The Project Gutenberg EBook of Livro de Consolao, by Camilo Castelo Branco

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Title: Livro de Consolao

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: December 27, 2010 [EBook #34756]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LIVRO DE CONSOLAO ***




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                          BIBLIOTHECA--MOR

                    *      *      *      *      *

                         LIVRO DE CONSOLAO

                               ROMANCE

                                 POR

                       CAMILLO CASTELLO BRANCO

                    No nos sirva de medo ou de desvio
                    Vr como vai o mundo concertado.

                        D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO--_A tuba de Caliope._



                                PORTO
                         VIUVA MOR--EDITORA
                          PRAA DE D. PEDRO
                                 --
                                1872





LIVRO DE CONSOLAO




PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA




LIVRO

DE

CONSOLAO

ROMANCE

POR

CAMILLO CASTELLO BRANCO

                    No nos sirva de medo ou de desvio
                    Vr como vai o mundo concertado.

                        D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO--_A tuba de Caliope._




PORTO
VIUVA MOR--EDITORA
PRAA DE D. PEDRO
--
1872




A SUA MAGESTADE

O SENHOR DOM PEDRO SEGUNDO

IMPERADOR DO BRAZIL




                                                               SENHOR

Eu no solicitei licena para dedicar a VOSSA MAGESTADE IMPERIAL este
livro que representa um trabalho--palavra sagrada que nobilita e exalta
os mais futeis lavores do espirito. Vi por esta lente de ambicioso
alcance a pequenez da offerta, para que me no fallecesse a affoiteza de
ir depor na livraria de VOSSA MAGESTADE as paginas estereis da historia
d'umas paixes triviaes da vulgaridade, do mal.

Alm de que, SENHOR, quando eu escrevia estas linhas, em frente da
cadeira onde VOSSA MAGESTADE se assentou, no escriptorio do operario,
esqueci-me de que  Imperador do Brazil Aquelle a quem as envio; e vejo
to smente o sabio, o modelo de principes que, ao descerem at aos
pequenos, deixam o diadema em altura onde mais subidos vo os respeitos.

Desde o momento que VOSSA MAGESTADE me honrou a obscuridade, fazendo-me
sentir que vinte e dous annos de incessante lidar mereciam o galardo de
alguns minutos gloriosos, tambem eu cobrei alentos para chegar at 
meza de estudo do douto Imperador, e esperar ahi uma hora muito feriada
de leituras proveitosas para ento LHE offerecer com respeitosa
confiana um livro de mero desenfado, pois no tenho mais nada com que
possa significar a VOSSA MAGESTADE a minha gratido. De VOSSA MAGESTADE
IMPERIAL

                                        o mais reverente criado

                                       _Camillo Castello-Branco._






INTRODUCO

    Le rsultat de l'art... c'est l'adoucissement des esprits et des
    moeurs, c'est la civilisation mme.

         V. HUGO.--_Les voix intrieures._


Em uma tarde de agosto de 1867, passeava eu, com um amigo de aprazivel
tracto, nos arrabaldes de Lisboa, e comparvamos a desamena e rida
vegetao d'aquellas gndaras com os arvoredos e verdejantes valles do
Minho.

Alli por perto de Odivelas me disse o meu amigo Luiz da Silva:

--Entremos por esta azinhaga que no tem sahida. Isto vae dar quella
casinha branca. Mra l um velho a quem te vou apresentar. Mas quem sabe
se o homem morreu?! Ha tres annos que o no vi...

--Tem esse sujeito--perguntei eu com a minha natural magnanimidade de
immortalisador--passagens na vida dignas de chronica?

--Tem, e magnificas.

--Capazes de um volume de 250 paginas em 8.?

--Isso no sei. A biographia d'este homem  uma infelicidade vulgar,
que, todavia, fez grande estrondo; mas os naufragios do corao
parecem-se aos do mar: abre-se um abysmo, que sorve centenares de vidas,
e d'ahi a pouco nenhum vestigio sobrenada  flor das ondas; assim
succedeu na procella que sossobrou o velho que vaes vr.

--Fez grande estrondo, disseste ahi tu! Mas eu, attento aos escandalos
estrondosos do meu paiz, no me lembro d'isso...

--No eras ainda nascido.

--Ah! eu no era ainda nascido? Isso ento  caso muito antigo...

--Um pouco depois da edade-media--replicou Luiz da Silva.

E d'esta frma gracejando por conta da nossa velhice, entestamos com uma
porta estreita e baixa pertencente ao quintal da casinha branca.

O meu amigo bateu duas aldravadas na porta.

--Est aberta; levante o ferrolho quem --disse uma voz de dentro.

-- vivo o homem!--disse Luiz, entrando.

Caminhamos por debaixo de uma parreira, cujos pilares se vestiam de
festes de rozeiras vulgares e descuradas, alastrando-se por terra, e
formando alcatifa de rosas murchas. Ao cabo da fresca e assombrada
avenida, encontramos um caramanchel enverdecido de trepadeiras, e l
dentro um ancio sentado em escabello de cortia, afagando um gato
maltez que lhe dormitava sobre os joelhos, e com pachorrento desdem
entre-abriu os olhos  nossa chegada.

O velho formou com a mo direita um quebra-luz sobre os oculos verdes
que pareciam coar-lhe aos olhos escassa claridade, e disse com
prasenteiro semblante:

--Quem me faz a honra?...

-- Luiz da Silva e um amigo que tem a honra de ser apresentado a V. Ex.

Depois da apresentao, o sujeito, para quem o meu nome no era
inteiramente desconhecido, disse ao meu amigo:

--Muito ha que o no vejo, snr. Silva. Seu tio general esteve aqui ha
tempos, e me contou que V. Ex. andava a correr mundo. Conte o que viu.

--Vi o que Salomo via em tudo: vaidade.--Respondeu, sorrindo, o meu
companheiro.

--Ento, caro senhor meu, no s viu, mas estudou muito--volveu
Venceslau Taveira, afagando o lubrico dorso do gato que, estrouvinhado
pela incommoda palestra, se remechia no regao do dono, resmuneando, e
afofando o ninho para recomear o seu placido dormir.--Escusava de
sahir de si proprio, snr. Silva, para vr o homem qual  em toda
parte--proseguiu o velho.

--E, se eu quizesse vr um homem distincto do commum--tornou o meu
amigo--bastar-me-hia ter conhecido V. Ex.

--_Distincto_, quer dizer, distincto na infelicidade...--acudiu Taveira.

--Na honra e na virtude--emendou Luiz da Silva.

--Agora vejo que no estudou nada... Vaidade, tudo vaidade, e... algumas
lagrimas.

E, voltado contra mim, perguntou:

--O seu amigo disse que v.  da provincia.  minhoto?

--Tenho vivido no Porto--respond.

--L viv tambem dois annos e tanto. Os suburbios so graciosos, quanto
me podiam parecel-o atravez do fumo das batalhas. Sou um dos sete mil e
quinhentos. Conservo recordaes agradaveis de umas grandes arvores da
quinta do Vanzeller. Verdade  que as contemplei em posio molesta.
Havia-se-me cravado uma bala na perna direita, e assim estive duas horas
esperando a maca. Foi n'este espao de tempo que eu, confrangido, de
dres, admirei a serenidade das arvores, e ponderei a vantagem de ser
vegetal, estranho s crtes de Lamego e  constituio da monarchia. E a
impassibilidade das carvalheiras aparando as balas no seu arnez de
cortia! Tudo  grande e forte, excepto o homem! O homem... esse  um
mixto de odios, de angustias e vaidades, segundo assevera o nosso
viajante Luiz da Silva...

Proseguiu o ancio, entremeando de discretas jocosidades a deleitosa
conversao, que durou duas fugitivas horas.

No se me abriu ensejo de pedir a Venceslau Taveira licena de o
visitar, nem elle me offereceu a sua casa. Facil era de perceber que, se
as visitas lhe eram agradaveis, a solido lhe era mais recreativa que as
visitas.

Convidou-nos para o seu ch, quando anoiteceu, e acompanhou-nos at 
porta do quintal.

--Quem  este homem?--perguntei ao meu amigo.

--A historia d'este homem ha de contar-t'a meu tio general que  do
tempo d'elle, e vem todos os annos da provincia de Traz-os-Montes
visitar o seu companheiro de infancia. Os lances essenciaes poderei
referir-t'os; mas as particularidades s meu tio Pedro as sabe.

--Que posio social tem elle? Ouvi-te dar-lhe excellencia.

--A excellencia poderia significar que elle no tem alguma posio
social; ainda assim, dou-lhe excellencia, porque o seu appellido
representa familias antiquissimas da Beira Alta; alm d'isso,  do
conselho de Sua Magestade, official maior de secretaria aposentado,
gran-cruz da ordem de Christo, etc.

      *      *      *      *      *

Desde Odivelas a Lisboa, me referiu Luiz da Silva as passagens capitaes
da historia de Venceslau Taveira.

Alguns mezes depois, o general Pedro da Silva chegou a Lisboa, e, a
rogos do sobrinho, contou-me circumstanciadamente successos que elle
denominava os obscuros heroismos da mais honrada e excruciada alma.

E concluiu d'esta maneira:

--Se v. quer obrigar-me, escreva estes acontecimentos; mas no os
enfeite com episodios de sua casa. Se a narrativa sahir verdadeira,
poder ser util. Deve v. fazer um livro dulcificante para alguns
coraes amargurados. Pde at denominal-o, se quizer: LIVRO DE
CONSOLAO. Dou-lhe por cada lagrima, que fizer verter, um germen de boa
aco, ou se quer de um bom pensamento. Porm, se v. adulterar a tragica
singeleza d'esta desgraa com as inverosimilhanas do genio francez, o
seu livro ficar sendo meramente uma novella. Escuso pedir-lhe--terminou
o general--que empregue to smente a sua phantasia nos nomes dos
personagens, em razo de estar ainda vivo o principal.




I

    Historia infantil de todo o homem que sente....

         LOPO DE SOUZA--_Herana de lagrimas._


Venceslau Taveira nasceu na comarca de Lamego em 1795. Como filho
segundo de casa vinculada, foi destinado desde o bero a frade cruzio ou
benedictino. Estudou humanidades em Coimbra, e entrou, portanto, a
noviciar na casa capitular de Tibes aos quinze annos.

Findo o anno de prova, o profitente interrogado manifestou que lhe
faltava genio e f para ser frade como cumpria.

Fr. Francisco de S. Luiz, ento conventual em Tibes, e, mais tarde,
bispo, ministro liberal, patriarcha e cardeal, sahiu em defeza do novio
contra as violentas persuases dos monges escandalisados da impiedade de
Venceslau.

No ter f! Era a primeira vez que um novio ousra dizer que no tinha
f! Que elle no tivesse virtudes, v; que muito frade se salvou sem
ellas, graas ao habito que faz o monge e  contrico final que faz o
santo; mas no ter f!...

Sem impedimento d'estas e outras razes dos frades escandalisados,
argumentava o sabio benedictino que era desprimor notavel para a
religio o acorrentarem-lhe ao altar os seus sacerdotes; que o
descredito das ordens monasticas havia sido motivado pelo vicioso
proceder dos frades constrangidos; e que, finalmente, ninguem esperasse
que a violencia abrisse  luz da f coraes fechados e escurecidos pela
duvida.

Com to vlido protector, o novio despiu o habito e foi para casa.
Recebeu-o a me com amorosa indulgencia; mas o pae, affrontado da
insolita rebeldia, apertou-o no duro dilemma: ser frade, ou, quando no,
ir grangear sua vida onde lhe bem quadrasse.

Baldados os rogos e piedades da me, j ao marido para que perdoasse, j
ao filho para que obedecesse vestindo o habito, Venceslau, com algumas
moedas liberalisadas pela commiserao maternal, foi caminho de Lisboa
onde no tinha parentes nem amigos.

Principiava o anno 1811.

O mancebo chegou a Santarem no dia em que o general Massena alli
aquartellava a sua diviso. O rebolio da cidade desbordando de tropa, o
espectaculo offuscante de um exercito embriagado de victorias, aquellas
magestosas figuras dos generaes do imperio alvoroaram o animo do rapaz
cuja imaginao verdejava as epicas fantasmagorias dos dezesseis annos.

Que farte ouvira elle em Tibes execrar Napoleo, Massena, Soult, Junot
e os outros d'aquella funesta constellao. O seu entendimento queria
duvidar da justia das accusaes; mas o patriotismo insinuava-lhe o
dever de odiar francezes, salvante Rousseau, cujas obras elle podra lr
clandestinamente, subtrahindo-as da gavta defeza da livraria de Tibes,
onde talvez as recadasse com prudente cautela o esclarecido fr.
Francisco de S. Luiz.

 conta pois do auctor do _Contracto Social_ est, por desventura de sua
alma, a grave responsabilidade de haver-se esquivado  tunica de S.
Bento aquelle rapaz que em Santarem perguntava a outros:--Depois d'este
acto de justia quem pde negar a Massena as virtudes militares que
Plutarco refere dos vares illustres de Grecia e Roma?

O leitor vae recordar a sabida passagem que, no espirito do moo
enthusiasta, emparceirava o general francez com Themistocles ou Paulo
Emilio.

Quando os francezes retiravam de Alemquer, certa familia de notoria
fidalguia, receando insultos da plebe, acompanhou o exercito invasor com
uma escolta de dois drages. Ora um d'estes indignos guardas, ageitada a
occasio, e vencido do impeto do sangue e dos conselhos do demonio,
maculou mais ou menos--mas  de crr que fosse mais--a pudicicia de uma
das damas confiadas  sua vigilancia.

Eis pois um drago indigno de aparelhar com o outro que, no jardim das
Hesperides, guardava o vlo de ouro, de certo com mais peso e
quilates, mas com muito menos direitos  nossa consternao.

E succedeu que a dama queixosa, posto que o infando desastre houvesse
sido secreto, (ave rara!) preferisse ser honrada a parecel-o. Assim
pois, logo que chegou a Santarem, D. Lucrecia (ouso chrismal-a assim em
honra da sua memoria bastante romana) expoz a Massena o affrontamento
que lhe fizera o drago. Ordenou para logo o general que o criminoso
entrasse em conselho de guerra, e to summario correu o processo que, no
lapso de meia hora, foi o carnalissimo ro interrogado, sentenciado,
confessado e espingardeado!

E como quer que alguem intercedesse em favor do comdemnado exorando
menos rigorosa pena, o general respondeu: Depois de arcabuzado, requeira.

Tal foi o caso de disciplina que obteve para as aguias de Austerlitz um
acerrimo partidario.

Apresentou-se Venceslau Taveira ao marquez de Alorna, um dos generaes
portuguezes que seguiram deslumbrados o metheoro da Corsega, quando as
cres ardentes j se am esmaiando ao visinhar-se do co de Waterloo.

O marquez, illustrado e dadivoso, agasalhou o foragido novio com tanta
cortezia como caridade, sentando-o  sua mesa e provendo-o das coisas
que lhe escasseavam, na crise em que a fome apalpava os portuguezes
menos protegidos.

Comprazia-se o provinciano em convivencia d'alguns fidalgos, commensaes
de Alorna, taes como o marquez de Loul, o conde de S. Miguel e D.
Luiz de Athaide. Este ultimo foi grande parte no precoce rancor de
Venceslau aos governos absolutos.

Era D. Luiz de Athaide filho do conde de Atouguia e neto do marquez de
Tavora, ambos justiados como regicidas sob o reinado de D. Jos I.

Um dos amigos de Venceslau, ento adquiridos em casa do marquez,
escrevendo, quarenta e cinco annos depois, as suas _Memorias_, avaliou
ineptamente D. Luiz de Athaide com estas descaroadas linhas:

... No posso deixar de mencionar outro homem notavel que alli
encontrei, e que, descendente da mais alta fidalguia da nossa terra, era
um tristissimo exemplo da degradao a que pde chegar a especie humana,
decahida do explendor da grandeza e mergulhada no lodaal da miseria e
despreso. Foi D. Luiz de Athaide filho e neto d'essas familias
desgraadas a quem o inexoravel grande marquez de Pombal sacrificou
sobre o horroroso altar do poder absoluto e de quem at pretendeu riscar
os nomes da superficie da terra... Em verdade, era digno de ser
observado por quem podsse bem avaliar o que so e podem ser os destinos
do animal chamado homem... Quem o via, e no sabia quem era, s o podia
ter por um sordido e baixo mo de cavallaria. Na sua figura e no seu
trage trazia todas as insignias das maldies humanas, e nas suas
palavras no havia seno rancor e odio, e esse rancor e odio to
profundos e inveterados, quantos eram os annos desde que poude conhecer
as suas mizerias. A quem lhe fallasse na casa de Bragana, respondia
com rugidos de leo; parecia que lhe saltavam os olhos pela cara fra
estimulados pela raiva, e s socegava depois que desafogava o corao
ulcerado com imprecaes horriveis. Para elle s Napoleo era o rei
legitimo de Portugal; e tal era a affeio que lhe tinha que, havendo,
no sei porque artes, ganhado uma grande poro de dinheiro a foi
entregar a Massena assim que entrou em Portugal. Este lh'a acceitou e
agradeceu, declarando-lhe ao mesmo tempo que esta lhe seria restituida
em Paris, se para l fosse...[1]

Apezar d'esta apreciao indicativa de escriptor e espirito menos de
ordinarios, e incapazes de alarem-se at onde a desgraa ergue pelos
cabellos as suas preas, D. Luiz de Athaide, no conceito de Venceslau,
incutia a um tempo compaixo, respeito e assombro. Aterrava e commovia
ouvil-o vociferar contra a raa de D. Jos I, e de repente levar as mos
aos olhos afogados em lagrimas, soluando o nome de seu pae. Se alguem
lhe lembrava que elle era proximo parente da familia real, e portanto
devia cohibir-se de insultal-a no mais sensivel da honra, exasperava-se
a termos de repellar-se por no poder inventar maneira de denegrir em si
proprio as gotas de sangue real que lhe deshonravam as veias.

Tanto escogitou, porm, que descobriu facil processo de enxurdar quanto
humanamente se podia a sua progenie realenga. Foi assim.
Encontrando, mezes depois, em Paris, no derradeiro escalo social, um
vulto de mulher desfigurada pelo squalor do vicio, fl-a sua esposa, com
o intuito de a fazer me dos parentes da casa de Bragana. D'este caso
tambem teve noticia Jos Liberato Freire de Carvalho, nas citadas
_Memorias_.

Escreve elle: ... Mas como casou! Consta-me tambem que alli em Paris
vascolejra as ultimas fezes da sociedade para encontrar uma mulher que
fosse digna d'elle e que a achra. Reduzido na sua terra  infima sorte
de um paria na India, quiz, no seu mesmo aviltamento, vr se podia
tambem aviltar, como elle dizia, algumas gotas de sangue que lhe
circulassem no corpo, e fossem d'essas que animavam a familia real
portugueza.

Homem de to singular e descommunal condio tinha direito a ser
estudado e desenhado por quem tivesse vista d'alma que alcanasse o
enorme desgraado no fundo da sua voragem. Dos seus coevos e camaradas
nenhum deu tento d'esse extraordinario martyr seno o ex-frade Jos
Liberato, que nunca pde desfazer-se de tres partes de mo frade com que
fugiu aleijado do convento. O neto do brioso Tavora, o representante da
opulenta familia, cujos bens haviam sido confiscados para a casa
reinante, ou para a do valido que se pascia nas lagrimas, no sangue e no
espolio dos degolados em Belem, emfim, aquella sublime e rancorosa
desesperao de D. Luiz, que dava o ouro ganhado em azares do jogo para
derruir o throno, e trajava andrajos para que assim o vissem roubado
nas ultimas mealhas de seu pae--tal homem assim maltrapido e crucificado
no seu opprobio, figurou-se aos olhos de Jos Liberato o compendio de
todas as maldies humanas!

Com interesse de respeitoso compungimento o via Venceslau Taveira, e o
escutava nas apostrophes iracundas contra a dynastia de Bragana. J
decrepito, o solitario da charneca de Odivelas, recordava o neto dos
Athouguias, e dizia que se a Frana houvesse tido um homem assim
recaldeado em fraguas de tamanhas angustias--um to extravagante
complexo de soberba e aviltamento, de saudade maviosa e sevos odios--os
mais grados litteratos o exalariam diante do mundo, tornando-o
interessante como historia, como philosophia, como moral, e at o poeta
se no pejaria de ir procurar nas cavallarias de Massena esse neto de
reis portuguezes, e vestil-o dos esplendores da poesia tragica, ao mesmo
passo que o seu real parente, o principe D. Joo de Bragana, apenas
vingaria ser dignamente cantado nas epopas bordalengas de Jos Daniel.

Affeio de outra tempera, como de eguaes e de mancebos em alvorada de
esperanas, ligou Venceslau Taveira a um official de infanteria do
quartel-general de Pamplona.




II

    O clestes concerts de joie et de douleur!

         HENRI BLAZE.--_Matutina._


Era um rapaz de vinte e dous annos, chamado Eduardo Pimenta, natural de
Braga.

Este moo levava uma vida tanto em como j cortada de profundos
golpes; e, por amor d'isso, como as suas dres no podiam ser expiao
de maus actos, a gente de corao queria suavisar-lh'as,
linimentando-lh'as com o balsamo da amizade.

Bosquejemos a historia d'esta mal estreada existencia.

D. Antonia de Portugal, famigerada formosura n'aquelle tempo, viera de
Lisboa a visitar irmos, que tinha no Porto, alliados por casamento nas
duas casas de mais gothica estirpe. Affeioara-se aquella dama a um
alferes, sem discriminar os distantissimos pontos de partida em que
o Creador pozera o seu primeiro av do av de Eduardo Pimenta:--erro
talvez devido  insufficiente leitura que a menina tinha de Moyss.

Era orph D. Antonia; mas a tutela de um tio que por vezes exercera o
ento poderoso cargo de ministro de Estado, pesava-lhe mais oppressiva e
inflexivel que o poder paterno. Assim pois, to depressa raspou nos
ouvidos do fidalgo o indecoroso affecto da sobrinha, que logo Eduardo
Pimenta foi chamado  capital e transferido ao Brazil em servio
militar. Inquebrantavel em seu amor, D. Antonia incutiu no peito do
desterrado a flamma da sua coragem, accendendo-lhe esperanas temerarias
e perigosas.

Os parentes d'ella tomaram-se de espanto e ira, ao saberem que o alferes
desertra do seu regimento, desembarcra em Lisboa, e ajoelhra aos ps
do principe regente solicitando e impetrando licena para casar-se com
D. Antonia de Portugal.

O consentimento, porm, do bondoso principe no tolheu que o alferes,
acossado pela perseguio de sicarios, se evadisse da crte,
refugiando-se nos arrabaldes de Braga, d'onde em vo implorou por
mediao de amigos a malograda proteco do principe.

No entanto, a pertinaz menina, cansada de reagir  presso dos parentes,
acolheu-se ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto, onde tinha
uma tia professa; mas d'ahi ainda o brao rijo do tio ministro, mediante
o chanceller das justias, a foi arrancar, allegando que a reclusa,
escrevendo e recebendo cartas, gosava liberdades deshonestas que em sua
casa lhe eram prohibidas.

E em verdade escrevia muitissima carta D. Antonia, e dispunha de estylo
que, relativamente  poca, no era menos de romantico. Se o leitor
quizer, logo lhe darei occasio de apreciar a linguagem e a
sensibilidade extrema d'esta senhora que pagou penosamente os dons do
seu espirito.

Apartada judicialmente da indulgente freira, foi transferida para o
collegio das orphs que n'aquelle tempo foi viveiro de meninas
lastimosas, mormente as pensionistas, as formosas, as amadas, as ricas,
as filhas segundas--e hoje em dia est sendo--graas  santa Casa da
Misericordia--um alfbre de educao moral onde o vicio no pde coar-se
seno em parcellas diminutissimas, por onde se v que a Misericordia
conseguiu estar-se em pleno osculo com sua irm ou prima, a Castidade.

N'aquelles dias, pois, a urna dos divinos balsamos de Jesus caritativo
transformra-se em gral onde os coraes eram pulverisados. E d'este p
amassado com lagrimas sustentava-se a honra das familias, a dignidade
das mulheres, e nutriam-se as boas esposas que depois sahiam a repartir
affectos entre maridos, e primos e capelles, e tudo mais que convinha a
manter honesto equilibrio entre as coisas humanas e divinas.

Pois, sem impedimento das vigilantes espias que lhe espreitavam os
gemidos e os arremessos, a reclusa vingou passar na roda uma
imprudente carta que denunciava a residencia do alferes homiziado.

Guiados pelo destino da carta, os aguazis do corregedor, com auxilio de
escolta cedida pelo general da provincia, cercaram o escondrijo do
desertor, prenderam-o com affrontosas precaues, e aferrolharam-o na
mais escura masmorra do castello de S. Joo da Foz, onde, quarenta annos
antes, alguns padres da Companhia de Jesus haviam expirado de fome e
frio por ordem do deshumano marquez de Pombal.

Avisada do desastre causado por sua indiscrio, D. Antonia rompeu em
tamanhos desatinos que a regente, por amor  vida no votada ao
martyrio, requereu que lhe tirassem d'aquella casa mansa e quieta a
turbulenta fidalga, que ameaava tortural-a com a roda de navalhas de
Santa Catharina, virgem e martyr. A regente, diga-se verdade liza,
parece ter tido escrupulos de mentir, e receios de no poder entrar no
reino da gloria eterna com a dupla cora da santa anavalhada. No lhe
pezem, todavia, as minhas suspeitas sobre os ossos que D. Antonia lhe
ameaou tres vezes ou mais.

O certo  que a louca de amor foi d'alli passada com guardas de esbirros
para Santa Clara de Coimbra, mosteiro onde quelle tempo se exercitavam
maleficios inquisitoriaes sobre donzellas eivadas do judaismo da ternura
por sugeitos incongruentes com suas pessoas e bens.

N'esta conjunctura, succedeu entrar em Portugal o invasor Junot, e com
elle a vanguarda de ideias livres, vestidas com as pompas da
egualdade humana--santas palavras que desafogaram coraes abafados s
mos da tyrannia de paes e tutores. D. Antonia, alumiada na escuridade
da sua cella por lampejos de esperana, ao saber que o general estava em
Coimbra, escreveu a seguinte carta que vae textualmente copiada da que
tenho e que  a original com toda a certeza. Bem pde ser que semelhante
documento desquadre  urdidura d'esta narrativa; v, no obstante, como
homenagem a uma dama infelicissima, a qual, ao fechar-se em sua
sepultura, abriu algumas que mais tarde se encerraram depois de
cruciantes agonias, como no discurso do livro se ir vendo.

Dizia assim a carta a Junot:

A alta considerao que por tantos titulos  devida a V. Ex., imporia
 minha triste situao o mais respeitoso silencio, se a vossa
generosidade, Senhor, a no tivesse prevenido, assegurando aos
habitantes de Portugal uma proteco que, fazendo a nossa gloria,  a
mais sublime recommendao da vossa virtude e nobreza. Estes dons to
preciosos me animam e prestam valor de elevar minhas supplicas e
lagrimas  respeitavel presena de V. Ex. O illustre guerreiro que
participa da gloria do maior dos heroes que tem visto os seculos, saber
como elle unir clemencia e piedade ao valor que no campo de Marte
immortalisa seu nome.

 do fundo de um claustro que a mortal mais desgraada ousa aspirar 
honra de invocar o illustre general.  a innocencia tyrannisada e os
direitos mais sagrados combatidos que se refugiam no asylo de vossos
ps.

Tenho a infelicidade de pertencer a uma familia nobre e desde a minha
mais tenra infancia me decidi por um militar que servia com honra em um
dos regimentos do Porto. Se elle no tinha fortuna to brilhante como
minha familia, possuia todas as boas qualidades que caracterisam as
almas nobres. Por um caprichoso orgulho, que no pde soffrer as
virtudes puras (porque lhes ignoram o preo e os encantos) oppe-se
minha familia fortemente  minha escolha, prevenindo nossas vistas
definitivas de um casamento occulto; e, conhecendo bastante a firmeza de
nossos desejos, meus parentes solicitaram e obtiveram uma ordem para que
o meu pretendido passasse  America. Este injusto procedimento feriu
sensivelmente a minha delicadeza e reputao.

Empreguei todo o poder que eu tinha sobre o espirito do meu esposo,
obrigando-o a voltar clandestinamente a este reino, assegurando-lhe a
minha mo e a minha f. Apoz um anno de ausencia, chegou  crte;
lanou-se aos ps do throno, e foi recebido pelo virtuoso principe com a
maior affabilidade; porm, o ministro de estado impediu a concluso de
to ditosas esperanas, forando meu esposo  cruel necessidade de se
esconder dos seus perseguidores que o espiavam em toda a parte para
satisfazerem o seu antigo odio e incompleta vingana. Em quanto elle se
foragia no seio de sua honrada familia, eu fui por meus parentes
forada a receber outro esposo. Resisti. No pude. Abracei o ultimo
partido que me restava para subtrahir-me s suas violencias. Abandonei a
casa de meus algozes e acolhi-me aos ps da cruz. Ahi mesmo a minha
desgraa amparada nos confortos da religio, foi diffamada de astucia.
Deu-se-me um Recolhimento de orfs, onde at as lagrimas me eram
empeonhadas pelos conselhos brutaes das minhas directoras, que me
chamavam  penitencia por ter amado um homem pobre em quem Deus influira
as virtudes mais bellas e caracteristicas do seu divino creador; mas,
Senhor, como n'aquelle Recolhimento os meus gritos de desesperao me
dessem o triste semblante de louca, a commiserao dos meus parentes
enviou-me a umas torturas novas n'este convento de Santa Clara, d'onde,
banhada em lagrimas, estou escrevendo a V. Ex.

Apezar dos espies, ameaas e insultos, eu conseguira remetter ao meu
consternado amigo uma procurao que devia servir ao nosso casamento,
consentido pelo arcebispo de Braga. Quando, porm, os meus parentes
souberam que este acto se havia praticado em uma egreja de Barcellos,
instauraram processo contra o meu esposo com o proposito de o
condemnarem a degredo. Exigiram de mim que eu negasse a minha
assignatura na procurao, com o fim de o sentencearem como falsificador
de firmas; mas eu, invocando o meu amor e a minha honra, achei pequenas
e covardes as tyrannias que se augmentaram a ponto de me ser negada a
mais necessaria e urgente subsistencia. As queixas de meus irmos
chegaram ao throno; todavia, apesar do valimento de to poderosos
inimigos, no quiz sua alteza real que meu esposo fosse castigado sem
ser convencido. A innocencia d'elle ia ser patenteada, e por tanto
destruida a opposio da minha familia, quando a partida do regente para
o Brazil, nos deixou outra vez expostos  furia dos nossos
perseguidores.  fortissimo o partido d'elles. O snr. Br**, nomeado
membro da regencia, e outros fidalgos parentes de minha me, me fazem
tremer pela nossa sorte. O nosso triumpho est smente reservado a um
poder superior. S um general de Napoleo, immortal como elle, poder
salvar-nos, libertar-nos e unir-nos. Este prodigio de grandeza de alma 
proprio de V. Ex.;  uma das maiores victorias do Anjo que j est
gosando a immortalidade no nome que ellas lhe deram.

Dignae-vos, pois, Senhor, em nome de tudo que ha sagrado, ser o
protector de dois amantes desgraados, que a vossos ps imploram uma
graa que lhes ser a elles a suprema felicidade. Uma palavra s que vos
digneis proferir a nosso favor, a iremos de joelhos agradecer,
beijando-vos mil vezes a mo que nos abriu o co; ao mesmo tempo que em
nossas almas, Senhor, sereis adorado como homem a quem Deus conferiu
poder de nos resurgir da morte, se tal vida no  mais digna da vossa
commiserao...

Esta carta foi vertida para francez por Vidal, ajudante do general
Tiebau, coadjuvado por outro que depois se fez conhecido no mundo
scientifico, chamando-se Geofroi de Saint-Hilaire. Este, egual no
talento e na sensibilidade, leu a carta a Junot, internecendo-a de
pauzas e modulaes, tendentes a mover o peito do soldado pouco affeito
a commoes dramaticas.

D. Antonia de Portugal recebeu da mo de Vidal a seguinte resposta:

Madame. A innocencia opprimida no se dirige inutilmente ao
representante do Grande Napoleo, cujo poder abrange o mundo, e cuja
justia se distribue por vassalos e reis. Ordeno que se vos d liberdade
e passaporte para Lisboa. Vinde alli, e de l ser-vos-ha facil fazer
sahir dos carceres do Porto o ente que vos interessa, e que, como vs,
ha sido a victima do orgulho de um ministro. Eu vos protegerei a ambos.
Tenho a honra de ser vosso muito humilde e obediente servo--_Junot_.[2]




III

    Ton chemin est devant toi. Marche! marche!

         ED. QUINET.--_Ashaverus._


Em seguimento, a prelada de Santa Clara recebeu intimao militar para
entregar D. Antonia de Portugal.

Os enviados  redempo da gentilissima captiva espavoriram as freiras,
quando marcialmente entraram ao portico do mosteiro.

As mais avanadas em edade e virtude no ficaram estranhas ao receio de
serem desbalisadas do thesouro de merecimentos que haviam amealhado 
custa de muitas violencias, renunciaes, cilicios e jejuns
debilitantes. As menos jejuadas e mais propensas a crr na malicia dos
homens, se tivessem lido o que asseveram chronicas e o snr. A. Herculano
repete no _Eurico_, a respeito de certas monjas em risco de serem presa
lasciva dos sarracenos,  bem de crr que pedissem  prioreza que as
degolasse na crypta, antes que o bafejo pestilencial dos francezes lhes
mareasse a candura, obrigando-as a crar.

E, tantos visos de exactido offerece a hypothese lisongeira, que, ao
saber-se que D. Antonia era reclamada pelo general Junot, todas--que
eram cento e vinte as professas--illudidas, talvez, pediram voz em grita
que as deixassem soffrer por concomitancia o mesmo martyrio. Que jubilo
iria no empyreo, se as famosas onze mil da legenda sahissem a receber no
atrio dos seus jardins eternos subsidio que lhes enviava, d'uma
assentada, Portugal--torro bastante sfaro para tal messe!

No eram j, entretanto, aquelles dias os azados para to heroicos
martyrios. A prelada, exemplificando comsigo a privao do holocausto,
forou a commedirem-se as novias, as novias principalmente, que tinham
os olhos sedentos de mortificao fitos nos algozes que as remiravam do
pateo com uns olhares assaz significativos das carniceiras entranhas que
os distinguiam dos frades portuguezes. Ora estes frades da comparao
eram uns que frequentavam os locutorios, e suspiravam to mysticamente
quanto lhes permittia a eructao da orelheira mal esmoida.

No pude averiguar se o agiologio das franciscanas conimbricenses
commemora algumas martyres empolgadas no tempo dos francezes em que a
roupa d'elles e a virtude das mulheres portuguezas era tudo o mesmo para
to desmedidos facinoras, segundo affirmam piedosas tradies. Do que
tenho certeza  que D. Antonia de Portugal sahiu do convento com
tanta precipitao, ou tantas lagrimas a nublarem-lhe a vista, que nem
sequer divisava, entre os officiaes francezes, Eduardo Pimenta, que
parecia ajoelhar quebrantado pelo pezo da felicidade.

Quando Venceslau Taveira conheceu este moo, mezes depois dos
acontecimentos referidos, chorava elle, e quantos viam Eduardo a braos
com a desgraa que raras vezes, em episodios amorosos, se defronta com o
corao humano to inexoravelmente.

Um dia, o alferes promovido a capito no exercito francez, foi mandado
servir s ordens de La Borde na batalha do Vimieiro, em que a estrella
dos valorosos portuguezes lampejou uns clares que davam a lembrar o
cyclo heroico de que nem sequer, para tudo se perder, nos resta j agora
uma briosa saudade.

D. Antonia estanceava ento na Alhandra esperando que seu marido a
mandasse recolher a Lisboa.

N'esta anciedade a fulminou a noticia de que o general La Borde morrera
na Rolia e com elle todo o estado maior.

E, no mesmo lance em que tal nova lhe deram, uns homens, que se diziam
seus valedores no immenso infortunio, quasi a foraram a cavalgar,
caminho de Coimbra, onde, quelle tempo, iam chegando os inglezes
desembarcados na Figueira.

E alli, da portaria do mosteiro de Santa Clara avisinhou-se chusma de
homens, que levaram uma mulher estorcendo-se a brados afflictivos.
Depois, abriu-se a porta do mosteiro, e fechou-se logo que sobre o
escabello foi deposta D. Antonia de Portugal, que desmaira, se  que a
morte se no amercira d'ella.

Entretanto, nem La Borde nem o capito Pimenta haviam morrido dos
ferimentos. Alguem vira o official portuguez n'um olivedo do Tojal
enfaixando um brao que sangrava. D'este encontro resultou o boato da
morte, ao mesmo tempo que outros juravam de vista assistirem ao enterro
do general na egreja do Carmo em Lisboa.

Como quer que fosse, os portadores da falsa noticia a D. Antonia eram
confidentes dos tios d'ella, e a bala, que raspra na espadua do
capito, fra-lhe apontada ao peito por um d'esses homens. N'aquelle
tempo a fidalguia d'estes reinos ainda resfolegava por taes
respiradouros o sangue brioso que se lhe emborrascava nas arterias. O
timbre das armas obrigava. Os paquifes do elmo, arcando-se sobre as
cabeas d'uns mouros, esculpturados com barbaridade digna das proezas,
obrigavam seus donos ao preceito heraldico de guardar a honra da familia
com ferocia egual ao disvelo que punham em honrar a patria nos aougues
da Asia.

Envira Eduardo Pimenta dous soldados portuguezes que levassem D.
Antonia a Cintra onde se estavam redigindo os artigos da conveno. Como
fosse clausula antevista d'aquelle convenio sahirem os vencidos com as
honras da guerra, o official contra-pesava o infortunio do desterro
com o jubilo de passar com a esposa a Frana, onde os generaes
portuguezes lhe promettiam proteco.

Os enviados de Eduardo voltaram dizendo que D. Antonia sahira da
Alhandra, algumas horas antes, acompanhada por milicianos.

Alanciado por to inesperada agonia, o official affrontou o maximo
risco, perpassando pelas guerrilhas que confluiam a Lisboa. As insignias
e a rapidez da carreira acirraram o patriotismo de alguns bravos que o
espingardiaram e feriram mortalmente.

Uns caridosos frades cruzios que seguiam para uma quinta chamada
Cadafaes, nos arrabaldes da Alhandra, transportaram o ferido. Alli, a
peito com a morte, o desgraado venceu-a, quando lhe seria redempo de
maiores penas succumbir.

Apoz longo tratamento, vae-se aquelle homem s, pobre, cercado de
incertezas e perigos. Ninguem sabia indicar-lhe o destino de D. Antonia.
Os amigos negavam-se a acoital-o da sanha da plebe. Por sobre tantos
desamparos, a pobreza antepunha-lhe uma cadeia de adversidades, por
entre as quaes lhe transluzia a consoladora ideia do suicidio.

O pae de Eduardo era portuguez de marca maior, entranhas nacionaes,
ferventes de nacionalismo e odio ao filho amaldioado que se bandera
com jacobinos.

Quando, pois, Eduardo, disfarado em almocreve, lhe appareceu  beira do
leito onde o velho se esperguiava nos regalos de quem dormiu somno de
justo, repulsou-o com vociferaes dignas dos paes romanos que
sentenciavam os filhos  morte, e mais dignas ainda do proverbial amor
patrio dos bracharenses.

--Fra d'ahi, herege!--exclamou o ancio, estirando os braos  cara do
filho.--Pegaste em armas contra a nao de Affonso Henriques--proseguiu
o honrado portuguez com ira azedada pelas reminiscencias historicas--tu!
jacobino! ousaste desembainhar a espada contra a tua patria! contra a
patria de Affonso Henriques, que venceu cinco reis mouros, com auxilio
de Jesus Christo, que lhe fallou no campo de Ourique! Vae-te da minha
presena, maldito, em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! No
me tornes a pr o p em casa, sem te limpares com uma confisso geral,
impio, atheu!

Aturdido pela apostrophe e coberto de lagrimas, Eduardo ajoelhou,
referindo os infortunios que o levaram por necessidade e gratido a
servir o seu libertador. Com o soccorro da me compadecida, conseguiu
commover o velho at ao extremo de prometter-lhe no o denunciar 
justia, com a clausula de que iria sumir-se nas Alturas de Barroso em
casa de parentes.

Foi; mas poucos dias permaneceu na soledade agra de uma serrania onde o
desejo de morrer o debruava sobre os despenhadeiros, implorando  sua
desgraa a coragem do suicidio. A coragem! Porque no hei de, acostado a
moralistas de grande tomo, chamar-lhe antes cobardia?  porque ha mister
enorme corao quem dentro d'elle se abre um tumulo.  porque vae
esforada valentia n'isto de um infeliz se aniquilar com a certeza
de que em vez de lagrimas, lhe pesar sobre a memoria a censura dos
felizes, o horror dos espiritualistas catholicos, e a nota da
demencia--suprema injuria a essas pobres almas que a divina justia no
mandaria s penas eternas sem lhes descontar os terribilissimos
paroxismos, aquelle tormentoso debaterem-se nas prezas da desgraa,
aquelle relano d'olhos ao co e o grito d'alma n'esta dilacerante
pergunta: Quando te ped eu a vida,  Creador?

Eduardo desceu um dia das Alturas de Barroso e entrou no Porto demudado
e vestido por maneira que o no poderiam suspeitar. Acercou-se do pteo
de um irmo de D. Antonia de Portugal, e conversou com os palafreneiros,
occasionando perguntar novas da fidalga. Disseram-lhe que ella estava em
um convento de Coimbra, onde a encerraram depois que o marido acabra na
batalha de Vimieiro.

Dias depois, n'aquelle anno de 1809, o marechal Soult entrou no Porto. O
capito vestiu a farda e apresentou-se ao general.




IV

    Il est plus glorieux de tomber gnreuse,
    D'embrasser en partant ceux qui nous font souffrir,
    De fluir sans remords, comme une femme heureuse.

         MAD. GIRARDIN.--_Posies._


Prescinde o leitor que lhe historiem os sabidos desastres do exercito
francez at ao dia em que Massena, o abatido anjo da victoria, entrou
em Coimbra.

Eduardo Pimenta correu  portaria do convento, e perguntou por D.
Antonia de Portugal, a quem desde o Porto envira cartas repetidas que
nunca ella recebeu das religiosas, testemunhas impassiveis do lucto da
supposta viuva e dos trances de agonia to demorada.

Quando o official perguntou por sua mulher, a porteira, tremente de
pavor, disse que a snr. D. Antonia estava moribunda. Lanou-se Eduardo
contra a porta, com supplicantes lagrimas, j a repelles de raiva,
bradando que lh'a abrissem. As freiras terrorisadas capitularam em
avisar a reclusa de que seu marido a procurava.

Estava D. Antonia, seno moribunda, prostrada nos ultimos esvahimentos
de pthysica. Disseram-lhe que a buscava seu marido, e ella cuidou
que ouvia uma voz a dizer-lh'o, como tantissimas vezes a ouvira nos seus
delirios, antes que as ultimas golfadas de sangue a privassem do prazer
de delirar. Mas, como aquella voz se repetisse por bocca de algumas
religiosas que mais caritativas lhe velavam a enfermidade, Antonia
sentou-se de golpe no leito, e circumvagou pelas faces de tantas
mulheres os olhos torvos, no de lagrimas, seno do vo da morte.

Entendeu-as, convenceu-se, acreditou, porque a Virgem celestial lhe
tinha segredado que seu marido no era morto. As madres, com quanto
crendeiras em raptos e vises asceticas, julgaram-n'a delirante quando a
viram ajoelhar com muita fadiga, e contemplar a imagem da Senhora das
Dores,  qual dizia com anciosas intercadencias: Fez-se o milagre, Me
Santisssima! Eu bem vi que os vossos labios se moveram hontem, quando eu
me arrastei at junto de vs. Elle vive!... mas eu... vou morrer...
morro n'este instante,  consoladora dos afflictos, se me no daes
algumas horas de vida em troca de tantas dres, e de morte to custosa
nos meus annos, com tanto amor e esperanas a morrerem comigo! Outro
milagre, Senhora! Deixai-me vl-o... vr o meu esposo!..

E orou uma prece inaudivel, com sorriso de esperana a embellecer-lhe as
lagrimas. Depois, lanou-se do leito aos braos d'uma religiosa,
exclamando:

--No morro... no quero morrer assim! A Virgem Santissima quer que eu
expire abenoando todos os algozes, e beijando todos os instrumentos
das minhas torturas... Chamem as pessoas que mais me despedaaram... Eu
quero chorar nas mos onde houver signaes de sangue do meu corao...
Vistam-me... amparem-me... E, se eu morrer agora, levem-me assim morta
onde estiver Eduardo, ouviram?

Balbuciadas poucas mais palavras inintelligiveis, D. Antonia inclinou a
face ao seio de uma novia, e immudeceu, ressumando da fronte e das
palpebras um suor frio.

--Estar morta?!--perguntavam-se as freiras quando nos dormitorios do
convento reboava grande alvoroo de passos e gritos.

Os sacrilegos e algum tanto romanescos officiaes francezes, que tinham
acompanhado o seu camarada ao mosteiro, no lhes soffrendo o animo a
demora da reclusa e a impaciencia do esposo, intimaram arrogantemente a
porteira a franquear a porta. Como ella se negasse, esconjurando os
depravados hereges, e sacudindo o hyssope da agua benta contra as
paredes, uns francezes espadados pozeram hombros contra as portadas em
quanto outros escavacavam a roda a cutiladas, ou esgaravam  ponta de
sabre o crivo dos palratorios. Desacatos tamanhos e tanto para lastima
eram crime vulgar e habitual em taes sujeitos, vezados desde 1792 a
profanarem conventos e a matarem freiras, principalmente as velhas.

Passadas de sensato horror, as religiosas abriram a porta. Eduardo foi
quem primeiro transpoz o limiar d'aquelle pombal de aves do empyreo,
que apenas tinham de mulheres o receio de serem tratadas menos ao
espiritual do que se usa com as jerarchias celicolas. Era, ao mesmo
tempo, mavioso e compungente vr como aquellas abelhas da divina
ambrosia volteavam e zumbiam, ao darem tento dos zangos francezes! Se,
por mofina sorte, colmeia to do co, favos amellados com essencia de
quantas flores perfumam cenobios de novias, se--diga-se ao
claro--aquellas raparigas cahissem nos colmilhos de tamanhos canibaes,
com que vergonha nacional e minha no contaria eu aqui o escandalo!

Ainda bem que o decoro d'esta minha terra, n'aquillo como no restante,
ha sempre uma providencia que o salva illeso.

As freiras, pelo menos, salvaram-se d'aquelle inferno que lhes andou a
chammejar por perto dos vos e dos escapularios; todavia, o alarido e
corrimaas que ellas faziam no claustro, accusariam de incontinentes os
gallos, (aqui a palavra _gallos_ no  contingencia de capoeira) se
ellas mesmas no confessassem depois ao bispo e s familias que os
camaradas de Eduardo Pimenta haviam procedido mais castamente do que era
de esperar de atheus, sem lei, nem rei, nem roque.

E disseram verdade.

Vem aqui a ponto sahir com uma defeza, embora serdia, do exercito
francez, no tocante a ominosos attentados contra mosteiros portuguezes,
segundo consta d'uns poemas calumniosos que ahi correram, quanto
javardos correm por lameiraes, e ainda sujam as bibliothecas de
alguns collectores de sordicias. Exceptuado o drago que embaciou o
cristallino pudor da menina de Alemquer, no me chegou noticia
authentica de outro aggravo feito por parte da Frana  honra das nossas
patricias.  regalo--no ?--poder a gente escrever isto, e, por isto
mesmo, asseverar que na construco das geraes sequentes a 1808 no ha
gallicismo notavel que eu saiba. No obstante, dizem praguentos que as
joldas invasoras dos mosteiros arrebanhavam baixellas, pinturas, joias
d'arte, e pospunham com desdem joias da natureza, as esposas do
cordeiro. Aqui ha acinte menoscabador da belleza das nossas freiras,
sendo certo que n'aquelle tempo as havia peregrinas, primorosas, dignas
patricias d'aquella Marianna Alcoforado, conventual em Beja, que to
celebrada formosura e espirito deixou na Europa em cartas ainda hoje
relidas com d, admirao, e somnolencia.

 imitao d'esta deviam ser as cento e vinte que esvoaavam dos
dormitorios para a claustra e da claustra para a crca, do mesmo passo
que Eduardo e os seus honestos amigos seguiam a porteira em direitura 
cella de D. Antonia de Portugal.

Quando o marido da desmaiada senhora assomou  porta, as freiras
conclamaram to rijo grito que a enferma retranziu-se espavorindo os olhos.

N'este lance, os braos, que a sustinham, eram j os d'elle, cujos
labios, crispando estremecidos de angustia, balbuciaram:

--Esposa da minha alma!... Mataram-te... Fui eu quem te matou!... Oh!
falla-me, querida filha!... No me conheces, Antonia?...

Quando esta e outras exclamaes iam avocando a razo da pavida
agonizante, a prioreza chamou fra da cella as freiras testemunhas do
trance doloroso, e observou-lhes:

--No assistam a essa diabrura! Venham comigo ao cro pedir ao divino
esposo que despene d'esta vida a alma da peccadora, que veiu dar
escandalo n'esta casa.

--Assim , nossa madre!--obtemperou a escriv, offerecendo uma vez de
simonte  madre boticaria, e olhando de esconso contra um official que
lhe careteava enviezando o beio de baixo at cobrir a ponta do queixo.

O verso e o reverso das coisas d'este planeta, leitor philosopho!

Dentro da cella, agonias que as lagrimas afogavam no silencio; c fra,
a irriso, a fara, a jogralidade que a critica descobre  beira das
grandes dres,  beira at das sepulturas!

Mas ao p da sepultura de Antonia de Portugal, no templo de S. Salvador
de Coimbra, se no havia preces nem olhos lagrimosos, tambem no passava
o motejo sacrilego. Ahi moravam o silencio, a soledade, e a mudez do
esquecimento que deve ser nas almas idas e saudosas d'esta vida um
chorar sem consolao no seio da eterna gloria.

Estava pois resalva das borrascas a luctadora vencida e ao mesmo
tempo victoriosa; que morrer assim  triumphar.

A presena inesperada do esposo, que ella considerava morto, foi o
osculo santo do anjo que desde muito lhe condensava a treva para que um
lampejo final lhe abrisse o dia da perpetua luz. Aquella immensa alegria
reviveu-lhe o corao, galvanisou-lhe as potencias da alma entorpecidas,
restituiu-lhe por momentos a plena vitalidade; todavia, aniquilou-lhe o
corpo subitamente arrefecido nos braos de Eduardo.

Do mosteiro de Santa Clara sahiu o cadaver sobraado por aquelle homem
que relanava  volta de si o olhar sffrego da posse da esposa morta.
Quando elle, vagarosamente, passava no longo dormitorio, ouviu o
murmurio das freiras que rezavam psalmos no cro. A desgraa faz
prodigios de f, desvarios de crena que seriam galardoados com
milagres, se os actos da omnipotencia divina se pautassem pela regra do
nosso entendimento. Eduardo, accso em ardente f, escutava o soturno
rumor das vozes, e orava em espirito com os olhos fitos nos do cadaver
ainda no fechados. O infeliz pedia a resurreio d'aquella mulher,
dobrando os joelhos, e inclinando a face sobre os seus labios
alvacentos, como se esperasse sentir-lhe o halito dos pulmes revividos.

Instaram os officiaes, que o acompanhavam, para que lhes confiasse o
cadaver; mas, no conseguindo desabraal-o da morta, ajudaram-o a
transportal-a ao quartel de um d'elles, que se incumbiu do enterro.

Ao descahir da noite em que D. Antonia foi sepultada, soaram os clarins
a reunir. Massena ordenra um movimento sobre Condeixa depois de se
deter em Coimbra tres dias que malograram todos os seus planos. Eduardo
Pimenta, que servia no quartel-general de Pamplona, recusou acompanhar o
exercito.

Os seus amigos propriamente lhe deram voz de preso, em nome do principe
de Esling, e o levaram  fora de ao p do cadaver j amortalhado.
Commovidos pelas supplicas, concederam-lhe que muitas vezes retrocedesse
a beijal-a no rosto, j quando a passavam para o esquife.

Fechada a sepultura, e feito o silencio do esquecimento  volta d'ella,
ninguem diria que vida assim dilacerada podsse acabar por maneira to
singela!

Morrer! Que suave desfecho, se o desfazer-se a vida a desfibraes
lentas no custasse tanto! E, se Deus dispensasse as torturas do corpo
aos que em si j sentem o ingente supplicio da alma, a sua divina
justia nos deixaria melhormente comprehender os liames que prendem a
terra ao co, a creatura ao Creador, o espirito do homem perecivel 
insuflao do grande espirito immortal...

No sejamos mais especulativos do que foram os indifferentes que viram
passar o esquife de Antonia, ao mesmo tempo que Eduardo marchava sobre
Condeixa.

Ahi fica esboada a biographia do official que Venceslau Taveira
encontrou em Santarem.

Ai! se elle ento morresse! Que tragico vulto na legenda dos amores
desgraados! quantos anjos tristes, nascidos em almas de poetas, iriam
deplorativos esfolhar uma rosa de cada primavera na sepultura d'aquelles
vinte e quatro annos! Quem cuidra ento que os dons celestiaes da alma
d'este homem se esvasiavam todos em lagrimas, e no fundo d'esse peito
germinavam os embries de vicios que resvalariam  derradeira infamia!




V

                    Ah Senhor,
    Amor sejais vs de ns
    E no haja amor com dor.

         GIL VICENTE.--_Faras._


No corao juvenil e compassivo do fidalgo beiro a historia d'estes
amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda no
padeceram.

Cuidam que a dr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores
perfumadas da compaixo quando lhe orvalham lagrimas alheias? No 
absolutamente verdade. Os muitos infelizes so por via de regra os menos
sensiveis. Os desgraados so egoistas. No sabem, no podem, no querem
consolar, porque se julgam credores das consolaes dos outros.

Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende  condolencia e
amiserao dos que choram. O homem que ento nos contrasta a nossa
alegria com lagrimas, e os hymnos de graas  Providencia com
blasphemias, assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos
abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da
escureza e avidez do desditoso que nos d a entrever o mal, nem sequer
sonhado nas nossas noites serenas. Ento  o compadecerem-se de infantil
d umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres
do seu destino.

No ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixo da heroina de Virgilio
que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.

So peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi
est dentro  a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal 
necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio
herdado, obra, no sabemos se divina, se diabolica da serpente do
paraiso, d-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As
lagrimas com que intentam amollecer-nos so como outras que j choramos
sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiana
nos homens, e--quantas vezes!--da f em Deus. E, se esta sublime
palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances
em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em ns. Devorem-se,
salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religio no lhes alvitra
melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Plato. Nem
ns podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao corao
apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida,
ignorando-lhe as condies durissimas, o terrivel desdem com que
adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalaes homicidas.

Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeioou-se-lhe com
estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a
providencial indemnisao  desventura do moo repulso dos braos do pae
para os braos da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle,
velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres
mancebos que se espantavam de tamanha devoo e to desusado sacrificio
a um desgraado vulgar.

Por maro de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por
Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraou Venceslau, e disse-lhe
tranquillamente:

--Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde j de
mim, que no quero vr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos
gritos dos agonisantes.

Pouco depois, escaramuraaram as avanadas dos dois exercitos. Ao
primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do psto muito distante
dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro
da cerrada bruma da polvorada. Em breve lano, o impetuoso official
cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu  sua
beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as
feridas.

Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dr; faltava-lhe, porm,
vigor para repugnar ao curativo.

Um cirurgio francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era
mortal. O ferido ento abriu um riso de raiva  desgraa de sentir-se
viver, e murmurou:

--No sou um desgraado vulgar...

E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:

--Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua
me, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vs, Taveira?
A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma
d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

No  to raro morrer quem ardentemente o deseja?

Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a
metralha das pelejas varria as victimas a rdo. Sei d'outros que
procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam
contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no
proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente  medicina.
E no morreram!

A morte praz-se em destillar s gotas a peonha do seu calix na garganta
onde fervem e affogam soluos, se as lagrimas da saudade derivam
sobre o suor glido da agonia. Foi a morte creada  porta do paraizo,
quando a nossa archi-av comeu o pomo. Creada como castigo, o seu
officio  matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os
liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para
que a seiva da esperana os reforce, e depois a angustia lateje n'elles
em redobro. Como castigo, misso que o Creador lhe deu, a morte seria
indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas,
a paragem do corao, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo--morrer
no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas
as estrellas--seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o
logrado marido fizeram ao Creador?

No.  morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio
sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te,  razo!) no
mata, mas tortura.

Ahi est um corao de pae a arquejar em soluos de moribundo. Ha tres
dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha
visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os
cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde
vae diluida a derradeira claridade das pupilas baas. Pois tres dias no
bastam  macerao do holocausto e s dilicias do sacrificador que sahiu
do paraiso com o peccado!? No. Aquelle homem est assim penando, ha de
assim penar mais tres, mais seis, mais nove dias, porque expia pelo
corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.

Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria
o mundo, se a minha alma s podsse entender vossa fora nas dres, nos
medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos
pobrinhos sem enxerga!

Afaa-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear
 volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens
variegadas.  penso da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer
pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para no pensarem.




VI

    Aperta-lhe a sorte ingrata
    O lao em que os ps lhe enreda.

         THOMAZ RIBEIRO.--_A Delfina do Mal._


Eduardo Pimenta, levado em braos a casa d'um aldeo que no estremava
entre jacobino e portuguez, pensou que seria alli miseravelmente
esfaqueado logo que os patriotas lhe descobrissem a paragem.

No se esquivou Venceslau ao perigo de ser sacrificado ao amigo que
primeiro o captivra com as dres da alma, e agora com as da
enfermidade. Ambos se haviam despojado das fardas suspeitas e vestido 
moda dos camponezes, inculcando-se guerrilheiros fieis ao throno e altar.

Como lhes minguassem recursos, mandou o beiro a sua me um portador com
carta bem commovente  piedade. Respondeu-lhe a me que era fallecido o
pae, e accudisse elle a receber o ultimo suspiro d'ella que o j sentia
na garganta.

Sahiram os dois amigos dos arrabaldes de Pombal, e acantoaram-se na casa
dos Taveiras, onde corriam maior perigo, porque o corregedor de Lamego
perseguia os jacobinos, no com alada morosa, mas com a justia
summaria dos sicarios.

Alm d'isto, bem que D. Antonia de Portugal, por sua parte, houvesse
dado a vida ao odio dos parentes, estes cavalheiros no eram da casta
dos mos coraes que se contentam com a vingana de fazerem cahir uma
campa sobre a victima dilacerada. Duas campas  que elles queriam para
que a sua posteridade podsse apontar para ellas, quando outros
aventureiros ousassem pr olhos no rosto defeso das mulheres de raa.

No rasto do plebeu de Braga farejavam espertos assassinos, protegidos
pela justia. Os sustos rodeavam j a casa senhorial dos Taveiras,
atterrando a me de Venceslau a ponto de bastarem poucos dias de
afflico a dar-lhe o descano eterno.

Como filho segundo, pequena legitima cobrou Venceslau. O morgado,
receoso de compartir no perigo dos dous perseguidos, antecipou ao irmo
o valor do patrimonio, aconselhando-lhe a emigrao.

Entraram os dous expatriados por Hespanha em 1813. Da Corunha passaram a
Falmouth em companhia do cruzio D. Jos Liberato Freire de Carvalho, que
depois em Londres aproveitou a habilidade de Taveira, contractando-o
para fazer traduces no periodico intitulado _O Investigador_.

Do seu patrimonio, e ganhos nas lettras, repartia o moo com o seu
amigo, adoando-lhe delicadamente o agro da dependencia, com a clausula
de que eram emprestados os recursos que lhe offerecia.

Seis annos assim viveram, durante os quaes Eduardo no despiu o lucto de
sua viuvez, nem desfitou os olhos scismadores de uma estrella por onde
lhe transluzia o que quer que fosse, vago e impalpavel, semelhante a uma
alma.

N'este enlevo e lucto bastante insolito, e no vulgares em poeta seis
annos viuvo, gastava o homem sua actividade, distrahindo-a das
preoccupaes dos outros emigrados.

Com o fim de o levantar de uns quebrantos quasi ridiculos, Venceslau
invocava-lhe o animo para os deveres que lhe impunham a infelicidade dos
seus conterraneos e a sua propria de desterrado. Baldados esforos.
Pimenta era sempre o inconsolavel.

So pouquissimo interessantes os pormenores da vida d'estes emigrados,
no correr de sete annos. A pobreza por vezes venceu o trabalho assiduo
de Venceslau Taveira, esponjando-lhe o fel da penuria s chagas da
saudade da patria. A inercia do amigo, motivada pelos crepes sempre
carregados da sua paixo, aggravava as difficuldades do moo laborioso.

Eduardo distanciava-se, quanto a genio, dos martyres, que tm a acta do
seu martyrio nos romances, os quaes no sabe a gente se almoam e jantam
com a trivial estupidez das especies carnivoras a que a leitora ideal
no desejaria pertencer, nem eu. Afra o almoo e jantar, o viuvo
consternado de D. Antonia de Portugal ceava, e recozia tudo ao fogo
interno que o escaldava, retemperando-lhe, ao que parecia, de fino ao
as molas digestivas.  feio d'este, ha muitos sugeitos da mesma laia
que, logo abaixo de um corao abeberado em lagrimas, vos maravilham com
um estomago de gre. Raro conseguem estes infelizes amiserar ninguem com
suas lastimas em verso ou prosa, porque a nediez do musculo os est
sempre a desmentir de modo que o observador incauto cuida que o humor
vitreo das lagrimas  ressumao oleosa do chorume que lhes sobeja. 
mister, porm, no confundir as duas especies, a fim de que a alada
bruta do chylo no leze os phenomenos da psyche--expresso grega que os
gregos no percebiam melhor que Venceslau quando via o seu amigo a
chorar e a comer ao mesmo tempo.

Entretanto, assim que um simulacro de liberdade em Portugal, no anno
1820, amnistiou os portuguezes que tinham servido as ideias da Frana, o
fidalgo da Beira com o sempre melancolico bracharense repatriaram-se.

Protegido por Jos Liberato, e outros liberaes, o intelligente moo e j
notavel publicista offereceu a sua penna a Joaquim Manoel Alves Sinval
que ento redigia o _Astro da Lusitania_.

Notaveis artigos realaram aquelle periodico e o nome do modesto
escriptor, cujos servios  liberdade ainda no bero se contentavam da
gloria de lhe poetisar a infancia.

No lapso d'estes successos Eduardo Pimenta, sempre ocioso e confiado 
liberdade do amigo, ia cogitando em ganhar de salto posio que o
habilitasse a indemnisar os favores do companheiro.

Honrado empenho! suprema e unica dignidade dos ingratos.

Este proposito, porm, no significava louvavel desejo de independencia:
era antes ruim plano de se desonerar da divida de reconhecimento que o
vexava. Sentimentos d'esta especie affectam exteriores de nobreza, e
disparam em villania, se bem os esgaravatamos no barril do lixo humano
que se chama _alma_, a qual se decompe em _lama_, se lhe trocaes as
lettras.

Comea Eduardo a enxergar os arreboes de uma estrella benigna que lhe
destece boa parte das suas escurides.  um contentamento menos mo.
Recebe a noticia da morte do pae.

Este velho, portuguez de lei como viram, typo symbolico da Braga de
1820, patriota acrizolado no recontro com os francezes em Carvalho
d'Este, um dos Codros que tomaram parte no assassinio do general
portuguez Bernardim Freire de Andrade, tal sujeito, a no poder afogar
n'agua benta a liberdade em pessoa, devia morrer apopletico, e de feito
morreu, deixando 1:600 missas  sua alma, e tres solemnes maldies ao
filho. Infere-se d'estes legados que a sua apoplexia no foi das mais
fulminativas; foi um ramo de ar, ou estupor, como a viuva escrevia a
Eduardo.

Alm das missas  alma e das maldies ao filho, o morto deixou bens
rusticos que formavam a mais rendosa lavoira de S. Joo de Nogueira.

O viuvo de D. Antonia no era filho unico. Erguendo-se o melhor que pde
debaixo do pezo da maldio triple, foi a Braga fazer partilhas com o
irmo clerigo, e to intolerante se portou por causa d'um faqueiro de
prata abafado pelo padre em beneficio de uma freira dos Remedios, que
chegaram s ultimas, esmurraando-se sobre o espolio do honrado defunto,
o qual tinha apanhado o faqueiro no embornal cahido do cavallo ferido de
um drago que elle ou outros tinham matado. O pae do clerigo--Deus lhe
perdoe--gabava-se d'isso, e o filho, theologo casuista, no achou em
Bazembo o caso da restituio da coisa roubada a ladro! 1:600 missas
davam ensanchas para maroteiras maiores.

Regressou a Lisboa com quinze mil cruzados Eduardo Pimenta.

O dinheiro influe bastante no espirito, e no resto. Adormece e acorda
melhor quem o tem. A espinha dorsal tem outra casta de aprumo. O olfacto
fareja essencia de violetas em tudo. O corao tem azas. A fantasia 
mais allem. Os olhos comprehendem a fabula dos Argos e dos lynces. Os
ouvidos afinam-se to agudos que, em comparao, a lebre  surda. Cada
gaita de feira sa-nos como a tuba de Oberon.

Sobre tudo, as faculdades do amor urdem romances, tecem-os de lhama de
oiro nas cabeas negras, castanhas e loiras das mulheres lindas, das
feias, das Philamintas, das Felizardas. Todo o p nos intriga, toda a
botinha  de Cendrillon, todo o vestido apanhado com elegante descuido 
naa que nos pesca a alma em lago de aguas cristalinas. O dinheiro faz
isto: quando nos sobram dentes para morder pomos, smente prohibidos a
quem no tem dentes, nem dinheiro principalmente.

Deu que scismar a Venceslau Taveira a transfigurao moral do amigo. A
linguagem mais expedita, a ideia lucida, prismatica, borboleteando por
assumptos que recendiam a rosas, a margaridas, a madrigaes. Emfim,
Eduardo fallava muito de amor, de poesia, de corao, de mulheres, de
muitas mulheres vivas, e de algumas mortas, de Fiammeta, de Fornarina,
de Collona, de Leonor, de Corinna, etc., excepto de Antonia. D'aquella
Antonia, que elle andra sete ou oito annos a procurar no crepusculo das
tardes e no diluculo das madrugadas, d'essa, que se mirrava entre os
farrapos da mortalha e as pranchas do esquife, no dizia nada.

--Que vaes fazer ao teu dinheiro, Eduardo?--perguntou-lhe o collaborador
do _Astro da Luzitania_, rodando sobre a sua banca de trabalho duas
peas que havia recebido pelo servio de um mez.--Empregas esse capital
em officio ou beneficio que te renda um passado modesto?

--Hei-de pensar n'isso...--respondeu desattentamente o outro.--Por ora,
assisto  renascena da minha alma, que esteve atrophiada nos reglos da
desgraa. Estou acordando do lethargo, a reconhecer as commoes, as
alegrias do viver. O cerebro ha de funccionar, quando o corao lhe
radiar o seu calor. Depois pensarei. Mas antes de mais nada... Ns temos
contas, Venceslau. Na emigrao, tiveste a delicadeza de me dizer que me
emprestavas e no davas a subsistencia. A divida principal no t'a pago,
que no posso:  a gratido insoluvel; mas o que  dinheiro quero
pagal-o, no s porque devo, mas porque me sentirei melhor na tua
presena quando t'o no dever.

--N'esse caso, paga. No quero que te sintas mal na minha
presena--disse Venceslau com semblante sereno e severo.

--Sabes quanto ?

--No.

--Calcla.

--Esse calculo pertence  tua pontualidade.  trabalho que est a cargo
d'aquelle que, depois da liquidao das contas, se sentir melhor na
presena do outro.

--Vejo-te muito srio!--atalhou Eduardo.--Offendi-te?!

--Foste apenas pouco delicado comigo. Eu no sou da especie dos credores
que apresentam a conta copiada do livro... Quando em Londres comprava
por um schilling um jantar para ns ambos, nunca lancei  tua conta seis
pence. Afiz-me a repartir com o irmo; no emprestava ao homem que havia
de ser rico. Nunca prev que houvesses de o ser... No meu trabalho no
eras tu pequena parte...

--Eu?! que fazia eu?

--Davas-me animo com a tua mesma ociosidade; redobravas-me o goso de
cumprir o dever de homem, por ti e por mim. Quanto a esperar de ti
retribuio em moeda corrente, no cabia semelhante conjectura no
conhecimento que eu tinha da tua indole...

--Ora essa!...--interrompeu pondunorosamente Eduardo.--Ento figurei de
parasita aos teus olhos...

--No: figuraste de homem engolfado por abysmos de saudade, amortalhado
em luctos de viuvez eterna...--respondeu Venceslau sorrindo.--Quem havia
de prever que sahirias do antro da tua dr, ao fim de oito annos, com o
rosto banhado dos resplendores d'um novo dia? Eu, que ento me julguei
reservado para a suprema angustia de te sepultar envolto no lenol da
nossa pobre enxerga, como sonharia esses quinze mil cruzados que te
auctorisam a perguntar quanto me deves? Quem diria que nas leiras e
montados de teu pae succederia o filho amaldioado? Desandou a roda
funesta, Eduardo. O teu mau anjo era a pobreza. Repelliste-o para as
trevas dos indigentes. Voga affoitamente no mar da vida, que ests em
mar de felicidade. Que tregeitos de impaciencia me fazes, meu
amigo?.... Tem paciencia; escuta-me. Volta o rosto alegre algumas vezes
para o passado. Repara nas lagrimas e angustias em que se desfizeram as
tuas illuses. Olha que est uma sepultura de mulher innocente a servir
de base ao monumento das tuas recordaes. Abre o livro funebre da tua
mocidade, e l os preceitos da experiencia. Toda a desgraa  uma raiz,
que se arreiga dolorosamente na alma; porm, l vem um dia em que a
raiz abrolha flores que parecem de planta abenoada: essas flores so o
escarmento, o desengano, a verdade, a sciencia da vida como ella ,
vista  luz da razo.

--Mas onde vaes tu com essas praticas to bem discursadas?!--perguntou
Eduardo Pimenta, entre risonho e enfastiado.

--Vou entregal-as  tua memoria para que te sirvam de _memento_, quando
escreveres  filha do commendador.

--A filha do commendador? Querem vr que me entroncas na progenie de D.
Juan Tenorio! Temos, pois, uma Anna, a filha do fidalgo de Burgos!...

Venceslau Taveira pz as mos nos hombros do viuvo de Antonia de
Portugal, e disse-lhe com boa sombra e graa affectuosa:

--No achas notavel a coincidencia do pae que  commendador e da filha
que  Anna?... Dize-me agora: que motivos te justificam da reserva com
um amigo de oito annos? Que tinha que eu soubesse da tua bocca esses
amores? Dizias-me, ha dois mezes, que o teu corao era o Lazaro
apodrecido na sua cova; e, como a ideia de Lazaro envolve a ideia de
Christo, o Christo do teu corao defuncto foi o dinheiro. No dou nada
pela vida assim galvanisada por correntes electricas do metal...

Eduardo interrompeu o impertinente amigo com uma cascalhada de riso
secco; Venceslau, porm, carregando o semblante, concluiu:

--Nunca te esqueas de que fui eu quem te apresentou ao commendador
Francisco Vaz e a sua filha D. Anna. Eu disse-lhes que tu, Eduardo
Pimenta, eras homem de bem, e infeliz, sem o haver merecido.




VII

    Desejas conhecer o que s? repara nos outros: tal tu s.

    Desejas conhecer os outros? Olha para dentro de ti, que em ti os vs.

         SCHILLER.--_Poesias._


D. Anna Vaz, a filha do commendador de Santa Christina de
Almudena--commendador, entendam, de velha estfa, aparentado com os
descendentes dos Pelagios e Ordonhos--era creana de quinze annos, quasi
bella, mas, melhor do que perfeita belleza, era boa, candida, innocente,
e triste das saudades de sua me, poetica da sagrada poesia que se curva
a derramar prantos sobre a urna de umas cinzas queridas.

Venceslau conhecera em Londres um irmo d'esta menina, alferes emigrado,
compleio doentia, thico da enfermidade nostlgica, exacerbada por
amor a uma senhora de Lisboa, com quem destinra casar-se, quando os
franceses invadiram Portugal.

Falleceu este moo nos braos de Venceslau Taveira, pedindo-lhe que, se
um dia regressasse  patria, procurasse em Lisboa seu pae, e lhe pedisse
que entregasse  sua promettida esposa o retrato que lhe confiava.

O portador do triste legado cumpriu a vontade do moribundo seis annos
depois.

O commendador acceitou o retrato, e voltando-se para uma senhora, que
estava ao lado de sua filha no canap, disse:

--D. Julia, aqui tem o seu retrato.

Venceslau inclinou-se profundamente diante da querida do seu amigo e disse:

--Era V. Ex. digna da paixo de Antonio Vaz, porque, se a comparo com o
retrato, noto que a semelhana foi j apagada pelas lagrimas. A
formosura da mocidade foi substituida pela formosura da mgoa.

Julia, muito commovida, pediu ao portador do retrato que lhe referisse
as particularidades da vida e morte de Antonio Vaz. Depois, disse ella
que o seu malogrado noivo lhe contava em cartas as virtudes do seu amigo
Venceslau Taveira, e os impagaveis carinhos de irmo com que elle
tentava suavisar-lhe os espinhos da saudade, alentando-lhe com
esperanas o animo quebrantado. Terminada a sensibilisadora
reminiscencia das cartas, proferida entre soluos, D. Julia apertou a
mo de Venceslau; e, levando-a aos labios, apesar do esforo d'elle,
balbuciou:

--Beijo a mo que fechou os olhos do meu extremoso amigo!

Pouco depois, chegou uma sege  porta do commendador, e logo depois
entrou um criado a annunciar que era esperada a snr. D. Julia de
Miranda. Venceslau, obtida licena de Francisco Vaz, deu o brao  dama,
e levou-a  traquitana, reparando ento que o cocheiro e lacaio vestiam
libr, indicativa de familia illustre.

Voltando  sala, contou-lhe o commendador estas admiraveis coisas de D.
Julia:

Era filha d'um desembargador do pao, j defuncto. Herdra trezentos mil
cruzados em propriedades rusticas e urbanas. Tinha vinte e sete annos de
idade, e deixra de ser formosissima desde que a paixo por Antonio Vaz
a desfigurou, mostrando-lhe repetidas vezes a morte no seu espelho o
semblante cadaverico. Mas contou o commendador que, sem impedimento da
decadente belleza, eram muitos os pretendentes  mo de Julia, bem que
no pensar do ironico sugeito, muitos haveria que a tomassem por esposa,
ainda que ella no tivesse mos, to necessarias s formulas
sacramentaes do matrimonio.

Assim comearam as boas e logo familiares relaes do escriptor com esta
excellente familia. Rara noite Venceslau deixava de visitar o agradecido
fidalgo, cujas ideias liberaes a morte do filho perseguido acrizolra.
Fugiam as horas de alegre palestra entre os dois, em quanto D. Anna
estudava as suas lies de musica, para depois, ao fim da noute,
conversar em francez com o jornalista.

Intencionado a divertir Eduardo das suas abstraces penosas, Venceslau
apresentou o amigo, depois de prevenir os hospedeiros a favor da
tristeza taciturna do homem, que parecia assombrado do raio fulminador
da sua mocidade.

Acolheram Eduardo, tanto o pae como a filha, com tanta sympathia e d
que, a poucos dias andados, j o confundiam na familiar lhaneza com
Venceslau Taveira. E esta bella alma alegrava-se quando o via to bem
acceito, e j to outro do que era nas escuras melancolias, pelas quaes
elle se havia feito aborrecer de quantos o tratavam.

Algumas noites concorria tambem D. Julia de Miranda, com o seu capello;
homem de avanados annos, e to amigo da fidalga que dizia idolatramente
que no era capello, mas sim sacerdote d'aquella divindade.

Em um d'esses saros, desconfiou Venceslau que o seu amigo, abeirando-se
do piano em que Julia tocava, lhe passra uma carta. Sobresaltou-o a
suspeita, como se o caso tivesse a importancia d'um delicto contra as
regras da s moral. No espanta semelhante estranheza em homem que
rossava pelos vinte e oito annos sem haver entregado carta de amores,
nem sequer ter sentido a preciso de escrever uma, no intervallo de dois
artigos politicos! A virgindade epistolographica  hoje, e era ento
mais rara que todas as outras.

Aconselhou-lhe a prudencia que, antes de interrogar o amigo sobre o caso
suspeito, obtivesse e certeza, para que as advertencias assentassem na
culpa incontestavel. N'este em meio, chegou a Eduardo a nova da
morte do pae, e por tanto a sahida temporaria do herdeiro para a provincia.

No espao dos dois mezes de ausencia, espiou Venceslau o corao de D.
Anna, e to facilmente quanto era de esperar da candura da menina,
descobriu a saudade no empenho das perguntas e desejos de vr as cartas
de Eduardo.

Alm de que, D. Julia, em pratica ssinha com o jornalista,
perguntou-lhe se o seu amigo alguma vez lhe tinha confidenciado
sentimentos amorosos.

--Muitos e profundos, minha senhora--respondeu Venceslau, despercebido
da pergunta intencional.

--A respeito de quem?

--Da sancta que ha dez annos est no co.

--Ah! eu no perguntava isso...

--Que era ento, snr. D. Julia?

--J vejo que me enganei... Eu referia-me...

-- sua amiga D. Anna Vaz? Respondo que no, minha senhora. Eduardo
Pimenta nunca me revelou, depois que D. Antonia de Portugal morreu,
affectos a outra senhora. Isto, porm, no  desmentil-o, se elle disse
o contrario. Eduardo  to meu amigo que me no confia tal intento, se o
tiver.

--Porqu?--atalhou admirada D. Julia.--Os intentos, que um amigo esconde
de outro, so os mos. Revelar um affecto nobre, honesto e natural, 
prova de amisade. Aos inimigos e indifferentes  que taes segredos no
se communicam. O snr. Taveira, se amasse a minha amiga, duvidaria
revelar to bom sentimento a Eduardo?

--Se Eduardo me houvesse apresentado n'esta casa, eu sahiria d'ella
pretextando um motivo acceitavel, e depois denunciaria a minha
pusillanimidade ao meu amigo.

--Santo Deus! como V. S.  austero!--voltou sorrindo a rica
herdeira.--No cuidei que do estrangeiro se trouxessem regras de moral
to rigorosas!

Venceslau fitou com desgosto o semblante ironico de D. Julia.
Penalisava-o o desconcerto da reflexo, impropria de tal dama, com o
primoroso juizo que elle compozera da sua sensatez.

E ella, que se viu encarada com estranheza, sentiu logo beliscado o amor
proprio, a fibra sensivel da vaidade de parecer moralmente perfeita.

--No me parece--proseguiu a dama gravemente--desdourar-se um rapaz que
estima uma senhora da casa onde o apresentam. Conheo muitas amigas
minhas casadas e virtuosas, que encontraram affeies nobres e dignos
maridos em pessoas apresentadas na casa de seus paes. Pde ser que
d'outro modo se hajam casado muitas; mas eu, se fosse me, estimaria
conhecer os noivos de minhas filhas; e, se fosse noiva, preferiria ouvir
na sala de meu pae a ouvil-o da janella, para a rua, o homem que
houvesse de ser meu marido.

Taveira sentiu-se enredado na dialectica de D. Julia; mas, desatado dos
embaraos pouco menos de melindrosos, objectou:

--Eduardo Pimenta ha de ser sempre infeliz. A enorme desgraa da sua
mocidade foi repello de vento que lhe apagou na alma toda a luz das
alegrias puras. A sombra d'uma martyr no consente que outra mulher,
embora seja um anjo, repouse venturosa no corao onde ella deve ter
deixado a sua imagem, como Deus deixou  porta do eden o archanjo da
espada de fogo.

D. Julia, maravilhada da ideia e da frma, ia replicar, quando Venceslau
proseguiu, abalando-lhe o animo s primeiras palavras:

--V. Ex. amou ardentemente o meu chorado amigo Antonio Vaz. Elle
morreu, e a snr. D. Julia, que no era sua esposa nem devia ao amor das
primeiras nupcias o honrado sacrificio das segundas, guarda  memoria do
homem amado a lealdade que eu respeito e que todos lhe admiram. Ficou V.
Ex. nova, bella e rica; e d'estes tres dons que raras vezes se
conciliam e to desejados se procuram, fez V. Ex. realar o merecimento
do seu holocausto ao amor unico da sua vida, querendo assim que a nobre
alma de Antonio Vaz se gose na bemaventurana da religiosidade com que
V. Ex. n'este mundo se lhe devota. Se a snr. D. Julia me permitte o
comparal-a, Eduardo Pimenta, est em ponto de maior obrigao e fineza 
alma de Antonia de Portugal. O homem que levantou nos braos o cadaver
da mulher lentamente assassinada por amor d'elle, no deve mais apertar
n'esses braos outra, se a essa tem de render os votos e palavras com
que venceu o corao da desditosa que lhe immolou mocidade, gentileza,
nascimento, parentes, contentamento, futuro, e at a memoria hoje em
dia despresada d'esses que ainda se lembram da martyr para a execrarem.

D. Julia, enternecida pelo convulso proferir d'estas vozes, no conteve
as lagrimas. Era n'este sentir grande parte o admirar, em moo tanto na
flor dos annos, um respeito assim fervoroso  consagrao do primeiro
amor, e holocausto perpetuo e por tanta maneira penoso da alma  mulher
amada, primeira e unica.

Vendo-a pezarosa e absorta, Venceslau desculpou-se da crueldade de suas
tristes reminiscencias, e derivou a pratica a outros assumptos,
ageitando-se-lhe bom lano com a entrada do commendador.

D. Julia, entretanto, foi ter com a sua amiga que de proposito se
affastra para dar logar s averiguaes que tanto interessavam ao seu
desassocego.

--Tu vens triste?!--perguntou Anna assustada.

--Triste, no; filha... Venho peor que triste... No vs que chorei?

--Choraste!...  verdade!... Porque?

--Que rapaz  este Venceslau! Bem m'o dizia teu mano. Chamava-lhe elle o
corao de uma creana temperado pela prudencia de um velho sem manchas
na sua vida de moo.  assim...  admiravel; mas Deus nos livre que
todos os paes e noivos se parecessem com elle em escrupulos e severidade.

--Ento que te disse a respeito do Eduardo?... que me no ama?

--No lhe fiz semelhante pergunta, menina. Apenas me adivinhou a teno
franziu a testa, mudou de aspecto, e reprovou que tu amasses um
homem nas circumstancias de Eduardo, viuvo de uma martyr, devastado por
essa grande e unica paixo da mocidade, incapaz de fazer feliz a mulher
que lhe pedisse amor impossivel; emfim, Annica, comparou-o na sua
posio com a minha, para vir a dizer, se eu bem o entendi, que no
deves arrancar o corao de Eduardo  saudade da outra desgraada que
lhe expirou nos braos... Fallou-me de teu irmo, e fez-me chorar...
Olha, filha,  extraordinario este homem! Eu, quando o ouvia ainda
agora, sentia em mim no sei se assombro, se admirao, se profunda
sympathia por elle!

--Mas ento...--interrompeu a infantil menina, como se as admiraes ou
sympathias de Julia no diminuissem nada do seu alvoroo.--Disse elle
que Eduardo no me ama?

--Tal no disse, creana...

--Pois que foi? Eu no entendi...

--Nem admira que no entendas, filha. V se percebes o receio de
Venceslau: diz elle que o amor de Eduardo morreu com outra que elle
amou, e no pde repetir-se comtigo.

Anna fitou os seus fulgurantes olhos nos de Julia, quedou-se abysmada
longo tempo na sua contemplao, e, s depois de chamada pela amiga,
sorriu com mais tristeza do que se chorra, e murmurou:

--Para que me escreveu elle duas cartas a dizer que me adorava como os
anjos adoram a Deus?

--E eu creio bem que elle te adora, minha querida Annica...

--No digas isso... Dize-me a verdade, porque eu...

--Tu... qu, filha?

--Eu perdi a minha alegria, ando triste, no penso seno n'elle; e antes
queria morrer que no o vr mais...

--Pobre creana!... No pensei que o amavas assim!--disse Julia
beijando-a e acariciando-lhe os cabellos.--Pois filha, tem esperana...
As coisas, que disse o Taveira, bem pensadas, importam pouco. Elle
entende a dignidade, o amor e o dever de um modo excepcional. Os
coraes alheios ho de regular-se por preceitos mais faceis e humanos.
Se Eduardo te merecer, e teu pae consentir, que tem que cazes com um
homem que muito amou outra mulher digna d'elle? Peor seria cazares com
outro que houvesse sido mau marido, e quizesse fazer vr isso como
virtude aos teus olhos... Mas... mas se...

--Mas se...--acudiu Anna impaciente da suspenso.

--Mas se teu pae impedir tal casamento? Ainda no pensaste n'isso?

--No...  verdade... Se meu pae impedir... que hei-de eu fazer?...

--Eu sei l, filha! Obedecer a teu pae; que outra coisa ha de fazer uma
menina da tua qualidade? Eu bem sei que teu pae  o fidalgo menos
vaidoso que eu conheo. Tenho-o visto ser egual com todos, e admittir em
sua casa pessoas de baixa extraco sem indagar a procedencia d'ellas;
mas tambem  certo que, uma vez, antes de c vir o Eduardo, me disse
elle a mim que morreria feliz se te deixasse casada com um homem como
Venceslau Taveira... Ah!--esta subita exclamao de D. Julia foi
solemnisada com um bater de palmas significativo de valioso
descobrimento nos arcanos do corao.--Queres tu vr que eu comprehendi
perfeitamente agora as repugnancias de Taveira?

--Sim? que ?

-- ciume, olha que  ciume! O Venceslau no t'o declarou; mas pensou em
te cortejar. Como tem um genio exquisito, esperava occasio de
manifestar-se a teu pae, antes de consultar a tua vontade. Mas eu que
tal no imaginava fui fallar-lhe do teu amor ao outro, e ahi tens a
razo porque elle expoz as extravagantes theorias, que eu nunca ouvi a
ninguem. Pois no  outra coisa, Annica. O Venceslau ama-te, e comea a
odiar o rival. Complicam-se as situaes. Veremos o desfecho d'isto.

--Eu no caso com o Taveira, ainda que o pap me obrigue!--exclamou D.
Anna, batendo o p, e tregeitando uns gestos de mimo, que davam a
lembrar irritaes de menina por amor das bonecas.

--Pois ento, creana--aconselhou Julia com o siso dos treze annos que
levava de vantagem  sua confidente--tem prudencia, no te precipites.
Parece-me que o Taveira, se teve aspiraes, como creio que teve, 
tua mo, sabendo que o Eduardo te namora,  incapaz de prevalecer-se da
estima de teu pae para desviar o outro d'esta casa. Entretanto, 
preciso cuidado. Previne o Eduardo. Escreve-lhe, se no poderes
dizer-lh'o. Que se acautele; que no conte nada; que v grangeando a
confiana de teu pae, at conseguir a intimidade que Venceslau obteve.
Depois, eu te auxiliarei, intercedendo a favor de Eduardo, se houver
resistencia.

Este dialogo precedeu a chegada do viuvo de D. Antonia.

Quando Venceslau Taveira, entre severo e jocoso, lhe feriu o melindre
com as ironias allusivas ao legendario D. Juan e  sacrificada filha do
commendador, j o mysterioso amador de D. Anna Vaz estava prevenido.

O ingrato acceitra as insinuaes offensivas do caracter do seu amigo.
No duvidou serem ciumes os brios, d'outro modo inexplicaveis, do seu
mentor gratuito. D'ahi a ancia de se desendividar a dinheiro, para assim
se emancipar da preponderancia que o seu valedor na emigrao parecia
exercer-lhe na vontade, e mais que tudo no alvedrio dos seus amores.

Em meio d'isto, no animo do bracharense, transfigurado pelos quinze mil
cruzados, operavam-se curiosas perplexidades que o accusam de espirito
destragado talvez pela desgraa da sua juventude. Aconteceu, pois, que
estando elle na sala do commendador Vaz, ao mesmo tempo que D. Julia de
Miranda referia a um advogado presente o bom exito de certo pleito,
d'onde acresciam aos seus bens vinculos no valor de sessenta mil
cruzados, ouviu perguntar o pae de D. Anna ao capello da opulenta
herdeira, em quanto orava elle os haveres da senhora. E o padre,
recolhido alguns segundos, respondeu:

--Por morte do snr. desembargador, a snr. D. Julia succedeu em bens
avaliados pelo barato, em trezentos mil cruzados. Ora, como sua
excellencia no gasta os seus rendimentos, o seu dote cresceu em sete
annos dezoito a vinte mil cruzados. Ajunte-lhe V. S. o vinculo de
Collares, e pde sem receio de errar cem moedas, computar em quinhentos
mil cruzados a casa da snr. D. Julia.

--E que ha de ella fazer a tamanhos bens de fortuna?--perguntou o
commendador.

--Comigo no os levo para a cova--respondeu a dama.--Os vinculos iro a
quem tocarem; os bens livres a quem eu quizer.

Esta resposta rejubilou Francisco Vaz, esperanado que os filhos da sua
Anna viessem a herdar os bens d'aquella que vestira eterno lucto d'alma
por seu filho Antonio.

Mas, ao mesmo tempo, Eduardo Pimenta bascolejava no craneo uns
pensamentos, que no se inculcam por originaes nem torpes; mas que
merecem ser marginalmente assignalados por quem estuda a vida nos romances.

Dizia elle para dentro da sua consciencia:

--Esta mulher convinha-me. Andei muito depressa na declarao 
outra. Se Venceslau conseguir fechar-me uma porta, j sei a qual hei-de
ir bater. Anna inquestionavelmente  uma linda flr; mas Julia de certo
 um fructo cubiavel. Anna  um anjo de belleza; mas quinhentos mil
cruzados...

--Quinhentos mil cruzados--dizia Venceslau Taveira ao commendador, como
se dsse complemento  phrase ou resposta  pergunta mental do
amigo--no bastam para comprar um dia de pura felicidade, se o possuidor
os no depe nas mos da Caridade, segunda me dos orfos, e divindade
luminosa nas almas que a desgraa entenebreceu. Quinhentos mil cruzados
no vingam ajuntar mais uma hora de vida aos que se estorcem nas ancias
da morte, com as mesmas contorses dos que expiram nos muladares e nas
palhas fetidas dos stos.

--Isso  pavoroso!--disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos
circumstantes.

Riu-se apenas o capello, talvez despeitado por vr que um profano lhe
tomava a mo no seu direito de moralisar cerca da inutilidade do
dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamao faceta do interruptor.
Venceslau, porm, encarando-o com boa sombra, respondeu:

--Bem se v que este meu amigo est rico!... A moral dos pobres  sempre
o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a
tentativa do roubo...




VII

    Franqueza e mais franqueza. Assim  que a amisade
    Pde ter durao e dar felicidade.

         VISCONDE DE CASTILHO--No _Avarento_.


Se as sympathias de quem l este livro comeam a divorciar-se do viuvo
de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o
 estima das familias.

Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo,
procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:

--Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou
vr que tudo n'este mundo  imperfeito, sem excepo dos amigos.

Venceslau, ouvido o esperanoso exordio, depoz a penna, recostou-se 
espalda da cadeira, fixou-o com atteno menos cordeal que admirada, e
esperou em silencio.

E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres,
proseguiu:

--Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulao em que
vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a
fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenura, a ponto de
inutilisar a minha aptido para o trabalho, para o dever e para tudo que
 proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a
indignao: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das
tuas liberalidades; a indignao, quando se me pedia esforo
incompativel com a minha amargura. Esta doena moral durou nove annos,
queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o
melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma,
em quanto,  volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam
com o trabalho, ou se acalentavam com esperanas. Entrei na patria,
chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos s familias e
recompensados com as posies e empregos de que se esto gosando. Quiz,
porm, a Providencia que um raio de luz entrasse  noite profunda do meu
corao, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcanaram talvez
da bondade divina que desviasse dos meus labios a taa da desesperao.
Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove
annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza
do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o co que a maldio de
meu pae no chegasse a esterilisar o meu patrimonio. A minha
felicidade parecia recomear, ou antes comeava para mim, quando de
repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que to claro se me
prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me
uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira
outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao
mesmo tempo sinistra viso,  Anna Vaz,  aquelle anjo de resgate que tu
me apontaste na via dolorosa da minha paixo. Venceslau, o teu caracter
 nobilissimo; , mas o meu entendimento no sonda todos os seus
arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de
abnegao que se no descortinam sem grande iniciao de virtudes que
no tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do
commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo.
Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a no devias ter;
outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das
frmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque s homem, porque
s bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua
indole, isto que em mim  assombro talvez se deva considerar
incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas
pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos
do corao. No obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte
porque me no disseste que amavas D. Anna Vaz?

--Porque eu no amava D. Anna Vaz--respondeu serenamente o interrogado.

--Ento amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicao?

--Nem antes nem depois.

--Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. No te julgues abatido
da tua dignidade com semelhante revelao. Se fui teu competidor, a
ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor,
culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos
sentimentos. Conheo o primor dos teus brios; sei que regeitars a
mulher que no teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas
intenes. No pdes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu
palavra indicativa de affeio superior s affeies triviaes das salas.
O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixras o corao
onde deixaste o habito de novio. Os amigos d'elle e teus pasmavam que
sahisse do mosteiro quem to de molde nascera para as frialdades do
claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciaes, no era
natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...

--Que desperdicio de palavras!--atalhou Venceslau Taveira, vencido da
impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforos de cortezia.

--Eu j sabia que principiava a cansar a tua atteno--replicou Eduardo,
dissimulando a custo o dezar.--O que tenho que dizer-te  pouco mais,
todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mos a inabalavel
resoluo de desviar o espirito d'essa mulher que  causa innocente dos
nossos primeiros desgostos, e peo  tua bondade que me absolvas da
culpa, se delinqui, no te adivinhando. Se eu souber ou podr descobrir
que o ausentar-me da casa do commendador te  aprazivel, mais grato me
ser a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as
foras da minha honra  a imputao de rival do meu maior amigo.

--Respondo--voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu
artigo.--No amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia
que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de
melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama,
paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens corao e brios, se crs que
esse amor  luz para durar e no relampago para deslumbrar, apagar-se e
tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador
estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe ser agradavel
conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouo dizer que elle as no tem; mas
sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te 
felicidade, se a procurares quem da opulencia. No sei que mais deva
dizer-te sobre o ponto.

Eduardo no redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e
intallador na garganta do homem. Preparra-se para outro desfecho.
Contava com lances irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do
commendador. A situao por tanto era a mesma, era boa, mas elle
queria peoral-a. Venceslau no amava D. Anna; mas elle, para acerbar o
trago do seu absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o
corao ao seu tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e
recomear o seu ir-se d'olhos no co pelas regies sombrias da saudade
immortal.

Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no
pateo d'um palacete s Amoreiras.

Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos  traquitana;
e j na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.

--Est aqui, snr. Pimenta!--exclamou Julia.--Procura-me ou vae de passagem?

--V. Exc. vae sahir; voltarei, quando lhe no for to incommodo.

--No, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse
jantar com a minha Annica; mas, como no sou esperada, no receio que
ella se queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.

Eduardo deu-lhe o brao, e entrou pela primeira vez nas magestosas e
severas salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como
nota) de ter n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora,
condemnados ao supplicio por seu pae--acquisio, a das alfaias,
legitimamente feita, por ter sido um brinde do marquez de Pombal ao
ministro que, em particular e no por sentena, incumbra os tres
carrascos de mostrarem previamente  marqueza de Tavora, D. Leonor,
os supplicios reservados para o esposo, filho e parentes.

Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito,
e por esta maneira respondeu  curiosidade de D. Julia:

--Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...

--Foi talvez--interrompeu a dama--felicital-o por ter sido eleito
deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. No sabe
quanto folguei com esta prova dada ao talento e  virtude d'aquelle
rapaz! Deve-o a si,  sua dedicao, e a nenhuns protectores.

-- verdade, minha senhora, Venceslau  um complexo de excellencias que
ha de ir muito longe, se a distinco  carreira em Portugal. Fui l;
mas, snr. D. Julia, o meu espirito ia to preoccupado d'outro assumpto
que nem me occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex. consente-me que eu seja
rasgadamente franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?

--Oh! pois no!

--D-me a honra de eu a considerar minha amiga?

--E sou deveras, snr. Pimenta.

--E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma
irm?

--Assim  que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.

--V. Ex. tem n'essa conta a snr. D. Anna Vaz.

--E muito no intimo da minha alma. No lh'o disse ella?

--Raras vezes tenho trocado duas phrases com a snr. D. Anna; mas
facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do
desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares
affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abrao do
bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava cho da patria; o co era
pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me
eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha
lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a
patria na alma e no corao. Repulso das caricias da familia para os
braos d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao
mesmo tempo, me vi viuvo e orpho. Arrastei o meu lucto, oito annos de
emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dr pungia-me mais, porque
no achei ninguem que me dsse um peito onde encostasse o rosto coberto
de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos.
Abominei-me pela cobardia de viver...

--Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...--interrompeu D. Julia,
retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella
bem discursada elegia.

--Venceslau--tornou o lastimado Pimenta-- um caracter nobilissimo;
porm n'elle as operaes reflexivas e frias da razo predominam as
outras faculdades. No sei se elle  capaz de grandes paixes; mas
experimentei que as paixes alheias no o desvairam das linhas que
pautou aos actos do seu bem ordenado juizo. Venceslau consolava-me
com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fra do
ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me
baldeavam a alma por quantos golphos se abrem aos ps de quem uma vez
tomou nos braos o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou
debaixo da enxada de um coveiro.

N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha
ante si o phantasma de Antonia, no como appario do anjo consolador,
mas sim a reprovar-lhe a invocao da sacratissima memoria para o
entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamao tragica.

D. Julia, d'esta feita, no pde estancar duas lagrimas, signaes da
enternecida admirao que lhe estava entrando na alma pelos desastres de
to sensivel quanto infeliz moo. E elle continuou, guardadas as pausas
da arte scenica:

--Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz,
dizia-me uma voz secreta que este passo de to simples natureza seria na
minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos--o
que se fechou e outro que se abre.

--Porque?!--atalhou D. Julia.

--O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes
desgraados...--a sombra do anjo negro que esvoaa  volta de mim, e s
vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra
de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex. se o meu presagio era
chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas
senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do
primeiro abril do corao; na face da outra havia uns toques de dr, a
pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de
estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V.
Ex.; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr. D. Anna Vaz.
Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem j viu muita alegria
de repente morta, e no viu ainda resurgir aurora de dia bonanoso para
quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade.
Contemplei-as, e disse comigo: Aquella que sorr no me comprehenderia;
aquella que j chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia
comprehendel-a eu.

D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que
sensiveis  fulgurao penetrante dos olhares de Eduardo. E logo,
inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:

--V. Exc. concedeu-me liberdade de irmo... recorda-se?

--Sim...

--No me est accusando no silencio da sua alma?

--De qu?

--Nem me accusar?...

--Posso eu prever at onde iro as suas confidencias?

--Esto em principio, minha senhora... no tardo a concluil-as...
Mas...--disse elle com suspensivo receio, adocicando o aranzel 
feio de galan timido:--No semblante de V. Exc. ha uma alterao que
me est opprimindo...

--Isso  illuso de V. S.; mas no se admire, se me v mais triste...
Eu no posso ouvir friamente referencias s desventuras que V. S. no
ignora...

--Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro
de emigrao, aquelle gentil espirito a quem V. Exc. est honrando com
esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixo far estancar.

A este tempo, D. Julia embebia no leno as lagrimas e abafava os soluos.

--Dr respeitabilissima! corao fechado ao alvorejar de
esperanas!--proseguiu Eduardo enfaticamente.--Como ousaria voltar eu a
pr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a
teriam visto e amado, snr. D. Julia! quantos labios se teriam cerrado,
afogando as temerarias revelaes d'um amor vehemente! Quantos pensariam
disputar  memoria de Antonio Vaz morto o corao da sua esposa
promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no co! Eu
no! e todavia...

D. Julia fez um gesto de antjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir
todos os gestos de senhoras, no me atrevo a certificar que fosse
enfado. Era um mover-se altivo de cabea e um alar de olhos com um
franzido de fronte--coisas que a gente v nos palcos e nas salas,
sem decidir onde o movimento obedece  rubrica, ou  natureza.

Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu,
principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre,
disse:

--Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.

--No se enganou, minha senhora...

--J sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem
declarado nas suas cartas...

--Sem duvida...

--E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos
quinze annos.

--Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...

--Que infortunios!.. V tudo to negro, senhor Eduardo!...

--Como hei-de eu dizer a V. Ex. que vou fugir da sua amiga, 
semelhana de quem foge d'um segundo abysmo?

--Fugir!... que ingratido!...

--E que injustia me faz, snr. D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma
invocada podsse descer do co a depr contra essa dolorosa
iniquidade!... Eu, que nem pude ser ingrato a uma sombra!...

--Se no  ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor extremo,
e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem o
obriga a fugir?

--A honra.

--Pois semelhante amor deshonra-o?

--Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex. sabe-o.

--Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do
cavalheirismo...

--Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em
funesta hora, apresentado.

--No tenho a certeza de que elle a ama...

--Mas attribuiu a ciumes a m vontade com que elle me via bemquisto da
amiga de V. Ex.

-- verdade, suspeitei ciumes; mas V. S. mais de perto e com melhor
percepo lhe ter sondado o espirito...

-- insondavel... Disse-me que a no amava; mas tambem me no soube
dizer porque eu no devia amal-a.

--E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S. de amar a
minha innocente amiga!... No sei qual dos dois  mais excentrico!
Pobres mulheres! V l uma alma dar-se infantilmente a um corao frio
que traz o seu amor n'um prato da balana, e uns problematicos pontos de
honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga 
conciliao cavalheirosa de V. Sas.? Ai! felizes aquellas que no
amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de corao, fechem
os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de
entender o fim da sua visita--continuou D. Julia com mui senhoril
compostura e gravidade.--Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...

--No, minha senhora--accudiu Eduardo--o infortunio  conciliavel com a
delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc. de tal
commisso, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e no
n'esta sala onde V. Exc. me est honrando, e soffrendo com mais que
extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga at que
ponto o que devo a Venceslau e o que devo  filha do snr. commendador
Vaz podem congraar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...

E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha
fixidez, e ajuntou:

--Vim pedir-lhe a sua amisade...

--Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.

--No tenho...

--No tem? outra singularidade! Porqu?!...

--Porque V. Exc., prsa sagradamente  memoria de Antonio Vaz, no pde
ser verdadeiramente amiga do homem que, a no poder merecel-a, quereria
ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.

E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mo.

D. Julia no respondeu seno palavras balbuciantes, ou porque estivesse
digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse
passada do imprevisto desfecho do dialogo.

Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era o seu com a
face encostada  palma da mo direita, relanando a espaos a vista para
um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando  copia do
ao se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil
moo lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?

A gente sabe l o que as senhoras dizem aos espelhos!...




IX

    A desgraa no os tomar de assalto. Bom  esperal-a, para que a
    alma se lhe affaa, e o supportal-a seja menos exulcerante.

         LUCIANO,--_Da Astrologia._


D. Julia no se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os
cavallos ainda escarvavam as lagens apostos  traquitana. Sahiu, e foi,
como tencionava, a casa do commendador Vaz.

--Olha que estou afflicta, Lulu!--exclamou Anna, atirando-se-lhe aos
braos.

--Afflicta! que ?

--O pap, hoje depois de almoo, ficou ssinho comigo, e esteve a
dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito
fidalgo, e que ainda havia de ser um grande homem em Portugal.

--E depois? aposto que te fallou em casares com elle?

--Isso mesmo... J viste infelicidade assim?

--Ento o Venceslau pediu-te?

--Eu sei c! Talvez... No sei... O pap nada me disse, seno isto: que
eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.

--E tu, fizeste biquinho? choraste?--voltou Julia, rindo.

--Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o pap, vendo que eu no
respondia sim nem no, esteve a olhar para mim com os olhos mal
encarados, e disse-me: dar-se-ha caso que a tua cabea tenha lido
alguma leviandade? Anna, v l o que fazes e o que tens feito. Com teu
pae no ha segredos nem disfarces. E, depois, disse j muito zangado:
Respondes ou no? Se a tua boa estrella te dr por marido Venceslau,
agrada-te este casamento? Eu que havia de responder, Lulu? Dize l, tu
que respondias?

--Eu sei, filha!.. essas respostas s sabe dal-as quem se v nos apertos
de taes perguntas. Respondeste que sim?

--Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia
o que o pap quizesse... Elle ento deu-me a beijar a mo e sahiu; e eu
fui chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o pap, bateu-me 
porta, eu limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a
lr. Disse-me elle ento que ia dar ao Venceslau os parabens por ter
sahido deputado s crtes; e tornou a fazer-me a mesma prgao das
virtudes e talento do Taveira, dizendo que elle era deputado aos vinte e
oito annos, e seria ministro de estado antes de ter quarenta. Ora que me
importa a mim c isso? no me dirs? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou
desgraada! Foi Deus que te trouxe. Tu has de valer-me, has de
aconselhar-me, sim?

--Socega--respondeu Julia.--Se o teu casamento com Venceslau depende da
vontade do noivo, ests tu bem.

--Sim? conta l o que sabes!... que sabes tu, Julinha?

--Sei que Venceslau no te ama.

--No? ai que alegria! quem t'o disse?

--O Eduardo.

--Sim? viste-o hoje?

--Esteve em minha casa.

--Esteve? que foi l fazer? Eu no sabia que elle ia l!

--Foi contar-me o que passra com o Taveira a teu respeito. O amigo
affirmou-lhe que no teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar
d'isso, desconfia que sim...

--Oh diacho! isso  mo?

--O que  mo?

--Se o pap lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que
sim... E depois? ai! que m sorte a minha!... Que desgraa!

--Que lamuria, Deus da minha alma!--atalhou D. Julia sorrindo s
lastimas e gesticulao da linda creana.--No te disse eu j que
Venceslau no te ama?

--Disseste, sim.

--Pois se te no ama, que importa que teu pae lhe offerea uma esposa
que elle no quer?

--Achas, Lulu?

--Acho; mas...

--Que ?... ests com medo que elle queira?  isso?--voltou j muito
alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os
tregeitos jubilosos.

Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas
para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do corao humano,
folgava de serenar ou alvorotar as inquietaes da sua candida amiga,
corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

--A minha admirao--dizia Francisco Vaz--foi grande quando hoje li a
fausta nova da sua eleio, meu caro senhor e amigo...

--Admirou a grandeza do encargo em to pequeno vulto? Tambem eu me
assombro da irreflexo do governo, que me indicou e do povo que me
elegeu, quasi sem me conhecer.

--No foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe to destramente
embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba,
com sua malicia de serpente, seu magano!--dizia o commendador
espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.--Sabe o que me
admirou? foi a nenhuma importancia que V. S. dava s honras que
lhe estavam eminentes. J hontem o meu amigo sabia que era representante
em crtes e no quiz dar-me a satisfao de m'o annunciar!

--Se o ser eleito me dsse gloria, V. S. seria o primeiro a participar
do meu desvanecimento; porm, se a misso me  penoza, como hei-de eu
suppr que os meus amigos se regosijem?

--Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria
ao fabulario da historia romana. Eu no consinto  natureza humana tal
desapgo, mormente se a faanha incrivel se d em moo de vinte e oito
annos, pouco abastado em bens...

--Pouco!--interrompeu Venceslau a sorrir.--Parece-me que eu j disse ao
snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doena me impedir
de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.

-- pavorosa imaginao!  ingrato amigo!--acudiu o commendador,
batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.--Venceslau
Taveira, se adoecer, no vae para casa do velho Francisco Vaz; no,
senhor; Francisco Vaz  um desprezivel amigo; o doente ir para o
hospital. Com effeito, moo! paga-me generosamente!--proseguiu
severisando o aspecto.--O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso
anjo que adoou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e
sepultura ao cadaver de meu filho,  o mesmo que diz ao velho pae do seu
morto companheiro: Eu, se adoecer, no quero o teu leito, nem os teus
cuidados, nem a tua gratido! Irei para o hospital, para que no
possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braos.

Venceslau abraou o commendador com enthusiasta commoo, murmurando:

--Se o offendi, perde-me em nome de seu filho. Eu no suppuz que V. S.
dsse tal interpretao s minhas palavras irreflectidas.

--Est perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que no
ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Pde
ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e
acceite com vaidade o corao de pae que lhe offerece o pae do seu
defuncto amigo.

Venceslau curvou-se e beijou a mo do commendador, o qual, exultando, e
estreitando ao seio o moo, continuou;

--Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua
intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr.
Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irm?

--Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito
formosa, e d'uma irm acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu,
a snr. D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me
elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixo de acabar to
longe dos seus, se a irm estivesse em edade de comprehender a angustia
do pae, e podsse consolal-o com os sentimentos do corao capaz de
intelligentes lagrimas.  muito nova--dizia elle--ver chorar o
pae, ter alguns momentos de saudade, e ir logo depois distrahir-se com
os seus brinquedos.

--Enganou-se o meu infeliz filho--disse o commendador enxugando os
olhos.--A creana tinha corao de mulher. Quando eu lhe disse teu
irmo  morto, Anna abraou-se a mim, debulhada em chro,
exclamando:--No morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim,
que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a
orphandade, deu-me foras sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha
filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade,
voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creana, e dizia Se me deixaes
morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a! Foi ella quem me amparou a
mim; s suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu
filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me
as bonecas e bugiaras que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e
folgava de me vr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da
cerrada oppresso, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito
amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanas. No pude
eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dem,
mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva  alma que
choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha
contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmo a sorrir-lhe. E eu
acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim
abenoaria a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o
commendador restaurando o folego afadigado por soluos que, a espaos,
lhe embargavam a voz--aqui tem o que foi a minha filha em menina muito
tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peo-lhe, snr.
Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...

--Em que a temos todos os que a conhecemos.

--Alegra-me essa opinio--exclamou o velho com vehemencia--enche-me de
santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! No quiz Deus que meu
filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creana, que
me deixou nos braos, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle
amaria esta irm! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous
santos amores que o esperavam--o de Julia, a sua amada desde a infancia,
e o da irm, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de
contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu
filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida,
pensaria no modo de identificar em corao  sua familia o honrado
companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmo na
soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o
enfermeiro na doena, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do
esforo caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio
dos pobres...

--Oh snr. commendador!--atalhou Venceslau--a sua amisade vae to adiante
do que eu fui e sou...

--Quem sabe--ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas as
mos do deputado--quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua
querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irm:
Venceslau, se amas esta doce creatura, s meu irmo; s filho de meu
pae que t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias;
deixa-nos afazer  ideia de que no  s a gratido, mas tambem laos de
sangue que nos prendem. Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?

O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mo
pela fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.

Estranhando a confuso silenciosa, o commendador no podia dilucidar o
que havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez,
semelhante a uma resposta negativa e indelicada.

--Impressionei-o dolorosamente!--balbuciou o velho.--Receba-me como
gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o perturbaram,
snr. Taveira.

Venceslau abraou-o com impetuoso fervor, e disse:

--Faa-me justia!...

--Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso  nobre; e tudo
que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza,  sempre um sentimento
que deve expandir-se nos braos do homem de bem. Sei o que . Eu devia
suspeital-o. Os moos da sua condio encontram esposas  competencia, e
no o revelam porque a fatuidade desdoura, profana e deslustra o
segredo, que  a mais bella cauo do amor sisudo e competente ao
homem honesto. Se V. S. no guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe
este desgosto. A mim, o lance, bem que pouco usual, no me afflige.
Offereci-lhe minha filha: offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha
riqueza; dei-lhe a maxima prova de quanto o przo: estou contente;
desobriguei-me de parte da divida de meu filho--divida de amor, que no
podia ser paga em outra moeda. Agora, no me esteja assim pensativo,
snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.

--No, senhor, fallemos d'esta--replicou Venceslau j
tranquillo.--Principo por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheo
em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmo, porque ella, bem
que lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada,  irm do meu
amigo Antonio Vaz. A outra senhora  D. Julia, que respeito e considero,
porque vi tanta lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz
a vl-a do desterro como um anjo, e na patria como senhora de quem as
outras devem aprender a lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a
minha mocidade, snr. Vaz, namorou-se do trabalho, da fortuna avra dos
que l viveram das lides do espirito. As amantes d'esta especie costumam
ser to zelosas e egoistas das nossas attenes, que nos no abrem
ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi assim comigo a fortuna do
proscripto. Ou luctar com as extremas privaes, deshonrando-me nos
expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora escrevendo, ora
ensinando; mas, tendo sempre em vista a inutilidade do corao,
debaixo d'um casaco cossado e remendado. No amei ninguem na terra
alheia; no amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui l fra: um
operario labutando o po quotidiano. Escasseia-me o tempo nas obrigaes
urgentes; no tenho podido desbaratal-o em diverses da alma, em
preoccupaes deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades
levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.
sabe. Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho no esterilisam o
corao. O homem, fiado no seu brao robusto ou em sua intelligencia
productora, est bem no caso de poder aspirar s consolaes e alentos
d'uma esposa, que lhe alumie a solido escura do seu gabinete, e lhe
duplique o esforo para a lucta. Algumas vezes me entreluziu ao animo
quebrantado a doce alliana da intelligencia com os prazeres do corao.
Figurou-se-me vr perpassar por diante d'esta banca, onde a aurora de
cada dia me encontra, uma imagem vaga, com o sorriso da coragem nos
labios, e a luz da esperana nos olhos, fixos em mim, que a contemplava
como a varonil inspirao dos meus rudes trabalhos. Era o relampago do
secreto fogo que no se extinguiu--era talvez o estremecer dos
sentimentos abafados no recondito da alma. Bem pde ser, snr.
commendador, que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse,
no momento em que V. S. agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo
da snr. D. Anna Vaz. Eu cuidaria ento que era ella a imagem
entrevista nos meus enlevos; sentiria a subita mudana do sonho para a
realisao; e, se a surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento,
o meu silencio teria a eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr.
commendador--proseguiu Venceslau apoz uma grande pausa--sua filha no me
ama...

--Como?--interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e batendo rijo
a bengala no pavimento.--Como sabe que minha filha o no ama?

--Como sei que a no amo eu tambem. O meu corao, posto que
inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento
distincto da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmo, e
affectivo apreciador de seu pae. Eu no podia ser amado, porque os meus
breves instantes de conversao com a snr. D. Anna foram sempre alheios
da minima referencia ao amor, s vagas coisas do corao com que as
horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo julgo da intimidade
dos que so ou dos que parecem ser felizes. Praticvamos cerca do nosso
saudoso Antonio, ou dialogvamos em francez sobre assumptos que me
pareciam adequados  perspicacia intellectual de to habil menina...

--Sei isso, snr. Venceslau--sobreveiu o commendador.--Est-me V. S.
dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.

--No me justifico, snr. Vaz: explico a suprema quietao da minha
alma em presena d'uma senhora que eu estimava como se estima uma irm
favorecida de excellentes qualidades.

--Que ainda assim V. S. no podia amar...

--No vem acertada essa reflexo; consinta o snr. commendador esta
rudeza. As excellentes qualidades so amaveis; mas no  dever da mulher
que as tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem  judicioso a
quem lh'as admira revelar-lhe a sua dedicao, alm dos limites do
respeito. Era, todavia, muito de esperar que a snr. D. Anna Vaz
inspirasse um grande amor e ao mesmo tempo o sentisse pelo homem a quem
o inspirasse. Isso aconteceu.

--Que ? pois minha filha ama alguem?--interrogou Francisco Vaz com
aspecto iracundo.

--Ama, sim, senhor.

--Quem?

--O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.

O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado,
enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mos e murmurou:

--Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braos com a
desgraa...

--Eis-ahi uma dr que me assombra!--redarguiu o jornalista.--Que
conceito, pois, frma V. S. de Eduardo?

--No sei, no sei que presagios me despedaam o corao! No lhe
conheo vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha
presena, tenho-o recebido com affectuosa familiaridade; pois,
apesar d'isso, eu no queria que tal homem casasse com minha filha. E,
se eu impugno tal casamento, qual  a dignidade de Eduardo Pimenta em
requestar minha filha?

--Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.
recusa conceder-lh'a.

--Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego
minha filha. No ha nada mais explicito e summario.

--E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram
na opinio do snr. commendador, que responderei?

--Responda que um pae no  obrigado a justificar a sua vontade.

--Muito bem. Eduardo no pde honestamente voltar a casa de V. S.

-- claro.

--Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe
apresentei, no  assim?

--Elle  que se fez indigno da minha estima.

--Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me no
vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.

--O senhor!? que desconchavo!

--Pde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas
diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender.
Quem apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a
estimao que lhe deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado
do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se
lhe faz, se elle  expulso immerecidamente. No questiono sobre a
justia ou injustia com que V. S. o repelle: qualquer das hypotheses
me aconselha a no voltar  casa defeza a Eduardo Pimenta.

--E sacrifica-me s indiscries de Eduardo Pimenta, snr. Taveira?
Quer-me convencer de que o procedimento d'elle  regular?

--J disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razo dos
seus aggravos; mas, se V. S. me fora a defender-me, defendendo
Eduardo, afoitamente lhe confesso que o no culpo. Amar a snr. D. Anna,
que  amavel como formosa e como rica das graas do espirito, no 
delicto, ainda mesmo que os meritos de quem a ama no possam egualal-a.
A Eduardo faltam pergaminhos; nasceu na casa de lavradores; os brazes
de seu pae eram os utensilios da lavoura. Prouvera a Deus que o
fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura honra dos que lidam de
sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida, sem blasfemar da
Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna. Amargamente pagou
Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme culpa
resultou-lhe a perseguio, o carcere, o desterro e a morte da esposa
que o adorava...

--Consequencias do erro...--atalhou o commendador.

--Do erro?

--Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que no podia ser d'elle
sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar
a si mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a
mulher nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que
a levou de rjo  sepultura. Com que direito affrontou elle as leis
sociaes?

--Quaes leis?... No sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum
direito...

--O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os
costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraa
d'essa mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem,  calamidade
que faz chorar muita gente, e desata laos que nunca mais se refazem.

--Essas ideias, snr. Vaz--redarguiu Venceslau--so boas; mas permitta o
co que o genero humano vingue d'aqui a um seculo no vr a fronteira
que divide o corao plebeu do corao fidalgo. Quando esse oiro das
almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S. sero
acoimadas de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do
christianismo nos vae alumiando. No argumentemos sobre o ponto, porque
ainda no  tempo de se abraarem os adversarios. Antonio Vaz, o
fidalgo, filho do decimo commendador de Santa Christina de Almudena
pensava como eu; e, nas nossas palestras de socialismo e regenerao do
homem, nunca nos lembramos que nossos bisavs haviam ganhado, com o
sangue proprio e com a vida de seus paes mortos em Alcacer-kibir,
no Ameixial ou Montes Claros, as commendas que a liberdade nos vae tirar
como mal adquiridas. A liberdade, que ns andavamos servindo,  essa que
nos desbalisa e nivela com os filhos dos criados de nossos avs.

--Boa a fizeram...--resmuneou o fidalgo.

--Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos
montes, no  d'ellas,  do sol. O fructo no se enverdece e sazona a
si:  o calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a
ideia  o motor do brao. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a
Frana se refundia e recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de
seculos. Entramos na torrente; fomos levados; um  morto ao p do bero
da liberdade; o outro no foge da morte; mas nenhum de ns, tendo uma
irm, lhe poria o preceito de estudar heraldica para saber que timbre e
escudo lhes cumpria descobrir nos coraes dos homens que as requestassem.

--Graceja, snr. Taveira? No escolhe a opportunidade...--increpou o
commendador com sincera mgoa.

--No gracejo com V. S.:  com os preconceitos. Se eu os combati com as
armas, no  muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as
razes que V. S. allegar contra o casamento de sua filha sero boas,
exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz 
illustrado. Se pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio
do futuro pela intelligencia, e  humanidade collectiva pelo corao, e
de modo nenhum  raa exclusiva dos nobres pelo acaso do
nascimento. O pae de Antonio Vaz deve ser por fora um alto espirito: de
troncos verminosos no bracejam frondes com seiva de to generoso
sangue. Tal pae corre-lhe o dever de consentir que os abusos da
ignorancia sejam motejados na sua presena, e que os paes,
sacrificadores das filhas no infamado altar das tradies genealogicas,
sejam malsinados de tyrannos.

--O seu apostolado, snr. Taveira--replicou o velho-- temporo em
respeito  poca; e  tardio em relao a mim. Sessenta annos no se
remoam; das raizes da educao inveterada no abrolham as flores com
que em Frana os _sans-culottes_ vestiam a deusa da Razo. Estou muito
velho, e sou pae muito extremoso. Gsto da liberdade comedida, desde que
odiei o despotismo que levou  forca meu parente Gomes Freire de
Andrade. Abomino por egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo.
Repito que desejo a victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que,
em nome d'elles, me queiram a mim esbulhar da liberdade de casar minha
filha com quem eu quizer. Repugna-me dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de
quem alis no recebi maior offensa que o intento de captar o amor de
minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou obscuras ideias cerca
de tal casamento. Contra esta resistencia no me parece que a liberdade
bem entendida legisle reaces.

--Pelo contrario--obtemperou Taveira--as leis protegem os paes,
submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno
legislador, se tal lei no existisse, propl-a-hia. Emfim, no se enfade
mais V. S. com esta discusso esteril. Eu me encarrego, conforme 
sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, no ha motivo
para que as inquietaes de V. S. continuem. Hoje veiu elle aqui dar um
testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna
Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou  conta
de zelos a minha interveno nos seus affectos; e offereceu-me
sacrifical-os  minha felicidade, se eu alimentava alguma esperana
contrariada por elle que me no soube adivinhar. Creio que o desconvenci
da sua desconfiana. Ora o homem que se victimava a um amigo, de melhor
vontade e com mais honrado primor se ha de immolar a um pae to
respeitado quanto estimado. V por tanto V. S. bem certo de que cessam
hoje os seus sobresaltos. Eduardo no volta a sua casa...

--E o snr. Taveira?

--J disse ao snr. commendador que devo  leal camaradagem de nove annos
a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu
me esquivar a cumpril-o.

--Mas--volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio, acompanhado de
gestos que significavam desgosto e perplexidade--no  possivel
combinarem-se a continuao da frequencia de minha casa com a
desistencia das intenes do seu amigo? No poder elle ser meu hospede
sem ser o namoro de minha filha?

--Sei pouco do corao humano, snr. Vaz; e por isso appllo da minha
ignorancia para a experiencia que lhe deram a V. S. os annos e a
vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e violentamente
se apartam, ser bom expediente para as desligar? Se os olhos do rosto
se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que
responde V. S.?

--Que tem razo. Melhor  que no se vejam. Mas eu peo licena para
visitar o snr. Taveira.

--Tamanha honra lhe pediria eu, se me no faltasse a ousadia.

--Adeus. No lhe desbarato mais tempo. Abrao o irmo de meu filho, e
deponho nas suas mos o meu socego e a innocencia de minha filha.
Defenda-nos a ambos, j que eu perdi quem devra a esta hora velar a
honra de seu velho pae e a inexperiencia de sua irm.

Abraaram-se estreitamente, chorando ambos.




X

    Venez aprs cela crier d'un ton de matre
    Que c'est le coeur humain qu'un auteur doit connatre!
    Toujours le coeur humain pour modle et pour loi!
    Le coeur humain de qui? le coeur humain de quoi?
    Celui de mon voisin a sa manire d'tre.
    Mais, morbleu! comme lui j'ai mon coeur humain, moi.

         ALF. DE MUSSET.--_Namouna._


Chegada a noite d'aquelle dia, e j corrida a hora costumada das
visitas, Anna Vaz perguntou a Julia:

--Que ser isto? elles no vem!

--Estava a scismar n'isso tambem eu...

--Olha que ha desgraa!... No vs o pap to carrancudo?

--J reparei... Vae tu at l dentro, e no voltes  sala sem me ouvir
tocar no cravo.

Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lr,
o _Astro da Lusitania_.

--Que ha de novo? Est lendo o artigo do nosso deputado?--perguntou
ella, curvando-se para o periodico.--J li... Ninguem dir que d'aquelle
rapaz to sereno e moderado possam saltar essas faiscas de colera
contra as ideias antigas!  um ethna escondido em moitas de flores, no
acha, snr. commendador?

-- um apostolo de boa f, um peito cheio de honra, que se offereceu ao
martyrio das ideias novas. Tem a devoo dos cathecmenos de todas as
religies. Trabalha para os que ho de vir, no  para elle. Sahiu d'uma
familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje
calam sapatos ferrados.

--Porque no o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que
escreve; que no esteja a ganhar inimigos... Quem sabe l onde isto vae
dar? Os prejuizos no se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu
ouo todos os dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa
do tio Gio ouvi hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de
Laybac para enfrear as demasias da liberdade, e que D. Joo VI no
levra a mal que o governador da Ilha Terceira resistisse  proclamao
do systema constitucional.

--Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gio,
minha senhora D. Julia!--observou graciosamente o commendador.

--A mim que se me d de politicas!--retorquiu a dama.--O que eu desejo 
no vr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O Pimenta
parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. No quer
saber de nada; no se importa com gazetas nem com governos. A emigrao
aproveitou-lhe...  verdade, elles no viro hoje? So dez horas! O
Taveira talvez esteja na reunio dos deputados; mas o outro onde estar?
So horas do ch...

--Se so horas, no esperemos, menina, que elles no vem.

--Ah! o snr. commendador j sabia que no vem?!

--J. Fallaremos manh, snr. D. Julia. Eu hei-de procural-a...--E
abaixando a voz, continuou em segredo:--Eduardo Pimenta comportou-se
indignamente comigo. Se lhe no dou a novidade de se estar planeando um
casamento n'esta casa sem minha licena, escuso de motivar-lhe o
rompimento de relaes com to inconveniente amigo. Pelo que toca a
Venceslau Taveira, esse no vem porque no quer. Sinto-o devras. 
homem de honrada tempera. Lastimo que os seus amigos o no meream...

D. Julia, cogitando na inquietao da amiga, no prolongou as segredadas
confidencias. Acercou-se disfaradamente do cravo e dedilhou no teclado.
O commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e
disse-lhe:

--Onde est Anna?

--Vem ahi.

A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns
minutos silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia,
interrogada pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo
favoravel de apartar-se com ella e revelar-lhe as ms novas.

Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias
politicas de um primo conego da patriarchal, que alli ia sempre,
depois de ceia, digerir o blo copioso, psalmeando threnos em prosa de
conego sobre a futura perdio dos cabidos, D. Julia referia,
commentando as palavras do pae da sua amiga.

D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em
lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe no
ouvissem o soluar. Baldaram-se as consolativas esperanas da
confidente, que parecia no ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo
espirito de qualquer d'ellas no sombreou sequer o mau pensamento de
recorrer da vontade paterna para o poder civil. N'aquelle tempo as
paixes das donzellas, contrariadas pelos paes, raras vezes iam dizer da
sua justia no tribunal. Usavam-se ento umas mordaas, que fechavam os
respiraculos dos coraes rebeldes ao alvedrio paternal: era o convento.
O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, era aquelle que de
bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos ps da cruz a cora do
noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se contrahiam,
levando a esposa o corao repleto de odio e calor do inferno para o
cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios
e tonicos restaurantes.

N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse  sua amiga:

--Faz o que te peo, filha. No mostres resistencia  vontade de teu
pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que no podemos conseguir
com irritaes; que no v teu pae fechar-te no convento, onde eu
estive dois annos por causa de teu irmo. Cuidei que poderia
recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui
convidada a dar um passeio at ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia
Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraal-a; e
l fiquei infernada at que meu pae me tirou por saber que teu irmo,
envolvido com os jacobinos, emigrra para Londres. Aprende de mim,
filha. Dissimula quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua
constancia.

--Na morte  que eu confio...--replicou Anna, apertando a mo de Julia.

--Tens febre... A tua mo escalda!--clamou a surprehendida senhora.

--Vou deitar-me... Doe-me muito a cabea... No posso voltar  sala...
Est l gente, e no quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo,
dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle
me lamenta e ama, sim? No te custa a trazer-me as cartas, Julia?

--No, filha; sem tu m'o recommendares, j eu tencionava dar-te esse
prazer; mas com a condio de que has de ter coragem e prudencia.

--Pois sim, pois sim: fao o que tu quizeres...

--Ento, vem  sala.

--No posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar
melhor manh, depois de chorar muito.

O commendador, n'este lano, mandava perguntar  filha se o ch
teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto nocturno,
reclamava uma bebida digestiva.

Foi Julia  sala, e disse que a sua amiga se deitra molestada da cabea.

Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:

--J?! to cdo...

--So onze horas--disse Julia.

--No me refiro ao relogio;   cabea--replicou o commendador, acerando
a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.

Depois do ch, D. Julia ainda foi  alcova de Anna. Encontrou-a a ler as
cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e
esperanas que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.

--Quem sabe?--concluiu ella, modificando a sua primeira opinio--talvez
que um poucochinho de febre assuste o extremoso corao de teu pae, e,
em vez de te levar  sepultura, te conduza aos braos do teu Eduardo!...

Este erotico dizer, que no revia candor d'alma capaz de edificar as
virgens legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao
acre da malicia feminil, se tal conjectura coubesse em dama to exemplar
na edade em que os impulsos da innocencia no so vulgares.

O velho,  meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina
estava muito afogueada, e ao mesmo tempo pedia  sua criada de
quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio.
Ante-manh j o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da
enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga,
ahi pelas tres horas, delirra na febre, e se lanra do leito a querer
abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraas.

--V dizer  menina que eu quero vl-a--mandou o commendador j
attribulado.

Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabea
esvahida  almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente,
apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de
quem implora indulgencia, beijou-lhe a mo.

Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da
doena. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto
meigo que no, e accrescentou:

--Isto no  nada, pap.

No obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer
que fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre,
o estomago, devia ser a primeira a medicar-se.

Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poo
em que de certo no entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o
commendador que os phyltros cupidineos no cedem aos revolucivos que
debellam as lombrigas.

D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a doente, e deu-lhe
uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que fosse, ao
avsso do ancio de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era
medico de mo cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para
logo as rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso
quebrou, os labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se.
Milagres que a cada passo se topam nos florilegios, por influxo de
agentes d'outra procedencia. N'estes, ha therapeutica do co; n'aquelles
prodigios de natureza toda humana, entra droga das boticas de Fausto, de
Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes do luciferino bardo que cantou
as Trevas.

Contou Julia que, s nove da manh, escrevra a Eduardo, pedindo-lhe
conta dos casos tristes do dia anterior. O moo correu ao palacio das
Amoreiras, e referiu que Venceslau o prevenira da conversao com o
commendador.

Se Julia, mais sincera que condoda de sua amiga, relatasse as
impresses que Eduardo lhe deixra, diria que o viu menos consternado do
que era de esperar, e to christ ou stoicamente conformado  sua
desventura, que faria inveja a Epictto ou Kempis. Seria crueza no
omittir este escuro trao do caracter do seu confidente. A ferida da sua
amiga queria balsamos, e no cauterio. Semelhante denuncia iria coar a
peonha da desconfiana--a tortura da morte--quella alma flammejante
de f.

As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham duas phrases
dignas do _Secretario dos Amantes_. Eduardo Pimenta promettia luctar
contra a desgraa, e succumbir na lucta quando no podesse sahir com a
victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados andavam na voga, no
respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do abbade Prevost.

Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos
olhos do pae, se Julia no lhe advertisse que seria bom espacejar a
convalescena, j para amollecer o corao do velho, j para afastar
suspeitas de correspondencia clandestina.

Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O
medico, na segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia
inviolavel s pilulas. Belleza, edade, respirao suspirosa, rubor dos
lagrimaes, olhos pisados, e outros symptomas de inflammao psycologica,
illucidaram o diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da
nomenclatura greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil
temperamento da sua organisao ainda imperfeita muito a custo
resistiria s commoes devastadoras. Era o systema d'este medico:
primeiro o apparelho digestivo; depois o espiritual, se as doentes eram
novas e solteiras. O segundo prognostico havia-lhe rendido a mais
selecta clinica da capital. Muitos maridos d'aquelle tempo os levra
elle s enfermas capituladas de thicas, como os medicos de hoje em dia
lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados de bacalhau ou
sulphato de ferro soluvel de Lers.

Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua
mulher e seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha
prefigurou-se-lhe calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar,
casando-a com homem somenos de Eduardo. Penetravam-no j de antemo
espinhos de remorso. A ternura encarecia-lhe o perigo; e o quebranto
moral proprio da edade arguia-o de inclemencia e fereza.

To rapido precipitra as invectivas contra Eduardo, quanto depois,
ligeiramente e a s comsigo, rebatia os proprios argumentos.

--E se ella morre!--exclamava elle, invocando agora o juizo de Julia,
tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.--Que lhe diz o
seu corao, minha amiga? Ella ama-o tanto que no possa esquecel-o? As
distraes sero inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se
a minha boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares,
conseguiriamos restaurar aquelle corao que ainda ha pouco era to
innocente, to meu, to alegre?... Que me diz, D. Julia?

--Faam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado.  o primeiro
amor. Tem a fora que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir;
a reflexo, que vem depois do amor entranhado, no aproveita. Foi assim
que eu amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci,
que violencias arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o
convento, nem as ameaas de me privar do patrimonio me demoveram. A
ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que
valeram tantas dres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu
sobrevivi... para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho
muito d de sua filha, meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais
animada, porque lhe dei esperanas, como os medicos as do a uma thysica
j nas ultimas vascas; mas se manh eu no podr animal-a, a febre
voltar, e depois Deus sabe se no peito d'ella est o germen da terrivel
doena...

--Por piedade, no me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me
golpeou no corao... O meu grande terror  esse:  a morte da me, que
um dia se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida,
desfigurou-se, e... vinte dias depois, expirava-me nos braos,
procurando com as mos as cabeas dos filhinhos...

O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas
que lhe resvalavam aos beios trmulos da commoo.

D. Julia balbuciou expresses de enternecido allivio, e conseguiu
conduzir o commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que s a
presena d'ella, n'aquelle momento, lhe seria consolao.

Estava j em p a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as
vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos
de affligir o estremecido velho a pungissem. Lanou-se-lhe nos braos,
chorando, como quem se accusa de no poder vencer-se. Era condio
divina a d'aquella creatura! Se, tres mezes antes, a vissem
ajoelhada diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma
santa. Se Eduardo Pimenta, o moo pallido, aureolado pela tragedia do
amor que o revestira do crepe sympatico da viuvez, no fitasse n'ella os
olhos tristes da meiguice que pede as consolaes amantissimas d'outra
alma, a creana seria ainda para seu pae o sorriso que do co lhe
enviava, em labios innocentissimos, a chorada esposa.

Tomou nas suas o velho as mos da filha. As arterias no arfavam de mais
nem a epiderme denunciava perturbaes de mo agouro; mas assim mesmo,
os olhos do pae j no viam nas feies de Anna o vio purpurejado da
saude, o sorrir florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o brao, e
levou-a  sala, onde o fogo aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.

Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o
commendador entre as duas.

A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios
constipra a menina. Tossiu com pouco esforo; mas, na audio do pae,
aquelle accesso dava o som aspero das crepitaes pulmonares;
figurou-se-lhe estar ouvindo tossir sua mulher.

Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvao da alma.

--Anna--disse elle, tomando-lhe a mo com extremada caricia--eu quero
que sejas feliz; quero at que sejas infeliz, mas que vivas. Reanima-te,
filha. Dou-te licena para casares com Eduardo.

A menina beijou-lhe a mo fervorosamente, e inclinou a cabea ao
brao d'elle, como se quizesse esconder a exultao que devia parecer
reprehensivel ao amor de seu pae.

--Crs, minha filha, que a vida te ser mais agradavel,
cazando?--interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para
D. Julia, accrescentando:--Que pergunta, que frivola pergunta!  o mesmo
que perguntar a um cego, se cr que lhe ha de ser mais agradavel vr!...
Casars, filha; mas com uma condio que teu pae prope: no me
deixars; o amor, que me tinhas, d-o a teu marido; mas no me deixars,
no?

-- meu pap, nunca! por alma de minha me lhe juro que nunca o
deixarei, nem amarei menos do que hoje.

--No jures, Anna... Pede  alma de tua santa me que te guie; mas no a
invoques para affianar as mudanas da tua vida...

--Meu pap!--replicou a filha perturbada pela solemnidade da
objeco--se me julga capaz de o amar menos, ento no me diga que case.
 melhor que eu...

--Que tu, filha?

--Que eu morra, com a certeza de o no ter affligido...

--Eu bem sabia que tu eras a boa creana, o adoravel corao que s...
Por isso  que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em
te dar a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espao de
quarenta annos, eu nunca tinha encontrado condio mais nobre de
homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos
d'este homem, que a tua innocencia no viu, devem ser dignos d'elle. Se
Venceslau Taveira assevera que Eduardo Pimenta  honrado, seja teu
marido Eduardo Pimenta. Agora, minha filha, no me estejas doente;
paga-me esta alegria que te dou; alegra-te, vive, renova a cr sada das
tuas faces desmaiadas... Dize-me manh que ests boa, e me no has-de
deixar, n'esta escurecida velhice, a esperar o beneficio da morte,
ssinho, entre tres sepulturas.

Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a
carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braos
cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo,
levantou-se de golpe, e murmurou: Meu Deus! em que se funda o presagio
da desgraa de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me est
aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; no lhe admirava as
virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a
sociedade prza; porm, desde que o imagino to identificado  minha
vida, esposo de minha filha, que fatidico horror  este!...

E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente
commovida o jubilo da sua amiga. Pde ser que ella, vendo desfechar o
drama d'estes amores to depressa quanto ao avsso de suas previses, se
arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traos equivocos,
seno maus do caracter de Eduardo. Um--aquellas amphibologicas palavras,
que lhe elle dissera um dia antes, e ella recebra com tal qual
severidade. Outro--a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle
mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relaes com o commendador. Se
outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfao de
Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, no
 facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos no remover a
triple muralha que vda o insondavel corao das creaturas predestinadas
a distinces deploraveis.

Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu
amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas
de Julia:

--Fez-me impresso o enthusiasmo de teu pap quando fallou de Venceslau!
O rapaz decerto  o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; ns,
porm, as mulheres, temos o corao nos olhos, e o juizo no corao. O
nosso vr  to diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o
melhor marido seria o menos amavel  primeira vista? Eduardo tem a
eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma
paixo contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem
motivou dres a ninguem. Estes dois homens so a consolao ao p da
desgraa. O corao cheio de balsamos ao lado do corao cheio de
lagrimas. Um amou muito, o outro no amou nunca. Eduardo tem um passado
que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar,
ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira florescencia da
alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com
outra...

--Mas que quer dizer isso?!--interrompeu Anna.--Tu bem sabes que eu no
amo o Venceslau.

--Pois no sei, filha!... O que eu te queria dizer  que, se em vez de
amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse
melhor...

--Porqu?... No me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e
muito amavel?...

--E eu digo-te agora o contrario?

--Mas achas que o outro seria melhor...

--Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o corao no
calcula o que ha de vir pelo tempo alm...

--Tu atterras-me Julia!--exclamou a enleada menina, fitando na
impenetravel amiga os seus olhos explendidos.

--Has de ser sempre creana!... volveu a desconcertada confidente,
emendando as demazias da sua imprudencia.--Estou conversando comtigo,
que vaes ser senhora; e tu queres que eu no tenha vinte e oito annos, e
te falle a linguagem das meninas.

--Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...

--Eu desconfio?

--Sim... hontem no me dizias isso...

--E hoje que te digo?

--Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...

--Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.

O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:

--O pap chorou?

--Se chorei? sim, filha... D-me os parabens, que chorei. Chorar 
esmagar a dr. As lagrimas so o sangue das angustias que os padecentes
podem afogar entre as mos. Quando ellas vencem, o homem no chora; morre.

--Morrer, meu Deus!--exclamou Anna.-- pap, meu querido pap!... no me
falle em morrer, que eu j no quero...--E susteve-se por segundos.

--Que no queres, filha?... Pobre anjo!... no ousou proferir a palavra,
receiando que lh'a acceitasse... Ai! no, minha pobre Anna... Has de
casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dr...
O remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...

Ficaram os tres largo espao silenciosos. Librava-se no ambiente
d'aquella sala o archanjo das propheticas agonias.




XI

    Qualquer honesta se abala,
    Como sabe que  querida.

         CAMES.--_Filodemo._


Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lr a complacente
carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu
contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferena, perguntou-lhe se a
noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da
filha despoetisava a noiva.

Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era
muito recente, e a honra da readmisso pouco desejada.

Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem
aquelle pundonor: achou at natural que os brios e o corao se
digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porm, no impediu
que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade,
a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se
considerava offendido em sua justa hombridade de plebeu pela
propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia
para lhe dar a mo.  o que elle dizia, encaracolando o bigode e
avincando a testa.

Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu
irritado. Teve que fazer. A ral, se traja ao bizarro, e se tem nos
miolos o fervilhar das aspiraes, destampa em orgulhos desmesurados:
faz saudades do baro feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o
sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas
cavernas da alma latibulos de rancor s raas, aos pergaminhos, e
nomeadamente aos paes que lhe no offereciam as filhas e os vinculos. De
mais a mais, alm d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe
emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:

--Que dote tem ella?

--Eu sei l!...--respondeu o outro enleado.

--Eu devia ter indagado...

--Sim, tu, e no eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, comeas
pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pr a sonda
ao corao da filha, acho eu.

--Fallemos serios--volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras
morbidas.--Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem pde
contar, quando se constitue chefe de familia?

--Parece-me util;  sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre
se combina com o agradavel, como aconselha o poeta romano. E,
n'este caso, essa averiguao, sobre ser desagradavel,  extemporanea.
J te disse: acabas por onde devias principar. Suppe tu que farejas os
contadores de Francisco Vaz, e no achas l aroma de vintem! Que fazes?
Retiras o requerimento  mo da menina, visto que a menina se no
presume herdeira?

--Se retiro o requerimento? Eu no requeri nada... no a pedi...

-- verdade, no a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me
haveres dito que ella se suppunha amada, e no embaida por velhacaria de
mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando
fazenda. Entretanto, respeito a dote, no te informes comigo. Como vs,
tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser
que  pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.

--Que me suicide?!--bradou espantado o sugeito, que annos antes andra a
metter-se nas tezouras da parca.

--Sim, homem--voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de
aborrecimento, se no era de menospreo.--Mata-te por egoismo. O amor
proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal
suicida, quando se lhe est abrindo um abysmo de... de... no me lembra
a palavra...

-- pena que te no lembre...--acudiu ironicamente o outro.

--Ah!... lembrou: de infamia.

--Mercs!--redarguiu Eduardo--se fosses um qualquer homem, respondia-te
no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o
direito de me aviltar, digo: obrigado!

--Ao campo da honra vo os honrados--concluiu Venceslau, erguendo-se de
golpe, e tomando o chapo.--Tenho que fazer... No me d Deus horas
baldias para palestras d'esta especie.

E sahiu arrebatadamente.

Eduardo seguiu, deu-lhe o brao j na rua, e disse-lhe em tom de muita
brandura:

--Nunca te imaginei condio to brava, Taveira! A tua honra tem
espinhos...

--Pois no te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas
por onde nunca possamos encontrar-nos.

--Ao menos permitte que hoje  noite nos encontremos em casa do
commendador.

--Como te aprouver... adeus.

Venceslau foi para as crtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.

--Parabens!--exclamou ella, quando entrou  sala, onde era esperada pelo
noivo de D. Anna Vaz.--Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho
teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!

-- verdade, minha senhora!...

--Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa interveno que
tive n'estes bem-logrados amores!

--Obrigado, snr. D. Julia--respondeu elle glacialmente.

--Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a
imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o
corao da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...

--Me no amava?

--Decerto abafava de mgoa de o ter amado... Que tem? que genio  o seu?
que  isso?!

-- a fatalidade--respondeu funeralmente o joven pallido.

--No sei o que  a fatalidade... Explique-se.

--Quer V. Ex. que eu lhe diga o que  a fatalidade?... Ah! no queira
ouvir...

--Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...

--A fatalidade  o calix intransmissivel.  a attraco do abysmo.  o
resvalar por despenhadeiro onde no ha aresta de rocha em que se
recravem os dedos.  o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a
torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sde.  o
tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade  o
abutre que roa o figado immortal do acorrentado do Caucaso.  o
estanque de lagrimas onde se afogam as esperanas, apenas nascidas.  o
clamor incessante d'uma alma, que sbe at o co nas azas da f, e desce
at ao inferno abatida com o pezo das suas maldies.  duvidar de
Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o corao se confrange
e arde sem aura refrigerante. A fatalidade  o holocausto foroso da
vida n'um altar onde a victima no leva sequer a compaixo dos que sabem
que alli se est suicidando um homem.  a vacillao incomportavel de
quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o
no deshonrem as vaias das multides. A fatalidade, snr. D. Julia, 
no ter eu morrido quando me atirei  bayoneta e s balas no fragor das
pelejas. A fatalidade  ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga
esperana, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a
apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim,
senhora,  tel-a eu visto; ... tel-a eu amado.

Esbofada a vulcanica declamao, D. Julia ergueu-se placidamente,
soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:

--Se  o snr. Eduardo Pimenta quem est em casa de Julia de Miranda,
amiga de Anna Vaz, peo-lhe que se esquea de ter aqui entrado.

--Perdo, minha senhora!--balbuciou o galan, como quem no trazia mais
diamantes no thesouro da memoria.--Perdo!

--Perdoei, porque... esqueci.

--Perda--volveu elle com alguma felicidade--perda, porque... matou. Eu
vou ser marido de D. Anna Vaz, snr. D. Julia. Ha de vl-a feliz...

--Praza a Deus... mas... duvdo.

--Ha de vl-a feliz... ha de vl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe
sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a
palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma
supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o no saiba... No me prive
da gloria de ser eu s desgraado. Se ella v em mim o corao que se
abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto
a V. Ex. que nunca a desmentirei...

--Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para qu? objectou D. Julia,
enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.

--No a enganei... forou-me a fatalidade a adoral-a...

--E ento?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adorao!...
Pois no me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!

--Porque a mo do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira
mulher que amei, at ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda,
mostrou-me... V. Ex. Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas no me
denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua
denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte  desnecessaria  sua
glorificao.

Disse e sahiu.

No era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de
Julia. Tambem no era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficra
agitada, mas no febril dos estos da indignao. Viu-se escarlate no
espelho, e nenhuma das hypotheses explicativas da congesto
sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vr-se ao espelho
seria acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera 
que no era. Ella no sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no
espirito um relampago de electricidade to offuscante que fechou os
olhos. Teve pejo de si:--pudenda alma que se sentia estremecer no lapso
da candura ao indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o
rosto nas mos convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no
ardor das faces. Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo
derramava sobre o seio onde os latejos do corao respondiam aos
clamores da consciencia. N'este lance, enclavinhou os dedos das mos, e
comprimiu com ellas o arfar do peito. E, depois, tirando um profundo
gemido, murmurou: Se eu podesse amar um homem!




XII

           Deus organisou
    O homem que vemos...

         ANTONIO PRESTES.--_Auto da Ave-Maria._


Estavam todos melancolicos,  feio de amigos que se ajuntam em casa do
dordo, na noite seguinte  do passatempo.

O commendador Vaz dirigia ao seu futuro genro palavras de contrafeita
amabilidade.

Venceslau Taveira lia o diario das camaras e tirava notas. O conego das
digestes morosas esperava o ch na espectativa silenciosa, ouvindo o
rugir das proprias entranhas. O capello da fidalga contemplava o
conego, censurando mentalmente que as muras se dssem a sugeitos
estupidos. D. Julia, no desvo da sacada, ciciava com a sua amiga um
dialogo apparentemente glido e remoto do interesse que era de presumir
em to festivo sarau.

Durante o ch, animou-se aquelle palco da comedia humana. O prebendado
contou os antigos faustos da patriarchal de D. Joo V. O commendador
abriu ensejo ao capello para que demonstrasse que D. Joo V, orando em
Odivelas, no fra mais util  religio dos pobres que os chantres da
patriarchal gosmando psalmos na real basilica. Venceslau Taveira fez a
apologia de Ferreira Borges e Manoel Fernandes Thomaz. Eduardo Pimenta
descreveu a batalha da Rolia, azando ao conego breves, mas energicos
protestos contra Bonaparte, e a vigesima edio de suas crenas
politicas, que fundavam todas na paz e concordia entre os principes
christos e extirpao das herezias--votos sinceros, seno eloquentes,
que influiam no cerebro do capello filtros soporiferos.

Em amor ninguem fallou.

Sora meia noute: era a hora costumada de se apartarem.

Francisco Vaz, aproximando-se de Eduardo, disse-lhe a meia voz:

--Queira dizer a Venceslau que fique e V. S. ficar tambem alguns minutos.

D. Julia sahiu com os dois clerigos; D. Anna no voltou  sala; e o
commendador fallou assim a Eduardo, na presena do deputado.

--Tive noticia de que o snr. Pimenta prza minha filha.  sua inteno
esposal-a?

--Eu no podia ter outra inteno.

--Costumam alguns paes extremosos pedir aos noivos de suas filhas
que sejam bons, meigos e carinhosos para ellas. O amor santo dos pobres
velhos desculpa-os d'este pedido banal.  respeitavel a supplica, porque
Deus sabe como se cerra e estorce o corao do pae que separa de si ao
fim de dezeseis annos a creana, que se fez mulher, e todavia lhe falla
ainda na alma com a mesma ternura dos vagidos da infancia. Um pae v sua
filha senhora, e cuida sempre que ella lhe est sorrindo no bero. No
lhe pedirei, pois, snr. Pimenta, que ame sua esposa, porque eu a
estremeo e adoro. Peo-lhe s que m'a receba como excellente creatura
que ella . Outra coisa que muito desejo me no esquea. Queixei-me
austeramente ao snr. Venceslau das intelligencias affectuosas que V. S.
contrahiu com minha filha. No m'o leve a mal. Um pae treme de susto e
ira quando de repente sabe que lhe tentam usurpar as alegrias unicas da
sua vida:  como o avarento a quem ameaam espolial-o do cofre onde tem
o sangue e a alma. Queixei-me; depois, abri os olhos, vi o mundo como
elle foi sempre, vi minha filha como todas as filhas, e vi no snr.
Pimenta um homem como eu fui, como so todos. Resignei-me. Algum
sedimento de despeito e intolerancia sahiu nas lagrimas. Estou preparado
para a renunciao, para a soledade, e para um fim de velhice mais
triste do que eu imaginara entre a minha Anna e o retrato de sua me.
No sei qual  a teno de V. S. depois de casado. Ella disse-me que
no se apartava de mim; porm...

--Em quanto o snr. commendador quizer acceitar a estimao sincera do
marido de sua filha, eu no pensarei jmais em sahir de sua companhia.

--Agradeo!--disse o velho, estendendo-lhe a mo com vehemente
transporte; e proseguiu, feita breve pausa:--O homem, que se casa, deve
avanar vinte annos a dentro do futuro e prefigurar-se ahi pae de
familias, rodeado de canceiras, cuidadoso e perplexo com o porvir de
seus filhos. O amor opera prodigios de desinteresse, mas no faz que os
bens da fortuna surjam miraculosamente. Parece-me util que V. S. saiba
qual  o patrimonio de minha filha. Tenho uma commenda que me rende dois
mil cruzados, e duas quintas que me do outro tanto rendimento. Esta
mediania tem bastado  modestia do nosso tracto. No frequento bailes ha
muitos annos, porque no posso retribuil-os. Alheei-me da sociedade
faustuosa dos meus parentes, porque minha filha apenas poderia occupar
dignamente o posto que lhe d o seu nascimento; mas decerto, a
equipar-se das pompas que as damas de hoje estadeam nas salas, o seu
dote ser-lhe-hia muito desfalcado, e, no andar dos annos, muito custoso
lhe havia de ser trajar vestidos de chita, quem os desperdira de sda.
Alm de que, fartas vezes tenho previsto que os dois mil cruzados da
commenda correm perigo de ser absorvidos pela liberdade, inimiga de tudo
que  antigo, sem catar dos direitos que, sendo justos, no deviam
postergar-se. Espero, porm, que os sacerdotes da liberdade, se todos
forem da condio do snr. Taveira, curem primeiro de desentranhar
as riquezas do paiz, antes de arrebanharem as migalhas herdadas dos
antigos conquistadores da Asia e Africa.

Venceslau correspondeu com um aceno de complacencia ao sorriso do
commendador, que proseguiu:

--Na hypothese, portanto, de que tenho pouco e menos poderei ter d'um
momento para outro, no receio melindrar o snr. Pimenta,
aconselhando-lhe, j como amigo e j como pae de sua esposa, que procure
empregar-se, como tantos emigrados que o no egualam em meritos de
servios e intelligencia. Se lhe no quadra a vida militar, que
renunciou, ha encargos civis honrados e lucrativos. Na sua edade e com
tanta capacidade, a vida ociosa deve dar-lhe tdios, fadigas sem
actividade que as explique, dissabores e quebrantos que volvem
aborrecida a monotonia do viver cazeiro. Eu, em quanto o vigor me
ajudou, fui agricultor; depois fiz-me o mestre de meus filhos; e li
quanto achei e pude entender para acreditar que Cicero, escrevendo
louvores da velhice, no sophismava o desanimo frio e inerte d'este
inverno sem sol, em que a luz dos olhos de minha filha me dava mais
calor que as ardentes apologias do orador romano. Basta.  tarde, meus
amigos. So horas de repouso. O snr. Pimenta recebe manh a certido de
edade de sua noiva para os reclames. Boas noites. Minha filha no vem 
sala, porque est recolhida.

--Que bello caracter de homem!--dizia Eduardo, intimamente compenetrado
da honrada simpleza do commendador.--Parecia um pae dos tempos
patriarchaes! Comeo a sentir douras imprevistas n'este enlace! Adquiro
uma esposa adoravel, e um pae venerando! Achei o santo aconchgo da
familia que nunca tive!... No vou ser rico; mas quantos centenares de
contos daria Cressus pelas delicias domesticas no seio de tal
familia?... Mas tambem no vou ser pobre...

--Decerto, no--assentiu Venceslau, reparando na subitanea passagem das
tradies patriarchaes  vulgaridade moderna da riqueza.--Quanto tens de
teu?

--Quatorze mil cruzados, pouco mais ou menos.

--Ouo dizer que os empregos se compram. Emprega o teu capital n'essa
veniaga, ou augmenta os rendimentos do casal comprando predios rusticos.
Podes viver desafogadamente com cinco ou seis mil cruzados annuaes, se
continuares a parcimnia e resguardo de teu sogro. Tens a felicidade de
casar com senhora no acostumada a bailes nem s fatuidades do toucador.
S isso de per si vale um dote dos mais cubiaveis.

--Dizes bem; mas--objectou Eduardo--bem sabes que eu no posso
conformar-me aos habitos de meu sgro, nem quero que minha mulher passe
as noutes todas a ouvir discutir o tio conego com o capello de Julia.
Uma vez por outra, hei de leval-a ao baile, ao theatro, ao passeio, 
convivencia das damas da sua parentella. Isto no desbarata os bens,
acho eu; ao mesmo passo que aligeira os cuidados da lida domestica, e
reveza umas sensaes por outras, tomando-as todas apraziveis. No te
parece?

--Sim... parece-me que a indole constrangida  o germen de grandes
desgostos. O commendador no levar a mal que sua filha gose os prazeres
que no conhece; mas, se tu visses que ella  ditosa desconhecendo-os,
serias bom e discreto deixando-a na feliz ignorancia d'esses vistosos
fructos das cidades arrasadas da Palestina, as quaes tinham cinzas
envoltas em formosa casca...

--Ahi ests tu encarecendo perigos!--tornou Eduardo, adocicando a
facecia.--O noviciado em Tibes deixou-te uns longes de frade em misso.
Se te no desfradas, destampavas em Jeremias, e a esta hora alta da
noute havia de ser lugubre ouvir-te por aqui a declamar: Converte-te,
Lisboa! Fazei penitencia, peraltas!--E, voltando ao tom serio,
ajuntou:--Eu, a dizer-te verdade, tenho preciso de ar, de sol, dos
esmaltes da existencia, das coisas sublimes que Deus poz como matizes de
oiro sobre o negro pano da vida. Caso-me para unir  minha uma alma, que
me duplique o sentimento do bello. Dois coraes identificados devem
receber em dobro a sensao das alegrias honestas. Bem sabes que escura
mocidade tive. Dres sobre dres. O horisonte fechado por um tumulo. A
repulso da familia e da patria. A perseguio dos poderosos. A pobreza
no desterro. Beneficios de Deus recebi s um: a tua amisade, a mo que
me desviava do seio o punhal suicida. Quem assim viveu at aos trinta
annos tem direito a sahir d'este lethargo, e a commungar dos prazeres
que no desdouram nem arruinam. No  assim?

--.

--Dizes __ por condescendencia?

--Digo.

--Mas no digas; discute.

--Boa hora para discutir, aqui, na rua dos Fanqueiros, se os prazeres
desdouram e arruinam! Isso  questo philosophica de grande folego, meu
amigo. Eu, por mim, em philosophia moral, conheo uma s palavra, que 
o lemma d'uma eschola: _Abstem-te e soffre_.

--Isso no  philosophia:  uma questo de temperamento...

--E de temperatura c para mim... Est muito frio... Adeus, at manh.

Venceslau entrou na modestissima sobre-loja onde morava na calada do
Caldas; e Eduardo, recolhido aos confortos do seu gabinete no
hotel-francez da rua de S. Paulo, sentou-se  banca da escrivaninha, e
escreveu vinte e sete vezes a palavra _Julia_, inflorando as hastes do
_J_ e do _l_ com recortes de muito ingenho. Durante esta obra-prima de
caligraphia, o seu espirito desenhava na tela que lhe offerecia o
demonio de Fausto, uns hediondos esboos de romance, que elle no tirou
a limpo, e eu, por desventura minha, hei de restaurar no pano delido por
lagrimas.

Depois, deitou-se no colcho de pennas, e adormeceu como raras vezes
dormem os justos.

E ao mesmo tempo, quando a aurora j repontava do seu leito de neblinas
frigidissimas, Venceslau concluia o seu artigo do _Astro_, friccionra
as mos gelidas, deitava-se no enxergo ingrato ao longo repouso, e
no podia conciliar o somno com a febre cerebral do longo trabalho.

Ah! os justos dormem bem quando... no tem que fazer.




XIII

    Sempre bom, sempre douto, sempre amigo
            Da honra e da virtude.

         FILINTO ELYSIO.--_Ode._


Se eu podesse amar um homem!--verbo de recondito mysterio que passou
nos labios de Julia, por entre umas crispaes, que tanto podiam ser
nervosas como sanguineas.

Estas mesmas palavras repetiu ella  sua amiga D. Anna Vaz, um mez
depois de celebrado o casamento.

Vieram ellas de molde no seguinte dialogo:

--Diz o meu Eduardo que tu no amaste nunca meu mano Antonio.

--Ora essa! O teu Eduardo no tem senso commum! Em que funda elle essa
calumnia?

--Diz que tem estudado o teu genio; que te no acha nos olhos, nem nas
palavras a doura e tom de mulher,--a meiguice que elle chama
feminilidade. Disse mais que tens uns ares varons, e umas
attitudes fortes, inflexiveis e refractarias  ternura.

Julia soltou uma cascalhada de riso, exclamando entre froixos de tosse:

--Teu marido  admiravel! No tem graa, mas faz-me rir! Com que ento
tenho ares varons! Espera talvez que eu, se os francezes voltarem a
Portugal, vista a armadura da donzella de Orleans para salvar a patria!
Desconfia provavelmente que eu trago na algibeira do vestido a faca de
Carlota Corday! Ai, filha, dize-lhe que no! Assevera-lhe que eu dou um
grito pavoroso quando vejo uma carocha...--Continuou a casquinar e a
dizer:--Estas ms qualidades do sexo forte em que m'as viu elle? Nos
olhos sem doura, e nas palavras... sem qu? No te lembras?... Ah! sem
tom de mulher. Olha que injustia,  Annica! O timbre da minha voz 
feio de fino que ; e os meus olhos, na opinio da gente que me faz
favor de olhar para mim, so tristes e ternos. No sei quem foi que me
chamou antilopa de olhos scismadores... Ainda hontem ao Venceslau
Taveira ouvi que nos meus olhos brilhava uma congelao de lagrimas. V
tu, meu amor, que opinies to oppostas!

--Ai! a proposito... Sabes o que Eduardo me disse, Lulu?

--Que o Taveira me fazia a crte?

--Isso... como adivinhas tu, feiticeira?--perguntou D. Anna maravilhada.

--Como adivinho eu!... Isto no  feitiaria,  raciocinio. Elle
que diz que eu no posso amar,  porque sabe que os meus pretendentes
indefiridos so muitos. Ora, sendo Taveira o unico sugeito com quem
fallo na presena de teu marido, este ha de ser por fora o meu
namorador rejeitado...

--Mas elle ama-te decerto?--contraveiu D. Anna Pimenta.

-- menina, a pergunta  seria?

--, Lulu... Quem me dra vr-te casada e to feliz como eu sou!...

--s realmente feliz?...

--Porque duvdas?!

--Isto no  duvidar, minha filha...  o vivo jubilo que sinto quando me
repetes todos os dias que o teu Eduardo  o ente digno de ti. Queres tu
saber? Teu pae estava hontem triste e s na sala, quando eu entrei:
Perguntei-lhe que tinha... e elle...

--Ah! eu te digo... O Eduardo lembrou-se de dar um baile para festejar
os meus annos. O pap observou-lhe que os annos de uma pessoa querida
festejavam-se em familia, e que o prazer de festas vaidosas e
estrondosas era cerceado pela canceira de quem dava bailes em que os
divertidos eram os de fra. Eduardo ficou descontente; mas no
respondeu. O que elle particularmente me disse no o soube o pae.

--Que foi?...

--Desculpa-me, Lulu... no t'o digo... prometti segredo...

--Desculpa-me tu a curiosidade, minha querida amiga. Foi uma
inadvertencia que a tua amisade me releva... Mas ento no me illudi...
A tristeza do teu pap tinha relao comtigo; e por isso insisti em
perguntar se...

--Mas--atalhou a filha do commendador--ias contar-me a respeito do
Venceslau...

--Ah! sim... O Venceslau  um rapaz que merece ser admirado.  serio e
melancolico. Tem certa graa contrafeita no rir, quando se alegra por
condescender. Em outro homem, cuidaria eu que a sua grave compostura e
madureza intempestiva  artificio. N'elle, no. Eu sei o que ... A sua
paixo  a politica; os seus namoros so os livros; a sua noiva  a
Liberdade; e o seu co ou inferno  a gloria. Homens assim no amam
mulheres femins nem mulheres varons; podes dizer isto ao teu Eduardo.
Dize-lhe mais que eu no repell a declarao do Taveira. Ainda lhe no
ouvi palavra que me assuste nem lisongeie...

--Mas se elle te dissesse que te amava?...--inquiriu com malicioso
tregeito D. Anna.--Que fazias?

--Eu sei!... Forte aperto!--respondeu ridentissima D. Julia, a
deplorativa Arthemisa do defuncto emigrado.

--Ah!... entrei-te no corao, Lulu!... Cuidas que me enganas?

--Enganar-te!... Quando te menti eu, filha? Perguntaste-me se me elle
amava, disse-te que no. Perguntas-me se eu o amaria... Olha, minha
amiga... se eu podsse amar um homem...

--Ainda agora te ouvi dizer que se elle declarasse que te amava...

--Que mais ouviste?

--As reticencias... o embarao... aquelle _eu sei_!

--Sim, eu sei! Provavelmente ouvia-o com senhoril delicadeza, pedia-lhe
que me deixasse pensar, e depois...

--Que dizias depois?

--Se eu ainda no pensei para responder a elle, como hei de responder a
ti! Que indagadora! Se no fechassem a inquisio no anno passado, e
fosses varonl como eu, vestias a tunica dos dominicos, e ias interrogar
judeus e feiticeiros!

--Vou fazer-te uma prophecia--disse solemnisando o gesto de sibylla a
esposa de Eduardo.

--V, sbe  cadeira, j que no temos tripode, e prophetisa de l, na
certeza de que s oraculo por tal modo transparente que eu j sei o que
vaes vaticinar.

--Casars com Venceslau Taveira!--exclamou D. Anna, alongando o brao em
postura esculptural.

--Era isso mesmo. Desce o brao, propheta! podes apagar a chamma divina
que te alumia o futuro, e convida-me para jantar comtigo, visto que o
teu homem foi jantar com o general Sepulveda, e podemos parolar toda a
tarde... Olha, no gsto d'estas deseres que faz teu marido a jantares
alheios. Casado ha um mez, e jantar fra...

--Que tem isso?

--Eu no no consentia a meu marido.

--Pois sim... eu tambem no gsto; mas o pap deseja que elle se
empregue, e o general Sepulveda prometteu-lhe no sei qu no
commissariado. Diz o Eduardo que  preciso fazer a crte ao general. Ora
agora, tu, que tens quinhentos mil cruzados, se casasses, no consentias
que teu marido fizesse a crte aos que dispem dos empregos. Olha, casa
com o Taveira, e vers que elle janta sempre em casa...

--O Taveira? olha quem!... O Taveira jantaria comigo, se a santa
Liberdade o no convidasse a comer o caldo negro dos spartanos. A
politica  uma amante que supplanta as esposas. Em quanto houvesse leis
que fazer e costaneiras que rabiscar para vestir a Liberdade, com trapos
reduzidos a papel sujo, meu marido apenas me daria a honra de me lr os
seus artigos e discursos. Venceslau ha de ser um bom esposo, se a
Liberdade morrer; mas depois tambem a mulher, que o acceitasse viuvo de
tamanha deusa, corria o perigo de o ir procurar aos sertes da America,
onde ha tanta liberdade, sem constituio nem hymno, que toda a gente
faz o que quer e traja o mais livremente que  possivel.

N'este estylo, que denota frescura, desafogo e irriso, proseguiu D.
Julia de Miranda at  chegada do commendador. A pratica, durante o
jantar, correu  conta do soberbo discurso que Venceslau proferira
n'aquelle dia, captando o assombro das galerias, e consolidando a
reputao de primeiro orador, em to verdes annos. Francisco Vaz, 
medida que realava os talentos do deputado, vibrava de esconso 
filha uns olhares expressivos de mgoa e censura, como se quizesse
d'esta sorte arguil-a de ter-se esquivado a consultar o pae na escolha
do marido.

--Que brilhante futuro aguarda este rapaz!--insistiu o enthusiasta,
apezar da voragem que o deputado abria para sorvedoiro das commendas
rendosas.--Dizia-se ha pouco no Rocio que  bem de esperar que elle seja
chamado ao governo. Que admira? Quando o talento se allia  honra, que
monta a falta dos cabellos brancos! Vida immaculada com profunda
sciencia combinam o grande prodigio, n'estes tempos de muito vicio com
muitissima ignorancia!  snr. D. Julia, que homem aquelle quando o fogo
do genio e a consciencia da justia lhe alumiam a fronte! Tenho pena que
as damas portuguezas se considerem to alheias dos negocios publicos. Se
a instruco mulheril ou a moda levassem senhoras ao parlamento, quantas
no sahiriam de l hoje, no direi convencidas pela orao, mas
apaixonadas pelo orador!...

Ao gracejo do velho respondeu D. Julia:

-- bom que as senhoras no frequentem o parlamento. Pobre deputado, se
as apaixonadas o assaltassem  sahida da camara, a repucharem-no cada
uma de seu lado, e elle a defender-se d'essas mulheres de Phara, com
argumentos de irreprehensivel rhetorica! O pobre rapaz havia de
julgar-se novo Orpheu dilacerado pelas donzellas da Thracia.

O commendador franziu a epiderme da testa, revelando assim o
desgosto que lhe causavam as demasias de sal, com que a sua hospeda,
desde certo tempo, polvilhava as facecias.

--As damas portuguezas--tornou o commendador sisudamente--quando admiram
os bons ingenhos no os assaltam na rua; e, se os przam, no se
desprezam a si mesmas.

--Perdo, snr. commendador,--emendou D. Julia, despeitada pela
censura--eu respondi gracejando, por me parecer que V. S. no calculava
com a maior seriedade o numero das damas apaixonadadas pelo orador. Eu
tenho a honra de ser uma das leitoras, que admiram Venceslau Taveira, e
j n'esta casa o ouvi improvisar luminosos discursos; porm...

--No se apaixonou...--accudiu o velho.

--No, senhor. As mulheres portuguezas, em geral, no tm a
sensibilidade erudita que se extasia e captiva de discursos politicos.
Comprehende-se que um poeta leve de poz a sua lyra mulheres, como
Amphio levava pedras. A poesia  musica, e a musica, no sei onde li
isto, fascina cobras e outras alimarias ferozes. Mas um discurso sobre a
liberdade de imprensa e a egualdade perante a lei no seria capaz de me
arrebatar grandemente.

--Desconheo-a, minha amavel senhora!... replicou o commendador,
alongando os beios, e tomando na mo um prato, cujos relevos japonezes
parecia examinar em quanto fallava.--Essa linguagem, adubada de chistes
e epigrammas, d'onde lhe veiu? A menina, d'antes, conversava em
termos ingenuos, modestos e familiares: revia candura no pensar e no
dizer. Hoje, porm, e n'estes dous ultimos mezes, as suas phrases tm
novidade, que me desconsola. Ouo dizer que os emigrados trouxeram de
Frana uns livros que apagam os lumes do corao e accendem os fogos
fatuos do espirito... Dar-se-ha caso que a minha Juliazinha haja
lido muito?

--Leio desde os quinze annos, como V. S. sabe--respondeu com altiva
seriedade a fidalga.--Meu pae era rapaz quando o Pombal expulsou os
jesuitas e abriu as barreiras aos livros francezes. Meu pae estudou
ento, e mandou-me ensinar a mim o que lhe pareceu bom que eu soubesse.
Li muito, durante os annos que estive inclausurada em castigo de amar
seu filho. Lia para distrahir-me, e arrancar das presas da desesperao
a alma que eu guardava para elle. Os livros, que li ento, so os livros
que hoje recordo. Dos que ultimamente vieram com os emigrados no
conheo nenhum que me abraze nem que me gle. Ha todavia para mim dois
optimos exemplos de que os ares que os emigrados respiraram no
impestam. Bem lidos e sabios da sciencia dos francezes devem ser Eduardo
e Venceslau; no obstante, elles so homens de bons costumes e
excellente porte.

--So...--murmurou o commendador.--No duvido... no devo duvidar que
sejam...

E, balbuciando como se as palavras resistissem  represso da
vontade, levantou-se da mesa, onde se havia demorado, concluido o jantar.

N'este acto, annunciou-se Venceslau Taveira.

D. Julia deu-lhe os emboras do seu triumpho que elle recebeu com um
silencioso gesto de respeitosa gratido.

Perguntou por Eduardo; e, como lhe dissessem que jantra com Sepulveda,
a quem empenhra na sua collocao, disse:

--Eu obtive o despacho de Eduardo...

--Mas ninguem lhe tinha pedido esse favor, meu amigo!--disse com
jubilosa commoo o velho.

--No, senhor. Eduardo nada me pediu; vi na secretaria o requerimento. 
bem de crr que o ministro o attendesse; mas com as delongas usuaes.
Ora, como eu melhor do que ninguem podia depr do merecimento e
probidade do meu amigo, fallei ao secretario de estado, e alcancei sem
esforo que o decreto seja lavrado.

--Nobilissima alma!--exclamou o commendador, abraando-o.

D. Anna apertou-lhe tambem a mo com vehemente agrado; e, n'este lance,
disse alegremente o deputado:

--Dou-lhe os parabens, snr. D. Anna, porque, despachado o nosso
Eduardo, no ter V. Ex. o desgosto de jantar sem elle. O emprego 
sempre uma felicidade na vida intima, quando traz a uma esposa extremosa
mais duas horas de convivencia com seu marido.

--Mas tem percalos o officio...--disse D. Julia.

--Qual officio, minha senhora, o de chefe do commissariado?

--Esse ou qualquer outro que involva nas alternativas da politica o
socego de Eduardo.

--D'accordo, minha senhora; mas o socego  um egoismo improprio do homem
que deve ao pobre paiz o obulo da sua actividade e talentos.

--A mulher, primeiro--redarguiu a dama.

--A esposa primeiro nas prerogativas do corao--obviou Venceslau--mas
nos dons do espirito a humanidade, o commum de nossos concidados, que
constituem a patria. Eduardo Pimenta deve arrotear os maninhos em que
seus filhos ho de colher as messes. Aos fundadores da familia corre
maior obrigao de desaffrontar os herdeiros do seu nome dos vexames do
despotismo e da ignorancia d'este paiz, para que no hajam de
envergonhar-se os que nasceram n'elle...

--Vs, Anna?--disse Julia intencionalmente  sua amiga.--No  isto que
eu te dizia ha pouco?

Venceslau, olhando alternadamente para as duas senhoras, disse:

--V-se que eu tive a honra de ser discutido por V. Exas. ...

--Foi--tornou a fidalga das Amoreiras.--Dizia Anna Vaz que V. S., se
fosse casado, nunca deixaria de jantar com sua esposa; e dizia eu que a
sua esposa teria de succumbir rivalisando-se com os interesses da patria.

--V. Exas. ambas tinham razo. Se eu fosse casado, deixaria de
jantar com minha mulher, quando as obrigaes indeclinaveis de cidado
me no deixassem jantar n'outra parte. Se esse infortunio, porm,
acontecesse muito repetido, e eu deixasse de jantar alguns dias
successivos, minha mulher choraria amargamente quando lhe restituissem o
cadaver do marido morto de fome... no altar da patria.

Riram as duas senhoras da facecia expressada com seriedade
despretenciosa; mas o commendador que entreviu no dizer engraado uma
indirecta censura ao genro, murmurou:

--Democrito dizia eternas verdades, rindo.

--No me d foros de philosopho, meu bom amigo--volveu o deputado,
atinando com o intuito do velho.--Verdade  que, se a philosophia  ou
foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca
ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais
celebres da Grecia e Roma. So seis horas e no jantei ainda. Recebo as
ordens de V. Exas.

--Se recebe as nossas ordens--disse D. Julia--manh ir jantar comnosco
 sua casa das Amoreiras.

--Beijo as mos de V. Ex. por tamanha honra...

--Mas se a patria o impedir?--tornou ella.

-- vo o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e
deixa jantar os seus filhos. No se trata de lhe matar a fome; da
indigesto de lautos banquetes  que eu e outros mezinheiros a queremos
curar.




XIV

    Cuida que as namora todas.

         SA DE MIRANDA.--_Egloga._


Desde que o desembargador do pao Paulo Henrique Henriques de Miranda
fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas
luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque
vivia magoada e era s, esquivou-se a receber as antigas relaes de seu
pae, e at dos proprios parentes se desonerou, no pagando visitas alm
das cerimoniosas. Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o
restante d'ellas e o mais da noute eram de Anna Vaz e do commendador que
ella considerava sua familia.

O capello, padre instruido, que devia ordenao e bens de fortuna ao
desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a
casar-se, a fim de repr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as
salas desertas, dar vozes quelles corredores funebres, e crear os
netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle desadorava
por immensamente brutos. Se esta casa--dizia quasi iracundo o padre
Manoel Ferreira--resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que
jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no
co, embora V. Ex. l subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das
suas quimeras. Caze-se, minha senhora! caze-se!

D. Julia galhofava com o capello, e dizia-lhe:

--No se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. V pensando no
noivo, que eu fao o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?

--Poeta!--resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.--V. Ex. no sabe
o que so poetas em Portugal? Aqui no ha Horacios nem Racines, nem
Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis
na immortalidade. C, os poetas so os ebrios do caf das Parras e do
Nicola do Rocio.  o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento
Bocage,  o safadissimo histrio Jos Daniel, e quem mais? Poetas!...
Poeta era o snr. desembargador do pao, a quem o meu amigo Francisco
Manoel do Nascimento mandou l do desterro odes puro horacianas em
resposta d'outras; pois saiba, excma. snr., que seu pae, sendo poeta
que no invejava Garo, nunca admittiu s suas salas esses poetastros,
que por ahi ornejam a trocar sonetos magros pelas sopas gordas d'uns
Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o Tolentino... aquelle pedinto...

--Est bom, padre Manoel!--suspendia D. Julia--no me leccione a
historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faa odes como
Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto
devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.

O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, j
quando a fidalga a longe do supplicio de ouvir-lh'os.

Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capello se alegrou devras
quando viu sentados  mesa grande--que estivera devoluta no lapso de
nove annos,--o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe
dava prazer infinito, Venceslau Taveira, o moo em quem elle venerava
virtudes sem alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.

Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que
reverberavam a baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louas
indiaticas, a opulencia dos Henriques de Miranda, herdadas d'um
celebrado av, ministro e valido, que to funesta e deshonestamente
privra com Affonso VI.

Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria s festas da
sumptuosa dama.

Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos
olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a
serodia soberba da stirpe,--o tronco secular corroido pela ignorancia,
com alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol ardente dos
novos tempos.

No contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os
prazeres da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam,
danavam ou zumbiam amoriscados  volta das colmeias, no o via.
Perguntava a Eduardo se o seu amigo lhe teria sido levado de casa pela
me patria. Ia o marido de D. Anna em demanda do philosopho, e
encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel Ferreira folheando um
Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando estafermo embalado
no bero da arte typographica.

Reconduzido s salas, Taveira esforava-se por aquinhoar da alegria
contagiosa dos outros, e,  fora de fingir-se alegre, simulava um
provinciano emparvecido na contemplao dos collos despeitorados, das
espaduas brancas como as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes
mais ridiculos que lascivos, da refinao assucarada dos colloquios, e
do ar, nem sempre fragrante de todas aquellas vaporaes de flores
desbotadas e de epidermes escandecidas.

Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da
fidalga o desfitavam, elle ahi ia  sala onde alguns magistrados ancios
satyrisavam os mos costumes da gerao nova, no levando em conta que a
gerao arguida era a dos seus filhos, educados por elles. Venceslau
tractava-os com venerao, cedia-lhes a vantagem nos debates politicos,
e captivava d'esta arte a estima dos mais testudos absolutistas.

Quem o seguia sempre com admirao e amisade era padre Manoel, para quem
o rebolio dos bailes j seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de
vontade ou sem ella, os no frequentasse. E, ao mesmo tempo que este
affecto entranhado lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixo
inversa o inquietava. O capello aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto
extremo que o malsinava de ignorante, de vaidoso da sua profisso de
petimetre, de bonifrate sem proposito de marido, olhando para todas as
damas com tregeitos e galanices de piza-verdes, cacarejando uns dizeres
improprios de homem casado, e apenas perdoaveis aos que andam de amoros
com quantas levianas fazem barato das suas finezas. Esta censura no era
elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe cahia a talho,
desembuchava as azas do animo nos ouvidos de D. Julia, que lh'as ouvia
indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em
louvor de Venceslau Taveira.

A opinio do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do
commendador, se no ia  bibliotheca pasmar-se nas edies
quinhentistas, e antes se queria nas salas a extasiar-se na nitidez dos
typos do seculo XIX--era iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo,
frma, geito dramatico, attitudes ao romantico, verbo e nervo como 
moderna se diz, isso tinha elle, como raros do seu tempo. E a menos
valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a sobrepujal-o ao seu
amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as Dydimas de Lisboa
era importuno decerto com as suas, ainda bem que silenciosas,
austeridades de Timo atheniense. Que o chefe do commissariado andasse
galanteando as damas dos bailes de D. Julia  menos verdadeiro. O
capello, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. Se alguem
podia queixar-se era ella.

Mas no se queixava.

O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixo
immoral as ultraja,  virtude superior. As que medem a grandeza dos
dissabores que resultam de repudiarem  vista de testemunhas as finezas
d'um homem desvairado, mantm-se honradamente affectando que o no
percebem em publico, e defendendo-se em particular com o desprezo.

Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com
Eduardo Pimenta.

Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporera o marido
da formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas
de um livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de
lagrimas, as mais commoventes que podem sahir de peito ferido pelo
primeiro amor!

O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas
quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na
sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o
temerario galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o
vacillao.

No fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a  repartio em que
Eduardo era certo em determinadas horas. Elle abriu, releu-a de
espao, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso estranho
que rezavam assim: _No lerei outra; mas, se ella vier, pedirei  minha
amiga D. Anna Pimenta que m'a leia_.

Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre,
contentissima de seu nobre feito. Mo agouro! Mulher que, em lances
analogos, cr praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua
consciencia, ha de faltar-lhe o folego para subir muitos degros na
escada da virtude.

Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente s
caricias da esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos
piedosos na filha assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu
pezar, mais que nunca, n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentrao
desacostumada.

A noite d'este dia passou vagarosa e triste. No obstante, as
assembleias aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.

Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praa de namorado a varias
senhoras, que lhe no estremaram os galanteios das attenes e
obsequiosas lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na
polidez estrangeira.  excepo de uma ou duas, ou talvez tres, menos
conscias da cortezia parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga
n'isto de amar quem as amava, as restantes senhoras, se deram suspeitas
a padre Manoel Ferreira, sahiram impollutas. D. Anna, porm, affligia-se
secretamente dos modos cortezos do marido, porque no via to
azougados os moos solteiros  volta das mulheres e reparava nos
sorrisos que ellas entre si trocavam, ao passo que a olhavam de travez
lastimando-a ou escarnecendo-a.

Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor
despeitado. Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio,
irrital-a, dar-lhe a certeza de que outras mulheres mais viosas e no
menos fidalgas o no desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito.
Julia, por sua parte, dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil
artificio em sua propria casa, e dizia muitas vezes  sua consciencia
que todo o seu despeito era isso, e de modo nenhum o orgulho de ser
comparada. Como quer que fosse, e por mais protestos que fizesse de si
para comsigo,  certo que ella, relampagueando olhares severos a uma ou
outra condessa, que reclinava a face languida ao hombro de Eduardo,
segredava  sua amiga a baixa conta em que tinha a moralidade das suas
parentas. Depois, repza da inconsiderada confidencia, affligia-se,
desmentia-se, pedia  esposa de Eduardo que no desse valor aos sustos
proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella
infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.

Que desconchavadas incongruencias!

Estas torvaes de entendimento precedem a cegueira da alma, 
semelhana d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a
cegueira dos olhos. A medicina chama a estes prodromos da amorose
moscas: a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma,
em crise de cegar, so peneiras.

D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razo aos arcanos da sua
alma. Crou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da
dignidade abatida, a imagem soberba de Eduardo, e no podra odial-o.

Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvao da sua honra j
denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais
sereno e estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o
seu corao a peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixo
ignominiosa. Louvavel deliberao!

Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e,
com instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava
pela terceira vez:

--Se eu podesse amar um homem!




XV

    Flor la vimos primero, hermosa y pura,
    Luego....

         FRANCISCO DE RIOJA.--_Epist. moral._


--O homem que V. Ex. ha de amar--disse padre Manoel, inculcando-se
inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas da
prophecia--o homem que V. Ex. ha de amar  o mais digno de ser amado:
chama-se Venceslau Taveira.

Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhra tal presagio; uma,
quando os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada;
outra, quando o padre, carregando os dedos de rap, e silvando
chromaticamente a pitada, espiritava no cerebro a previdencia dos
matrimonios acertados. E como a fidalga o escutasse silenciosa, sem
levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava o cotovllo, o
capello proseguiu:

--Minha senhora, vou dar-lhe conta da misso de que V. Ex. me no
encarregou...

--Que misso!?--perguntou ella, erguendo o rosto.

--Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes,
frequentam esta casa--respondeu o padre compassando as vozes--e,
procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr.
desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que s perecedouras
riquezas da fortuna cega no quiz Deus ajuntar sempre as riquezas
immortaes da virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex., seja o
mais pobre que vem a esta casa.

--Bem...--atalhou D. Julia--; mas deixe-me interrompel-o com uma
observao que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O
snr. padre Manoel no devia escolher entre as pessoas que vem a minha
casa; mas sim entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor.
Venceslau Taveira  homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do
que  costume dizer-se s pessoas que se respeitam ou simplesmente se
estimam. O snr. padre Manoel sabe que elle, n'esta casa, o que mais
conhece  a livraria; e em quanto  volta de mim ou do meu patrimonio se
dispendem as lisonjas, est o sabio a lr os amores dos poetas latinos.
Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou at em crr
que a sua indifferena no seja orgulho do talento. Convenho na
distinco que o snr. padre Manoel lhe d; mas no so essas qualidades
as que promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a
sciencia e a virtude do esposo; mas, alm de tudo isso, deseja ser
amada. Quem lhe disse que Venceslau me ama? foi elle?

--No, minha senhora.

--Ora ahi est!... Que quer ento, padre Manoel? Que eu v pedir-lhe o
obsequio de me conceder o seu amor?

--Eu ainda no disse a V. Ex. a minha misso--replicou o padre.--Se d
licena...

--Diga ento.

--Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a
respeito de V. Ex.

--O espirito ou o corao?

--Deixemo-nos d'essas distinces romanescas, minha senhora! O corao 
um orgo do apparelho do sangue. O espirito ou alma  o motor das nossas
cogitaes. No estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu
quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de
circulao, diria que sondei o corao de Venceslau; mas, se o meu
intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.

--Est bom: fico sciente. Ora conte l o que sondou.

--Sondei que elle sentia por V. Ex. profunda estima, e aquelle grande
respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo
honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu
que no cessava de instar com V. Ex. para que tomasse estado,
advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga no
poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem.
Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este mundo,
lhe entregra o retrato da sua adorada noiva, por ser elle--o confidente
de tantas angustias e saudades--alma digna de receber as lagrimas do
amigo que morria, e as de V. Ex. que o ficava carpindo. Logo, conclui
eu, se ha homem digno de ser amado pela snr. D. Julia, minha senhora, 
aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem
do moribundo para a sua amada.

--Que disse elle?...--interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.

--Disse que V. Ex. o honrava com a sua amisade, e que este sentimento
era o maximo galardo que elle devia esperar da fraternal cordialidade
com que alivira algumas mgoas de Antonio Vaz.

--Isso  amor?

--Queira V. Ex. esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao
mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe
_ex-abrupto_: Se a snr. D. Julia escolhesse para esposo o snr.
Venceslau Taveira? Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta
resposta: O snr. padre Manoel Ferreira tem illuses proprias de quem as
no gastou em desenganos.--Que quer isso dizer?--voltei eu bastante
esperanado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta
peregrinao at ao arco do altar.--Quer dizer (respondeu o
modestissimo moo) que a snr. D. Julia de Miranda tem quinhentos mil
cruzados; tem provavelmente adoradores que faam consistir toda a sua
actividade em adoral-a; tem a alma preza  saudade de outra que
alguma vez a visita e enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um
homem pobre--continuou elle--circumscripto aos deveres que contrahiu com
a patria, sujeito a perseguies d'odios politicos, ameaado com o
desterro, e at com a morte no campo da batalha ou no patibulo, tal
homem seria o involuntario algoz da felicidade d'uma senhora que o
acceitasse para os gosos da vida intima, cercada por tantos perigos.
Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex., que o mandava
chamar  sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de Villa-Cova.
Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu com
interior satisfao, minha senhora? que elle andava por entre os
reposteiros a contemplar V. Ex., e que, s vezes, se se affastava para
a sala dos retratos, era para estar s, mergulhado em funda meditao.
Eis-aqui, excma. snr., o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu
tenho preciso de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!

--Precisa--respondeu ella prompta e serenamente.

--Preciso? Perguntar-lh'o-hei.

--No pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema
antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado  matriarcha; e, quadrando
a resposta, casavam.

--O povo de Deus era assim.

--Concordo; mas a gente, de hoje em dia, no...

--No  de Deus?--atalhou o padre.

--Estou que ; mas Deus  que no manda o seu divino espirito
presidir aos casamentos da freguezia dos Martyres ou de Santa Justa.

--Ah! no se me faa espirito-forte, fidalga!--exclamou sombriamente o
padre.--Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de Rousseau... a
Encyclopedia... _etc., etc!_... Olhe que Venceslau, posto que
sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo XVIII
escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e cr que a alma
de sua me lhe rada de sua luz celestial nas escuras veredas da vida!...

--E eu ento sou atheista? No creio em Deus, porque entendo que no 
bonito ir o meu capello perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah
padre, padre! a sua intelligencia tem s vezes uns eclipses que nem por
isso o tornam comparavel ao sol...--disse ella rindo com o consenso do
clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.

E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta
vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.

--Que , filha!!--exclamou a amiga, indo recebl-a nos braos.

--Manda embora o capello--disse-lhe ella ao ouvido.

O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflico no
rosto de D. Anna.

A esposa de Eduardo, trmula, offegante, e incendida de febril
anciedade, disse entre soluos:

--Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar... Depois que
Eduardo sahiu, fui  escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez,
uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua
prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta
d'ella...

D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o corao, com o terror de ter sido
encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e,
posto que a justificao lhe sahisse facil e digna, a sua posio em tal
conflicto era m.

D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:

--Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e
vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto.
Li-as, e fiquei certa de que Eduardo est ardentemente apaixonado por
uma mulher quem quer que seja... L tu, v se podes adivinhar a quem
essa carta  escripta; mas l depressa, que eu quero ir repl-a na
gaveta antes que Eduardo venha da repartio.

Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe
acclarou o destino, por estas palavras: _Se V. Ex. cumprir a ameaa que
me escreve--se me denunciar, far duas victimas. Mata uma innocente, e
ordena ao criminoso que se suicide: ser obedecida._

--Que querer isso dizer?!--perguntou Anna.--Quem ser essa innocente e
esse criminoso?... E que ameaa lhe faria a tal mulher?... Podes
decifrar isso?

--Eu no, filha... Que mysterio!...--balbuciou Julia. E continuou
lendo, e relanando a furto os olhos em toda a extenso da lauda,
buscando perturbada alguma inicial que a denunciasse.

O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de
prosa campanuda com muito lardo poetico de cos, infernos, furias, anjos
precitos, archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre,
golgothas, estrangulao de suicida, almas devastadas, arestas
d'abysmos, e o mais que cabe nas cavernas lbregas d'um peito romantico,
onde uma vez entraram as novellas de Anna Radcliffe.

Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse
enternecida:

--E tu que fazes agora, filha?

--Que hei de eu fazer?! nada...

--Ento vaes fechar a carta onde a encontraste?

--Vou...

--E no dizes nada a teu marido?

--Acho que no... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e
meu pobre pae morre de paixo. Tu no vs como elle j est soffrendo s
de me vr triste, e de o vr a elle to descuidado de ns?...

--Nem a teu pae dizes nada?...

--Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dr...

--Tu s uma sancta!--exclamou D. Julia, abraando-a arrebatadamente.

--O que eu sou  uma grande desgraada!--emendou Anna.--Que me dizes
ento, Lulu?

--Que queres que te diga, se o teu plano est feito? Quem a si mesma se
aconselha com tanta dignidade, no tem necessidade de conselho.

--O que eu queria era que tu descobrisses quem  a mulher; e, se ella
fosse tua relao, a expulsasses d'esta casa, ou me no convidasses
a mim...

--Dizes-me isso to desabridamente, filha! _No te convidar a ti!..._

--Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto
posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me
escarnece...

--Bem vs, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta no pde
escarnecer-te... No vs que ella despreza teu marido!

--Sim? despreza?

--Pois que diz essa carta?  um desesperado queixume contra a mulher que
o repelliu. Tomras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando
elle as requestar...

--Tens razo, Julia! tens razo! Olha que eu nem tive socego de espirito
para entender a carta... Olha, vou mais contente... Pde ser que elle a
esquea... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a,
talvez que...

--O ame?

--Sim...

--No, filha, no receies. A mulher de corao ama sem este mixtiforio
de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de
palavras. Sabes tu outra coisa? Teu marido leu maus romances, e
principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que no
v morrer apopletico. No faas caso d'isso... Ai! j me esquecia!...
No te vs sem uma novidade...

--Que ?

--Vou casar-me.

--Sim? com...

--Com o teu vaticinado. Adivinhaste.

--Venceslau?

--Sim.

--No t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo  noite, e
nada me disseste!

--Resoluo tomada hoje.

--Veiu c elle?

--No... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de fechar
a carta, que no esteja eu a privar-te da beno de tua santa me...
Adeus, at  noite.




XVI

    _Melius est pubere, qum uri._
    Melhor  cazar-se do que queimar-se.

         S. PAULO.


Seguidamente procurou D. Julia o capello no seu escriptorio e disse-lhe:

--Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e v  camara dos
deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peo 
sua probidade nunca desmentida que lhe no diga a conversao que tivemos.

--Que tem V. Ex.? o seu espirito est desasocegado!--notou o padre com
a mgoa do muito que lhe doa vl-a estranhamente agitada.

--V! no me pergunte nada agora... Eu me confessarei  sua boa alma,
quando me sentir mais tranquilla.

--Bem sei...--murmurou o padre--bem sei...

E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: se sabe...

A improvisa deliberao de Julia  lance que nos revela indole generosa,
mas precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes
encaminhadas  direita vereda por onde ellas conduzem  felicidade
estavel. Convm saber que ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos
encadeados da vida estreme de romance. As phantasias energicas e
destemperadas que partem aquella cadeia, conhecem mais tarde que os los
quebrados eram a parte mais solida por onde a esperana devia prender-se
 realidade.

De prompto occorre  sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu
repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho--a ella,
unica pessoa que sabia o segredo da paixo de seu marido. Affastal-o de
repello, fulminar-lhe as esperanas, defender-se do ultraje com a
respeitabilidade de esposa, e esposa de Venceslau Taveira--o amigo e
bemfeitor de Eduardo--este foi o sentimento elevado que a impulsou a
decidir do seu destino, como se os destinos impendessem d'estas
determinaes instantaneas. Foi um relampago que lhe allumiou o futuro;
mas, se o fulgor electrico abrange dilatada circumferencia, densa
escuridade se tece depois aos que apalpam rochas ridas que a luz
azulejra como kioskes.

De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida no offerece contraste
que a desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por no dizer soberba?
Dispor de antemo da condescendencia de homem tal como Venceslau,
era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou
illudir-se muito com a j desluzida belleza dos seus vinte e nove annos,
ou ento enlaar presumposamente essas duas prendas s graas do
espirito que, em verdade, lhe davam a primazia entre as suas
contemporaneas.

Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido
nas suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o
divino Socrates--para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da
admirao do universo--a vaidade de Julia ser derrotada irrisoriamente
aos olhos de Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se
fantasiou alada pela honra, dar o estrondo d'um escandalo ridiculo nas
salas de Lisboa.

Antes da chegada de Venceslau Taveira j a tortura da incerteza
flagelava D. Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de
espiritos para honestamente abrir conferencia de tanto melindre.

N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a
encontraram o deputado e o clerigo.

No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvao das
conjecturas. Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e
subitamente resolvido. At aqui havia chegado a confidencia do padre,
cujo contentamento extraordinario devia ter mysteriosa significao nas
perplexidades do convidado.

Observou o hospede que D. Julia, a s com elle, denotava acanhamento
desacostumado. A conversao esfriava no trivial. A politica era chamada
 pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraquera, pedindo ao
orador que deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe dsse a
honra de a visitar.

Quando um criado entrou  sala a saber se a fidalga mandava servir o
jantar, D. Julia deu o brao a Venceslau Taveira, e foi dizendo:

--Somos ss, e mais o capello. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel
Ferreira est symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo
que fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da
minha livraria. Sinto no ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas
sentar-se-ha no collo do padre. Cicero, se vier; ir para o collo do
snr. Taveira.

--Convidaremos Corinna, para que V. Exc. tenha alguem no regao, disse
o deputado.

O capello, que j os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e
acudiu logo:

--Fallam da infiel amante de Ovidio?

--No, senhor--disse Venceslau--fallavamos da poetisa grega...

--Rival de Pindaro--ajuntou o padre--a qual cinco vezes foi premiada nos
jogos olympicos...

--Primeiro discurso academico!--atalhou D. Julia.--No lh'o disse eu,
snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de spa, se o snr.
Venceslau no quizer acceitar o meu logar.

-- minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...--disse Taveira.

--Gosto de o vr ahi, snr. futuro secretario de estado...--disse o
capello.--Est na cadeira do snr. desembargador do pao Paulo Henrique.
Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr. D. Julia, ninguem mais
occupou essa cadeira. No ha ainda quarenta e oito horas que eu
perguntei a S. Ex.: quando verei alli sentado seu marido?

D. Julia crou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que no crava
nos banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisao do seu rico
sangue, continuou:

--Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do desterrado
do Ponto, citar-lhes-hia a cano do banquete em que o poeta lhe
impropra a perfidia...

--M iguaria nos banqueteava, padre Manoel!--contraveiu D. Julia.--Antes
uma cano de amor fiel, quando a censura do crime no tem auditorio a
quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos seus
mais caros affectos...

--E eu serei o fiador de V. Ex.--acudiu o deputado--mas se eu abono a
lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex. fica pelo vago amor de quem
namora uma esperana. A favor da snr. D. Julia est o passado que funda
em provas incontestaveis; eu, de mim, no posso consentir que V. Ex. me
abone, sendo coisa to incerta o futuro.

--Eu referia-me ao seu amor privativo da patria--explicou a dama.

--A patria  como aquelle po de que o homem no pde unicamente
alimentar-se, na phrase do Evangelho--retorquiu Venceslau.--Varias vezes
V. Ex. e a snr. D. Anna Vaz, motejando com bondosa graa a diligente
assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fros de
selvagem desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe
no sybarita como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu
merecia as amaveis censuras de SS. Exas., mas, em verdade, minha
senhora, se eu me vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam,
tarde ou cedo as faria rir da minha enfatuada insensibilidade.

--Pois qu?!--exclamou o padre--snr. Taveira, bebo  sua saude. _Nunc
est bibendum._ Gsto d'essa franqueza! _Homo sum et nihil a me alienum_,
etc.

--Estamos em casa de Mecenas--disse, sorrindo, D. Julia.--Entrou
Horacio, e l est a discretear com o padre.

--O latim  de Terencio--illucidou o erudito--e quer dizer que o snr.
Venceslau Taveira  homem como os outros... Como os outros, quero dizer,
os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e
na moral, na vida illibada e...

--Pelo amor de Deus--interrompeu o deputado.--Parece que me est
dictando a necrologa, snr. padre Ferreira! No usurpe aos mortos essas
hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem
examinado nas imperfeies menores. J no  pequeno aleijo moral o
defeito de corao que me censuram...

--Pois que quer?--volveu D. Julia--como hei-de eu julgar a sua
indifferena em meio de tantas damas formosas e espirituosas que
frequentam esta casa? Nenhuma o impressionou?

--Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.

--Mas admirar...

--Admirar no  amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e no se amam. A
me que nos affaga, ama-se e no se admira. O amor brota da alma. A
admirao forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra
deve ser espontaneamente natural.

--Materia estranha  essa em que no tenho voto--disse padre Manoel,
engatilhando a pitada ao nariz.

--O homem do Evangelho no  o de Terencio--assentiu Venceslau.

--Mas--voltou o clerigo--posto que o Evangelho me no ensine nem
consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que
Jesus Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel n
duas almas, santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo
amor percebo eu; no se me importa saber se vem antes ou se vem depois
da admirao; se  espontaneo da alma, se a alma  estimulada por
affectos de natureza menos psycologica. Ha opinies. _Grammatici
certant._

Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente no
entendeu a phrase nem o sorriso.

E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:

--Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era
solteiro e eu estudante _in minoribus_, j ento familiar d'esta
hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do
fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa j vem d'esse tempo. O joven
doutor folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me
a honra de lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de
outros assumptos menos litterarios, mas no menos poeticos.
Conversavamos de amores, mas amores honestos como a mocidade de ento os
tratava theorica e praticamente, eis que o snr. doutor me disse,
respeito a casamento: Olha, Ferreira, eu no ando por salas em damarias
de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os namorados
parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes quebrantados.
Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de tornar a
vl-a, indago-lhe da vida; e se as informaes m'a derem ao sabor da
ideia que frmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para
marido. Se me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa. Pouco
tempo depois, na cadeira em que est sentada a snr. D. Julia, estava a
snr. D. Maria das Dores Mascarenhas, me de V. Ex., exemplar de todas
as virtudes conjugaes, to amada na vida, quanto chorada na morte.
Sendo j fallecida sua Exma. me, estava V. Ex., menina de nove annos,
no logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli.
Recordamos ento com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes;
e seu pae, correndo-lhe a mo pelas faces, disse: permitta o co que
esta creana seja amada como foi sua me; e que as galanterias das salas
e os fumos da lisonja lhe no offusquem o entendimento na escolha de
marido. Contava quinze annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete
de cavallaria, a cortejou. O snr. desembargador foi avisado. Soube cujo
filho era o moo. No lhe desfez na gerao honrada e antiga; mas,
averiguando qualidades proprias--que eram o essencial para o snr.
desembargador--descobriu que Antonio Vaz, tendo amado uma filha segunda,
formosa e todavia pobre, se esquivra de compromissos havidos com ella
para requestar a rica herdeira, a snr. D. Julia. Tal foi a origem dos
dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de
pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada no ao
capricho, mas  moral sublime de seu pae. Przo-me de fazer justia 
memoria do meu bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz.
Elle era digno de tal esposa, desde o momento que ella o considerou
digno de si...

--Mal cabidas reminiscencias...--murmurou D. Julia magoada.

--Tristes...--observou Venceslau--mas sempre bemquistas da alma que no
as quer nem pde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias
veneraveis, uma do pae que foi illudido, outra, a do primoroso moo
que no podia mentir-me, peo  snr. D. Julia que respeite por egual a
memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do seu
affecto paternal, e a memoria do corao que se deliu nas lagrimas do
primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma
sepultura.

Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral
memoria, e disse commovido:

--Absolva-me V. Ex. d'esta indiscrio... Eu hei de ser sempre o homem
inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vr quando a
tristeza ou a alegria competem s occasies.

--A culpa no  sua--desculpou D. Julia--quem nos deu este quarto de
hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para qu...

--Primeiro para commemorar--respondeu o imperturbavel capello--o
profundo juizo do pae de V. Ex. respectivamente a casamentos; segundo
para lhe defender a memoria, em presena de sua filha, da arguio
iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando
ha dias me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.
D. Julia. Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando
extremadamente sua filha, teve da bondade divina o dom da previso, e
anteviu que, depois de sua morte, viria guiado pela Providencia a esta
casa o homem predestinado a ser esposo e pae de sua filha, esposo pelo
amor e pae pela seriedade do seu porte e madureza de juizo. Ora, o
homem previsto e vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau
Taveira.

No espere o leitor que se lhe d o esboo de grandes assombros e
perturbaes. Se elles no se espantaram do remate do discurso,  justo
que eu me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia
rozou-se, abriu um sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os
labios silenciosos; mas fitou os olhos no prato, onde depozera o talher,
e s os levantou, quando Venceslau Taveira principiou fallando.

Vo vr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o
enthusiasmo pautado e obrigado em casos d'esta natureza.  alma sincera
e rija, que opra sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam
os extasis e os spasmos que a natureza copa dos palcos. Tem o corao
subordinado ao raciocinio. Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas
que perfumam a palavra e lhe do o rythmo apaixonado. Mas no  isso a
esterilidade, o desapego, a aridez que imbebe as lagrimas improductivas
como areal onde os orvalhos no verdejam uma hervinha.  indole
corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da razo sobre os
sentimentos que a fantasia no desabotoou na razo propria. Venceslau
orava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez
experimentado, no abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do
corao encontra j o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e
egual neutralisa os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade
no intimo sentir d'essa edade, a luz ideal resvala pelo seio frio
do gear da desgraa, e no o aquece. A condio do deputado no era bem
esta; mas tambem no era optima para exuberar delicias no corao de
mulher que o amasse ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez
coubesse aqui averiguarmos se Julia o amava; protrahiremos a penosissima
resposta: ella que responda opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que
sahida elle deu quelle passo angustioso, de que o leitor e eu nos
tirariamos tartamudeando lyrismos dignos de mais levantada historia.

--O silencio da snr. D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel
Ferreira deu s suas palavras o espirito de respeito que se deve a V.
Ex., e o de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha
senhora, ser dito sem commoo. A felicidade alvoreceu na minha vida
pela primeira vez; mas, no tendo eu visto seno homens desgraados pelo
amor, a experiencia das dres alheias faz que o raio da luz nova toque
j menos ardente na minha alma, tendo de atravesar a frialdade da razo.
Oua-me V. Ex.: eu vi-a no exilio espelhada nas lagrimas de Antonio
Vaz; vi-a ajoelhada ao p da vala onde eu ajudei a descer o caixo; vi-a
nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava nos olhos do
seu retrato a scintillao do pranto. Ha muito tempo, pois, que V. Ex.
vive nas minhas meditaes, na minha poesia triste;--porque tambem eu
fui poeta, no para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanas,
mas para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O
poeta adopta as imagens da sua fantazia e com ellas frma a ideal
convivencia em regies de luz ou de trevas; eu tambem vesti de crepe uma
suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplaes: era V.
Ex. Interrogando o meu corao, impunha-lhe violentamente o preceito de
me enganar; amordaava-o para que me elle no dissesse que eu poderia
apagar a saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto
um segundo amor. Alm d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade s
cinzas do meu amigo: parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a
pedir para mim a felicidade que elle anhelou, e mais acerba lhe fez a
desesperao que aos olhos embaciados pela morte se mostra ainda a
negrejar e a sumir-se no abysmo do passado. Descendo do alto ponto
d'estas consideraes ao vulgar e mais positivo do juizo social, vi que
muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis dons,
rendiam a V. Ex. o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem
a serenidade da sua heroica renunciao. Ao mesmo tempo, olhando em mim,
com a reflexo que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre,
desvalido das qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao
artificio os donaires e geitos que modificam a rudeza natural, peorada
pela soledade do gabinete e preoccupao de estudos incompativeis com as
finas graas da cortezia. Se algumas vezes, um intimo alvoroo me dizia
que V. Ex. me honrava com estranhas distinces, eu mandava immudecer o
amor proprio, e explicava a mim mesmo a estima de V. Ex. pelo
sentimento de gratido ao confidente de Antonio Vaz--ao homem que lhe
trouxera no retrato d'elle o ultimo lampejo dos olhos que a tinham
contemplado. Iria mal a meu caracter franco fingir-me surprezo por este
imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre Manoel Ferreira me convidou
a jantar com a snr. D. Julia, experimentei a nunca sentida impresso
que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da vaidade, do
orgulho, do jubilo das creanas--felicidade febril que eu sentia nas
palpitaes do corao. O amor que a tantos homens se manifesta em
commoes, que augmentam de intensidade, com intercadencias de
despeitos, com irritaes de ciumes, com o remorso at das injustias
que se commettem--o amor, que nasce j santificado pela pureza do seu
destino, esse, minha senhora, o deposto aos ps de V. Ex.

D. Julia offereceu-lhe a mo tremula de poetico enthusiasmo. E d'amor?
Ai! eu no sei. Venceslau ergueu-se, aproximou-a dos labios. Padre
Manoel Ferreira apertou nas suas as mos dos noivos, e disse a D. Julia:

--Eu sonhava esta felicidade desde que o pae de V. Ex., na sua hora
final, me balbuciou estas palavras: Abene minha filha em meu nome, se
ella no deshonrar a memoria de sua me. Eu no ouso abenoal-a; mas
curvo o joelho para lhe agradecer em nome das duas almas que a
inspiraram. Snr. Venceslau, aqui tem o anjo que Deus envia aos
virtuosos.




XVII

    Oh desenho temerario
    Que tal perigo intentava!...

         JORGE F. DE VASCONCELLOS--_Memorial._


Quando, na noite d'aquelle dia, D. Julia entrou em casa do commendador,
a esposa de Eduardo estava no seu quarto; e o pae, curvado sobre a
jardineira, com a face entre as mos, meditava abstrahido. Espertado
pelo fremito de sedas e rangir de passos na sala proxima, ergueu-se
rapido e foi ao encontro de Julia.

--Esperava-a anciosamente para lhe dar os parabens--disse elle.--Eu quiz
ir de tarde procural-a; mas minha filha asseverou-me que V. Ex. vinha
aqui. Vai ser feliz, D. Julia; se eu me engano, so falsos todos os
prognosticos que podemos tirar em materia de casamento. Eu no devia
hoje fallar-lhe d'outro assumpto; mas...

--Onde est a Annica?--interrompeu Julia.

--Na cama.

--Doente?

--Febril. Chorou muito...

--Porqu?

--No sei, no m'o diz; o marido sahiu antes de jantar, e no voltou. V
l, v a minha querida Julia consolar essa nova dr que eu ignoro...
Olhe que infortunio este! casados ha cinco mezes! Onde ir isto findar
com taes comeos!... Metti em casa o verdugo de minha filha... V. Exc.
ver que a pobresinha vai muito cedo unir-se  me, que a est chamando
para si...

--Que imaginao a sua, snr. commendador!... Deixe-me l ir, que estou
inquieta... mas espero que isto no passe de alguma passageira
tempestade de ciumes...

--Pois sim, ser; mas n'essas tempestades  que naufragam as mulheres do
corao... as desgraadas que amam, e preferem morrer martyres a viver
vingadas... V, v, seja o anjo amparador d'essa creana... que ninguem
quiz salvar... ninguem... Eu s... eu s previ este desastre; mas
succumbi ao receio de a perder...

D. Julia foi recebida sem a costumada expanso. Anna Vaz estava
recostada ao espaldar do leito; e ao lado da cama a sua creada de quarto
enchugava as lagrimas.

--Que tens, filha?--perguntou Julia.

--Que hei de ter?... a minha sorte a cumprir...

A creada sahiu.

Anna pediu  sua amiga que fechasse a porta  chave, pegou-lhe das mos
com vibrao nervosa, e disse-lhe:

--Vou contar-te tudo... has-de ouvir-me tudo sem te magoares, sim?

--Tudo, filha...--balbuciou D. Julia traspassada por dolorosa suspeita.

--Olha que meu marido... ama-te.

--Jesus!--exclamou a noiva de Venceslau affectando naturalissimo
pavor.--Tu deliras, Anna!

--No deliro, infelizmente no deliro... Eduardo ama-te... Queres saber
como eu descobri esta desgraa que nunca me resvalou pelo espirito,
apesar das palavras que me elle dizia de ti, e todas agora me lembram
para me atormentarem?... Olha... quando elle hoje s quatro horas chegou
da repartio, perguntou-me se eu tinha sahido, porque me viu vestida
como fui a tua casa. Respondi-lhe que estivera comtigo e recebera a
inesperada nova do teu casamento com Venceslau. No te posso pintar o
transtorno das suas feies! Fitou-me com os olhos espavoridos, e
perguntou-me em tom desabrido: Que historia extravagante  essa?--Isto
no  historia--disse-lhe eu-- a noticia que me deu Julia. Mas ficaste
assombrado! Ests pallido! Que tens? que te importa que Julia case ou
que no case?--No me importa nada...--respondeu elle, disfarando
miseravelmente a agitao--no me importa... mas o espanto , n'este
caso, bem natural!... Pois hontem ainda estive com o Taveira, e com
ella... e nada me disseram... Continuamos a conversar sobre o assumpto,
sem elle poder dominar a ancia em que estava de se esconder aos meus
olhos... Chamaram para a meza...; e Eduardo n'esta occasio, muito
perturbado, tira o relogio, v as horas, e diz: no janto c hoje...
Hei de estar infallivelmente s quatro horas em casa do Sepulveda...
Desculpa-me... que no posso faltar. E, quasi sem esperar que eu o
contrariasse, sahiu com os olhos desvairados como um ebrio... e no
voltou ainda. Aqui tens a minha enorme desventura... aqui me tens na
angustia que nunca podia prever a minha alma preparada para as maiores
provaes... At hoje, eras tu a minha consoladora... Que has de ser tu
para mim de hoje em diante?

--O que fui sempre...--disse Julia com firmeza. Se as tuas suspeitas so
verdadeiras, o desatino de teu marido ha de ser curado com a vergonha de
me ter querido vr na plana d'algumas infames que elle ter conhecido.

--Pois sim; mas no serei eu a victima?

--No, minha filha; se houver alguma victima, no o sers tu...

--Ento quem?

--Elle...

--Como?... No te comprehendo...

--Ser a victima do seu opprobrio... Perder a estima de todas as
pessoas de bem, e a tua...

--A minha? no! no que o amo...

--Has de odial-o, quando a sociedade o abominar... Mas no antecipemos
as consequencias d'essa loucura... Se ella  verdadeira, lembra-te que
vou casar com o homem que teu marido mais respeita. Eduardo, se ousar
erguer os olhos para mim, ha de baixal-os envergonhados. Se  uma
paixo... Paixo!--repetiu ella falseando n'um sorriso a dissimulada
duvida.--Paixo!... no creias que tal sentimento possa nascer n'um
homem que me respeita e deve conhecer que o desprezarei... se se atrever
a manifestal-o...

--E nunca t'o manifestou?...

--Porque me fazes tal pergunta?

--Mas dize, Julia, nunca t'o manifestou?

--No...--respondeu sem turvao a interrogada, rosto a rosto.--Que
lembrana a tua!

-- verdade... Lembrou-me se seria para ti a carta que eu hoje te
mostrei...

--A carta?!

--Sim, Julia; e, quando fosse, o teu nobre procedimento est bem
justificado n'aquella carta. Eduardo queixa-se de ter sido repellido...
Que outra coisa podia esperar eu de ti? Queixar-me porque m'o no
disseste, seria fazer injustia  tua prudencia... Todo o teu empenho de
boa amiga devia ser que eu ignorasse a indigna tentativa de Eduardo...
Permittisse Deus que elle me no dsse rivaes com menos virtude...

--Rivaes!--contradisse Julia irritadamente.--Rivaes so as que acceitam
a competencia...  preciso que duas mulheres amem o mesmo homem
para que se chamem rivaes. Em quanto eu desprezasse as declaraes de
teu marido, no devias dar-me nome to injurioso...

--Ento confessas que era para ti a carta?

--Se confesso!...--tartamudeou Julia.

--Sim... tu no pdes enganar-me... Vejo-te a alma nos olhos, e a
perturbao nas palavras... Tens piedade de mim, no tens? Ento dize-me
que meu marido te escreveu... que tu lhe respondeste como devias... e
que elle te mandava depois aquella carta...

D. Julia apertou ao seio a face lagrimosa de D. Anna, balbuciando:

-- verdade...  atrozmente verdade que teu marido me escreveu... No te
peo perdo, porque no tenho de qu. Na resposta, que lhe dei em duas
linhas escriptas na sua mesma carta, ameacei-o de te mostrar a segunda,
se m'a elle enviasse... Lembra-te das palavras.

--Que eu no pude entender... bem me recordo... _Se V. Ex. cumprir a
ameaa que me escreve, se me denunciar, far duas victimas. Mata uma
innocente, e ordena ao criminoso que se suicide..._ Era isto;
mas--proseguiu Anna em pranto desfeito--o meu infortunio ainda assim
fica sendo enorme... Se te elle ama com tamanha paixo, e te v casada,
e perdida para sempre, onde o levar o desespro...

--Paixo!...--repetiu Julia motejando a palavra.

--Paixo, sim... pois, se o no fosse, Eduardo teria a fraqueza de
alterar-se a tal ponto? Sahiria de casa como louco? Teria escripto
uma carta em que tantas vezes falla no suicidio?...

-- filha, essa palavra em cartas de namoro no tem significao
assustadora...--replicou Julia jovialmente.--Creio que no recebi uma s
carta das muitas que devolvi, em que essa funebre responsabilidade me
no fosse imputada; e nenhum dos muitos que me escreveram se matou...

--E como tu pdes rir, sendo tamanha a minha infelicidade,  Julia!...

--No exageres, creana!--animou a noiva de Venceslau Taveira com
incrivel frieza de animo.--Teu marido ha de voltar para ti curado pela
reflexo e melhorado pelo remorso de te haver sacrificado  mais
estupida vaidade que podia desnortear o tino d'um homem intelligente.

--Mas no te maga vr que  necessario acabarem as nossas relaes?

--Como? acabarem...--acudiu D. Julia espantada.

--Sim... acabarem... Com que alma hei de eu estar na tua presena e na
de meu marido?!

--Ento queres dar ao caso as propores do escandalo?--replicou Julia
altivamente.--Dirs a teu pae que Eduardo me fez a crte? Obrigar-me-has
a dizer a Venceslau que as nossas relaes se romperam, porque teu
marido me namorava? Permittes que a nossa sociedade me considere a
infame que te amou o marido, e a ti a honesta dama que me expulsou
de sua casa, e no quiz manchar-se no descredito da minha?

--Jesus! onde tu vaes!--exclamou D. Anna--pois, se eu deixar de ir a tua
casa,  foroso que se publiquem estes desgostos que ninguem sabe?

--: ha de sabl-o teu pae, ha de sabl-o o homem que no ser meu
marido... nem eu o quero... com tal condio. E, depois, tu tens fora
para a lucta horrivel que vaes travar com teu marido, se publicares a
sua deploravel fraqueza? E no temes que teu pae, j to quebrado de
foras, morra de pena de ti, odiando o homem, que eu, to enganada pelos
teus olhos, affirmei havia de ser um excellente esposo?

--Que hei de eu ento fazer, Julia? Aconselha-me...

--Fazes o que eu te pedir?

--Se podr...

--Pdes... ha de custar-te, mas pdes... Todas as victorias so
difficeis, filha; mas as da paciencia, nas tuas circumstancias, so
sempre seguras... Finge que tudo ignoras. No profiras o meu nome com
azedume, no ds cr suspeitosa ao que de mim disseres. Recebe-me com o
mesmo amor, que cada vez t'o mereo mais extremoso. Vae a minha casa; e,
na presena de teu marido, falla-me sem a minima reserva, e no procures
surprehender nos olhos d'elle a inteno com que me olha. Se fizeres
isto, restituo-te Eduardo com o juizo restaurado.

--Mas, se no poderes...

--Se no podr, vou viajar, ou ssinha ou casada, e s voltarei a
Portugal, quando me tu disseres que teu marido recuperou a honra perdida.

Anna Vaz beijou ardentemente a face da sua amiga, e exclamou:

--Espera... deixa-me levantar que eu vou comtigo para a sala... Quero que
o meu pobre pae me veja sorrir... Vae dizer-lhe que me estou erguendo, e
que estou boa... Inventa qualquer coisa...

J estava na sala Venceslau Taveira recebendo os emboras do commendador,
e explicando os pormenores da sua imprevista alliana. Ao tempo que D.
Julia entrava, acabava de dizer o commendador ao noivo:

--Mas que  isso?! Acho-o extraordinariamente triste!... Narrou-me em
termos to glidos uma historia para tantas alegrias!... Que no v o
meu querido amigo enganar-se com o seu corao ferido de sobresalto...
Agouro no sei qu... Eu queria-o vr mais contente... mais rapaz... mais
noivo!... Os homens da sua tmpera parece-me que tm uma s familia--a
patria, e uma s paixo--a das conquistas da felicidade para o genero
humano...

Venceslau escutava ainda o cco das palavras do velho que se lhe
repetiam na alma, quando Julia entrou, incendida no rosto da violenta
crise em que as interrogaes de Anna Vaz a mortificaram.

--Est febril minha filha, no est?--perguntou o commendador.

--Est levantando-se... No tem febre, e vem ahi j.

--Mas que era?...--volveu Francisco Vaz.

--O que eu lhe disse...

--Ciumes?...

--Sem fundamento... Apprehenses de quem muito ama...

--Torturas...--emendou o velho; e voltando-se para Taveira,
continuou:--O tedio, o enjo em esposos de cinco mezes, o que ser aos
cinco annos, snr. Taveira?

--Pde ser que seja a felicidade de ambos, a reciproca e serena
confiana, quando os zlos fundam em leviandades passageiras.

--Conhece muito as sciencias que o espirito humano creou; mas sabe pouco
do corao do homem, snr. Taveira--contrariou o commendador.--A mulher
que, ao quinto mez de casada, nova e bella, apaixonada e incapaz de
comprehender a perfidia, se v trahida, perda, se  honesta; mas o
homem, capaz de arrependimento, e de ajoelhar aos ps da esposa
generosa, se algum existe, no  Eduardo. Na vida d'este mal-fadado ha
condo funesto...

--Ha apenas, e quando muito, uma preoccupao...--disse o
deputado.--Esteve hontem comigo, e causou-me estranheza. Fallou-me em
sahir de Lisboa com licena de seis mezes para uma quinta. Suspeito que
a frequencia dos bailes lhe haja colorido falsamente os quadros que elle
no examinou quando era moo... Espero que o mentiroso prisma se
lhe quebre, logo que a mo da lealdade contricta lhe desperte a
consciencia...

Chegou D. Anna.

A palestra d'aquella noite foi mais trivial que nunca. Venceslau Taveira
conversou nos assumptos habituaes--politica, e congresso dos reis em
Verona, o juramento da constituio e a suspeita de que a rainha D.
Carlota recusaria jural-a, etc.--materia duvidosamente lyrica para noivo.

 hora do costume, o deputado sahiu, bem que o commendador Vaz lhe dsse
a perceber que muito desejava elle podesse encontrar-se com Eduardo
n'aquella noite.

--manh o procurarei--disse Venceslau, em quanto Anna e Julia se
trocavam um lance de olhos que significava a incompetencia do mediador
escolhido pelo velho.--Hoje tenho ainda trabalhos de escripta e estudo
que me devem levar a noite toda.--Accrescentou o deputado.

--Est a chegar o dia do repouso...--observou o commendador alludindo ao
casamento, d'onde lhe resultaria a inercia dos ricos.

--O dia do repouso  o primeiro da morte--contraveiu Venceslau.--Ninguem
repousa n'esta vida; e, a meu juizo, os espiritos mais trabalhados, e
talvez mais infelizes, so os que se agitam em inutil actividade. A
riqueza, que convida ao ocio,  pessima, quando por ella trocamos o
thesouro dos bens da alma.

Eis-aqui maximas stoicas no vulgares em noivos, salvo se elles so
philosophos; mas a raridade d'esta especie  j grande; e algum Socrates
que ainda apparece a maridar-se,  contar com elle bem castigado por
Xantipas.

Na ausencia de Venceslau Taveira, contou D. Julia concisamente ao
commendador o breve prefacio do seu projectado casamento;
porm--rasoavelmente lh'o advertiu o velho--to desenthusiasta expunha
ella como expozera o noivo aquelle importante e solemnissimo acto.

--Eu bem sei...--dizia o commendador--que entre pessoas sisudas o
casamento  passo para mui serias meditaes; mas, logo que a
deliberao est feita, parecia-me natural vl-os muito alegremente
fallarem do seu futuro...

D. Julia sahiu  meia noute. Ia triste, e perguntando a si mesma:
Estarei eu enganada com elle e comigo? Este sentimento de estima ser
bem o amor que preciso hoje mais do que nunca alimentar no ardente
corao de um homem?... Com que frieza elle fallava de politica, olhando
para mim hoje como hontem, como sempre, como se eu alli no fosse mais
do que uma das costumadas pesssoas do seu auditorio... Mas...

Proferia ella mentalmente aquella conjuno--aquelle _mas_, que daria as
melhores dez paginas d'este livro, quando a traquitana, desembocando da
rua da Patriarchal, atravessava o largo do Rato, em direitura ao palacio
das Amoreiras.

Parou subita a sege. O bolieiro, reconhecendo a pessoa que sahira 
frente da parelha, bradando que parasse, obedeceu.

--Que ?--perguntou D. Julia com receio, por entre as cortinas, que
afastou.

--No se assuste, minha senhora--disse Eduardo Pimenta no mais baixo tom
de voz que podia ser, abrindo mais as cortinas para ser conhecido.

--Aqui, a tal hora, o snr. Eduardo?--murmurou ella tremendo a seu grande
pesar.

--Esperava-a, snr. D. Julia... para lhe dar os parabens do seu consorcio.

--Acho improprio o local... Venho de sua casa; era l que eu devia
merecer-lhe essa delicadeza...

--Nada de ironias, senhora!

--Ironias!? em que tom V. S. me est fallando! Eu no preciso de
contrafazer-me com o disfarce da ironia... Que me quer o marido de Anna
Vaz?

--Que me restitua a minha felicidade!... que me mate, seno pde
restituir-m'a... Um reptil que nos nauza esmaga-se com o p... Que mais
vale o corao do homem que a fatalidade poz de joelhos diante de V.
Ex.? esmague-me... Diga-me affoitamente, diga-me sem piedade que me
despreza...

--No o desprezo; estimo-o, quanto posso estimar o marido d'uma amiga
intima--disse D. Julia sensibilisada, mas serena.

--Eu no quero ser estimado, porque estou preso com um grilho de ferro
 amiga de V. Ex.... Guarde a sua piedosa estima para as victimas
resignadas...

--Que quer ento?

--Pouco... quero que V. Ex. me diga que no momento em que tractava o
seu casamento com Venceslau Taveira no viu passar entre o seu corao e
o seu futuro a imagem lagrimosa do homem que V. Exc. ameaou com uma
denuncia...

--No vi a sua imagem; vi a imagem lagrimosa de sua esposa... Essa  que
eu vi, e venho de vr agora prostrada no leito, e receio vl-a
brevemente prostrada na sepultura... Snr. Eduardo, tenha compaixo
d'ella e de mim!

--De V. Ex.!?--interrogou elle, alvoroado pela commoo que se
delatava no tremor da voz.--Compadecer-me eu de V. Ex.?! Quando deixei
eu de adoral-a, para offendel-a?

--No diga que me adorou, supplico-lhe que desfaa essa illuso da sua
alma.

--Oh! para que est mentindo  sua consciencia, snr. D. Julia? Pois no
viu que eu a amava quando casei? No me impz delicadamente em sua casa
o preceito de lh'o no revelar?

--Falle baixo--acudiu Julia--que pde ouvil-o o creado. Jesus, que
desventura a minha!  snr. Eduardo, tenha brios e valor! Deixe-me,
esquea-me!... por alma de sua me, e d'essa infeliz senhora que lhe
morreu nos braos, em nome de ambas lhe rogo que me esquea, que me no
obrigue a fugir de Portugal!... Mal sabe quanta gratido lhe daria a
minha alma, se me attendesse, se me deixasse ser sua verdadeira amiga!
Juro-lhe pela memoria de meu pae que me no torna a vr, se no
domina o desatino que est cavando a sepultura de sua mulher...

--Sempre a minha mulher!... Por que me no falla do seu marido?

--Pois bem... peo-lhe em nome de meu marido que me respeite!--disse D.
Julia com a maxima gravidade e decoro.--E, se no, adeus para sempre!
No sustentarei com V. S. uma lucta odiosa. Ha afflices que se tornam
ridiculas, se a coragem as no subjuga. Desterrar-me-hei para que o snr.
Pimenta, esquecendo-me a mim, se lembre de que ha uma coisa mais
preciosa que eu:  a honra, a sua propria honra. Peo-lhe que me deixe
recolher. Os meus creados no esto habituados a assistirem a estes
dialogos por alta noite, e eu no lhes quero dar direito a suspeitarem
de mim.

--S duas palavras, snr. D. Julia. No sia de Portugal--supplicou
Eduardo com apaixonada resignao.--Juro que no perturbarei a sua
tranquilidade. Fique, rogo-lhe com as mos erguidas que fique; mas no
me prohiba que eu a ame... Ser um amor sem lagrimas, sem um gemido, sem
que nos olhos se me veja o reflexo do fogo que me ha de ir devorando.
No me prohibe esta inoffensiva tortura, no?

-- snr. Eduardo...--balbuciou Julia.

--Adeus! v!... Olhe que o mundo no encerra mais desgraado homem! Eu
hei de obrigal-a, hei de, Julia, a confessar que foi muito amada, e
talvez... muito ingrata... Adeus.

Eduardo desviou-se, e a sege abalou.

E D. Julia de Miranda, enxugando os olhos, de certo sinceramente
chorava, porque no  de presumir que uma mulher finja lagrimas, quando
ninguem a observa.

Mas chorar,  Deus do co,  creador omnisciente do prodigioso corao
de mulher! Chorar! porqu?

Ai! chorava por que no podia odial-o...

Leitor flordo, se V. Ex.  menos honesto do que eu penso, de certo
estima que as suas visinhas chorem por no poderem odial-o.




XVIII

    C'etait incomprhensible, inou, miraculeux...

         A. DUMAS.--_Amaury._


A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre
Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes  deciso de
casar-se, poucas horas descansra, e algumas vezes dava uns ais to do
amago da alma que parecia gemer em grande afflico.

O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao
alvoroo proprio de noiva. Bem  de entender que o sabio, nos seus
livros latinos, no tinha lido casos de noites desveladas por motivos
molestos, se era amor quem desafinava a harmonia das funces empenhadas
no phenemeno do somno. No obstante o silencio dos classicos romanos a
tal respeito, padre Manoel indagou da propria fidalga a causa das suas
noites mal dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios
de infelicidade, resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez
incompetente, assim a Venceslau como a ella.

O capello, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar
as apprehenses; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que
intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o
cumprimento da promessa, at que Venceslau, cavalheiro pundonoroso,
aconselhado por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.

D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que
desadorava entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu
dizendo que a sua palavra estava dada.

--E o seu corao, minha senhora?--perguntou o padre.

--O meu corao...--murmurou ella--morreu quando as pulsaes cessaram
no corao do primeiro e unico homem que amei.

E o capello, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou
que D. Julia no podia ser dada como exemplo de senhora perfeita,
moralmente fallando.

E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame
de tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar
e a pedir a Deus que interviesse de modo que o casamento no se
realisasse.

Deus no o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse,
o casamento fez-se no fim do anno 1821.

Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro
dos quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos  considerao
publica muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas
virtudes de patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro
orador e preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que
representava duzentos contos, seria capaz de ajuntar  inveja o respeito
abjecto--mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira
mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A
traquitana de sua esposa ninguem lh'a viu em frente do pao das
Necessidades, onde ento legislava o congresso. Madrugava mais que os
seus collegas abastados para poder chegar ao mesmo tempo que as
carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente mediocridade, auxiliada
pelo esmero na limpeza; no era o surrado desalinho com que desculpamos
os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a cara.

Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegao que
muito louvava padre Manoel Ferreira; porm D. Julia de Miranda no se
admirava nem comprasia. Em conta de affectao orgulhosa foi que ella
tomou a isempo do marido, julgando-se por isso menospresada na
riqueza. Quanto a ser amada, confessava D. Julia que o era como seria
qualquer outra menina pobre que no dsse to brilhante, e to
desdenhada independencia a seu esposo.

O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que  costume serem
maridos amantissimos, em quanto a cora nupcial se no desmaia de todo.

Tinha horas de gabinete, e ento folgava que Julia se detivesse a
contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e
comparando a indole da nao ignorante com os luminosos codigos das
naes civilisadas. Isto no  bem poetico; realmente no .

Assim que era tempo, ia para as crtes, e recolhia com a maxima
pontualidade a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam 
exactido do repasto domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio,
no antepunha o gozo da familia aos deveres de cidado estipendiado para
a servir. A poesia aqui tambem no  que farte para um madrigal.

As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas,
de bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a
e ameigando-a:

--No passarias melhor a noite no socego da tua salta comigo, com os
teus livros, e com a doce companhia do teu fogo?

Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau,
porm, notou com secreta mgoa que ella, por volta das dez horas da
noite, difficilmente resistia aos enfados do corao que se manifestam
em abrimentos de bocca.

A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete onde
trabalhava at s tres da manh. Se ha n'isto poesia, confessemos que em
casa de cada mercieiro ha inspiraes para tres opopas.

E porque no iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que no
a Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar
convivencia do commendador?

 simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.

Marcado o dia do casamento, Venceslau convidra Eduardo a ter parte na
sua festa do corao, assignando como testemunha na egreja. O
commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do
pequeno cortejo eram alguns deputados ancios e militares companheiros
do exilio do noivo.

Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave,
melancolica; porm de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de
Julia, mas talvez mais submissa aos do corao, espionava
involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em
flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que
elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a
atteno para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: o Pimenta est pallido e
triste, ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa,
sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.

O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido
de velhos que nem sequer primavam nas jogralidades proprias do
acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o
impudor senil tem fro de graa lusitana, segundo parece, em festins de
noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam
de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos.
Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador
conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou to apontado em
attenes carinhosas a D. Anna.

O restante da noite correu mais animada, graas ao espiritismo dos
coroneis, que tinham brindado repetidas vezes  liberdade, e ungido com
profuzas libaes o seu athletico odio contra o despotismo. Os
legisladores tambem.

Findo o saro, Eduardo apertou a mo da esposa do seu amigo, e pde
ceciar umas palavras que ella ouviu com a audio interior da alma:
Nunca mais.

Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe
quiz parecer que o sangue se lhe congestionra no peito e que ao longo
das faces lhe resvalra a sensao do frio. Imaginaes, talvez. Nervos.

Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de
visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da
manh, e j encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu
amigo respondeu elle que no podia faltar ao congresso, onde se
pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora no pde sequer
por delicadeza louvar semelhante patriotismo. L no seu recondito
juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que no havia lei em
projecto que valesse uma formosa mulher j realisada.

Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um
reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem
sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os
das fontes. A posio languida da noiva, um pouco antes, denotava
abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho
infeliz, e no pde tirar dessa forada quimera seno tristezas.

Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna
Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as
mos da amiga.

--To cedo?--perguntou ella.--Tu vens febril!...

--E agitada, porque vim a p... Venho despedir-me...

--Para onde vaes?!

--Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manh, ergueu-se s seis
horas, e pediu-me carinhosamente licena para ir passar  quinta algum
tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato 
minha dedicao, e resolvemos partir manh de madrugada. Agora preciso
dizer-te o que penso de meu marido. Esta resoluo de sahir sei eu, e tu
tambem sabes, d'onde procede; mas eu no lhe disse a menor palavra
a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle
te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque j chorei quantas tinha...
Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade
se restabelea. Da minha parte, seguirei at ao fim os teus dictames.
Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de
ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperana... Pde ser
que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliao entre ns.
Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura,
quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vl-o
a acalentar nos braos a nossa creancinha... Porque no choro eu agora
ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que s mais
amada que eu? Sabes porque ? Quando se tem no seio um filho, as
lagrimas estancam-se, e os odios no podem empeonhar o corao onde se
est formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta
borrasca... Tempo vir em que sejamos muito felizes...

--Eu? Nunca mais...--murmurou Julia.

--Porqu?...

--No torno a ser o que era antes que  casa de teu pae entrassem estes
dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu
no...--E susteve-se, como envergonhada de si mesma.

--Que tu...--instou Anna.

--Nada, filha... no me interrogues... Olha... eu amei teu irmo...
amei-o quando tinha a edade e as illuses da infancia... Elle morreu...
e envolveu na sua mortalha o meu corao...

--Mas... para que...--disse D. Anna hesitante.

--Para que casei, queres tu perguntar-me?...

--Sim...

--Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos ps da tua amiga
victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braos para te pedir que no
me faas responsavel dos teus dissabores...

--Dize... que eu no te entendi...

--Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada...
Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade
o homem que teu marido mais respeita...

D. Anna abraou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e
murmurou:

-- impossivel que Deus no te d o galardo de tanta virtude... Esse
grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...

--Nenhuns... ha-de trazer-me apenas--e j no  pouco--a satisfao de
te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires
que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece
uma mulher j desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover
Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu
ainda nova e bella. Os cabellos brancos no tardam. As rugas j me
comeam na alma... Ha uma velhice que nos passa do corao para o
rosto...  a saudade...  vr o passado feliz l ao longe, e o presentir
a morte no frio que nos cerca...

--Mas,  meu Deus!--exclamou Anna, pondo as mos--Venceslau Taveira no
te ama?

--Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e
encontram as paixes na politica, na meditao e no estudo... No vs
isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje s dez horas para o congresso,
depois de me dizer que preva a emancipao do Brazil em breve tempo, e
que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito
da me patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E
se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia
um pae illustrando a ignorancia de uma filha!...  Anna... se eu tivesse
corao... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas
me no custaria este desengano!...

--Pois, sim--redarguiu Anna Vaz--convenho que Venceslau seja tudo que
dizes, mas vers que nunca te ha de dar a mgoa da perfidia...

D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude
da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.

--E tu vers--proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando
a outra sorria--vers que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das
suas occupaes, vir para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves
prazeres da vida intima...

--Porque o no amaste, Anna?--perguntou de salto e desapropositadamente
D. Julia.

--Porque o no amei?... Se eu amava Eduardo...

--Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro
Venceslau... Porque o no amaste?--insistiu a arguciosa dama.

--Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo
lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado,
fallando de meu irmo com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae,
que o presava extremamente.

--Sei isso... mas o teu corao,  vista d'elle, no sentiu os
estremecimentos que lhe causou Eduardo.

--Bem sabes como foi, filha!... Eduardo,  segunda vez que foi a nossa
casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o no podia salvar com o
amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as
lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade
d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu
sabes tudo como se passou...

--Sei...

--Mas que perguntas me fazes!...  Julia, se no amavas Venceslau, no
devias casar. A tua dignidade no precisava que um marido a defendesse.
Ha quantos annos eu te conheo pretendida e amada; e nunca te vi receosa
de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O
sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te no julgue
causa dos meus occultos desgostos, era desnecessario. To confiada
estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...

--Sacrifiquei-me ento inutilmente?--interrompeu Julia.

--Inutilmente no, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, s
agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a
tua honra, isso sim; porque no  teu marido que te ensina os deveres;
s tu que os prescreves s tuas paixes...

--Quaes so as minhas paixes?--perguntou D. Julia por to estranha
maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.

--Eu no digo que as tenhas, filha...--emendou ingenuamente D. Anna.

--Ento?

--Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixes, se fossem ms...
Comprehendeste, Julia?...

A esposa do deputado, levantando-se energicamente, travou do brao da
amiga, e disse:

--Vamos passear nas salas... Estou muito nervosa... A final, tudo que
tenho  uma febre cerebral, uma enfermidade estupida na cabea.

. . . . . . . . . . . . . . . . .

Na hypothese de que as duas senhoras vo dizer coisas frivolas, no as
sigamos; e, se o leitor conjectura que ellas podem dizel-as
transcendentes, no as sigamos tambem.

Sentemo-nos aqui na sala de espera, n'este grande escabello de castanho,
com espaldar blazonado, e philosophemos, mas faamos philosophia
portugueza, ch, de soalheiro, murmurao delicada; mas, repito,
portugueza. Nada de esthetica. Nada de germanismos. A gente est em
1822, quarenta annos antes da entrada do apocalypse em Portugal com
todas aquellas bestas de que falla S. Joo.

Philosophemos ento a respeito de D. Julia.

O leitor medita, reflexiona, combina, discute, compara e conclue,
formando o seu juizo.

Formou? Philosophou?

Eu tambem.

Agora tenha a condescendencia de esperar que os factos correspondam 
lucidez das suas previses.




XIX

    A ira que entumece e arqueja e vibra no proprio corao dos grandes
    sabios.

         HOMERO.--_Iliada_, cant. IX.


As cartas vindas de D. Anna para Julia eram discretas e pensadas de modo
que Venceslau Taveira, da sahida de Eduardo, inferia apenas que o seu
amigo se desvira com plausivel prudencia dos perigos amorosos que o
assediavam na alta sociedade. Esta supposio colhida de algumas phrases
problematicas das cartas, que Julia no escondia, dava margem a que
entre os dois esposos e padre Manoel Ferreira se conversasse sobre a
desmoralisao dos costumes.

O capello raramente perdia lano de lamentar a filha do commendador,
ferindo assim de soslaio o caracter do marido, a quem no desculpava a
peralvilhice com que bandarreava nas salas, galanteando a esmo
todas as damas. Venceslau, motejando a severidade do padre,
attribuia os geitos gals do amigo no  ruindade das intenes, seno
ao temperamento, ao genio alegre, ao instincto da sociabilidade, que era
sempre excellente prenda nos cavalheiros propensos aos futeis recreios
das assembleias. D. Julia escutava estas discusses, e assentia 
indulgencia do marido, sem reparar que o padre lhe estudava o pensamento
nas menos expressivas alteraes do semblante.

Padre Manoel--digamol-o de corrida--no lia smente livros latinos, nem
estudra nas Lesbias e Lydias as versatilidades femeaes. Parece que o
sabio, antes de vir  poesia romana, tinha sido poeta por sua conta, e
risco, talvez, da dignidade sacerdotal. Como vivra trinta ou quarenta
annos entre fidalgas, confidenciando-as nas salas e nos confessionarios,
bem  de vr que n'aquelle espirito escrutador se formassem
desconfianas ingratas ao bom juizo de D. Julia, desde que ella se lhe
figurou duvidoso exemplar de perfeio. Isto, aggravado pela secreta
averso que tinha a Eduardo Pimenta, explica o tom detrahidor com que
lhe desfazia nas virtudes conjugaes e o olhar de travez que dardejava 
phisionomia da desprecatada fidalga.

Uma vez o padre, invectivando contra o seculo, proferiu a palavra
adulterio, como thema de certa historia contemporanea. Venceslau
avincou a fronte, recurvou os dedos para as palmas das mos, fez uma
vizagem desabrida de zanga, e cortou de golpe o discurso, sobrevindo com
outro assumpto.

Padre Manoel ficou um tanto corrido, e D. Julia suspensa, e at certo
ponto inquieta.

Assim que teve ensejo de fallar particularmente com o capello,
pediu-lhe o deputado desculpa do impeto com que o interrompera, e
rogou-lhe que, na presena de sua mulher, se abstivesse de contar
historias de vicios, e principalmente de adulterios; visto que, em
historias d'esta natureza, a moralidade do conto era sempre equivoca,
seno era ridicula, como nas comedias de Molire, e de todos os
propaladores de taes desregramentos. E ajuntou:

--Se o meu amigo, contando os adulterios das diversas senhoras do seu
tempo, rematasse a narrao, mostrando-nos o castigo do crime, dou-lhe
que no perdesse o tempo, o incutisse saudavel terror no animo das
mulheres ou dos homens que no delinquiram ainda...

--Mas o castigo, snr. Venceslau, se no  patente, l lh'o influe a
invisivel mo de Deus na consciencia dos culpados...--objectou o padre.

--Convenho; mas eu no vejo o castigo, nem sequer vejo joeiradas da boa
sociedade as mulheres, nem dos altos cargos da republica os homens,
cujas consciencias o meu caro snr. padre Manoel Ferreira piamente
imagina atormentadas. Essa especie de contos rematava mais
edificantemente, se o meu amigo os concluisse d'este feitio: a condessa
de tal atraioou o marido, que era um homem de bem, extremoso por sua
honra e sua mulher. Um dia, o marido, avisado da traio, matou a
mulher, e matou o adultero. Aqui tem um desenlace tragico, talvez
o unico para poder dizer-se n'uma sala sem receio de fazer rir os
circumstantes. Tudo mais que no for isto  prudente e honesto que no
se divulgue s pessoas que o ignorarem. Se o conde de tal vive, ha
annos, na sua quinta, s, sequestrado do mundo, chorando, dilacerando-se
a golpes de vergonha, em quanto sua mulher despejadamente alarda seus
vicios em Lisboa--se era essa a historia que o snr. padre Manoel ia hoje
contar a minha mulher, com que moralidade tencionava encerrar o conto? O
conde foragido do mundo para se no vr escarnecido,  a moralidade? A
condessa rodeada de cortezos nas suas salas  a moralidade?

--No, senhor. A moralidade  que V. S. e outros homens honrados no
levam suas esposas a casa da condessa.

--Est enganado. Eu conheci n'estas salas a condessa, e ouvi esta
senhora, que  hoje minha mulher, chamar-lhe prima.  certo que Julia
no ir l mais, penso eu; mas no  menos certo que muitas damas de
regular proceder l vo.

--Lisboa est assim...--murmurou o padre transigindo.-- o baixo
imperio... a libertinagem da Frana de Luiz XV que chegou a Portugal cem
annos retardada, abordoando-se s muletas da civilisao. As luzes so
boas, quando no pegam fogo ao templo das velhas crenas. _Corruptio
optimi pessima_, como diz Horacio. Bem-aventurados aquelles que
circumscrevem  familia as regalias do repouso, e cerram as suas
portas  ociosidade que se desenfastia a bailar, a jogar, a
cacarejar frioleiras nos sales. Cada vez me felicito mais por vr que
V. S. vae brandamente reduzindo sua senhora ao socego da vida intima...

--Reduzindo, no, meu amigo--corrigiu Venceslau.--No se persuada que eu
reajo aos desejos de minha mulher. N'esta casa, que  d'ella, faz-se o
que sua dona quer. Julia visita quem lhe praz, e recebe quem lhe parece.
Acompanho-a umas vezes por vontade, outras com repugnancia; mas vou
sempre com o mesmo semblante.  certo que a vejo triste; mas attribuo a
mudana  natural e providencial transformao que se vae operando no
animo das mulheres da sua edade e na sua posio; alm d'isto, pde ser
que as saudades da sua amiga Anna Vaz tenham parte n'esta melancolia.
Felizmente, Eduardo volta para Lisboa na proxima semana, e eu muito
estimarei que a intimidade das duas senhoras se renove como a tiveram em
solteiras.

N'este ponto, padre Manoel acudiu a esfregar o nariz, onde era costume
acudir-lhe a zanga em pruridos incommodos. Venceslau no reparou
n'aquella rplica toda nazal, nem o capello entendeu fazer commentarios
oraes s suas comiches freneticas. As ideias que lhe obumbravam o
espirito eram negras, inexprimiveis, e taes que elle fugia de as repetir
a si mesmo, sendo que um demonio contumaz lh'as estava sempre a martelar
na fragua da cabea. No ha ahi duvidar da esclarecida razo de padre
Manoel Ferreira, que sabia latim a preceito e muitas sciencias boas e
ms; pois, sem embargo, s vezes via-se to importunado de
satanicas suggestes contra Eduardo, que chegava a persignar-se e a
repetir mentalmente o _et ne nos inducas in tentationem_.

D. Anna e o marido voltaram para Lisboa; mas o affecto da esposa de
Eduardo a D. Julia havia esfriado bastante. Poderemos sem grandes
deslizes da verdade conjecturar que, no animo d'aquella senhora
offendida pelo esposo, a amisade  outra que a fazia soffrer--bem que
involuntariamente--cedeu o passo ao amor-proprio e a outros nobres
sentimentos. O despeito era inevitavel, embora a sua bonissima condio
lh'o demorasse. Este arrefecimento devia crescer  medida que ella
deduzisse das tristezas silenciosas do marido vestigios da saudade
indomavel; porque, se a saudade era prova da grande valia da mulher no
esquecida, razo de mais para que Anna Vaz a considerasse perigosa; e,
se o marido  custa de nobres esforos, vingasse olvidal-a, outra razo
para que a esposa precavida temesse a reincidencia na aproximao.

Esta, a meu pensar, parece ser a natural interpretao das raras
visitas, e essas pouquissimo expansivas, que as duas damas se trocaram.

Entretanto, D. Anna explicava as suas faltas com os cuidados da
maternidade, porque j ento era me. Venceslau achava louvavel a razo,
e dizia a sua mulher que a esposa de Eduardo era uma respeitavel dama
que se fazia venerar de seu marido, quando no fosse extremamente
amada.

Quando estas palavras foram ditas, padre Manoel Ferreira observou com os
olhos esconsos que D. Julia mordia o beio inferior. No sei o que elle
colheu d'este acto. O homem provavelmente julgava que os mos
pensamentos tanto podiam pruir no nariz como nos beios.

Aquelle anno de 1822, trabalhoso e irrequieto para os liberaes, trouxe
para D. Julia horas aborrecidas de solido e irritantes dissabores.

O deputado nunca fra to politico e cidado afreimado. Quatro successos
importantes lhe absorviam a maior parte das suas horas diurnas e
nocturnas. Primeiro, a independencia do Brazil, d'onde elle inferia que
Portugal ficava sendo uma grande cabea sem cerebro, um gigante
paraplegico, bracejando, sem pernas que o movessem. Depois, a reunio
das tropas francezas nos Pyreneos, ameaando cassar as cartas de
alforria dadas pelos reis s naes amotinadas. Em seguida as faces
liberticidas conjuradas com o titulo de _Junta Apostolica_. Por ultimo a
formal recusa da rainha D. Carlota Joaquina em jurar a constituio.

Nas fogosas luctas que ento se travaram no congresso, entre gladiadores
inveterados de absolutismo, e outros exaltados fautores da liberdade,
Venceslau Taveira ia na vanguarda dos liberrimos. Os seus discursos
poderiam ser acoimados de demagogos, se a audacia dos adversarios no
lhes justificassem a iracundia. Depois que a rainha pediu licena para
sahir de Portugal, visto que a lei a obrigava no jurando a
constituio, as duas parcialidades do congresso defrontaram-se
rancorosamente, at ao extremo de se arcarem peito a peito.

Uma noite Venceslau entrou no seu escriptorio, e demorou-se largo tempo
a passear agitadissimo. D. Julia, admirando a insolita demora, desceu 
livraria, e viu sobre a banca da escripta um par de pistolas novas e um
pacote de polvora e balla.

--Pistolas!--exclamou ella--isto que ?... Nunca te vi d'estas coisas!

--So hoje necessarias, minha filha--disse brandamente o deputado,
desenrugando a fronte assim que viu a esposa alvoroada.

--Para qu? tens inimigos?

--Tenho, e enormes: so os mil algozes symbolisados na palavra
despotismo. Hoje, mais do que nunca, me sinto obrigado a combatel-o.
Preciso defender a felicidade que me dste. D'antes era eu um homem, que
podia morrer, sem o pezar de ser chorado. Hoje, que a vida me  mais
cara, mais me devo prevenir na defeza d'ella. No te assustes,
Julia...--proseguiu elle abraando-a.--O despotismo ainda c no metteu
a garra; mas eu tenho collegas no congresso que nos esto atraioando, e
j vo tomando nota dos que ho de apontar s aladas se o infante D.
Miguel for acclamado absoluto. Eu hei de ser o primeiro, se antes d'isso
me no poderem apunhalar traioeiramente. Contra os traidores  que os
homens de bem se armam. manh espera-se estrondoso escandalo no
congresso, onde vae debater-se a recusao da rainha. Eu hei de
votar pelo cumprimento da lei que a manda sahir de Portugal; mas
suspeito que alguns atrabiliarios lhe vo entoar vivas. Se tamanha
protervia couber na alma vendida dos deputados absolutistas,  preciso
expulsal-os da camara; e, se reagirem, ser foroso que deixem a vida
onde alardearam a deshonra.

--Mas que necessidade tens tu de te arriscares?--perguntou Julia.--s
rico, pdes viver tranquillo; em qualquer parte do mundo achas a
liberdade sem receios, e a independencia das alternativas da politica...
Olha, Venceslau, deixa ficar Portugal aos que o exploram, e vamos viajar.

--Iremos forados--disse Venceslau--; mas, por emquanto, no. Eu hasteei
no congresso a bandeira mais odiada dos despotas. Se eu desertar d'entre
os poucos que me seguem, o meu nome ficar infamado de covardia, e a tua
riqueza ser a alavanca de ouro com que eu arrazei o honroso
edificiosinho que ha dez annos estou levantando. No pde ser, minha
querida Julia... O teu amor quer-me desviar d'um perigo onde a tua razo
me deve aconselhar que esteja. Conciliaremos o amor com o dever. Quanto
mais direitos eu for grangeando  gratido da patria, por mais digno me
hei de ter da tua estima...

--Mas eu--volveu D. Julia com meiguice--desejo que tu no penses mais na
patria do que em mim, Venceslau. No me disseste hontem que Eduardo,
desde que era pae, te parecia mais meditativo...

--Sim... disse.

--Pois ento, lembra-te que s pae d'aqui a pouco tempo, e que a patria,
se tu faltares aos teus filhos, no t'os ha de indemnisar do amor que
perderam.

Venceslau beijou a fronte da esposa, e murmurou:

--Minha filha, quando o alento me esmorecer no cumprimento dos meus
deveres, anima-me tu, dizendo-me que o sacrificio d'um pae na causa
santa da liberdade  um legado precioso a seus filhos. Que elles herdem
de ti os bens da fortuna, e de mim a parte que eu tiver na liberdade da
patria, para que se no envergonhem de ser portuguezes.

No era visionario desvairado pela paixo politica Venceslau Taveira.

Quadraram os disturbios das crtes, no dia seguinte, aos seus
presentimentos.

Ventilava-se afogueadamente a questo da recusa de D. Carlota na casa
legislativa. Os liberaes pediam o cumprimento da lei com desabrida
virulencia, provocada pelos murmurios de alguns deputados sequazes das
conspiraes de Queluz. Venceslau Taveira, vibrante da eloquencia da
justia, resoluto a pr peito aos perigos que lhe ameaavam a singular
coragem em meio dos seus correligionarios abatidos pelo terror do
exilio, dos carceres e dos patibulos, irrompeu em apostrophes  Junta
Apostolica,  faco infame que viera arrebanhar vilissimos escravos ao
gremio da representao nacional.

N'esta conjunctura, um deputado dilecto da rainha, por nome Antonio
Jos da Silva Peixoto, coadjuvado pelo foliculario Jos Accursio das
Neves, levantaram-se e proromperam em vivas  rainha nossa senhora, e
morras aos carbonarios, agitando os lenos. Os membros da sua faco,
incitados pela audacia dos dois absolutistas, conclamaram a rainha
absoluta, e tal houve que no tumultuar do alarido vingou avantajar-se em
brados, offerecendo o nome do infante D. Miguel  espectao dos
deputados para quem a desthronisao de D. Joo VI era a traa gizada
pela rainha.

Venceslau, interrompido por aquelles brados, perdeu a serenidade do
aspecto que sempre mantivera nas mais degladiadas controversias. Os seus
collegas convisinhos, coevos das formidaveis tempestades de 93, e
identificados s tradies dos magestosos tribunos da carnificina,
disseram que no afuzilar dos olhos e convulso vertiginosa de Venceslau
havia a colera de Mirabeau. Mas este juizo inoffensivamente plastico
ficou quem da ambiciosa comparao, quando o viram correr por entre a
camara turbulenta, com duas pistolas aperradas, de encontro ao grupo
onde se bradavam vivas a D. Carlota Joaquina.

Difficilmente impedido na passagem, os seus amigos deram tempo a que a
faco da rainha se evadisse pela crca das Necessidades.

Serenado o tumulto, Venceslau, descido do impeto da ira, e corrido do
acto, pediu perdo aos seus collegas; mas assim mesmo appellou da sua
propria consciencia, que o accusava, para a justia dos vindouros;
e, como, apezar da prostrao moral, a alteza da ideia lhe no
fallisse, consta do _Diario das Camaras_ que elle dissera: aos meus
collegas, que estremeceram por me vr pistolas engatilhadas, peo que se
vo afazendo a vr instrumentos de morte, para que no se aterrem
quando, vestidos com a alva de condemnados, se defrontarem com os
patibulos.

Desde este dia, o nome de Venceslau Taveira foi inscripto na lista dos
votados  morte nos conciliabulos de Queluz.

Quando o governo descobriu n'aquelle anno a celebrada conspirao da rua
Formosa, entre os papeis encontrados no subterraneo da officina
typographica, estava um com as bazes do projecto revolucionario.

O artigo 3. dizia: Assassinar aquelles entre os membros das crtes e
do ministerio que so os mais celebres defensores dos direitos nacionaes.

O primeiro nome era Venceslau Taveira.[3]

O conflicto do congresso parecia ter sido apenas um sonho mo no
espirito do deputado, quando entrou no seu escriptorio, onde Julia o
esperava assustadissima. Um sorriso de paz lhe deu elle com o beijo da
sua extrema ternura, e na firmeza de voz e bom concerto das ideias
denotava que os transportes de uma coragem honrosa, depois de o
abalarem, lhe repunham a alma descansada no reclinatorio da
consciencia.

--Fujamos de Portugal!--disse-lhe Julia vivamente.

--No fujamos, minha amiga... Jantemos--disse serenamente o marido.

E, durante o jantar, perguntou padre Manoel Ferreira:

--E, se V. S., cego na sua justa ira, matasse o Peixoto ou o Neves...

--Ou ambos...--ajuntou Venceslau.

--Sim, ou ambos... suppomos...

--Suppomos...

--Que acontecia?--insistiu o capello.

--Que elles estavam a esta hora mortos--respondeu o deputado.

D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:

--Pois tu... eras capaz de matar...

--E de morrer, minha filha.




XX

     assim o viver.

         ALVARES D'AZEVEDO.--_Obras_, tom. III.


Este capitulo abrange o espao de quatro annos.

Em 1827, D. Anna Vaz tem tres filhos. Eduardo Pimenta perdeu o emprego
com grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o
brigadeiro Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem,
quando em 1823, Jos de Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha,
e o conde de Amarante, acclamaram o principe, e tentaram nomear uma
regencia presidida por D. Carlota de Bourbon.

Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o
homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos
da lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem
elle se relacionra, j por parentesco de sua mulher, j porque
assim cuidava sanear o aleijo de um baixo nascimento. O generoso
fidalgo beiro perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. Joo de
Nogueira, cujos primeiros amores j denotavam aspiraes levantadas.

Eduardo, porm, rejeitou a valiosa intercesso do amigo, declarando que
no queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que no tinha f
nas virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua
dignidade nas aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se
quella negao das virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que
Eduardo era um louco, subordinado ao influxo d'algum astro funesto.

Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe
admirava o talento, a reconsiderao de ideias, e os discursos ora
scepticos, ora enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada
pelo romanticismo da sua mocidade--o viver de Eduardo Pimenta em meio de
espiritos arrogantes, mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher
davam a entender.

Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle
feito e refeito heroe da eterna legenda, onde  volta de um homem fatal
se acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de
amor. O dom Joo fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela
temperatura calida do sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de
phantasia era coisa pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo,
se elles no haviam corrigido l fra a sua compleio, prevertendo
a boa indole de frades com que at aquelle tempo toda a gente nascia em
Portugal--indole provavelmente devida  preponderancia que exerciam os
frades no phenomeno das reproduces, psycologicamente fallando.

Allucinado, pois, pelo seu modlo poeticamente immoral, Eduardo, com
quanto no immolasse illustres victimas, e j encontrasse muitas sem
sacrificadores, ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e
realmente era. Contaram-se n'aquelles annos casos de ciumes palacianos
em que elle era o personagem menos irrisorio; arrufos conjugaes,
projectados divorcios, recluses em severos claustros, _etc._; mas tudo
isto eram atoardas que lhe esmaltavam a reputao.

Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os
bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os
ricos, e deslumbral-os em lances generosos.

Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptido para
tornar lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do
patrimonio e contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.

Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos
chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria
de vender o leito de sua me.

A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira
proporcionalmente com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem
austero no podia desculpar o vadio que, depois de bandear-se com
os fautores do absolutismo, rejeitra petulantemente o perdo e o
emprego, para se andar a fazer praa escandalosa das serodias verduras
de rapaz solteiro, com o enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas
visitas se faziam reciprocamente; mas d'esta omisso dera o exemplo D.
Anna Vaz.

Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente
Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relaes que
o abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas
lagrimas da me.

A commoo do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a
servir a nao, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a
restaurar em fim a honra e a felicidade da sua familia.

Amiudaram-se ento as visitas de D. Anna, instigadas j pelo marido, que
a movra pela dependencia em que estavam do deputado, j pelo pae que
inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos
netos lhe aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.

N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e
cinco annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos,
parecia-lhe escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na
politica, lhe fra obrigando suavemente o animo a conformar-se com os
deveres de senhora de casa, e a desligar-se da intimidade dos parentes.

D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de
mais voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau.
Elle, porm, com habil descrio, ia cedendo s menores exigencias, e
cortando n'estas at a reduzir ao orgulho de no fazer nenhumas--orgulho
onde se levedam fermentos de amarissimos resultados.

Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas
agitado, duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo
ministro dos negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o
secretario particular, o collaborador dos seus notaveis actos
diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. Miguel o movimento de 30
d'abril, que ficou na historia conhecido pela _Abrilada_. N'esse mesmo
dia foi preso o marquez de Palmella e com elle o seu secretario,  ordem
do infante, por intermedio do intendente Belforte; mas j no dia 5 de
maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graas ao corpo diplomatico.

Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13,
Venceslau alcanou empregar Eduardo na secretaria da guerra,
abonando-lhe a lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de
to perigosa fiana.

N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os coraes
das duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de
desculpas com o pae para no seguir o marido a casa de Julia; esta, sem
queixar-se ao marido da ausencia da sua amiga, dizia que D. Anna
era muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.

Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de
carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da
alma: era o padre Manoel Ferreira.

Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico
Pimenta frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca s,
nem a horas desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando
Venceslau era certo em casa. Se, relanando a vista ardilosa entre Julia
e Eduardo, cuidava ter colhido um gesto intencional de ruim sentido, a
raiva esbravejava-lhe nos olhos, e as comiches do nariz eram taes que
lh'o avermelhavam como irrupo de bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois
olhares melancolicos e timidos, duas almas silenciosas a
confidenciarem-se os seus sombrios destinos.

Ah! mas que dupla vista a do padre!

No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se
da casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por
demovel-a, interpondo a auctoridade do capello, cuja confessada era.
Baldou-se a interferencia do padre.

Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo
teria ella para deixar a casa onde j sua me havia nascido? Que iria
ella fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, s, no termo da
vida e to descaroadamente apartada de Julia que se lhe crera no
colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe
andava negaceando s cavalleiras de Eduardo.

Uma manh, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha,
fechou a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos
humidos, as faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas
trementes, vagarosas e vergando ao pezo da dr que lhe empedrra o corao.

Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre
as mos, meditou largo espao; e, afinal, abalado por subita
deliberao, subiu  sala de espera, e mandou pedir  snr. D. Julia se
fazia favor de descer  sala do archivo.

A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a
chamra a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a
auctoridade do confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis,
denunciadas pela fixidez averiguadora com que fitava o capello.

Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mo na chave.
Apenas ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em p
defronte da senhora, disse:

--Como eu soubesse que V. Ex. estava perdida...

--Perdida!...--interrompeu D. Julia.

--No me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex. estava
perdida, consultei a alma de sua virtuosa me e de seu honrado pae,
pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu
abysmo, no podiam elles fazer-m'o; porm, fechar esse abysmo aos
olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que
estou chorando na sua presena...

--Mas que ?... que vae dizer-me?... que calumnias?--disse
precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabea e
braos que arguiam mais terror que assombro.

--No gastemos exclamaes, minha senhora. Eu no sou capaz de accusal-a
sem a certeza de que V. Ex.  criminosa. Respeito-a na queda, porque a
conheci e amei na pureza dos anjos. No sou ecco de calumnias. Sou uma
das pessoas que tem o segredo da sua desgraa. As altercaes so
inuteis, so extemporaneas. No percamos tempo. Responda, snr. D.
Julia: afra a creada, que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente
sahirei, quem sabe esta grande desgraa? Quem viu aqui entrar, a horas
desencontradas de seu marido, esse ingrato e infame homem?

--Ninguem...--balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mos. Depois,
sacudindo a cabea com impetuosa colera, perguntou:--A quem devo eu a
desgraa? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a
minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo
da sua alma? Eu no precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser
feliz. Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...

--Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex. m'o auctorisou... No
discutamos... A minha razo perturba-se, e eu depois receio que a
snr. D. Julia no tenha um amigo que a salve. Se a consciencia me
arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu no podr
combatel-a, creia que morro de dr, de vergonha e remorso. No me diga
tal, que me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdo de
lhe haver dito que V. Ex. havia de ser honrada como sua me.

--Virgem Maria!--exclamou anciosa D. Julia.--No faa isso... pedem-lh'o
os meus filhos...

--E no lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...--replicou
severamente o capello.--Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois
amparadores, affectos to grandes com que encher a sua alma... ter dois
filhos... e resvalar por entre elles  voragem!...

--Olhe que me despedaa!...--murmurou ella, contorcendo-se, em postura
supplicante.--Lembre-se de meu pae...

--Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque no pude
saber isto um dia antes da sua perdio... no pude salval-a eu... a
quem seu pae a entregou...

Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.

--V. Ex.... a snr. D. Julia...--proseguiu elle--aquella menina que eu
adorava... est ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde aquelle
scelerado veiu continuar as devassides das alcovas em que achou j
perdidas as mulheres... V. Ex.... a esposa de Venceslau Taveira...
amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna Vaz!...

D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um
som rouco das valvulas do corao, como se o sangue lhe confluisse a
torrentes. No seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se
colera: seria tudo a um tempo.

Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mo fria, e disse-lhe com brandura:

--Olhe que s Deus  testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir
d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu no hei de ser-lhe
peor algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa...
porque a presena de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o
maior tormento... No posso encarar aquelle honradissimo homem...
vituperado, trahido... e por quem?...  meu Deus--clamou elle pondo as
mos--porque no me dstes o beneficio da morte antes d'esta horrivel
certeza!

D. Julia soluava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mos, ora
erguendo-as supplicantes.

E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:

--Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as
consequencias. Pois nunca previu o remorso? No conhecia o homem que a
chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? No o
comparou com seu marido?

Estas phrases duras e hervadas batiam to pungentes no peito da
atormentada mulher, que o padre, olhando-a j compassivo, imaginou
vr-lhe no rosto a lividez cadaverica da me que morrra thysica.

Acercando-se ento d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:

--Snr. D. Julia, peo-lhe emenda de vida... No sei que mais possa nem
deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...

Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.

No mesmo lano do rez da casa do archivo, estava o pteo da casa, onde,
n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.

Era Venceslau Taveira, que se antecipra duas horas.

D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o
semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle
notasse a desfigurao.

N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.

Ella sahiu, e elle, ao vl-a, disse-lhe:

--Choraste?... Ento j sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?

--No... que ?...

--Pois no sabes?... porque choraste, filha?

--Tristeza... dres de peito... o presentimento da morte...

-- filha...--disse elle acariciando-a.--Que lembrana!... Deixei-te
alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?

--Nada...

Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao
mesmo tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.

E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam
aquellas lagrimas. Tudo trevas.

--Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevra...--tornou Venceslau,
procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns segundos.

--No...--disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do marido.

--Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das crtes.
L... Eu t'o leio. Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa.
Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por j no
poder com o martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este
incendio, que me queima o restante da vida,  o ciume; porm, a nobre
menina, se eu lhe pergunto a causa nova d'esta insupportavel
affronta--insupportavel em relao d'outras que soffreu com
paciencia--chora, e no me responde. Rogo-lhe, meu querido Venceslau,
amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da malfadada irm.
Venha applacar esta feia tormenta que ameaa engulir a vida da minha
infeliz Anna.

--Aqui tens a carta--proseguiu Venceslau.--No quiz l ir sem te avisar.
Se quizesses ir tambem...

--No posso...--disse ella no maior grau de quebranto moral.--Vae tu...
depois me dirs... Vae...

E apertou-lhe a mo estremecidamente.

--Tens fogo n'esta mo... acudiu o esposo com enternecido susto.

-- febre... disse ella, fitando-o piedosamente.




XXI

    C'est un mort..............................
    Que cette horrible fin puisse purer son me.

         PONROY.--_Formes et couleurs._


Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle
passeando no casaro rente da rua, recinto abandonado onde se viam as
reliquias de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.

--Nunca o encontrei aqui, meu commendador!--disse o deputado.--Est no
seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as locomotivas que
transponham a ideia velha para fra das fronteiras, quando a mandarmos
civilisar-se a Argel... Mas no lhe vejo rosto para gracejos... Que
temos? onde esto os ciumosos?

--L em cima, e eu fugi para os no ouvir... Escute... No ouve chorar
minha filha?... Escute... olhe...

--Ouo.

--V l, meu amigo. Esto na salta proxima do quarto. A sua presena ha
de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por
algum insulto de lacaio. Olhe que brados elle est dando em quanto ella
chora... Que verdugo!...

Venceslau subiu  primeira sala, passou  segunda e entrou n'um longo
corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do
corredor, pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluos de D. Anna
Vaz; e, ao mesmo tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam
para mais longe as vozes j indistinctas.

Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da
casa ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa
attrahiam-no, commiserando-o.

Bosquejemos a parte da casa onde est passando o conflicto.

A saleta, em que principiou a vigorosa altercao, exacerbada muitas
vezes n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde
est Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos
tres meninos; e a terceira que leva  camara dos esposos. N'esta camara
ha outra porta que communica para outros repartimentos, por entre os
quaes ha escada para um patim, que d sahida para o quintal ajardinado.
Esta era a serventia regular de Eduardo, quando recolhia tarde, entrando
pela porta do quintal que entestava com a rua dos Cavalleiros.

Ao avisinhar da salta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da
esposa, que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e
evadiu-se pelo interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se s
importunas lastimas.

N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que
ainda, ao entrar na salta, o contivesse o decoro de atravessar uma
alcova de esposos.

Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos
no pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez
colhidas ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.

Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar
alguma d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro
da ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos
caracteres deram logo e mais de perto na vista de Venceslau.

Era lettra de D. Julia.

Hesitou ainda em lanar mo do papel; mas a particularidade dos signaes
impressos na carta por mo que a enrugasse, estimulou-o a vr que
phrases deram causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de
tal juizo consentia, Venceslau imaginou que o pessimo marido se
exasperra, talvez, por ter lido cartas de compaixo de Julia para a sua
mortificada amiga.

Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda,
alisou um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se
todo no estremecer dolorosissimo de homem que um subito ferro
encravou pelo peito. A palavra era _querido_. A lettra final d'ella no
era um _a_.

Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar
do peito. Dizia assim:

Calcula a minha inquietao, meu E.! No pude dissuadir a creada...
Sahiu, regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraa que ella te
visse... Devo isto s tuas imprudencias. O que mais me assusta  o
padre, que est espantado com tal sahida. Elle tem sido o confessor
d'ella. Se a interrogar no confessionario, arranca-lhe o segredo. E
depois?... que hei de eu fazer?!... Espero que o padre me no
denuncie... mas com que olhos me ficaro espionando os passos!... No
voltes aqui em quanto eu no te avisar. Vae todas as tardes ao logar que
sabes. L ir ter a minha carta; mas, repito, no voltes aqui sem que eu
t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situao  muito seria...
Tenho-te dito muitas vezes que o V.  capaz de tudo... Adeus. Cuidado
com as minhas cartas...

Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu
ao longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das
salas. A este tempo j elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem
retrocedra para o seu quarto. O andar, que escutava, era do pae de D.
Anna que subira para as salas e estava esperando o effeito da
interveno do amigo.

Venceslau, estugando o passo surdamente, passou sem rumor na
alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu  rua.

O commendador, entretanto, como no ouvisse vozes, mas smente o
arquejar da filha, murmurando: ah! pobres creancinhas! seguiu o
corredor, e foi dar com ella apanhando do cho as cartas espalhadas.

--Que papeis so esses?--perguntou o commendador.

--Nada, meu pae... cartas...

--O Venceslau sahiu com Eduardo?

--O Venceslau!--disse ella com espanto.--Onde est elle?!

--Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... no o viste?

--No, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salta?--exclamou Anna.

--Esteve, sim, filha.

--E viu estas cartas?--bradou com as mos afincadas nas fontes.

--Se viu estas cartas?... Eu sei l, filha... O Venceslau era incapaz de
ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas so o
que eu entendo, que importaria que as visse?

--Jesus! Virgem Santa!--volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e
estirando os braos supplicantes para uma imagem da Me de Christo.

--Mas onde est elle?--tornou o velho.--Se no sahiu pelo quintal, por
onde  que foi? Eu estava na sala do meio, e no o vi passar na sala de
espera...

--No? no viu?...--perguntou ella precipitando as vozes acompanhadas de
gestos de pavor.

--No, menina...

--Ento  que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...

--O que?--acudiu o commendador assombrado.

--Ai! quem fosse procurar Eduardo...--exclamou ella, agitando-se d'um
para outro angulo da salta-- meu pae, salve-o, salve-o; mande procurar
meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas so de Julia...

--De Julia?!--bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da
porta--De Julia? Julia  amante de teu marido?... Venceslau foi
deshonrado pela mulher?... Oh! no me digas isso, filha!... Tu ests
cega pela paixo do ciume... Deixa-me vr essas cartas...

--No queira vel-as... no queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau
mata Eduardo... Acuda aos seus netos...

O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raira
de sangue o alvor do spasmo, e murmurou:

--Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o
assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...

--Mas...--insistiu Anna com as mos postas--mas eu amo-o... eu quero que
elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae
quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...

--No sahirs d'esta casa... No sei se  sangue, se lodo que te gira
nas veias... No sahirs d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui
voltar, quem o mata... sou eu!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a
dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:

Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonanada. No te d
cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no co dos amantes a serena
claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava
a S. Roque, j de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho
tarefa at  meia noite. No esperes por mim. Janta. Se eu podr
desembaraar-me, irei; mas no poderei, porque ha reunio de deputados
no ministerio dos negocios estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.

D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo
alvoroado de Julia receio e desconfiana.

Deu-se pressa em escrever com febril agitao. Chamou um lacaio,
confidente unico, e deu-lhe uma carta.

Eram cinco horas da tarde.

O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das
Aguas-livres.

Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que no a
procurasse, mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos
domesticos d'aquelle dia.  intimao positiva de l no ir, nenhuma
explicao ajuntava. Elle--concluia a carta--escreveu-me agora,
dizendo-me que s vem  meia noite; mas eu estou muitissimo assustada.
No venhas.

Eduardo pesou as apprehenses de Julia, e no lhes achou gravidade. O
creado esperava alguma resposta vocal.

--No digas nada  senhora--ordenou-lhe o generoso confidente--mas s
dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu l estiver,
ento irs dizer  senhora que eu entrei.

Dito isto, foi ao Hotel de Frana, na praa dos Romulares, saboreou os
acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os
convivas, conversou das logrativas lorettes de Frana, das alabastrinas
mulheres de Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e
fez-se ouvir e invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas
aventuras.

s nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de
procelana e ouro, apertou a mo dos discipulos e sahiu.

s dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado
 fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos
adormecidos.

Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com
o jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraa de uma janella.
Collou o ouvido s portadas interiores, e perguntou assustado quem era.

--Abra a janella, padre Manoel--disse Venceslau a meia voz.

O capello reconheceu-o, e disse que a abrir a porta.

--A porta no... a janella...--insistiu o outro.

Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.

--Que  isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua
casa?!--perguntou o padre a tremer de susto.

--Abra o mais subtilmente que poder.

E apontava-lhe para a porta de communicao com o pateo onde estava a
escada de serventia para o andar nobre.

--Agora--disse Venceslau, sahindo--no me siga.

-- snr. Taveira!... onde vae?...--balbuciou o padre.

--Sabe onde vou?!--inquiriu severamente o marido de Julia.

--No, senhor.

--Ento porque se assusta?

--Estranho isto...

--Bem. Fique!--respondeu sccamente.

Minutos depois, D. Julia, pondo a mo nos labios de Eduardo, segredava-lhe:

--Espera... no ouviste nada?...

--No...

--Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...

Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou:

--No  nada...

N'este lance, abriu-se a porta da salta, como se a impellisse um
repello de vento.

Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.

Julia, j de p, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde
estivera contemplando os filhos.

Eduardo, ao levantar-se, fl-o como de um salto de cadaver sacudido pela
electricidade: to de morto era a amarellido do seu terror! Ergueu os
braos inteiriados.  impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle
movimento de indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira
da pistola estalejou na cassoleta. Um dos braos de Eduardo retrahiu-se,
e a mo, batendo rija no lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar
a vida no ponto onde entrra uma bala. Rodou meio giro sobre si,
amparando a fronte na outra mo; e, resvalando pela espalda da cadeira
onde estivera sentado, cahiu vasquejante.

Venceslau atravessou a salta, e parou no limiar da alcva.

Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama,
espavoridos, com os loiros cabellos riados em anneis, e os olhos
spasmodicos, brilhantes, fitos na me que os abraava, e escondia o
rosto entre elles.

--No se aterre, senhora!--disse serenamente Venceslau.--Olhe que no
morre... Essas creanas no tem pae...  preciso que tenham me... Se
fossem meninas, se d'essas creanas podessem fazer-se mulheres,
seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua infamia...
Viva... pea a esses dous innocentes que a defendem da morte do
remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que
as mulheres perdidas no sabem quem  o pae de seus filhos...

O homicida atravessou a salta, relanando um olhar inexprimivel ao
cadaver.

Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em p, com as mos
postas para elle.

--Snr. padre Manoel--disse o marido de Julia--tenha a bondade de
procurar manh no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.




XXII

    Seule, elle reste assise, et son front sans couleur
    Du remords qui s'approche a dej la pleur.

         A. DE VIGNY.--_Poesies._


Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das
Columnas onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de
novembro, borrifava aguaceiros glaciaes.

Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se
os peges de vento lh'a roavam, irriando-lhe os cabellos.

s vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E
elle, ao claro sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando  flor da
onda, e ento era um rir asperrimo do louco--a epilepsia dos beios onde
espumava o rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento
d'outra fulgurao, via um bero com duas creanas queridas,
acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora
regolphava aos clares da procella.

No meditava, no comparava, no carpia os bens da honra perdidos, nem
se confrangia das punhaladas do corao. Era a agonia estupida.

Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella
impenetravel escurido, illudem-nos. Ns no sabemos graduar o frio e o
fogo d'esses infernos. Os que passaram por ahi, no sabem dizer o que
viram. A fantasia dos que l no foram, por mais calcinadas que lhe
flammegem as imagens, apenas vingar dar-nos em sombra as vascas do
corpo que se esfacella; as da alma, no.

 primeira luz da manh, Venceslau parecia ir caminho da casa onde
deixra um cadaver. No a. Parou na travessa do Secretario da guerra,
onde morava o corregedor do crime Jos Antonio da Silva Pedroza, seu
companheiro de emigrao.

Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. No o attenderam
os creados que o no conheciam. Sentou-se no escabello do pateo,
esperando. Mais tarde entrou um official de justia que conheceu o
grande orador, o rico fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente,
e foi acordar o corregedor, dizendo-lhe que o conselheiro,
official-maior da secretaria dos negocios estrangeiros, o esperava no
pateo desde o romper da manh.

O magistrado, erguendo-se em inquieta expectao, foi recebel-o 
sala, e fez p atraz ao vr-lhe o transtorno das feies.

--V. S. a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...

--Snr. Pedroza--disse Venceslau.--Vi um homem na ante-camara de minha
mulher. Matei-o. No sei se era o crime que o levou alli, se a inteno
do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos,
valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque
o tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e mos.

--Snr. conselheiro--disse o corregedor.--Ns fmos companheiros no
desterro. V. S. tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe morreu
nos braos; o outro era...

--Matei esse...--atalhou o homicida.

--Bem morto...--murmurou o juiz.

--A justia me julgar.

--Est julgado; mas fuja... c o livraremos.

--No fujo. D-me V. S. um mandado de priso para me eu apresentar ao
carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.

O corregedor abraou-o, dando livre curso s lagrimas.

Como no tivesse quella hora escrivo que lavrasse o mandado, escreveu
ao carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.

N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter d'estes rasgos,
sem receio que a imprensa lhes lembrasse a egualdade dos criminosos
perante a lei.

Em quanto o preso seguia s para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar
auto, e entregar o cadaver  viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.

Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, j l estava o padre Manoel
Ferreira.

O ro apertou-lhe a mo silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.

Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.

--Onde  o meu quarto?--perguntou o preso.

-- toda a minha casa, snr. conselheiro.

--No lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer,
d-me um quarto, onde eu esteja ssinho.

--Ninguem vir incommodar V. S. sem sua ordem.

O carcereiro sahiu da confortavel salta onde ficaram o preso e o capello.

Assim que ficaram a ss, o padre apertou-o contra o peito que lhe
rebentava em lagrimas.

Venceslau no pde reter as suas; porm, se o padre queria abrir ensejo
de conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um
gesto afflicto.

No obstante, o capello pde dizer que D. Julia tinha sahido s duas
horas da manh com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que no
deixra ordem nenhuma a respeito da casa.

--De mim no tem ordens a receber, snr. padre Manoel--acudiu Venceslau.

--Pois de quem?

--Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S. 
capello, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque so os
utensilios do meu po de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e
porque a Providencia me ha de defender com elles a razo, e corroborar a
honra.

--Mas os seus filhos...--balbuciou o padre.

--Silencio!--interrompeu Venceslau.--Por piedade, calle-se... e
deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... _Meus filhos!..._
Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver,
sobre o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de...
seu pae!

--Oh! por Deus!... Essa suspeita  horrenda... e injusta!...

--Basta!--bradou Venceslau.--V, snr. padre Manoel, que me est
despedaando...

E levou-o at  porta impellindo-o com quanta brandura cabia na
delicadeza, incompativel com o arrebatamento.

O padre foi encontrar a justia no palacio das Amoreiras. Os aguazs e
visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em
desalinho nos cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as
roupas brancas das creancinhas, os sapatos da fidalga com as fitas
de rojo, e alli  beira de tudo isto, que respirava a felicidade
conjugal, as delicias da intimidade, estava um cadaver rxo, n para o
exame, com uma chaga escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns
meandros de sangue denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo at  cintura.

D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa
da viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a p, com os cirios
apagados pelas rajadas do vento.

Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situao
de D. Anna Vaz.

--Est fechada com os filhos e com o snr. commendador--respondeu o
escudeiro.--Ouvi chorar os meninos, mas ella no na ouvi. A aia disse-me
que a senhora morre.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .




Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram
o preso. No primeiro dia, Venceslau, sem fora para reagir, recebeu-os.
A visita era silenciosa, funeral, como a dos que vo desanojar um viuvo
extremoso. O encarcerado apenas chorou nos braos de um homem que lhe
disse: Dou-te os parabens, porque a no mataste. A tua condemnao
maior, e talvez unica, ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste
tanto. Ento, sim, chorou. O homem que disse aquellas palavras, to
penetrativas aos abysmos do corao, chorava, quando m'as repetia,
quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria, que em 1868, se
chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este livro.

E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se 
epoca do encarceramento:

O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no
quarto de Venceslau, o n. 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se
lia ainda aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli
estivera preso por atheu. O padre Manoel Ferreira, no ousava proferir o
nome de Julia; mas particularmente me contou a mim que ella na madrugada
do dia seguinte  grande desgraa, soffrra uma febre cerebral, indo na
sege, caminho da Ericeira. E ajuntou, nas diversas vezes que a tal
respeito conversamos, que a doena de peito com successivas hemorragias,
ia to adiantada que, na opinio do medico, os tecidos pulmonares
estavam dilacerados. Pedia-me ento o padre que fosse eu preparando
Venceslau para dispr dos filhos, logo que ella expirasse.

Ora eu evitava quanto podia fallar em creanas, porque o meu amigo
reconcentrava-se; e, se as lagrimas o no desabafavam, a dr prostrava-o
por tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro
visitavam-no. Elle acariciava-os com uns carinhos to doces e ao mesmo
tempo to angustiados, que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os
prohibisse de ir ao quarto do preso.

Venceslau era indifferente ao processo; mas a justia, independente de
solicitaes, andou to pressurosa nos seus deveres, que em meado de
janeiro--mez e meio depois do delicto--o ro foi julgado e absolvido.

 sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro.
Venceslau, que ento contava trinta e sete annos, tinha encanecido.
Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o rosto,
cujas feies pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis
d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.

Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que
ento era nosso ministro em Londres, e de l providencira em favor do
seu intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios
estrangeiros. Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do
marquez, no Lumiar, onde eu passei com elle as horas vagas do servio
militar, at fevereiro do seguinte anno de 1828, em que chegou D. Miguel.

Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando
chegou padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre
soluos que a infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em
confisso lhe jurra pelo futuro da sua alma, e na presena da sagrada
Eucharistia, que Venceslau era o pae dos seus filhinhos.

--E onde esto os meninos?--perguntei eu ao padre.

--Deixei-os entregues s suas amas, e venho saber que destino devo
dar-lhes.

--O snr. padre Manoel--disse eu--tem n'este lance a unco religiosa
que requer semelhante revelao. Revista-se de animo, e diga-lh'o,
porque  inevitavel avisal-o, e no pde espaar-se a noticia.

O padre entrou  sala onde Venceslau, ao p do fogo, parecia
amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as noites,
como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da
narcotisao da morte.

O padre apertou-lhe a mo, espertou-o, e quedou-se longo espao a
contemplal-o, at que Venceslau lhe disse:

--Porque chora, padre Manoel?

--Choro por seus filhos...

--No venha ensopar mais fel na esponja...--murmurou Taveira.

--Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creaninhas
j no tem me. A snr. D. Julia  morta.

Venceslau ergueu-se amparado nos braos do capello, encarou-o muito a
fito, e tartamudeou:

--Que diz? morta?...

--Rendeu o espirito a Deus, s duas horas da manh, na sua quinta da
Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-unco, a moribunda
chamou-me, e, pondo as mos nas cabeas de seus filhos, disse-me:
Juro-lhe, na presena de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que
Venceslau  o pae d'estes dous innocentinhos, que vo ficar sem me.
Duas horas depois, estava no tribunal divino.

Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: perda-lhe,
 justia divina!...




XXIII

    Do ferro o peito atravessado tinha
    De que o sangue ainda fresco lhe manava.

         GABRIEL P. DE CASTRO.--_Ulyssea._


Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir
para Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram
rebate  emigrao dos liberaes mais expostos ao odio.

Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda,
rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos
de liberal a sobrecarga de assassino.

A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurra em vingar a
inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matra o
marido, e deixra com vida a mulher em cujo quarto o encontrra.
N'esta conjurao o commendador Vaz era de todo estranho. Desde a
hora em que a tumba do genro entrra em casa, o velho sahira com os
netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.

Venceslau, porm, resistira s insinuaes dos amigos, at ao momento em
que lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no
patibulo. Levaram-no, pois,  deliberao de exilar-se, entregando os
meninos a padre Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez,
na quinta do Lumiar.

E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro
haviam de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os
haveres de D. Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio
das creanas.

Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado  ordem de Jos
Antonio de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que
se mascarrou de sangue para dar uns longes de semelhana com o marquez
de Pombal, injuriando-o.

A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio,
quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e
corao haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella,
sentando-o  sua mesa, e forando-o a vestir-se da sua guarda roupa,
venerava-o mais que n'aquelles annos em que o consultava nos casos
melindrosos da sua misso diplomatica. Se s vezes, em signal de
preito a um talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em
perigosas conjuncturas diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza
consternadora, e dizia:

--Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...

E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que
lhe apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razo escurecida.

Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedio de D. Pedro IV.

Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas
principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.

O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de
secretaria, cujo servio lhe era penoso, porque o cansao,  menor
applicao, lhe abastecia as trevas do entendimento.

Levantado o crco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a
grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.

O filho mais velho tinha ento onze annos e o outro nove. Eram ambos
educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.

O padre apresentou ao official maior as contas da sua administrao,
dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes s despezas.
Venceslau rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima
interferencia na herana de seus filhos.

Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe o padre que o
commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam
penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta
se acolhra ao convento da Encarnao, onde vivia pobremente. Quanto aos
tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.

O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os
ordenados suspensos durante a emigrao. Recusou-os.

Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se
d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes
do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava
mensalmente uma quantia ao convento da Encarnao, mediante padre Manoel
Ferreira, que no era todavia o portador da esmola. O capello do
mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna
Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecra na abastana,
lhe pedia licena para a soccorrer em to honrada quanto penosa viuvez.

Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau
ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os
transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o
contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe
levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas
lagrimas. O enfermo disse-lhe ento serenamente:

--Posso morrer; os atacados n'este predio tm morrido todos. Levo
saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a
historia de sua me.

E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do corao!

Quando l voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo;
mas como era j de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios
da vida, calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.

Um dia, Venceslau, j convalescente, disse ao padre que lhe levasse os
filhos ao Campo Grande, que os queria vr.

--No m'os conduza aqui--accrescentou elle--porque ainda ha colericos
n'este predio.

E o padre, cahindo em joelhos, poz as mos, e exclamou:

--Coragem, senhor!

--Que vae dizer-me, padre Manoel?

--Que os seus filhos...

--Morreram?

--Esto no co, pedindo a Nosso Senhor Jesus Christo que lhes d a alma
de seu pae.

Venceslau perdeu o alento.

Era a primeira vez que aquella forte alma se escondia por largo espao
nas trevas da morte.

Quando recuperou os sentidos, e apalpou a realidade medonha da sua vida,
inspirou aos amigos, que o rodeavam, o receio da loucura.

Um d'aquelles amigos era o presidente de ministros duque de
Palmella, que o levantou nos braos, e o amparou at o assentar na sua
carruagem.

Depois, o anjo da piedade beijou-lhe as palpebras. As lagrimas golpharam
a torrentes; mas a luz dos olhos sahiu diluida n'ellas. Venceslau aos
quarenta e dous annos estava quasi cego.

E viveu!

Vivia em 1867 n'aquella casa triste da charneca de Odivellas, para onde
fra depois que o duque de Palmella fallecra.

E vivia ento pobrissimo, porque a grande riqueza em bens livres que
herdra de seus filhos, mandra entregar aos herdeiros de sua mulher; e
a maior parte de seus ordenados de official-maior aposentado era
repartida pelos filhos de D. Anna Vaz, j morta quelle tempo no
mosteiro da Encarnao, alanciada em todas as fibras do corao de
esposa, de filha e de me, porque a morte apiedou-se d'ella, s depois
que o opprobrio dos filhos lhe deu ao esparto da garganta o derradeiro
aperto.




CONCLUSO


CARTA DE LUIZ DA SILVA

Ha cinco annos que meu tio te referiu a historia do conselheiro da
azinhaga.

Nos raros livros, que apparecem com o teu nome, no tenho encontrado o
caso triste.

Se a opulencia, adquirida nas lettras, te no remiu da gal de
escriptor portuguez, conta a historia de Venceslau.

Esperarias que elle morresse para melhor te inspirares no silencio do
tumulo d'aquelle calcinado corao?

Morreu. Podes afoitamente levantar-lhe o sudario da face morta, e
mostral-o.

Se lhe queres vr a sepultura, vae  casa onde elle nasceu, ahi nos
arrabaldes de Lamego.

Morreu rico. Em 1868, succedeu na herana do irmo morgado, realista
inflexivel que nunca lhe perdora a loucura de trocar o habito de
benedictino pela fardeta de voluntario da Rainha no crco do Porto.
Colhido de sobresalto pela morte, no teve tempo de desvincular os bens
e dal-os ao Papa.

Venceslau sahiu da casa, onde esperava morrer n'aquella gandra arida
onde o viste.

Levou-o o desejo de fechar os olhos onde a sua estrella funesta lh'os
abrira.

Viveu l seis mezes.

Legou importantes bens de raiz e oiro em barda que encontrou amuado nos
velhos contadores de seus avs.

Os seus herdeiros foram os tres filhos de D. Anna Vaz. No testamento
no nomeia o nome do marido d'aquella senhora.

Um dos filhos est em Africa cumprindo degredo por crime de morte na
pessoa d'um cocheiro que apunhalou em um latibulo de jogadores de
esquineta. O miseravel, apezar do secreto amparo que lhe dava Venceslau,
tinha cahido at quella paragem.

O outro filho de Eduardo Pimenta, depois de ter sido expulso com
ignominia d'um logar de confiana que o conselheiro indirectamente lhe
impetrra, estava marcador de bilhar no Caf-Grego.

A menina vivia de esmolas no mosteiro onde falleceu a me.

Suspeito que a herana vae cahir nas fauces do drago que sorveu todos
os personagens da tua inedita historia.

Hontem vi o marcador de bilhar, com os bigodes pintados, guiando
dois alazes, que tiravam um char--bancs, em que am reclinadas e
retranadas de serpejantes cabelleiras tres mulheres d'aquella especie
ephemera de borboletas que tem uma segunda crisalida nos amphitheatros
dos hospitaes.

Ouvi dizer que a reclusa da Encarnao, senhora de quarenta e nove
annos,  pretendida d'um major reformado.

O outro herdeiro, que est em Moambique, se tiver juizo, em recebendo
a herana, levanta-se com o vice-reinado de Africa.

Se estas novas achgas podem ser argamassa para mais um capitulo do teu
livro, ahi as tens.

No me esquea satisfazer uma pergunta, que me fizeste em 1868.

Padre Manoel Ferreira morreu em 1835. Os actuaes possuidores dos
grandes haveres de D. Julia de Miranda contam que o padre, depois de
lhes entregar a herana, andra abraando alguns moveis d'aquella casa
onde vivera cincoenta annos, e chorra muito curvado sobre a cadeira
onde costumava sentar-se D. Julia. Depois pedira que lhe dssem o leito
onde haviam nascido e morrido os dous meninos, e o levou comsigo, e o
queimra. Os herdeiros de D. Julia riem d'esta excentricidade. Eu vi no
fundo da nobre alma do padre, a significao d'aquelle aniquilamento. As
lagrimas, que solemnisaram aquelle devoto sacrificio do ancio, foram as
ultimas. Foi a Odivellas, beijou os olhos apagados de Venceslau,
voltou para os parentes que o acolheram, e finou-se. Adeus.

      *      *      *      *      *

Qual foi o intuito do general Pedro da Silva quando me pediu que
denominasse este romance LIVRO DE CONSOLAO?

Foi, como se me dissesse:

Raro desgraado haver ahi a quem se no deparem, no seu livro,
infortunios que lhe despontem os espinhos de angustias menores.

As supremas felicidades desta vida sabe a gente gradual-as: so poucas,
e ficam muito quem do desejo. Mas as escaleiras da desgraa so tantas
e to avantajadas  fantasia das mais ardentes e requeimadas almas, que
no ha medil-as, nem descer a sonda ao ultimo abysmo.

Bemdito seja Deus, que nos ha dado o consolador egoismo de ouvir muito
gemido, muito desesperar, muito blasphemar de infelizes  volta de ns.


FIM.




    [1] _Memorias da vida de Jos Liberato Freire de Carvalho._ Lisboa,
    1855, pag. 94 e seguintes.

    [2] Esta resposta  trasladada de um volume de manuscriptos estimaveis
    que pertenceu ao fallecido bibliographo o desembargador Thomaz
    Norton. Na folha de guarda do livro escreveu o citado possuidor o
    seguinte: _Theotonio Jos Maria de Queiroz, penultimo ministro da
    Congregao de Oliveira pertencente aos padres Congregados. Morreu
    de edade de 84 annos, e ainda lia e escrevia sem oculos. Norton._ O
    collector rubricou a colleco em 1811.

    [3] Veja _Os Portuguezes e os factos_. Londres, 1833, p. 39.






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electronic work or group of works on different terms than are set
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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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