas, se a punir com o seu odio,  injusto. Pender, em
bem da filha, contra a imposio do casamento,  virtude para muitos
louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por
experiencia de sua desgraa, abenoada defesa da pobre menina, e
abenoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar
guiados por suas estrellas funestas.

--Vae para o convento, Maria--disse a fidalga  filha.--Fia de mim que
pouco tempo l estars. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e
paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora
 preciso que vs. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e
remorsos que ho de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses
com o homem que amas. Com tempo, sers esposa d'elle; mas faz muito pelo
seres com a consciencia tranquilla.

Maria Henriqueta rompeu em choro nos braos de sua me, e foi d'alli
escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da me. O
to apaixonado como generoso moo incitou-lhe a coragem do sacrificio,
pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe
merecerem mais tarde a sua beno.

Ao outro da, Maria entrou n'uma liteira com sua me, seguidas do
simples prestito do capello, a ama, creadas e lacaios.

Maria das Dres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu
quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de ento, e s
esses do seu passado, lhe vieram  memoria e amolleceram o corao at
s lagrimas.

A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos
profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam  agonia de uma
religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria
Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta,
enviada a Filippe.

Demorou-se a me alguns dias no mosteiro, e apressou a sada, quando
receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao
retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente
com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente
no viesse em redempo d'ella.

Ausente a me, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas
cartas escriptas a Filippe. Em algumas, pedia-lhe ella que a
salvasse, pelo muito que ella o amra, e pelas muitas dres com que
quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com
ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto
da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanas que a me lhe
dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar,
e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe dra aviso a
me, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado
no correio, haviam de chegar-lhe sempre  mo.

Enganra-se Maria das Dres com as promessas do empregado na transmisso
das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou
um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razo porque a desamparra.

O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento
para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para comear a lucta
com a Frana, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.

Pediu licena o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si
os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as
solicitaes. Filippe Osorio,  ultima hora, quando os clarins j
tocavam a reunir  porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e
ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede:
Vae, e volta alguma vez  minha sepultura!

O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar lhe offerecia,
passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente
das esperanas da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos
n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.

Desertou.

A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o
corao e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, no lhe
deixava ver a negrido da deshonra militar.

Na primeira terra em que pde escrever liberalisou estipendio a um
portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae.
Noticiava-lhe a desero e o intento de roubar Maria ao convento e 
morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo
que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em
Hespanha s penas militares, e  perseguio de Gonalo Malafaya.

Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou
falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga,
que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano
da fuga, no facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro,
que seria morte certa, se o p lhe resvalasse de um galho de arvore, em
que fiava o apoio para segundo salto  estrada. Impugnou-lhe o plano o
susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos
perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na
seguinte noite.

A lua banhava de livido alvor as paredes do templo. O derradeiro
nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em
guarda das esposas do Senhor. As paixes e as virtudes dormiam ou
pareciam dormir l dentro do mesmo somno. C fra ramalhavam os
arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.

Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar
privilegiado das reclusas, que inspiravam  prelada inteira confiana. O
salto  cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado
de ermida contigua  parede. D'este ao jardim, s mulher que no amasse
acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou
sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando,
entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mo, que
encostou  parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu
que se enganra na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida.
Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando at ao ponto da
arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; s
estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos,
e verga'-los at tomar p no galho chapotado. Estava ella assim aterrada
e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as
arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelra de medo,
se a voz o no denunciasse ao mesmo tempo.

--Eu esperava isto...--disse Filippe.

--J tenho animo!--exclamou ella.

--Espera!

Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos,
marinhou pelo tronco da arvore at fincar o p no rebento que dava
sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o brao esquerdo o
tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente
 cabea d'elle. Maria correu as mos mimosas por sobre as asperezas da
ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude.
Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o p fra do
muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a no repuxasse a si,
apertando-a ao peito com o brao direito.

Maria Henriqueta ria n'esta situao, e dizia:

--E se camos abraados?!

--Firma-te!--disse serenamente Filippe.--Apega-te ao tronco da arvore,
que eu vou descer. Passa os teus ps devagar para o logar dos meus...
Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.

Disse, e saltou ao caminho; mas no se susteve em p porque era grande o
salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas
Filippe j estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.

Encostou-se  arvore, e disse:

--Desce, at encontrares os meus hombros com os ps. Depois, sem largar
o tronco, deixa-te descer conforme eu me fr abaixando, e salta quando
eu te disser.

A execuo da facil manobra foi feliz. Elles ahi vo, embrulhados
no mesmo manto. Maria est vestida de branco, e Filippe receia que o ar
picante da noite a moleste. Corao em labaredas levam elles; mas o fogo
intimo no basta a retemperar a temperatura da atmosphera. Os catarrhos
so penso de amadores nocturnos.

Esto os cavallos arreados na aldeia proxima,  mo do velho e leal
creado de Filippe. Maria v o velho, e chora pela sua ama, a quem no
deu o ultimo abrao para a no ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas
no sabe. O creado velho sabe a razo das lagrimas, e diz:

--Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se
tudo; a morte  que no tem remedio.

Maria consolou-se.

Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou
para a torre do mosteiro, e disse:

--Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas
aquelle sino marcou na minha vida,  Filippe!

--Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.

--Quantos marcar,  Filippe?!!...

Soaram tres badaladas.

--S?!--exclamou ella com supersticioso terror.

--No sejas creana, Maria! disse Filippe.--Aquillo quer dizer que so
tres horas.

Caminharam.

O frio da manh golpeava o rosto de Maria, e as redeas caam-lhe dos
dedos entrezilhados.

Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e
aqueceu-lhe as mos no acolchoado da farda. E assim caminharam, at que
o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.


VII

Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmos de
Filippe, desconfiados da demora do irmo, saam a procura'-lo no caminho
de Arouca. s dez horas da manh d'esse dia, celebrou-se o casamento na
capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que
no lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a
validade do sacramento. Foram testemunhas os irmos do esposado, e
padrinhos os paes.

Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado
fra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde
d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria,
com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertra; e que
n'essa mesma tarde tinham sado para outros sitios.

Comprehendeu Filippe o perigo da sua situao, e quiz fugir, antes que a
Bragana, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura.
A parentella votou unanime pela resistencia, confiada no poderio
que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por
amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga
sanguinaria do povo com a tropa.

Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e
internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se
queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes
amores de seus amos, j agora unidos sagradamente para sempre.

Deixemo'-los em Hespanha procurar o remanoso eden de seus anhelos. Iro
a Sevilha? a Granada? a Cordova? Iro a toda a parte, ho de encontrar
as delicias reflectidas do co que levam na alma.

Deixa'-los, que  delicadeza no irmos de ps elles. A suprema
felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de
olhos alheios.

Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonalo Malafaya.

Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da
m nova. O fidalgo, que j sabia da desero do tenente, e incitra a
sada do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou
menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dres, e exclamou:

--Maria Henriqueta fugiu do convento!

--Ests a sonhar, ou sou eu que sonho?!--disse a esposa.

--Alli est o portador de Arouca! Fugiu sua filha, senhora! Ahi tem
a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a,
como ultimo golpe, que me ha de matar!

Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeando nos corredores, no
aclarados ainda pela luz da manh. Pouco depois, voltou  camara da
esposa, e bradou:

--A senhora est na cama?! Levante-se que  preciso protestar contra a
ignominia que pesa sobre ns! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos
insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus
brazes de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de
negro! Maldita seja a me que perdeu sua filha!

D. Maria agitou com fora a campainha, e disse ao marido:

--Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.

Entraram as creadas de baldo, quantas havia na casa, e a senhora disse
a uma d'ellas:

--Vae dizer ao capello que procure os primos Mellos e os primos
Peixotos, e lhes diga que venham c ter mo no sr. Gonalo que foi
atacado de um accesso de demencia.

Foi a creada dar o recado. O capello ouviu-o, e benzeu-se com a mo
direita; sau do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a
infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mos.

Acudiram os primos e Gonalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que
vinham ao cvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas.
Ouviram a prima Maria, e convieram em que a fuga de Maria
Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, to
fidalgo como ella, no merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do
primo Gonalo, por tal motivo, captivaria a compaixo publica.

Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos
saram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando,
porm, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonalo
Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o
conde fosse um tolo e um perdulario.

Ao meio dia estava Gonalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de
lucto tambem.

D. Maria das Dres vestia de azul claro e ordenava s suas creadas que
se escusassem de completar a irriso da casa.

Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados
do crime pedir justia. Acolheram-n'o com respeitosa compaixo, e
prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a
policia os descobrisse. Gonalo a todos disse que dava os seus haveres
pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os
ultimos ceitis aos esbirros.

As cartas precatorias saram desde logo para differentes pontos do
reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justias militares
tiravam summario despacho para a captura do desertor.

Maria das Dres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua
confiana a Mirandella, avisando o pae de Filippe Osorio, e
escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de
recriminao. O mal est feito,--dizia-lhe ella--mas em parte
considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em
quanto a tempestade ameaa fulminar-vos com a vergonha de uma priso.
No entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em
Hespanha, porque as ordens ho de l chegar, em mos de quem primeiro as
encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.

A carta foi dar s mos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de
homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmo de D. Pedro de
Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.

Estavam ento em Sevilha, e to descuidados, to ebrios de seu amor, que
nem a carta os alvoroou. N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho
 vista) figurando ella de lindissimo moo, deu-lhe que fazer o amor das
hespanholas, que morriam por elle; e _D. Luiz de Castro_ sustentava os
namoros, para rir com o marido, mas sem saber que sada a final lhes
daria.

Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da
capital da provincia, recommendando os dois _Castros_, cavalheiros
portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no
dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se
apaixonra do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e cau a
proposito perguntar o alcaide aos seus hospedes se conheciam um
Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que
havia roubado de um mosteiro a filha de um _fidalgo_ de linhagem,
solarengo no Porto.

Disse _D. Pedro de Castro_ que sobejamente conhecia o desertor. Contou
miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e
to a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de
ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de
prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu
districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes,
que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria
Henriqueta ao alcaide e s filhas, que ouviram d'ella a historia,
repetida com mais graa e affectuosa tristeza, dos seus amores com
Filippe Osorio.

Desde essa hora, o magistrado hespanhol no velaria com mais zelo a
segurana de seus filhos. Onde quer que iam, l os antecipava a
influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os
dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os
abrasavam com os olhos e com o chocolate.

Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excurses s
provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.

Na casa do alcaide deu  luz Maria Henriqueta uma menina, findo o
primeiro anno de casada. E ento acabaram as excurses, e retiraram-se a
uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem
das fices, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. L
lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol,
proprietario da quinta. Alli vieram os irmos de Mirandella visitar o
irmo, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua
desero. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das
Dres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando
o corao do pae, tendo j dito que antes queria ver a filha e
perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que
este dizer no a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha
intercadencias de prostrao, quando perdoava, e de clera quando pedia
vingana aos cos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava,
recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse s de sua
me, quando a chamasse.

Decorreram seis mezes. Sempre o co claro sem nevoa; sempre a ventura
candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do co
a completar o grupo da suprema bemaventurana na terra. Para cumulo de
felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dres, dizendo 
filha:

Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. S por
amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos.
Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi to bom! Perguntou-me
estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em
suma, que eu fra sempre me. Fitou-me de um certo modo, que me
incutiu receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou  sua
segunda natureza compadecida. O peor, filha, ser o crime de teu marido,
que o fora a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que
so severas para desertores. Se vs que teu marido tem grandes trabalhos
a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos
mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.

Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava
dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcanra
promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher  patria,
com a certeza da absolvio.

Que luz to formosa as estrellas funestas irradiam s vezes! Como a
desgraa negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir
d'aqui atravs cincoenta annos, e por entre o p de uma gerao dispersa
no ar, quella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois
esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria,
dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da
patria, s inferiores s alegrias de dois coraes triumphantes sem
infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a
penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois to
dignos, to abenoados, to bemquistos da leitora que amou ou ama, do
pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou j
sentenciou paixes, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria
inventar, antes mentir, antes lanar de mim com asco estes
apontamentos!

Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas
vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde
os meus personagens vo car; e j perto, j com elles  borda do
despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes
a gloria, em vez do inferno que lhes fra talhado! Como eu fico ento
contente de mim, e o leitor contente d'elles! S n'estes conflictos 
que eu avalio os thesouros da imaginao, e o segundo _fiat_ de mundos
moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.

N'esta historia queria, e no posso. Estou coacto e maniatado s
gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me
obrigou o juramento de no falsear a verdade.

E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma
lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao co
dos martyres, no ser esse favor da piedade um bem to consolativo para
elles? A quem ho de elles agradecer o pensamento e a lagrima se no a
mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes
colloquei uma urna para os que l quizessem chorar, e a mais triste
pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas
desventuras alheias?


FIM DA SEGUNDA PARTE




TERCEIRA PARTE


I

Vieram os esposos acompanhados at  fronteira pelo alcaide e suas
filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanas de se
encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol
disse a Filippe Osorio e  consorte: Se alguma vez fordes desgraados
na patria, lembrae-vos do co de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de
vossas irms. Em nossa casa sois familia nossa; e j sabeis que em toda
a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa
amizade um modelo do que deviam ser os irmos da peninsula, os que se
apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes
felizes, nem por isso nos esqueaes.

Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua me
perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdo do pae. A
resposta carecia de inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da
filha. Teu pae, ponderava D. Maria--diz e desdiz; ora condemna, ora
perda; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal
que te faa, sero s palavras: e palavras o vento as leva, e outras te
dir depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu
vou dar o ultimo assalto, e segurar o lano.

Escripta esta carta, D. Maria das Dres convidou o marido a passar duas
horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonalo accedeu ao geito
blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza,
a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes,
crearam n'elle a preciso dos carinhos.

Foi Gonalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua
filha.

--Quem te escreveu, prima?--disse elle.

--Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.

--Tem fome por l? O amante abandonou-a?

--No digas amante, primo. Marido  o nome que tem.

--Marido, sem o meu consentimento! As leis no me dispensam de ser ouvido.

--Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonalo. Esto casados, e eternamente
casados.

--Pois que sejam felizes.

--A nossa filha s pde ser feliz com o teu perdo.

--Tu ahi tornas!...

--E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom corao.
Perdoa-lhe, primo!

--Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar
allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se est abandonada,
diz-lhe que torne para o convento, e l ter abundancia.

--Nem fome, nem abandono, Gonalo! Parece que ds mui baixo preo a tua
filha! Aquella menina to linda e prendada, haveria homem que a
abandonasse?

--Linda era a outra que...

--A outra qual?

--Nada...--disse Gonalo, sacudindo a viso de Beatriz de Noronha.

--Ignoras tu--proseguiu D. Maria--que o pae de Filippe  rico, e
extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com
todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas
joias, nem os seus vestidos. O que ella pede  a estima de seu pae, e
quer pedir-te perdo pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. No
se te alegra o corao com a esperana de teres nos braos uma
creancinha, filha de nossa filha?

--Que fatalidade!... Mais uma mulher!...--exclamou elle com entonao
pouco abonatoria do seu bom siso.--Ento isto  uma cadeia de desgraas?
Melhor lhe fra  me desobediente esmagar a filha no bero, para no
crear ao seio a vibora que me ha de vingar!

--Cala-te, meu primo, meu querido Gonalo! Que sombrios vaticinios os
teus! Quando te alumiar a Providencia Divina essa escuridade em que vives?

--Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto em mim  o horror
das trevas eternas, sem mais luz nem esperana!

--Ora, vem c, filho!--tornou com extrema maviosidade a esposa,
tomando-lhe as mos, e aconchegando-as do peito--No desprezes a luz que
o co te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Vers que vida nova
se nos faz na velhice. Has de sentir o que  consolar-se a alma
perdoando. Sabes tu quantas penas ter curtido nossa filha, desterrada,
por terras extranhas, mudando de nome para no sacrificar o marido...

--O marido! atalhou em voz soturna Gonalo--O marido! Se ella podesse
convencer-me de que no casou... perdoava-lhe!

--No digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas
perdo  esposa, e da'-lo-ias  concubina?! Cala-te, que desvarias; a
tua razo e corao devem contradizer esse desatino, que  uma doena do
teu espirito. Eu sou mulher, e me, e no perdoaria  filha, que, contra
nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em
ti, meu primo, e convence-me de que ests bem com a tua consciencia,
perdoando o mal, que te fez a desgraada, que s por amor invencivel
poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de
Mirandella; olha estas expresses: _s vezes penso que meu pae ha de
amar muito esta creancinha, que tem j no rosto signaes de vir a ser
muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim,
seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia_: Vs
tu?  a tua Maria Henriqueta que fala assim ao teu corao. Tu j
lhe perdoaste, no  verdade?--continuou a esposa com transporte,
beijando-lhe as mos e o rosto--Posso dizer-lhe que venha afouta beijar
estas mos, que eu beijo to reconhecida como ella?

Gonalo cau sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantra na
teno de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos
instantes, murmurou:

--Que venha; mas que eu a no veja.

Saiu Maria das Dres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do
marido equivaliam ao perdo. No querer ve'-la seria a transio para
ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e
participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraado
Gonalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao
quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e
nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse.
Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha
em odio  conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por
ter querido,  fina fora, casar a filha com o conde de Mono.

--Eu no disse ainda que perdoava!--redarguia o fidalgo irado--A prima
Maria das Dres est brincando com a minha decrepitude. No me arrependo
do que fiz; hei-de ter brios at ao fim da vida, e muito desprezo para
quem duvidar se eu os tenho.

Isto era pungentemente allusivo.

Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que acautelasse a
filha dos primeiros impetos do pae, cuja alma estava ainda muito cra, e
a soberba muito inflamada.

Debaixo da m impresso dos parabens, que elle imaginou ironicos e
offensivos, sau Gonalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das
justias, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com
direco ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados
responderam-lhe que os crimes militares no entendiam com elles,
executores da justia civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram
que, estando ella legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a
intempestiva querella de pae.

--Mas eu hei de provar a nullidade do casamento--redarguia Gonalo.

-- possivel--replicavam os magistrados--mas a priso no pde
antecipar-se  prova que v. ex. quer dar.

Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor
paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor
tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que
j sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado;
mas--accrescentou--admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da
esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.
denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha,
que hoje  mulher d'elle e j me de uma menina!...  espantosa
aberrao!

--Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha filha!--redarguiu
Gonalo Malafaya.

--Prove v. ex. tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganas
desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu
era major, ha sete annos. Tive-o sempre no preo mais avantajado da
intelligencia e decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha
unica filha; e, sendo Gonalo Malafaya, dera-lhe a filha, o corao, e o
sangue todo de meus avs por um abrao.

Gonalo abafava de raiva, e sau convulsivo de ameaas de furia. Entrou
em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dres,
contra a filha, contra a justia, e contra Deus. A mulher, fallecida de
paciencia, perguntou ao capello se seria prudente segurar o marido no
seu quarto, antes que elle passasse a espancar a gente da casa.

Benzeu-se tres vezes o padre e disse:

--Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas eu
no me metto n'isso, porque diz l o ditado, com doudos nem para o co,
senhora fidalga!

Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta,
a filhinha nos braos da ama, e os dois velhos creados.

Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua me, noticiando-lhe a
chegada. Em que m hora!--dizia a me na resposta.--Est mais furioso
que nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido
os poucos amigos, que se condoem d'elle. Esteve tudo muito bem
disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da priso
pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vae
intentar uma aco de nullidade de casamento. A tua vinda para aqui 
imprudentissima.

Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor
seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se no decide o
julgamento de teu marido. A outra demanda pde levar tempo a decidir;
mas o resultado ha de ser o que ns desejamos, se com effeito o teu
casamento est legal, como cuido. Pensa n'isto, e d-me resposta para
meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmars
d'esse modo a colera de teu pae, e ters meio caminho andado para a
reconciliao.

Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e
empenhou as mais seductoras fices de seu espirito em persuadi'-la a
recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.

--Apartar-me de ti!--exclamava ella.

--Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos,
sacrificio necessario para ganharmos a quietao, que vir mais cedo do
que podemos espera'-la com a nossa desconfiana de infelizes. Escreve a
tua me, que eu vou apresentar-me ao governo militar.

Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle
succumbisse, quem daria alentos  pobre esposa e me? Se o corao
fosse sincero n'aquella hora, quantas torturas inuteis para ambos!

E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os
seis d'alma, dizia entre si:

--A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus
conselhos!  meu Deus! serei eu j aborrecida! Estar elle arrependido
de se ter lanado na carreira da desgraa por minha causa, deixando a
outra que tantas venturas lhe promettia! Mas, se me no ama, poder
despedir-se d'este anjinho com os olhos seccos?!

E abraava com arrebatada ternura a menina.

Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e
animadora linguagem da auctoridade:

-- foroso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que ser
absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de
tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licena para viver comsigo no
castello.

--No pde ser.

--Porque no pde ser?

--Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que
minha mulher seja judicialmente depositada, at  deciso. Por conselho
de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S.
Lazaro. manh vou entregar-me  priso.

Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam
unidos, passados tres mezes.

D. Maria das Dres saltou de sua carruagem  porta da hospedaria,
abraou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou
da sua instantanea alegria  contristada familia, e disse que o marido
era contente com a resoluo da filha, e fra elle pessoalmente falar ao
provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do
recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dres que as pazes se
fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparao
dos futuros contentamentos.

Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em
secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar,
para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma
offensa, ainda que o no seja; simula desamor, ainda mesmo que as
lagrimas saiam do corao como gottas de ferro candente, e se derramem
nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer,
ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a
matar o corao que a ama. Isso  que lhe d fora para luctar e
soffrer. A suprema desgraa  o desalento da duvida, quando a infeliz j
por si no tem, contra o mundo e contra a desgraa, seno a certeza de
ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga fora, quando
surprehendeu Filippe a chorar.

Na seguinte manh, o preso ajoelhou aos ps de sua mulher, e disse-lhe:

--No te peo amor, minha esposa; peo-te coragem, mulher. Aqui te deixo
minha filha: fala-lhe de mim, e ella ser o anjo mensageiro das minhas
atribulaes. Quanta mais fora tiveres, mais digna sers do teu
esposo. Mulher que tanto soffreu, e a tanto se arrostou, no pde
fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, eu no me engano com a
tua alma, no? Has de viver e luctar com os desgostos por amor do teu
Filippe, que ainda se no julga desgraado?

No lhe respondeu Maria. Lanou-se-lhe soluante aos braos, e arquejou
em convulses sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao
qual parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.

Tomou Filippe a filhinha dos braos da ama. Contemplou-a, e deteve-se
at que a me lh'a tirou dos braos.  que da face d'elle se esvara
lentamente a cr; o brilho dos olhos apagra-se subito; um tremor lhe
correra os braos; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das
mos.

--Filippe! exclamou Maria--essa  a tua fora, Filippe! Por Deus,
reanima-te, que me tiras a coragem!

Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:

--Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae
tem estas vises passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito
semelhantes, minha esposa!


II

Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a
grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros
havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para
amigas, e preladas menos austeras com as dores do corao, e mais
contrictas, por isso mesmo, das suas!

Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um
congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e
foradas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela
violencia paternal. No se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As
pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos
phrenesis da sua irremediavel recluso. As de boa indole que para alli
entravam, espicaadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se
iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a
convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de
condio bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento,
que maldisse a sua cedencia  vontade da me, e aos conselhos do
esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro
deposito, e a regente respondeu que ella no era senhora sua, em quanto
se no provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia
romove'-la, por que fra elle quem apresentra ao senhor provedor o
mandado do deposito.

Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta
ganhasse profunda averso  regente.

Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as
horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolao  essa, quando as
cartas so como cauterio  chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe
Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo
unicamente sincero nos da esperana. Baldado intento! A saudade e a
desesperao recrudesciam. Tomava a filhinha nos braos, como taboa de
naufragado, e nem assim, nem  luz dos olhos d'ella via ao longe a
redempo.

Uma s menina das orphs pobres ella chamra  sua intimidade: era Rita
de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e me, que a
lanaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem  vida n'uma
epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram
affrontados ao dever!

O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de
sua me, calou a consciencia entregando-a  caridade da Santa Casa, e
para isso declarou que a menina no tinha pae nem me. Antes elle
falasse a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.

Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolao de muitas agonias,
se o chorar com quem chora  consolar. Que provas a orph deu, passados
mezes, do seu reconhecimento e cega amisade  fidalga e infeliz!

Depois de um mez de recluso, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta,
adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas.
Durante o curto prazo da doena e da agonia, era geral no recolhimento o
receio de que a me enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braos
d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respirao,
que  uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos
braos de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A me
correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem
paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se
enfurecida dos braos, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia
leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e
outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido
morreria, sabendo a morte da filha, j Maria Henriqueta, aterrada de dr
maior, pediu foras a Deus para mitigar com rogos de conformidade a
consternao do esposo.

Lembrou-se ento do desmaio do marido ao abraar a menina, e das
palavras com que explicou o seu desalento: Parecia-me que era a ultima
vez que via a nossa filha.

Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no
recolhimento[1], dizem singelamente:

A sua consolao unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha.
Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas
choravam com ella, e eu tambem, com quanto ento tivesse nove
annos.--Falta-me um pedao de minha alma!--gritava a pobre me. Que
formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso.
Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos
de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhra ao p da
filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, j amortalhada, e
dissera:--Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!

Ao outro dia, tinha ella de responder  carta do marido, que parecia
esquecer-se de sua situao, para falar da menina. D-me cuidado--dizia
elle--a doena de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de
a perder. No merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer
levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um
ao outro.

E havia de responder a esta carta a pobre me, quando a filha j estava
sepultada! Qual outro corao se abriria a recolher-lhe as
lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar
sua paixo, em quanto escrevia a resposta? Que dres a vida tem!

E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflico, obedeceu
ao impulso do desespero, amaldioando o pae, o destino, e Deus. As
blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo
trasladado. Deus lhe levra a filha, no momento em que o carcere, a
separao do marido, e a solido, alguma vez teriam desafogo, nos afagos
da creana. A misericordia do co lhe descontaria na balana das
impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do corao, e
jmais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: Se
ella hoje fosse do co, pediria ao Senhor a tua liberdade.

Porm, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas
horas a infausta nova.

Estavam no Porto os irmos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.

Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra ida
cedeu ao primeiro accesso de febre.

Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella
directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava
perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel exploso no animo varonil de
Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no
quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa
noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma
vez citarei: Nas crises de maior exasperao Maria Henriqueta parecia
possessa. Com todas se travava de razes, e trazia na mo uma chibata de
junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaador, principalmente entrando
na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor 
sua pelle, que j tinha ento oitenta e um annos, e era estimavel pelle
por ser de dura. No final d'este faceto periodo se denota a m vontade
que a minha illustre informadora ainda conserva  sua regente de ha
cincoenta annos!

Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria
Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em
punho, ordenando que se lhe facultasse a sada, para visitar seu marido,
que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou
animo, quando viu a sub-regente, a sachrist, e outras funccionarias da
casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas
que Maria Henriqueta espaasse at ao dia seguinte a sada, para se
legalisar o facto com a licena do provedor da Santa Casa.

A fidalga no insistia muito tempo n'uma mesma ida. Andava a baldes de
sua afflico, ora abraada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora
repellindo-as ambas desabridamente.

Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou,
delirou em corridas de uma a outra extrema da casa. Na seguinte
madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este  frente da mesa
da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta,
com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com
palavras esperanosas de breve sada. Veiu a enclausurada, cuidando que
ia receber a licena; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe
tanto a dr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa
estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original
n'aquella casa de humillimas victimas.

Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que
lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os
na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de
Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:

--Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.

A orph temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se
confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:

--Por onde fugiremos ns, minha senhora?!

--Cala-te, que eu sei por onde se pde fugir. Queres ir?

--Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir
d'estas paredes, que nem janellas teem.

Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta por
extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razo estava
normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava
n'esta doce persuaso; e os irmos, que o rodeavam, queriam salva'-lo
com ella.

Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a
intermittencia do desespero vinha j menos descomposta. O plano da fuga
prevaleceu s melhoradas novas.

De tarde, saiu ssinha Maria e foi orar para o cro; depois disse que
queria descer  egreja para resar de perto aos altares, e teve a
licena, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto
bons auspicios. Foi  egreja, e quiz estar a ss com Deus. Relanceou os
olhos a todos os lados, esperou que sassem do cro algumas orphs que a
observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a _ministra_, por
onde as recolhidas recebiam a communho, espao com dois palmos de largo
sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, sau da egreja, e
recolheu-se  sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha
alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua teno. Chorava a pobre
mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria
respondia sempre vencedora.

Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo corao sobre o
corpo de Maria Henriqueta.


III

 parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o
successo mais fielmente lhe dar as cres:

A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave
ficava na porta, ficando a cargo da escriv abri'-la de madrugada.

A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa
impraticavel o poder alguem, que no fosse puro espirito, evadir-se pela
_ministra_.

Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do cro,
se ajuntava no refeitorio.

A primeira que sau foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou
torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e
do ultimo e j desesperado repuxo, que fez, foi bater com a face nos
degraus do altar-mr, e feriu-se grandemente na testa.

A orph, como era muito delgadinha, sau com menos custo.

Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da
egreja, e saram.

s dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachrist temperar a
lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio,
e as portinholas da _ministra_ tambem abertas.

Antes de mais averiguaes, comeou a gritar a sachrit. Desceram
algumas pensionistas  egreja e viram a porta da egreja cerrada.

Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto
d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.

Deu-se ento no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo.
A regente, com as mais senhoras da governana, ajuntaram-se em
consistorio, para deliberarem.

As meninas j de razo e juizo andavam afflictas: eu, porm, e as
outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos s
ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral
terror.

s onze horas da noite foi chamado meu pae,[2] e
reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta
a porta do commungatorio.

As providencias foram dadas com to desgraado acerto que, ao outro
dia, seriam onze horas...

Suspendemos a copia, que nos no d n'este ponto os promenores da fuga,
vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as
menores.

Caminharam as fugitivas na direco das Fontainhas. Maria Henriqueta no
sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era
egualmente ignorante. Foram  ventura at encontrarem uma rampa de
pedregulho que descia da rua do Sol.

No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se
consultarem fugiram. Os dois vultos eram os nocturnos que faziam a
policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de
jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuarem sua malvadez.

Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como
quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de
barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria
Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino
disse que ia para a Foz, onde tinha seus patres. Rita, para no
inventar outra profisso e destino, disse que era tambem creada de
servir, e que ia para a Foz.

Interrogadas cerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam
disparates, que infundiram suspeitas, se no de jacobinas, ao menos de
pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de
casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabea dos
dois nocturnos.

--Vocemecs--disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos
das presas--ho de vir ao almotac, e l diro quem so, e o destino que
levam.

Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a
prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a
calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotac.

Foram, e entraram  presena do funccionario, que fez um tregeito de
espantadio quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e
inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanaes da alma
d'elle, e recebiam todas as mesmas impresses no mesmo orgo sensorio.

Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle
passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu
marido. O almotac curvou a cabea inflexivel  illustre dama;
disse-lhe, porm, que a obrigao d'elle era rete'-las at dar aviso; e,
em obsequio ao sr. Gonalo Malafaya, as teria em sua casa at ser dia.

Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua me; e escreveu
uma carta de que foi portador o proprio funccionario.

Estava j recolhida D. Maria das Dres; perguntou o almotac se lhe era
permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.

Malafaya no tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para l
se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento,
dando-lhe a carta, que ia endereada a D. Maria das Dres. Gonalo leu-a
com agitado aspecto, e disse colerico:

--Conserve essa desgraada em sua casa at manh. Eu me encarrego
de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.

Voltou o almotac a dar conta da sua commisso, e produziu em Maria
Henriqueta um insulto de nervos.

--Foi entregar a carta ao algoz!--exclamava ella:--Agora  que eu vou
ser mais desgraada! Deixe-me sar, que eu no espero as ordens de meu pae!

--No tem remedio seno espera'-las--Disse friamente o aguazil-mr.

--No tenho remedio?!--bradou Maria--Tenho o remedio que d a
desesperao! Conduza-me j  rua, quando no, grito que me querem matar!

O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou
os recursos da persuaso para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a
que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus
ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as 
sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e
compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma
dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manh uma carta 
fidalga me. Confortada com esta esperana, Maria Henriqueta socegou, e
conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida
como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos ps da desgraa.

De manh, saiu uma creada do almotac a entregar a carta,
recommendando-se como enviada da sr. D. Maria Henriqueta, e bem
ensaiada por esta. Quizera o guarda-porto impedir-lhe o accesso,
antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima,
chamando a fidalga a altas vozes.

Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonalo
Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mos. D. Maria saltou
assanhada do leito, e levou o marido a empurres para fra do quarto.

Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e sau com o seu
capello a encontrar-se com a filha.

A primeira victima de sua ira foi o almotac a quem ella chamou os
nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel
funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a
clera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O
principal artigo de accusao da fidalga era ter o _vil esbirro_
(amabilidade que muito offendeu o almotac) era ter elle entregue ao pae
a carta, que ia para a me. Graas  pacifica eloquencia do capello, a
fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados,
tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguando.

Tardias combinaes! Tinham soado dez horas, quando  porta do almotac,
pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com
ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.

D. Maria das Dres, quando tal ouviu, teve um vgado, que os impetos de
raiva no deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulses,
abraou-se  filha, exclamando:

--De hoje em diante serei mais que tua me, Maria! Serei tua cumplice,
se s criminosa! Eu  que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre
mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor
d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te
ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus
tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida no acabar antes!

Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica
e vindicativa senhora.

Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:

Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por
seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.

A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora,
para reconduzir duas senhoras a uma casa de educao, cercadas de tropa,
e rodeadas de populaa!

Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar
asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orph pobre. 
primeira decretou o tronco de cima, e  segunda o chamado tronco de baixo.

O tronco de cima era uma cella, sem differena sensivel das outras, a
no ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com
duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um
postigo. O maior castigo era a privao de falar com outras meninas.

O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um
leito de ferro, que hoje  moda, e era ento ignominia. Fra construida,
alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia
fugido, e l esteve em paroxismos, at que a deixaram sair e morrer com
a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que s de passar
sobre o alapo da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio
destinado a Rita de Cassia.

Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella no solicitasse compaixo
de ninguem. Dizia ella  regente que o vexame de ser trazida entre
soldados lhe era bastante expiao. A pobre Rita, porm, que no tinha
pae nem po, seno o da caridade, foi a victima expiatoria, _para
exemplo das outras_, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim,
houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.

Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem
sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma
veia; mas o sangue era lanado pela bocca. Julgaram-na morta, e era
geral a consternao na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a
de todas; mas  orph castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a
amiga por quem morria ou estava morta.

Deu signaes de vida.

Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito
respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes
Pereira de Castilho.[3] Foram estas duas irms lavadas em lagrimas,
pedir  regente, que as deixasse tomar  sua custa o tratamento da
orph, na sua cella. A regente era de cra aos desejos das ricas
pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos,
os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se.
Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdo da menina, e
conseguiram-o.

D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor
cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe no faltar afflico
alguma, at lhe prohibiram  dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos
soffrimentos passados, ella amava com o corao de um anjo.

Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e
humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje
possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os
costumes de ento com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador
l foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, so
os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma
prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguies em
desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphs, e de
educao social e religiosa para pensionistas, convm que se
descontem n'essas arguies causas deshonestas, e portanto injustas, que
a promoveram. No sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais
dignamente mantido sobre bases de piedade, morigerao e ensinamento de
prendas, com que d'alli sem adornadas muitas donzellas, que as mostram
na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas
de anteparo  censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no
auctor os dentes da calumnia.

D. Maria das Dres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello
da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de
sua filha. Egualou-o na consolao das promessas e das esperanas.
Chamou-lhe filho com toda a effuso da sinceridade. Chorou com elle ao
falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.

N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para
impedir que Maria Henriqueta falasse com sua me. Quando esta, ao outro
dia, apeou no pateo, saiu-lhe  portaria a regente, mostrando lacrimosa
a ordem, que recebera. D. Maria das Dres recolheu-se a casa, esperou
que o marido entrasse, lanou-se a elle de insultos e improperios to
novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurana fechando-se no seu
quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da
fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos
membros do governo; e nove dias depois, depunha em mos de sua ama,
uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro
se abrissem a D. Maria das Dres, a qualquer hora do dia que ella
quizesse visitar sua filha.

Gonalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de
paralysia n'uma perna.


IV

A convalescena de Maria foi velada por sua me. Passava a fidalga os
dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e
fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era
dos estatutos o silencio obrigatorio.

D. Maria das Dres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa,
pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu,
receando morrer a tempo de as no poder confiar do marido como legado 
filha. Quando no estava no convento passava grande parte do dia com o
genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra
o restituisse  liberdade.

Fugir para qu, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o
cerebrino pleito instaurado por Gonalo Malafaya?

Assim o parece: mas do que  ao que deve ser, corre uma distancia infinita.

Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas dilatar a prova
com os estorvos, que a justia faculta aos que a emmascaram e trazem em
ludibrio por sentinas douradas,  cousa de todo o ponto facil. Contra a
legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonalo a negao do
consentimento, e a falsidade da certido, em que o ministro do
sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade,
e irmos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justia,
porm, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado 
familia de Mirandella, lavrara uma sentena iniquissima, fundada... nos
alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio  sua integridade.

Subiu o processo  relao do Porto. Andou o indecoroso auctor captando
a piedade dos desembargadores com lagrimas que o no lavavam das
manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a
legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que
inventra a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o
recurso de superiores instancias. Foram para a supplicao os feitos,
sem esperanas de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentena
final empenhra o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos
dos cabedaes:--desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.

Claro , pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado at 
final sentena, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na
supplicao e baixar de l com alguma nullidade ao tribunal onde
principira. Assim se explica a premeditao de Maria das Dres na
fuga da filha, logo que Filippe Osorio sasse do castello da Foz.

Antes de completo segundo mez de priso, foi o desertor julgado e
absolvido, com grande assombro de Gonalo Malafaya. Repetiu-se ento o
ataque de paralysia, ramificando-se ao brao direito. Era a peonha do
rancor que o ia matando, pedao a pedao.

Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor Joo Pedro,
velho que vivera, at envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu
palacete o bero da _civilisao dos costumes_, m civilisao, que  o
synonymo de _extrema liberdade_, a qual muito tarde ser adulta no
Porto. Quem hoje passa no Reimo diante do palacete que pertence ao sr.
Joaquim de Sousa Guimares, pde, se quizer, imaginar que alli, durante
os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances
praticos de alta moralidade, os quaes  muito de esperar que eu venha a
dar em livro. Uma das scenas l passadas, a mais simples de todas  a
seguinte:

Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que sau a recebe-lo
na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se
incommodado do corao, que parece ser o orgo do amor e do medo.

Feita a apresentao, com militar seccura, ajuntou o apresentante que
era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.

Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando no  de velhacaria.
No doutor era susto; e o susto no deshonra ninguem, mrmente
quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de
grandes barbas e possante estatura.

Estas declaraes eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora
para o doutor.

--Quero ver minha mulher--disse Filippe.

--Parece-me que a lei se oppe--disse o doutor--em quanto v. s. tiver
pendente das decises juridico-canonicas a validade do seu casamento.

--No venho perguntar a v. s. se a lei faculta, se nega: o que eu lhe
digo  que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, manh, sempre.

--Ento queira requerer a juiz competente.

--No venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor;  ao provedor
da Misericordia que eu reclamo auctorisao para ser recebido na grade
do recolhimento por minha mulher.

--Isso  impossivel, senhor!

--Que so impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s. parea
impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo,
affirmo-lhe que poucas cousas haver to faceis!...

Isto fra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O
doutor abriu a bocca e regougou:

--Oh!

Mas este _oh_ foi surdo como um rugido intestinal.

Filippe cruzou os braos, e disse:

--No que fica?

O provedor refez-se de animo, e respondeu:

--Com que ento v. s. vem ameaar um velho?

--O ltego da tyrannia deve ser arrancado das mos dos velhos como dos
novos. Os annos no santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de
maximas. Eu no posso demorar-me.

--E v. s.  de certo legitimamente casado  face de Deus?

--Veja esta certido.

Joo Pedro leu attentamente, e disse:

--Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o
meu nobre amigo Gonalo Malafaya?

--No sei, senhor.  um odio injusto:  um pae que diffama sua virtuosa
filha.

--Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe
darei a resposta.

--Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes
consultas. Eu quero j d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem
de v. s. basta.

Entrou o doutor Joo Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da
consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse  obra
meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.

Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratido, e entrou no
portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda,
e esperou impaciente a resposta.

Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde j estavam D. Maria das Dres e a
filha, esperando-o. A esposa enfiou por entre as rxas os braos,
que difficilmente passavam.

--Que mudada ests!--exclamou Filippe.--Que macerao de rosto, minha
pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!

Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplao da magreza
cadaverica de sua mulher!

Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!

--Falta-me a filhinha!--dizia Filippe--Onde est o nosso anjo,  Maria!
Porque nos privou o co da nossa filha, que devia n'este momento
sorrir-nos a bonana, e accusar estas lagrimas como ingratido aos
beneficios de Deus?

Retirou Maria das Dres ao anoitecer, e Filippe passeou at altas horas,
defronte, e em roda do carcere da esposa.

A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de
Angja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa
o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da
filha em contraveno das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao
ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o
portador; Maria das Dres nunca se levantou a to alto na presumpo de
sua valia! Mas Gonalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas
depois de passada a ordem, fra revogada, a requerimento do procurador
do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da
primeira. Copiemos dos apontamentos o facto, presenceado pela
educanda a que os devo:

Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta j l
o estava esperando. Por mais que extendessem os braos, era-lhes
impossivel apertarem as mos. Alli almoavam juntos, e ficavam at ao
meio dia. Elle saa, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua
cella chorar. s duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de
grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe
passava os pratos.[4]

Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras,
viveram algum tempo, at que de Lisboa chegou ordem para ella sair do
recolhimento. J elle a estava esperando com uma sege na portaria; j
ella tinha pedido s mestras para nos darem sueto n'esse dia;
despedia-se j de todas. Que formosa ella estava ento! Como um instante
de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma
droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o claro da alma. No sei
que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella  portaria. J
estava a porta franca, e o marido com os braos abertos para a receber e
um sorriso de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado
entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem 
regente! O desespero dos dois desgraados no sei eu palavras que o
exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecaes. Maria Henriqueta fez-se
primeiro escarlate, depois da cr do vestido, marmore na frialdade, e
cau sem sentidos nos braos da regente e da porteira. Choravamos todas;
at as mais novas se commoveram quella scena, cujo alcance mal podiamos
compreender. Ento  que ella adoeceu perigosamente, e cuidmos que no
vencia o ultimo golpe. A me era incansavel de amor e de consolaes ao
lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do
seu restabelecimento. Passado um mez tornou  grade Maria Henriqueta:
parecia desenterrada; e Filippe, que to galhardo mancebo era, pouco
tinha j que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.

Renasceu em toda a fora da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria
das Dres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a
fazerem combinaes, que concertavam todas n'um arrojo de desespero,
cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.

Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:

Um dia de tarde chegou D. Maria das Dres  grade com o genro, e ahi se
demoraram at s quatro horas. Mandou a fidalga dizer  regente que
precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a
menor hesitao. Entrou D. Maria das Dres, e Filippe ficou na
portaria, como esperando a sogra. Disse a me  filha que precisava de
arejar-lhe os vestidos. Comearam a sair taboleiros de riquissimos
velludos, setins, e sedas de differentes cres, e debaixo do chale
escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as
suas, que eram muitas e de subido quilate. Afra isto, passou D. Maria
das Dres para as mos do genro um outro cofre muito pesado, que
continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava
desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: V.
s. ha de permittir que minha filha d um abrao em seu marido. A
regente respondeu: V. ex. no me faa alguma, sr. D. Maria das
Dres!... Tornou a fidalga: Ha nada mais licito que uma senhora
abraar seu marido? Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao
terror, porque vira nas mos de Maria Henriqueta, sumidas no chale,
luzir o marfim do cabo de um punhal.

Mandou a regente  porteira que abrisse a porta. Sau D. Maria das
Dres, e postou-se  porta principal da portaria. Chegou o marido a
abraar a esposa, e tal abrao foi que a levou como arrebatada nos
braos, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar
uma para a outra; e a creada, que fra alumiar, de tal riso se tomou que
deixou car o castial.

Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo
de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.

Passados os momentos da estupefaco, quiz a regente ir
pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.

--Sar eu de oitenta e um annos  rua! exclamava ella.--Que dir o
mundo?--Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a
passear na rua, e estava contentissima de sar com a ama. Passou acaso
um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era
namoro da porteira, elegante matronaa, que no guardava quanto devia as
portas do seu corao. Pensou o estudante que a porteira iria com a
regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a
velhinha, para poupar s estrellas o escandalo de a verem na atmosphera
corrupta do mundo, pediu ao embuado estudante que fosse elle avisar o
provedor, o que elle no fez por commiserao com a fugitiva.

A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois
creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abrao em sua me, e
saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mo da
sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu f de que a
encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se
rapidamente as malas da bagagem, e partiu aodada a cavalgata, caminho
de Villa do Conde.

D. Maria das Dres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido
recolhesse  meia noite; sau-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica
vingana, e disse:

--A regencia no poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu.
Maria Henriqueta est na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as
portas do carcere, e fiz sar d'alli a pobre victima de tua crueza, que
estava sendo tambem um prego de tua ignominia. Querias que a justia a
infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e
virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa,
aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se no corrompe,  uma me.

Gonalo Malafaya cau prostrado n'um canap, e bramiu:

--Maldita sejas tu!

--O co no ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau
marido de Maria das Dres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre
impenitente, homem tres vezes abominavel!


V

Na descripo da desgraa ha engenhos habilissimos. Em pintar a
felicidade  grande a penuria de phrases: parece que as linguas so
pobres do que  to pouco e passageiro na humanidade!

Assim  que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com
receio de me perder em nevoentas chimeras; ou--di'-lo-hei com quanta
sinceridade posso--o descostume de a sentir estragou-me a palheta com
cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.

Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas
condolentes cartas Filippe recebera na priso, e Maria no recolhimento.
Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamra
filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em
terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram
algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraam
saudades do passado, e esperanas de o reviverem mais tranquillo e
desassustado.

Encontrou Maria refloridas as flores que plantra, um anno antes. L
estava a roseira que ella consagrra a sua filha, denominando-a
_Rosalinda_. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra
seio, as ancias do corao no podiam ser duradouras.

Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porm, seu mesmo infortunio
lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam  graciosa vivenda os
curiosos de Velha-Castella, e saam para voltarem amigos dos que
outr'ora prenderam coraes com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A
este proposito, at poemas se escreviam com o chiste das musas
castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia
infeliz dos esposos.

Uma noite, cando a ponto falar-se na pertinacia boal do conde de
Mono, disse o alcaide o seguinte:

--Traz-me esse nome  memoria um successo, que se deu, depois da vossa
ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham
chegado a Segovia, e saam de madrugada a fazer excurses pelos
arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes
sitios, indagando dos aldeos qual terra vs terieis ido habitar. Com
esta informao fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi
que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgao, e
contractadores de carneiros. No sei por que instincto, retive-os at me
darem abono. No conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em
escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles
vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam que andavam em
cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que
tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta.
Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus mos intentos. Quinze dias
depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos.
No tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se
averiguasse na repartio competente quem afianra aquelles dois
presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta
de seu parente, o conde de Mono. De proposito vos occultei este
episodio em minhas cartas, cuidando em no vos aggravar as desgraadas
apprehenses. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim.
Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer,
aprazou a vingana de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados
por elle. J passou um anno, e naturalmente o conde est esquecido da
affronta e da vingana; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela,
que o mais temivel dos inimigos  aquelle que nos foge. No me oppuz;
porm, no approvo a vossa vinda para logar to ermo. Antes queria
ver-vos na cidade, onde as emboscadas traioeiras so menos possiveis, e
a minha vigilancia mais apontada.

Filippe Osorio sorriu  prudencia demasiada do alcaide; e Maria
Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao
assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la,
e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor
de sua segurana. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e
seguissem sua jornada at aos confins da Hespanha, ou passassem a Frana
ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia  sua vontade, tirando a
partido que descanariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e
velados pela guarda de tantos amigos.

Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria
Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroava; e se ouvia
um tiro remoto, no tendo junto de si o marido, soltava um grito, e
corria como desatinada a procura'-lo. Ento cresciam de fervor os rogos
de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar
ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.

As cartas idas de Portugal davam Gonalo Malafaya a descair rapidamente
na formal demencia. D. Maria dizia  filha que se vira obrigada a sair
de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus
paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razo do divorcio fra os
accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira
contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia,
dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma viso que elle
denominava _D. Francisco de Athayde_, exclamando: _Deixa-me, vingador,
deixa-me, que Beatriz j me perdoou!_ N'este estado, dizia a fidalga, o
successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo,
nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com d a vida trabalhosa da
filha, e, sem contrariar, a affirmao da legitimidade do
casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos 
esposa; e contra ella  que mais o acirrava a loucura, a ponto, como
disse, de a querer matar.

Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho
e irmo terminasse de todo com a morte de Gonalo Malafaya.

Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento,
escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:

--Tive occasio de vr aqui no Porto o conde de Mono, de volta de
Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa
mais deteriorada. Falou-se de ti na presena do conde, e elle fez-se
roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a
esposa do convento, e elle mordeu os beios at espirrarem sangue
gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo
com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a
garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso at
contar uma historia acontecida entre ti e um dos prceres de Portugal. A
historia era exactissimamente a tua com elle. No tirei os olhos da
lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma,
se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legio de espiritos
immundos. Palavra no lhe despegou os dentes. Bebeu o calix at s
fezes, e sau, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente
sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Mono, d'onde eu
sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiana averiguar a tua
residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra
pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, seno, que lhe importa
a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e
veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Ests
em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso.
Os assassinos lavam as mos, quando as lavam, e vo pedir a absolvio
aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer  que vs para
Italia, e esperes l que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu
entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. S
ento cuido eu que no chegar a ti o fulgor da tua funesta estrella.

Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal
podia era occultar-lhe a inquietao. Pressurosamente cuidou em
retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em
Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa
que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da
Frana. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para l que
a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle
annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos
quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a
traziam em permanente sobre-salto.

Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo ao alcaide, sem
esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe
causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas
vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas
no decurso de dois mezes. Nem uma s pessoa suspeita pernoitou nas
estalagens da cidade.

Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas
metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte
primavera a saida. Alm de qu, a assidua espionagem era infructuosa, e
as averiguaes, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de
Mono no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.

Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma
carta de Filippe Osorio:

... Tambem se me vo desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha
dias com direco a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder
casar com uma opulenta mooila, cujo bis-av fazia pucaros do barro da
terra, cujo av foi creado da casa de Bragana em Villa Viosa, e cujo
pae pirateou na Africa, se no mentem as chronicas dos visinhos. No me
parece que caiba odio em corao to cheio de amor  bis-neta do oleiro.
Isto est longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde
 um alapo do inferno. L dentro devem existir

    Ferro, veneno, vibora traidora
    Cartas da mo de Machivello escriptas,

como diz o Tolentino no soneto.

Precavm-te sempre, meu Filippe.

Esta carta achou j banida a desconfiana, e quasi esquecidas as
cautelas, afra as do alcaide, posto que menos solicitas.

Maria, contente das relaes que adquirira, e da serenidade do esposo,
jmais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se
na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.

No concernente ao estado de Gonalo, as noticias confirmavam a
approximao de sua morte. Acamra por ultimo, e nem j foras tinha
para lanar-se fra do leito.

Maria das Dres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixo,
recolheu  casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem
estar da sua consciencia. Gonalo acolheu-a com indifferena, e chegou a
apertar-lhe a mo, graas aos seraficos esforos de dois franciscanos e
um carmelita, que lhe assistiam  doena. Alguma vez, a esposa se
aventurou a falar em sua filha na presena dos fradinhos e estes santos
vares achavam justo que a menina viesse pedir perdo a seu pae da
filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens
evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: Fidalgo, nosso Senhor Jesus
Christo perdoou a quem o matou.

Observava-lhes D. Maria das Dres que seria mais piedoso, e conforme aos
preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha no praticra crime,
comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se
salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera
soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os
seus conventos da esmola promettida pelo doente.

Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas
funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos
desditosos de Hespanha.

J nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em
Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi
passar um dia  quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de
solido com seu marido. Era abril, e queria vr as _Rosas-lindas_, o
florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das
florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e
aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a
sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam.
Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanas, por entre
as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as
serras, quando Maria disse:--Agora, vamos, filho! e agradeamos a Deus
este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.

Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle
beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.

Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta
distancia.

Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a appario infernal do conde,
as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros
mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca
alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do
almotac, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braos, as
venturas que devia a sua me, e os terrores que lhe denegriram a
felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao co n'estas
memorias, e de l se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes vora o
tempo, at entrarem n'um carvalhal, que frma um como anteparo da cidade.

--Este sitio--disse Filippe--tem uma belleza terrivel. Eu gostei sempre
muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se
pde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.

--Vamos depressa, Filippe, d de esporas ao cavallo--disse ella vibrando
a chibata na anca de ambos os cavallos.

--Assustei-te com as minha apprehenses?--accudiu Filippe--Tolinha, vai
devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os rouxinoes como
cantam l em baixo nas margens do rio... So aces de graas Deus.
Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...

Proferidas estas palavras, saram dois tiros de entre uma moita de
arvores. Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.

Filippe inclinou o peito sobre o pescoo do cavallo que se ergueu
de frente, espavorido pelo estrondo.

--Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois
passos para o marido, que fincra os braos no pescoo do cavallo.
Extendeu-lhe ella os seus, invocando-o com uma voz que era j um como
derradeiro grito. Cau fulminada a tempo que o cadaver de Filippe
resvalava aos braos do lacaio.

Oh! no vos dizia eu, leitores?

_Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas
negras da vida dos dois to dignos, to abenoados, to bem quistos da
leitora, que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia,
do mundo que sentenceia ou j sentenceiou paixes, que que exorbitam do
estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de
lanar de mim com asco estes apontamentos._

E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:

Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.

O desgraado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de
passeio com sua mulher.

Quo pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S.
Lazaro! outras informaes de mais recordados amigos de Filippe, e
papeis que se desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o
meu espirito at  catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.

A catastrophe? Ainda no. A justia de Deus  uma a justia do mundo 
outra.


VI

O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de
Maria Henriqueta foi transportado em braos.

A viuva no ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao
levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.

Onde estava a alma d'aquella mulher, que no se assignalava nos sentidos
externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no co, ou voltaria ao
supplicio do corpo?

Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora
risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera
um marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na
sua vida, alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais
completamente feliz da sua vida!

Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braos das senhoras,
e exclamar:

--Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma s vez.

Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia
lhe no destina alguma misso espantosa, vesti esse cadaver d'uma
mortalha, e dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias
ditosas do tumulo, piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o
ardor de vossos beijos e de vossos prantos!

Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braos, que ella
de per si se erguer e clamar:

--Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle
derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no corao. Deixae-me e vereis
se eu era digna d'elle!

Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idas
embaralhavam-se desconcertadas; mas eram idas do passado, do presente e
do futuro. Pediu, instantemente, com as mos erguidas, que a levassem 
campa de seu marido.

--Deixem-n'a ir--disse o alcaide--e seja j. Vamos com ella. Quanto mais
cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltar a razo da infeliz.

Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe
indicaram. Debruou-se at collar os labios na lagem. Disse uma palavra,
uma s, e nenhuma lagrima verteu.

Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.

--Mas no chorou!--disseram as consternadas senhoras.

--Ha de chorar--respondeu o pae.

N'essa mesma noite, disse Maria:

--Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.

As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:

--Mostrem-lh'a.

Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de
laivos de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:

-- minha: guarda'la-hei.

E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de
demencia.

--Mas no chora!--diziam as meninas, em segredo, a seu pae.

--Se no chora, morre.

No dia seguinte, chegou D. Maria das Dres, chamada a Segovia por um
creado do alcaide, que partira horas depois do assassinio.

A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da me; viu-a chorar e
soluar; ouviu-lhe as exclamaes ora piedosas, ora colericas; tudo viu
e ouviu impassivel.

--Iremos manh--disse ella  me.

--Se pdes, vamos, minha filha!--respondeu Maria das Dres, pensando que
o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.

Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:

--At  eternidade!

Entrou n'uma liteira, com sua me.

Perguntou-lhe Maria das Dres que levava ella enrolado debaixo do brao.

-- o sangue de meu marido--respondeu.

Tinha dito o alcaide a D. Maria:

--Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um
amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja
qual fr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe
darei um espectaculo no caminho.

Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dres ouviu ler as cartas,
concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Mono.

--Eu j li essas cartas--disse Maria.--Sei tudo.

Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de
soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma
chan, e parou a liteira, embargado o caminho.

Maria via tudo indifferente.

Chegou o alcaide  portinhola da liteira, e disse:

--Sr. D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.

Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:

--Pde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues  minha
guarda. Maria olhava e parecia no compreender.

Os cavallarias ladearam a liteira e passaram vante, dando o passo a
soldados de p, que alinharam em frente da liteira.

--Justia de Hespanha!--disse o alcaide.--De joelhos, assassinos de
Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o ouro
do conde de Mono. Depressa, em quanto eu no ponho a tormentos estes
infames; depressa, rapazes!

Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta;
o vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos
cadaveres passra com o fumo da polvora.

O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:

-- incompleta a vingana: mas no est mais em minha mo.

E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:

--O resto... eu!

Os liteireiros afastaram com o p os cadaveres do caminho, e o prestito
caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos
aturdidos pelo incidente.

Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.

Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou
por seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e
sacramentado. Entrou na camara, que j espirava o fetido tbido da
morte. Approximou-se do leito, ajoelhou, e disse:

--Venho a tempo de lhe pedir perdo, meu pae.

O velho fez um gesto de indignao.

Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.

--Em nome d'este sangue lhe peo perdo.

--Sangue!--exclamou o velho.

--Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos
encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era
innocente, e pede perdo para o nobre corao que o tinha, e para mim.

Gonalo quiz sentar-se no leito: esforo vo! Pediu por acenos, que o
sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e
balbuciou:

--Perda-me tu, perda-me tu, desgraada!...

E continuava a querer aperta'-la entre os braos convulsos, quando a
face, pendida para o seio, encontrou a cabea de Maria, e esteve assim
instantes. Eram os ultimos. Os braos, ao descarem, inteiriaram-se e
os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabea humida do sro que corria dos cantos dos beios
do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:

--Perdo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vs a mim, quando eu fr  vossa
presena!

No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes
do palacio de Gonalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas
de D. Maria das Dres poderam apenas saber que a viuva tinha sado 
meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel
creado de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram
no Porto.

D. Maria das Dres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a
filha respondia-lhe:

--Seja piedosa! no me mate! deixe-me, em signal de compaixo das minhas
infernaes penas.

S a violencia podia embargar-lhe a sada. Aconselharam-na  fidalga os
familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.

Maria Henriqueta sau.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte
atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rapidas estas scenas, porque Maria no murmurava mais palavras
que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias
eram os mesmos; brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos
quando caam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre
nuvens de p, diziam: Que extravagante mulher!  alguma fidalga, que
no sabe como hade consumir o vigor dos annos, espicaados pela riqueza!

Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra aurola, e
paravam a comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas
estalagens, ou alugavam cavallos nas grandes povoaes. Em algumas
estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao
lacaio: Que tem sua ama, que soluou e gemeu no quarto toda a noite?

A duas leguas quem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que
anoitecesse para entrar na cidade.

Ao car da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de
Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

Seriam duas horas da tarde quando saa de se receber n'uma egreja um
sr. conde com uma menina, que l diziam ser a mais rica da provincia.
Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que j no cabia na egreja.
Saram os casados j recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a
noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrellas do
co. E vae n'isto, quando o conde ia a dar a mo  noiva para entrar no
coche, um homem que eu no cheguei a ver, mas que me disseram que era j
avelhado, chega ao p do conde cara a cara, diz-lhe no sei que, e
enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a atteno de todos, para o
repartimento do tabique, alm do qual estava a saleta, que lhe deram.
Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella
abriu a porta, e perguntou:

--E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

--Ninguem l soube dizer quem era, fidalga!

--Prenderam-no?

--Ora! isso foi como o senhor sol. L ficou na cadeia. Eu bem quiz
ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava 
beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a
menina; outros contavam l a cousa como queriam; o caso  que ao
certo ninguem sabe dizer quem . manh  que pelas perguntas se ha de
saber.

No se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro
palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar,
soube que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Mono.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem
curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a
perguntas em casa do juiz de fra. Foi Maria a casa do juiz de fra, e
conseguiu entrar at ao salo de espera. Era prohibido o accesso ao
gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que elle sasse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o
seu amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca
para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em
gesto de silencio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do
gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessra quem era, e a
causa por que praticra o homicidio, mostrando suprema coragem para
morrer, vingado o amo, que s ordens do conde fra assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa,
alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licena para falar com
o preso, que era seu irmo. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O
preso, ao ve'-la, lanou-se-lhe a chorar aos ps, e disse:

--Perde-me v. ex....

Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a
voz, disse:

--Entrei aqui como tua irm, fala baixo... De que me pedes perdo?

--Tirei-lhe a vingana que era de v. ex.... mas no pude mais com a
minha paixo. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era
espera'-la e guia'-la na sua vingana; mas n'aquelle momento em que o
maldito saa da egreja, no pude ter mo em mim; cheguei-me ao p
d'elle, e disse-lhe: Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio e matei-o a
facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem
quando tiverem occasio, que eu c fiz trinta annos  justa ha mais de
vinte. No podia empregar melhor a vida!

--No has-de ser enforcado, Joo--disse Maria.

Hei-de salvar-te; irs d'aqui para Hespanha.

--Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; no vale a pena andar a minha
ama n'esses arranjos, sem geito nem sada. V v. ex. para sua casa, e
deixe-me c com a minha consciencia, que estamos de boas avenas, eu e
mais ella, assim me Deus salve a minha alma.

--Cala-te, e obedece-me, Joo. V em mim teu amo. Vr-me-has mais vezes.

Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, j
tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dres. Resava assim
o periodo final:

Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex. daria para o resgate
de sua filha.  a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam
mil cruzados: d-m'as, que eu no quero mais nada da herana de meus
paes, seno uma mortalha, e um tumulo para os ossos de meu marido e para
os meus.

 quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com
o carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que
o sustentavam. N'um relance da conversao, Maria assumiu o tom natural
de senhora, e disse-lhe:

--D-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil
cruzados. V. merc recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com
o preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fra de
Portugal. Repare que no  a irm do preso que lhe fala,  uma mulher
que lhe d, passados alguns dias, quinze mil cruzados.

O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:

--Isso  mangao? Eu no sei com quem falo.

--Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. Aceite
a independencia onde a quizer gosar. Que responde?

--Ns falaremos, senhora; mas se me prendem...

--Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que dar
a ambos completa segurana, e passagem para o exercito francez, se a
quizerem.

O carcereiro annuiu, sem grandes oscillaes de consciencia. Esperava
Maria a resposta de sua me com anciedade. Ao fim de sete dias
chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dres confira dinheiro excedente
ao valor das joias.

O carcereiro foi chamado  sua presena, e viu o dinheiro.

--Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para no
serem conhecidos. Aqui recebe vocemec o dinheiro, e elle uma carta.
Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.

--Eu sei os atalhos aos palmos at  fronteira--disse o carcereiro.

s onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na priso o carcereiro,
dizendo que o juiz de fra mandava remover da priso commum o preso
matador do conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o
destino do infeliz.

Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do
carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das
sentinellas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o
creado entre os braos, que se no pejaram de estreitar ao corao o
vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu
basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo
beijou-lhe as mos, banhou-lh'as de lagrimas, e partiram.

--No tenho mais que fazer aqui--disse Maria Henriqueta.

E, n'essa mesma hora, saram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a
flamma da vingana, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No
caminho, succumbira muitas vezes ao canao, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua me, e disse:

--Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolaes frivolas, e o maravilhoso da vingana que lhe
attribuiam os j sabidos na morte tragica do conde.

--O creado fiel--dizia ella  me--no me deixou cumprir a promessa que
fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-HEI, disse eu; mas eram
tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue do algoz!
Agora, Deus que me julgue!




CONCLUSO


UMA CARTA

Fiz quanto pude em servio do seu romance, e obtive o essencial da sua
incumbencia, posto que o esquecimento de pessoas desgraadas  uma das
muitas corcundas do aleijado genero humano, se no  antes providencial
o esquecimento para que cada homem, cada infeliz, digo, cuide
egoistamente de si.

Passo sem mais preambulos, a dar-lhe conta do meu encargo.

Maria Henriqueta Osorio da Fonseca viveu cinco mezes em companhia de D.
Maria das Dres. Disse-me alguem que ella nunca saa do seu quarto, nem
recebera n'elle pessoas, seno sua me e a ama, que a crera. N'este
espao de cinco mezes, quizera ella chamar ao Porto os ossos de seu
marido; porm, o alcaide respondeu que as carnes vestiam ainda os ossos.
No alcancei a raso por que Maria Henriqueta, no fim d'aquelle
tempo, se recolheu a Arouca e ao quarto onde residia, quando Filippe
Osorio a foi buscar. Soube que ella, emquanto as foras a deixaram, ia
todos os dias ao muro, onde ficava a olhar largo tempo para o galho da
arvore a que subira Filippe.

A final faleceram-lhe as foras para estas saidas, e pouco tempo desejou
te'-las, porque morreu, dois mezes depois da sua entrada no mosteiro.
Jaz enterrada na claustra de Arouca, sem epitaphio, nem data do
nascimento ou morte.

D. Maria das Dres viveu ainda doze annos, se no contente, com
apparencias de resignada. Para o fim da vida foi muito devota e esmoler.
Jaz no seu jazigo, em uma capellinha da cathedral.

Eugenia morreu em Arouca nos braos de Maria Henriqueta, a quem estava
decretado que todos os golpes lhe acertassem no corao j moribundo.

O vingador de Filippe Osorio, com o carcereiro, chegaram sos e salvos a
Segovia; apresentaram-se ao alcaide com a carta de D. Maria Henriqueta,
e receberam passaportes at encontrarem o exercito francez, que
abandonava as praas hespanholas. O ex-carcereiro l se estabeleceu por
Frana com os seus quinze mil cruzados, e pde ser que deixasse prole
abastada. Joo, o lacaio, alistou-se no exercito, negociou no
commissariado, e appareceu em 1852 no Porto, onde ninguem o conheceu.
Como achasse morta sua ama, foi a Segovia, e achou tambem morto o
alcaide. Tornou para Frana, e no chegaram ao meu conhecimento outras
memorias d'elle.

Aqui tem o mais que pude esquadrinhar, depois das informaes que lhe
dei. De umas e outras faa um uso conveniente, conveniente, digo,
desejando eu que o seu romance tenda a escarmentar, e avisar.

Reflexionando eu muitas vezes na vida dos desgraados personagens d'esta
esquecida historia, tenho formado um juizo mal seguro cerca da
moralidade d'ella; differentes illaes me combatem; mas uma ha que as
outras no derribam, e : que um pae no deve ser o supremo arbitro do
corao de sua filha. Illustra'-la, guia'-la,  uma cousa; arrasta'-la
pelos cabellos d'um supposto abysmo para despenha'-la n'um abysmo certo,
 outra cousa.

Alm d'isto reconheci a mo da Providencia carregando sobre Gonalo
Malafaya, que fizera da obediencia filial um pretexto para cobrir sua
ambio de haveres. Aquelles vinculos de Freijoim e Aguas-Santas foram a
causa efficiente da morte de Beatriz de Noronha, da demencia de D.
Francisco de Athayde, e das mil desgraas consecutivas. No  de
desprezar este aspecto de moralidade que offerece o seu romance.

Desculpe os conselhos do seu velho amigo, se os tem n'essa conta: eu
quiz apenas dizer-lhe em pouco o muito que tenho pensado nos desastres
de uma infeliz familia, em cuja casa tomei ch, quando era menino. Que
FUNESTAS ESTRELLAS!


FIM



    [1] A sr. D. Ermelinda Pinto de Magalhes, filha do dr. Joo Pedro
    Gomes de Abreu, ento provedor da Misericordia e fiscal do
    recolhimento de S. Lazaro.

    [2] O j citado vice-provedor da Misericordia.

    [3] Pde ser que ainda vivam; e a ellas ou a quem as conhea chegue
    a reminiscencia ou a noticia d'este honroso episodio de sua mocidade.

    [4] Confessa o auctor que  dissaborida cousa, em romance, duas
    pessoas, que se amam, comerem, s suas horas, como o restante da
    humanidade. Abjuro os preceitos da arte em reverencia  verdade.
    Aqui o auctor escreve historia e no o romance.






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     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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