The Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis

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Title: Esau e Jacob

Author: Machado de Assis

Release Date: March 14, 2018 [EBook #56737]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ESAU E JACOB ***




Produced by Laura Natal Rodrigues & Marc D'Hooghe at Free Literature




ESA E JACOB

POR

MACHADO DE ASSIS

(_da Academia Brasileira_)

LIVRARIA GARNIER

109, RUA DO OUVIDOR, 109

6, RUE DES SAINTS-PRES, 6

RIO DE JANEIRO

PARIS




Indice

ADVERTNCIA


Quando o conselheiro Ayres falleceu, acharam-se lhe na secretaria sete
cadernos manuscriptos, rijamente encapados em papelo. Cada um dos
primeiros seis tinha o seu numero de ordem, por algarismos romanos, I,
II, III, IV, V, VI, escriptos a tinta encarnada. O setimo trazia este
titulo: _Ultimo._

A razo desta designao especial no se comprehendeu ento nem depois.
Sim, era o ultimo dos sete cadernos, com a particularidade de ser o
mais grosso, mas no fazia parte do _Memorial_, diario de lembranas
que o conselheiro escrevia desde muitos annos e era a materia dos seis.
No trazia a mesma ordem de datas, com indicao da hora e do minuto,
como usava nelles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o proprio
Ayres, com o seu nome e titulo de conselho, e, por alluso, algumas
aventuras, nem assim deixava de ser a narrativa extranha  materia dos
seis cadernos. _Ultimo_ porqu?

A hypothese de que o desejo do finado fosse imprimir este caderno em
seguida aos outros, no  natural, salvo se queria obrigar a leitura
dos seis, em que tratava de si, antes que lhe conhecessem esta outra
historia, escripta com um pensamento interior e unico, atravez das
paginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas
a vaidade no fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia a
pena satisfazel-a? Elle no representou papel eminente neste mundo;
percorreu a carreira diplomatica, e aposentou-se. Nos lazeres do
officio, escreveu o _Memorial_, que, aparado das paginas mortas ou
escuras, apenas daria (e talvez d) para matar o tempo da bara de
Petropolis.

Tal foi a razo de se publicar smente a narrativa. Quanto ao titulo,
fram lembrados varios, em que o assumpto se pudesse resumir, _Ab ovo_,
por exemplo, apesar do latim; venceu, porm, a ideia de lhe dar estes
dous nomes que o proprio Ayres citou uma vez:

ESA E JACOB



Dico, che quando l'anima mal nata...

DANTE.



CAPITULO PRIMEIRO


Cousas futuras!


Era a primeira vez que as duas iam ao morro do Castello. Comearam de
subir pelo lado da rua do Carmo. Muita gente ha no Rio de Janeiro que
nunca l foi, muita haver morrido, muita mais nascer e morrer sem l
pr os ps. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um
velho inglez, que alis andra terras e terras, confiava-me ha muitos
annos em Londres que de Londres s conhecia bem o seu club, e era o que
lhe bastava da metropole e do mundo.

Natividade e Perpetua conheciam outras partes, alm de Botafogo, mas
o morro do Castello, por mais que ouvissem falar delle e da cabocla
que l reinava em 1811, era-lhes to extranho e remoto como o club. O
ingreme, o desegual, o mal calado da ladeira mortificavam os ps s
duas pobres donas. No obstante, continuavam a subir, como se fosse
penitencia, devagarinho, cara no cho, veu para baixo. A manh trazia
certo movimento; mulheres, homens, creanas que desciam ou subiam,
lavadeiras e soldados, algum empregado, algum logista, algum padre,
todos olhavam espantados para ellas, que alis vestiam com grande
simplicidade; mas lia um donaire que se no perde, e no era vulgar
naquellas alturas. A mesma lentido do andar, comparada  rapidez das
outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que alli iam.
Uma creoula perguntou a um sargento: Voc quer vr que ellas vo 
cabocla? E ambos pararam a distancia, tomados daquelle invencivel
desejo de conhecer a vida alheia, que  muita vez toda a necessidade
humana.

Com effeito, as duas senhoras buscavam disfaradamente o numero da casa
da cabocla, at que deram com elle. A casa era como as outras, trepada
no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada 
aventura. Quizeram entrar depressa, mas esbarraram com dous sujeitos
que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um delles perguntou-lhes
familiarmente se iam consultar a adivinha.

--Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e ho de ouvir muito
disparate...

-- mentira delle, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde
tem o nariz.

Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do
primeiro eram signal certo da videncia e da franqueza da adivinha; nem
todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia
ser miseravel, e ento... Em quanto cogitavam passou fra um carteiro,
que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham f,
mas tinham tambem vexame da opinio, como um devoto que se benzesse s
escondidas.

Velho caboclo, pae da adivinha, conduziu as senhoras  sala. Esta era
simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mysterio ou incutisse
pavor, nenhum petrecho symbolico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou
desenho de aleijes. Quando muito um registo da Conceio collado 
parede podia lembrar um mysterio, apesar de encardido e roido, mas no
mettia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.

--Minha filha j vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?

Natividade deu o nome de baptismo smente, Maria, como um veu mais
espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um carto,--porque a
consulta era s de uma,--com o numero 1,012. No ha que pasmar do
algarismo; a freguezia era numerosa, e vinha de muitos mezes. Tambem
no ha que dizer do costume, que  velho e velhissimo. Rel Eschylo,
meu amigo, rel as _Eumenides_, l vers a Pythia, chamando os que iam
 consulta: Se ha aqui Hellenos, venham, approximem-se, segundo o uso,
_na ordem marcada pela sorte..._ A sorte outr'ora, a numerao agora,
tudo  que a verdade se ajuste  prioridade, e ninguem perca a sua vez
de audiencia. Natividade guardou o bilhete, e ambas fram  janella.

A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpetua menos que Natividade.
A aventura parecia audaz, e algum perigo possivel. No ponho aqui os
seus gestos; imaginae que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma
dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um n na garganta.
Felizmente, a cabocla no se demorou muito; ao cabo de trez ou quatro
minutos, o pae a trouxe pela mo, erguendo a cortina do fundo.

--Entra, Barbara.

Barbara entrou, emquanto o pae pegou da viola e passou ao patamar de
pedra,  porta da esquerda. Era uma creaturinha leve e breve, saia
bordada, chinelinha no p. No se lhe podia negar um corpo airoso.
Os cabellos, apanhados no alto da cabea por um pedao de fita
enxovalhada, faziam-lhe um solideu natural, cuja borla era supprida por
um raminho de arruda. J vae nisto um pouco de sacerdotiza. O mysterio
estava nos olhos. Estes eram opacos, no sempre nem tanto que no
fossem tambem lucidos e agudos, e neste ultimo estado eram egualmente
compridos; to compridos e to agudos que entravam pela gente abaixo,
revolviam o corao e tornavam c fra, promptos para nova entrada e
outro revolvimento. No te minto dizendo que as duas sentiram tal ou
qual fascinao. Barbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha
e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabellos cortados, por lhe
haverem dito que bastava.

--Basta, confirmou Barbara. Os meninos so seu filhos?

--So.

--Cara de um  cara de outro.

--So gemeos; nasceram ha pouco mais de um anno.

--As senhoras podem sentar-se.

Natividade disse baixinho  outra que a cabocla era sympathica, no
to baixo que esta no pudesse ouvir tambem; e dahi pde ser que ella,
receiosa da predico, quizesse aquillo mesmo para obter um bom destino
aos filhos. A cabocla foi sentar-se  mesa redonda que estava no centro
da sala, virada para as duas. Poz os cabellos e os retratos defronte de
si. Olhou alternadamente para elles e para a me, fez algumas perguntas
a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabellos, bca aberta,
sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que accendeu um cigarro, mas
digo, porque  verdade, e o fumo concorda com o officio. Fra, o pae
roava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do serto do norte:

    Menina da saia branca,
    Saltadeira de riacho...

Emquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de
expresso, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa.
Barbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabellos em
cada mo, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a affectao
que por ventura aches nesta linha. Taes gestos no se poderiam contar
naturalmente. Natividade no tirava os olhos della, como se quizesse
lel-a por dentro. E no foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar
se os meninos tinham brigado antes de nascer.

--Brigado?

--Brigado, sim, senhora.

--Antes de nascer?

--Sim, senhora, pergunto se no teriam brigado no ventre de sua me;
no se lembra?

Natividade, que no tivera a gestao socegada, respondeu que
effectivamente sentira movimentos extraordinarios, repetidos, e dres,
e insomnias... Mas ento que era? Brigariam porqu? A cabocla no
respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou  volta da mesa, lenta,
como somnambula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividil-os
novamente entre a me e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando
grosso. Toda ella, cara e braos, hombros e pernas, toda era pouca para
arrancar a palavra ao Destino. Emfim, parou, sentou-se exhausta, at
que se ergueu de salto e foi ter com as duas, to radiante, os olhos
to vivos e callidos, que a me ficou pendente delles, e no se poude
ter que lhe no pegasse das mos e lhe perguntasse anciosa:

--Ento? Diga, posso ouvir tudo.

Barbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira
palavra parece que lhe chegou  bca, mas recolheu-se ao corao,
virgem dos labios della e de alheios ouvidos. Natividade instou pela
resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...

--Cousas futuras! murmurou finalmente a cabocla.

--Mas, cousas feias?

--Oh! no! no! Cousas bonitas, cousas futuras!

--Mas isso no basta; diga-me o resto. Esta senhora  minha irm e de
segredo, mas se  preciso sair, ella sae; eu fico, diga-me a mim s...
Sero felizes?

--Sim.

--Sero grandes?

--Sero grandes, oh! grandes! Deus ha de dar-lhes muitos beneficios.
Elles ho de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua me, que
tem? C fra tambem se briga. Seus filhos sero gloriosos.  s o que
lhe digo. Quanto  qualidade da gloria, cousas futuras!

L dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do
serto:

    Trepa-me neste coqueiro.
    Bota-me os cocos abaixo.

E a filha, no tendo mais que dizer, ou no sabendo que explicar, dava
aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia l dentro:

   Menina da saia branca,
   Saltadeira de riacho,
   Trepa-me neste coqueiro,
   Bota-me os cocos abaixo.
    Quebra coco, sinh,
      L no coc,
   Se te d na cabea,
      Hade rach;
   Muito heide me ri,
   Muito heide gost,
   Lel, coco, nay.




CAPITULO II


Melhor de descer que de subir


Todos os oraculos tem o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade
acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe no ouvir mais nada; bastou
saber que as cousas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e
gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cincoenta mil
reis. Era cinco vezes o preo do costume, e valia tanto ou mais que as
ricas dadivas de Crso  Pythia. Arrecadou os retratos e os cabellos,
e as duas sairam, em quanto a cabocla ia para os fundos,  espera de
outros. J havia alguns freguezes  porta, com os numeros de ordem, e
ellas desceram rapidamente, escondendo a cara.

Perpetua compartia as alegrias da irm, as pedras tambem, o muro do
lado do mar, as camisas penduradas s janellas, as cascas de banana
no cho. Os mesmos sapatos de um _irmo das almas_, que ia a dobrar
a esquina da rua da Misericordia para a de S. Jos, pareciam rir de
alegria, quando realmente gemiam de canasso. Natividade estava to
fra de si que, ao ouvir-lhe pedir: Para a missa das almas! tirou da
bolsa uma nota de dous mil reis, nova era folha, e deitou-a  bacia. A
irm chamou-lhe a atteno para o engano, mas no era engano, era para
as almas do purgatorio.

E seguiram lepidas para o _coup_, que as esperava no espao que fica
entre a egreja de S. Jos e a camara dos deputados. No tinham querido
que o carro as levasse at ao principio da ladeira, para que o cocheiro
e o lacaio no desconfiassem da consulta. Toda a gente falava ento da
cabocla do Castello, era o assumpto da cidade; attribuiam-lhe um poder
infinito, uma serie de milagres, sortes, achados, casamentos. Se as
descobrissem, estavam perdidas, embora muita gente boa l fosse. Ao
vel-as dando a esmola ao irmo das almas, o lacaio trepou  almofada e
o cocheiro tocou os cavallos, a carruagem veiu buscal-as, e guiou para
Botafogo.




CAPITULO III


A esmola da felicidade


--Deus lhe accrescente, minha senhora devota! exclamou o irmo das
almas ao ver a nota cair em cima de dous nickeis de tosto e alguns
vintens antigos. Deus lhe d todas as felicidades do cu e da terra,
e as almas do purgatorio peam a Maria Santissima que recommende a
senhora dona a seu bemdito filho!

Quando a sorte ri, toda a natureza ri tambem, e o corao ri como
tudo o mais. Tal foi a explicao que, por outras palavras menos
especulativas, deu o irmo das almas aos dous mil reis. A suspeita
de ser a nota falsa no chegou a tomar p no cerebro deste: foi
allucinao rapida. Comprehendeu que as damas eram felizes, e, tendo o
uso de pensar alto, disse piscando o olho, emquanto ellas entravam no
carro:

--Aquellas duas viram passarinho verde, com certeza.

Sem rodeios, suppoz que as duas senhoras vinham de alguma aventura
amorosa, e deduziu isto de trez factos, que sou obrigado a enfileirar
aqui para no deixar este homem sob a suspeita de calumniador gratuito.
O primeiro foi a alegria dellas, o segundo o valor da esmola, o
terceiro o carro que as esperava a um canto, como se ellas quizessem
esconder do cocheiro o ponto dos namorados. No concluas tu que elle
tivesse sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moas antes de
servir s almas. Tambem no creias que fosse outr'ora rico e adultero,
aberto de mos, quando vinha de dizer adeus s suas amigas. _Ni cet
excs d'honneur, ni cette indignit._ Era um pobre diabo sem mais
officio que a devoo. Demais, no teria tido tempo; contava apenas
vinte e sete annos.

Comprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a olhar
para a nota to fresca, to valiosa, nota que almas nunca viram sair
das mos delle. Foi subindo a rua de S. Jos. J no tinna animo de
pedir; a nota fazia-se ouro, e a ideia de ser falsa voltou-lhe ao
cerebro, e agora mais frequente, at que se lhe pegou por alguns
instantes. Se fosse falsa... Para a missa das almas! gemeu  porta de
uma quitanda, e deram-lhe um vintem,--um vintem sujo e triste, ao p da
nota to novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de
sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhedous vintens,--o dobro da outra
moeda no valor e no azinhavre.

E a nota sempre limpa, uns dous mil reis que pareciam vinte. No, no
era falsa. No corredor pegou della, mirou-a bem; era verdadeira. De
repente, ouviu abrir a cancella em cima, e uns passos rapidos. Elle,
mais rapido, amarrotou a nota e metteu-a na algibeira das calas;
ficaram s os vintens azinhavrados e tristes, o obolo da viuva. Saiu,
foi  primeira officina,  primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo
longa e lastimosamente:

--Para a missa das almas!

Na egreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristo,
ouviu uma voz debil como de almas remotas que lhe perguntavam se os
dous mil reis... Os dous mil reis, dizia outra voz menos debil, eram
naturalmente delle, que, em primeiro logar, tambem tinha alma, e, em
segundo logar, no recebera nunca to grande esmola. Quem quer dar
tanto vae  egreja ou compra uma vela, no pe assim uma nota na bacia
das esmolas pequenas.

Se minto, no  de inteno. Em verdade, as palavras no sairam assim
articuladas e claras, nem as debeis, nem as menos debeis; todas faziam
uma zoeira aos ouvidos da consciencia. Traduzi-as em lingua falada,
afim de ser entendido das pessoas que me lem; no sei como se poderia
transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um atraz
de outro e todos confusos para o fim, at que o segundo ficou s: no
tirou a nota a ninguem... a dona  que a poz na bacia por sua mo...
tambem elle era alma...  porta da sacristia que dava para a rua, ao
deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarello, no ouviu
mais nada. Viu um mendigo que lhe estendia o chapeo roto e sebento;
metteu vagarosamente a mo no bolso do collete, tambem roto, e aventou
uma moedinha de cobre que deitou ao chapeo do mendigo, rapido, s
escondidas, como quer o Evangelho. Eram dous vintens; ficavam-lhe
mil novecentos e noventa e oito reis. E o mendigo, como elle saisse
depressa, mandou-lhe atraz estas palavras de agradecimento, parecidas
com as suas:

--Deus lhe accrescente, meu senhor, e lhe d...




CAPITULO IV


A missa do _coup_


Natividade ia pensando na cabocla do Castello, na predico da grandeza
e na noticia da briga. Tornava a lembrar-se que, de facto, a gestao
no fra socegada; mas s lhe ficava a sorte da gloria e da grandeza. A
briga l ia, se a houve; o futuro, sim, esse  que era o principal ou
tudo. No deu pela praia de Santa Luzia. No largo da Lapa interrogou a
irm sobre o que pensava da adivinha. Perpetua respondeu que bem, que
acreditava, e ambas concordaram que ella parecia falar dos proprios
filhos, tal era o enthusiasmo. Perpetua ainda a reprehendeu pelos
cincoenta mil reis dados em paga; bastavam vinte.

--No faz mal. Cousas futuras!

--Que cousas sero?

--No sei; futuras.

Mergulharam,outra vez no silencio. Ao entrar no Cattete, Natividade
recordou a manh em que alli passou, naquelle mesmo _coup_, e confiou
ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa de defunto, na
egreja de S. Domingos...

Na egreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de Joo de
Mello, fallecido em Maric. Tal foi o annuncio que ainda agora pdes
ler em algumas folhas de 1869. No me ficou o dia, o mez foi agosto. O
annuncio est certo, foi aquillo mesmo, sem mais nada, nem o nome da
pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite.
No se disse sequer que o defunto era escrivo, officio que s perdeu
com a morte. Emfim, parece que at lhe tiraram um nome; elle era, se
estou bem informado, Joo de Mello e Barros.

No se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguem l foi. A egreja
escolhida deu ainda menos relevo ao acto; no era vistosa, nem buscada,
mas velhota, sem galas nem gente, mettida ao canto de um pequeno largo,
adequada  missa recondita e anonyma.

s oito horas parou um _coup_  porta; o lacaio desceu, abriu a
portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um senhor e deu a mo
a uma senhora, a senhora saiu e tomou o brao ao senhor, atravessaram
o pedacinho de largo e entraram na egreja. Na sacristia era tudo
espanto. A alma que a taes sitios attrahira um carro de luxo, cavallos
de raa, e duas pessoas to finas no seria como as outras almas alli
suffragadas. A missa foi ouvida sem pesames nem lagrimas. Quando
acabou, o senhor foi  sacristia dar as esportulas. O sacristo,
agasalhando na algibeira a nota de dez mil reis que recebeu, achou que
ella provava a sublimidade do defunto; mas que defunto era esse? O
mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a luva da senhora
deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostes. J ento havia na
egreja meia duzia de creanas maltrapilhas, e, fra, alguma gente s
portas e no largo, esperando. O senhor, chegando  porta, relanceou
os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objecto de curiosidade.
A senhora trazia os seus no cho. E os dous entraram no carro, com o
mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola e partiram.

A gente local no falou de outra cousa naquelle e nos dias seguintes.
Sacristo e visinhos relembravam o _coup_, com orgulho. Era a missa do
_coup._ As outras missas vieram vindo, todas a p, algumas de sapato
roto, no raras descalas, capinhas velhas, morins estragados, missas
de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas a
missa do _coup_ viveu na memoria por muitos mezes. Afinal no se falou
mais nella; esqueceu como um baile.

Pois o _coup_ era este mesmo. A missa foi mandada dizer por aquelle
senhor, cujo nome  Santos, e o defunto era seu parente, ainda que
pobre. Tambem elle foi pobre; tambem elle nasceu em Maric. Vindo para
o Rio de Janeiro, por occasio da _febre das aces_ (1855), dizem que
revellou grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo
muito, e fel-o perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que
ia ento nos vinte annos e no tinha dinheiro, mas era bella e amava
apaixonadamente. A Fortuna os abenoou com a riqueza. Annos depois
tinham elles uma casa nobre, carruagem, cavallos e relaes novas e
distinctas. Dos dous parentes pobres de Natividade morreu o pae em
1866; restava-lhe uma irm. Santos tinha alguns em Maric, a quem nunca
mandou dinheiro, fosse mesquinhez, fosse habilidade. Mesquinhez no
creio; elle gastava largo e dava muitas esmolas. Habilidade seria;
tirava-lhes o gosto de vir c pedir-lhe mais.

No lhe valeu isto com Joo de Mello, que um dia appareceu aqui, a
pedir-lhe emprego. Queria ser, como elle, director de banco. Santos
arranjou-lhe depressa um logar de escrivo do civel em Maric, e
despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

Joo de Mello retirou-se com a escrevania, e dizem que uma grande
paixo tambem. Natividade era a mais bella mulher daquelle tempo. No
fim, com os seus cabellos quasi sexagenarios, fazia crr na tradico.
Joo de Mello ficou allucinado quando a viu; ella conheceu isso, e
portou-se bem. No lhe fechou o rosto,  verdade, e era mais bella
assim que zangada; tambem no lhe fechou os olhos, que eram negros
e callidos. S lhe fechou o corao, um corao que devia amar como
nenhum outro, foi a concluso de Joo de Mello uma noite em que a viu
ir decotada a um baile. Teve impeto de pegar della, descer, voar,
perderem-se...

Em vez disso, uma escrevania e Maric; era um abysmo. Caiu nelle;
trez dias depois saiu do Rio de Janeiro para no voltar. A principio
escreveu muitas cartas ao parente, com a esperana de que ella as lesse
tambem, e comprehendesse que algumas palavras eram para si. Mas Santos
no lhe deu resposta, e o tempo e a ausencia acabaram por fazer de Joo
de Mello um excellente escrivo. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de Natividade deitada  caixa das almas fosse
pagar a adorao do defunto no digo que sim, nem que no; faltam-me
pormenores. Mas pde ser que sim, porque esta senhora era no menos
grata que honesta. Quanto s larguezas do marido, no esqueas que o
parente era defunto, e o defunto um parente menos.




CAPITULO V


Ha contradices explicaveis


No me peas a causa de tanto encolhimento no annuncio e na missa,
e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libr. Ha contradices
explicaveis. Um bom autor, que inventasse a sua historia, ou prezasse
a logica apparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a p ou
em calea de praa ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as cousas
se passaram, e refiro-as taes quaes. Quando muito, explico-as, com a
condio de que tal costume no pegue. Explicaes comem tempo e papel,
demoram a aco e acabam por enfadar. O melhor  ler com atteno.

Quanto  contradico de que se trata aqui,  de ver que naquelle
recanto de um larguinho modesto, nenhum conhecido daria com elles,
ao passo que elles gozariam o assombro local; tal foi a reflexo de
Santos, se se pde dar semelhante nome a um movimento interior que
leva a gente a fazer antes uma cousa que outra. Resta a missa; a missa
em si mesma bastava que fosse sabida no cu e em Maric. Propriamente
vestiram-se para o cu. O luxo do casal temperava a pobreza da orao;
era uma especie de homenagem ao finado. Se a alma de Joo de Mello os
visse de cima, alegrar-se-hia do apuro em que elles fram rezar por um
pobre escrivo. No sou eu que o digo; Santos  que o pensou.




CAPITULO VI


Maternidade


A principio, vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da
egreja, que lhe sujra o vestido.

--Venho cheia de pulgas, continuou ella: porque no fmos a S.
Francisco de Paula ou  Gloria, que esto mais perto, e so limpas?

Santos trocou as mos  conversa, e falou das ruas mal caladas, que
faziam dar solavancos ao carro. Com certeza, quebravam-lhe as molas.

Natividade no replicou, mergulhou no silencio, como naquelle outro
capitulo, vinte mezes depois, quando tornava do Castello com a irm.
Os olhos no tinham a nota de deslumbramento que trariam ento; iam
parados e sombrios, como de manh e na vespera. Santos, que j reparra
nisso, perguntou-lhe o que  que tinha; ella no sei se lhe respondeu
de palavra; se alguma disse, foi to breve e surda que inteiramente se
perdeu. Talvez no passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro,
ou cousa assim. Fosse o que fosse, quando o _coup_ chegou ao meio do
Cattete, os dous levavam as mos presas, e a expresso do rosto era de
abenoados. No davam sequer pela gente das ruas; no davam talvez por
si mesmos.

Leitor, no  muito que percebas a causa daquella expresso e desses
dedos abotoados. J l ficou dita atraz, quando era melhor deixar que
a adivinhasses; mas provavelmente no a adivinharias, no que tenhas
o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem varia do homem,
e tu talvez ficasses com egual expresso, simplesmente por saber
que ias danar sabbado. Santos no danava; preferia o voltarete,
como distraco. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava
gravida, acabava de o dizer ao marido.

Aos trinta annos no era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos sentiu
mais que ella o prazer da vida nova. Eis ahi vinha a realidade do sonho
de dez annos, uma creatura tirada da coxa de Abraho, como diziam
aquelles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora empresta
generosamente o seu dinheiro s companhias e s naes. Levam juro por
elle; mas os hebraismos so dados de graa. Aquelle  desses. Santos,
que s conhecia a parte do emprestimo, sentia inconscientemente a do
hebraismo, e deleitava-se com elle. A emoo atava-lhe a lingua; os
olhos que estendia  esposa e a cobriam eram de patriarcha; o sorriso
parecia chover luz sobre a pessoa amada, abenoada e formosa entre as
formosas.

Natividade no foi logo, logo, assim; a pouco e pouco  que veiu
sendo vencida e tinha j a expresso da esperana e da maternidade.
Nos primeiros dias, os symptomas desconcertaram a nossa amiga.  duro
dizel-o, mas  verdade. L se iam bailes e festas, l ia a liberdade e
a folga. Natividade andava j na alta roda do tempo; acabou de entrar
por ella, com tal arte que parecia haver alli nascido. Carteava-se
com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha
s esta casa de Botafogo, mas tambem outra em Petropolis; nem s
carro, mas tambem camarote no Theatro-Lyrico, no contando os bailes
do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertorio, em
summa, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia quella
duzia de nomes planetarios que figuram no meio da plebe de estrellas. O
marido era capitalista e director de um banco.

No meio disso, a que vinha agora uma creana deformal-a por mezes,
obrigal-a a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o
resto? Tal foi a primeira sensao da me, e o primeiro impeto foi
esmagar o germen. Criou raiva ao marido. A segunda sensao foi melhor.
A maternidade, chegando ao meio dia, era como uma aurora nova e fresca.
Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chacara
ou no regao da aia, com trez annos de edade, e este quadro daria aos
trinta e quatro annos que teria ento um aspecto de vinte e poucos...

Foi o que a reconciliou com o marido. No exagero; tambem no quero mal
a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior parte amor. A concluso 
que, por uma ou por outra porta, amor ou vaidade, o que o embryo quer
 entrar na vida. Cesar ou Joo Fernandes, tudo  viver, assegurar a
dynastia e sair do mundo o mais tarde que puder.

O casal ia calado. Ao desembocar na praia de Botafogo, a enseada trouxe
o gosto de costume. A casa descobria-se a distancia, magnifica; Santos
deleitou-se de a ver, mirou-se nella, cresceu com ella, subiu por ella.
A estatueta de Narciso no meio do jardim, sorriu  entrada delles,
a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo,
figurando no ar a alegria de ambos. A mesma ceremonia  descida. Santos
ainda parou alguns instantes para ver o _coup_ dar a volta, sair e
tornar  cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguo.




CAPITULO VII


Gestao


Em cima, esperava por elles Perpetua, aquella irm de Natividade, que a
acompanhou ao Castello, e l ficou no carro, onde as deixei para narrar
os antecedentes dos meninos.

--Ento? Houve muita gente?

--No, ninguem; pulgas.

Perpetua tambem no entendera a escolha da egreja. Quanto 
concurrencia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou nenhuma; mas o
cunhado vinha entrando, e ella calou o resto. Era pessoa circumspecta,
que no se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe
impossivel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar  mulher
um abrao longo e terno, abrochado por um beijo.

--Que  isso? exclamou espantada.

Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abrao  cunhada, e ia a
dar-lhe um beijo tambem, se ella no recuasse a tempo e com fora.

--Mas que  isso? Voc tirou a sorte grande de Hespanha?

--No, cousa melhor, gente nova.

Santos conservra alguns gestos e modos de dizer dos primeiros annos,
taes que o leitor no chamar propriamente familiares; tambem no 
preciso chamar-lhes nada. Perpetua, affeita a elles, acabou sorrindo e
dando-lhe parabens. J ento Natividade os deixra para se ir despir.
Santos, meio arrependido da expanso, fez-se serio e conversou da missa
e da egreja. Concordou que esta era decrepita e mettida a um canto,
mas allegou razes espirituaes. Que a orao era sempre orao, onde
quer que a alma falasse a Deus. Que a missa, a rigor, no precisava
estrictamente de altar; o rito e o padre bastavam ao sacrificio. Talvez
essas razes no fossem propriamente delle, mas ouvidas a alguem,
decoradas sem esforo e repetidas com convico. A cunhada opinou
de cabea que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram
piamente que era um asno;--no disseram este nome, mas a totalidade das
apreciaes vinha a dar nelle, accrescentado de honesto e honestissimo.

--Era uma perola, concluiu Santos.

Foi a ultima palavra da necrologia; paz aos mortos. Dalli em deante,
vingou a soberania da creana que alvorecia. No alteraram os habitos,
nos primeiros tempos, e as visitas e os bailes continuaram como
d'antes, at que pouco a pouco, Natividade se fechou totalmente em
casa. As amigas iam vel-a. Os amigos iam visital-os ou jogar cartas com
o marido.

Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava a sua
escolha com to boas razes, que acabavam trocando de parecer. Ento
ella ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores rendas e cambraias,
emquanto elle enfiava uma beca no joven advogado, dava-lhe um logar
no parlamento, outro no ministerio. tambem lhe ensinava a enriquecer
depressa; e ajudal-o-hia comeando por uma caderneta na Caixa
Economica, desde o dia em que nascesse at os vinte e um annos. Alguma
vez, s noites, se estavam ss, Santos pegava de um lapis e desenhava a
figura do filho, com bigodes,--ou ento riscava uma menina vaporosa.

--Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; voc sempre ha de ser
creana.

E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho
ou filha, e ambos escolhiam a cr dos olhos, os cabellos, a tez, a
estatura. Vs que tambem ella era creana. A maternidade tem dessas
incoherencias, a felicidade tambem, e porfim a esperana, que  a
meninice do mundo.

A perfeio seria nascer um casal. Assim os desejos do pae e da me
ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer sobre isso uma consulta
spirita. Comeava a ser iniciado nessa religio, e tinha a f novia e
firme. Mas a mulher oppoz-se; a consultar alguem, antes a cabocla do
Castello, a adivinha celebre do tempo, que descobria as cousas perdidas
e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambem, por desnecessario.
A que vinha consultar sobre uma duvida, que dalli a mezes estaria
esclarecida? Santos achou, em relao  cabocla, que seria imitar as
crendices da gente rles; mas a cunhada acudiu que no, e citou um
caso recente de pessoa distincta, um juiz municipal, cuja nomeao foi
annunciada pela cabocla.

--Talvez o ministro da justia goste da cabocla, explicou Santos.

As duas riram da graa, e assim se fechou uma vez o capitulo da
adivinha, pura se abrir muis tarde. Por agora  deixar que o feto se
desenvolva, a creana se agite e se atire, como impaciente de nascer.
Em verdade, a me padeceu muito durante a gestao, e principalmente
nas ultimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha
da vida, a no ser um casal que aprendia a desamar de vespera.




CAPITULO VIII


Nem casal, nem general


Nem casal, nem general. No dia sete de abril de 1870 veiu  luz um par
de vares to eguaes, que antes pareciam a sombra um do outro, se no
era simplesmente a impresso do olho, que via dobrado.

Tudo esperavam, menos os dous gemeos, e nem por ser o espanto grande,
foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir, assim
como se entende que a me dsse aos dous filhos aquelle po inteiro
e dividido do poeta; eu accrescento que o pae fazia a mesma cousa.
Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a comparal-os, a
medil-os, a pesal-os. Tinham o mesmo peso e cresciam por egual medida.
A mudana ia-se fazendo por um s teor. O rosto comprido, cabellos
castanhos, dedos finos e taes que, cruzados os da mo direita de um com
os da esquerda de outro, no se podia saber que eram de duas pessoas.
Viriam a ter genio differente, mas por ora eram os mesmos extranhes.
Comearam a sorrir no mesmo dia. O mesmo dia os viu baptizar.

Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pae ou da me,
segundo fosse o sexo da creana. Sendo um par de rapazes, e no havendo
a frma masculina do nome materno, no quiz o pae que figurasse s
o delle, e metteram-se a catar outros. A me propunha francezes ou
inglezes, conforme os romances que lia. Algumas novellas russas em moda
suggeriram nomes slavos. O pae acceitava uns e outros, mas consultava
a terceiros, e no acertava com opinio definitiva. Geralmente, os
consultados trariam outro nome, que no era acceito em casa. Tambem
veiu a antiga onomastica luzitana, mas sem melhor fortuna. Um dia,
estando Perpetua  missa, rezou o _Credo_, advertiu nas palavras:
....os santos apostolos S. Pedro e S. Paulo, e mal pde acabar a
orao. Tinha descoberto os nomes; eram simples e gemeos. Os paes
concordaram com ella e a pendencia acabou.

A alegria de Perpetua foi quasi tamanha como a do pae e da me, se
no maior. Maior no foi, nem to profunda, mas foi grande, ainda que
rapida. O achado dos nomes valia quasi que pela feitura das creanas.
Viuva, sem filhos, no se julgava incapaz de os ter, e era alguma
cousa nomeal-os. Contava mais cinco ou seis annos que a irm. Casara
com um tenente de artilharia que morreu capito na guerra do Paraguay.
Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrario de Natividade que,
sem ser magra, no tinha as mesmas carnes, e era alta e recta. Ambas
vendiam sade.

--Pedro e Paulo, disse Perpetua  irm e ao cunhado, quando rezei estes
dous nomes senti uma cousa no corao...

--Voc ser madrinha de um, disse a irm.

Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de cr, passaram a receber
medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com a de S.
Paulo. A confuso no cedeu logo, mas tarde, lento e pouco, ficando tal
semelhana que os advertidos se enganavam muita vez ou sempre. A me
 que no precisou de grandes signaes externos para saber quem eram
aquelles dous pedaos de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem
entre si, no deixavam de querer mal uma  outra, pelo motivo da
semelhana dos seus filhos de criao. Cada uma affirmava que o seu
era mais bonito. Natividade concordava com ambas.

Pedro seria medico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha das
profisses. Mas logo depois trocaram de carreira. Tambem pensaram em
dar um delles  engenharia. A marinha sorria  me, pela distinco
particular da escola. Tinha s o inconveniente da primeira viagem
remota; mas Natividade pensou em metter empenhos com o ministro. Santos
falava em fazer um delles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas
vadias. Intimos da casa entravam nos calculos. Houve quem os fizesse
ministros, dezembargadores, bispos, cardeaes...

--No peo tanto, dizia o pae.

Natividade no dizia nada ao p de extranhos, apenas sorria, como se
tratasse de folguedo de So Joo, um lanar de dados e ler no livro de
sortes a quadra correspondente ao numero. No importa; l dentro de si
cobiava algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava,
rezava s noites, pedia ao cu que os fizesse grandes homens.

Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquellas ancias e
conversas, perguntou a Natividade por que  que no ia consultar a
cabocla do Castello. Affirmou que ella adivinhava tudo, o que era e o
que viria a ser; conhecia o numero da sorte grande, no dizia qual era
nem comprava bilhete para no roubar os escolhidos de Nosso Senhor.
Parece que era mandada de Deus.

A outra ama confirmou as noticias e accrescentou novas. Conhecia
pessoas que tinham perdido e achado joias e escravos. A policia mesma,
quando no acabava de apanhar um criminoso, ia ao Castello falar 
cabocla e descia sabendo; por isso  que no a botava para fra, como
os invejosos andavam a pedir. Muita gente no embarcava sem subir
primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de
quebranto...

Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrana das amas. Santos
encolheu os hombros. Depois examinou rindo a sabedoria da cabocla;
principalmente a sorte grande era incrivel que, conhecendo o numero,
no comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais difficil
de explicar, mas podia ser inveno do povo. _On ne prte qu'aux
riches_, accrescentou rindo. O marido, que estivera na vespera com um
dezembargador, repetiu as palavras delle que emquanto a policia no
puzesse cbro ao escandalo... O dezembargador no concluira. Santos
concluiu com um gesto vago.

--Mas voc  spirita, ponderou a mulher.

--Perdo, no confundamos, replicou elle com gravidade.

Sim, podia consentir n'uma consulta spirita; j pensara nella. Algum
espirito podia dizer-lhe a verdade em vez de uma adivinha de fara...
Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade falavam della a
serio. No queria confessar ainda que tinha f, mas tinha. Recusando
ir outr'ora, foi naturalmente a insufficiencia do motivo que lhe deu
a fora negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o
destino dos dous era mais imperioso e util. Velhas ideias que lhe
incutiram em creana vinham agora emergindo do cerebro e descendo ao
corao. Imaginava ir com os pequenos ao morro do Castello, a titulo
de passeio... Para que? Para confirmal-a na esperana de que seriam
grandes homens. No lhe passara pela cabea a predico contraria.
Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o destino; mas a
leitora, alm de no crr (nem todos crem) pde ser que no conte mais
de vinte a vinte e dous annos de edade, e ter a paciencia de esperar.
Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia no ver a
grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambem se morre velha,
e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?

Ao sero, a materia da palestra foi a cabocla do Castello, por
iniciativa de Santos, que repetia as opinies da vespera e do jantar.
Das visitas algumas contavam o que ouviam della. Natividade no dormiu
aquella noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irm 
cabocla. No se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um
pouco dos cabellos. As amas no saberiam nada da aventura.

No dia aprazado metteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas
com pretexto de passeio, e l se fram para a rua da Misericordia.
Sabes j que alli se apearam, entre a egreja de S. Jos e a Camara dos
deputados, e subiram aquella at  rua do Carmo, onde esta pega com
a ladeira do Castello. Indo a subir, hesitaram, mas a me era me, e
j agora faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que
desceram, deram os dous mil reis s almas, entraram no carro e voltaram
para Botafogo.




CAPITULO IX


Vista de palacio


No Cattete, o _coup_ e uma victoria cruzaram-se e pararam a um tempo.
Um homem saltou da victoria e caminhou para o _coup._ Era o marido de
Natividade, que ia agora para o escriptorio, um pouco mais tarde que de
costume, por haver esperado a volta da mulher. Ia pensando nella e nos
negocios da praa, nos meninos e na lei Rio Branco, ento discutida na
Camara dos deputados; o banco era credor da lavoura. Tambem pensava na
cabocla do Castello e no que teria dito  mulher...

Ao passar pelo palacio Nova-Friburgo, levantou os olhos para elle com
o desejo do costume, uma cobia de possuil-o, sem prever os altos
destinos que o palacio viria a ter na Republica; mas quem ento previa
nada? Quem prev cousa nenhuma? Para Santos a questo era s possuil-o,
dar alli grandes festas unicas, celebradas nas gazetas, narradas na
cidade entre amigos e inimigos, cheios de admirao, de rancor ou de
inveja. No pensava nas saudades que as matronas futura contariam s
suas netas, menos ainda nos livros de chronicas, escriptos e impressos
neste outro seculo. Santos no tinha a imaginao da posteridade. Via o
presente e suas maravilhas.

J lhe no bastava o que era. A casa de Botafogo, posto que bella,
no era um palacio, e depois, no estava to exposta como aqui no
Cattete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia para as grandes
janellas, as grandes portas, as grandes aguias no alto, de azas
abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palacio, os
jardins e os lagos... Oh! goso infinito! Santos imaginava os bronzes,
marmores, luzes, flores, danas, carruagens, musicas, ceias... Tudo
isso foi pensado depressa, porque a victoria, embora no corresse (os
cavallos tinham ordem de moderar a andadura), todavia, no atrazava as
rodas para que os sonhos de Santos acabassem. Assim foi que, antes de
chegar  praa da Gloria, a victoria avistou o _coup_ da familia, e as
duas carragens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou dito.




CAPITULO X


O juramento


Tambem ficou dito que o marido saiu da victoria e caminhou para o
_coup_, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que elle vinha ter com
ellas, sorriam de ante-mo.

--No lhe digas nada, aconselhou Perpetua.

A cabea de Santos appareceu logo, com as suissas curtas, o cabello
rente, o bigode rapado. Era homem sympathico. Quieto, no ficava mal. A
agitao com que chegou, parou e falou tirou-lhe a gravidade com que ia
no carro, as mos postas sobre o casto de ouro da bengala, e a bengala
entre os joelhos.

--Ento? ento? perguntou.

--Logo digo.

--Mas que foi?

--Logo.

--Bem ou mal? Dize s se bem.

--Bem. Cousas futuras.

-- pessoa sria?

--Sria, sim; at logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.

Mas o marido no podia despegar-se do _coup_; queria saber alli mesmo
tudo, as perguntas e as respostas, a gente que l estava  espera, e se
era o mesmo destino para os dous, ou se cada um tinha o seu. Nada disso
foi escripto como aqui vae, devagar, para que a ruim letra do autor
no faa mal  sua prosa. No, senhor; as palavras de Santos sairam de
atropello, umas sobre outras, embrulhadas, sem principio ou sem fim.
A bella esposa tinha j as orelhas to affeitas ao falar do marido,
mrmente em lances de emoo ou curiosidade, que entendia tudo, e ia
dizendo que no. A cabea e o dedo sublinhavam a negativa. Santos no
teve remedio e despediu-se.

Em caminho, advertiu que, no crendo na cabocla, era ocioso instar pela
predico. Era mais; era dar razo  mulher. Prometteu no indagar nada
quando voltasse. No prometteu esquecer, e dahi a teima com que pensou
muitas vezes no oraculo. De resto, ellas lhe diriam tudo sem que elle
perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.

No concluas daqui que os freguezes do banco padecessem alguma
desatteno aos seus negocios. Tudo correu bem, como se elle no
tivesse mulher nem filhos ou no houvesse Castello nem cabocla. No
era s a mo que fazia o seu officio, assignando; a bca ia falando,
mandando, chamando e rindo, se era preciso. No obstante, a ancia
existia e as figuras passavam e repassavam deante delle; no intervallo
de duas letras, Santos resolvia uma cousa ou outra, se no eram ambas
a um tempo. Entrando no carro,  tarde, agarrou-se inteiramente ao
oraculo. Trazia as mos sobre o casto, a bengala entre os joelhos,
como de manh, mas vinha pensando os destino dos filhos.

Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos
nos beros, as amas ao p, um pouco admiradas da insistencia com que
ella os procurava desde manh. No era s fital-os, ou perder os olhos
no espao e no tempo; era beijal-os tambem e apertal-os ao corao.
Esqueceu-me dizer que, de manh, Perpetua mudou primeiro de roupa que a
irm e foi achal-a deante dos beros, vestida como viera do Castello.

--Logo vi que voc estava com os grandes homens, disse ella.

--Estou, mas no sei em que  que elles sero grandes.

--Seja em que fr, vamos almoar.

Ao almoo e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predico.
Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulao nos
olhos. Quiz calar e esperar, mas estava to anciosa de lhe dizer tudo,
e era to boa, que resolveu o contrario. Unicamente no teve o tempo
de cumpril-o; antes mesmo de comear, j elle acabava de perguntar o
que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto;
descreveu a cabocla e o pae.

--Mas ento grandes destinos?

--Cousas futuras, repetiu ella.

--Seguramente futuras. S a pergunta da briga  que no entendo. Brigar
porqu? E brigar como? E teriam deveras brigado?

Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestao,
confessando que no falou mais delles para o no affligir; naturalmente
 o que a outra adivinhou que fosse briga.

--Mas briga porqu?

--Isso no sei, nem creio que fosse nada mau.

--Vou consultar...

--Consultar a quem?

--Uma pessoa.

--J sei, o seu amigo Placido.

--Se fosse s amigo no consultava, mas elle  o meu chefe e mestre,
tem uma vista clara e comprida, dada pelo cu... Consulto s por
hypothese, no digo os nossos nomes...

--No! no! no!

--S por hypothese.

--No, Agostinho, no fale disto. No interrogue ninguem a meu
respeito, ouviu? Ande, prometta que no falar disto a ninguem,
spiritas nem amigos. O melhor  calar. Basta saber que tero sorte
feliz. Grandes homens, cousas futuras... Jure, Agostinho.

--Mas voc no foi em pessoa  cabocla?

--No me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, no me tornar a ver.
Ande, jure!

--Voc  exquisita. V l, prometto. Que tem que falasse, assim, por
acaso?

--No quero. Jure!

--Pois isto  cousa de juramento?

--Sem isso, no confio, disse ella sorrindo.

--Juro.

--Jure por Deus Nosso Senhor!

--Juro por Deus Nosso Senhor.




CAPITULO XI


Um caso unico!


Santos cria na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas emfim
cedeu e jurou. Entretanto, o pensamento no lhe saiu mais da briga
uterina dos filhos. Quiz esquecel-a. Jogou essa noite, como de
costume; na seguinte, foi ao theatro; na outra a uma visita; e tornou
ao voltarete do costume, e a briga sempre com elle. Era um mysterio.
Talvez fosse um caso unico... Unico! Um caso unico! A singularidade
do caso fel-o aggarrar-se mais  ideia, ou a ideia a elle; no posso
explicar melhor este phenomeno intimo, passado l onde no entra olho
de homem, nem bastam reflexes ou conjecturas. Nem por isso durou muito
tempo. No primeiro domingo, Santos pegou em si, e foi  casa do doutor
Placido, rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de trez janellas,
com muito terreno para o lado do mar. Creio que j no existe: datava
do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para differenar do Caminho
Novo.

Perdoa estas minucias. A aco podia ir sem ellas, mas eu quero que
saibas que casa era, e que rua, e mais digo que alli havia uma especie
de club, templo ou o que quer que era spirita. Placido fazia de
sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho
azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Pe-lhe uma vara
na mo, e fica um magico, mas, em verdade, as barbas e a camisola no
as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrario de Santos, que teria
trocado dez vezes a cara, se no fra a opposio da mulher, Placido
usava as barbas inteiras desde moo e a camisola ha dez annos.

--Venha, venha, disse elle, ande ajudar-me a converter o nosso amigo
Ayres; ha meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas
elle resiste.

--No, no, no resisto, acudiu um homem de cerca de quarenta annos,
estendendo a mo ao recem-chegado.




CAPITULO XII


Esse Ayres


Esse Ayres que ahi apparece conserva ainda agora algumas das virtudes
d'aquelle tempo, e quasi nenhum vicio. No attribuas tal estado a
qualquer proposito. Nem creias que vae nisto um pouco de homenagem 
modestia da pessoa. No, senhor,  verdade pura e natural effeito.
Apesar dos quarenta annos, ou quarenta e dous, e talvez por isso mesmo,
era um bello typo de homem. Diplomata de carreira, chegra dias antes
do Pacifico, com uma licena de seis mezes.

No me demoro em descrevel-o. Imagina s que trazia o callo do officio,
o sorriso approvador, a fala branda e cautelosa, o ar da occasio, a
expresso adequada, tudo to bem distribuido que era um gosto ouvil-o
e vel-o. Talvez a pelle da cara rapada estivesse prestes a mostrar os
primeiros signaes do tempo. Ainda assim o bigode, que era moo na cr e
no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura
ao rosto, quando o meio seculo chegasse. O mesmo faria o cabello,
vagamente grisalho, apartado ao centro. No alto da cabea havia um
inicio de calva. Na botoeira uma flor eterna.

Tempo houve,--foi por occasio da anterior licena, sendo elle apenas
secretario de legao,--tempo houve em que tambem elle gostou de
Nativividade. No foi propriamente paixo; no era homem disso. Gostou
della, como de outras joias e raridades, mas to depressa viu que
no era acceito, trocou de conversao. No era frouxido ou frieza.
Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questo para
elle  que nem as queria  fora, nem curava de as persuadir. No era
general para escala  vista, nem para assedios demorados; contentava-se
de simples passeios militares,--longos ou breves, conforme o tempo
fosse claro ou turvo. Em summa, extremamente cordato.

Coincidencia interessante; foi por esse tempo que Santos pensou em
casal-o com a cunhada, recentemente viuva. Esta parece que queria.
Natividade oppoz se, nunca se soube porqu. No eram ciumes; invejas
no creio que fossem. O simples desejo de o no ver entrar na familia
pela porta lateral  apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras
hypotheses negadas. O desgosto de cedel-o a outra, ou tel-os felizes ao
p de si, no podia ser, posto que o corao seja o abysmo dos abysmos.
Supponhamos que era com o fim de o punir por havel-a amado.

Pde ser; em todo caso, o maior obstaculo viria delle mesmo. Posto que
viuvo, Ayres no foi propriamente casado. No amava o casamento. Casou
por necessidade do officio; cuidou que era melhor ser diplomata casado
que solteiro, e pediu a primeira moa que lhe pareceu adequada ao seu
destino. Enganou-se: a differena de temperamento e de espirito era tal
que elle, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse s. No se
affligiu com a perda; tinha o feitio do solteiro.

Era cordato, repito, embora esta palavra no exprima exactamente o
que quero dizer. Tinha o corao disposto a acceitar tudo, no por
inclinao  harmonia, seno por tedio  controversia. Para conhecer
esta averso, bastava tel-o visto entrar, antes, em visita ao casal
Santos. Pessoas de fra e da familia conversavam da cabocla do Castello.

--Chega a proposito, conselheiro, disse Perpetua. Que pensa o senhor da
cabocla do Castello?

Ayres no pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam alguma
cousa, e fez um gesto de dous sexos. Como insistissem, no escolheu
nenhuma das duas opinies, achou outra, media, que contentou a
ambos os lados, cousa rara em opinies medias. Sabes que o destino
dellas  serem desdenhadas. Mas este Ayres,--Jos da Costa Marcondes
Ayres,--tinha que nas controversias uma opinio dubia ou media pde
trazer a opportunidade de uma pilula, e compunha as suas de tal geito,
que o enfermo, se no sarava, no morria, e  o mais que fazem pilulas.
No lhe queiras mal por isso; a droga amarga engole-se com assucar.
Ayres opinou com pausa, delicadeza, circumloquios, limpando o monoculo
ao leno de seda, pingando as palavras graves e obscuras, fitando os
olhos no ar, como quem busca uma lembrana, e achava a lembrana, e
arredondava com ella o parecer. Um dos ouvintes acceitou-o logo, outro
divergiu um pouco e acabou de accordo, assim terceiro, e quarto, e a
sala toda.

No cuides que no era sincero, era-o. Quando no acertava de ter a
mesma opinio, e valia a pena escrever a sua, escrevia-a. Usava tambem
guardar por escripto as descobertas, observaes, reflexes, criticas e
anecdotas, tendo para isso uma serie de cadernos, a que dava o nome de
_Memorial._ Naquella noite escreveu estas linhas:

Noite em casa da familia Santos, sem voltarete. Falou-se na cabocla do
Castello. Desconfio que Natividade ou a irm quer consultal-a; no ser
de certo a meu respeito.

Natividade e um padre Guedes que l estava, gordo e maduro, eram as
unicas pessoas interessantes da noite. O resto insipido, mas insipido
por necessidade, no podendo ser outra cousa mais que insipido. Quando
o padre e Natividade me deixavam entregue a insipidez dos outros,
eu tentava fugir-lhe pela memoria, recordando sensaes, revivendo
quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi
hoje pelas costas, na rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel
de D. Pedro, l vo annos. Era danarina; eu mesmo j a tinha visto
danar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o p esquerdo saia-lhe do
sapato e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade.

Afinal tornei  eterna insipidez dos outros. No acabo de crr como 
que esta senhora, alis to fina, pde organisar noites como a de hoje.
No  que os outros no buscassem ser interessantes, e, se intenes
valessem, nenhum livro os valeria; mas no o eram, por mais que
tentassem. Emfim, l vo; esperemos outras noites que tragam melhores
sujeitos sem esforo algum. O que o bero d s a cova o tira, diz um
velho adagio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever
de taes insipidos:

      Dico, che quando l'anima mal nata...




CAPITULO XIII


A epigraphe


Ora, alli est justamente a epigraphe do livro, se eu lhe quizesse pr
alguma, e no me occorresse outra. No  smente um meio de completar
as pessoas da narrao com as ideias que deixarem, mas ainda um par de
lunetas para que o leitor do livro penetre o que fr menos claro ou
totalmente escuro.

Por outro lado, ha proveito em irem as pessoas da minha historia
collaborando nella, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade,
especie de troca de servios, entre o enxadrista e os seus trebelhos.

Se acceitas a comparao, distinguirs o rei e a dama, o bispo e o
cavallo, sem que o cavallo possa fazer de torre, nem a torre de pio.
Ha ainda a differena da cr, branca e preta, mas esta no tira o
poder da marcha de cada pea, e afinal umas e outras podem ganhar a
partida, e assim vae o mundo. Talvez conviesse pr aqui, de quando
em quando, como nas publicaes do jogo, um diagramma das posies
bellas ou difficeis. No havendo taboleiro,  um grande auxilio este
processo para acompanhar os lances, mas tambem pde ser que tenhas
viso bastante para reproduzir na memoria as situaes diversas. Creio
que sim. Fra com diagrammas! Tudo ir como se realmente visses jogar a
partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo.




CAPITULO XIV


A lico do discipulo


--Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a mo ao diplomata.
Aprenda as verdades eternas.

--Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando o
relogio.

Um tal Ayres no era facil de convencer. Placido falou-lhe de leis
scientificas para excluir qualquer macula de seita, e Santos foi
com elle. Toda a terminologia spirita saiu fra, e mais os casos,
phenomenos, mysterios, testemunhos, attestados verbaes e escriptos...
Santos acudiu com um exemplo: dous espiritos podiam tornar juntos a
este mundo; e, se brigassem antes de nascer?

--Antes de nascer, creanas no brigam, replicou Ayres, temperando o
sentido affirmativo com a intonao dubitativa.

--Ento nega que dous espiritos...? Essa c me fica, conselheiro! Pois
que impede que dous espiritos?...

Ayres viu o abysmo da controversia, e forrou- se  vertigem por uma
concesso, dizendo:

--Esa e Jacob brigaram no seio materno, isso  verdade. Conhece-se a
causa do conflicto. Quanto a outros, dado que briguem tambem, tudo est
em saber a causa do conflicto, e no a sabendo, porque a Providencia
a esconde da noticia humana... Se fosse uma causa espiritual, por
exemplo...

--Por exemplo?

--Por exemplo, se as duas creanas quizerem ajoelhar-se ao mesmo tempo
para adorar o Creador. Ahi est um caso de conflicto, mas de conflicto
espiritual, cujos processos escapam  sagacidade humana. Tambem poderia
ser um motivo temporal. Supponhamos a necessidade de se acotovellarem
para ficar melhor accommodados;  uma hypothese que a sciencia
acceitaria; isto , no sei... Ha ainda o caso de quererem ambos a
primogenitura.

--Para que? perguntou Placido.

--Com quanto este privilegio esteja hoje limitado s familias regias,
 camara dos Iords e no sei se mais, tem todavia um valor symbolico.
O simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou
politica, pde dar-se por instincto, principalmente se as creanas se
destinarem a galgar os altos deste mundo.

Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das cousas futuras.
Ayres disse ainda algumas palavras bonitas, e accrescentou outras
feias, admittindo que a briga podia ser prenuncio de graves conflictos
na terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:

--No importa; no esqueamos o que dizia um antigo, que a guerra  a
me de todas as cousas. Nia minha opinio, Empedocles, referindo-se
 guerra, no o fez s no sentido technico. O amor, que  a primeira
das artes da paz, pde-se dizer que  um duello, no de morte, mas de
vida,--concluiu Ayres sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.




CAPITULO XV


_Teste David cum Sibylla_


--E ento? disse Santos. No  que o conselheiro, em vez de aprender,
ensina-nos? Eu acho que elle deu algumas razes boas.

--Quando menos, plausiveis, completou mestre Placido.

--Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o
meu caso  com o senhor. Venho consultal-o, e as suas luzes so as
verdadeiras do mundo.

Placido agradeceu sorrindo. No era novo o elogio, ao contrario; mas
elle estava to acostumado a ouvil-o que o sorriso era j agora um
sestro. No podia deixar de pagar com essa moeda aos seus discipulos.

--Trata-se...

--Trata-se disto. Aquella hypothese que eu formulei  um facto real;
succedeu com os meus filhos...

--Como?

-- o que me parece, e vim justamente para que me explique. Nunca lhe
falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado, e suspeito que
tal briga se deu, e que  um caso extraordinario.

Santos expoz ento a consulta, gravemente, com um gesto particular que
tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade. No esqueceu nem
escondeu nada; contou a propria ida da mulher ao Castello, com desdem,
 verdade, mas ponto por ponto. Placido ouvia attento, perguntando,
voltando atraz, e acabou por meditar alguns minutos. Emfim, declarou
que o phenomeno, caso se houvesse dado, era raro, se no unico, mas
possivel. J o facto de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma
rivalidade, porque esses dous apostolos brigaram tambem.

--Perdo, mas o baptismo...

--Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados,
tanto mais que a escolha dos nomes veiu, como o senhor me disse, por
inspirao  tia dos meninos.

--Justamente.

--D. Perpetua  muito devota.

--Muito.

--Creio que os proprios espiritos de S. Pedro e S. Paulo houvessem
escolhido aquella senhora para inspirar os nomes que esto no Credo;
advirta que ella reza muitas vezes o Credo, mas foi naquella occasio
que se lembrou delles.

--Exacto, exacto!

O doutor foi  estante e tirou uma Biblia, encadernada em couro, com
grandes fechos de metal. Abriu a Epistola de S. Paulo _aos Galatas_, e
leu a passagem do capitulo II, versculo 11, em que o apostolo conta
que, indo a Antiochia, onde estava S. Pedro, resistiu-lhe na cara.

Santos leu e teve uma ideia. As ideias querem-se festejadas, quando
so bellas, e examinadas, quando novas; a delle era a um tempo nova e
bella. Deslumbrado, ergueu a mo e deu uma palmada na folha, bradando:

--Sem contar que este numero _onze_ do versiculo, composto de dous
algarismos eguaes, 1 e 1,  um numero gemeo, no lhe parece?

--Justamente. E mais: o capitulo  o segundo, isto , dous, que  o
proprio numero dos irmos gemeos.

Mysterio engendra mysterio. Havia mais de um elo intimo, substancial,
escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmos gemeos,
numeros gemeos, tudo eram aguas de mysterio que elles agora rasgavam,
nadando e bracejando com fora. Santos foi mais ao fundo; no seriam
os dous meninos os proprios espiritos de S. Pedro e de S. Paulo, que
renasciam agora, e elle, pae dos dous apostolos?... A f transfigura;
Santos tinha um ar quasi divino, trepou em si mesmo, e os olhos
ordinariamente sem expresso, pareciam entornar a chamma da vida. Pae
de apostolos! e que apostolos! Placido esteve quasi, quasi a crr
tambem, achava-se dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes
do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os espiritos de S.
Pedro e S. Paulo tinham chegado  perfeio; no tornariam c. No
importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser
brilhantes; tinha razo a cabocla, sem saber o que dizia.

--Deixe s senhoras as suas crenas da meninice, concluiu; se ellas tem
f na tal mulher do Castello, e acham que  um vehiculo de verdade,
no as desminta por ora. Diga-lhes que eu estou de accordo com o seu
oraculo. _Teste David cum Sibylla._

--Digo, digo! escreva a phrase.

Placido foi  secretaria, escreveu o verso, e deu-lhe o papel, mas j
ento Santos advertira que mostral-o  mulher era confessar a consulta
spirita, e naturalmente o perjurio. Referiu ao amigo os escrupulos de
Natividade e pediu que calassem tudo.

--Estando com ella, no lhe diga o que se passou entre ns.

Saiu logo depois, arrependido da indiscrio, mas deslumbrado da
revelao. Ia cheio de numeros da Escriptura, de Pedro e Paulo, de Esa
e Jacob. O ar da rua no espanou a poeira do mysterio; ao contrario,
o cu azul, a praia socegada, os montes verdes como que o cercavam e
cobriam de um veu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos,
facto raro ou unico, era uma distinco divina. Contrariamente 
esposa, que cuidava smente da grandeza futura dos filhos, Santos
pensava no conflicto passado.

Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com to estranha
expresso, que a me desconfiou alguma cousa, e quiz saber o que era.

--No  nada, respondeu elle rindo.

-- alguma cousa, anda, acaba.

--Que ha de ser?

--Seja o que fr, Agostinho, acaba.

Santos pediu-lhe que se no zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa,
a Escriptura, os apostolos, o symbolo, tudo to espalhadamente, que
ella mal pde entender, mas entendeu ao final, e replicou com os dentes
cerrados:

--Ah! voc! voc!

--Perdoa, amiguinha; estava to ancioso de saber a verdade... E nota
que eu creio na cabocla, e o doutor tambem; elle at me escreveu isto
em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho: _Teste David cum
Sibylla._




CAPITULO XVI


Paternalismo


D'ahi a pouco, Santos pegou na mo da mulher, que a deixou ir  toa,
sem apertar a delle; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga
para s ficarem paes.

J no era spiritismo, nem outra religio nova; era a mais velha de
todas, fundada por Ado e Eva,  qual chama, se queres, paternalismo.
Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma especie de
ceremonia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual delles
era o padre, qual o sacristo, no sei, nem  preciso. A missa  que
era a mesma, e o evangelho comeava como o de S. Joo (emendado): No
principio era o amor, e o amor se fez carne. Mas venhamos aos nossos
gemeos.




CAPITULO XVII


Tudo o que restrinjo


Os gemeos, no tendo que fazer, iam mamando. Nesse officio portavam-se
sem rivalidade, a no ser quando as amas estavam s boas, e elles
mamavam ao p um do outro; cada qual ento parecia querer mostrar que
mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e chupando
com alma. Ellas,  sua parte tinham gloria dos peitos e os comparavam
entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para
ellas.

Se no fosse a necessidade de pr os meninos em p, crescidos e homens,
espraiava este capitulo. Realmente, o espectaculo, posto que commum,
era bello. Os peraltas nutriam-se ao contrario dos paes, sem as artes
do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas postas em
crystaes e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de
comer. A elles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito no
deixava apparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso
ou pelo somno. Quando era o somno, cada uma levava o seu menino ao
bero, e ia cuidar de outra cousa. Este cotejo dar-me-ia trez ou quatro
paginas solidas.

Uma pagina bastava para os chocalhos que embellezavam os pequenos,
como se fosse a propria musica do cu. Elles sorriam, estendiam as
mos, alguma vez zangavam-se com as negaas, mas tanto que lh'os davam,
calavam-se, e se no podiam tocar no se zangavam por isso. A proposito
de chocalhos, diria que esses instrumentos no deixam memoria de si;
alguem que os veja em mos de creanas, se parecer que lhe lembram os
seus, cae logo no engano, e adverte que a recordao ha de ser mais
recente, alguma arenga do anno passado, se no foi a vacca de leite da
vespera.

A operao de desmamar podia fazer-se em meia linha, mas as lstimas
das amas, as despedidas, as bichas de ouro que a me deu a cada uma
dellas, como um presente final, tudo isso exigia uma boa pagina ou
mais. Poucas linhas bastariam para as amas seccas, porquanto no diria
se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do
officio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavallinhos de
pau, bandeirolas, theatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a
quinquilharia da infancia occuparia muito mais que o logar de seus
nomes.

Tudo isso restrinjo s para no enfadar a leitora curiosa de ver os
meus meninos homens e acabados. Vamos vel-os, querida. Com pouco, esto
crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si mesmos; elles que abram a
ferro ou lingua, ou simples cotovellos, o caminho da vida e do mundo.




CAPITULO XVIII


De como vieram crescendo


Eil -os que vem crescendo. A semelhana, sem os confundir j,
continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e attentos, a mesma
bca cheia de graa, as mos finas, e uma cr viva nas faces que as
fazia crr pintadas de sangue. Eram sadios; exceptuada a crise dos
dentes, no tiveram molestia alguma, porque eu no conto uma ou outra
indigesto de doces, que os paes lhes davam, ou elles tiravam s
escondidas. Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que
ninguem.

Aos sete annos eram duas obras-primas, ou antes uma s em dous volumes,
como quizeres. Em verdade, no havia por toda aquella praia, nem por
Flamengos ou Glorias, Cajus e outras redondezas, no havia uma, quanto
mais duas creanas to graciosas. Nota que eram tambem robustos. Pedro
com um murro derrubava Paulo; em compensao, Paulo com um ponta-p
deitava Pedro ao cho. Corriam muito na chacara por aposta. Alguma vez
quizeram trepar s arvores, mas a me no consentia; no era bonito.
Contentavam-se de espiar c de baixo a fructa.

Paulo era mais aggressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos
acabavam por comer a fructa das arvores, era um moleque que a ia buscar
acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro. A promessa no
se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se sempre,
e s vezes com repetio depois do servio. No digo com isto que um
e outro dos gemeos no soubessem aggredir e dissimular; a differena
 que cada um sabia melhor o seu gosto, cousa to obvia que custa
escrever.

Obedeciam aos paes sem grande esforo, posto fossem teimosos. Nem
mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira 
alguma vez meia virtude. Assim  que, quando elles disseram no ter
visto furtar um relogio da me, presente do pae, quando eram noivos,
mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por
elles em plena aco de furto. Mas era to amiga delles! e com taes
lagrimas lhes pediu que no dissessem a ninguem, que os gemeos negaram
absolutamente ter visto nada. Contavam sete annos. Aos nove, quando j
a moa ia longe,  que descobriram, no sei a que proposito, o caso
escondido. A me quiz saber porque  que elles calaram outrora; no
souberam explicar-se, mas  claro que o silencio de 1878 foi obra da
affeio e da piedade, e dahi a meia-virtude, porque  alguma cousa
pagar amor com amor. Quanto  revelao de 1880 s se pde explicar
pela distancia do tempo. J no estava presente a boa Miquelina; talvez
ja estivesse morta. Demais, veiu to naturalmente a referencia...

--Mas, porque  que vocs at agora no me disseram? teimava a me.

No sabendo mais que razo dssem, um delles, creio que Pedro, resolveu
accusar o irmo:

--Foi elle, mame!

--Eu? redarguiu Paulo. Foi elle, mame, elle  que no disse nada.

--Foi voc!

--Foi voc! no minta!

--Mentiroso  elle!

Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, no tanto
que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhes os braos a
tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar ou ameaar, beijou-os
com tamanha ternura que elles no acharam melhor occasio de lhe pedir
doce. Tiveram doce; tiveram tambem um passeio,  tarde, no carrinho do
pae.

Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram  me o passeio, a
gente da rua, as outras creanas que olhavam para elles com inveja, uma
que mettia o dedo na bca, outro no nariz, e as moas que estavam s
janellas, algumas que os acharam bonitos. Neste ultimo ponto divergiam,
porque cada um delles tomava para si s as admiraes; mas a me
interveiu:

--Foi para ambos. Vocs so to parecidos, que no podia ser seno para
ambos. E sabem porque  que as moas elogiaram vocs? Foi por ver que
iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos no brigam, ainda
menos sendo irmos. Quero vel-os quietos e amigos, brincando juntos sem
rusga nem nada. Esto entendendo?

Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a me repetisse a pergunta,
e deu egual resposta. Emfim, porque esta mandasse, abraaram-se, mas
foi um abraar sem gosto, sem fora, quasi sem braos; encostaram-se um
ao outro, estenderam as mos s costas do irmo, e deixaram-n'as cair.

De noite, na alcova, cada um delles concluiu para si que devia os
obsequios daquella tarde, o doce, os beijos e o carro,  briga que
tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem palavras,
como um romance ao piano, resolveram ir  cara um do outro, na primeira
occasio. Isto que devia ser um lao armado  ternura da me, trouxe
ao corao de ambos uma sensao particular, que no era s consolo e
desforra do socco recebido naquelle dia, mas tambem satisfao de um
desejo intimo, profundo, necessario. Sem odio, disseram ainda algumas
palavras de cama a cama, riram de uma ou outra lembrana da rua, ate
que o somno entrou com os seus ps de l e bico calado, e tomou conta
da alcova inteira.




CAPITULO XIX


Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa


Um dos meus proposrtos neste livro  no lhe pr lagrimas. Entretanto,
no posso calar as duas que rebentaram certa vez dos olhos de
Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas duas, e fram
morrer-lhe aos cantos da bca. To depressa as verteu como as engoliu,
renovando s avessas e por palavras mudas o fecho daquellas historias
de creanas: entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei
nosso senhor que nos conte outra. E a segunda creana contava segunda
historia, a terceira terceira, a quarta quarta, at que vinha o
fastio ou o somno. Pessoas que datam do tempo em que se contavam taes
historias affirmam que creanas no punham naquella formula nenhuma
monarchica, fosse absoluta, fosse constitucional; era um modo de ligar
o seu _Decameron_ dellas, herdado do velho reino portuguez, quando os
reis mandavam o que queriam, e a nao dizia que era muito bem.

Engolidas as duas lagrimas, Natividade riu da propria fraqueza. No
se chamou tola, porque esses desabafos raramente se usam, ainda em
particular; mas no secreto do corao, l muito ao fundo, onde no
penetra olho de homem, creio que sentiu alguma cousa parecida com isso.
No tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dona.

Em verdade, qualquer outra viveria a tremer pela sorte dos filhos,
uma vez que houvera a rixa anterior e interior. Agora as lutas eram
mais frequentes, as mos cada vez mais aptas, e tudo fazia receiar que
elles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a ideia da
grandeza e da prosperidade,--cousas futuras!--e esta esperana era como
um leno que enxugasse os olhos da bella senhora. As Sibyllas no tero
dito s do mal, nem os Prophetas, mas ainda do bem, e principalmente
delle.

Com esse leno verde enxugou ella os olhos, e teria outros lenos,
se aquelle ficasse roto ou enxovalhado; um, por exemplo, no verde
como a esperana, mas azul, como a alma della. Ainda lhes no disse
que a alma de Natividade era azul. Ahi fica. Um azul celeste, claro e
transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a
noite escurecia.

No, leitor, no me esqueceu a edade da nossa amiga; lembra-me como se
fosse hoje. Chegou assim aos quarenta annos. No importa; o cu  mais
velho e no trocou de cr. Uma vez que lhe no attribuas ao azul da
alma nenhuma significao romantica, ests na conta. Quando muito, no
dia em que perfez aquella edade, a nossa dona sentiu um calefrio. Que
passra? Nada, um dia mais que na vespera, algumas horas apenas. Toda
uma questo de numero, menos que numero, o nome do numero, esta palavra
_quarenta_, eis o mal unico. Dahi a melancolia com que ella disse ao
marido, agradecendo o mimo do anniversario: Estou velha, Agostinho!
Santos quiz esganal-a brincando.

Pois faria mal se a esganasse. Natividade ainda tinha as frmas do
tempo anterior  concepo, a mesma flexibilidade, a mesma graa miuda
e viva. Conservava o donaire dos trinta. A costureira punha em relevo
todos os pensamentos restantes da figura, e ainda lhe emprestava alguns
do seu bolsinho. A cintura teimava em no querer engrossar, e os
quadris e o collo eram do mesmo estofador antigo.

Ha dessas regies em que o vero se confunde com o outono, como se d
na nossa terra, onde as duas estaes s differem pela temperatura.
Nella nem pela temperatura. Maio tinha o calor de janeiro. Ella, aos
quarenta annos, era a mesma senhora verde, com a mesmissima alma azul.

Esta cr vinha-lhe do pae e do av, mas o pae morreu cedo, antes do
av, que chegara aos oitenta e quatro. Nessa edade cria sinceramente
que todas as delicias deste mundo, desde o caf de manh at os somnos
socegados haviam sido inventados smente para elle. O melhor cozinheiro
da terra nascera na China, para o unico fim de deixar familia, patria,
lingua, religio, tudo, e vir assar-lhe as costelletas e fazer-lhe o
ch. As estrellas davam s _suas_ noites una aspecto esplendido, o luar
tambem, e a chuva, se chovia, era para que elle descanasse do sol. L
est agora no cemiterio de S. Francisco Xavier; se alguem pudesse ouvir
a voz dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a delle, bradando que
 tempo de fechar a porta ao cemiterio e no deixar entrar ninguem, uma
vez que elle j l descana para todo sempre. Morreu azul; se chegasse
aos cem annos, nao teria outra cr.

Ora, se a natureza queria poupar esta senhora, a riqueza dava a mo 
natureza, e de uma e de outra saa a mais bella cr que alma de gente
pde ter. Tudo concorria assim para lhe seccarem os olhos depressa,
como vimos atraz. Se ella bebeu aquellas duas lagrimas solitarias,
pudera ter bebido outras pela edade adeante, e isto  ainda uma
prova daquelle matiz espiritual; mostrar assim que as tem poucas, e
engole-as para poupal-as.

Mas ha ainda uma terceira causa que dava a esta senhora o sentimento da
cr azul, causa to particular que merecia ir em capitulo seu, mas no
vae, por economia. Era a iseno, era o ter atravessado a vida intacta
e pura. O cabo das Tormentas converteu-se em cabo da Boa Esperana,
e ella venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos lhe
derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. No negaria que alguma
lufada mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso
de Joo de Mello, ou ainda peor, no de Ayres, mas fram bocejos de
Adamastor. Concertou a vela depressa e o gigante ficou atraz cercado de
Thetis, emquanto ella seguiu o caminho da India. Agora lembrava-se da
viagem prospera. Honrava-se dos ventos inuteis e perdidos. A memoria
trazia-lhe o sabor do perigo passado. Eis aqui a terra encoberta, os
dous filhos nados, criados e amados da fortuna.




CAPITULO XX


A joia


Os quarenta e um annos no lhe trouxeram arrepio. J estava acostumada
 casa dos quarenta. Sentiu sim, um grande espanto; acordou e no viu o
presente do costume, a sorpreza do marido ao p da cama. No a achou
no toucador; abriu gavetas, espiou, nada. Creu que o marido esquecera
a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando; nada. No
gabinete estava o marido, calado, mettido comsigo, a ler jornaes, mal
lhe estendeu a mo. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um
canto; vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A me
ainda relanceou os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um
painel, um vestido, foi tudo vo. Embaixo de uma das folhas do dia que
estava na cadeira fronteira  do marido podia ser que... Nada. Ento
sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo comsigo: Ser possivel que
no se lembre do dia de hoje? Ser possivel? Os olhos entraram a ler 
toa, saltando as noticias, tornando atraz...

Defronte o marido espreitava a mulher, sem absolutamente importar-lhe o
que parecia ler. Assim se passaram alguns minutos. De repente, Santos
viu uma expresso nova no rosto de Natividade; os olhos della pareciam
crescer, a bca entre-abriu-se, a cabea ergueu-se, a delle tambem,
ambos deixaram a cadeira, deram dous passos e cairam nos braos um do
outro, como dous namorados desesperados de amor. Um, dous, trez, muitos
beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de p. O pae,
quando pde falar, disse-lhes:

--Venham beijar a mo da senhora baroneza de Santos.

No entenderam logo. Natividade no sabia que fizesse; dava a mo aos
filhos, ao marido, e tornava ao jornal para ler e reler que no despacho
imperial da vespera o Sr. Agostinho Jos dos Santos fra agraciado com
o titulo de Baro de Santos. Comprehendeu tudo. O presente do dia era
aquelle; o ourives desta vez foi o imperador.

--Vo, vo, agora podem ir brincar, disse o pae aos filhos.

E os rapazes sairam a espalhar a noticia pela casa. Os criados ficaram
felizes com a mudana dos amos. Os proprios escravos pareciam receber
uma parcella de liberdade e condecoravam-se com ella: Nh Baroneza!
exclamavam saltando. E Joo puxava Maria, batendo castanholas com os
dedos: Gente, quem  esta creoula? Sou escrava de Nh Baroneza!

Mas o imperador no foi o unico ourives. Santos tirou do bolso uma
caixinha, com um broche em que a cora nova rutilava de brilhantes.
Natividade agradeceu-lhe a joia e consentiu em pol-a, para que o marido
a visse. Santos sentia-se autor da joia, inventor da frma e das
pedras; mas deixou logo que ella a tirasse e guardasse, e pegou das
gazetas, para lhe mostrar que em todas vinha a noticia, algumas com
adjectivo, _conceituado_ aqui, alli _distincto_, etc.

Quando Perpetua entrou no gabinete, achou-os andando de um lado para
outro, com os braos passados pela cintura, conversando, calando,
mirando os ps. Tambem ella deu e recebeu abraos.

Toda a casa estava alegre. Na chacara as arvores pareciam mais verdes
que nunca, os botes do jardim explicavam as folhas, e o sol cobria a
terra de uma claridade infinita. O cu, para collaborar com o resto,
ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir cartes e cartas
de parabens. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do commercio,
homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambem, vieram
ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram
continuar o esquecimento. Nomes houve que elles s puderam reconhecer 
fora de grande pesquiza e muito almanaque.




CAPITULO XXI


Um ponto escuro


Sei que ha um ponto escuro no capitulo que passou; escrevo este para
esclarecel-o.

Quando a esposa inquiriu dos antecendentes e circumstancias do
despacho, Santos deu as explicaes pedidas. Nem todas seriam
estrictamente exactas; o tempo  um rato roedor das cousas, que as
diminue ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a
materia era to propicia ao alvoroo que facilmente traria confuso 
memoria. Ha, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se
perdem, outros que a imaginao inventa para supprir os perdidos, e nem
por isso a historia morre.

Resta saber ( o ponto escuro) como  que Santos pde calar por longos
dias um negocio to importante para elle e para a esposa. Em verdade,
esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por gesto, se achasse
algum, aquelle segredo de poucos; mas, sempre havia uma fora maior que
lhe tapava a bca. Ao que parece, foi a expectao de uma alegria nova
e inesperada que lhe deu a alma de pacientar.

Naquella scena do gabinete tudo foi composto de antemo, o silencio,
a indifferena, os filhos que elle poz alli, estudando ao domingo,
s para o effeito daquella phrase: Venham beijar a mo da senhora
baroneza de Santos!




CAPITULO XXII


Agora um salto


Que os dous gemeos participassem da lua de mel nobiliaria dos paes
no  cousa que se precise escrever. O amor que lhes tinham bastava
a explical-o, mas accresce que, havendo o titulo produzido em outros
meninos dous sentimentos oppostos, um de estima, outro de inveja, Pedro
e Paulo concluiram ter recebido com elle um merito especial. Quando,
mais tarde, Paulo adoptou a opinio republicana nunca envolveu aquella
distinco da familia na condemnao das instituies. Os estados de
alma que daqui nasceram davam materia a um capitulo especial, se eu no
preferisse agora um salto, e ir a 1886. O salto  grande, mas o tempo 
um tecido invisivel em que se pde bordar tudo, uma flor, um passaro,
uma dama, um castello, um tumulo. Tambem se pde bordar nada. Nada em
cima de invisivel  a mais subtil obra deste mundo, e acaso do outro.




CAPITULO XXIII


Quando tiverem barbas


Naquelle anno, uma noite de agosto, como estivessem algumas pessoas na
casa de Botafogo, succedeu que uma dellas, no sei se homem ou mulher,
perguntou aos dous irmos que edade tinham.

Paulo respondeu:

--Nasci no anniversario do dia em que Pedro I caiu do throno.

E Pedro:

--Nasci no anniversario do dia em que Sua Majestade subiu ao throno.

As respostas foram simultaneas, no successivas, tanto que a pessoa
pediu-lhes que falasse cada um por sua vez. A me explicou:

--Nasceram no dia 7 de Abril de 1870.

Pedro repetiu vagarosamente:

--Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao throno.

E Paulo, em seguida:

--Nasci no dia em que Pedro I caiu do throno.

Natividade reprehendeu a Paulo a sua resposta subversiva. Paulo
explicou-se, Pedro contestou a explicao e deu outra, e a sala viraria
club, se a me no os accommodasse por esta maneira:

--Isto ho de ser grupos de collegio; vocs no esto em edade de falar
em politica. Quando tiverem barbas.

As barbas no queriam vir, por mais que elles chamassem o buo com
os dedos, mas as opinies politicas e outras vinham e cresciam. No
eram propriamente opinies, no tinham raizes grandes nem pequenas.
Eram (mal comparando) gravatas de cr particular, que elles atavam
ao pescoo,  espera que a cr canasse e viesse outra. Naturalmente
cada um tinha a sua. Tambem se pde crr que a de cada um era, mais
ou menos, adequada  pessoa. Como recebiam as mesmas approvaes e
distinces nos exames, faltava-lhes materia a invejas; e, se a ambio
os dividisse algum dia, no era por ora aguia nem condor, ou sequer
filhote; quando muito, um ovo. No collegio de Pedro II todos lhes
queriam bem.

As barbas  que no queriam vir. Que  que se lhes ha de fazer quando
as barbas no querem vir? Esperar que venham por seu p, que appaream,
que cresam, que embranqueam, como  seu costume dellas, salvo as que
no embranquecem nunca, ou s em parte e temporariamente. Tudo isto 
sabido e banal, mas d ensejo a dizer de duas barbas do ultimo genero,
celebres naquelle tempo, e ora totalmente esquecidas. No tendo outro
logar em que fale dellas, aproveito este capitulo, e o leitor que volte
a pagina, se prefere ir atraz da historia. Eu ficarei durante algumas
linhas, recordando as duas barbas mortas, sem as entender agora, como
no as entendemos ento, as mais inexplicaveis barbas do mundo.

A primeira daquellas barbas era de um amigo de Pedro, um capucho,
um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o nome,--ninguem mais o
conheceria,--mas prefiro esse signal trino, numero de mysterio,
expresso por estrellas, que so os olhos do cu. Trata-se de um frade.
Pedro no lhe conheceu a barba preta, mas j grisalha, longa e basta,
adornando uma cabea mascula e formosa. A bca era risonha, os olhos
rutilos. Ria por ella e por elles, to docemente que mettia a gente
no corao. Tinha o peito largo, as espaduas fortes. O p n, atado
 sandalia, mostrava aguentar um corpo de Hercules. Tudo isso meigo
e espiritual, como uma pagina evangelica. A f era viva, a affeio
segura, a paciencia infinita.

Frei *** despediu-se um dia de Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio
Janeiro, S. Paulo,--creio que ao Paran tambem,--viagem espiritual,
como a de outros confrades, e l ficou por um semestre ou mais. Quando
voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior espanto. A barba
estava negra, no sei se tanto ou mais que d'antes, mas negrissima
e brilhantissima. No explicou a mudana, nem ninguem lhe perguntou
por ella; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambem podia ser
correco de homem, posto que o ultimo caso fosse mais difficil de
crr que o primeiro. Durou nove mezes esta cr; feita outra viagem por
trinta dias, a barba appareceu de prata ou de neve, como vos parecer
mais branca.

Quanto  segunda de taes barbas, foi ainda mais espantosa. No era
de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que vivia de dividas, e na
mocidade corrigira um velho rifo da nossa lingua por esta maneira:
Paga o que deves, v o que te _no_ fica.

Chegou aos cincoenta annos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A
roupa teria a mesma edade, os sapatos no menor que ella. A barba  que
no chegou aos cincoenta; elle pintava-a de negro e mal, provavelmente
por no ser a tinta de primeira qualidade e no possuir espelho. Andava
s, descia ou subia muita vez a mesma rua. Um dia dobrou a esquina da
Vida e caiu na praa da Morte, com as barbas enxovalhadas, por no
haver quem lh'as pintasse na Santa Casa.

_Or, ben_, para falar como o meu capucho, porque  que este e o
maltrapilho voltaram do grisalho ao negro? A leitora que adivinhe, se
pde: dou-lhe vinte capitulos para alcanal-o. Talvez eu, por essas
alturas, lobrigue alguma explicao, mas por ora no sei nem aventuro
nada. V que malignos attribuam a frei *** alguma paixo profana; ainda
assim no se comprehende que elle se descobrisse por aquelle modo.
Quanto ao maltrapilho, a que damas queria elle agradar, a ponto de
trocar alguma vez o po pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo
de prender a mocidade fugitiva, pde ser. O frade, lido na Escriptura,
sabendo que Israel chorou pelas cebolas do Egypto, teria tambem
chorado, e as suas lagrimas cairam negras. Pde ser, repito. Este
desejo de capturar o tempo  uma necessidade da alma e dos queixos; mas
ao tempo d Deus _habeas-corpus._




CAPITULO XXIV


Robespierre e Luiz XVI


Tanto cresceram as opinies de Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a
incorporar-se em alguma cousa. Iam descendo pela rua da Carioca. Havia
alli uma loja de vidraceiro, com espelhos de vario tamanho, e, mais que
espelhos, tambem tinha retratos velhos e gravuras baratas, com e sem
caixilho. Pararam alguns instantes, olhando  toa. Logo depois, Pedro
viu pendurado um retrato de Luiz XVI, entrou e comprou-o por oitocentos
reis; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante.
Paulo quiz ter egual fortuna, adequada s suas opinies, e descobriu
um Robespierre. Como o logista pedisse por este mil e duzentos, Pedro
exaltou-se um pouco.

--Ento o senhor vende mais barato um rei, e um rei martyr?

--Ha de perdoar, mas  que esta outra gravura custou-me mais caro,
redarguiu o velho logista. Ns vendemos conforme o preo da compra.
Veja; est mais nova.

--L isso, no, acudiu Paulo. So do mesmo tempo; mas  que este vale
mais que aquelle.

--Ouvi dizer que tambem era rei...

--Qual, rei! responderam os dous.

--Ou quiz sel-o, no sei bem... Que eu de historias, apenas conheo
a dos mouros que aprendi na minha terra com a av, alguns bocados em
verso. E elle ainda ha mouras lindas; por exemplo, esta; apesar do
nome, creio que era moura, ou ainda , se vive... Mal lhe saiba ao
marido!

Foi a um canto e trouxe um retrato de Madame de Stael, com o famoso
turbante na cabea.  effeito da belleza! Os rapazes esqueceram por um
instante as opinies politicas e ficaram a olhar longamente a figura
de Corinna. O logista, apesar dos seus setenta annos, tinha os olhos
babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabea, a bca um tanto
grossa, mas expressiva, e dizia que no era caro. Como nenhum quizesse
compral-a, talvez por ser s uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas
esse era uma pouca vergonha, phrase que os deuses lhe perdoariam,
quando soubessem que elle no quiz mais que abrir o appetite aos
freguezes. E foi a um armario, tirou de l, e trouxe uma Diana, na
como vivia c em baixo, outr'ora, nos mattos. Nem por isso a vendeu.
Teve de contentar-se com os retratos politicos.

Quiz ainda ver se colhia algum dinheiro, vendendo-lhes um retrato de
Pedro I, encaixilhado, que pendia da parede; mas, Pedro recusou por no
ter dinheiro disponivel, e Paulo disse que no daria um vintem pela
cara de traidores. Antes no dissesse nada! O logista, to depressa
lhe ouviu a resposta como despiu as frmas obsequiosas, vestiu outras
indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moo tinha razo.

--Tem muita razo. Foi um traidor, mau filho. mau irmo, mau tudo.
Fez todo o mal que pde a este mundo; e no inferno, onde est, se a
religio no mente, deve ainda fazer mal ao Diabo. Este moo falou ha
pouco em rei martyr,--continuou mostrando-lhes um retrato de D. Miguel
de Bragana, meio perfil, sobrecasaca, mo ao peito,--este  que foi
um verdadeiro martyr daquelle, que lhe roubou o throno, que no era
seu, para dal-o a quem no pertencia; e foi morrer  mingua o meu pobre
rei e senhor, dizem que na Allemanha, ou no sei onde. Ah! _malhados!_
Ah! filhos do Diabo! Os senhores no podem imaginar o que era aquella
canalha de liberaes. Liberaes! Liberaes do alheio!

-- tudo a mesma farinha, reflexionou Paulo.

--Eu no sei se elles eram de farinha, sei que levaram muita pancada.
Venceram, mas apanharam deveras. Meu pobre rei!

Pedro quiz responder ao remoque do irmo, e propoz comprar o retrato
de Pedro I. Quando o logista tornou a si, comeou a negociar a venda,
mas no poderam entender-se no preo; Pedro dava os mesmos oitocentos
reis do outro, o logista pedia dous mil reis. Notava-lhe que estava
encaixilhado, e Luiz XVI no; alm disso, era mais novo. E vinha 
porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a atteno para o rosto,
os olhos principalmente, que bella expresso que tinham! E o manto
imperial...

--Que lhe custa dar dous mil reis?

--Dou-lhe dez tostes; serve?

--No serve. Mais que isso me custou elle.

--Pois ento...

--Veja sempre. Pois isto no vale at trez mil reis? 0 papel no est
encardido; a gravura  fina.

--Dez tostes, j disse.

--No, senhor. Olhe, por dez tostes leve este de D. Miguel; o papel
est bem conservado, e, com pouco dinheiro, manda lhe pr um caixilho.
V; dez tostes.

--Se eu j estou arrependido... Dez tostes pelo imperador.

--Ah! isso no! Custou-me mil e setecentos, ha trez semanas; ganho uns
trezentos reis, quasi nada. Ganho menos com o senhor D. Miguel, mas
tambem concordo que  menos procurado. Este de D. Pedro I, se passar
amanh, talvez j o no ache. V, sim?

--Eu passo depois.

Paulo j ia andando e mirando Robespierre; Pedro alcanou-o.

--Olhe, leve por sete tostes o senhor D. Miguel!

Pedro abanou a cabea.

--Seis tostes serve?

Pedro, ao lado do irmo, desenrolra a sua gravura. O velho logista
quiz ainda bradar: Cinco tostes! mas iam j longe, e ficava mal
negociar assim.




CAPITULO XXV


D. Miguel


--Assim como assim, ficou pensando o velho, no ha de ser enrolado e
guardado que o hei de vender; vou mandal-o encaixilhar; pem-se-lhe
aqui umas taboinhas velhas...

D. Miguel voltou para elle os olhos turvos de tristeza e reproche;
assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter sido illuso. Em todo
caso, pareceu tambem que os olhos tornavam ao seu logar, fitando 
direita, ao longe... Para onde? Para onde ha justia eterna, cuidou
naturalmente o dono. Como estivesse a contemplal-o,  porta, parou um
homem, entrou, e olhou com interesse para o retrato. O logista reparou
na expresso; podia ser algum miguelista, mas tambem podia ser um
colleccionador...

--Quanto pede o senhor por isto?

--Isto? Ha de perdoar; quer saber quanto peo pelo meu rico senhor
D. Miguel? No peo muito, est um tanto encardido, mas ainda se lhe
aprecia bem a figura. Que soberba que ella ! No  caro; dou-lhe pelo
custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro mil reis. Leve-o
por trez.

O freguez tirou tranquillamente o dinheiro do bolso, emquanto o velho
enrolava o retrato, e, trocados um por outro, despediram-se cortezes e
satisfeitos; o logista, depois de ir at a porta, tornou  cadeira do
costume. Talvez pensasse no mal a que escapra, se vendesse o retrato
por dez tostes. Em todo caso, ficou a olhar para fra, para longe,
para onde ha justia eterna... Trez mil reis!




CAPITULO XXVI


A luta dos retratos


Quasi que no  preciso dizer o destino dos retratos do rei e do
convencional. Cada um dos pequenos pregou o seu  cabeceira da cama.
Pouco durou esta situao, porque ambos faziam pirraas s pobres
gravuras, que no tinham culpa de nada. Eram orelhas de burro, nomes
feios, desenhos de animaes, at que um dia Paulo rasgou a de Pedro,
e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a me ouviu
rumor e subiu apressada. Conteve os filhos, mas j os achou arranhados
e recolheu-se triste. Nunca mais acabaria aquella maldio de
rivalidade? Fez esta pergunta calada, atirada  cama, a cara mettida no
travesseiro, que desta vez ficou secco, mas a alma chorou.

Natividade confiava na educao, mas a educao, por mais que ella
a apurasse, apenas quebrava as arestas ao caracter dos pequenos, o
essencial ficava; as paixes embryonarias trabalhavam por viver,
crescer, romper, taes quaes ella sentira os dous no proprio seio,
durante a gestao... E recordava a crise de ento, acabando por
maldizer da cabocla do Castello. Realmente, a cabocla devia ter calado;
o mal calado no se muda, mas no se sabe. Agora, pde ser que isto
de no calar confirme a opinio de que a cabocla era mandada por Deus
para dizer a verdade aos homens. E afinal o que  que ella disse a
Natividade? No fez mais que uma pergunta mysteriosa; a predico  que
foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castello resoaram
aos ouvidos da me, e a imaginao fez o resto. Cousas futuras! Eil-os
grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade
sorriu, ergueu-se, foi  porta, deu com o filho Pedro, que vinha
explicar-se.

--Mame, Paulo  mau. Se mame ouvisse os horrores que elle solta pela
bca fra, mame morria de medo. Custa-me muito no ir  cara delle;
ainda lhe no tirei um olho...

--Meu filho, no fales assim,  teu irmo.

--Pois que no se metta commigo, no me aborrea. Que blasphemias que
elle dizia! Como eu rezava por alma de Luiz XVI, elle, para machucar-me
bem, rezava a Robespierre; compoz uma ladainha chamando santo ao outro
e cantarolava baixinho para que papae nem mame ouvissem. Eu sempre lhe
dei alguns cascudos...

--Ahi est!

--Mas  que elle  que me dava primeiro, porque eu punha orelhas de
burro em Robespierre... Ento, eu havia de apanhar calado?

--Nem calado, nem falando.

--Ento, como? Apanhar sempre, no ?

--No, senhor; no quero pancadas; o melhor  que esqueam tudo e se
queiram bem. Voc no v como seus paes se querem? As brigas acabaram
de todo. No quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal que tem vocs com
um sujeito mau que morreu ha tantos annos?

-- o que eu digo, mas elle no se emenda.

--Ha de emendar-se; os estudos fazem esquecer creancices. Voc tambem
quando fr medico tem muito que brigar com as molestias e a morte; 
melhor que andar dando pancada em seu irmo... Que  l isso? No quero
arremeos, Pedro! Socegue, oua-me.

--Mame  sempre contra mim.

--No sou contra nenhum, sou por ambos, ambos so meus filhos. E
demais gemeos. Anda c, Pedro. No penses que eu desapprovo as tuas
opinies politicas. At gsto; so as minhas, so as nossas. Paulo ha
de tel-as tambem. Na edade delle acceita-se quanta tolice ha, mas o
tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperana  que vocs sejam grandes
homens, mas com a condio de serem tambem grandes amigos.

--Eu estou prompto a ser grande homem, assentiu Pedro com ingenuidade,
quasi com resignao.

--E grande amigo tambem.

--Se elle fr, serei.

--Grandes homens! exclamou Natividade, dando-lhe dous abraos, um para
elle, outro para o irmo quando viesse.

Mas Paulo veiu logo, e recebeu o abrao inteiro e de verdade. Vinha
tambem queixar-se, e sempre resmungou alguma cousa, mas a me no quiz
ouvil-o, e falou outra vez a linguagem das grandezas. Paulo consentiu
tambem em ser grande.

--Voc ser medico, disse Natividade a Pedro, e voc advogado. Quero
ver quem faz as melhores curas, e ganha as peiores demandas.

--Eu, disseram ambos a um tempo.

--Patetas! Cada um ter a sua carreira especial, a sua sciencia
differente. J esto curados do nariz? J; no ha mais sangue. Agora o
primeiro que ferir seu irmo ser degradado.

Foi um recurso habil separal-os; um ficava no Rio, estudando medicina,
outro ia para S. Paulo, estudar direito. O tempo faria o resto, no
contando que cada um casava e iria com a mulher para o seu lado. Era a
paz perpetua; mais tarde viria a perpetua amizade.




CAPITULO XXVII


De uma reflexo intempestiva


Eis aqui entra uma reflexo da leitora: Mas se duas velhas gravuras os
levam a murro e sangue, contentar-se-ho elles com a sua esposa? No
querero a mesma e unica mulher?

O que a senhora deseja, amiga minha,  chegar j ao capitulo do amor
ou dos amores, que  o seu interesse particular nos livros. Dahi a
habilidade da pergunta, como se dissesse: Olhe que o senhor ainda nos
no mostrou a dama ou damas que tm de ser amadas ou pleiteadas por
estes dous jovens inimigos. J estou canada de saber que os rapazes
no se do ou se do mal;  a segunda ou terceira vez que assisto s
blandicias da me ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor, s
duas, se no  uma s a pessoa...

Francamente, eu no gosto de gente que venha adivinhando e compondo um
livro que est sendo escripto com methodo. A insistencia da leitora em
falar de uma s mulher chega a ser impertinente. Supponha que elles
devras gostem de uma s pessoa; no parecer que eu conto o que a
leitora me lembrou, quando a verdade  que eu apenas escrevo o que
succedeu e pde ser confirmado por dezenas de testemunhas? No, senhora
minha, no puz a penna na mo,  espreita do que me viessem suggerindo.
Se quer compr o livro, aqui tem a penna, aqui tem papel, aqui tem um
admirador; mas, se quer ler smente, deixe-se estar quieta, v de linha
em linha; dou-lhe que boceje entre dous capitulos, mas espere o resto,
tenha confiana no relator destas aventuras.




CAPITULO XXVIII


O resto  certo


Sim, houve uma pessoa, mais moa que elles, um a dous annos, que os
agrilhoou,  fora de costume ou de natureza, se no foi de ambas as
cousas. Antes d'essa, pde ser que houvesse outras e mais velhas que
elles, mas de taes no rezam as notas que servem a este livro. Se
brigaram por ellas, no ficou memoria disso, mas  possivel, dado que
tivessem tido as mesmas preferencias; no caso contrario tambem, como
succedia aos cavalleiros que defendiam a sua dama.

Conjecturas tudo. Era natural que, assim bonitos, eguaes, elegantes,
dados  vida e ao passeio,  conversao e  dana, finalmente
herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse delles. As que
os viam passar a cavallo, praia fra ou rua acima, ficavam namoradas
daquella ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os proprios cavallos
eram eguaesinhos, quasi gemeos, e batiam as patas com o mesmo rythmo,
a mesma fora e a mesma graa. No creias que o gesto da cauda e das
crinas fosse simultaneo nos dous animaes; no  verdade e pde fazer
duvidar do resto. Pois o resto  certo.



CAPITULO XXIX


A pessoa mais moa


A pessoa mais moa no entra j neste capitulo por uma razo valiosa,
que  a conveniencia de apresentar primeiro os paes. No  que se
no possa vel-a bem sem elles; pde-se, os trez so diversos, acaso
contrarios, e, por mais especial que a acheis, no  preciso que os
paes estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os paes. Cames
affirmou que de certo pae s se podia esperar tal filho, e a sciencia
confirma esta regra poetica. Pela minha parte creio na sciencia como na
poesia, mas ha excepes, amigo. Succede, s vezes, que a natureza faz
outra cousa, e nem por isso as plantas deixam de crescer e as estrellas
de luzir. O que se deve crr sem erro  que Deus  Deus; e, se alguma
rapariga arabe me estiver lendo, ponha-lhe Allah. Todas as linguas vo
dar ao cu.




CAPITULO XXX


A gente Baptista


A gente Baptista conheceu a gente Santos em no sei que fazenda da
provincia do Rio. No foi Maric, embora alli tivesse nascido o pae dos
gemeos; seria em qualquer outro municipio. Fosse qual fosse, alli  que
se conheceram as duas familias, e como morassem proximas em Botafogo, a
assiduidade e a sympathia vieram ajudando o caso fortuito.

Baptista, o pae da donzella, era homem de quarenta e tantos annos,
advogado do civel, ex-presidente de provincia e membro do partido
conservador. A ida  fazenda tivera por objecto exactamente uma
conferencia politica para fins eleitoraes, mas to esteril que elle
tornou de l sem, ao menos, um ramo de esperana. Apesar de ter amigos
no governo, no alcanra nada, nem deputao, nem presidencia.
Interrompra a carreira desde que foi exonerado daquelle cargo a
pedido, disse o decreto, mas as queixas do exonerado fariam crr outra
cousa. De facto, perdera as eleies, e attribuia a esse desastre
politico a demisso do cargo.

--No sei o que  que elle queria que eu fizesse mais, dizia Baptista
falando do ministro. Cerquei egrejas; nenhum amigo pediu policia que eu
no mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras foram para a
cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve duas
mortes no Ribeiro das Moas.

O final era excessivo, porque as mortes no fram obra delle; quando
muito, elle mandou abafar o inquerito, si se pde chamar inquerito a
uma simples conversao sobre a ferocidade dos dous defuntos. Em summa,
as eleies fram incruentas.

Baptista dizia que por causa das eleies perdera a presidencia,
mas corria outra verso, um negocio de aguas, concesso feita a um
hespanhol, a pedido do irmo da esposa do presidente. O pedido era
verdadeiro, a imputao de socio  que era falsa. No importa; tanto
bastou para que a folha da opposio dissesse que houve naquillo um
bom arranjo de familia, accrescentando que, como era de aguas, devia
ser negocio limpo. A folha da administrao retorquiu que, se aguas
havia, no eram bastantes para lavar o sujo do carvo deixado pela
ultima presidencia liberal, um fornecimento de palacio. No era exacto;
a folha da opposio reviveu o processo antigo e mostrou que a defeza
fra cabal. Podia parar aqui, mas continuou que, como agora estavamos
em Hespanha, o presidente emendou o poeta hespanhol, autor daquelle
epitaphio:

   Cuados y juntos:
   Es cierto que estan difuntos;

e emendou-o por no ser obrigado a matar ninguem, antes deu vida a si e
aos seus, dizendo pela nossa lingua:

   Cunhados e cunhadissimos;
    certo que so vivissimos!

Baptista acudiu depressa ao mal, declarando sem effeito a concesso,
mas isso mesmo serviu  opposio para novos arremeos: Temos a
confisso do reu! foi o titulo do primeiro artigo que rendeu  folha
da opposio o acto do presidente. Os correspondentes tinham j
escripto para o Rio de Janeiro falando da concesso, e o governo acabou
por demittir o seu delegado. Em verdade, s os politicos cuidaram do
negocio. D. Claudia apenas alludia  campanha da imprensa, que foi
violentissima.

--No valia a pena sair daqui, disse Natividade.

--L isso no, baroneza!

E D. Claudia affirmou que valia. Soffre-se, mas paciencia. Era to bom
chegar  provincia! Tudo annunciado, as visitas a bordo, o desembarque,
a posse, os comprimentos... Ver a magistratura, o funcionalismo, a
officialidade, muita calva, muito cabello branco, a flor da terra,
emfim, com as suas cortezias longas e demoradas, todas em angulo ou em
curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da opposio
eram agradaveis. Ouvir chamar tyranno ao marido, que ella sabia ter
um corao de pomba, ia bem  alma della. A sde de sangue que se lhe
attribuia, elle que nem bebia vinho, o guante de ferro de um homem
que era uma luva de pellica, a immoralidade, a desfaatez, a falta de
brio, todos os nomes injustos, mas fortes, que ella gostava de ler,
como verdades eternas, onde iam elles agora? A folha da opposio era
a primeira que D. Claudia lia em palacio. Sentia-se vergastada tambem
e tinha nisso uma grande volupia, como si fosse na propria pelle;
almoava melhor. Onde iam os lategos daquelle tempo? Agora mal podia
ler o nome delle impresso no fim de algumas razes do foro, ou ento na
lista das pessoas que iam visitar o imperador.

--Nem sempre, explicou D. Claudia; Baptista  muito acanhado; vae de
longe em longe a S. Christovo, para no parecer que se faz lembrado,
como se isto fosse crime; ao contrario, no ir nunca  que pde parecer
arrufo. Note que o imperador nunca deixou de recebel-o com muita
benevolencia, e a mim tambem. Nunca esqueceu o meu nome. J deixei de
l ir dous annos, e quando appareci, perguntou-me logo: Como vae, D.
Claudia?

Afra essas saudades do poder, D. Claudia era uma creatura feliz. A
viveza das palavras e das maneiras, os olhos que pareciam no ver nada
 fora de no pararem nunca, e o sorriso benevolo, e a admirao
constante, tudo nella era ajustado a curar as melancolias alheias.
Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quizesse comer vivas,
comer de amor, no de odio, mettel-as em si, muito em si, no mais fundo
de si.

Baptista no tinha as mesmas expanses. Era alto e o ar socegado dava
um bom aspecto de governo. S lhe faltava aco, mas a mullher podia
inspirar-lh'a; nunca deixou de consultal-a nas crises da presidencia.
Agora mesmo, se lhe dsse ouvidos, j teria ido pedir alguma cousa
ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia da
fraqueza: Ho de chamar-me, deixa estar, dizia elle a D. Claudia,
quando apparecia alguma vaga de governo provincial. Certo  que elle
sentia a necessidade de tornar  vida activa. Nelle a politica era
menos uma opinio que uma sarna; precisava coar-se a miudo e com fora.




CAPITULO XXXI


Flora


Tal era aquelle casal de politicos. Um filho, se elles tivessem um
filho varo, podia ser a fuso das suas qualidades oppostas, e talvez
um homem de Estado. Mas o cu negou-lhes essa consolao dynastica.

Tinham uma filha unica, que era tudo o contrario d'elles. Nem a paixo
de D. Claudia, nem o aspecto governamental de Baptista distinguia a
alma ou a figura da joven Flora. Quem a conhecesse por esses dias,
poderia comparal-a a um vaso quebradio ou  flor de uma s manh, e
teria materia para uma doce elegia. J ento possuia os olhos grandes
e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que
no era o espalhado da me, nem o apagado do pae, antes mavioso e
pensativo, to cheio de graa que faria amavel a cara de um avarento.
Pe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe a bca meio risonha, formando tudo
um rosto comprido, alisa-lhe os cabellos ruivos, e ahi tens a moa
Flora.

Nasceu em agosto de 1871. A me, que datava por ministerios, nunca
negou a edade da filha:

--Flora nasceu no ministerio Rio-Branco, e foi sempre to facil de
aprender, que j no ministerio Sinimb sabia ler escrever correntemente.

Era retrahida e modesta, avssa a festas publicas, e difficilmente
consentiu em aprender a danar. Gostava de musica, e mais do piano que
do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de no comer um
dia inteiro. Ha ahi o seu tanto de exagerado, mas a hyperbole  deste
mundo, e as orelhas da gente andam j to entupidas que s  fora de
muita rhetorica se pde metter por ellas um sopro de verdade.

At aqui nada ha que extraordinariamente distinga esta moa das outras,
suas contemporaneas, desde que a modestia vae com a graa, e em certa
edade  to natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze
annos, dava-lhe para se metter comsigo. Ayres, que a conheceu por esse
tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moa viria a ser uma
inexplicavel.

--Como diz? inquiriu a me.

--Verdadeiramente, no digo nada, emendou Ayres; mas, se me permitte
dizer alguma cousa, direi que esta moa resume as raras prendas de sua
me.

--Mas eu no sou inexplicavel, replicou D. Claudia sorrindo.

--Ao contrario, minha senhora. Tudo est, porem, na definio que
dermos a esta palavra. Talvez no haja nenhuma certa. Supponhamos uma
creatura para quem no exista perfeio na terra, e julgue que a mais
bella alma no passa de um ponto de vista; se tudo muda com o o ponto
de vista, a perfeio...

--A perfeio  copas, insinuou Santos.

Era um convite ao voltarete. Ayres no teve animo de acceitar, to
inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nelle, interrogativos,
curiosos de saber porque  que ella era ou viria a ser inexplicavel.
Alm disso, preferia a conversao das mulheres.  delle esta phrase do
_Memorial:_ Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no homem, aggrava.

No foi preciso acceitar nem recusar o convite de Santos; chegaram dous
habituados do jogo, e com elles Baptista, que estava na saleta proxima,
Santos foi ao recreio de todas as noites. Um daquelles era o velho
Placido, doutor em spiritismo; o segundo era um corretor da praa,
chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia menos perder
dinheiro que partidas. L se fram ao voltarete, emquanto Ayres ficava
no salo, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se
despegassem d'elle.




CAPITULO XXXII


O aposentado


J ento este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de
Janeiro, depois de um ultimo olhar s cousas vistas, para aqui viver
o resto dos seus dias. Podia fazel-o em qualquer cidade, era homem de
todos os climas, mas tinha particular amor  sua terra, e por ventura
estava canado de outras. No attribuia a esta tantas calamidades. A
febre amarella, por exemplo,  fora de a desmentir l fra, perdeu-lhe
a f, e c dentro, quando via publicados alguns casos, estava j
corrompido por aquelle credo que attribue todas as molestias a uma
variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.

No mudra inteiramente; era o mesmo ou quasi. Encalveceu mais, 
certo, ter menos carnes, algumas rugas; ao cabo, uma velhice rija de
sessenta annos. Os bigodes continuam a trazer as pontas finas e agudas.
O passo  firme, o gesto grave, com aquelle toque de galanteria, que
nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.

Tambem a cidade no lhe pareceu que houvesse mudado muito. Achou algum
movimento mais, alguma opera menos, cabeas brancas, pessoas defuntas;
mas a velha cidade era a mesma. A propria casa delle no Cattete estava
bem conservada. Ayres despediu o inquilino, to polidamente como se
recebesse o ministro dos negocios estrangeiros, e metteu-se nella a si
e a um criado, por mais que a irm teimasse em leval-o para Andarahy.

--No, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.

--Mas eu sou a sua ultima parenta, disse ella.

--De sangue e de corao, isso , concordou elle; pde accrescentar que
a melhor de todas e a mais pia. Onde esto aquelles cabellos...? No
precisa baixar os olhos. Voc os cortou para metter no caixo de seu
finado marido. Os que ahi esto embranqueceram; mas os que l ficaram
eram pretos, e mais de uma viuva os teria guardado todos para as
segundas nupcias.

Rita gostou de ouvir aquella referencia. Outr'ora, no; pouco depois de
viuva, tinha vexame de um acto to sincero; achava-se quasi ridicula.
Que valia cortar os cabellos por haver perdido o melhor dos maridos?
Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera bem, a approvar que lh'o
dissessem, e, na intimidade, a lembral-o. Agora serviu a alluso para
replicar:

--Pois se eu sou isso, porque  que voc prefere viver com extranhos?

--Que extranhos? No vou viver com ninguem. Viverei com o Cattete, o
largo do Machado, a praia de Botafogo e a do Flamengo, no falo das
pessoas que l moram, mas das ruas, das casas, dos chafarizes e das
lojas. Ha l cousas exquisitas, mas sei eu se venho achar em Andarahy
uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que
sabemos. L os meus ps andam por si. Ha alli cousas petrificadas e
pessoas immortaes, como aquelle Custodio da confeitaria, lembra-se?

--Lembra-me, a _Confeitaria do Imperio._

--Ha quarenta annos que a estabeleceu; era ainda no tempo em que os
carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo est velho, mas no
acaba; ainda me ha de enterrar. Parece rapaz; apparece-me l todas as
semanas.

--Voc tambem parece rapaz.

--No brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho, pde ser;
mas no  por agradar a moas,  porque me ficou este geito... E a
proposito, porque no vae voc morar commigo?

--Ah!  para saber que tambem eu gosto de estar commigo. Irei l de vez
em quando, mas j no saio d'aqui, se no para o cemiterio.

Ajustaram visitar um ao outro; Ayres viria jantar s quinta-feiras.
D. Rita ainda lhe falou dos casos de molestia d'elle, ao que Ayres
replicou que no adoecia nunca, mas se adoecesse viria para Andarahy;
o corao della era o melhor dos hospitaes. Talvez que em todas essas
recusas houvesse tambem a necessidade de fugir  contradico, porque a
irm sabia inventar occasies de dissidencia. Naquelle mesmo dia (era
ao almoo) elle achou o caf delicioso, mas a irm disse que era ruim,
obrigando-o a um grande esforo para tornar atraz e achal-o detestavel.

A principio, Ayres cumpriu a solido, separou-se da sociedade,
metteu-se em casa, no apparecia a ninguem ou a raros e de longe em
longe. Em verdade estava canado de homens e de mulheres, de festas
e de vigilias. Fez um programma. Como era dado a letras classicas,
achou no padre Bernardes esta traduco daquelle psalmo: Alonguei-me
fugindo e morei na soedade. Foi a sua divisa. Santos, se lh'a dessem,
fal-a-hia esculpir,  entrada do salo, para regalo dos seus numerosos
amigos. Ayres deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar
calado, parte pelo sentido, parte pela linguagem velha: Alonguei-me
fugindo e morei na soedade.

Assim foi a principio, s quinta-feiras ia jantar com a irm. s
noites passeava pelas praias, ou pelas ruas do bairro. O mais do tempo
era gasto em ler e reler, compr o _Memorial_ ou rever o composto,
para relembrar as cousas passadas. Estas eram muitas e de feio
diversa, desde a alegria at a melancolia, enterramentos e recepes
diplomaticas, uma braada de folhas seccas, que lhe pareciam verdes
agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e elle
no acertava logo quem fossem, mas era um recreio procural-as, achal-as
e completal-as.

Mandou fazer um armario envidraado, onde metteu as reliquias da vida,
retratos velhos, mimos de governos e de particulares, um leque, uma
luva, uma fita e outras memorias femininas, medalhas e medalhes,
camafeus, pedaos de ruinas gregas e romanas, uma infinidade de cousas
que no nomeio, para no encher papel. As cartas no estavam l, viviam
dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por linguas,
por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos capitulos e seriam
lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete
encardido e sem data, moo como os bilhetes velhos, assignado por
iniciaes, um M e um P, que elle traduzia com saudades. No vale a pena
dizer o nome.




CAPITULO XXXIII


A solido tambem cana


Mas tudo cana, at a solido. Ayres entrou a sentir uma ponta
de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva,
extranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Mettia-se por bairros
excentricos, trepava aos morros, ia s egrejas velhas, s ruas novas,
 Copacabana e  Tijuca. O mar alli, aqui o matto e a vista acordavam
nelle uma infinidade de ecos, que pareciam as proprias vozes antigas.
Tudo isso escrevia, s noites, para se fortalecer no proposito da vida
solitaria. Mas no ha proposito contra a necessidade.

A gente extranha tinha a vantagem de lhe tirar a solido, sem lhe dar a
conversao. As visitas de rigor que elle fazia eram poucas, breves e
apenas faladas. E tudo isso fram os primeiros passos. A pouco e pouco
sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das salas, a saudade
do riso, e no tardou que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado
no emprego da recreao. A solido, tanto no texto biblico, como na
traduco do padre, era archaica. Ayres trocou-lhe uma palavra e o
sentido; Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente.

Assim se foi o programma da vida nova. No  que elle j a no
entendesse nem amasse, ou que a no praticasse ainda alguma vez, a
espaos, como se faz uso de um remedio que obriga a ficar na cama ou
na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a
outra gente, ouvil-a, cheiral-a, gostal-a, apalpal-a, applicar todos os
sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o immortal tempo.




CAPITULO XXXIV


Inexplicavel


Assim o deixmos, ha apenas dous capitulos, a um canto da sala da gente
Santos, em conversao com as senhoras. Has de lembrar-te que Flora
no despegava os olhos delle, anciosa de saber porque  que a achava
inexplicavel. A palavra rasgava-lhe o cerebro, ferindo sem penetrar.
Inexplicavel que era? Que se no explica, sabia; mas que se no explica
porqu?

Quiz perguntal-o ao conselheiro, mas no achou occasio, e elle saiu
cedo. A primeira vez, porm, que Ayres foi a S. Clemente, Flora
pediu-lhe familiarmente o obsequio de uma definio mais desenvolvida.
Ayres sorriu e pegou na mo da mocinha, que estava de p. Foi s o
tempo de inventar esta resposta:

--Inexplicavel  o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem
acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta,
pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a arvore  arvore, nem
a choupana choupana. Se se trata ento de gente, adeus. Por mais que
os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que elles no
dizem nada. E retocam com tanta paciencia, que alguns morrem entre dous
olhos, outros matam-se de desespero.

Flora achou a explicao obscura; e tu, amiga minha leitora, se acaso
s mais velha e mais fina que ella, pde ser que a no aches mais
clara. Elle  que no accrescentou nada, para no ficar incluido entre
os artistas daquella especie. Bateu paternalmente na palma da mo de
Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como  que no
iriam bem os estudos? E sentando-se ao p delle, a mocinha confessou
que tinha ideia justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia
de pr tinta de mais ou de menos, e acabar no pintando nada, melhor
seria ficar s na musica. A musica ia bem com ella, o francez tambem, e
o inglez.

--Pois s a musica, o inglez e o francez, concordou Ayres.

--Mas o senhor promette que no me achar inexplicavel? pergunta ella
com doura.

Antes que elle respondesse, entrarm na sala os dous gemeos. Flora
esqueceu um assumpto por outro, e o velho pelos rapazes. Ayres no se
demorou mais que o tempo de a ver rir com elles, e sentir em si alguma
cousa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer, creio.




CAPITULO XXXV


Em volta da moa


J ento os dous gemeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S.
Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. No tardaria muito que
saissem formados e promptos, um para defender o direito e o torto da
gente, outro para ajudal-a a viver e a morrer. Todos os contrastes
esto no homem.

No era tanta a politica que os fizesse esquecer Flora, nem tanta
Flora que os fizesse esquecer a politica. Tambem no eram taes as duas
que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na edade em que tudo se
combina sem quebra de essencia de cada cousa. L que viessem a amar a
pequena com egual fora  o que se podia admittir desde j, sem ser
preciso que ella os attrahisse de vontade. Ao contrario, Flora ria com
ambos, sem rejeitar nem acceitar especialmente nenhum; pde ser at que
nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava
pelas frias, como que a achava mais cheia de graa. Era ento que
Pedro multiplicava as suas finezas para se no deixar vencer do irmo,
que vinha prodigo dellas. E Flora recebia-as todas com o mesmo rosto
amigo.

Note-se--e este ponto deve ser tirado  luz,--note-se que os dous
gemeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez mais esbeltos.
Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhana diminuia em
cada um delles a feio pessoal. Demais, Flora simulava s vezes
confundil-os, para rir com ambos. E dizia a Pedro:

--Dr. Paulo!

E dizia a Paulo:

--Dr. Pedro!

Em vo elles mudvam da esquerda para a direita e da direita para a
esquerda. Flora mudava os nomes tambem, e os trez acabvam rindo. A
familiaridade desculpava a aco e crescia com ella. Paulo gostava mais
de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o piano
que com a conversa; Flora tocava. Ou ento fazia ambas as cousas, e
tocava falando, soltava a rdea aos dedos e  lingua.

Taes artes, postas ao servio de taes graas, eram realmente de
accender os gemeos, e foi o que succedeu pouco a pouco. A me della
cuido que percebeu alguma cousa; mas a principio no lhe deu grande
cuidado. Tambem ella foi menina e moa, tambem se dividiu a si sem se
dar nada a ninguem. Pde ser at que, a seu parecer, fosse um exercicio
necessario aos olhos do espirito e da cara. A questo  que estes se
no corrompessem, nem se deixassem ir atraz de cantigas, como diz o
povo, que assim exprime os feitios de Orpheu. Ao contrario, Flora
 que fazia de Orpheu, ella  que era a cantiga. Opportunamente,
escolheria a um delles, pensava a me.

A intimidade tinha intervallos grandes, alm das ausencias obrigadas
de Paulo. Apesar de no sair, Pedro no a buscava sempre, nem ella ia
muita vez  casa da praia. No se viam dias e dias. Que pensassem um no
outro,  possivel; mas no possuo o menor documento disto. A verdade
 que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua
e de aventura, os partidos de theatro, os passeios  Tijuca e outros
arrabaldes. Ao demais, os dous gemeos estavam ainda no ponto de falar
della nas cartas, louval-a, descrevel-a, dizer mil cousas doces, sem
ciume.




CAPITULO XXXVI


A discordia no  to feia como se pinta


A discordia no  to feia como se pinta, meu amigo. Nem feia, nem
esteril. Conta s os livros que tem produzido, desde Homero at c, sem
excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a Modestia acena-me
de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modestia, que mal supporta
a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas ha de ir com
ella e com elles. Viva a Modestia, e excluamos este livro; fiquem s
os grandes livros epicos e tragicos, a que a Discordia deu vida, e
digam-me se tamanhos effeitos no provam a grandeza da causa. No, a
discordia no  to feia como se pinta.

Teimo nisto para que as almas sensiveis no comecem de tremer pela moa
ou pelos rapazes. No ha mister tremer, tanto mais que a discordia dos
dous comeou por um simples accordo, naquella noite. Costeavam a praia,
calados, pensando s, at que ambos, como se falassem para si, soltaram
esta phrase unica:

--Est ficando bem bonita.

E voltando-se um para outro:

--Quem?

Ambos sorriram; acharam pico ao simultaneo da reflexo e da pergunta.
Sei que este phenomeno  tal qual o do capitulo XXV, quando elles
disseram da edade, mas no me culpem a mim; eram gemeos, podiam ter
o falar gemeo. O principal  que no se amofinram; no era ainda
amor o que sentiam. Cada um expoz a sua opinio cerca das graas da
pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mos, tudo com to boa sombra,
que excluia a ideia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha
da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura;
mas como acabavam achando um total harmonico, era visto que no
brigavam por isso. Nenhum delles attribuia ao outro a cousa vaga ou o
qur quer que era que principiavam a sentir, e mais pareciam esthetas
que enamorados. Alis, a mesma politica os deixou em paz essa noite:
no brigaram por ella. No  que no sentissem alguma cousa opposta,
 vista da praia e do cu, que estavam deliciosos. Lua cheia, agua
quieta, vozes confusas e esparsas, algum tilbury a passo ou a trote,
segundo ia vasio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.

A imaginao os levou ento ao futuro, a um futuro brilhante, como elle
 em tal edade. Botafogo teria um papel historico, uma enseada imperial
para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo, sem doge, nem conselho
dos dez, ou ento um doge com outro titulo, um simples presidente, que
se casaria em nome do povo com este pequenino Adriatico. Talvez o doge
fosse elle mesmo. Esta possibilidade, apesar dos annos verdes, enfunou
a alma do moo. Paulo viu-se  testa de uma republica, em que o antigo
e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma
Conveno Nacional, a Republica Franceza e os Estados-Unidos da America.

Pedro,  sua parte, construia a meio caminho como um palacio para a
representao nacional, outro para o imperador, e via-se a si mesmo
ministro e presidente do conselho. Falava, dominava o tumulto e as
opinies, arrancava um voto  Camara dos deputados ou ento expedia
um decreto de dissoluo.  uma minucia, mas merece inseril-a aqui:
Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de
dissoluo. Via-se em casa, com o acto assignado, referendado, copiado,
mandado aos jornaes e s Camaras, lido pelos secretarios, archivado
na secretaria, e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando,
outros irados. S elle estava tranquillo, no gabinete, recebendo os
amigos que iam comprimental-o e pedir os recados para a provincia.

Taes eram as grandes pinceladas da imaginao dos dous. As estrellas
recebiam no cu todos os pensamentos dos rapazes, a lua seguia quieta
e a vaga da praia estirava-se com a preguia do costume. Voltaram a si
ao p de casa. Tal ou qual impulso quiz leval-os a discutir cerca do
tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmurio vago pde
ser que lhes fizesse mover os beios e comear a quebrar o silencio,
mas o silencio era to augusto que concordram em respeital-o. E logo
achram de si para si, que a lua era esplendida, a enseada bella e a
temperatura divina.




CAPITULO XXXVII


Desaccordo no accordo


No esquea dizer que, em 1888, uma questo grave e gravissima os fez
concordar tambem, ainda que por diversa razo. A data explica o facto:
foi a emancipao dos escravos. Estavam ento longe um do outro, mas a
opinio uniu-os.

A differena unica entre elles dizia respeito  significao da
reforma, que para Pedro era um acto de justia, e para Paulo era o
inicio da revoluo. Elle mesmo o disse, concluindo um discurso em
S. Paulo, no dia 20 de maio: A abolio  a aurora da liberdade;
esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco.

Natividade ficou attonita quando leu isto; pegou da penna e escreveu
uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta mil expresses
de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia sacrificar,
inclusive a vida e at a honra; as opinies  que no. No, mame; as
opinies  que no.

--As opinies  que no, repetiu Natividade acabando de ler a carta.

Natividade no acabava de entender os sentimentos do filho, ella que
sacrificra as opinies aos principios, como no caso de Ayres, e
continuou a viver sem macula. Como ento no sacrificar...? No achava
explicao. Relia a phrase da carta e a do discurso; tinha medo de o
ver perder a carreira politica, se era a politica que o faria grande
homem. Emancipado o preto, resta emancipar o branco, era uma ameaa
ao imperador e ao imperio.

No atinou... Nem sempre as mes atinam. No atinou que a phrase do
discurso no era propriamente do filho; no era de ninguem. alguem a
proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de
terra ou de mar. Outrem a repetiu, at que muita gente a fez sua. Era
nova, era energica, era expressiva, ficou sendo patrimonio commum.

Ha phrases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente pobre;
quando menos pensam, esto governando o mundo,  semelhana das ideias.
As proprias ideias nem sempre conservam o nome do pae; muitas apparecem
orphs, nascidas de nada e de ninguem. Cada um pega dellas, verte-as
como pde, e vae leval-as  feira, onde todos as tm por suas.




CAPITULO XXXVIII


Chegada a proposito


Quando, s duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se metteu no
bonde, para ir a no sei que compras na rua do Ouvidor, levava a phrase
comsigo. A vista da enseada no a distraiu, nem a gente que passava,
nem os incidentes da rua, nada; a phrase ia diante e dentro della, com
o seu aspecto e tom de ameaa. No Cattete, alguem entrou de salto,
sem fazer parar o vehiculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha
tambem que, posto o p no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga,
caminhou para l rapido e acceitou a ponta do banco que ella lhe
offereceu. Depois dos primeiros comprimentos:

--Pareceu-me vel-a olhar assustada, disse Ayres.

--Naturalmente, no imaginei que fosse capaz deste acto de gymnastica.

--Questo de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me
cair, as rodam passam por cima...

--Fosse como fosse, chegou a proposito.

--Chego sempre a proposito. J lhe ouvi isso, uma vez, ha muitos
annos, ou foi a sua irm... Ora, espere, no me esqueceu o motivo;
creio que falavam da cabocla do Castello. No se lembra de uma tal ou
qual cabocla que morava no Castello, e adivinhava a sorte da gente?
Eu estava aqui de licena, e ouvi dizer cousas do arco da velha. Como
sempre tive f em Sybillas, acreditei na cabocla. Que fim levou ella?

Natividade olhou para elle, como receiando se teria adivinhado ento
a consulta que ella fez  cabocla. Pareceu-lhe que no, sorriu e
chamou-lhe incredulo. Ayres negou que fosse incredulo; ao contrario,
sendo tolerante, professava virtualmente todas as crenas deste mundo.
E concluiu:

--Mas, emfim, porque  que chego a proposito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espirito
repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente a esta
senhora, uma confiana que ella no achava agora em ninguem, ou acharia
em poucos. Falou-lhe de uma confidencia, um papel que no mostraria ao
marido.

--Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incommodar a meu
marido? Quando muito, contarei o negocio a mana Perpetua. Acho melhor
no dizer nada a Agostinho.

Ayres concordou que no valia a pena aborrecel-o se era caso disso, e
esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou primeiro a rivalidade
dos filhos, j manifesta em politica, e tratando especialmente de
Paulo, repetiu-lhe a phrase da carta e perguntou o que compria fazer
mais util. Ayres entendeu que que eram ardores da mocidade. Que no
teimasse; teimando, elle mudaria de palavras, mas no de sentimentos.

--Ento cr que Paulo ser sempre isto?

--Sempre, no digo; tambem no digo o contrario. Baroneza, a senhora
exige respostas definitivas, mas diga-me o que  que ha definitivo
neste mundo, a no ser o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha.
Ha quantos dias no sei o que  uma licena?  verdade que no tenho
apparecido. E depois, o prazer da conversao paga bem o das cartas.
Aposto que os homens casados que l vo so de outro parecer?

--Talvez.

--S os solteires podem avaliar as ideias das mulheres. Um viuvo sem
filhos, como eu, vale por um solteiro; minto, aos sessenta annos, como
eu, vale por dous ou trez. Quanto ao joven Paulo, no pense mais no
discurso. tambem eu discursei em rapaz.

--J cuidei em casal-os.

--Casar  bom, assentiu Ayres.

--No digo casar j, mas daqui a dous ou trez annos. Talvez faa
antes uma viagem com elles. Que lhe parece? Vamos l, no me responda
repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que
uma viagem?...

--Acho que uma viagem...

--Acabe.

--As viagens fazem bem, mormente na edade delles. Formam-se para o
anno, no ? Pois ento! Antes de comear qualquer carreira, casados ou
no,  util ver outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de
ir com elles?

--As mes...

--Mas eu tambem (desculpe interrompel-a) mas eu tambem sou seu filho.
No acha que o costume, o bom rosto, a graa, a affeio e todas as
prendas grisalhas que a adornam compem uma especie maternidade? Eu
confesso-lhe que ficaria orpho.

--Pois venha comnosco.

--Ah! baroneza, para mim ja no ha mundo que valha um bilhete de
passagem. Vi tudo por varias linguas. Agora o mundo comea aqui no
caes da Gloria ou na rua do Ouvidor e acaba no cemiterio de S. Joo
Baptista. Ouo que ha uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do
Caj, mas eu sou um velho incredulo, como a senhora dizia ha pouco,
e no acceito essas noticias sem prova cabal e visual, e para ir
averigual-as, faltam-me pernas.

--Sempre gracioso! No as vi treparem agora? Sua irm disse-me outro
dia que o senhor anda como aos trinta annos.

--Rita exagera. Mas, voltando  viagem, a senhora ainda no comprou os
bilhetes?

--No.

--No os encommendou sequer?

--Tambem no.

--Ento, pensemos em outra cousa. Cada dia traz a sua occupao, quanto
mais as semanas e os mezes. Pensemos em outra cousa, e deixe l o Paulo
pedir a republica.

Natividade achou comsigo que elle tinha razo; depois, pensou em
outra cousa, e esta foi a ideia do principio. No disse logo o que
era; preferiu conversar alguns minutos. No era difficil com este
sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair na
banalidade nem subir s nuvens; tinha um modo particular, que no sei
se estava na ideia, se no gesto, se na palavra. No  que falasse mal
de ninguem, e alis seria uma distraco. Quero crr que no dissesse
mal por indifferena ou cautella; provisoriamente, ponhamos caridade.

--Mas, a senhora ainda me no disse o que queria de mim, alm do
conselho. Ou no quer mais nada?

--Custa-me pedir-lhe.

--Pea sempre.

--Sabe que os meus dous gemeos no combinam em nada, ou s em pouco,
por mais esforos que eu tenha feito para os trazer a certa harmonia.
Agostinho no me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma j no me sinto
com foras, e ento pensei que um amigo, um homem moderado, um homem de
sociedade, habil, fino, cautelloso, intelligente, instruido...

--Eu, em summa?

--Adivinhou.

--No adivinhei;  o meu retrato em pessoa. Mas ento que lhe parece
que possa fazer?

--Pde corrigil-os por boas maneiras, fazel-os unidos, ainda quando
discordem, e que discordem pouco ou nada. No imagina; parece at
proposito. No discordam da cr da lua, por exemplo, mas aos onze
annos, Pedro descobriu que as sombras da lua eram nuvens, e Paulo
que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu  que os separei.
Imagine em politica...

--Imagine em amores, diga logo; mas no  propriamente para este caso...

--Oh! no!

--Para os outros  egualmente inutil, mas eu nasci para servir, ainda
inutilmente. Baroneza, o seu pedido equivale a nomear-me aio ou
preceptor... No faa gestos; no me dou por diminuido. Comtanto que
me pague os ordenados... E no se assuste; peo pouco, pague-me em
palavras; as suas palavras so de ouro. J lhe disse que toda a minha
aco  inutil.

--Porque?

-- inutil.

--Uma pessoa de autoridade, como o senhor, pde muito, comtanto que os
ame, por que elles so bons, creia. Conhece-os bem?

--Pouco.

--Conhea-os mais e ver.

Ayres concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova.
Confiava na aco do conselheiro, e para dizer tudo... No sei se
diga... Digo. Natividade contava com a antiga inclinao do velho
diplomata. As cans no lhe tirariam o desejo de a servir. No sei quem
me l nesta occasio. Se  homem, talvez no entenda logo, mas se 
mulher creio que entender. Se ninguem entender, paciencia; baste saber
que elle prometteu o que ella quiz, e tambem prometteu calar-se; foi a
condio que a outra lhe poz. Tudo isso polido, sincero e incredulo.




CAPITULO XXXIX


Um gatuno


Chegaram ao largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ella entrou
pela rua Gonalves Dias, elle enfiou pela da Carioca. No meio desta,
Ayres encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em
direco ao largo. Ayres quiz arrepiar caminho, no de medo, mas de
horror. Tinha horror  multido. Viu que a gente era pouca, cincoenta
ou sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a priso de um homem.
Entrou n'um corredor,  espera que o magote passasse. Duas praas
de policia traziam o preso pelo brao. De quando em quando, este
resistia, e ento era preciso arrastal-o ou foral-o por outro methodo.
Tratava-se, ao que parece, do furto de uma carteira.

--No furtei nada! bradava o preso detendo o passo.  falso!
Larguem-me! sou um cidado livre! Protesto! protesto!

--Siga para a estao!

--No sigo!

--No siga! bradava a gente anonyma. No siga! no siga!

Uma das praas quiz convencer a multido que era verdade, que o sujeito
furtara uma carteira, e o desassocego pareceu minorar um pouco; mas,
indo a praa a andar com a outra e o preso,--cada uma pegando-lhe um
dos braos, a multido recomeou a bradar contra a violencia. O preso
sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora aggressivo, convidava a defeza.
Foi ento que a outra praa desembainhou a espada para fazer um claro.
A gente voou, no airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca
do ninho ou do alimento, voou de atropello, pula aqui, pula alli, pula
acol, para todos os lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu
com as praas. Mas logo os peitos tomaram vingana das pernas, e um
clamor ingente, largo, desaffrontado, encheu a rua e a alma do preso. A
multido fez-se outra vez compacta e caminhou para a estao policial.
Ayres seguiu caminho.

A vozeria morreu pouco a pouco, e Ayres entrou na Secretaria do
Imperio. No achou o ministro, parece, ou a conferencia foi curta.
Certo  que, saindo  praa, encontrou partes do magote que tornavam
commentando a priso e o ladro. No diziam ladro, mas gatuno, fiando
que era mais doce, e tanto bradavam ha pouco contra a aco das praas,
como riam agora das lastimas do preso.

--Ora o sujeito!

Mas ento?... perguntars tu. Ayres no perguntou nada. Ao cabo, havia
um fundo de justia naquella manifestao dupla e contradictoria; foi o
que elle pensou. Depois, imaginou que a grita da multido protestante
era filha de um velho instincto de resistencia  autoridade. Advertiu
que o homem, uma vez creado, desobedeceu logo ao Creador, que alis
lhe dera um paraiso para viver; mas no ha paraiso que valha o gosto
da opposio. Que o homem se acostume s leis, v; que incline o collo
 fora e ao bel-prazer, v tambem;  o que se d com a planta, quando
sopra o vento. Mas que abenoe a fora e cumpra as leis sempre, sempre,
sempre,  violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Ado. Ia
assim cogitando o conselheiro Ayres.

No lhe attribuam todas essas ideias. Pensava assim, como se falasse
alto,  mesa ou na sala de alguem. Era um processo de critica mansa e
delicada, to convencida em apparencia, que algum ouvinte,  cata de
ideias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...

Ia a descer pela rua Sete de Setembro, quando a lembrana da vozeria
trouxe a de outra, maior e mais remota.




CAPITULO XL


Recuerdos


Essa outra vozeria maior e mais remota no caberia aqui, se no fosse
a necessidade de explicar o gesto repentino com que Ayres parou na
calada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os olhos no cho e
a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde elle servira na qualidade de
addido de legao. Estava em casa, de palestra com uma actriz da moda,
pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes
tumultuosas, vibrantes, crescentes...

--Que rumor  este, Carmen? perguntou elle entre duas caricias.

--No se assuste, amigo meu;  o governo que cae.

--Mas eu ouo acclamaes...

--Ento  o governo que sobe. No se assuste. Amanh  tempo de ir
comprimental-o.

Ayres deixou-se ir rio abaixo daquella memoria velha, que lhe surdia
agora do alarido de cincoenta ou sessenta pessoas. Essa especie de
lembranas tinha mais effeito nelle que outras. Recompoz a hora, o
logar e a pessoa da sevilhana. Carmen era de Sevilla. O ex-rapaz ainda
agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia,  despedida, depois de
rectificar as ligas, compr as saias, e cravar o pente no cabello,--no
momento em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graa:

   Tienen las sevillanas,
      En la mantilla,
   Um letrero que dice:
      Viva Sevilla!


No posso dar a toada, mas Ayres ainda a trazia de cr, e vinha a
repetil-a comsigo, vagarosamente, como ia andando. Outrosim, meditava
na ausencia de vocao diplomatica. A asceno de um governo,--de
um regimen que fosse,--com as suas ideias novas, os seus homens
frescos, leis e acclamaes, valia menos para elle que o riso da joven
comediante. Onde iria ella? A sombra da moa varreu tudo o mais, a
rua, a gente, o gatuno, para ficar s deante do velho Ayres, dando aos
quadris e cantarolando a trova andaluza:

   Tienen las sevillanas
      En la mantilla...




CAPITULO XLI


Caso do burro


Se Ayres obedecesse ao seu gosto, e eu a elle, nem elle continuaria a
andar, nem eu comearia este capitulo; ficariamos no outro, sem nunca
mais acabal-o. Mas no ha na memoria que dure, se outro negocio mais
forte puxa pela atteno, e um simples burro fez desapparecer Carmen e
a sua trova.

Foi o caso que uma carroa estava parada, ao p da travessa de S.
Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita
pancada no burro da carroa. Vulgar embora, este espectaculo fez
parar o nosso Ayres, no menos condoido do asno que do homem. A fora
despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou no
sair do logar; mas, no obstante esta superioridade, apanhava que era o
diabo. J havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos
durou esta situao; finalmente o burro preferiu a marcha  pancada,
tirou a carroa do logar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu Ayres uma expresso profunda de
ironia e paciencia. Pareceu-lhe o gesto largo de espjrito invencivel.
Depois leu nelles este monologo: Anda, patro, atalha a carroa de
carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de p no cho para
comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirs que te chame um
nome feio, mas eu no te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido
patro. Emquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o
teu dominio no vale muito, uma vez que me no tiras a liberdade de
teimar...

--V-se, quasi que se lhe ouve a reflexo, notou Ayres comsigo.

Depois ria de si para si, e foi andando. Inventra tanta cousa no
servio diplomatico, que talvez inventasse o monologo do burro. Assim
foi; no lhe leu nada nos olhos, a no ser a ironia e a paciencia, mas
no se pde ter que lhes no dsse uma forma de palavra, com as suas
regras de syntaxe. A propria ironia estaria acaso na retina delle. O
olho do homem serve de photographia ao invisivel, como o ouvido serve
de eco ao silencio. Tudo  que o dono tenha um lampejo de imaginao
para ajudar a memoria a esquecer Caracas e Carmen, os seus beijos e
experiencia politica.




CAPITULO XLII


Uma hypothese


Vises e reminiscencias iam assim comendo o tempo e o espao ao
conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade;
mas no o esqueceu de todo, e as palavras trocadas ha pouco surdiam-lhe
das pedras da rua. Considerou que no perdia muito em estudar os
rapazes. Chegou a apanhar uma hypothese, especie de andorinha, que
avoaa entre arvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa alli, arranca
de novo um surto e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hypothese
vaga e colorida, a saber, que se os gemeos tivessem nascido delle
talvez no divergissem tanto nem nada, graas ao equilibrio do seu
espirito. A alma do velho entrou a ramalhar no sei que desejos
retrospectivos, e a rever essa hypothese, outra Caracas, outra Carmen,
elle pae, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava n'um
farfalhar calado de gestos.




CAPITULO XLIII


O discurso


Natividade  que no teve distraces de especie alguma. Toda ella
estava nos filhos, e agora especialmente na carta e no discurso.
Comeou por no dar resposta s effuses politicas de Paulo; foi um
dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas ferias tinha
esquecido a carta que escrevra. O discurso  que elle no esqueceu,
mas quem  que esquece os discursos que faz? Se so bons, a memoria os
grava em bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O
melhor dos remedios, no segundo caso,  suppol-os excellentes, e, se a
razo no acceita esta imaginao, consultar pessoas que a acceitem, e
crr nellas. A opinio  um velho oleo incorruptivel.

Paulo tinha talento. O discurso daquelle dia podia peccar aqui ou alli
por alguma emphasis, e uma ou outra ideia vulgar e exhausta. Tinha
talento Paulo. Em summa, o discurso era bom. Santos achou-o excellente,
leu-o aos amigos e resolveu transcrevel-o nos jornaes. Natividade no
se oppoz, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.

--Cortadas, porque? perguntou Santos, e ficou esperando a resposta.

--Pois voc no v, Agostinho; estas palavras tem sentido republicano,
explicou ella relendo a phrase que a affligira.

Santos ouviu-as ler, leu-as para si, e no deixou de lhe achar razo.
Entretanto, no havia de as supprimir.

--Pois no se transcreve o discurso.

--Ah! isso no! O discurso  magnifico, e no ha de morrer em S. Paulo;
 preciso que a Crte o leia, e as provincias tambem, e at no se me
daria fazel-o traduzir em francez. Em francez, pde ser que fique ainda
melhor.

--Mas, Agostinho, isto pde fazer mal  carreira do rapaz; o imperador
pde ser que no goste...

Pedro, que assistia desde alguns instantes ao debate, interveiu
docemente para dizer que os receios da me no tinham base; era bom por
a phrase toda, e, a rigor, no difteria muito do que os liberaes diziam
em 1848.

--Um monarchista liberal pde muito bem assignar esse trecho, concluiu
elle depois de reler as palavras do irmo.

--Justamente! assentiu o pae.

Natividade, que em tudo via a inimizade dos gemeos, suspeitou que o
intuito de Pedro fosse justamente comprometter Paulo. Olhou para elle
a ver se lhe descobria essa inteno torcida, mas a cara do filho
tinha ento o aspecto do enthusiasmo. Pedro lia trechos do discurso,
accentuando as bellezas, repetindo as phrases mais novas, cantando as
mais redondas, revolvendo-as na bca, tudo com to boa sombra que a me
perdeu a suspeita, e a reimpresso do discurso foi resolvida. Tambem
se tirou uma edio em folheto, e o pae mandou encadernar ricamente
sete exemplares, que levou aos ministros, e um ainda mais rico para a
Regente.

--Voc diga-lhe, aconselhou Natividade, que o nosso Paulo  liberal
ardente...

--Liberal de 1848, completou Santos lembrando as palavras de Pedro.

Santos cumpriu tudo  risca. A entrega se fez naturalmente, e, no
palacio Isabel, a definio do liberal de 1848 saiu mais viva que
as outras palavras, ou para diminuir o cheiro revolucionario da
phrase condemnada pela mulher, ou porque trazia valor historico.
Quando elle voltou a casa, a primeira cousa que lhe disse foi que a
Regente perguntara por ella, mas apesar de lisongeada com a lembrana,
Natividade quiz saber da impresso que lhe fizera o discurso, se j o
lra.

--Parece que foi boa. Disse-me que j havia lido o discurso. Nem por
isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de Paulo eram bons; que, se
lhes notavamos certo ardor, comprehendiamos sempre que elles eram os de
um liberal de 1848...

--Papae disse isso? perguntou Pedro.

--Porque no, se  verdade? Paulo  o que se pde chamar um liberal de
1848, repetiu Santos querendo convencer o filho.




CAPITULO XLIV


O salmo


Pelas frias  que Paulo soube da interpretao que o pae dera 
Regente daquelle trecho do discurso. Protestou contra ella, em casa;
quiz fazel-o tambem em publico, mas Natividade interveiu a tempo. Ayres
pz agua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:

--No vale a pena, moo; o que importa  que cada um tenha a suas
ideias e se bata por ellas, at que ellas venam. Agora que outros as
interpretem mal  cousa que no deve affligir o autor.

--Affligir, sim, senhor; pde parecer que  assim mesmo... Vou escrever
um artigo a proposito de qualquer cousa, e no deixarei duvidas...

--Para que? inquiriu Ayres.

--No quero que supponham...

--Mas quem duvida dos seus sentimentos?

--Podem duvidar.

--Ora, qual! Em todo caso, v primeiro almoar commigo um dia destes...
Olhe, v domingo, e seu irmo Pedro tambem. Seremos trez  meza, um
almoo de rapazes. Beberemos certo vinho que me deu o ministro da
Allemanha...

No domingo fram os dous ao Cattete, menos pelo almoo que pelo
amphytrio. Ayres era amado dos dous; gostavam de ouvil-o, de
interrogal-o, pediam-lhe anecdotas politicas de outro tempo, descripo
de festas, noticias de sociedade.

--Vivam os meus dous jovens, disse o conselheiro, vivam os meus dous
jovens que no esqueceram o amigo velho. Papae como est? E mame?

--Esto bons, disse Pedro.

Paulo accrescentou que ambos lhe mandavam lembranas.

--E tia Perpetua?

--Tambem est boa, disse Paulo.

--Sempre com a homoepathia e as suas historias do Paraguay,
accrescentou Pedro.

Pedro estava alegre, Paulo preoccupado. Depois das primeiras saudaes
e noticias, Ayres notou essa differena, e achou que era bom para tirar
a monotonia da semelhana; mas, emfim, no queria caras fechadas, e
indagou do estudante de direito o que  que elle tinha.

--Nada.

--No pde ser; acho-lhe um ar meio sorumbatico. Pois eu acordei
disposto a rir, e desejo que ambos riam commigo.

Paulo rosnou uma palavra que nenhum delles entendeu e saccou do bolso
um mao de folhas de de papel. Era um artigo...

--Um artigo?

--Um artigo em que tiro todas as duvidas a meu respeito, e peo ao
senhor que me oua,  pequeno. Escrevi-o a noite passada.

Ayres propoz ouvil-o depois do almoo, mas o rapaz pediu que fosse
logo, e Pedro concordou com esto alvitre, allegando que, sobre o
almoo, podia perturbar a digesto, como ruim droga que devia ser,
naturalmente. Ayres metteu o caso  bulha e acceitou ouvir o artigo.

-- pequeno, sete tiras.

--Letra miuda?

--No, senhor; assim, assim.

Paulo leu o artigo. Tinha por epigraphe isto de Ams: Ouvi esta
palavra, vaccas gordas que estaes no monte de Samaria... As vaccas
gordas eram o pessoal do regimen, explicou Paulo. No atacava o
imperador, por atteno  me, mas com o principio e o pessoal era
violento e aspero. Ayres sentiu-lhe aquillo que, em tempo, se chamou a
bossa da combatividade. Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de mofa:

--Conheo tudo isso, so ideias paulistas.

--As tuas so ideias coloniaes, replicou Paulo.

Deste introito podiam nascer peores palavras, mas felizmente um criado
chegou  porta annunciando que o almoo estava na mesa. Ayres ergueu-se
e disse que  mesa daria a sua opinio.

--Primeiro o almoo, tanto mais que temos um salmo, cousa especial.
Vamos a elle.

Ayres queria cumprir deveras o officio que acceitara de Natividade.
Quem sabe se a ideia de pae espiritual dos gemeos, pae de desejo
somente, pae que no foi, que teria sido, no lhe dava uma affeio
particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem  fra de
proposito que elle buscasse smente materia nova para as paginas nuas
de seu _Memorial._

Ao almoo, ainda se falou do artigo, Paulo com amor, Pedro com desdem,
Ayres sem uma nem outra cousa. O almoo ia fazendo o seu officio. Ayres
estudava os dous rapazes e suas opinies. Talvez estas no passassem de
uma erupo de pelle da edade. E sorria, fazia-os comer e beber, chegou
a falar de moas, mas aqui os rapazes, vexados e respeitosos, no
acompanharam o ex-ministro. A politica veiu morrendo. Na verdade, Paulo
ainda se declarou capaz de derribar a monarchia com dez homens, e Pedro
de extirpar o germen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem
mais decreto que uma caarola, nem mais homens que o seu cozinheiro,
envolveu os dous regimens no mesmo salmo delicioso.




CAPITULO XLV


Musa, canta...


No fim do almoo, Ayres deu-lhes uma citao de Homero, alis duas, uma
para cada um, dizendo-lhes que o velho poeta os cantara separadamente,
Paulo no comeo da _Illiada_:

--Musa, canta a colera de Achilles, filho de Peleu, colera funesta aos
gregos, que precipitou  estancia de Pluto tantas almas vlidas de
heroes, entregues os corpos s aves e aos ces...

Pedro estava no comeo da _Odyssea_:

--Musa, canta aquelle heroe astuto, que errou por tantos tempos,
depois de destruida a santa Illion...

Era um modo de definir o caracter de ambos, e nenhum delles levou
a mal a applicao. Ao contrario, a citao poetica valia por um
diploma particular. O facto  que ambos sorriram de f, de acceitao,
de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou syllaba com que
desmentissem o adequado dos versos. Que elle, o conselheiro, depois de
os citar em prosa nossa, repetiu-os no proprio texto grego e os dous
gemeos sentiram-se ainda mais picos, to certo  que traduces no
valem originaes. O que elles fizeram foi dar um sentido deprimente ao
que era applicavel ao irmo:

--Tem razo, Sr. conselheiro,--disse Paulo,--Pedro  um velhaco...

--E voc  um furioso...

--Em grego, meninos, em grego e em verso, que  melhor que a nossa
lingua e a prosa do nosso tempo.




CAPITULO XLVI


Entre um acto e outro


Aquelles almoos repetiram-se, os mezes passaram, vieram frias,
acabaram-se frias, e Ayres penetrava bem os gemeos. Escrevia-os no
_Memorial_, onde se l que a consulta ao velho Placido dizia respeito
aos dous, e mais a ida  cabocla do Castello e a briga antes de nascer,
casos velhos e obscuros que elle relembrou, ligou e decifrou.

Emquanto os mezes passam, faze de conta que ests no theatro, entre um
acto e outro, conversando. L dentro preparam a scena, e os artistas
mudam de roupa. No vs l; deixa que a dama, no camarim, ria com os
seus amigos o que chorou c fra com os espectadores. Quanto ao jardim
que se est fazendo, no te exponhas a vel-o pelas costas;  pura lona
velha sem pintura, porque s a parte do espectador  que tem verdes e
flores. Deixa-te estar c fra no camarote desta senhora. Examina-lhe
os olhos; tem ainda as lagrimas que lhe arrancou a a dama da pea.
Fala-lhe da pea e dos artistas. Que  obscura. Que no sabem os
papeis. Ou ento que que  tudo sublime. Depois percorre os camarotes
com o binoculo, distribue justia, chama bellas s bellas e feias s
feias, e no te esqueas de contar anecdotas que desfeiem as bellas,
e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e
as anecdotas engraadas. Tambem as ha banaes, mas a mesma banalidade
na bca de um bom narrador faz-se rara e preciosa. E vers como as
lagrimas sccam inteiramente, e a realidade substitue a fico. Falo
por imagem; sabes que tudo aqui  verdade pura e sem choro.




CAPITULO XLVII


S. Matheus, IV, 1-10


Se ha muito riso quando um partido sobe, tambem ha muita lagrima do
outro que desce, e do riso e da lagrima se faz o primeiro dia da
situao, como no Genesis. Venhamos ao evangelista que serve de titulo
ao capitulo. Os liberaes fram chamados ao poder, que os conservadores
tiveram de deixar. No  mister dizer que o abatimento de Baptista foi
enorme.

--Justamente agora que eu tinha esperanas, disse elle  mulher.

--De qu?

--Ora de qu! de uma presidencia. No disse nada, porque podiam falhar,
mas  quasi certo que no. Tive duas conferencias, no com ministros,
mas com pessoa influente que sabia, e era negocio de esperar um mez ou
dous...

--Presidencia boa?

--Boa.

--Se voc tivesse trabalhado bem...

--Se tivesse trabalhado bem, podia estar j de posse, mas vinhamos
agora a toque de caixa.

--Isso  verdade, concordou D. Claudia olhando para o futuro.

Baptista passeava, as mos nas costas, os olhos no cho, suspirando,
sem prever o tempo em que os conservadores tornariam ao poder. Os
liberaes estavam fortes e resolutos. As mesmas ideias pairavam na
cabea de D. Claudia. Este casal s no era egual na vontade; as ideias
eram muitas vezes taes que, se apparecessem c fra, ninguem diria
quaes eram as delle, nem quaes as della, pareciam vir de um cerebro
unico. Naquelle momento nenhum achava esperana immediata ou remota.
Uma s ideia vaga... E foi aqui que a vontade de D. Claudia fincou os
ps no cho e cresceu. No falo s por imagem; D. Claudia levantou-se
da cadeira, rapida, e disparou esta pergunta ao marido:

--Mas, Baptista, voc o que  que espera mais dos conservadores?

Baptista parou com um ar digno e respondeu com simplicidade:

--Espero que subam.

--Que subam? Espera oito ou dez annos, o fim do seculo, no ? E nessa
occasio voc sabe se ser aproveitado? Quem se lembrar de voc?

--Posso fundar um jornal.

--Deixe-se de jornaes. E se morrer?

--Morro no meu posto de honra.

D. Claudia olhou fixa para elle. Os seus olhos miudos enterravam-se
pelos delle abaixo, como duas verrumas pacientes. Subito, levantando as
mos abertas:

--Baptista, voc nunca foi conservador!

O marido empallideceu e recuou, como se ouvira a propria ingratido de
um partido. Nunca fra conservador? Mas que era elle ento, que podia
ser neste mundo? Que  que lhe dava a estima dos seus chefes? No lhe
faltava mais nada... D. Claudia no attendeu a explicaes; repetiu-lhe
as palavras, e accrescentou.

--Voc estava com elles, Como a gente est n'um baile, onde no 
preciso ter as mesmas ideias para danar a mesma quadrilha.

Baptista sorriu leve e rapido; amava as imagens graciosas e aquella
pareceu-lhe graciosissima, tanto que concordou logo; mas a sua estrella
inspirou-lhe uma refutao prompta.

--Sim, mas a gente no dana com ideias, dana com pernas.

--Dance com que fr, a verdade  que todas as suas ideias iam para os
liberaes; lembre-se que os dissidentes na provincia accusavam a voc de
apoiar os liberaes...

--Era falso; o governo  que me recommendava moderao. Posso mostrar
cartas.

--Qual moderao! Voc  liberal.

--Eu liberal?

--Um liberalo, nunca foi outra cousa.

--Pense no que diz, Claudia. Se alguem a ouvir  capaz de crr, e dahi
a espalhar...

--Que tem que espalhe? Espalha a verdade, espalha a justia, porque os
seus verdadeiros amigos no o ho de deixar na rua, agora que tudo se
organisa. Voc tem amigos pessoaes no ministerio; porque  que os no
procura?

Baptista recuou com horror. Isto de subir as escadas do poder e
dizer-lhe que estava s ordens no era concebivel sequer. D. Claudia
admittiu que no, mas um amigo faria tudo, um amigo intimo do governo
que dissesse ao Ouro-Preto: Visconde, voc porque  que no convida
o Baptista? Foi sempre liberal nas ideias. D-lhe uma presidencia,
pequena que seja, e...

Baptista fez um gesto de hombros, outro de mo que se calasse. A
mulher no se calou; foi dizendo as mesmas cousas, agora mais graves
pela insistencia e pelo tom. Na alma do marido a catastrophe era j
tremenda. Pensando bem, no recusaria passar o Rubicon; s lhe faltava
a fora necessaria. Quizera querer. Quizera no ver nada, nem passado,
nem presente, nem futuro, no saber de homens nem de cousas, e obedecer
aos dados da sorte, mas no podia.

E faamos justia ao homem. Quando elle pensava s na fidelidade aos
amigos sentia-se melhor; a mesma f existia, o mesmo costume, a mesma
esperana. O mal vinha de olhar para o lado de l; e era D. Claudia que
lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha certa e
longa, a presidencia, o ministerio... Elle torcia os olhos e ficava.

A ss comsigo, Baptista pensou muita vez na situao pessoal e
politica. Apalpava-se moralmente. Claudia podia ter razo. Que  que
havia nelle propriamente conservador, a no ser esse instincto de
toda creatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador em
politica, porque o pae o era, o tio, os amigos da casa, o vigario da
parochia, e elle comeou na escola a execrar os liberaes. E depois no
era propriamente conservador, mas _saquarema_, como os liberaes eram
_luzias._ Baptista agarrava-se agora a estas designaes obsoletas e
deprimentes que mudavam o estylo aos partidos; donde vinha que hoje
no havia entre elles o grande abysmo de 1842 e 1848. E lembrava-se
do visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso
no haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e
vice-versa. E evocava exemplos, o partido progressista, Olinda, Nabuco,
Zacharias, que fram elles seno conservadores que comprehenderam
os tempos novos e tiraram s ideias liberaes aquelle sangue das
revolues, para lhes pr uma cr viva, sim, mas serena. Nem o mundo
era dos emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha.
Justamente nessa occasio appareceu Flora. O pae abraou-a com amor, e
perguntou-lhe se queria ir para alguma provincia, sendo elle presidente.

--Mas os conservadores no cairam?

--Cairam, sim, mas suppe que...

--Ah! no, papae!

--No, porqu?

--No desejo sair do Rio de Janeiro.

Talvez o Rio de Janeiro para ella fosse Botafogo, e propriamente a
casa de Natividade. O pae no apurou as causas da recusa; suppol-as
politicas, e achou novas foras para resistir s tentaes de D.
Claudia: Vae-te, Satanaz; porque escripto est: Ao Senhor teu Deus
adorars, e a elle servirs. E seguiu-se como na Escriptura: Ento
o deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram. Os anjos
fram s um, que valia por muitos; e o pae lhe disse beijando-a
carinhosamente:

--Muito bem, muito bem, minha filha.

--No , papae?

No, no foi a filha que tolheu a desero do pae. Ao contrario.
Baptista, se tivesse de ceder, cederia  mulher ou ao Diabo, synonimos
neste capitulo. No cedeu de fraqueza. No tinha a fora precisa de
trahir os amigos, por mais que estes parecessem havel-o abandonado.
Ha dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos
lucrativas, moralmente falando. No valem s stoicos e martyres.
Virtudes meninas tambem so virtudes.  certo, porm, que a linguagem
delle, em relao aos liberaes, no era j de odio ou impaciencia;
chegava  tolerancia, roava pela justia. Concordava que a alternao
dos partidos era um principio de necessidade publica. O que fazia era
animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D. Claudia opinava o
contrario; para ella, os liberaes iriam ao fim do seculo. Quando muito,
admittiu que na primeira entrada no dssem logar a um converso da
ultima hora; era preciso esperar um anno ou dous, uma vaga na camara,
uma commisso, a vice-presidencia do Rio...




CAPITULO XLVIII


Terpsichore


Nenhuma dessas cousas preoccupava Natividade. Mais depressa cuidaria
do baile da ilha Fiscal, que se realisou em novembro para honrar os
officiaes chilenos. No  que ainda danasse, mas sabia-lhe bem ver
danar os outros, e tinha agora a opinio de que a dana  um prazer
dos olhos. Esta opinio  um dos effeitos daquelle mau costume de
envelhecer. No pegues tal costume, leitora. Ha outros tambem ruins,
nenhum peor, este  o pessimo. Deixa l dizerem philosophos que a
velhice  um estado util pela experiencia e outras vantagens. No
envelheas, amiga minha, por mais que os annos te convidem a deixar a
primavera; quando muito, acceita o estio. O estio  bom, callido, as
noites so breves,  certo, mas as madrugadas no trazem neblina, e o
cu apparece logo azul. Assim danars sempre.

Bem sei que ha gente para quem a dana  antes um prazer dos olhos. Nem
as bailadeiras so outra cousa mais que mulheres de officio. Tambem
eu, se  licito citar alguem a si mesmo, tambem eu acho que a dana 
antes prazer dos olhos que dos ps, e a razo no  s dos annos longos
e grisalhos, mas tambem outra que no digo, por no valer a pena. Ao
cabo, no estou contando a minha vida, nem as minhas opinies, nem
nada que no seja das pessoas que entram no livro. Estas  que preciso
pr aqui integralmente com as suas virtudes e imperfeies, se as tm.
Entende-se isto, sem ser preciso notal-o, mas no se perde nada em
repetil-o.

Por exemplo, D. Claudia. tambem ella pensava no baile da ilha Fiscal,
sem a menor ideia de danar, nem a razo esthetica da outra. Para ella,
o baile da ilha era um facto politico, era o baile do ministerio,
uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma
presidencia. Via-se j com a familia imperial. Ouvia a princeza:

--Como vae, D. Claudia?

--Perfeitamente bem, Serenissima senhora.

E Baptista conversaria com o imperador, a um canto, deante dos olhos
invejosos que tentariam ouvir o dialogo,  fora de os fitarem de
longe. O marido  que... No sei que diga do marido relativamente ao
baile da ilha. Contava l ir, mas no se acharia a gosto; pde ser que
traduzissem esse acto por meia converso. No  que s fossem liberaes
ao baile, tambem iriam conservadores, e aqui cabia bem o aphorismo de
D. Claudia que no  preciso ter as mesmas ideias para danar a mesma
quadrilha.

Santos  que no precisava de ideias para danar. No danaria sequer.
Em moo danou muito, quadrilhas, polkas, valsas, a valsa arrastada
e a valsa pulada, como diziam ento, sem que eu possa definir melhor
a differena; presumo que na primeira os ps no saiam de cho, e na
segunda no caiam do ar. Tudo isso at os vinte e cinco annos. Ento os
negocios pegaram delle e o metteram naquella outra contradana, em que
nem sempre se volta ao mesmo logar ou nunca se se delle. Santos saiu
e j sabemos onde est. UItimamente teve a fantasia de ser deputado.
Natividade abanou a cabea, por mais que elle explicasse que no queria
ser orador nem ministro, mas to smente fazer da camara um degrau para
o senado, onde possuia amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.

--Eterno? interrompeu ella com um sorriso fino e descorado.

--Vitalicio, quero dizer.

Natividade teimou que no, que a posio delle era commercial e
bancaria. Accrescentou que politica era uma cousa e industria outra.
Santos replicou, citando o baro de Mau, que as fundiu ambas. Ento a
mulher declarou por um modo secco e duro que aos sessenta annos ninguem
comea a ser deputado.

--Mas  de passagem; os senadores so edosos.

--No, Agostinho, concluiu a baroneza com um gesto definitivo.

No conto Ayres, que provavelmente danaria, a despeito dos annos;
tambem no falo de D. Perpetua, que nem iria l. Pedro iria, e 
natural que danasse, e muito, no obstante o afinco e paixo dos
seus estudos. Vivia enfeitiado pela medicina. No quarto de dormir,
alm do busto de Hyppocrates, tinha os retratos de algumas summidades
medicas da Europa, muito esqueleto gravado, muita molestia pintada,
peitos cortados verticalmente para se lhe verem os vasos, cerebros
descobertos, um cancro de lingua, alguns aleijes, cousas todas que a
me, por seu gosto mandaria deitar fra, mas era a sciencia do filho, e
bastava. Contentava-se de no olhar para os quadros.

Quanto a Flora, ainda verde para os meneios de Terpsichore, era
acanhada ou arrepiada, como dizia a me. E isto era o menos; o mais
era que com pouco se enfadaria, e, se no pudesse vir logo para casa,
ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha, teria
o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse
o mar, e se consolasse com a esperana de o mirar, advertiria tambem
que a noite escura tolheria a consolao. Que multido de dependencias
na vida, leitor! Umas cousas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se,
confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder a si.

Mas donde viria o tedio a Flora, se viesse? Com Pedro no baile, no;
este era, como sabes, um dos dous que lhe queriam bem. Salvo se ella
queria principalmente ao que estava em S. Paulo. Concluso duvidosa,
pois no  certo que preferisse um a outro. Se j a vimos falar a
ambos com a mesma sympathia, o que fazia agora a Pedro na ausencia de
Paulo, e faria a Paulo na ausencia de Pedro, no me faltar leitora que
presuma um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que no
fosse ao baile, algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca
que o corao verde e quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem
terceiro, nem quarto, nem quinto, ninguem mais. Uma exquisitona, como
lhe chamava a me.

No importa; a exquisitona foi ao baile da ilha Fiscal com a me e o
pae. Assim tambem Natividade, o marido e Pedro, assim Ayres, assim a
demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bella ideia do
governo, leitor. Dentro e fra, do mar e de terra, era como ura sonho
veneziano; toda aquella sociedade viveu algumas horas sumptuosas, novas
para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,--ou, quando
menos, para a nossa amiga Natividade--e para o conservador Baptista.

Aquella considerava o destino dos filhos,--cousas futuras! Pedro bem
podia inaugurar, como ministro, o sculo XX e o terceiro reinado.
Natividade imaginava outro e maior baile naquella mesma ilha. Compunha
a ornamentao, via as pessoas e as danas, toda uma festa magna que
entraria na historia. Tambem ella alli estaria, sentada a um canto,
sem se lhe dar do peso dos annos, uma vez que visse a grandeza e a
prosperidade dos filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo
adiante, descontando no presente a felicidade futura, caso viesse a
morrer antes das prophecias, Tinha a mesma sensao que ora lhe dava
aquella cesta de luzes no meio da escurido tranquilla do mar.

A imaginao de Baptista era menos longa que a de Natividade. Quero
dizer que ia antes do principio do seculo, Deus sabe se antes do fim
do anno. Ao som da musica,  vista das galas, ouvia umas feiticeiras
cariocas, que se pareciam com as escossezas; pelo menos, as palavras
eram analogas s que saudaram Macbeth:--Salve, Baptista, ex-presidente
de provincia!--Salve, Baptista, proximo presidente de provincia!--
Salve, Baptista, tu sers ministro um dia! A linguagem dessas
prophecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade  que elle se
arrependia de as escutar, e forcejava por traduzil-as no velho idioma
conservador, mas j lhe iam faltando diccionarios. A primeira palavra
ainda trazia o sotaque antigo: Salve, Baptista, ex-presidente de
provincia! mas a segunda e a ultima eram ambas daquella outra lingua
liberal, que sempre lhe pareceu lingua de preto. Emfim, a mulher,
como lady Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela bca, isto
, que j sentia em si aquellas futuraes. O mesmo lhe repetiu na
manh seguinte, em casa. Baptista, com um sorriso disfarado, descria
das feiticeiras, mas a memoria guardava as palavras da ilha: Salve,
Baptista, proximo presidente! Ao que elle respondia com um suspiro:
No, no, filhas do Diabo...

Ao contrario do que ficou dito atraz, Flora no se aborreceu na ilha.
Conjecturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razes
que l ficara, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em
verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a visinhana do mar,
os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampies de
gaz, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis ahi aspectos novos
que a encantaram durante aquellas horas rapidas.

No lhe faltavam pares, nem conversao, nem alegria alheia e propria.
Toda ella compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, corria,
esquecia-se do resto para se metter comsigo. Tambem invejava a princeza
imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de
despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar s, no
mais recondito do pao, fartando-se de contemplao ou de musica. Era
assim que Flora definia o officio de governar. Taes ideias passavam e
tornavam. De uma vez alguem lhe disse, como para lhe dar fora: Toda
alma livre  imperatriz!

No foi outra voz, semelhante  das feiticeiras do pae nem s que
falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. No; seria pr
aqui muitas vozes de mysterio, cousa que, alm do fastio da repetio,
mentiria  realidade dos factos. A voz que falou a Flora saiu da bca
do velho Ayres, que se fra sentar ao p d'ella e lhe perguntara:

--Em que  que est pensando?

--Em nada, respondeu Flora.

Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moa a expresso de alguma
cousa e insistia por ella. Flora disse como pde a inveja que lhe
mettia a vista da princeza, no para brilhar um dia, mas para fugir ao
brilho e ao mando, sempre que quizesse ficar subdita de si mesma. Foi
ento que elle lhe murmurou, como acima:

--Toda alma livre  imperatriz.

A phrase era boa, sonora, parecia conter a maior somma de verdade que
ha na terra e nos planetas. Valia por uma pagina de Plutarcho. Se algum
politico a ouvisse poderia guardal-a para os seus dias de opposio
ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que elle mesmo
escreveu no _Memorial._ Com esta nota: A meiga creatura agradeceu-me
estas cinco palavras.




CAPITULO XLIX


Taboleta velha


Toda a gente voltou da ilha com o baile na cabea muita sonhou com
elle, alguma dormiu mal ou nada. Ayres foi dos que acordaram tarde;
eram onze horas. Ao meio dia almoou; depois escreveu no _Memorial_ as
impresses da vespera, notou varias espaduas, fez reparos politicos e
acabou com as palavras que l ficam no cabo do outro capitulo. Fumou,
leu, at que resolveu ir  rua do Ouvidor. Como chegasse  vidraa
de uma das janellas da frente, viu  porta da confeitaria uma figura
inesperada, o velho Custodio, cheio de melancolia. Era to novo o
espectaculo que alli se deixou estar por alguns instantes; foi ento
que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com elle entre as cortinas,
e emquanto Ayres voltava para dentro, Custodio atravessou a rua e
entrou-lhe em casa.

--Que suba, disse o conselheiro ao criado.

Custodio foi recebido com a benevolencia de outros dias e um pouco mais
de interesse. Ayres queria saber o que  que o entristecia.

--Vim para contal-o a V.-Ex.;  a taboleta.

--Que taboleta?

--Queira V.-Ex. ver por seus olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o
favor de ir  janella.

--No vejo nada.

--Justamente,  isso mesmo. Tanto me aconselharam que fizesse reformar
a taboleta que afinal consenti, e fil-a tirar por dous empregados. A
visinhana veiu para a rua assistir ao trabalho e parecia rir de mim.
J tinha falado a um pintor da rua da Assembla; no ajustei o preo
porque elle queria ver primeiro a obra. Hontem,  tarde, l foi um
caixeiro, e sabe V.-Ex. o que me mandou dizer o pintor? Que a taboa
est velha, e precisa outra; a madeira no aguenta tinta. L fui s
carreiras. No pude convencel-o de pintar na mesma madeira; mostrou-me
que estava rachada e comida de bichos. Pois c debaixo no se via.
Teimei que pintasse assim mesmo; respondeu-me que era artista e no
faria obra que se estragasse logo.

--Pois reforme tudo. Pintura nova em madeira velha no vale nada. Agora
ver que dura pelo resto da nossa vida.

--A outra tambem durava; bastava s avivar as letras.

Era tarde, a ordem fora expedida, a madeira devia estar comprada,
serrada e pregada, pintado o fundo para ento se desenhar e pintar
o titulo. Custodio no disse que o artista lhe perguntra pela cr
das letras, se vermelha, se amarella, se verde em cima de branco ou
vice-versa, e que elle, cautelosamente, indagra do preo de cada cr
para escolher as mais baratas. No interessa saber quaes fram.

Quaesquer que fossem as cres, eram tintas novas, tboas novas, uma
reforma que elle, mais por economia que por affeio, no quizera
fazer; mas a affeio valia muito. Agora que ia trocar de taboleta
sentia perder algo do corpo,--cousa que outros do mesmo ou diverso ramo
de negocio no comprehenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e
fazer crescer com ellas a nomeada. So naturezas. Ayres ia pensando em
escrever uma Philosophia das Taboletas, na qual poria taes e outras
observaes, mas nunca deu comeo a obra.

--V.-Ex. hade-me perdoar o incommodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe
isto, mas V.-Ex.  sempre to bom commigo, fala-me com tanta amizade,
que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?

--Sim, homem de Deus.

--Comquanto V.-Ex. approve a reforma da taboleta, sentir commigo a
separao da outra, a minha amiga velha, que nunca me deixou, que eu,
nas noites de luminarias, por S. Sebastio e outras, fazia apparecer
aos olhos da gente. V.-Ex., quando se aposentou, veiu achal-a no mesmo
logar em que a deixou por occasio de ser nomeado. E tive alma para me
separar della!

--Est bom, l vae; agora  receber a nova, e ver como daqui a pouco
so amigos.

Custodio saiu recuando, como era seu costume, e desceu tropego as
escadas. Deante da confeitaria deteve-se um instante, para ver o logar
onde estivera a taboleta velha. Deveras, tinha saudades.




CAPITULO L


O tinteiro de Evaristo


--...Este caso prova que tudo se pde amar muito bem, ainda um pedao
de madeira velha. Creiam que no era s a despeza que elle naturalmente
sentia, eram tambem saudades. Ninguem se despega assim de um objecto
to intimo, que faz parte integral da casa e da pelle, porque a
taboleta no foi sequer arriada um dia. Custodio no teve occasio de
ver se estava estragada. Vivia alli como as portadas e a parede.

Era ao jantar, em Botafogo. S quatro pessoas, as duas irms, Santos e
Ayres. Pedro fra jantar a S. Clemente, com a familia Baptista.

D. Perpetua approvou os sentimentos do confeiteiro. Citou, a proposito,
o tinteiro de Evaristo. A irm sorriu para o marido, e este para a
mulher, como se dissessem: l vem elle! Era um tinteiro que servira
ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regencia, obra simples,
feita de barro, egual aos tinteiros que a gente ch comprava nas lojas
de papel daquelle e deste tempo. O sogro de D. Perpetua, que lh'o dera
em lembrana, tivera um da mesma edade, massa e feio.

--Veiu assim de mo em mo parar s minhas. No chega aos tinteiros
do mano Agostinho nem de Natividade, que so luxuosos, mas tem grande
valor para mim.

--Sem duvida, concordou Ayres, valor historico e politico.

--Meu sogro dizia que delle sairam os grandes artigos da _Aurora._ A
falar verdade, eu nunca li taes artigos, mas meu sogro era homem de
verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvil-a a outros, e fazia-lhe
louvores que no acabavam mais...

Natividade buscou desviar a conversao para o baile da vespera. Tinham
j falado delle, mas no achou outro derivativo. Entretanto, o tinteiro
ainda ficou algum tempo. No era s uma das lembranas de D. Perpetua,
reliquia de familia, era tambem uma de suas ideias. Prometteu mostral-o
ao conselheiro. Elle prometteu vel-o com muito gosto. Confessou que
tinha venerao aos objectos de uso dos grandes homens. Emfim, o jantar
acabou, e elles passaram ao salo. Ayres, falando da enseada:

--Aqui est uma obra, que  mais velha que o tinteiro do Evaristo e a
taboleta do Custodio, e, no obstante, parece mais moa, no  verdade,
D. Perpetua? A noite  clara e quente; podia ser escura e fria, e o
effeito seria o mesmo. A enseada no differe de si. Talvez os homens
venham algum dia atulhal-a de terra e pedras para levantar casas em
cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corrida de
cavallos. Tudo  possvel debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade,
baro,  que morreremos antes.

--Nao fale em morte, conselheiro.

--A morte  uma hypothese, redarguiu Ayres, talvez uma lenda. ninguem
morre de uma boa digesto, e os seus charutos so deliciosos.

--Estes so novos. Perecem-lhe bons?

--Deliciosos.

Santos estimou ouvir este louvor; achava-lhe uma inteno directa 
sua pessoa, aos seus meritos, ao seu nome,  posio que tinha na
sociedade,  casa,  chacara, ao Banco, aos colletes.  talvez muito;
seria um modo emphatico de explicar a fora da ligao delle aos
charutos. Valiam pela taboleta e pelo tinteiro, com a differena que
estes significavam s affeico e venerao, e aquelles, valendo pelo
sabor e pelo preo, tinham a superioridade do milagre, pela reproduco
de todos os dias.

Taes eram as suspeitas que vagavam no cerebro de Ayres, emquanto elle
olhava mansamente para o amphytrio. Ayres no podia negar a si mesmo a
averso que este lhe inspirava. No lhe queria mal, de certo; podia at
querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a pessoa, eram as
sensaes, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia mal.



CAPITULO LI


Aqui presente


Perto das nove horas, ou logo depois, chegou Pedro com o casal Baptista
e Flora.

--Vimos trazer o seu menino, disse Baptista a Natividade.

--Obrigado, doutor, acudiu Santos, mas elle je no est em edade de
se perder por essas ruas, e, se se perder, acha-se logo, accrescentou
sorrindo.

Natividade no gostou da graa, tratando-se do filho e ao p della. Era
talvez excesso de pudor. Ha muito excesso nesse sentido, e o acertado
 perdoal-o. Ha tambem excessos contrarios, condescendencias faceis,
pessoas que entram com prazer na troca de alluses picantes. tambem se
devem perdoar. Em summa, o perdo chega ao cu. Perdoai-vos uns aos
outros,  a lei do Evangelho.

Elle, o rapaz,  que no ouviu nada; interrompera a conversa que trazia
com Flora, e trocadas algumas palavras, os dous fram reatar o fio a um
canto. Ayres reparou na attitude de ambos; ninguem mais lhes prestava
atteno. Ao cabo, a conversa era em voz surda; no os poderiam ouvir.
Ella escutava, elle falava; depois era o contrario, ella  que falava,
elle  que ouvia, to absortos que pareciam no attender a ninguem, mas
attendiam. Possuiam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados.
Que conversassem de amores,  possivel; mas que conspiravam,  certo.
Quanto  materia da conspirao, podereis sabel-a depois, brevemente,
daqui a um capitulo. O proprio Ayres no descobriu nada, por mais que
quizesse fartar os olhos naquelle dialogo de mysterios. Persuadiu-se
que no era grave, porque elles sorriam com frequencia; mas podia
ser intimo, escondido, pessoal, e acaso extranho. Suppe um fio de
anecdotas ou uma historia comprida, cousa alheia; ainda assim podia ser
delles smente, porque ha estados da alma em que a materia da narrao
 nada, o gosto de a fazer e de a ouvir  que  tudo. Tambem podia ser
isto.

Vde, porm, como a natureza encaminha as cousas minimas ou maximas,
mormente se a fortuna a ajuda. A conversao to doce, ao que parecia,
comeou por um enfado. A causa foi uma carta de Paulo, escripta ao
irmo, e que este se lembrou de mostrar a Flora, dizendo-lhe que tambem
a mostrra  me, e a me se zangra muito.

--Com o senhor?

--Com Paulo.

--Mas que dizia a carta?

Pedro leu-lhe o ponto principal, que era quasi toda a carta; falava da
questo militar. J havia a questo militar, um conflicto de generaes
e ministros, e a linguagem de Paulo era contra os ministros.

--Mas porque  que o senhor foi mostrar essa carta a sua me?

--Mame quiz saber o que  que elle me dizia.

--E sua me zangou-se, ahi est; vae talvez reprehendel-o.

--Tanto melhor; Paulo precisa ser emendado; mas, diga-me, porque  que
a senhora defende sempre a meu irmo?

--Para ter o direito de defender tambem ao senhor.

--Ento elle j lhe tem falado mal de mim?

Flora quiz dizer que sim, depois que no, afinal calou. Desconversou,
perguntando porque elles se davam mal. Pedro negou que se dessem mal.
Ao contrario, viviam bem. No teriam as mesmas opinies, e tambem podia
ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que ambos a amavam era
uma virgula; Pedro pingou o ponto final. Esse astuto era tambem timido.
Mais tarde, comprehendeu que, calando, andou melhor, e deu a si mesmo o
applauso da escolha; mas era falso, no escolhera nada. No digo isto
para fazel-o desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e 
mister deixar aqui esta reflexo.

Veiu a zanga. Flora no replicou mais nada, e, por seu gosto, no teria
jantado, a tal ponto sentia piedade do outro. Felizmente, o outro era
este mesmo, aqui presente, com os olhos presentes, as mos presentes,
as palavras presentes. No tardou que a zanga fugisse deante da graa,
da brandura e da adorao. Bem-aventurados os que ficam, porque elles
sero compensados.



CAPITULO LII


Um segredo


Eis agora a materia da conspirao. Na rua, ao virem de S. Clemente,
foi que Pedro, gastado o melhor do tempo com a carta e o jantar, pde
revelar  moa um segredo:

--Titia disse l em casa que D. Claudia lhe contra em segredo (no
diga nada) que seu pae vae ser nomeado presidente de provincia.

--No sei nada disso, mas no creio, porque papae  conservador.

--D. Claudia disse a titia que elle  liberal, quasi radical. Parece
que a presidencia  certa; ella pediu segredo, e titia, quando nos
contou, tambem pediu segredo. Eu tambem lhe peo que no diga nada, mas
 verdade.

--Verdade como? Papae no vae com liberaes; o senhor no sabe como
papae  conservador. Se elle defende os liberaes  porque  tolerante.

--Se a provincia fosse a do Rio de Janeiro, eu gostaria, porque no era
preciso ir morar na Praia Grande, e se elle fosse, a viagem  s de
meia hora, eu podia ir l todos os dias.

--Era capaz?

--Apostemos.

Flora, depois de um instante:

--Para que, se no ha presidencia?

--Supponha que ha.

-- preciso suppr muito,--que ha presidencia e que a provincia  a do
Rio. No, no ha nada.

--Ento supponha s metade,--que ha presidencia e que  Matto-Grosso.

Flora teve um calefrio. Sem admittir a nomeao, tremeu ao nome da
provincia. Pedro lembrou ainda o Amazonas, Par, Piauhy... Era o
infinito, mormente se o pae fizesse boa administrao, porque no
voltaria to cedo. J agora a moa resistia menos, achava possivel e
abominavel, mas dizia isto para si, dentro do corao. De repente,
Pedro, quasi estacando o passo:

--Se elle fr, eu peo ao governo o logar de secretario e vou tambem.

A luz intermittente das lojas reflectindo no resto da moa,  medida
que elles iam passando por ellas, ajudava a dos lampies da rua, e
mostrava a emoo daquella promessa. Sentia-se que o corao de Flora
devia estar batendo muito. Em breve, porm, comeou ella a pensar em
outra cousa. Natividade no consentiria nunca; depois, um estudante...
No podia ser. Pensou em algum escandalo. Que elle fugisse, embarcasse,
fosse atraz della...

Tudo isto era visto ou pensado em silencio. Flora no se admirava
de pensar tanto e to atrevidamente; era como o peso do corpo, que
no sentia: andava, pensava, como transpirava. No calculou sequer
o tempo que ia gastando em imaginar e desfazer ideias. Que isto lhe
dsse mais prazer que desprazer,  certo. Ao p della, Pedro ia
naturalmente cuidando, com os olhos nos ps, e os ps nas nuvens. No
sabia que dissesse no meio de to longo silencio. Entretanto, a soluo
parecia-lhe unica. J no pensava na presidencia do Rio. Queria-se com
ella, no ponto mais remoto do imperio, sem o irmo. A esperana de se
desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro. Sim, Paulo no
iria tambem; a me no se deixaria ficar desamparada. Que perdesse um
filho, v; mas ambos...

A quem quer que este final do monologo parea egoista, peo-lhe
pelas almas dos seus parentes amigos, que esto no cu, peo-lhe
que considere bem as causas. Considere o estado da alma do rapaz,
a contiguidade da moa, as raizes e as flores da paixo, a propria
edade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma terra. Considere mais
a vontade do cu, que vela por todas as creaturas que se querem,
salvo se uma s  que quer a outra, porque ento o cu  um abysmo de
iniquidades, e no lhe importe esta imagem. Considere tudo, amigo;
deixe-me ir contando s e contando mal o que se passou naquelle curto
transito entre as duas casas. Quando l chegaram, falavam de bca.

Em cima, como viste, continuaram a falar, at que o assumpto da
presidencia voltou. Flora notou ento a cautelosa insistencia com
que Ayres olhava para elles, como se buscasse adivinhar a materia da
conversao. Sentia que no estivesse alli tambem, ouvindo e falando,
finalmente promettendo fazer alguma cousa por ella. Ayres podia,
sim,--era seu amigo e todos o tinham em grande conta,--podia intervir e
destruir o projecto da presidencia.

Sem querer nem saber, diria isto mesmo com os olhos ao velho diplomata.
Retirava-os, mas elles iam de si mesmos repetir o monologo, e acaso
perguntar alguma cousa que Ayres no percebia e devia ser interessante.
Pde ser que reflectissem a angustia ou o que quer que era que lhe doia
dentro. Pde ser; a verdade  que Ayres comeou a ficar curioso, e to
depressa Pedro deixou o logar para acudir ao chamado da me, deixou
elle Natividade para ir falar  moa.

Flora, j de p, mal teve tempo de trocar duas palavras, dessas
que se no podem interromper sem dr ou prurido, ao menos. Ayres
perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.

--No, senhor.

--Pois sei; adivinhei agora mesmo que me quer dizer um segredo.

Flora ficou espantada. No querendo negar nem confessar, respondeu-lhe
que s adivinhra metade.

--A outra ...?

--A outra  pedir-lhe um obsequio de amizade.

--Pea.

--No, agora no, j nos vamos embora; mame e papae esto fazendo as
despedidas. S se fr na rua. Quer vir comnosco a S. Clemente?

--Com o maior prazer.




CAPITULO LIII


De confidencias


Entenda-se que no. No era com prazer maior nem menor. Era imposio
de sociedade, desde que Flora o pedira, no sei se discretamente. Que
a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum segredo, no serei
eu que o negue, nem tu, nem elle mesmo. Ao cabo de alguns instantes,
Ayres ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas,
falhadas ou no nascidas, vozes de pae. Os gemeos no lhe deram um dia
a mesma sensao, seno porque eram filhos de Natividade. Aqui no era
a me, era a mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e por ventura a sua
fatalidade.

--Mas quer-me parecer que desta vez ella est presa; escolheu emfim,
pensou Ayres.

Flora falou-lhe da presidencia, mas no lhe pediu segredo, como as
outras pessoas; confessou-lhe que no queria ir daqui, fosse para onde
fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mos delle. S elle podia
despersuadir o pae de acceitar a presidencia. Ayres achou to absurdo
este pedido que esteve quasi a rir, mas susteve-se bem. A palavra de
Flora era grave e triste. Ayres respondeu, com brandura, que no podia
nada.

--Pde muito, todos attendem aos seus conselhos.

--Mas eu no dou conselhos a ninguem, acudiu Ayres. Conselheiro  um
titulo que o imperador me conferiu, poi achar que o merecia, mas no
obriga a dar conselhos; a elle mesmo s lh'os darei, se m'os pedir.
Imagine agora se eu vou  casa de um homem ou mando chamal-o  minha
para lhe dizer que no seja presidente de provincia. Que razo lhe
daria?

No tinha razes a moa; tinha necessidade. Appellou para os talentos
do ex-ministro, que acharia uma razo boa. Nem se precisavam razes,
bastava o falar delle, a arte que Deus lhe dera de agradar a toda a
gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quizesse. Ayres viu
que ella exagerava para o attrair, e no lhe pareceu mal. No obstante,
contestou taes meritos e virtudes. Deus no lhe dera arte nenhuma,
disse elle, mas a moa ia sempre affirmando, em tal maneira que Ayres
suspendeu a contestao, e fez uma promessa.

--Vou pensar; amanh ou depois, se achar algum recurso, tentarei o
negocio.

Era um palliativo. Era tambem um modo de fazer cessar a conversao,
estando a casa proxima. No contava com o pae de Flora, que  fina
fora lhe quiz mostrar, quella hora, uma novidade, alis uma velharia,
um documento de valor diplomatico. Venha, suba, cinco minutos apenas,
conselheiro.

Ayres suspirou em segredo, e curvou a cabea ao Destino. No se luta
contra elle, dirs tu; o melhor  deixar que pegue pelos cabellos e nos
arraste at onde queira alar-nos ou despenhar-nos. Baptista nem lhe
deu tempo de reflectir; era todo desculpas.

--Cinco minutos e est livre de mim, mas ver que lhe pago o sacrificio.

O gabinete era pequeno; poucos livros e bons, os moveis graves, um
retrato de Baptista com a farda de presidente, um almanaque sobre a
mesa, um mappa na parede, algumas lembranas do governo da provincia.
Emquanto Ayres circulava os olhos, Baptista foi buscar o documento.
Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento,
que no estava s, mas com outros. Conhecia-se logo por ser um papel
velho, amarello, em partes roido. Era uma carta do conde de Oeyras,
escripta ao ministro de Portugal na Hollanda.

-- o dia das antiquidades, pensou Ayres; a taboleta, o tinteiro, este
autographo...

--A carta  importante, mas longa, disse Baptista, no podemos lel-a
agora. Quer leval-a?

No lhe deu tempo de responder; pegou de uma sobrecarta grande e metteu
dentro o manuscripto, com esta nota por fra: Ao meu excellentissimo
amigo conselheiro Ayres. Emquanto elle fazia isto, Ayres passava
os olhos pela lombada de alguns livros. Entre elles havia dous
_Relatorios_ da presidencia de Baptista, ricamente encadernados.

--No me attribua esse luxo, acudiu o ex-presidente; foi um mimo da
secretaria do Governo que nunca fez isto ninguem. Era um pessoal muito
distincto.

E foi  estante e tirou um dos relatorios para ser melhor visto.
Aberto, mostrou a impresso e as vinhetas; lido, podia mostrar o estylo
por um lado, e, por outro, a prosperidade das finanas. Baptista
limitou-se aos algarismos totaes: despeza, mil duzentos e noventa e
quatro contos, setecentos e noventa mil reis; receita, mil, quinhentos
quarenta e quatro contos duzentos e nove mil reis; saldo, duzentos e
quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil reis. Verbalmente,
explicou o saldo, que alcanou pela modificao de alguns servios, e
por um pequeno augmento de impostos. Reduziu a divida provincial, que
achou em trezentos e oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e
cincoenta contos. Fez obras novas e concertos importantes; iniciou uma
ponte...

--A encadernao corresponde  materia, disse Ayres para concluir a
visita.

Baptista fechou o livro, e redarguiu que j agora no iria sem lhe
resolver uma consulta.

--Tudo s avessas, concluiu; eu de manh resolvo consultas, agora 
noite sou eu que as fao.

Tal foi o introito, mas do introito ao Credo ha sempre um passo
estirado, e o principal da missa para elle estava no Credo. No
achando o texto do missal, explicou-lhe um sinete, uma penna de ouro,
um exemplar do Codigo Criminal. O Codigo, posto que velho, valia
por trinta novos, no que tivesse melhor rosto, se no que trazia
annotaes manuscriptas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado
longa parte da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor
das notas, mas desde que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expresso
adequada. Pegou do codigo com cuidado, leu algumas das notas com
venerao.

Durante esse tempo, Baptista ia criando folego. Compoz uma phrase para
iniciar a consulta, e s esperava que Ayres fechasse o livro para
soltal-a; mas o outro ia demorando o exame do Codigo. Podia ser uma
pontinha de malignidade, mas no era. Os olhos de Ayres tinham uma
faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros
a possuiro calados. Vinha a ser que elles no saam da pagina, mas
em verdade j lhe prestava menos atteno; o tempo, a gente, a vida,
cousas passadas, surdiam a espial-o por detraz do livro com que tinham
vivido, e Ayres ia tornando a ver um Rio de Janeiro que no era este,
ou apenas o fazia lembrado. Nem cuides que eram s reos e juizes, era
o passeio, a rua, a festa, velhos patuscos e mortos, rapazes frescos
e agora enferrujados como elle. Baptista tossiu. Ayres voltou a si e
leu alguma das notas que o outro devia trazer de cr, mas eram to
profundas! Emfim, mirou a encadernao, achou o livro bem conservado,
fechou-o e restituiu-o  bibliotheca.

Baptista no perdeu um instante, correu inmediato ao assumpto, com medo
de o ver pegar em outro livro.

--Confesso-lhe que tenho o temperamento conservador.

--Tambem eu guardo presentes antigos.

--No  isso: refiro-me ao temperamento politico. Verdadeiramente ha
opinies e temperamentos. Um homem pde muito bem ter o temperamento
opposto s suas ideias. As minhas ideias, se as cotejarmos com os
programmas politicos do mundo, so antes liberaes e algumas liberrimas
O suffragio universal por exemplo,  para mim a pedra augular de um bom
regimen representativo. Ao contrario, os liberaes pediram e fizeram
o voto censitario. Hoje estou mais adiantado que elles; acceito o
que est, por ora. mas antes do fim do seculo  preciso rever alguns
artigos da Constituio, dous ou trez.

Ayres escondia o espanto... Convidado assim quella hora... Uma
profisso de f politica... Baptista insistia na distinco do
temperamento e das ideias. Alguns amigos velhos, que conheciam esta
dualidade moral e mental,  que teimavam em querer que elle acceitasse
uma presidencia; elle no queria. Francamente, que lhe parecia ao
conselheiro?

--Francamente, acho que no tem razo.

--Que no tenho razo em qu?

--Em recusar.

--Propriamente, no recusei nada; ha um grande trabalho neste sentido,
e o meu desejo,--accrescentou com mais clareza,-- que os bons amigos
sagazes me digam se tal cousa  acertada; no me parece que seja...

--Eu penso que .

--De maneira que, se o caso fosse com o senhor...

--Commigo no podia ser. Sabe que eu j no sou deste mundo, e
politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este effeito que
separa o funccionario dos partidos e o deixa to alheio a elles, que
fica impossivel de opinar com verdade, ou, quando menos, com certeza.

--Mas no me disse que acha...

--Acho.

--... Que posso acceitar uma presidencia, se me offerecerem?

--Pde; uma presidencia acceita-se.

--Pois ento saiba tudo;  a unica pessoa de sociedade com quem me abro
assim francamente. A presidencia foi-me offerecida.

--Acceite, acceite.

--Est acceita.

--J?

--O decreto assigna-se sabbado.

--Ento acceite tambem os meus parabens.

--Propriamente, a lembrana no foi do ministerio; ao contrario, o
ministerio no se resolveu antes de saber se effectivamente fiz uma
eleio contra os liberaes, ha annos; mas logo que soube que por no
os perseguir  que fui demittido, acceitou a indicao de chefes
politicos, e recebi pouco depois este bilhete.

O bilhete estava no bolso, dentro da carteira. Qualquer outro,
alvoroado com a nomeao proxima, levaria tempo a achar o bilhete
no meio dos papeis; mas Baptista possuia o tacto dos textos. Tirou
a carteira, abriu-a descanado e com os dedos saccou o bilhete do
ministro convidando-o a uma conversao. Na conversao ficou tudo
assentado.




CAPITULO LIV


Emfim, s!


Emfim, s! Quando Ayres se achou na rua, s, livre, solto, entregue
a si mesmo, sem grilhes nem consideraes, respirou largo. Fez um
monologo, que d'ahi a pouco interrompeu por se lembrar de Flora. Tudo
o que ella no quizera ia acontecer; l ia o pae a uma presidencia, e
ella com elle, e a recente inclinao ao joven Pedro vinha parar a meio
caminho. Entretanto, no se arrependia do que dissera e ainda menos do
que no dissera. Os dados estavam lanados. Agora era cuidar de outra
cousa.



CAPITULO LV


A mulher  a desolao do homem


Ao despedir-se, fez Ayres uma reflexo, que ponho aqui, para o caso
de que algum leitor a tenha feito tambem. A reflexo foi obra de
espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem to difficil em ceder
s instigaes da esposa (Vae-te, Satanaz, etc.; capitulo XLVII)
deitou to facilmente o habito s ortigas. No achou explicao,
nem a acharia, se no soubesse o que lhe disseram mais tarde, que
os primeiros passos da converso do homem fram dados pela mulher.
A mulher  a desolao do homem, dizia no sei que philosopho
socialista, creio que Proudhon. Foi ella, a viuva da presidencia, que
por meios varios e secretos, tramou passar a segundas nupcias. Quando
elle soube do namoro, j os banhos estavam corridos; no havia mais que
consentir e casar tambem.

Ainda assim, custou-lhe muito. O clamor dos seus aturdia-lhe de antemo
os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a esposa servia-lhe de guia e
amparo, e, com poucas horas, Baptista viu claro e ficou firme.

--Estamos  porta do terceiro reinado, ponderou D. Claudia, e
certamente o partido liberal no deixa to cedo o poder. Os seus homens
so vlidos, a inclinao dos tempos  para o liberalismo, e voc
mesmo...

--Sim, eu... suspirou Baptista.

D. Claudia no suspirou, cantou victoria; a reticencia do marido era
a primeira figura de acquiescencia. No lhe disse isto assim, nu e
cru; tambem no revelou alegria descomposta; falou sempre a linguagem
da razo fria e da vontade certa. Baptista, sentindo-se apoiado,
caminhou para o abysmo e deu o salto nas trevas. No o fez sem graa,
nem com ella. Posto que a vontade que trazia fosse de emprestimo, no
lhe faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Dahi a
autoria de que se investiu e acabou confessando.

Tal foi a concluso de Ayres, segundo se l no _Memorial._ Tal ser a
do leitor, se gosta de concluir. Note que aqui lhe poupei o trabalho de
Ayres; no o obriguei a achar por si o que, de outras vezes,  obrigado
a fazer. O leitor attento, verdadeiramente ruminante, tem quatro
estomagos no cerebro, e por elles faz passar e repassar os actos e os
factos, at que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar escondida.




CAPITULO LVI


O golpe


O dia seguinte trouxe  menina Flora a grande novidade. Sabbado seria
assignado o decreto; a presidencia era no norte. D. Claudia no lhe viu
a pallidez, nem sentiu as mos frias, continuou a falar do caso e do
futuro, at que Flora, querendo sentar-se, quasi caiu. A me acudiu-lhe:

--Que ? Que tens?

--Nada, mame no  nada.

A me fel-a sentar-se.

--Foi uma tonteira, passou.

D. Claudia deu-lhe a cheirar um pouco de vinagre, esfregou-lhe os
pulsos; Flora sorriu.

--Este sabbado? perguntou.

--O decreto? Sim, este sabbado. Mas no digas por ora a ninguem; so
segredos de gabinete.  cousa certa; emfim, alguem nos fez justia;
provavelmente o imperador. Amanh irs commigo a algumas encommendas.
Faze uma lista do que precisas.

Flora precisava no ir e s pensava nisso. Uma vez que o decreto
estava prestes a ser assignado, no havia j desaconselhar a nomeao;
restava-lhe a ella ficar. Mas como? Todos os sonhos so proprios ao
somno de uma creana. No era facil, mas no seria impossivel. Flora
cria tudo; no tirava o pensamento de Ayres, e j agora de Natividade
tambem. Os dous podiam fazel-o, ou antes os trez, se contardes tambem
o baro, e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco
estrellas do Cruzeiro, as nove musas, anjos e archanjos, virgens e
martyres... Juntai-os todos, e todos poderiam fazer esta simples aco
de impedir que Flora fosse para a provincia. Taes eram as esperanas
vagas, rapidas, que corriam a substituir as tristezas do rosto da moa,
emquanto a me, attribuindo o effeito ao vinagre, ajustava a rolha de
vidro ao frasco, e restitua o frasco ao toucador.

--Faze uma lista do que precisas, repetiu  filha.

--No, mame, eu no preciso nada.

--Precisas, sim, eu sei o que precisas.




CAPITULO LVII


Das encommendas


No escreveria este capitulo, se elle fosse propriamente das
encommendas, mas no . Tudo so instrumentos nas mos da Vida. As duas
sairam de casa, urna lepida, a outra melancolica, e l fram a escolher
uma quantidade de objectos de viagem e de uso pessoal. D. Claudia
pensava nos vestidos da primeira recepo e de visitas; tambem ideou o
do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os
chapeos, entretanto, fram o principal artigo da lista. Ao parecer de
D. Claudia, o chapeo da mulher  que dava a nota verdadeira do gosto,
das maneiras e da cultura de uma sociedade. No valia a pena acceitar
uma presidencia para levar chapeos sem graa, dizia ella sem convico,
porque intimamente pensava que a presidencia d graa a tudo.

Estavam justamente na loja de chapeos, rua do Ouvidor, sentadas,
os olhos fra e longe, quando a verdadeira materia deste capitulo
appareceu. Era o gemeo Paulo, que chegara pelo trem nocturno, e sabendo
que ellas andavam a compras, viera procural-as.

--O senhor! exclamaram.

--Cheguei esta manh.

Flora tinha-se levantado, com o alvoroo que lhe deu a vista inesperada
de Paulo. Elle correu a ellas, apertou-lhes as mos, indagou da
sade, e reconheceu que pareciam vender sade e alegria. A impresso
era exacta; Flora tinha agora uma agitao, que contrastava cora o
abatimento daquella triste manh, e um riso que a fazia alegre.

--Tive sempre noticias das senhoras, que mame me dava, e Pedro tambem,
s vezes. Da senhora, continuou elle falando a D. Claudia, recebi duas
cartas. Como vae o doutor?

--Bem.

--Ora, em fim, c estou!

E Paulo dividia os olhos com as duas, mas a melhor parte ia natural
mente para a filha. Pouco depois era todo e pouco para esta. D.
Claudia voltra  escolha dos chapeos, e Flora, que at ento opinava
de cabea, perdeu este ultimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira que
um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moa; falavam de
cousas minimas, alheias ou proprias, tudo o que bastasse para os reter
disfaradamente na contemplao um do outro. Paulo viera o mesmo que
fra, o mesmo que Pedro, sempre com alguma nota particular, que ella
no podia achar claramente, menos ainda definir. Era um mysterio; Pedro
teria o seu.

D. Claudia interrompia-os, de vez em quando, a proposito da escolha;
mas, tudo acaba, at a escolha de chapeos. Foram d'alli aos vestidos.
Paulo, no sabendo da presidencia, estimou esta casualidade para as
acompanhar de loja em loja. Contava anecdotas de S. Paulo, sem grande
interesse para Flora; as noticias que ella lhe dava acerca das amigas,
eram mais ou menos dispensaveis. Tudo valia pelos dous interlocutores.
A rua ajudava aquella absorpo reciproca; as pessoas que iam ou
vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou no, serviam de ponto de
partida a alguma digresso. As digresses entraram a dar as mos ao
silencio, e os dous seguiam com os olhos espraiados e a cabea alta,
elle mais que ella, porque uma pontinha de melancolia comeava a
espancar do rosto da moa a alegria da hora recente.

Na rua Gonalves Dias, indo para o largo da Carioca, Paulo viu dous
ou trez politicos de S. Paulo, republicanos, parece que fazendeiros.
Havendo-os deixado l, admirou-se de os ver aqui, sem advertir que a
ultima vez que os vira ia j a alguma distancia.

--Conhecem? perguntou s duas.

No, no os conheciam. Paulo disse-lhes os nomes. A me talvez fizesse
alguma pergunta politica, mas deu por falta de um objecto, advertiu que
o no comprra, e propoz voltarem atraz. Tudo era acceito por ambos,
com docilidade, apesar do veu de tristeza, que se ia cerrando mais no
rosto da moa. Aquellas encommendas tinham j um ar de bilhetes de
passagem, no tardava o paquete, iam correr s malas, aos arranjos, s
despedidas, ao camarote de bordo, ao enjo de mar, e quelle outro de
mar e terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Dahi o silencio
crescente, que Paulo mal podia vencer, de quando em quando; e comtudo
ella estava bem com elle, gostava de lhe ouvir dizer cousas soltas,
algumas novas, outras velhas, recordaes anteriores  partida daqui
para S. Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por D. Claudia, quasi esquecida delles.
No meio daquella conversao truncada, mais entretida por elle que por
ella, Paulo sentia impetos de lhe perguntar, ao ouvido, na rua, se
pensra nelle, ou, ao menos, sonhra com elle algumas noites. Ouvindo
que no, daria espanso  colera, dizendo-lhe os ultimos improperios;
se ella corresse, correria tambem, at pegal-a pelas fitas do chapeo ou
pela manga do vestido, e, em vez de a esganar, danaria com ella uma
valsa de Strauss ou uma polka de ***. Logo depois, ria destes delirios,
porque, a despeito da melancolia da moa, os olhos que ella erguia
para elle eram de quem sonhou e pensou muito na pessoa, e agora cuida
de descobrir se  a mesma do sonho e do pensamento. Assim lhe parecia
ao estudante de direito; pelo que, quando elle desviava o rosto, era
para repetir a experiencia e tornar a ver-lhe os olhos aguados do
mesmo espirito critico e de livre exame. Quanto ao tempo que os trez
gastaram nessa agitao de compras e escolhas, vises e comparaes,
no ha memoria delle, nem necessidade. Tempo  propriamente officio de
relogio, e nenhum delles consultou o relogio que trazia.




CAPITULO LVIII


Matar saudades


Ora bem, acabas de ver como Flora recebeu o irmo de Pedro; tal qual
recebia o irmo de Paulo. Ambos eram apostolos. Paulo achava-a agora
mais bonita que alguns mezes antes, e disse-lh'o n'essa mesma tarde em
S. Clemente, com esta palavra familiar e cordial:

--A senhora enfeitou muito.

Flora julgava a mesma cousa, relativamente ao estudante de direito;
calou a impresso. Ou a tristeza que trazia, ou qualquer outra sensao
particular, fel-a acanhada, a principio. No tardou, porm, que achasse
outra vez o gemeo no gemeo, e que elle e ella matassem saudades.

Como  que se matam saudades no  cousa que se explique de um modo
claro. Elle no ha ferro nem fogo, corda nem veneno, e todavia as
saudades expiram, para a resurreio, alguma vez antes do terceiro dia.
Ha quem creia que, ainda mortas, so doces, mais que doces. Esse ponto,
no nosso caso, no pde ser ventilado, nem eu quero desenvolvel-o, como
alis cumpria.

As saudades morreram, no todas, nem logo, logo, mas em parte e to
vagarosamente que Paulo acceitou o convite de l jantar. Era o dia da
chegada; Natividade quizera tel-o comsigo  mesa, ao p de Pedro, para
cimentar a pacificao comeada pela distancia. Paulo nem se deu ao
trabalho de l mandar; deixou-se estar com a bella creatura, entre o
pae e a me que pensavam em outra cousa, proxima no tempo e remota no
espao. Sabendo o que era, Flora passava do prazer ao tedio, e Paulo
no entendia essa alternao de sentimentos. De quando em quando, vendo
a me agitada e preoccupada, mas com outra expresso, Paulo interrogava
a filha. Em vez de dar uma explicao qualquer, Flora passou uma vez a
mo pelos olhos e ficou alguns instantes sem os descobrir. A aco do
estudante de direito, devia ser arredar-lhe a mo, encaral-a de perto,
mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um modo em que a
eloquencia do gesto dispensasse a fala. Se tal ideia teve, no saiu c
fra. Nem ella lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:

--Que  que tem?

--Nada, respondeu Flora.

--Tem alguma cousa, insistiu elle querendo pegar-lhe na mo.

No acabou o gesto, no o comeou sequer; abriu e fechou os dedos
apenas, emquanto sorria para sacudir tristezas, e deixou-se estar a
matar saudades.




CAPITULO LIX


Noite de 14


Tudo se explicou  noite, em casa da familia Santos. O ex-presidente
de provincia confessou as esperanas de uma investidura nova; a esposa
affirmou a eminencia do ato. Dahi a publicidade da noticia, que pouco
antes D. Claudia s dizia em segredo. J no havia segredos que calar.

Paulo soube ento tudo, e Pedro, que conhecia alguns preliminares,
acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente sentiram a separao
proxima. A dr os fez amigos por instantes;  uma das vantagens dessa
grande e nobre sensao. J me no lembra quem affirmava, ao contrario,
que um odio commum  o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas
no descreio do meu postulado, por esta razo que uma coisa no tolhe a
outra, e ambas podem ser verdadeiras.

Demais, a dr no era ainda o desespero. Havia at uma consolao para
os dous gemeos;  que a moa ficaria longe de ambos. Nenhum delles
teria o gozo exclusivo ao p da porta. No h mal que no traga um
pouco de bem, e por isso  que o mal  util, muita vez indispensavel,
alguma vez delicioso. Os dous quizeram falar  amiguinha, em
particular, para sondal-a cerca daquella separao, j agora certa,
mas nenhum conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe
falavam, era sempre juntos, e de cousas familiares e ordinarias. O
gesto de Flora no traduzia o estado da alma; este podia ser lepido,
melancolico, ou indifferente, no vinha c fra. Em verdade, ella
falava pouco. Os olhos tambem no diziam muito. Mais de uma vez, Pedro
deu com ella fitando Paulo, e gemeu com a preferencia, mas tambem elle
era preferido depois, e achava compensao; Paulo ento  que rangia
os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue  sua recepo,
que era a ultima do anno, no acompanhou de perto as agitaes moraes
daquelle trio. Quando deu por ellas, chegou a sentil-as tambem.

Pouco a pouco, a gente se foi dispersando. No era muita, e dominava
a nota intima. Quando a maioria saiu, ficou s a poro mais intima,
trez ou quatro homens a um canto da sala, falando e rindo de ditos e
anecdotas. No conversavam de politica, e alis no faltaria materia.
As moas, pela segunda ou terceira vez, trocavam as impresses do
grande baile recente. Tambem falavam de musicas e theatros, das festas
proximas de Petropolis, da gente que ia naquelle anno, e da que s iria
em Janeiro. Natividade dividia-se com todos, at que, podendo ficar
alguns instantes com Ayres, confiara-lhe o seu receio cerca do amor
dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer que lhe trazia a esperana de uma
longa separao de Flora. O conselheiro no desdizia do receio, nem da
esperana.

-- uma felicidade que o Baptista seja nomeado e leve a filha daqui,
disse ella.

--Certamente, mas...

--Mas qu?

--Certamente a levar, mas a senhora pde no conhecer bem aquella
menina.

--Penso que  boa.

--Tambem eu penso assim. A bondade, porm, no tem nada com o resto
da pessoa. Flora , como j lhe disse ha tempos, uma inexplicavel.
Agora  tarde para lhe expor os fundamentos da minha impresso; depois
lhe direi. Note que gsto muito della; acho-lhe um sabor particular
naquelle contraste de uma pessoa assim, to humana e to fra do
mundo, to etherea e to ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambio
recondita... V perdoando estas palavras mal embrulhadas, e at amanh,
concluiu elle, estendendo-lhe a mo. Amanh virei explical-as.

--Explique-as agora, emquanto os outros parecem rir de algum dito
engraado.

Effectivamente, os homens riam de algum dito ou trocadilho; Ayres quiz
falar, mas reteve a lingua, e desculpou-se. A explicao era longa e
dificil, e no era urgente, disse elle.

--Eu mesmo no sei se me entendo, baroneza, nem se penso a verdade;
pde ser. Em todo caso, minha boa amiga, at amanh ou at Petropolis.
Quando espera subir?

--L para o fim do anno.

--Ento ainda nos veremos algumas vezes.

--Sim, e, se me no vir a mim, quero que veja os meus rapazes, que
os receba e estime. Elles o tm em grande conta; no lhe fazem seno
justia. Pedro acha que o senhor  o espirito mais fino, e Paulo o mais
rijo da nossa terra...

--Veja como a senhora os educa, ensinando-lhes a pensar errado, disse
Ayres sorrindo e fazendo um gesto de agradecimento. Eu rijo?

--O mais rijo e o mais fino.

Os ultimos habituados da casa vieram dar boa noite  dona. Dez minutos
depois, Ayres despedia-se do casal Santos.

A noite era clara e tranquilla. Ayres recompoz uma parte do sero para
escrevel-a no _Memorial._ Poucas linhas, mas interessantes, nas quaes
Flora era a principal figura: Que o Diabo a entenda, se puder; eu,
que sou menos que elle, no acerto de a entender nunca. Hontem parecia
querer a um, hoje quiz ao outro; pouco antes das despedidas, queria a
ambos. Encontrei outr'ora desses sentimentos alternos e simultaneos;
eu mesmo fui uma e outra cousa, e sempre me entendi a mim. Mas aquella
menina e moa... A condio dos gemeos explicar esta inclinao dupla;
pde ser tambem que alguma qualidade falte a um que sbre a outro,
e vice-versa, e ella, pelo gosto de ambas, no acaba de escolher de
vez.  phantastico, sei; menos phantastico  se elles, destinados 
inimizade, acharem nesta mesma creatura um campo estreito de odio,
mas isto os explicaria a elles, no a ella... Seja o que fr, a nossa
organisao politica  util; a presidencia de provincia, arredando
Flora daqui, por algum tempo, tira esta moa da situao em que se
acha, como a asna de Buridan. Quando voltar, a agua estar bebida e a
cevada comida. Um decreto ajudar a natureza.

Isto feito, Ayres metteu-se na cama, rezou uma ode do seu Horacio e
fechou os olhos. Nem por isso dormiu. Tentou ento uma pagina do seu
Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente os olhos, at que
dormiu. Pouco foi; s cinco horas e quarenta minutos estava de p. Era
novembro, sabes que  dia.




CAPITULO LX


Manh de 15


Quando lhe acontecia o que ficou contado, era costume de Ayres sair
cedo, a espairecer. Nem sempre acertava. Desta vez foi ao Passeio
Publico. Chegou s sete horas e meia, entrou, subiu ao terrao e olhou
para o mar. O mar estava crespo. Ayres comeou a passear ao longo do
terrao, ouvindo as ondas, e chegando-se  borda, de quando em quando,
para vel-as bater e recuar. Gostava dellas assim; achava-lhes uma
especie de alma forte, que as movia para metter medo  terra. A agua,
enroscando-se em si mesma, dava-lhe uma sensao, mais que de vida, de
pessoa tambem, a que no faltavam nervos nem musculos, nem a voz que
bradava as suas coleras.

Emfim, canou e desceu, foi-se ao lago, ao arvoredo e passeou  toa,
revivendo homens e cousas, at que se sentou em um banco. Notou que
a pouca gente que havia alli no estava sentada, como de costume,
olhando  toa, lendo gazetas ou cochilando a vigilia de uma noite sem
cama. Estava de p, falando entre si, e a outra que entrava ia pegando
na conversao sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu,
ao menos. Ouviu umas palavras soltas, _Deodoro, batalhes, campo,
ministerio_, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para elle,
a ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha
s noticias. No juro que assim fosse, porque o dia vae longe, e as
pessoas no eram conhecidas. O proprio Ayres, se tal cousa suspeitou,
no a disse a ninguem; tambem no afiou o ouvido para alcanar o resto.
Ao contrario, lembrando-lhe algo particular, escreveu a lapis uma nota
na carteira. Tanto bastou para que os curiosos se dispersassem, no sem
algum epitheto de louvor, uns ao governo, outros ao exercito: podia ser
amigo de um ou de outro.

Quando Ayres saiu do Passeio Publico, suspeitava alguma cousa, e seguiu
at o largo da Carioca. Poucas palavras e sumidas, gente parada, caras
espantadas, vultos que arrepiavam caminho, mas nenhuma noticia clara
nem completa. Na rua do Ouvidor, soube que os militares tinham feito
uma revoluo, ouviu descripes da marcha e das pessoas, e noticias
desencontradas. Voltou ao largo, onde trez tilburys o disputaram; elle
entrou no que lhe ficou mais  mo, e mandou tocar para o Cattete.
No perguntou nada ao cocheiro; este  que lhe disse tudo e o resto.
Falou de uma revoluo, de dous ministros mortos, um fugido, os demais
presos. O imperador, capturado em Petropolis, vinha descendo a serra.

Ayres olhava para o cocheiro, cuja palavra saa deliciosa de novidade.
No lhe era desconhecida esta creatura. J a vira, sem o tilbury,
na rua ou na sala,  missa ou a bordo, nem sempre homem, alguma vez
mulher, vestida de seda ou do chita. Quiz saber mais, mostrou-se
interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que
dizia. O cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da
rua dos Invalidos e levra ao largo da Gloria, por signal que estava
assombrado, no podia falar, pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o
dobro; e pagou.

--Talvez fosse algum implicado no barulho, suggeriu Ayres.

--Tambem pde ser, porque elle levava o chapo derrubado, e a principio
pensei que tinha sangue nos dedos, mas reparei e vi que era barro; com
certeza, vinha de descer algum muro. Mas, pensando bem, creio que era
sangue; barro no tem aquella cr. A verdade  que elle pagou o dobro
da viagem, e com razo, porque a cidade no est segura, e a gente
corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...

Chegavam justamente  porta de Ayres; este mandou parar o vehiculo,
pagou pela tabella e desceu. Subindo a escada, ia naturalmente pensando
nos acontecimentos possiveis. No alto achou o criado que sabia tudo, e
lhe perguntou se era certo...

--O que  que no  certo, Jos?  mais que certo.

--Que matram trez ministros?

--No; ha s um ferido.

--Eu ouvi que mais gente tambem, falaram em dez mortos...

--A morte  um phenomeno egual  vida; talvez os mortos vivam. Em todo
caso, no lhes rezes por alma, porque no s bom catholico, Jos.




CAPITULO LXI


Lendo Xenophonte


Como  que, tendo ouvido falar da morte de dous e trez ministros, Ayres
affirmou apenas o ferimento de um, ao rectificar a noticia do criado?
S se pde explicar de dous modos,--ou por um nobre sentimento de
piedade, ou pela opinio de que toda a noticia publica cresce de dous
teros, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a verso do ferimento era
a unica verdadeira. Pouco depois passava pela rua do Cattete a padiola
que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e
sos e o imperador era esperado de Petropolis, no acreditou na mudana
de regimen que ouvira ao cocheiro de tilbury e ao criado Jos. Reduziu
tudo a um movimento que ia acabar com a simples mudana de pessoal.

--Temos gabinete novo, disse comsigo.

Almoou tranquillo, lendo Xenophonte: Considerava eu um dia quantas
republicas tem sido derribadas por cidados que desejam outra especie
de governo, e quantas monarchias e olygarchias so destruidas pela
sublevao dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns so depressa
derribados, outros, se duram, so admirados por habeis e felizes...
Sabes a concluso do autor, em prol da these de que o homem  difficil
de governar; mas logo depois a pessoa de Cyro destre aquella
concluso, mostrando um s homem que regeu milhes de outros, os quaes
no s o temiam, mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto
em grego, e com tal pausa que elle chegou ao fim do almoo, sem chegar
ao fim do primeiro capitulo.




CAPITULO LXII


Pare no D.


--Mas, S. Ex. est almoando, dizia o criado no patamar da escada a
alguem que pedia para falar ao conselheiro.

Era falso, Ayres acabava justamente de almoar; mas o criado sabia que
o amo gostava de saborear o charuto depois do almoo, sem interrupo.
Agora estava no canap e ouviu o dialogo do patamar. A pessoa insistia
em dizer uma palavrinha.

--No pde ser.

--Bem, eu espero; logo que S. Ex. acabe...

--O melhor  voltar depois; no mora alli defronte? Pois volte daqui a
uma hora ou duas...

A pessoa era o Custodio e foi para casa, mas o velho diplomata, sabendo
quem era, no esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe dizer que
viesse. Custodio saiu, correu, subiu e entrou assombrado.

--Que  isso, Sr. Custodio? disse-lhe Ayres. O senhor anda a fazer
revolues?

--Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Ex. soubesse...

--Se soubesse o qu?

Custodio explicou-se. V, resumamos a explicao.

Na vespera, tendo de ir abaixo, Custodio foi  rua da Assembla, onde
se pintava a taboleta. Era j tarde; o pintor suspendera o trabalho. S
algumas das letras ficaram pintadas,--a palavra _Confeitaria_ e a letra
_d._ A letra _o_ e a palavra _imperio_ estavam s debuxadas a giz.
Gostou da tinta e da cr, reconciliou-se com a frma, e apenas perdoou
a despeza. Recommendou pressa. Queria inaugurar a taboleta no domingo.

Ao acordar de manh no soube logo do que houvera na cidade, mas pouco
a pouco vieram vindo as noticias, viu passar um batalho, e creu que
lhe diziam a verdade os que affirmavam a revoluo e vagamente a
republica. A principio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a taboleta.
Quando se lembrou della, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu
s pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia
s isto: Pare no _D._ Com effeito, no era preciso pintar o resto,
que seria perdido, nem perder o principio, que podia valer. Sempre
haveria palavra que occupasse o logar das letras restantes. Pare no D.

Quando o portador voltou trouxe a noticia de que a taboleta estava
prompta.

--Voc viu-a prompta?

--Vi, patro.

--Tinha escripto o nome antigo?

--Tinha, sim, senhor: Confeitaria do imperio.

Custodio enfiou um casaco de alpaca e voou  rua da Assembla. L
estava a taboleta, por signal que coberta com um pedao de chita;
alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua, quizeram
rasgal-a; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais
efficaz cobril-a. Levantada a cortina, Custodio leu: _Confeitaria
do imperio._ Era o nome antigo, o proprio, o celebre, mas era a
destruio agora; no podia conservar um dia a taboleta, ainda que
fosse em becco escuro, quanto mais na rua do Cattete...

--O senhor vae despintar tudo isto, disse elle.

--No entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despeza. Depois,
pinto outra cousa.

--Mas que perde o senhor em substituir a ultima palavra por outra? A
primeira pde ficar, e mesmo o _d..._ No leu o meu bilhete?

--Chegou tarde.

--E porque pintou, depois de to graves acontecimentos?

--O senhor tinha pressa, e eu accordei s cinco e meia para servil-o.
Quando me deram as noticias, a taboleta estava prompta. No me disse
que queria pendural-a domingo? Tive de pr muito seccante na tinta, e,
alm da tinta, gastei tempo e trabalho.

Custodio quiz repudiar a obra, mas o pintor ameaou de pr o numero da
confeitaria e o nome do dono na taboleta, e expol-a assim, para que os
revolucionarios lhe fossem quebrar as vidraas do Cattete. No teve
remedio se no capitular. Que esperasse; ia pensar na substituio; em
todo caso, pedia algum abate no preo. Alcanou a promessa do abate e
voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de titulo,--uma
casa to conhecida, desde annos e annos! Diabos levassem a revoluo!
Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o visinho Ayres e correu a
ouvil-o.




CAPITULO LXIII


Taboleta nova


Referido o que l fica atraz, Custodio confessou tudo o que perdia no
titulo e na despeza, o mal que lhe trazia a conservao do nome da
casa, a impossibilidade de achar outro, um abysmo, em summa. No sabia
que buscasse; faltava-lhe inveno e paz de espirito. Se pudesse,
liquidava a confeitaria. E afinal que tinha elle com politica? Era
um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguezado,
respeitado, e principalmente respeitador da ordem publica...

--Mas o que  que ha? perguntou Ayres.

--A republica est proclamada.

--J ha governo?

--Penso que j; mas diga-me V. Ex. ouviu alguem accusar-me jamais de
attacar o governo? Ninguem. Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu
soccorro, Excellentissimo. Ajude-me a sair deste embarao. A taboleta
est prompta, o nome todo pintado.--Confeitaria do Imperio, a tinta 
viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para ento
fazer outro. Eu, se a obra no estivesse acabada, mudava de titulo, por
mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Ex.
cr que, se ficar Imperio, venham quebrar-me as as vidraas?

--Isso no sei.

--Realmente, no ha motivo:  o nome da casa, nome de trinta annos.
ninguem a conhece de outro modo...

--Mas pde pr Confeitaria da Republica...

--Lembrou-me isso, em caminho, mas tambem me lembrou que, se daqui a
um ou dous mezes, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou
hoje, e perco outra vez o dinheiro.

--Tem razo... Sente-se.

--Estou bem.

--Sente-se e fume um charuto.

Custudio recusou o charuto, no fumava. Acceitou a cadeira. Estava
no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a
atteno, se no fosse o atordoamento do espirito. Continuou a implorar
o soccorro do visinho. S. Ex., com a grande intelligencia que Deus lhe
dera, podia salval-o. Ayres propoz-lhe um meio termo, um titulo que
iria com ambas as hypotheses,--Confeitaria do governo.

--Tanto serve para um regimen como para outro.

--No digo que no, e, a no ser a despeza perdida... Ha, porm, uma
razo contra. V. Ex. sabe que nenhum governo deixa de ter opposio. As
opposies, quando descerem  rua, podem implicar commigo, imaginar que
as desafio, e quebrarem-me a taboleta; entretanto, o que eu procuro  o
respeito de todos.

Ayres comprehendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o visinho
no queria barulhos  porta, nem malquerenas gratuitas, nem odios de
quem quer que fosse; mas, no o affligia menos a despeza que teria de
fazer de quando em quando, se no achasse titulo definitivo, popular
e imparcial. Perdendo o que tinha, j perdia a celebridade, alm de
perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguem lhe compraria uma
taboleta condemnada. J era muito ter o nome e o titulo no _Almanack_
de Laemmert, onde podia lel-o algum abelhudo e ir com outros, punil-o
do que estava impresso desde o principio do anno...

--Isso no, interrompeu Ayres; o senhor no ha de recolher a edio de
um almanaque.

E depois de alguns instantes:

--Olhe, dou-lhe uma ideia, que pde ser aproveitada, e, se no a achar
boa, tenho outra  mo, e ser a ultima. Mas eu creio que qualquer
dellas serve. Deixe a taboleta pintada como est, e  direita, na
ponta, por baixo do titulo, mande escrever estas palayras que explicam
o titulo: Fundada em 1860. No foi em 1860 que abriu a casa?

--Foi, respondeu Custodio.

--Pois...

Custodio reflectia. No se lhe podia ler _sim_ nem _no_; attonito,
a bca entre-aberta, no olhava para o diplomata, nem para o cho,
nem para as paredes ou moveis, mas para o ar. Como Ayres insistisse,
elle acordou e confessou que a ideia era boa. Realmente, mantinha o
titulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura.
Entretanto, a outra ideia podia ser egual ou melhor, e quizera comparar
as duas.

--A outra ideia no tem a vantagem de pr a data  fundao da
casa, tem s a de definir o titulo, que fica sendo o mesmo, de uma
maneira alheia ao regimen. Deixe-lhe estar a palavra _imperio_ e
accrescente-lhe em baixo, ao centro, estas duas, que no precisam
ser gradas: _das leis._ Olhe, assim, concluiu Ayres sentando-se 
secretaria, e escrevendo em uma tira de papel o que dizia.

Custodio leu, releu e achou que a ideia era util; sim, no lhe parecia
m. S lhe viu um defeito; sendo as letras de baixo menores, podiam
no ser lidas to depressa e claramente, com as de cima, e estas  que
se metteriam pelos olhos ao que passasse. Dahi a que algum politico ou
sequer inimigo pessoal no entendesse logo e... A primeira ideia, bem
considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o
confeiteiro, marcando a data da fundao, fazia timbre em ser antigo.
Quem sabe se no era peor que nada?

--Tudo  peor que nada.

--Procuremos.

Ayres achou outro titulo, o nome da rua, Confeitaria do Cattete, sem
advertir que, havendo outra confeitaria na mesma rua, era attribuir
exclusivamente  do Custodio a designao local. Quando o visinho lhe
fez tal ponderao, Ayres achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza
de sentimentos do homem; mas logo depois descubriu que o que fez
falar o Custodio foi a ideia de que esse titulo ficava commum s duas
casas. Muita gente no atinaria com o titulo escripto, e compraria
na primeira que lhe ficassse  mo, de maneira que s elle faria as
despezas da pintura, e ainda por cima perdia a freguezia. Ao perceber
isto, Ayres no admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de
tantas tribulaes, contava os maus fructos de um equivoco. Disse-lhe
ento que o melhor seria pagar a despeza feita e no pr nada, a no
ser que preferisse o seu proprio nome: Confeitaria do Custodio.
Muita gente certamente lhe no conhecia a casa por outra designao.
Um nome, o proprio nome do dono, no tinha significao politica ou
figurao historica, odio nem amor, nada que chamasse a atteno dos
dous regimens, e conseguintemente que puzesse em perigo os seus pasteis
de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietario e dos empregados.
Porque  que no adoptava esse alvitre? Gastava alguma cousa com a
troca de uma palavra por outra, _Custodio_ em vez de _Imperio_, mas as
revolues trazem sempre despezas.

--Sim, vou pensar, Excellentissimo. Talvez convenha esperar um ou dous
dias, a ver em que param as modas, disse Custodio agradecendo.

Curvou-se, recuou e saiu. Ayres foi  janella para vel-o atravessar a
rua. Imaginou que elle levaria da casa do ministro aposentado um lustre
particular que faria esquecer por instantes a crise da taboleta. Nem
tudo so despezas na vida, e a gloria das relaes podia amaciar as
agruras deste mundo. No acertou desta vez. Custodio atravessou a rua,
sem parar nem olhar para traz, e enfiou pela confeitaria dentro com
todo o seu desespero.




CAPITULO LXIV


Paz!


Que, em meio de to graves successos, Ayres tivesse bastante pausa e
claridade para imaginar tal descoberta no visinho, s se pde explicar
pela incredulidade com que recebera as noticias. A propria afflico de
Custodio no lhe dera f. Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma
de suas maximas  que o homem vive para espalhar a primeira inveno
de rua, e que tudo se far crr a cem pessoas juntas ou separadas. S
s duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa, acreditou na
queda do imperio.

-- verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela rua do Ouvidor, ouvi
as acclamaes  republica. As lojas esto fechadas, os bancos tambem,
e o peor  se se no abrem mais, se vamos cair na desordem publica; 
uma calamidade.

Ayres quiz aquietar-lhe o corao. Nada se mudaria; o regimen, sim, era
possivel, mas tambem se muda de roupa sem trocar de pelle. Commercio
 preciso. Os bancos so indispensaveis. No sabbado, ou quando muito
na segunda feira, tudo voltaria ao que era na vespera, menos a
constituio.

--No sei, tenho medo, conselheiro.

--No tenha medo. A baroneza j sabe o que ha?

--Quando eu sai de casa, no sabia, mas agora  provavel.

--Pois v tranquillisal-a; naturalmente est afflicta.

Santos receiava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o
imperador, e com elle as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror...
Ayres tirou-lhe o Terror da cabea. As occasies fazem as revolues,
disse elle, sem inteno de rimar, mas gostou que rimasse, para
dar frma fixa  ideia. Depois lembrou a indole branda do povo. O
povo mudaria de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de
generosidade. Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara
um velho amigo, o marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regencia.
O imperador fra ao theatro de S. Pedro de Alcantara. No fim do
espectaculo, o amigo, ento moo, ouviu grande rumor do lado da egreja
de S. Francisco, e correu a saber o que era. Falou a um homem, que
bradava indignado, e soube delle que o cocheiro do imperador no tirara
o chapeo no momento em que este chegra  porta para entrar no coche;
o homem accrescentou: Eu sou _r..._ Naquelle tempo os republicanos
por brevidade eram assim chamados. Eu sou _r_, mas no consinto que
faltem ao respeito a este menino!

Nenhuma feio de Santos mostrou apreciar ou entender aquelle rasgo
anonymo. Ao contrario, todo elle parecia entregue ao presente, ao
momento, ao commercio fechado, aos bancos sem operaes, ao receio de
uma suspenso total de negocios, durante prazo indeterminado. Cruzava e
descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.

--Ento, parece-lhe...?

--Que descance.

Santos acceitou o conselho, mas vae muito do acceitar ao cumprir, e a
apparencia era mui diversa do corao. O corao batia-lhe. A cabea
via esboroar-se tudo. Quiz despedir-se, mas fez duas ou trez investidas
antes de pousar o p fora do gabinete e caminhar para a escada. Instava
pela certeza. Com quanto tivesse visto e ouvido a republica, podia
ser... Em todo caso, a paz  que era necessaria, e haveria paz? Ayres
inclinava-se a crr que sim, e novamente o convidou a descanar.

--At logo, concluiu.

--Porque no vae l jantar comnosco?

--Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois,
talvez, ou amanh. V, v tranquillisar a baroneza, e os rapazes. Os
rapazes estaro em paz? Esses brigam, com certeza; v pol-os em ordem.

--O senhor podia ajudar-me nisso. V l de noite.

--Pde ser; se puder, vou. Amanh com certeza.

Santos saiu; tinha o carro  espera, entrou e seguiu para Botafogo. No
levava a paz comsigo, no a poderia dar  mulher, nem  cunhada, nem
aos filhos. Quizera chegar a casa, por medo da rua, mas quizera tambem
ficar na rua, por no saber que palavras nem que conselhos daria aos
seus.

O espao do carro era pequeno e bastante para um homem; mas, emfim,
no viviria alli a tarde inteira. Ao demais, a rua estava quieta. Via
gente  porta das lojas. No largo do Machado viu outra que ria, alguma
calada, havia espanto, mas no havia propriamente susto.




CAPITULO LXV


Entre os filhos


Quando Santos chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem noticia
exacta e definitiva dos acontecimentos. No sabia da republica. No
sabia do marido nem dos filhos. Aquelle saira antes dos primeiros
rumores, estes iam fazer a mesma cousa, logo que os boatos chegaram. O
primeiro gesto da me foi para impedir que os filhos saissem, mas no
pde, era tarde. No os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria,
afim de que os poupasse, e esperou. A irm fez o mesmo. Era perto de
meio dia; foi ento que os minutos entraram a parecer seculos.

A ancia da me era naturalmente maior que a da tia. Natividade via
andar o tempo com ferros aos ps. No havia alvoroo que atasse um par
de azas quellas horas longas do relogio da casa, nem aos do cinto, o
della e o da irm; todos elles coxeavam de ambos os ponteiros. Emfim,
ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.

Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mos de
ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba por fazer
da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece que o gesto
do marido no foi original, mas secundario, filho ou imitativo do da
mulher. Pde ser que a corda da sensibilidade fosse menos vibrante na
lira dele que na della, posto que muitos anos atraz, aquele outro gesto
no _coup_, quando voltavam da missa de S. Domingos, lembras-te?...
Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que no ficariam mal, se as
acabasse, mas recuo a tempo, e risco-as. No vale a pena ir  cata das
palavras riscadas. Menos vale supri-las.

Que nos bastam as quatro mos apertadas. Natividade perguntou pelos
filhos. Santos opinou que no tivesse medo. No havia nada; tudo
parecia estar como no dia anterior, as ruas socegadas, as caras mudas.
No correria sangue, o commercio ia continuar. Toda a animao de Ayres
tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo estylo.

Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo que
Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de outro
destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expanso da
segunda, no houve represso nem briga. Ao jantar, falaram pouco.
Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns
co-religionarios e soube do que se passra  noite e de manh, a
marcha e a reunio dos batalhes no campo, as palavras de Ouro Preto
ao marechal Floriano, a resposta deste, a aclamao da Republica. A
familia ouvia e perguntava, no discutia, e esta moderao contrastava
com a gloria de Paulo. O silencio de Pedro principalmente era como um
desafio. No sabia Paulo que a propria me  que o pedira ao irmo com
muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do corao do
rapaz.

O corao de Paulo, ao contrario, era livre, deixava circular o sangue,
como a felicidade. Os sentimentos republicanos, em que os principios
se incrustavam viviam alli to fortes e quentes, que mal deixavam ver
o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra gente sua. Ao fim do
jantar, bebeu  Republica, mas calado, sem ostentao, apenas olhando
paaa o tecto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume.
Ninguem replicou por outro gesto ou palavra.

Certamente, o moo Pedro quiz dizer alguma phrase de piedade
relativamente ao regimen imperial e s pessoas de Bragana, mas a
me quasi que no tirava os olhos delle, como impondo ou pedindo
silencio. De mais, elle no cria nada mudado; a despeito de decretos
e proclamaes, Pedro imaginava que tudo podia ficar como d'antes,
alterado apenas o pessoal do governo. Custa pouco, dizia elle baixinho
 me, ao deixarem a mesa;  s o imperador falar ao Deodoro.

Paulo saiu, logo depois do jantar, promettendo vir cedo. A me,
receiosa de o ver mettido em barulhos, no queria que elle saisse; mas
outro receio fel-a consentir, e este era que os dous irmos brigassem
finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o
que negou. No  menos certo que ella raciocinou alguns minutos antes
de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pagina antes da que vou
escrever agora; mas ambos ns, Natividade e eu, acabamos por deixar que
os actos se praticassem, sem opposio della, nem commentario meu.



CAPITULO LXVI


O basto e a espadilha


Vieram amigos da casa, trazendo noticias e boatos. Variavam pouco e
geralmente no havia opinio segura acerca do resultado. Ninguem sabia
se a victoria do movimento era um bem, se um mal, apenas sabiam que
era um facto. Dalli a ingenuidade com que alguem propoz o voltarete
do costume, e a boa vontade de outros em acceital-o. Santos, embora
declarase que no jogava, mandou pr as cartas e os tentos, mas os
outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem elle, no
havia graa. Quiz resistir; no era bonito que no proprio dia em que
o regimen caira ou ia cair, entregasse o espirito a recreaes de
sociedade... No pensou isto em voz alta nem baixa, mas comsigo, e
talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um pretexto para resistir,
se buscasse algum, mas amigos e cartas no deixavam buscar nada.
Santos acabou acceitando. Provalmente era essa mesma a inclinao
intima. Muitas ha que precisam ser attrahidas c fora, como um favor
ou concesso da pessoa. Emfim, o basto e a espadilha fizeram naquella
noite o seu officio, como as mariposas e as ratos, os ventos e as
ondas, o lume das estrellas e o somno dos cidados.




CAPITULO LXVII


A noite inteira


Saindo de casa, Paulo foi  de um amigo, e os dous entraram a buscar
outros da mesma edade e egual intimidade. Fram aos jornaes, ao quartel
do Campo, e passaram algum tempo deante da casa de Deodoro. Gostavam
de ver os soldados, a p ou a cavallo, pediam licena, falavam-lhes,
offereciam cigarros. Era a unica concesso destes; nenhum lhes contou o
que se passara, nem todos saberiam nada.

No importa, iam cheios de si. Paulo era o mais enthusiasta e convicto.
Aos outros valia s a mocidade, que  utn programma, mas o filho de
Santos tinha frescas todas as ideias do novo regimen, e possuia ainda
outras que no via acceitar; bater-se-ia por ellas. Trazia at a desejo
de achar alguem na rua, que soltasse um grito, j agora sedicioso, para
he quebrar a cabea com a bengala. Note-se que esquecera ou perdera a
bengala. No deu por falta della; se dsse, bastavam-lhe os braos e as
mos.

Propoz cantarem a _Marselheza_; os outros no quizeram ir to longe,
no por medo, seno de canados. Paulo, que resistia mais que elles 
fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.

--Vamos esperal-a do alto de um morro, ou da praia do Flamengo; teremos
tempo de dormir amanh.

--Eu no posso, disse um.

Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas. Era
perto de duas horas. Paulo acompanhou-os a todos, e s depois de ver o
ultimo recolhido foi ssinho para Botafogo.

Quando entrou, deu com a me que esperava por elle, inquieta e
arrependida de o haver deixado sair. Paulo no achou desculpa e
censurou a me por no dormir,  espera delle. Natividade confessou que
no teria somno, antes de o saber em casa so e salvo. Falavam baixo e
pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.

--Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado no lhe contes nem
lhe perguntes nada; dorme, e amanh saberemos tudo e o mais que se
passar esta noite.

Paulo entrou no quarto p ante p. Era ainda aquelle vasto quarto
em que os dous gemeos brigaram por causa de duas velhas gravuras,
Robespierre e Luiz XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma
revoluo de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho
da me, Paulo no quiz saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que
no. Effectivamente, no. Pedro viu as cautellas de Paulo, e cumpriu
tambem os conselhos da me; fingiu que no via nada. At ahi os
conselhos; mas um pouco de gloria fez com que Paulo cantarolasse entre
os dentes, baixinho, para si, a primeira estrophe da _Marselheza_ que
os amigos tinham recusado fra:

   Allons, enfants de la patrie,
   Le jour de gloire est arriv!

Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a
inteno do outro era affligil-o. No era, mas podia ser. Vacillou
entre a rplica e o silencio, at que uma ideia fantastica lhe
atravessou o cerebro, cantarolar, tambem baixinho, a segunda parte
da estrophe: _Entendez-vous dans vos campagnes..._, que allude s
tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido historico, para
restringil-a s tropas nacionaes. Era um desforo vago, a ideia passou
depressa. Pedro contentou-se de simular a indifferena suprema do
somno. Paulo no acabou a estrophe; despiu-se agitado, sem tirar o
pensamento da victoria dos seus sonhos politicos. No se metteu logo
na cama; foi primeiro  do irmo, a ver se dormia. Pedro respirava
to naturalmente, como se no perdera nada. Teve impeto de acordal-o,
bradar-lhe que perdera tudo, se alguma cousa era a instituio
derribada. Recuou a tempo e foi metter-se entre os lenes.

Nenhum dormia. Emquanto o somno no chegava, iam pensando nos
acontecimentos do dia, ambos espantados de como fram faceis e rapidos.
Depois cogitavam no dia seguinte e nos effeitos ulteriores. No admira
que no chegassem  mesma concluso.

--Como diabo  que elles fizeram isto, sem que ninguem dsse pela
cousa? reflectia Paulo. Podia ter sido mais turbulento. Conspirao
houve, de certo, mas uma barricada no faria mal. Seja como fr,
venceu-se a campanha. O que  preciso  no deixar esfriar o ferro,
batel-o sempre, e renoval-o. Deodoro  uma bella figura. Dizem que a
entrada do marechal no quartel, e a saida, puxando os batalhes, fram
esplendidas. Talvez faceis de mais;  que o regimen estava pdre e caiu
por si...

Emquanto a cabea de Paulo ia formulando essas ideias, a de Pedro ia
pensando o contrario; chamava ao movimento um crime.

--Um crime e um disparate, alm de ingratido; o imperador devia ter
pegado os principaes cabeas e mandal-os executar. Infelizmente, as
tropas iam com elles. Mas nem tudo acabou. Isto  fogo de palha;
daqui a pouco est apagado, e o que antes era torna a ser. Eu acharei
duzentos rapazes bons e promptos, e desfaremos esta caranquejola. A
apparencia  que d um ar de solidez, mas isto  nada. Ho de ver que
o imperador no sae daqui, e, ainda que no queira, ha de governar;
ou governar a filha, e, na falta della, o neto. Tambem elle ficou
menino e governou. Amanh  tempo; por ora tudo so flores. Ha ainda um
punhado de homens...

A reticencia final dos discursos de ambos quer dizer que as ideias
se iam tornando esgaradas, nevoentas e repetidas, at que se
perderam e elles dormiram. Durante o somno, cessou a rovoluo e a
contra-revoluo, no houve monarchia nem republica, D. Pedro II nem
marechal Deodoro, nada que cheirasse a politica. Um e outro sonharam
com a bella enseada de Botafogo, um cu claro, uma tarde clara e uma s
pessoa: Flora.




CAPITULO LXVIII


De manh


Flora abriu os olhos de ambos, e esvaiu-se to depressa que elles mal
puderam ver a harpa do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota.
Olharam um para o outro, sem rancor apparente. O receio de um e a
esperana de outro deram tregoas. Correram aos jornaes. Paulo, meio
tonto, temia alguma traio sobre a madrugada. Pedro tinha uma ideia
vaga de restaurao, e contava ler nas folhas um decreto imperial da
amnistia. Nem traio nem decreto, A esperana e o receio fugiram deste
mundo.




CAPITULO LXIX


Ao piano


Emquanto elles sonhavam com Flora, esta no sonhou com a republica.
Teve uma daquellas noites em que a imaginao dorme tambem, sem olhos
nem ouvjdos, ou, quando muito, a retina no deixa ver claro, e as
orelhas confundem o som de um rio com o latir de um co remoto. No
posso dar melhor definio, nem ella  precisa; cada um de ns ter
tido dessas noites mudas e apagadas.

No sonhou sequer com musica; e, alis tocra antes algumas das suas
paginas queridas. No as tocou somente por gostar dellas, seno
por fugir  consternao dos paes, que era grande. Nenhum d'estes
podia crr que as instituies tivessem caido, outras nascido, tudo
mudado. D. Claudia ainda appellava para o dia seguinte e perguntava
ao marido se vira bem, e o que  que vira; elle mordia os beies,
batia na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os
acontecimentos, as noticias colladas s portas dos jornaes, a priso
dos ministros, a situao, tudo extincto, extincto, extincto...

Flora no era avessa  piedade, nem  esperana, como sabeis; mas
no ia com a agitao dos paes, e metteu-se com o seu piano e as
suas musicas. Escolheu no sei que sonata. Tanto bastou para lhe
tirar o presente. A musica tinha para ella a vantagem de no ser
presente, passado ou futuro; era uma cousa fra do tempo e do espao,
uma idealidade pura. Quando parava, succedia-lhe ouvir alguma
phrase solta do pae ou da me: ...Mas como foi que...?--Tudo s
escondidas...--Ha sangue? s vezes um delles fazia algum gesto,
e ella no via o gesto. O pae, com a alma tropega, falava muito e
incoherente. A me trazia outro vigor. J lhe succedia calar por
instantes, como se pensasse, ao contrario do marido que, em se calando,
coava a cabea, apertava as mos ou suspirava, quando no ameaava o
tecto com o punho.

--_L, l, d, r, sol, r, r, l_, ia dizendo o piano da filha, por
essas ou por outras notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos
homens e suas dissenses.

Tambem se pde achar na sonata de Flora uma especie de accordo com
a hora presente. No havia governo definitivo. A alma da moa ia
com esse primeiro albor do dia, ou com esse derradeiro crepusculo
da tarde,--como queiras,--em que nada  to claro ou to escuro que
convide a deixar a cama ou accender velas. Quando muito, ia haver
um governo provisorio. Flora no entendia de frmas nem de nomes. A
sonata trazia a sensao da falta absoluta de governo, a anarchia da
innocencia primitiva naquelle recanto do Paraiso que o homem perdeu
por desobediente, e um dia ganhar, quando a perfeio trouxer a
ordem eterna e unica. No haver ento progresso nem regresso, mas
estabilidade. O seio de Abraho agazalhar todas as cousas e pessoas, e
a vida ser um cu aberto. Era o que as teclas lhe diziam sem palavras,
_r, r, l, sol, l, l, d..._




CAPITULO LXX


De uma concluso errada


Os successos vieram vindo,  medida que as flores iam nascendo. Destas
houve que serviram ao ultimo baile do anno. Outras morreram na vespera.
Poetas de um e outro regimen tiraram imagem do facto para cantarem a
alegria e a melancolia do mundo. A differena  que a segunda abafava
os seus suspiros, em quanto a primeira levava longe os seus tripudios.
O metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores  que
continuavam a nascer e morrer, egual e regularmente.

D. Claudia colheu as rosas do ultimo baile do anno, primeiro da
Republica, e adornou a filha com ellas. Flora obedeceu e acceitou-as.
Pae de familia antes de tudo, Baptista acompanhou a esposa e a
filha ao baile. Tambem l foi Paulo, pela moa e pelo regimen. Se,
em conversa com o ex-presidente de provincia, disse todo o bem que
pensava do Governo Provisorio, no lhe ouviu palavras de accordo nem de
contestao. No entrou mais fundo na confisso do homem, porque a moa
o attraia, e elle gostava mais della que do pae.

Flora viu uma semelhana entre o baile da ilha Fiscal e este, apesar de
particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha dos tempos da
propaganda e um dos ministros l esteve, ainda que s meia hora. Dahi a
ausencia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro,
como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhana das duas festas.
Ambas traziam a ausencia de um gemeo.

--Porque  que seu irmo no veiu? perguntou ella.

Paulo enfiou; depois de alguns instantes:

--Pedro  teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Cr naturalmente
que a monarchia levou a arte de danar. No faa caso;  um lunatico.

--No diga isso.

--Acha tambem que a dana se foi com o imperio?

--No, a prova  que estamos danando. No; digo que lhe no chame
nomes feios.

--Parece-lhe ento que Pedro  um rapaz de juizo?

--Certamente, como o senhor.

--Mas...

Paulo ia a perguntar-lhe qual d'elles, tendo ella de jurar por um ou
por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Ento ella
falou do calor, e elle achou que sim, que estava quente. Acharia que
estava frio, se ella se queixasse de frio. Flora, se s cedesse 
vista, era tambem capaz de acceitar todas as opinies de Paulo, para ir
com elle. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante,
olhava por cima, firme em que os seus escriptos de um anno  que haviam
feito a Republica, posto que incompleta, sem certas ideias que expozera
e defendera, e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo  moa, e
ella escutava com prazer, sem opinio; era s o gosto de o escutar.
Quando a lembrana de Pedro surgia na cabea da moa, a tristeza
empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra, e assim
acabou o baile. Ento as duas, tristeza e alegria, agazalharam-se no
corao de Flora, como as suas gemeas que eram.

O baile acabou. O capitulo  que no acaba sem que deixe um pouco de
espao a quem quizer pensar naquella creatura. Pae nem me podiam
entendel-a, os rapazes tambem no, e provavelmente Santos e Natividade
menos que ninguem. Tu, mestra de amores ou alumna delles, tu que
escutas a diversos, conclues que ella era... Custa pr o nome do
officio. Se no fosse a obrigao de contar a historia com as proprias
palavras, preferia calal-o, mas tu sabes qual  elle, e aqui fica.
Conclues que Flora era namoradeira, e conclues mal.

Leitora,  melhor negar j isto que esperar pelo tempo. Flora no
conhecia as douras do namoro, e menos ainda se podia dizer namoradeira
de officio. A namoradeira de officio  a planta das esperanas,
e alguma vez das realidades, se a vocao o impe e a occasio o
permitte. Tambem  preciso ter em lembrana aquillo de um publicista,
filho de Minas e do outro seculo, que acabou senador, e escrevia contra
os ministros adversarios: Pitangueira no d manga. No, Flora no
dava para namorados.

A prova disto  que no Estado em que viveu alguns mezes de 1801, com o
pae e a me, para o fim que direi adiante, ninguem alcanou o menor dos
seus olhares amigos ou sequer complacentes. Mais de um rapaz consumiu
o tempo em se fazer visto e attrahido della. Mais de uma gravata, mais
de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe as cres, os gestos e os
vidros, sem obter outra cousa que a atteno cortez e acaso uma palavra
sem valor.

Flora s se lembrava dos gemeos. Se nenhum delles a esqueceu, ella no
os perdeu de memoria, Ao contrario, escrevia por todos os correios a
Natividade para se fazer lembrada de ambos. As cartas falavam pouco da
terra ou da gente, e no diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra
saudades, que cada um dos dous gemeos lia para si. Tambem elles a
escreviam nas cartas que mandavam a D. Claudia e a Baptista, com a
mesma inteno duplicada e e mysteriosa, que ella entendia muito bem.

Taes eram de longe, ella e elles. A rixa velha, que os desunia na vida,
continuava a desunil-os no amor. Podiam amar cada um a sua moa, casar
com ella e ter os seus filhos, mas preferiam amar a mesma, e no ver
o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem diversa musica,
antes, durante e depois da commisso do Baptista.




CAPITULO LXXI


A commisso


L me escapou a palavra. Sim, foi uma commisso dada ao pae, e da qual
no sei nada, nem ella. Negocio reservado. Flora chamava-lhe commisso
do inferno. O pae, sem ir to fundo, concordava mentalmente com ella;
verbalmente, desmentia a definio.

--No digas isso, Flora;  commisso de confiana para fins nobremente
politicos.

Creio que sim, mas dahi a saber o objecto especial e real, ia largo
espao. Tambem no se sabe como foi parar s mos de Baptista aquelle
recado do governo. Sabe-se que elle no desprezou a escolha, quando
um amigo intimo correu a chamal-o ao palacio do generalissimo. Viu
que era reconhecer nelle muita finura e capacidade de trabalho. No
 menos certo, porm, que a commisso entrava a aborrecel-o, posto
que na correspondencia official dissesse exactamente o contrario. Se
taes papeis mostrassem sempre o corao da gente, Baptista, cujas
instruces eram, alis, de concordia, parecia querer levar a concordia
a ferro e fogo; mas o estylo no  o homem. O corao de Baptista
fechava-se, quando elle escrevia, e deixava ir a mo adiante, com a
chave do corao apertada... J  tempo, suspirava o musculo, j 
tempo de um logar de governador.

Quanto a D. Claudia, nao queria ver acabada a commisso, que restituia
ao esposo a aco politica; faltava-lhe smente uma cousa, opposio.
Nenhum jornal dizia mal delle. Aquelle prazer de ler todas as manhs
as descomposturas dos adversarios, lel-as e relel-as com os seus nomes
feios, como lategos de muitas pontas, que lhe rascavam as carnes e
a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer no lhe dava a commisso
reservada. Ao contrario, havia uma especie de aposta em achar o
commissario justo, equitativo e conciliador, digno de admirao, typo
civico, caracter sem macula. Tudo isto ella conheceu outr'ora, mas para
lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado de ralhos
e calumnias. Sem elles, era agua ensossa. Tambem no tinha aquella
parte de ceremonias a que obrigava o summo cargo, mas no lhe faltavam
attenes, e era alguma cousa.




CAPITULO LXXII


O regresso


Quando o marechal Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de
novembro, Baptista recordou o tempo dos manifestos liberaes, e quiz
fazer um. Chegou a principial-o, em segredo, empregando as belIas
phrases que trazia de cr, citaes latinas, duas ou trez apostrophes.
D. Claudia reteve-o  beira do abysmo, com razes claras e robustas.
Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um beneficio. Serve-se muita
vez a liberdade parecendo suffocal-a. Depois, era o mesmo homem que a
havia proclamado que convidava agora a nao a dizer o que queria, e
a emendar a constituio, salvo nas partes essenciaes. A palavra do
generalissimo, como a sua espada, bastava a defender e consummar a obra
principiada. D. Claudia no tinha estylo proprio, mas sabia communicar
o calor do discurso ao corao de um homem de boa vontade. Baptista,
depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no hombro imperativamente.

--Tens razo, filha.

No rasgou o papel escripto; queria guardal-o como simples lembrana,
e a prova  que ia escrever uma carta ao presidente. D. Claudia tambem
lhe tirou esta ideia da cabea. No havia necessidade de lhe mandar o
seu suffragio; bastava conservar-se na commisso.

--O governo no est satisfeito com voc?

--Est.

--Vendo que voc se conserva, conclue que approva tudo, e basta.

--Sim, Claudia, concordou elle aps alguns instantes. Ao contrario,
qualquer cousa que escrevesse contra a assembla sediciosa que o
presidente acaba de dissolver, pareceria falta de piedade. Paz aos
mortos! Tens razo, filha.

Conservou-se calado, operando, fiel s instruces recebidas. Vinte
dias depois, o marechal Deodoro passava o governo s mos do marechal
Floriano, o congresso era restabelecido e todos os decretos do dia 3
annullados.

Ao saber de taes factos, Baptista pensou morrer. Ficou sem fala por
alguns instantes, e D. Claudia no achou a menor parcella de animo
que lhe dsse. Nenhum contra com a marcha rapida dos acontecimentos,
uns sobre outros, com tal atropello que parecia um bando de gente que
fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de fora e socego, esperanas e
grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.

Agora  que Baptista comprehendeu o erro de haver dado ouvidos 
esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4 ou 5, estaria
com um documento de resistencia na mo para reivindicar um posto de
honra qualquer,--ou s estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a
pensar em imprimil-o, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como
este; O dia da oppresso  a vespera da liberdade. Citava a bella
Roland caminhando para a guilhotina;  liberdade, quantos crimes em
teu nome! D. Claudia fez-lhe ver que era tarde, e elle concordou.

--Sim,  tarde. Naquelle dia  que no era tarde, vinha  hora propria,
para o effeito certo.

Baptista amarrotou o papel distrahidaraente; depois alisou-o e
guardou-o. Em seguida, fez um exame de consciencia, profundo e sincero.
No devia ter cedido; a resistencia era o melhor; se tem resistido s
palavras da mulher, a situao seria outra. Apalpou-se, achou que sim,
que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e passado adiante.
Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atraz o tempo, e
mostraria como  que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos.
No era preciso saber nada do que anteriormente succedeu; a consciencia
dizia-lhe que, era situao identica  do dia 3, faria outra cousa...
Oh! com certeza! faria cousa muito diversa, e mudaria o seu destino.

Um officio ou telegrarama veiu arrancar Baptista  commisso politica
e reservada, A volta para o Rio de Janeiro foi breve e triste, sem os
epithetos que o haviam regalado por alguns mezes, nem acompanhamento de
amigos. S uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas as noites
pela terminao daquelle exilio.

--Parece que ests contente com o desastre de teu pae, disse-lhe a me
j a bordo.

--No, mame; alegro-me de ver que acabou esta canceira. Papae pde
muito bem fazer politica no Rio de Janeiro, onde  muito apreciado,
A senhora ver. Eu, se fosse papae, apenas desembarcasse, ia logo ao
marechal explicar tudo, mostrar as instruces e dizer o que tinha
feito; dizia mais que a dispensa veiu muito a proposito, afim de no
parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar l
mesmo...

D. Claudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver que a filha
pensava e dava conselhos em politica. No advertiu, como fez o leitor,
que a alma do discurso da moa era no sair da capital, fazer aqui
mesmo o seu congresso, que em breve seria uma s assembla legislativa,
como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cantaras, Pedro ou Paulo,
caberia esse unico poder politico? Eis o que ella mesma no sabia.

Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no
porto do Rio de Janeiro. No fram em duas lanchas, fram na mesmo,
e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam de cair ao
mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim no acaba
mal o capitulo, porque a razo da presteza com que elles saltaram para
a escada foi a ambio de ser o primeiro que comprimentasse a moa;
aposta de amor, que ainda uma vez os egualou na alma della. Emfim
chegaram, e no consta qual effectivamente a cumprimentou primeiro;
pde ser que ambos.




CAPITULO LXXIII


Um El-Dorado


No caes Pharoux esperavam por elles trez carruagens,--dous _coups_ e
um _landau_, com trez bellas parelhas de cavallos. A gente Baptista
ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no _landau._ Os
gemeos foram cada um no seu _coup._ A primeira carruagem tinha o seu
cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botes de metal branco,
em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das outras tinha
apenas o cocheiro, com egual libr. E todas trez se puzeram a andar,
estas atraz daquella, os animaes batendo rijo e compassado, a golpes
certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquella recepo.
De quando em quando, encontravam outros trens, outras librs, outras
parelhas, a mesma belleza e o mesmo luxo.

A capital offerecia ainda aos recem-chegados um espectaculo magnifico.
Vivia-se dos restos daquelle deslumbramento e agitao, epopeia de ouro
da cidade e do mundo, porque a impresso total  que o mundo inteiro
era assim mesmo. Certo, no lhe esqueceste o nome, encilhamento, a
grande quadra das emprezas e companhias de toda especie. Quem no viu
aquillo no viu nada. Cascatas de ideias, de invenes, de concesses
rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se fazerem contos de
reis, centenas de contos, milhares, milhares de milhares, milhares
de milhares de milhares de contos de reis. Todos os papeis, alis
aces, saam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro,
bancos, fabricas, minas, estaleiros, navegao, edificao, exportao,
importao, ensaques, emprestimos, todas as unies, todas as regies,
tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava
nas ruas e praas, com estatutos, organisadores e listas. Letras
grandes enchiam as folhas publicas, os titulos succediam-se, sem que se
repetissem, raro morria, e s morria o que era frouxo, mas a principio
nada era frouxo. Cada aco trazia a vida intensa e liberal, alguma vez
immortal, que se multiplicava daquella outra vida com que a alma acolhe
as religies novas. Nasciam as aces a preo alto, mais numerosas que
as antigas crias da escravido, e com dividendos infinitos.

Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro
brotava do cho, mas no  verdade. Quando muito, caia do cu. Candido
e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes que  o nome daquelle
indio que Basilio da Gama cantou no _Uruguay._ Voltaire pegou delle
para o metter no seu livro, e a ironia do philosopho venceu a doura
do poeta. Pobre Jos Basilio! tinhas contra ti o assumpto estreito e a
lingua escusa. O grande homem no te arrebatou Lindoya, felizmente, mas
Cacambo  delle, mais delle que teu, patricio da minha alma.

Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no El-Dorado, conta
Voltaire que viram creanas brincando na rua com rodelas de ouro,
esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria em que
comeram quizeram pagar o jantar com duas dellas. Sabes que o dono da
casa riu s bandeiras despregadas, j por quererem pagar-lhe com pedras
do calamento, j porque alli ninguem pagava o que comia; era o governo
que pagava tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade
attribuida ao Estado, que fez crr eguaes phenomenos entre ns, mas 
tudo mentira.

O que parece ser verdade  que as nossas carruagens brotavam do cho.
s tardes, quando uma centena dellas se ia enfileirar no largo de S.
Francisco de Paula,  espera das pessoas, era um gosto subir a rua
do Ouvidor, parar e contemplal-as. As parelhas arrancavam os olhos 
gente; todas pareciam descer das rhapsodias de Homero, posto fossem
corceis de paz. As carruagens tambem. Juno certamente as apparelhra
com suas correias de ouro, freios de ouro, redeas de ouro, tudo de
ouro incorruptivel. Mas nem ella nem Minerva entravam nos vehiculos de
ouro para os fins da guerra contra Illion. Tudo alli respirava a paz.
Cocheiros e lacaios, barbeados e graves, esperando tezos e compostos,
davam uma bella ideia do officio. Nenhum aguardava o patro, deitado
no interior dos carros, com as pernas de fra. A impresso que davam
era de uma disciplina rigida e elegante, aprendida em alta escola e
conservada pela dignidade do individuo.

Casos ha,--escrevia o nosso Ayres--em que a impassibilidade do
cocheiro na bola contrasta com a agitao do dono no interior da
carruagem, fazendo crr que  o patro que, por desfastio, trepou 
bola e leva o cocheiro a passear.




CAPITULO LXXIV


A alluso do texto


Antes de continuar,  preciso dizer que o nosso Ayres no se referia
vagamente ou de modo generico a algumas pessoas, mas a uma s pessoa
particular. Chamava-se ento Nobrega; outr'ora no se chamava nada, era
aquelle simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpetua
na rua de S. Jos, esquina da da Misericordia. No esqueceste que a
recente me deitou uma nota de dous mil reis  bacia do andador. A nota
era nova e bella; passou da bacia  algibeira, no fundo de um corredor,
no sem algum combate.

Poucos mezes depois, Nobrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a
outros purgatorios, para os quaes achou outras opas, outras bacias e
finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi
a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e no se sabe se tambem
o paiz. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de reis, que a
fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Emfim, alvoreceu a famosa quadra
do encilhamento. Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande
esmola, o grande purgatorio. Quem j sabia do andador das almas? A
antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Elle era outro; as
feies no eram as mesmas, seno as que o tempo lhe veiu compondo e
melhorando.

Se a grande bacia, ou qualqer das outras recebeu notas que tivessem o
destino da primeira,  o que se no sabe, mas  possivel. Foi por esse
tempo que Ayres o viu de carro, quasi a sair pela portinhola fra,
comprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio
que eram escossezes) salvassem a dignidade pessoal da casa, Ayres fez a
observao do fim do outro capitulo, sem nenhuma inteno geral.

Posto no achasse j nenhum conhecido antigo, Nobrega tinha medo de
tornar ao bairro, onde andra a pedir para as primeiras almas. Um dia,
porm, taes fram as saudades delle que pensou em affrontar o perigo e
l foi. Tinha cocegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas
e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde appareciam
taes e taes moas... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou
por outra parte. S passava de carro; depois quiz ver tudo a p,
devagar, parando, se fosse possivel, e revivendo o extincto.

L se foi a p; desceu pela rua de S. Jos, dobrou a da Misericordia,
foi parar  praia de Santa Luzia, tornou pela rua de D. Manuel, enfiou
de becco em becco. A principio olhava de esguelha, rapido, os olhos no
cho. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados
de grade de pau debruaram-se ainda moas, velhas e meninas e nenhuma
era a mesma. Nobrega foi-se animando e. encarando. Talvez esta velha
fosse moa, ha vinte annos; a moa talvez mamasse, e d agora de mamar
a outra creana. Nobrega acabou parando e andando de vagar.

Voltou mais vezes. S as casas, que eram as mesmas, pareciam
reconhecel-o, e algumas quasi que lhe falavam. No  poesia. O
ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se
admirar dellas, contar-lhes a vida, obrigal-as a comparar o modesto
de outr'ora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras
mudas: Vejam, manas,  elle mesmo. Passava por,ellas, fitava-as,
interrogava-as, quasi ria, quasi as tocava para sacudil-as com fora:
Falem, diabos, falem!

No confiaria de homem aquelle passado, mas s paredes mudas, s
grades velhas, s portas gretadas, aos lampies antigos, se os havia
ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quizera dar olhos, ouvidos e
bca, uma bca que s elle escutasse, e que proclamasse a prosperidade
daquelle velho andador.

Uma vez, viu a matriz de S. Jos aberta e entrou. A egreja era a mesma;
aqui esto os altares, aqui est a solido, aqui est o silencio.
Persignou-se, mas no orou; olhava s a um lado e outro, andando na
direco do altar-mr. Tinha receio de ver apparecer o sacristo, podia
ser o mesmo, e conhecel-o. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.

Ao subir pela rua de S. Jos, encostou-se  parede, para deixar passar
uma carroa. A carroa subiu a calada, elle refugiou-se n'um corredor.
O corredor podia ser qualquer; aquelle era o proprio em que elle fez
a operao da nota de dous mil reis de Natividade. Olhou bem, era o
mesmo. Ao fundo estavam os trez ou quatro degros da primeira escada
que dobrava  esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu
por um instante aquella manh, viu no ar a nota de dous mil reis.
Outras lhe teriam vindo s mos por maneiras assim faceis, mas nunca
lhe esqueceu aquella graciosa folha gravada com tantos symbolos,
numeros, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe
Deus se a propria Santa Rita de Cassia. Era a sua particular devoo.
Sem duvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas no fram
seno levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas
acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que no as ouvissem
crescer.

Por mais que elle olhasse pela vida dentro, no achava egual obsequio
do cu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma joia lhe levou os
olhos, no lhe levou as mos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou
ganhra com que o comprar. A nota de dous mil reis... Um dia, ousando
mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.

No, leitor, no me apanhas em contradico. Eu bem sei que a principio
o andador das almas attribuiu a nota ao prazer que a dama traria de
alguma aventura. Ainda me lembram as palavras delle: Aquellas duas
viram passarinho verde! Mas se agora attribuia a nota  proteco da
santa, no mentia ento nem agora. Era difficil atinar com a verdade.
A unica verdade certa eram os dous mil reis. Nem se pde dizer que era
a mesma em ambos os tempos. Ento, a nota de dous mil reis equivalia,
pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora no
subia de uma gorgeta de cocheiro.

Tambem no ha contradico em pr a santa agora e a namorada outr'ora.
Era mais natural o contrario, quando era maior a intimidade delle com
egreja. Mas, leitor dos meus peccados, amava-se muito em 1871, como
j se amava em 1861, 1851 e 1841, no menos que em 1881, 1891 e 1901.
O seculo dir o resto. E depois,  preciso no esquecer que a opinio
do andador das almas cerca de Natividade foi anterior ao gesto do
corredor, quando elle agazalhou a nota na algibeira.  duvidoso que,
depois do gesto, a opinio fosse a mesma.




CAPITULO LXXV


Proverbio errado


Pessoa a quem li confidencialmente o capitulo passado, escreve-me
dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castello. Sem as suas
predices grandiosas, a esmola de Natividade seria minima ou nenhuma,
e o gesto do corredor no se daria por falta de nota. A occasio faz o
ladro, conclue o meu correspondente.

No conclue mal. Ha todavia alguma injustia ou esquecimento porque as
razes do gesto do corredor fram todas pias. Alm disso, o proverbio
pde estar errado. Uma das affirmaes de Ayres, que tambem gostava de
estudar adagios,  que esse no estava certo.

--No  a occasio que faz o ladro, dizia elle a alguem; o proverbio
est errado. A frma exacta deve ser esta: A occasio faz o furto; o
ladro nasce feito.




CAPITULO LXXVI


Talvez fosse a mesma!


Nobrega saiu emfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma
mulher lhe estendia a mo:

--Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!

Nobrega metteu a mo no bolso do collete e pegou um nickel, entre dous
que l havia, um de tosto, outro de dous. Pegou o primeiro, mas indo a
darlh'o, mudou de ideia; no deu o nickel; disse  velha que esperasse,
e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mo
na algibeira das calas e saccou um mao de dinheiro; procurou e achou
uma nota de dous mil reis, no nova, antes velha, to velha como a
mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro no perde
com a velhice.

--Tome l, murmurou elle.

Quando a mendiga voltou do espanto, Nobrega acabava de restituir o
mao  algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga ento disse veiu
entremeado de lagrimas:

--Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem
Santissima...

E beijava a nota, e queria beijar a mo que lhe dera a esmola, mas
elle a escondeu, como no Evangelho, murmurando que no, que se fosse
embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quasi mystico,
uma especie de melodia do cu, um cro de anjos, e fazia bem fitar-lhe
os olhos encarquilhados, a mo tremula, segurando a nota. Nobrega no
esperou que ella se fosse, saiu, desceu a rua, com as benos da mulher
atraz de si; dobrou a esquina, a passo rapido, e ahi foi pensando no
se sabe em qu.

Atravessou a praa, passou a cathedral e a egreja do Carmo, e chegou
ao Carceller, onde entregou as botas a um italiano para que lh'as
engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita
ou para esquerda,--em todo caso para longe,--e acabou murmurando
esta phrase, que tanto podia referir-se  nota. como  mendiga, mas
provavelmente era  nota:

--Talvez fosse a mesma!

Nenhum obsequio, por infimo que seja, esquece ao beneficiado. Ha
excepes. tambem ha casos em que a memoria dos obsequios afflige,
persegue e morde, como os mosquitos; mas no  regra. A regra 
guardal-os na memoria, como as joias nos seus escrinios; comparao
justa, porque o obsequio  muita vez alguma joia, que o obsequiado
esqueceu de restituir.




CAPITULO LXXVII


Hospedagem


A famlia Baptista foi aposentada em casa de Santos. Natividade no
pde ir a bordo, e o marido estava occupado em lanar uma companhia;
mandaram recado pelos filhos que a casa de Botafogo tinha j os quartos
preparados. Desde que o carro se poz a andar, Baptista confessou que ia
ficar constrangido por alguns dias.

--N'uma casa de penso era melhor, at que nos despejassem a de S.
Clemente.

--Que queria voc? No havia remedio seno acceitar, ponderou a mulher.

Flora no disse nada, mas sentia o contrario do pae e da me. Pensar
no pensou; ia to atordoada com a vista dos rapazes que as ideias no
se enfileiraram naquella forma logica do pensamento. A propria sensao
no era nitida. Era uma mistura de oppressivo e delicioso, de turvo e
claro, uma felicidade truncada, uma afflico consoladora, e o mais que
puderes achar no capitulo das contradices. Eu nada mais lhe ponho.
Nem ella saberia dizer o que sentia. Teve allucinaes extraordinarias.

Agora o que  mister dizer  que a ideia da hospedagem cabe toda aos
dous jovens doutores. Que elles eram j doutores, posto no houvessem
ainda encetado a carreira de advogado nem de medico. Viviam do amor
da me e da bolsa do pae, inexgotaveis ambos. O pae abanou as orelhas
 lembrana, mas os gemeos insistiram pelo obsequio, a tal ponto que
a me, contente de os ver de accordo, saiu do silencio e concordou
com elles. A ideia de ter a pequena ao p de si, por alguns dias, e
discernir qual era o melhor acceito, e o que devras a amava, pde ser
que tambem influisse na adopo do voto, mas no affirmo nada a tal
respeito. Tambem no asseguro que tivesse grande gosto em agazalhar a
me e o pae de Flora. No obstante, o encontro foi cordial de parte a
parte. Foi um abraar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que
no acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra cr, outro ar. Flora
era um encanto para Natividade e Perpetua; nenhuma destas sabia aonde
iria parar aquella moa to senhoril, to esbelta, to...

--No digam o resto, interrompeu a moa sorrindo; eu tenho a mesma
opinio.

Santos recebeu-os,  tarde, com a mesma cordialidade,--talvez menos
apparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes negocios.

--Uma ideia sublime, disse elle ao pae de Flora; a que lancei hoje foi
das melhores, e as aces valem j ouro. Trata-se de l de carneiro,
e comea pela criao deste mammifero nos campos do Paran. Em cinco
annos poderemos vestir a America e a Europa. Viu o programma nos
jornaes?

--No, no leio jornaes daquir desde que embarquei.

--Pois ver!

No dia seguinte, antes de almoar, mostrou ao hospede o programma e os
estatutos. As aces eram maos e maos, e Santos ia dizendo o valor
de cada um. Baptista sommava mal, em regra; daquella vez, peor. Mas os
algarismos cresciam  vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espao,
desde o cho at s janellas, e precipitavam-se por ellas abaixo, com
um rumor de ouro que ensurdecia. Baptista saiu d'alli fascinado, e foi
repetir tudo  mulher.




CAPITULO LXXVIII


Visita ao marechal


D. Claudia, quando elle acabou, perguntou-lhe com simplicidade:

--Voc vae hoje ao marechal?

Baptista, caindo em si:

--Naturalmente.

Tinham ajustado que elle iria ter com o presidente da Republica
explicar-lhe a commisso que exercera, toda reservada, e, sem embargo,
imparcial. Diria o espirito de concordia com que andou e a estima que
adquiriu. Em seguida, falaria da conveniencia de um governo que, pela
fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalissimo; e uma phrase
final bem estudada.

--Isso na occasio, disse Baptista.

--No,  melhor leval-a feita. Eu lembrei-me desta: Creia V. Ex. que
Deus est com os fortes e os bons.

--Sim, no  m.

--Voc pde accrescentar um gesto que indique cu.

--Isso  que no. Voc sabe que eu no dou para gestos, no sou actor.
Eu, sem mexer um p, inspiro respeito.

D. Claudia dispensou o gesto; no era essencial. Quiz que elle
escrevesse a phrase, mas j estava de cr. Baptista tinha boa memoria.

Naquelle mesmo dia, Baptista foi ao marechal Floriano. No disse nada
s pessoas da casa; contaria tudo na volta. D. Claudia tambem calou,
era por pouco tempo; ficou esperando anciosa. Esperou duas mortaes
horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo, por
intrigas. No era devota, mas o medo inspira devoo, e ella rezou
comsigo. Emfim, chegou Baptista. Ella correu a recebel-o, alvoroada,
pegou-lhe na mo e recolheram-se ao quarto. Perpetua (vde o que so
testemunhos pessoaes na historia!) exclamou enternecida:

--Parecem dous pombinhos!

Baptista contou que a recepo foi melhor do que esperava, comquanto o
marechal no lhe dissesse nada, mas escutou-o com interesse. A phrase?
A phrase saiu bem, apenas com uma emenda. No estando certo se elle
preferia _bons a fortes_, ou se _fortes a bons..._

--Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.

--Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: Creia V. Ex. que Deus
est com os dignos!

Com effeito, a ultima palavra podia abranger as duas, e trazia esta
vantagem de dar  phrase um arranjo pessoal delle.

--Mas o marechal que disse?

--No disse nada; ouviu-me com atteno obsequiosa e chegou a
sorrir,--um sorriso leve, um sorriso de accordo...

--Ou seria... Quem sabe... Voc no andou bem, de certo. Commigo elle
diria alguma cousa. Voc expoz tudo, conforme tinhamos combinado?

--Tudo.

--Expoz as razes da commisso, o desempenho, a nossa moderao...?

--Tudo, Claudia.

--E o aperto de mo do marechal?

--No estendeu a mo, a principio; fez um gesto de cabea; eu  que
estendi a minha, dizendo: Sempre s ordens de V. Ex.

--E elle?

--Elle apertou-me a mo.

--Apertou bem?

--Voc sabe, no podia ser um aperto de amigo, mas deve ter sido
cordial.

--E nenhuma palavra? Um _passe bem_, ao menos?

--No, nem era preciso. Cortejei-o e sa.

D. Claudia deixou-se estar pensando. A recepo no lhe pareceu que
fosse m, mas podia ser melhor. Com ella, seria muito melhor.




CAPITULO LXXIX


Fuso, diffuso, confuso...


Atraz falei das allucinaes de Flora. Realmente, eram extraordinarias.

Em caminho, depois do desembarque, no obstante virem os gemeos
separados e ss, cada um no seu _coup_, scismou que os ouvia
falar; primeira parte da allucinao. Segunda parte: as duas vozes
confundiam-se, de to eguaes que eram, e acabaram sendo uma s. Afinal,
a imaginao fez dos dous moos uma pessoa unica.

Este phenomeno no creio que possa ser commum. Ao contrario, no
faltar quem absolutamente me no creia, e supponha inveno pura o que
 verdade purissima. Ora,  de saber que, durante a commisso do pae,
Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e
mesma creatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o phenomeno.
Quando ouvia os dous, sem os ver, a imaginao acabava a fuso do
ouvido pela da vista, e um s homem lhe dizia palavras extraordinarias.

Tudo isto no  menos extraordinario, concordo. Se eu consultasse o meu
gosto, nem os dous rapazes fariam um s mancebo, nem a moa seria uma
s donzella. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. No podendo ser
assim, consinto na unificao de Pedro e Paulo. Porquanto, esse effeito
de viso repetia-se ao p delles, tal qual na ausencia, quando ella se
deixava esquecer do logar, e soltava a redea a si mesma. Ao piano, 
palestra, ao passeio na chacara,  mesa de jantar, tinha dessas vises
repentinas e breves, e das quaes ella mesma sorria, a principio.

Se alguem quizer explicar este phenomeno pela lei da hereditariedade,
suppondo que elle era a forma affectiva da variao politica da me
de Flora, no achar apoio em mim, e creio que em ninguem. So cousas
diversas. Conheceis os motivos de D. Claudia; a filha teria outros
que ella propria no sabia. O unico ponto de semelhana  que, tanto
na me como na filha, o phenomeno era agora mais frequente, mas em
relao  primeira vinha do atropello dos acontecimentos exteriores.
Nenhuma revoluo se faz como a simples passagem de uma sala a outra;
as mesmas revolues chamadas de palacio trazem alguma agitao que
fica por certo prazo, at que a agua volte ao nivel. D. Claudia cedia 
inquietao dos tempos.

A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se no podia descobrir
logo, nem sequer entender. Era um espectaculo mysterioso, vago,
obscuro, em que s figuras visiveis se faziam impalpaveis, o dobrado
ficava unico, o unico desdobrado, uma fuso, uma confuso, uma
diffuso...



CAPITULO LXXX


Transfuso, emfim


Uma transfuso, tudo o que puder definir melhor, pela repetio e
graduao das frmas e dos estados, aquelle particular phenomeno, pdes
empregal-o no outro e neste capitulo.

Dito o phenomeno,  preciso dizer tambem que Flora, a principio,
achava-lhe graa. Minto; nos primeiros tempos, como estava longe, no
lhe achou nada; depois, sentiu uma especie de susto ou vertigem, mas
logo que se acostumou a passar de dous a um e de um a dous, pareceu-lhe
graciosa a alternao, e chegava a evocal-a com o proposito de divertir
a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternao fazia-se de si
mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantanea. No
eram to frequentes que confinassem com o delirio. Emfim, ella se foi
acostumando e deleitando.

Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o phenomeno,
depois de muita resistencia da parte della, que no queria perder
o somno. Mas o somno vinha, e o sonho completava a vigilia. Flora
passeava ento pelo brao do mesmo garo amado, Paulo se no Pedro, e
ambos iam admirar estrellas e montanhas, ou ento o mar, que suspirava
ou tempestuava, e as flores e as ruinas. No era raro ficarem os dous
a ss, deante de uma nesga de cu, claro de luar, ou todo repregado
de estrellas como um panno azul escuro. Era  janella, suppe; vinha
de fra a cantiga dos ventos mansos, um espelho grande, pendente da
parede, reproduzia as figuras della e delle, confirmando a imaginao
della. Como era sonho, a imaginao trazia espectaculos desconhecidos,
taes e tantos que mal se podia crr bastasse o espao de uma noite. E
bastava. E sobrava. Succedia que Flora acordava de repente, perdia o
quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo illuso, e raro ento
dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, canava-se, at adormecer
novamente e sonhar outra cousa.

Outras vezes, a viso ficava sem o sonho, e diante della uma s figura
esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto supplice. Uma noite,
indo a deitar-lhe os braos sobre os hombros com o fim inconsciente
de cruzar os dedos atraz do pescoo, a realidade, posto que ausente,
clamou pelos seus fros, e o unico moo se desdobrou na duas pessoas
semelhantes.

A differena deu s duas vises de acordada um tal cunho de
fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.




CAPITULO LXXXI


Ai, duas almas...


Anda, Flora, ajuda-me, citando alguma cousa, verso ou prosa, que
exprima a tua situao. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso do
Fausto, adequado:

   Ai, duas almas no meu seio moram!

A me dos gemeos, a bella Natividade podia havel-o citado tambem, antes
delles nascerem, quando ella os sentia lutando dentro em si mesma:

   Ai, duas almas no meu seio moram!

Nisto as duas se parecem,--uma os concebeu, outra os recolheu.
Agora, como  que se d ou se dar a escolha de Flora, nem o proprio
Mephistopheles nol-o explicaria de modo claro e certo. O verso basta:

   Ai, duas almas no meu seio moram!

Talvez aquelle velho Placido, que l deixamos nas primeiras paginas,
chegasse a deslindar estas outras. Doutor em materias escuras e
complicadas, sabia muito bem o valor dos numeros, a significao dos
gestos no s visiveis como invisiveis, a estatistica da eternidade,
a divisibilidade do infinito. Era j morto deste alguns annos. Has de
lembrar-te que elle, consultado pelo pae de Pedro e Paulo, acerca da
hostilidade original dos gemeos, explicou-a promptamente. Morreu no seu
officio; expunha a trez discipulos novos a correspondencia das letras
vogaes com os sentidos do homem, quando caiu de bruos e expirou.

J ento os adversarios de Placido,--que os tinha na propria
seita,--affirmavam haver elle aberrado da doutrina, e, por natural
effeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com esses divergentes
da casa commum, que acabaram formando outra egrejinha em outro bairro,
onde pregavam que a correspondencia exacta no era entre as vogaes e
os sentidos, mas entre os sentidos e as vogaes. Esta outra formula,
parecendo mais clara, fez com que muitos discipulos da primeira hora
acompanhassem os da ultima, e proclamem agora, como concluso final,
que o homem  um alphabeto de sensaes.

Venceram estes, ficando mui poucos fieis  doutrina do velho Placido.
Evocado algum tempo depois de morto, confessou elle ainda uma vez a sua
formula, como a unica das unicas, e excommungou a quantos prgassem
o contrario. Alis, os dissidentes j o haviam excommungado tambem,
declarando abominavel a sua memoria, com aquelle odio rijo, que
fortalece alguma vez o homem contra a frouxido da piedade.

Talvez o velho Placido deslindasse o problema em cinco minutos. Mas
para isso era preciso evocal-o, e o discipulo Santos cuidava agora de
umas liquidaes ultimas e lucrativas. No s de f vive o homem, mas
tambem de po e seus compostos e similares.




CAPITULO LXXXII


Em S. Clemente


Ao cabo de poucas semanas, a familia Baptista saiu da casa Santos,
e tornou  rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades
comearam antes da separao, mas a affeio, o costume, a estima,--a
necessidade, em summa, de se verem a miudo compensaram a melancolia, e
a gente Baptista levou promessa de que a gente Santos iria vel-a dahi a
poucos dias.

Os gemeos cumpriram cedo a promessa. Um delles, parece que Paulo, foi
l nessa mesma noite com recado da me para saber se tinham chegado
bem. Disseram-lhe que sim, accrescentando Baptista, para abreviar a
visita, que estavam bastante canados. Os olhos de Flora desmentiram
esta affirmao; mas dentro em pouco achavam-se no menos tristes que
alegres. A alegria vinha da promptido de Paulo, a tristeza da ausencia
de Pedro. Quizera-os ambos naturalmente; mas, como  que as duas
sensaes se mostravam a um tempo, eis o que no entenders bem nem
mal. Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez
pareceu  moa ouvir rumor na escada; tudo illuso. Mas estes gestos,
que Paulo no viu, to contente estava de se haver adiantado ao irmo,
no eram taes que a fizessem esquecer o irmo presente.

Paulo saiu tarde, no s para o fim de aproveitar a ausencia de Pedro,
mas ainda porque Flora o fazia demorar, com o intuito de ver se o outro
chegava. Assim que, a mesma dualidade de sensao enchia os olhos da
moa, at  hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a
alegre, pois que eram duas ausencias, em vez de uma. Conclue o que
quizeres, minha dona; ella recolheu-se para dormir, e reconheceu que,
se se no dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.




CAPITULO LXXXIII


A grande noite


Ha muito remedio contra a insomnia. O mais vulgar  contar de um
at mil, dous mil, trez mil ou mais, se a insomnia no ceder logo.
 remedio que ainda no fez dormir ninguem, ao que parece, mas no
importa. At agora, todas as applicaes efficazes contra a tisica vo
de par com a noo de que a tisica  incuravel. Convem que os homens
affirmem o que no sabem, e, por officio, o contrario do que sabem;
assim se frma esta outra incuravel, a Esperana.

Flora, incuravel tambem, se no preferes a definio de inexplicavel,
que lhe deu Ayres, a graciosa Flora teve naquella noite a sua insomnia.
Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com
os anjos, achou melhor velar com um ou dous delles, e gastar uma parte
da noite,  janella ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a
completar, mettida no roupo de linho, com os cabellos atados para
dormir.

A principio pensou no que l estivera, e evocou todas as suas graas,
realadas pela virtude particular de a ter ido ver  noite, sem embargo
de se terem visto de manh. Sentia-se grata. Toda a conversao foi
alli repetida na solido da alcova, com as intonaes diversas, o vario
assumpto, e as interrupes frequentes, ora dos outros, ora della
mesma. Ella, em verdade, s interrompia, para pensar no ausente,--e
portanto no fazia mais que converter o dialogo em monologo, o qual por
sua vez acabava em silencio e contemplao.

Agora, pensando em Paulo, queria saber porque  que o no escolhia para
noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa do caracter, e
esta feio no lhe desprazia. Inexplicavel ou no, deixava-se levar
pelos impotos do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros
mais puros e felizes. Aquella cabea, apenas masculina, era destinada
a mudar a marcha do sol, que andava errado. A lua tambem. A lua pedia
um contacto mais frequente com os homens, menos quartos, no descendo o
minguante do metade. Visivel todas as noites, sem que isso acarretasse
a decadencia das estrellas, continuaria modestamente o officio do sol,
e faria sonhar os olhos insomnes ou s canados de dormir. Tudo isso
cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeio. Era um bom marido, em
summa. Flora cerrou as palpebras, para vel-o melhor, o achou-o a seus
ps, com as mos della entre as suas, risonho e extatico.

--Paulo! meu querido Paulo!

Inclinou-se, para vel-o de mais perto, e no perdeu o tempo nem a
inteno. Visto assim, era mais bello que simplesmente couversando
das cousas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos olhos, e
achou-se dentro da alma do rapaz. O que l viu no soube dizel-o bem;
foi tudo to novo e radiante que a pobre retina de moa no podia
fitar nada com segurana nem continuidade. As ideias faiscavam como
saindo de um fogareiro  fora de abano, as sensaes batiam-se em
duelo, as reminiscencias subiam frescas, algumas saudades, e ambies
principalmente, umas ambies de azas largas, que faziam vento s com
agital-as. Sobre toda essa mescla e confuso chovia ternura, muita
ternura...

Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado
da porta, mettido na penumbra, a figura de Pedro apparecia, no menos
bella, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquella tristeza.
Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo podia
chorar lagrimas de sangue, sem lhe merecer a menor sympathia. Que o
amor, conforme as nymphas antigas e modernas, no tem piedade. Quando
ha piedade para outro, dizem ellas,  que o amor ainda no nasceu de
verdade, ou j morreu de todo, e assim o corao no lhe importa vestir
essa primeira camisa do affecto. Perdoa a figura; no  nobre, nem
clara, mas a situao no me d tempo de ir  cata de outra.

Pedro approximou-se, a passo lento, ajoelhou-se tambem e tomou-lhe
as mos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se e sumiu-se
pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre ellas.
Talvez Paulo fosse bramindo de colera; ella  que no ouviu nada, to
docemente vivo era o gesto de Pedro, j agora sem melancolia, e os
olhos to extaticos como os do irmo. No eram taes que saissem, como
os deste, s aventuras. Tinham a quietao de quem no queria mais sol
nem lua que esses que andam ahi, que se contenta de ambos, e, se os
acha divinos, no cuida de os trocar por novos. Era a ordem, se queres,
a estabilidade, o accordo entre si e as cousas, no menos sympathicos
ao corao da moa, ou por trazerem a ideia de perpetua ventura, ou por
darem a sensao de uma alma capaz de resistir.

Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro, at
chegar  alma do rapaz. O motivo secreto desta outra entrada podia
ser o escrupulo de cotejar as duas para julgal-as, se no era smente
o desejo de no parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as
razes so boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar
os olhos de Pedro era to natural que no exigia inteno particular
nenhuma, e bastava fital-os para escorregar e cair dentro da alma
namorada. Era gemea da outra; no lhe viu mais nem menos que nesta.

Unicamente,--e aqui toco o ponto escabroso do capitulo,--achou c
alguma cousa indefinivel que no sentira l; em compensao sentiu l
outra que no se lhe deparou c. Indefinivel, no esqueas. E escabroso
porque nada ha peor que falar de sensaes sem nome. Crde-me, amigo
meu, e tu, no menos amiga minha, crde-me que eu preferia contar as
rendas do roupo da moa, os cabellos apanhados atraz, os fios do
tapete, as taboas do tecto e porfim os estalinhos da lamparina que vae
morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.

Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso de
Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao p do
irmo, e ambos dividirem entre si as mos della, mansos e cordatos,
ficou longa mente attonita. Obra de um credo, como diziam os nossos
antigos, quando havia mais religio que relogios. Voltando a si,
puxou as mos, estendeu-as depois sobre a cabea delles, como se lhes
apalpasse a differena, o _quid_, o algo, o indefinivel. A lamparina ia
morrendo... Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamaes, por exhortaes,
por supplicas, a que ella respondia mal e tortamente, no que os no
entendesse, mas por no os aggravar, ou acaso por no saber a qual
delles diria melhor. A ultima hypothese tem ar de ser a mais provavel.
Em todo caso,  o prologo do que succedeu, quando a lamparina chegou
aos ultimos arrancos.

Tudo se mistura,  meia claridade; tal seria a causa da fuso dos
vultos, que de dous que eram, ficaram sendo um s. Flora, no tendo
visto sair nenhum dos gemeos, mal podia crr que formassem agora uma
s pessoa, mas acabou crndo, mormente depois que esta unica pessoa
solitaria parecia completal-a interiormente, melhor que nenhuma das
outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar.
Pensou enganar-se, mas no; era uma s pessoa, feita das duas e de si
mesma, que sentia bater nella o corao. Estava to canada de emoes
que tentou erguer-se e ir fra, mas no pde; as pernas pareciam de
chumbo e colladas ao solo. Assim esteve, at que a lamparina, ao canto,
morreu de todo. Flora teve um sobresalto na poltrona, e ergueu-se:

--Que  isto?

A lamparina apagou-se. Foi accendel-a. Viu ento que estava sem um nem
outro, sem dous nem um s fundido de ambos. Toda a fantasmagoria se
desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o seu quarto de dormir,
e  imaginao crera tudo. Foi o que ella suppoz, e o leitor sabe.
Flora comprehendeu que era tarde, e um gallo confirmou essa opinio,
cantando; outros gallos fizeram a mesma cousa.

--Ora, meus Deus! exclamou a filha de Baptista.

Metteu-se na cama, e, se no dormiu logo, tambem no se demorou muito;
no tardou a estar com os anjos. Sonhou com o canto dos gallos, uma
carroa, um lago, uma scena de viagem do mar, um discurso e um artigo.
O artigo era de verdade. A me veiu acordal-a, s dez horas da manh,
chamando-lhe dorminhoca, e alli mesmo, na cama, lhe leu uma folha da
manh que recommendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita;
acabara a grande noite.




CAPITULO LXXXIV


O velho segredo


Natividade dormiu tranquilla, em Botafogo, mas acordou pensando nos
filhos e na moa de S. Clemente. Viera reparando nos trez. Parecera-lhe
antes que Flora no acceitava um nem outro, logo depois que os
acceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu
que ainda no sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria
com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Elles  que
pareciam sentir egual inclinao e egual ciume. Dahi alguma possivel
catastrophe. A separao no supprimiria tudo; mas, alm de que,
separadas as familias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas
podiam ser menos frequentes e at raras. Tinha assim o que quizera.

Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petropolis; propriamente,
chegra. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria l
no alto damas elegantes, diverses, alegria. Podia ser at que elles
achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ella teria
a liberdade de desposar Flora. Calculos de me; vieram outros que os
modificaram, e outros que os restauraram. Quem fr me que lhe atire a
primeira pedra.

Nenhuma outra me atirou a primeira pedra  nossa amiga. Quero crr
que a razo disto no foi seno a propria discrio de Natividade.
Suspeitas e calculos iam ficando no corao della. Calou tudo e esperou.

Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como se
ella fosse sua me, duplamente me, uma vez que no escolhera ainda
nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas indoles se ajustassem
melhor que entre Flora e D. Claudia. A principio, sentiu no sei que
inveja amiga, antes desejo, quando via que as frmas da outra, embora
arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da esculptura
antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o introito de uma
belleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser
grande...

Flora conhecia a predico da cabocla do Castello, relativamente aos
dous gemeos. A predico no era j segredo para ninguem. Santos falara
della em tempo, apenas occultando a subida de Natividade ao Castello;
emendou a verdade, dizendo que a cabocla  que viera a Botafogo. O
resto foi revelado em confiana, como ao finado Placido, e ainda depois
de alguma luta. Trez ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a
lingua deu sete voltas na bca, e o segredo saiu medroso e sussurrado,
mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes.
Emfim, o segredo foi esquecendo. Mas Perpetua, por isto ou aquillo,
contou-o agora  moa Baptista, que a ouviu incredula. Que podia saber
a cabocla do futuro?

--Sabia, e a prova  que adivinhou outras cousas, que no posso contar
e eram verdadeiras. Voc no imagina como o diacho da cabocla via
longe. E tinha uns olhos de espetar o corao.

--No acredito, D. Perpetua. Pois agora o futuro da gente... E grandes
como?

--Isso no disse por mais que Natividade lhe perguntasse; disse s
que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham a ser ministros de
Estado.

Perpetua parecia haver comprado os olhos  cabocla. Enfiava-os pela
amiga abaixo, at o corao, que alis no batia com fora nem
apressado, mas to regular como de costume. Entretanto, no sendo
impossivel que os dous rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora
deixou de objectar e acceitou a predico, sem outra palavra mais que
um gesto,--sabes, creio,--um gesto de boca, fazendo descair os cantos
della, levantando os hombros levemente, e espalmando as mos, como se
dissesse: Emfim, pde ser.

Perpetua accresceptou que, mudado o regimen, era natural que Paulo
chegasse primeiro  grandeza,--e aqui espetou bem os olhos. Era um
modo de de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com a elevao
de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a
pessoa. No achou nada. Flora continuou a no se deixar ler. No lhe
attribuas isto a calculo, no era calculo. Seriamente, no pensava em
nada acima de si.




CAPITULO LXXXV


Trez constituies


--Voc cr deveras que venhamos a ser grandes homens? perguntra Pedro
a Paulo, antes da queda do imperio.

--No sei; voc pode vir a ser, quando menos, primeiro ministro.

Depois de 15 de novembro, Paulo retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu
como o irmo, emendando o resto:

--No sei; voc pde vir a ser presidente da republica.

J l iam dous annos. Agora pensavam mais em Flora que na subida. A
boa moral pede que ponhamos a cousa publica acima das pessoaes, mas os
moos nisto se parecem com velhos e vares de outra edade, que muita
vez pensam mais em si que em todos. Ha excepes, nobres algumas,
outras nobilissimas. A historia guarda muitas dellas, e os poetas,
epicos e tragicos, esto cheios de casos e modelos de abnegao.

Praticamente, seria exigir muito de Pedro e Paulo que cuidassem mais
da constituio de 24 de fevereiro que da moa Baptista. Pensavam em
ambas,  verdade, e a primeira j dera logar a alguma troca de palavras
acerbas. A constituio, se fosse gente viva, e estivesse ao p delles,
ouviria os ditos mais contrarios deste mundo, porque Pedro ia ao ponto
de a achar um poo de iniquidades, e Paulo a propria Minerva nascida
da cabea de Jove. Falo por metaphora para no descair do estylo. Em
verdade, elles empregavam palavras menos nobres e mais emphaticas, e
acabavam trocando as primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de
manifestaes politicas era commum, e as noticias  porta dos jornaes
frequente, tudo era occasio de debate.

Quando, porm, a imagem de Flora apparecia entre elles por imaginao,
o debate esmorecia, mas as injurias continuavam e at cresciam,
sem confisso do novo motivo, que era ainda maior que o primeiro.
Effectivamente, elles iam chegando ao ponto em que dariam as duas
constituies, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moa,
se tanto fosse exigido. Cada um faria com ella a sua constituio,
melhor que outra qualquer deste mundo.




CAPITULO LXXXVI


Antes que me esquea


Uma cousa  preciso dizer antes que me esquea. Sabes que os dous
gemeos eram bellos e continuavam parecidos; por esse lado no suppunham
ter motivo de inveja entre si. Ao contrario, um e outro achavam em si
qualquer cousa que accentuava, seno melhorava, as graas communs. No
era verdade, mas no  a verdade que vence,  a convico. Convence-te
de uma ideia, e morrers por ella, escreveu Ayres por esse tempo no
_Memorial_, e accrescentou: nem  outra a grandeza dos sacrificios,
mas se a verdade acerta com a convico, ento nasce o sublime, e atraz
delle o util... No acabou ou no explicou esta phrase.




CAPITULO LXXXVII


Entre Ayres e Flora


Aquella citao do velho Ayres faz-me lembrar um ponto em que elle e a
moa Flora divergiam ainda mais que na edade. J contei que ella, antes
da commisso do pae, defendia Pedro e Paulo, conforme estes diziam mal
um do outro, Naturalmente fazia agora a mesma cousa, mas a mudana do
regimen trouxe occasio de defender tambem monarchistas e republicanos,
segundo ouvia as opinies de Paulo ou de Pedro. Espirito de conciliao
ou de justia, applacava a ira ou o desdem do interlocutor: No diga
isso... So patriotas tambem... Convem desculpar algum excesso...
Eram s phrases, sem impeto de paixo nem estimulo de principios; e o
interlocutor concluia sempre:

--A senhora  boa.

Ora, o costume de Ayres era o opposto dessa contradico benigna.
Has-de lembrar-te que elle usava sempre concordar com o interlocutor,
no por desdem da pessoa, mas para no dissentir nem brigar. Tinha
observado que as convices, quando contrariadas, descompem o rosto
 gente, e no queria ver a cara dos outros assim, nem dar  sua um
aspecto abominavel. Se lucrasse alguma cousa, v; mas, no lucrando
nada, preferia ficar em paz com Deus e os homens. Dahi a arranjo de
gestos e phrases affirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais
quieto a si mesmo.

Um dia, como ella estivesse com Flora, falou daquelle costume della,
dizendo-lhe que parecia estudado. Flora negou que o fosse; era
inclinao natural defender os ausentes, que no podiam responder por
nada; demais, applacava assim um dos gemeos com quem falasse, e depois
o outro.

--Tambem concordo.

--E porque ha de o senhor concordar sempre? perguntou ella sorrindo.

--Posso concordar com a senhora, porque  uma delicia ir com as suas
opinies, e seria mau gosto rebatel-as, mas, em verdade, no ha
calculo. Com os mais, se concordo,  porque elles s dizem o que eu
penso.

--Ja o tenho achado em contradico.

--Pde ser. A vida e o mundo no so outra cousa. A senhora no saber
isto bem, porque  moa e ingenua, mas creia que a vantagem  toda
sua. A ingenuidade  o melhor livro e a mocidade a melhor escola. V
desculpando esta minha pedanteria; alguma vez  um mal necessario.

--No se accuse, conselheiro. O senhor sabe que eu no creio nada
contra a sua palavra, nem contra a sua pessoa; a propria contradico
que lhe acho  agradavel.

--Tambem concordo.

--Concorda com tudo.

--Olha aqui, Flora; d licena, conselheiro?

Esqueceu-me dizer que esta conversao era  porta de uma loja de
fazendas e modas, rua do Ouvidor. Ayres ia na direco do largo de S.
Francisco de Paula e viu a me e a filha dentro, sentadas, a escolher
um tecido. Entrou, comprimentou-as, e veiu  porta com a filha. O
chamado de D. Claudia interrompeu a conversao por alguns instantes.
Ayres ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas
as classes, homens de todos os officios, sem contar as pessoas paradas
de ambos os lados e no centro. No havia borborinho grande, nem socego
puro, um meio termo.

Talvez algumas pessoas fossem conhecidas de Ayres e o comprimentassem;
mas este tinha a alma to mettida em si mesma que, se falou a uma ou
duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a cabea para dentro,
onde Flora e a me faziam a sua consulta. Ouvia as palavras trocadas
ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moa escolhia
a um dos gemeos, e qual destes. V tudo; tinha j pezar que no fosse
algum, posto no lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quizera vel-a
feliz, se a felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo
da excluso; o excluido seria consolado. Agora, se era por amor delles,
se della,  o que propriamente se no pde dizer com verdade. Quando
muito, para levantar a ponta do veu, seria preciso entrar na alma
delle, ainda mais fundo que elle mesmo. L se descobriria acaso, entre
as ruinas de meio celibato, uma flr descorada e tardia de paternidade,
ou, mais propriamente, de saudade della...

Flora trouxe novamente a rosa fresca e rubra da primeira hora. No
falaram mais de contradico, mas da rua, da gente e do dia. Nenhuma
palavra cerca de Pedro ou Paulo.




CAPITULO LXXXVIII


No, no, no


Elles, onde quer que estivessem naquelle momento, podiam falar ou no.
A verdade  que, se nenhum consentia em deixar a moa, tambem nenhum
contava obtel-a, por mais que a achassem inclinada. Tinham j combinado
que o rejeitado acceitaria a sorte, e deixaria o campo ao vencedor. No
chegando a victoria, no sabiam como resolver a batalha. Esperar, seria
o mais facil, se a paixo no crescesse, mas a paixo crescia.

Talvez no fosse exactamente paixo, se dermos a esta palavra o sentido
de violencia; mas, se lhe reconhecermos uma forte inclinao de amor,
um amor adolescente ou pouco mais, era o caso. Pedro e Paulo cederiam a
mo da pequena, se houvessem de consultar s a razo, e mais de uma vez
estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que para logo desapparecia.
A ausencia era j insoffrivel, a presena necessaria. Se no fra o que
aconteceu e se contar por essas paginas adiante, haveria materia para
no acabar mais o livro; era s dizer que sim e que no, e o que estes
pensaram e sentiram, e o que ella sentia e pensou, at que o editor
dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a historia
comeada ficaria sem fim. No, no, no... Fora  continual-a e
acabal-a. Comecemos por dizer o que os dous gemeos ajustaram entre si,
poucos dias depois daquelle sonho ou delirio da moa Flora,  noite, no
quarto.



CAPITULO LXXXIX


O drago


Vejamos o que  que estes ajustaram. Vinham de estar com Ayres no
theatro, uma noite, matando o tempo. Conheceis este drago; toda a
gente lhe tem dado os mais fundos golpes que pde, elle esperneia,
expira e renasce. Assim se fez naquella noite. No sei que theatro foi,
nem que pea, nem que genero; fosse o que fosse, a questo era matar o
tempo, e os trez o deixaram estirado no cho.

Fram dall a um _restaurant._ Ayres disse-lhes que, antigamente,
em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma edade. Era o tempo de
Offenbach e d opereta. Contou anecdotas, disse as peas, descreveu
as damas e os partidos, quasi deu por si repetindo um trecho, musica
e palavras. Pedro e Paulo ouviam com atteno, mas no sentiam nada
do que espertava os cos da alma do diplomata. Ao contrario, tinham
vontade de rir. Que lhes importava a noticia da um velho caf da rua
Uruguayana, trocado depois em theatro, agora em nada, uma gente que
viveu e brilhou, passou e acabou antes que elles viessem ao mundo? O
mundo comeou vinte annos antes daquella noite, e no acabaria mais,
como um viveiro de moos eternos que era.

Ayres sorriu, porquanto elle tambem assim cuidou, aos vinte e dous
annos de edade, e ainda se lembrava do sorriso do pae, j velho, quando
lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo adquerido do tempo
a noo idealista que ora possuia, comprehendeu que tal drago era
juntamente vivo e defunto, e tanto valia matal-o como nutril-o. No
obstante, as recordaes eram doces, e muitas dellas viviam ainda
frescas, como se viessem da vespera.

A differena da edade era grande, no podia entrar em pormenores com
elles. Ficou s em lembranas, e cuidou de outra cousa. Pedro e Paulo,
entretanto, receiosos de que elle os adivinhasse e comprehendesse o
desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e extranhos,
pediram-lhe informaes, e elle deu as que podia, sem intimidade.

Ao cabo, a conversao valeu mais que este resumo, e a separao no
custou pouco. Paulo ainda lhe pediu Offenbach, Pedro uma descripo das
paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro; mas o diplomata achou meio de
saltar ao presente e particularmente a Flora, que louvou como uma bella
creatura. Os olhos de ambos concordaram que era bellissima. Tambem
louvou as qualidades moraes, a finura do espirito, taes dotes que Pedro
e Paulo reconheceram tambem, e dahi a conversao, e porfim o ajuste a
que me referi no comeo deste capitulo e pede outro.



CAPITULO XC


O ajuste


--Quanto a mim, um de vocs gosta della, seno ambos, disse Ayres.

Pedro mordeu os beios, Paulo consultou o relogio; iam j na rua.
Ayres concluiu o que sabia, que sim, que ambos, e no trepidou em
dizel-o, accrescentando que a moa no era como a Republica, que um
podia defender e outro atacar; cumpria ganhal-a ou perdel-a de vez.
Que fariam elles, dada a escolha? Ou j estava feita a escolha, e o
preterido teimava em a torcer para si?

Nenhum, falou logo, posto que ambos sentissem necessidade de explicar
alguma cousa. Tinham que a escolha no era clara ou decisiva.
Outrosim, que lhes cabia o direito de esperar a preferencia, e fariam
o diabo para alcanal-a. Taes e outras ideias vagavam silenciosamente
nelles, sem sair c fra. A razo percebe-se, e devia ser mais de
uma,--primeiro, a materia da conversao,--depois, a gravidade do
interlocutor. Por mais que Ayres abrisse as portas  franqueza dos
rapazes, estes eram rapazes e elle velho. Mas o assumpto em si era to
seductor, o corao, apesar de tudo, to indiscreto, que no houve
remedio se no falar, mas falar negando.

--No me neguem, interrompeu Ayres; a gente madura sabe as manhas da
gente nova, e adivinha com facilidade o que ella faz. Nem  preciso
adivinhar; basta ver e ouvir. Vocs gostam della.

Elles sorriam, mas j agora com tal amargor e acanhamento que mostravam
o desgosto da rivalidade, alis sabida delles. Tal rivalidade era
tambem sabida de outros, devia sel-o de Flora, e a situao lhes
parecia agora mais complicada e fechada que d'antes.

Tinham chegado ao largo da Carioca, era uma hora da noite. Uma victoria
da Santos esperava alli os rapazes, a conselho e por ordem da me,
que buscava todas as occasies e meios de os fazer andar juntos e
familiares. Teimava em emendara natureza. Levava-os muita vez a
passeio, ao theatro, a visitas. Naquella noite, como soubesse que iam
ao theatro, mandou aprestar a victoria que os conduziu para a cidade, e
ficou  espera delles.

--Entre, conselheiro, disse Pedro, o carro d para, trez: eu vou no
banquinho da frente.

Entraram e partiram.

--Bem, continuou Ayres,  certo que vocs gostam della, e egualmente
certo que ella ainda no escolheu entre os dous. Provavelmente,
no sabe que faa. Um terceiro resolveria a crise porque vocs se
consolariam depressa; tambem eu me consolei em rapaz. No havendo
terceiro, e no se podendo prolongar a situao, porque  que vocs no
combinam alguma cousa?

--Combinar qu? perguntou Pedro sorrindo.

--Qualquer cousa. Combinem um modo de cortar este n gordio. Cada um
que siga a sua vocao. Voc Pedro, tentar primeiro desatal-o; se elle
no puder, Paulo, voc pegue da espada de Alexandre, e d-lhe o golpe.
Fica tudo feito e acabado. Ento o destino, que os espera, com duas
bellas creaturas, vir trazel-as pela mo a um e a outro, e tudo se
compe na terra como no cu.

Ayres disse mais cousas antes de se apear  porta da casa. Apeado,
ainda lhes perguntou:

--Estamos de accordo?

Os dous responderam de cabea affirmativamente, e, ficando ss, no
disseram nada. Que fossem pensando,  natural, e porventura o tempo
lhes pareceu curto entre o Cattete e Botafogo. Chegaram  casa, subiram
a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro achava deliciosa
e Paulo abominavel, mas no disseram assim para no irritar um ao
outro. A esperana do ajuste  que os levava  moderao relativa e
passageira. Vivam os fructos pendentes do dia seguinte!

C estava o quarto  espera delles, um brinco de arranjo e graa, de
commodidade e repouso. Era a me que dava os ltimos retoques todos
os dias; ella cuidava das flres que seriam postas nos vasinhos de
porcellana, e ella mesma as ia tirar  noite e pr fra das janellas
para que elles no as respirassem dormindo. C estavam as velas ao p
das duas camas, mettidas nos seus castiaes de prata, um com o nome de
Pedro, outro com o de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mos, laos
dados por ella nos cortinados, finalmente o retrato della e o do marido
pendurados  parede, entre as duas camas, naquelle mesmo logar em que
estiveram os de Luiz XVI e Robespierre, comprados na rua da Carioca.

Ao p de cada um dos castiaes acharam um biIhetinho de Natividade.
Aqui est o que ella dizia: Algum de vocs quer ir commigo  missa,
amanh? Faz annos que seu av morreu, e Perpetua est adoentada.
Natividade esquecera de lhes falar antes, e, alis, andava bem sem
elles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter comsigo.

Pedro e Paulo riram do convite e da frma, e um delles propoz que,
para agradar  me, fossem ambos  missa. A acceitao da proposta
veiu prompta; j no era harmonia, era uma especie de dialogo na mesma
pessoa. O cu parecia escrever o tratado de paz que ambos teriam de
assignar; ou, se preferes, a natureza corrigia as indoles, e os dous
rixosos comeavam a ajustar o ser e o parecer. Tambem no juro isto,
digo o que se pde crr s pelo aspecto das cousas.

--Vamos  missa, repetiram.

Seguiu-se um grande silencio. Cada um ruminava o ajuste e o modo
de o propor. Emfim, de cama a cama, disseram o que lhes parecia
melhor, propuzeram, discutiram, emendaram e concluiram sem escriptura
de tabellio, apenas por acceitao de palavra. Poucas clausulas.
Confessando que no podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em
esperar por ella durante um prazo curto; trez mezes. Dada a escolha, o
rejeitado obrigava-se a no tentar mais nada. Como tivessem a certeza
final da escolha, o accordo era facil; cada um no faria mais que
excluir o outro. No obstante, se ao fim do prazo, nenhuma escolha
houvesse, cumpria adoptar uma clausula ultima. A primeira que acudiu
foi deixarem ambos o campo, mas no os seduziu. Lembrou-lhes recorrer
 sorte, e aquelle que fosse designado por ella, deixaria o campo ao
rival. Assim passou uma hora de conversao, aps a qual, cuidaram de
dormir.




CAPITULO XCI


Nem s a verdade se deve s mes


s nove horas da manh seguinte, Natividade estava prompta para ir 
missa que mandava dizer na matriz da Gloria; nenhum dos filhos se lhe
apresentou.

--Parece que dormem.

E duas, trez, quatro, cinco vezes, foi at  porta do quarto a ver
se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que deixara. Nada. Concluiu
que teriam entrado tarde. S no atinou que dormissem sobre o ajuste,
nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama ffa, tudo ia bem.
Emfim, acabou de calar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a
egreja.

A missa era anniversaria, como dizia o bilhete. Uso velho; o pae
tinha a sua missa, a me outra, os irmos e parentes outras. No
lhe esqueciam datas obituarias, como no lhe esqueciam natalicias,
quaesquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cr. Doce
memoria! Ha pessoas a quem no ajudas, e chegam a brigar comsigo e com
outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o
que  24 de maro, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de
novembro, o anno todo, suas tristezas e alegrias particulares.

Voltando  casa, viu Natividade os dous filhos no jardim,  espera
della. Elles correram a abrir-lhe a portinhola do carro, e depois de a
apearem e lhe beijarem a mo, explicaram a falta. Tinham resolvido ir
ambos, mas o somno...

--O somno e a preguia, concluiu a me rindo.

--Foi s o somno, disse Pedro.

--Accordamos agora mesmo, acabou Paulo.

Disputaram dar-lhe o brao; Natividade os satisfez dando um brao a
cada um. Em casa, ao mudar de roupa, Natividade reflectiu que, se Flora
lhes tivesse feito algum pedido, elles accordariam cedo, por mais tarde
que se deitassem; a memoria serviria de despertador. Passou-lhe uma
sombra rapida, mas depressa se reconciliou com a differena. Assim que,
no foi por ciume, mas para os trazer a outras seduces e separal-os
da guerra ante a bella Flora, que a me teimou em levar os filhos para
Petropolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estao seria
excellente; annunciou festas, citou nomes, notou-lhes que Petropolis
era a cidade da paz. O governo pde mudar c embaixo e nas provincias...

--Que provincias, mame? atalhou Paulo.

Natividade sorriu e emendou.

--Nos Estados. Vae desculpando os descuidos de tua me. Bem sei que
so Estados; no so como as provindas antigas, no esperam que o
presidente lhes v aqui da Crte...

--Que Crte, baroneza?

Agora os dous riram, me e filho. Passado o riso, Natividade continuou:

--Petropolis  a cidade da paz; , como dizia outro dia o conselheiro
Ayres,  a cidade neutra,  a cidade das naes. Se a capital do Estado
fosse alli, no haveria deposio de governo. Petropolis,--vejam vocs
que o nome, apesar da origem, ficou e ficar,-- de todos. A estao
dizem que vae ser encantadora...

--Eu no sei se posso ir j, disse Paulo.

--Nem eu, acudiu Pedro.

Ainda uma vez estavam de accordo, mas aqui o accordo trazia
provavelmente o divorcio, reflectiu a me, e o prazer que lhe deram
aquellas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razo
tinham para ficar e at quando. Se estivessem estabelecidos com o seu
consultorio medico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum
delles comeara ainda a carreira, que fariam c embaixo, quando ella e
o marido...

--Justamente; eu tenho que fazer uns estudos de clinica na Santa Casa,
respondeu Pedro.

Paulo explicou-se. No ia praticar a advocacia, mas precisava de
consultar certos documentos do sculo XVII na Bibliotheca Nacional; ia
escrever uma historia das terras possuidas.

Nada era verdade, mas nem s a verdade se deve dizer s mes.
Natividade ponderou que elles podiam fazer tudo entre as duas baras
de Petropolis; desciam, almoavam, trabalhavam, e s quatro horas
subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, musica,
bailes, mil cousas bellas, sem contar as manhs, a temperatura e os
domingos. Elles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas
seguidas.

Natividade no teimou. Mais depressa ficaria esperando que os filhos
acabassem os documentos da Bibliotheca e a clinica da Santa Casa. Esta
ideia fel-a attentar para a necessidade de ver estabelecidos o joven
medico e o joven advogado. Trabalhariam com outros profissionaes de
reputao e iriam adiante e acima. Talvez a carreira scientifica lhes
dsse a grandeza annunciada pela cabocla do Castello, e no a politica
ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a critica de
si mesma, quando imaginou que Baptista abriria a carreira politica de
algum delles, sem advertir que o pae de Flora mal continuaria a propria
carreira, alis obscura. Mas a ideia do mando tornava a ccupar a
cabea da me, e cheios della os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.

Chegaram a accordo. Elles subiriam aos sabbados e desceriam s
segundas; o mesmo por occasio de dias santos e festas de gala.
Natividade contava com o costume e as attraces.

Na barca e em Petropolis era objecto de conversao a differena entre
os filhos, que s iam l uma vez por semana, e o pae, que trazia tantos
negocios s costas, e subia todas as tardes. Que fariam elles c em
baixo, quando alguns olhos podiam attrail-os e agarral-os l em cima?
Natividade defendia os gemeos, dizendo que um ia  Santa Casa e outro
 Bibliotheca Nacional, e estudavam muito, s noites. A explicao era
acceitavel, mas, alm de fazer perder um assumpto aos bonitos dentes do
vero, podia ser inveno dos rapazes; naturalmente, iriam s moas.

A verdade  que elles faziam rumor em Petropolis, durante as poucas
horas que l passavam. Alm do mais, tinham a semelhana e a graa.
As mes diziam bonitas cousas  me delles, e indagavam da razo
verdadeira que os prendia  capital, no assim como eu digo, nu e cru,
mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a me insistia na
Bibliotheca e na Santa Casa. Deste geito, a mentira, j servida em
primeira mo, era servida em segunda, e nem por isso melhor acceita.




CAPITULO XCII


Segredo acordado


Emfim, que segredo ha que se no descubra? Sagacidade, boa vontade,
curiosidade, chama-lhe o que quizeres, ha uma fora que deita c para
fra tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os proprios segredos
canam de calar,--calar ou dormir; fiquemos com este outro verbo,
que serve melhor  imagem. Canam, e ajudam a seu modo aquillo que
imputamos  indiscrio alheia.

Quando elles abrem os olhos, faz-lhes mal a escurido. Um raio de sol
basta. Ento pedem aos deuses (porque os segredos so pagos) um quasi
nada de crepusculo, aurora ou tarde, posto que a aurora prometta dia,
emquanto a tarde cae outra vez na noite, mas tarde que seja, tudo 
respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambem so gente;
nascem, vivem e morrem. Agora o que succede, quando um olhar de sol
penetra na solido delles,  que difficilmente sae mais, e geralmente
cresce, rasga, alaga, e os traz pela orelha c para fra. Vexados da
grande luz, elles a principio andam de ouvido em ouvido, cochichados,
alguma vez escriptos em bilhetes, ainda que to vagamente e sem nomes,
que mal se adivinhar quaes sejam.  o periodo da infancia, que passa
depressa; a mocidade pula por cima da adolescencia, e elles apparecem
fortes e derramados, sabidos como gazetas. Emfim, se a velhice chega,
e elles no se vexam dos cabellos brancos, tomam conta do mundo, e
acaso conseguem, no digo esquecer, mas aborrecer; entram na familia do
proprio sol, que quando nasce  para todos, segundo dizia uma taboleta
da minha infancia.

Taboletas da minha infancia, ai, taboletas! Quizera acabar por ellas
este capitulo, mas o assumpto no teria nobreza nem interesse, e
ainda uma vez interromperiamos a nossa historia. Fiquemos no segredo
divulgado;  quanto basta. Uma veranista elegante no dissimulou o seu
espanto ao saber que os dous irmos combinavam n'um ponto que faria
romper os maiores amigos deste mundo. Um secretario de legao insinuou
que podia ser brincadeira dos dous.

--Ou dos trez, accrescentou outra veranista.

Iam de passeio  Quitandinha, a cavallo. Ayres acompanhava-os, e no
dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora era bonita, respondeu que
sim, e falou da temperatura. A primeira veranista perguntou-lhe se era
capaz de supportar aquella situao. Ayres respirou, como quem vem de
longe, e declarou que aos ps de um padre seria obrigado a mentir,
taes eram os seus peccados; mas alli, na estrada, ao ar livre, entre
senhoras, confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse
trazia sete mortes s costas, com varias armas. As senhoras riam; elle
falava soturno. S uma vez escapou de morrer primeiro, e inventou uma
anecdota napolitana. Fez a apologia do punhal. Um que tivera, ha muitos
annos, o melhor ao do mundo, foi obrigado a dal-o de presente a um
bandido, seu amigo, quando lhe provou que completra na vespera o seu
vigesimo nono assassinato.

--Aqui est para o trigesimo, disse-lhe entregando a arma.

Poucos dias depois soube que o bandido, com aquelle punhal, matara o
marido de uma senhora, e depois a senhora, a quem amava sem ventura.

--Deixei-o com trinta e um crimes de primeira ordem.

As damas continuavam a rir; elle conseguiu assim desviar a conversao
de Flora e seus namorados.




CAPITULO XCIII


No ata nem desata


Emquanto indagavam della em Petropolis, a situao moral de Flora era
a mesma,--o mesmo conflicto de affinidades, o mesmo equilibrio de
preferencias. Cessado o conflicto, roto o equilibrio, a soluo viria
de prompto, e, por mais que doesse a um dos namorados, venceria o
outro, a menos que interviesse o punhal da anecdota de Ayres.

Assim passaram algumas semanas desde a subida de Natividade. Quando
Ayres vinha ao Rio de Janeiro, no deixava de ir vel-a a S. Clemente,
onde a achava qual era d'antes, salvo um pouco de silencio em que
a viu mettida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de Flora,
pedindo-lhe desculpa da desatteno, se a houve, e mandando-lhe
saudades. Mame pede que a recommende tambem ao senhor e  familia da
baroneza. Esta recommendao exprimia o consentimento obtido da me
para que lhe escrevesse a carta. Quando elle tornou ao Rio, correu a S.
Clemente e Flora pagou-lhe com alegria grande o silencio daquella outra
manh. Todavia, no era espontanea nem constante; tinha seus cochilos
de melancolia. Ayres voltou ainda algumas vezes na mesma semana. Flora
apparecia-lhe com a alegria costumada, e, para o fim, a mesma alterao
dos ultimos dias.

Talvez a causa daquellas syncopes da conversao fosse a viagem que
o espirito da moa fazia  casa da gente Santos. Uma das vezes, o
espirito voltou para dizer estas palavras ao corao: Quem s tu, que
no atas nem desatas? Melhor  que os deixes de vez. No ser difficil
a aco, porque a lembrana de um acabar por destruir a de outro, e
ambas se iro perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas,
alm das particulas de cousas, to leves e pequenas, que escapam ao
olho humano. Anda, esquece-os; se os no pdes esquecer, faze por no
os ver mais; o tempo e a distancia faro o resto.

Tudo estava acabado. Era s escrever no corao as palavras do
espirito, para que lhe servissem de lembrana. Flora escreveu-as, com a
mo tremula e a vista turva; logo que acabou, viu que as palavras no
combinavam, as letras confundiam-se, depois iam morrendo, no todas,
mas salteadamente, at que o musculo as lanou de si. No valor e no
impeto podia comparar o corao ao gemeo Paulo; o espirito, pela arte
e subtileza, seria o gemeo Pedro. Foi o que ella achou no fim de algum
tempo, e com isso explicou o inexplicavel.

Apesar de tudo, no acabava de entender a situao, e resolveu acabar
com ella ou comsigo. Todo esse dia foi inquieto e complicado. Flora
pensou em ir ao theatro para que os gemeos no a achassem  noite. Iria
cedo, antes da hora da visita. A me mandou comprar o camarote, e o pae
approvou a diverso, quando veiu jantar, mas a filha acabou com dr de
cabea, e o camarote ficou perdido.

--Vou mandal-o aos jovens Santos, insinuou Baptista.

D. Claudia oppz-see guardou o camarote. A razo era de me; posto lhe
tardasse a escolha e o casamento, ella queria vel-os alli comsigo,
falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos pendentes da filha.
Baptista no entendeu logo nem depois; mas para no desagradar 
esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma occasio to boa! No
era muito para elles que possuiam com que despender, e despendiam; o
obsequio estava na lembrana, e tambem na cartinha que lhes escreveria,
mandando o camarote. Chegou a redigil-a de cabea, apesar de j inutil.
A mulher, ao vel-o calado e serio, cuidou que fosse zanga e quiz fazer
as pazes; o marido arredou-a brandamente com a mo. Redigia a cartinha,
punha no texto um gracejo sizudo, dobrava o papel e lanava-lhe este
sobrescripto gemeo: Aos jovens apostolos Pedro e Paulo. O trabalho
intellectual tornou mais dura a opposio de D. Claudia. Uma cartinha
to bonita!




CAPITULO XCIV


Gestos oppostos


Como pde um s tecto cobrir to diversos pensamentos? Assim  tambem
este cu claro ou brusco,--outro tecto vastissimo que os cobre com o
mesmo zelo da gallinha aos seus pintos... Nem esquea o proprio craneo
do homem, que os cobre igualmente, no s diversos, seno oppostos.

Flora, no quarto, no cuidava ento de bilhetes nem camarotes; tambem
no acudia  dr de cabea, que no tinha. Se falou nella foi por ser
uma razo proxima e acceitavel, breve ou longa, conforme a necessidade
da occasio. No supponhas que est rezando, embora tenha alli um
oratorio e um crucifixo. No viria pedir a Jesus que lhe livrasse a
alma daquella inclinao desencontrada. Posta  beira da cama, os
olhos no cho, pensava naturalmente em alguma cousa grave, se no era
nada, que tambem agarra os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu
os beios sem raiva; metteu a cabea entre as mos, como se quizesse
concertar os cabellos, mas os cabellos estavam e ficavam como dantes.

Quando se levantou era totalmente noite, e accendeu uma vela. No
queria gaz. Queria uma claridade branda que dsse pouca vida ao quarto
e aos seus moveis, que deixasse algumas partes na meia escuridade.
O espelho, se fosse a elle, no lhe repetiria a belleza de todos os
dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distancia.
Mostrar-lhe-hia a nota de pallidez e de melancolia,  verdade, mas a
nossa amiguinha no se sabia pallida, nem se sentia melancolica. Tinha
na tristeza desvairada daquella occasio uma pontinha de abatimento.

Como tudo isso se combinava, no sei, nem ella mesma. Ao contrario,
Flora parecia, s vezes, tomada de um espanto, outras de uma
inquietao vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira de balano,
era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Dahi a pouco, entrariam
provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrana de ir dizer  me que a no
mandasse chamar; estava de cama. Esta ideia no durou o que me custa
escrevel-a, e alis j l vae na outra linha. Recuou a tempo.

-- um desproposito, disse comsigo; basta no apparecer. Mame dir
que estou adoentada, tanto que perdemos o theatro, e, se vier aqui,
digo-lhe que no posso apparecer...

As ultimas palavras sairam-lhe de viva voz, para maior firmeza da
resoluo. Projectou reclinar-se j na cama; depois achou melhor
fazel-o quando ouvisse o passo da me no corredor. Todas essas
alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, no  impossivel que
fosse tambem um modo de sacudir quaesquer lembranas aborreciveis. A
moa temia ir atraz dellas.




CAPITULO XCV


O terceiro


Temendo ir atraz dellas, que havia de fazer Flora? Abriu uma das
janellas do quarto, que dava para a rua, encostou-se  grade e enfiou
os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem estrellas, pouca
gente que passava, calada ou conversando, algumas salas abertas, com
luzes, uma com piano. No viu certa figura de homem na calada opposta,
parada, olhando para a casa de Baptista. Nem a viu, nem lhe importaria
saber quem fosse. A figura  que to depressa a viu como estremeceu e
no despegou mais os olhos della, nem os ps do cho.

Lembras-te daquella veranista de Petropolis que attribuiu um terceiro
namorado  nossa amiguinha? Um dos trez, disse ella. Pois aqui
est o terceiro namorado, e pde ser que ainda apparea outro. Este
mundo  dos namorados. Tudo se pde dispensar nelle; dia vir em que
se dispensem at os governos, a anarchia se organisar de si mesma,
como nos primeiros dias do paraiso. Quanto  comida, vir de Boston
ou de Nova-York um processo para que a gente se nutra com a simples
respirao do ar. Os namorados  que sero perpetuos.

Aquelle era official de secretaria. Geralmente os empregados de
secretaria casam cedo. Gouva era solteiro, andava s moas. Um
domingo,  missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da egreja
to apaixonado que no quiz outra promoo. Tinha gostado de muitas,
acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu devras. Pensava
nella dia e noite. A rua de S. Clemente era o caminho que o levava e
trazia da Repartio. Se a via, olhava muito para ella, detinha-se a
distancia,  porta de uma casa, ou ento fingia acompanhar com os olhos
um carro que passava, e tirava-os do carro para a moa.

Quando amanuense, fizra versos; nomeado official, perdeu o costume,
mas um dos effeitos da paixo foi restituir-lh'o. Comsigo, em casa
da me, gastava papel e tinta a metrificar as esperanas. Os versos
escorriam da penna, a rima com elles, e as estrophes vinham seguindo
direitas e alinhadas, como companhias de batalho; o titulo seria
o coronel, a epigraphe a musica, uma vez que regulava a marcha dos
pensamentos. Bastaria essa fora  conquista? Gouva imprimiu alguns em
jornaes, com esta dedicatoria: _A alguem._ Nem assim a praa se rendia.

Uma vez deu-lhe na cabea mandar uma declarao de amor. Paixo
concebe despropositos. Escreveu duas cartas, sem o mesmo estylo, antes
contrario. A primeira era de poeta; dava-lhe _tu_, como nos versos,
adjectivava muito, chamava-lhe deusa por afiuso ao nome de Flora, e
citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforo
do official sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estylo das informaes e
dos officios, grave, respeitoso, com Excellencias. Comparando as duas
cartas, no acabou de escolher nenhuma. No foi s o texto diverso
e contrario, foi principalmente a falta de autorisao que o levou
a rasgar as cartas. Flora no o conhecia; quando menos, fugia de o
conhecer. Os olhos della, se encontravam os delle, retiravam-se logo
indifferentes. Uma s vez cuidou que traziam a inteno de perdoar. Que
esse breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperana (comeo
a falar como a primeira carta) era possivel e at certo; to certo que
lhe fez perder o ponto na Repartio. Felizmente, era optimo empregado;
o director ampliou o quarto de hora de tolerancia, e attendeu  dr de
cabea, causa de triste insomnia.

--Dormi sobre a madrugada, acabou o official.

--Assigne.

Seno quando, morre-lhe o padrinho ao Gouva, e em testamento deixou
ao afilhado trez contos de reis. Qualquer acharia nisso um beneficio,
Gouva achou dous: o legado e a occasio de travar relaes com o pae
de Flora. Correu a pedir-lhe que acceitasse a procurao de legatario,
ajustando logo os honorarios e as despezas. Com pouco, foi procural-o 
casa, e para que o advogado dsse a noticia do constituinte  familia,
empregou muitos ditos subtis e graciosos, contou anecdotas do padrinho,
expoz conceitos philosophicos e um programma de marido. Descreveu
tambem a situao administrativa, a promoo eminente, os louvores
recebidos, commisses e gratificaes, tudo o que o distinguia de
outros companheiros. De resto, ninguem na Repartio lhe queria mal.
Aquelles mesmos que se creram prejudicados, acabavam confessando que
era justa a preferencia dada ao Gouva. No seria tudo exacto; elle o
cria assim, ao menos, e, se no cria tudo, no desmentiu nada. Perdeu
tempo e trabalho. Flora no soube da conversao.

Nem soube da conversao, nem deu agora pelo vulto, como l disse.
tambem disse que a noite era escura. Accrescento que comeou a pingar
fino e a ventar fresco. Gouva trazia guarda-chuva e ia a abril-o, mas
recuou. O que se passou na alma delle foi uma luta egual  dos dous
textos da carta. O official queria abrigar-se da chuva, o amanuense
queria apanhal-a, isto , o poeta renascia contra as intemperies,
sem medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos
da cavallaria. Guarda-chuva era ridiculo; poupar-se  constipao
desmentia a adorao. Tal foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense,
emquanto a chuva ia pingando grosso, e outra gente passava abrigada e
depressa. Flora entrou e fechou a janella. O amanuense esperou ainda
algum tempo, at que o official abriu o guarda-chuva e fez como os
outros. Em casa achou a triste consolao da me.




CAPITULO XCVI


Retraimento


Aquella noite acabou sem incidente. Os gemeos viram, Flora no
appareceu, e no dia seguinte duas cartinhas perguntavam a D. Claudia
como passra a filha. A me respondeu que bem. Nem por isso Flora os
recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma cousa que a fazia falar
pouco. Pediram-lhe musica, tocou; foi bom, porque era um meio de se
metter comsigo. No respondeu aos apertos de mo, como elles suppunham
que fazia at ha pouco. Assim foi essa noite, assim fram as outras.
Ora um, ora outro chegava primeiro, imaginando que a presena do rival
 que tolhia a moa; mas a precedencia no valia nada.




CAPITULO XCVII


Um Christo particular


Tudo isso lhe custava tanto, que ella acabou pedindo ao seu Christo
um logar de governador para o pae,--ou qualquer commisso fra daqui.
Jesus-Christo no distribue os governos deste mundo. O povo  que
os entrega a quem merece, por meio de cedulas fechadas, mettidas
dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, sommadas e
multiplicadas. A commisso podia vir, isso sim; a questo era saber
se Jesus-Christo acudir a todos os que lhe pedem a mesma cousa.
Os commissarios seriam infinitamente mais que as commisses. Esta
objeco foi logo expellida do espirito de Flora, porque ella pedia ao
seu Christo, um de marfim velho, deixa da av, um Christo que nunca
lhe negou nada, e a quem as outras pessoas no vinham importunar
com supplicas. A propria me tinha o seu particular, confidente de
ambies, consolo de desenganos; no recorria ao da filha. Tal era a f
ingenua da moa.

Certarmente, j lhe havia pedido que a livrasse daquella complicao de
sentimentos, que no acabavam de ceder um ao outro, daquella hesitao
canativa, daquelle empuxar para ambos os lados. No foi ouvida. A
causa seria talvez por no haver dado ao pedido a frma clara que aqui
lhe ponho, com escandalo do leitor. Effectivamente, no era facil
pedir assim por palavras seguidas, faladas ou s pensadas; Flora no
formulou a supplica. Poz os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para
que a imagem lsse dentro della o seu desejo. Era demais; requerer o
favor do cu e obrigal-o a adivinhar o que era... Assim cuidou Flora,
e resolveu emendar a mo. No chegou l; no ousou dizer a Jesus o que
no dizia a si mesma. Pensava nos dous, sem confessar a nenhum. Sentia
a contradico, sem ousar encaral-a por muito tempo.




CAPITULO XCVIII


O medico Ayres


Um dia pareceu  me que a filha andava nervosa. Interrogou-a e
apenas descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi
justamente um dia em que Ayres l appareceu de visita, com recados de
Natividade. A me falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos.
Pediu-lhe que a interrogasse tambem. Ayres fez de medico, e, quando
a moa appareceu e a me os deixou na sala, cuidou de a interrogar
cautelosamente.

Vo proposito, porque ella mesma iniciou a conversao, queixando-se de
dr de cabea. Ayres observou que dr de cabea era molestia de moa
bonita, e, tendo confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o
motivo. No queria perder a occasio de lhe dizer o que toda a gente
sabia e dizia, no s aqui, como em Petropolis.

--Porque no vae a Petropolis? concluiu.

--Espero fazer outra viagem mais longa, muito longa...

--Para o outro mundo, aposto?

--Acertou.

--J tem bilhete de passagem?

--Comprarei no dia do embarque.

--Talvez no ache. Ha grande concurrencia para aquellas paragens;
melhor  comprar antes, e, se quer, eu me encarrego disso; comprarei
outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando no ha conhecidos,
deve ser fastidiosa; s vezes, os proprios conhecidos aborrecem, como
succede neste mundo. As saudades da vida  que so agradaveis. A gente
de bordo  vulgar, mas o commandante impe confiana. No abre a bca,
d as suas ordens por gestos, e no consta que haja naufragado.

--O senhor est caoando commigo; eu creio at que estou com febre.

--Deixe ver.

Flora estendeu-lhe o pulso; elle, com ar profundo:

--Est; febre de quarenta e sete gros, a mo est ardendo, mas isto
mesmo prova que no  nada, porque aquellas viagens fazem-se com as
mos frias. Ha de ser constipao, fale a sua me.

--Mame no cura.

--Pde curar, ha remedios caseiros; em todo caso, pea-lhe, e ella pde
mandar chamar um medico.

--Medico d tizanas, e eu no gsto de tizanas.

--Nem eu, mas tolero-as. Porque no experimenta a homoeopathia, que no
tem gosto, como a allopathia?

--Qual  a que lhe parece melhor?

--A melhor? S Deus  grande.

Flora sorriu, de um sorriso pallido, e o conselheiro percebeu algo que
no era tristeza de passagem ou de creana. Novamente lhe falou de
Petropolis, mas no insistiu. Petropolis era a aggravao do momento
actual.

--Petropolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse a senhora,
saa desta casa e desta rua; v para outro bairro, casa amiga, com sua
me ou sem ella...

--Para onde? perguntou Flora anciosa.

E ficou a olhar, esperando. No tinha casa amiga, ou no se lembrava, e
queria que elle mesmo escolhesse alguma, onde quer que fosse, e quanto
mais longe, melhor. Foi o que elle leu nos olhos parados.  ler muito,
mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o que lhes diz
um rosto calado, e at o contrario. Ayres fra diplomata excellente,
apesar da aventura de Caracas, se no  que essa mesma lhe aguou a
vocao de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia est nestes dous
verbos parentes.




CAPITULO XCIX


A titulo de ares novos...


--Vou arranjar-lhe uma casa boa, disse elle,  despedida.

Desde que estava em Petropolis, Ayres no ia jantar a Andarahy, com a
irm, s quintas-feiras, segundo ajustra e consta do cap. XXXII. Agora
foi l, e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa della, a
titulo de ares novos. D. Rita no consentiu que D. Claudia lhe levasse
a filha, ella mesma a foi buscar a S. Clemente, e Ayres acompanhou as
trez.

A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida ao p
de paredo velho. O paredo remoou. A simples flr, ainda que pallida,
alegrou o barro gretado e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada;
Flora pagava o agazalho da dona da casa com tanta ingenuidade e graa,
que esta acabou por lhe dizer que a roubaria  me e ao pae, e foi
ainda occasio de riso para as duas.

Voc me deu um lindo presente com esta moa, escrevia D. Rita ao
irmo; foi uma alma nova, e veiu em boa occasio, porque a minha anda
j caduca.  muito docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto,
tem aqui tirado riscos de varias cousas, e eu saio com ella para lhe
mostrar vistas apreciaveis. s vezes, apresenta uma cara triste,
olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se so saudades de S.
Clemente, ella sorri e faz ura gesto de indifferena. No lhe falo dos
nervos, para no a affligir, mas creio que vae melhor...

Flora tambem escreveu as conselheiro Ayres, e as duas cartas chegaram
 mesma hora a Petropolis. A de Flora era um agradecimento grande e
cordial, mal entremeado de alguma palavra saudosa; confirmava assim
a carta da outra, posto no a houvesse lido. Ayres comparou-as,
lendo duas vezes a da moa para ver se ella escondia mais do que
transparencia do papel. Em summa, confiava no remedio.

--No os vendo, esquece-os, pensou elle; e se na visinhana houver
alguem que pense em gostar della,  possivel que acabe casando.

Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira
iria almoar com ellas. A D. Claudia escreveu mandando-lhe a carta da
irm, e foi passar a noite em casa de Natividade, a quem deu a ler as
cinco cartas. Natividade approvou tudo. Notava s que os filhos no lhe
escreviam, e deviam estar desesperados.

--A Santa Casa cura, e a Bibliotheca Nacional tambem, retorquiu Ayres.

Na quinta feira, Ayres desceu e foi almoar a Andarahy. Achou-as como
as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente para ouvir por
bca as confisses do papel; eram as mesmas. D. Rita parecia ainda
mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidencia que fez a
moa, na vespera. Como falassem de cabellos, D. Rita referiu o que
tambem consta do cap. XXXII, isto , que cortra os seus para os metter
no caixo do marido, quando o levaram a enterrar. Flora no a deixou
acabar; pegou-lhe das mos e apertou-as muito.

--Nenhuma outra viuva faria isto, disse ella.

Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mos, pl-as sobre os seus hombros,
e concluiu o gesto por um abrao. Todas as pessoas louvaram-lhe a
abnegao do acto; esta era a primeira que a achou unica. E dahi outro
abrao longo, mais longo...




CAPITULO C


Duas cabeas


To longo foi o abrao que tomou o resto ao capitulo. Este comea
sem elle nem outro. O mesmo aperto de mo de Ayres e Flora, se foi
demorado, tambem acabou. O almoo fez gastar algum tempo mais que de
costume, porque Ayres, alm de conversador emerito, no se fartava de
ouvir as duas, principalmente a moa. Achava-lhe um toque de languidez,
abatimento ou cousa proxima, que no encontro no meu vocabulario.

Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um pedao
da estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um _Principio de casa._ Era
umas dessas casas, que alguem comeou muitos annos antes, e ninguem
acabou, ficando s duas ou trez paredes, ruina sem historia. Havia
ainda outros desenhos, uma revoada de passaros, um vaso  janella.
Ayres ia folheando, cheio de curiosidade e paciencia; a inteno da
obra suppria a perfeio, e a fidelidade devia ser approximada. Emfim,
a moa atou os cordes  pasta. Ayres, parecendo-lhe que ficara um
desenho ultimo r escondido, pediu que lh'o mostrasse.

-- um esboo, no vale a pena.

--Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe
ver.

--No vale a pena...

Ayres insistiu; ella no pde recusar mais tempo, abriu a pasta,
e tirou um pedao de papel grosso em que estavam desenhadas duas
cabeas juntas e eguaes. No teriam a perfeio desejada por ella; no
obstante, dispensavam os nomes. Ayres considerou a obra, durante alguns
minutos, e duas ou trez vezes levantou os olhos para a autora. Flora
j os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a critica, mas
no ouviu nada. Ayres acabou de observar as duas cabeas, e pousou o
desenho entre os papeis.

--No lhe dizia que era um esboo? perguntou Flora, a ver se lhe
arrancava uma palavra.

Mas o ex-ministro preferiu no dizer nada. Em vez de achar quasi
extincta a influencia dos gemeos, vinha dar com ella feita consolao
da ausencia, to viva que bastava a memoria, sem presena dos modelos.
As duas cabeas estavam ligadas por um vinculo escondido. Flora,
vendo continuar o silencio de Ayres, comprehendeu acaso parte do que
lhe passava no espirito. Com um gesto prompto, pegou do desenho e
deu-lh'o. No lhe disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra.
Qualquer que fosse, seria indiscreta. De mais, era o unico desenho
a que ella no pz assignatura. Deu-lh'o como se fra um penhor de
arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas da pasta, emquanto
Ayres, rasgava calado o desenho e mettia os pedaos no bolso. Flora
ficou por um instante parada, bca entre-aberta, mas logo lhe apertou
a mo, agradecida. No pde evitar que lhe caissem duas pequeninas
lagrimas,--como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta
do passado.

A imagem no  boa, nem verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro,
andando, ao voltar de Andarahy. Chegou a escrevel-a no _Memorial_,
depois riscou-a, e escreveu uma reflexo menos definitiva: Talvez seja
uma lagrima para cada gemeo.

--Pde acabar com o tempo, pensou elle indo para a barca de Petropolis.
No importa;  um caso embrulhado.




CAPITULO CI


O caso embrulhado


Tambem os gemeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente,
tinham noticias da moa, sem que lhes dssem certeza do regresso. O
tempo andava; no tardaria que consultassem a sorte, como dous antigos.

A rigor, no contavam as semanas de interrupo, uma vez que a
escolha se no dava, e elles podiam trazer da consulta o contrario da
inclinao definitiva da moa. Reflexo justa, posto que interessada.
Cada um delles no queria mais que prolongar a batalha, esperando
vencel-a. Entretanto, no confiavam um do outro este pensamento gemeo,
como elles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a affeio tinha agora o
seu pudor e necessidade de calar. J no falavam de Flora.

Nem s de Flora. Crescendo a opposio, recorriam ao silencio.
Evitavam-se; se podiam, no comiam juntos; se comiam juntos, diziam
pouco ou nada. s vezes, falavam para tirar aos criados qualquer
suspeita, mas no advertiam que falavam mal e foradamente, e que os
criados iam commentar as palavras e a expresso delles na copa. A
satisfao com que estes communicavam os seus achados e concluses
 das poucas que adoam o servio domestico, geralmente rude. No
chegavam, porm, ao ponto de concluir tudo o que os ia tornando
cada vez mais avessos, a ponto de odio que crescia com a ausencia
da me. Era mais que Flora, como sabeis; eram as proprias pessoas
inconciliaveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade,
Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi
dormir mal em outro no menos quente que o primeiro.




CAPITULO CII


Viso pede meia sombra


Entretanto, a bella moa no os tirava da mesma alcova sua, por mais
que buscasse devras fugir-lhes. A memoria os trazia pela mo, elles
entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si mesmos, ou empurrados
por ella. Quando tornavam, era de sorpresa. Um dia, Flora aproveitou a
presena para fazer um desenho egual ao que dera ao conselheiro, mais
perfeito agora, muito mais acabado.

Tambem canava. Ento saa do quarto e ia para o piano. Elles iam com
ella, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte, em p, e ouviam com
atteno religiosa, ora um nocturno, ora uma tarantella. Flora tocava
ao sabor de ambos, sem deliberao; os dedos  que obedeciam  mecanica
da alma. Para os no ver, inclinava a cabea sobre o teclado; mas o
campo da viso os guardava, se no era a respirao que se fazia sentir
defronte ou dos lados. Tal era a subtileza dos seus sentidos.

Se fechava o piano e descia ao jardim, succedia muita vez que os ia
achar alli, passeando, e a comprimentavam com to boa sombra, que ella
esquecia por instantes a impaciencia. Depois, sem que os mandasse,
iam embora. Nos primeiros tempos. Flora tinha medo que a houvessem
abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo, to
doceis, que ella acabou de se convencer que a fuga no era fuga. nem
elles sentiam desprezo, e no os evocou mais. No jardim era mais rapido
o desapparecimento, talvez pela extrema claridade do logar. Viso pede
meia sombra.




CAPITULO CIII


O quarto


Sei, sei, trez vezes sei que ha muitas vises dessas nas paginas que l
ficam. Ulysses confessa a Alcinoos que lhe  enfadonho contar as mesmas
cousas. Tambem a mim. Sou, porm, obrigado a ellas, porque sem ellas
a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que no conheci.
Conheci esta, com as suas obsesses ou como quer que lhes chames.

Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento e
nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda, e ter
mais de um namorado incognito, que suspirava por ella. No faltava quem
a admirasse de passagem, e fosse vel-a, quando menos, no banco verde, 
porta do jardim, ao p da irm de Ayres. Pde ser que conhecesse algum,
Gouva, por exemplo; em verdade, era como se os no visse.

Um delles valia mais que todos pela carruagem,--tirada por uma bella
parelha de cavallos,--capitalista do bairro. A casa delle era um
palacete, os moveis feitos na Europa, estylo imperio, apparelhos de
Svres e de prata, tapetes de Smyrna, e uma vasta camara com dous
leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.

--A esposa ha de ser esta, pensou elle um dia, ao ver Flora.

Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito das
muitas aguas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e as maneiras no
tinham graa nem naturalidade. Era o Nobrega, aquelle da nota de dous
mil reis, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de dous
mil contos de reis. Para as notas recentes, a av perdia-se na noite
dos tempos. Agora os tempos eram claros, a manh doce e pura.

Quando viu a moa, e fez a reflexo que l fica, extranhou-se a si
proprio. Vira outras damas, e mais de uma com escriptos nos olhos,
dizendo-lhe o vasio do corao. Esta era a primeira que veramente lhe
prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a vl-a; a gente
visinha notou porv'entura a frequencia recente do capitalista. Emfim,
Nobrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto
dos seus habituados, que assim se viam esquecidos do amphytrio.
Nobrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem todos
servidos e agazalhados, como se elle estivesse presente.

A ausencia no lhe faria perder as loas dos amigos. Ao contrario, os
servos podiam dar testemunho do que todos elles pensavam do grande
homem. Tal era o nome que lhe applicara o secretario particular, e
pegou. Nobrega sabia pouca orthographia, nenhuma syntaxe, lices
uteis, de certo, mas que no valiam a moral, e a moral, diziam todos,
acompanhando o secretario, era o seu principal e maior merito. O fiel
escriba accrescentava, que sendo preciso despir a camisa e dal-a a um
mendigo, Nobrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.

Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em pouco
tempo, aquelle gosto de relance passou a grande paixo, to grande que
elle no a pde conter, e resolveu confessal-a. Hesitou se o faria 
propria moa ou  dona da casa. No tinha animo para uma nem outra. Uma
carta suppria tudo, mas a carta pedia lingua, calor e respeito. Se, ao
menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma cousa, ainda que pouca, v;
a carta seria ento uma resposta. Mas no lhe dizia nada o gesto da
moa. Era s cortez e gracioso; no ia alm dessas duas expresses.

D. Rita percebeu a inclinao de Nobrega e achou que era a melhor
soluo da vida para a hospede. Todas as incertezas, angustias
e melancolias vinham acabar nos braos de um ricasso, estimado,
respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem s ordens... Ella
mesma punha em relevo este premio grande da loteria de Hespanha.

Emfim, o secretario de Nobrega redigiu com a melhor linguagem que
possuia uma carta em que o capitalista pedia a D. Rita o favor de
consultar a moa amada.

--No escreva palavrinhas doces, recommendou elle ao secretario. Gsto
dessa moa com um sentimento de proteco, antes que outra cousa. No 
carta de namorado. Estylo grave...

--Uma carta secca, concluiu o secretario.

--Totalmente secca, no, emendou Nobrega, uma carta lisongeira, sem
esquecer que no sou creana.

Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nobrega achou que o estylo
podia ser um tanto ameno; no fazia mal pr duas ou trez palavras
apropriadas ao objecto, _belleza, corao, sentimento..._ Assim se
cumpriu fmalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou
contentissima. Justamente o que ella queria. Tinha o plano feito de
concluir, por acto seu, uma historia melancolica, a que daria, por
derradeira pagina, concluso deslumbrante. No pensou em dizel-o
primeiro ao irmo, pela razo de querer que elle recebesse a noticia
completa, tudo feito e acabado. Releu a carta; dispoz-se a ir logo,
mas ha pessoas para quem o adagio que diz que o melhor da festa 
esperar por ella, resume todo o prazer da vida. D. Rita tinha essa
opinio. Todavia, entendeu que taes cartas no so das que se guardam
largo tempo, nem alis das que se communicam sem cautella. Esperou
vinte e quatro horas. Na manh seguinte, depois de almoadas, leu a
carta  moa. O natural  que Flora ficasse espantada. Ficou, mas no
tardou que risse, de um riso franco e sonoro, como ainda no rira em
Andarahy. D. Rita ficou espantadissima. Suppunha que, no a pessoa,
mas as vantagens e circumstancias pleiteassem a favor do candidato.
Esquecia os seus cabellos entregues  sepultura do marido. Deu
conselhos  moa, poz em relevo a posio do pretendente, o presente e
o futuro, a situao esplendida que lhe dava este casamento, e por fim
as qualidades moraes de Nobrega. A moa escutou calada, e acabou rindo
outra vez.

--A senhora sabe se serei feliz? perguntou.

--Creio que sim; agora, o futuro  que confirmar ou no.

--Esperemos que o futuro chegue, comquanto me parea muito demorado.
No nego as qualidades daquelle homem, parece bom, e trata-me bem, mas
eu no quero casar, D. Rita.

--Realmente, a edade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?

--Est pensado.

D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora
viesse a mudar de opinio, podia ser uma desgraa para esta. Uso os
proprios termos della, comsigo, _grande desgraa, posio esplendida,
sentimento profundo._ D. Rita ia aos extremos, deante daquelle
rico-homem dos ultimos annos do seculo.




CAPITULO CIV


A resposta


No querendo dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moa, que
lhe respondeu simplesmente:

--Diga que no pretendo casar.

Quando Nobrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou, ficou
assombrado. No contava com recusa. Ao contrario, era to certa a
acceitao que elle tinha j um programma do noivado. Imaginava a
moa, os olhos timidos, a bca cerrada, o veu que lhe cobriria a linda
carinha, a delicadeza delle, as palavras que lhe diria entrando em
casa. Tinha j composto uma invocao  Me Santssima, para que os
fizesse felizes. Dou-lhe carro, dizia comsigo, joias, muitas joias, as
melhores joias do mundo...  Nobrega no fazia ideia exacta do mundo;
era uma expresso. Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de
seda, que eu mesmo lhe calarei... Estremecia de cr, ao calar-lhe as
meias. Beijava-lhe os ps e os joelhos.

Tinha imaginado que ella, ao ler a carta, devia ficar to pasmada e
agradecida, que nos primeiros instantes no pudera responder a D.
Rita; mas logo depois as palavras sairiam do corao s golfadas.
Sim, senhora, queria, acceitava; no pensara em outra cousa.
Escreveria logo ao pae e  me para lhes pedir licena; elles viriam
correndo, incredulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita,
no duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pae
lh'o fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma
simples recusa, uma recusa atrevida, porque em fim quem era ella,
apesar da belleza? Uma creatura sem vintem, modestamente vestida, sem
brincos, nunca lhe vira brincos s orelhas, duas perolasinhas que
fossem. E porque  que lhe furaram as orelhas, se no tinham brincos
que lhe dar? Considerou que s mais pobres meninas do mundo furam as
orelhas para os brincos que lhes possam cair do cu. E vem esta, e
recusa os mais ricos brincos que o cu ia chover sobre ella...

Ao jantar, os amigos da casa notaram que elle estava preoccupado.
De noite, elle e o secretario sairam a p. Nobrega buscou em si o
gesto mais frio e indifferente que pde, quasi alegre, e annunciou ao
secretario que Flora no queria casar. No se descreve a admirao do
secretario, em seguida a consternao, finalmente a indignao. Nobrega
respondia magnanimo:

--No foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito abaixo da
fortuna. Creia que  boa moa. Pde ser tambem, quem sabe? Por ter sido
um mau conselho do corao. Aquella moa  doente.

--Doente?

--No affirmo; digo que pde ser.

O secretario affirmou.

--S a doena, disse elle, explicar a ingratido, por que o acto  de
pura ingratido.

Aqui tornou a nota da indignao, nota sincera, como as outras. Nobrega
gostou de ouvil-a; era um compadecimento. No fim, cumpriu a ideia que
trazia ao sair de casa; augmentou-lhe o ordenado. Podia ser a paga
da sympathia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o preo do
silencio, e ninguem soube de nada.




CAPITULO CV


A realidade


A molestia, dada por explicao  recusa do casamento, passou 
realidade dahi a dias. Flora adoeceu levemente; D. Rita, para no
alarmar os paes, cuidou de a tratar com remedios caseiros; depois,
mandou chamar um medico, o seu medico, e a cara que este fez no
foi boa, antes m. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas
molestias no rosto delle, e sempre as achava gravissimas, cuidou de
avisar os paes da moa. Os paes viram logo. Natividade tambem desceu
de Petropolis, no de vez; em cima, tinham medo de algum movimento
c embaixo. Veiu a visitar a moa, e, a pedido desta, ficou alguns
dias.--S a senhora me pde curar, disse Flora; no creio nos remedios
que me do. As suas palavras  que so boas, e os seus carinhos...
Mame tambem, e D. Rita, mas no sei, ha uma differena, uma cousa...
Veja: parece-me que at j rio.

--J, j; ria mais.

Flora sorriu, ainda que daquelle sorriso descorado que apparece na
bca do enfermo, quando a molestia consente, ou elle fra a seriedade
propria da dr. Natividade dizia-lhe palavras de animao; fel-a
prometter que iria convalecer em Petropolis. A enfermidade comeou a
ceder. D. Claudia acceitou a offerta de D. Rita, e l ficou aposentada.
Natividade ia  noite para Botafogo e voltava de manh. Ayres descia de
Petropolis um dia sim, um dia no.

Tambem os gemeos l iam saber da enferma. Agora mais que d'antes,
sentiam a fortaleza do vinculo que os prendia  moa. Pedro, j medico,
ainda que sem pratica, punha mais autoridade nas perguntas, concluia
melhor dos symptomas, mas as esperanas e os receios eram de ambos.
Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniencia. A
razo, por egoista que fosse, era perdoavel. Suppe que os cartes de
visita falassem; alguns, mais soffregos, proclamariam os seus nomes,
para que soubessem logo da presena, da cortezia e da anciedade. Tal
cuidado da parte dos dous era inutil, porque ella sabia delles e
recebia as lembranas que lhe deixavam.

Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao p de si,
pela razo que j deu, e por outra que no disse, nem porventura soube,
mas podemos suspeital-a e imprimir. Estava alli o ventre abenoado que
gerra os dous gemeos. De instincto, achava nella algo particular.
Quanto ao influxo que exercia nella, por essa ou qualquer outra causa,
no a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal
crise, Flora no perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas
juntas, falando, se no fazia mal falar, ou ento uma com as mos
da outra entre as suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a
contemplal-a, com o rosto pallido, os olhos fundos, as mos quentes,
mas sem perder a graa dos dias da sade. As outras entravam no quarto,
p ante p, esticavam os pescoos para vel-a dormir, falavam por gestos
ou to baixo que s o corao as adivinharia.

Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de cu. Uma
das duas janellas foi ento escancarada, e a enferma encheu-se de vida
e riso. No  que a Febre se fosse de todo. Essa bruxa livida estava ao
canto do quarto, com os olhos espetados nella; mas, ou de canada, ou
por obrigao imposta, cochilava a miudo, e longamente. Ento a enferma
sentia s o calor do Mal, que o medico graduava em trinta e nove ou
trinta e nove e meio, depois de consultar o thermometro. A Febre, ao
ver esse gesto, ria sem escandalo, ria para si.




CAPITULO CVI


Ambos quaes?


Ficmos no ponto cm que uma das janellas do quarto augmentou a dse
do luz e de cu que Flora pediu, sem embargo da febre, alis pouca. O
mais que se passou valia a pena de um livro. No foi logo, logo, gastou
longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que entre a vida
e Flora se fizesse a reconciliao ou a despedida. Uma e outra podiam
ser extensas; tambem podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu
velho, se no de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quasi
infinito. J pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da
derradeira amiga espiar da porta entre-aberta, voltava o seu para outro
lado e engrolava uma cantiga da infancia, para enganal-a e viver.

Flora no recorria a taes cantigas, alis to proximas. Quando via o
cu e um pedao de sol no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez
quiz desenhar, mas no lh'o consentiram. Se a morte a espiava da porta,
tinha um calefrio,  verdade, e fechava os olhos. Ao abril-os fitava a
triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ella.

--Voc amanh est prompta, e de hoje a oito dias, ou antes, vamos para
Petropolis, disse Natividade disfarando as lagrimas, mas a voz fazia o
officio dos olhos.

--Petropolis? suspirou a doente.

--L ter muito que desenhar.

Eram sete horas da manh. Na vespera, quando os gemeos sairam de l, j
tarde, os receios da morte cresciam; mas no bastam receios,  preciso
que a realidade venha atraz delles; dahi as esperanas. Tambem no
bastam esperanas, a realidade  sempre urgente. A madrugada trouxe
algum socego; s sete horas, depois daquellas palavras de Natividade,
Flora pde dormir.

Quando Pedro e Paulo voltaram a Andarahy, a enferma estava acordada,
e o medico, sem dar grandes esperanas, mandou fazer applicaes, que
declarou energicas. Todos tinham signaes de lagrimas. De noite, Ayres
appareceu trazendo noticias de agitao na cidade.

--Que ?

--No sei; uns falam de manifestaes ao marechal Deodoro, outros de
conspirao contra o marechal Floriano. Ha alguma cousa.

Natividade pediu aos filhos que se no mettessem em barulhos; ambos
prometteram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas, grupos,
patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamaraty illuminado, tiveram a
curiosidade de saber o que houve e havia; vaga suggesto, que no durou
dous minutos. Correram a metter-se em casa, e a dormir mal a noite. Na
manh seguinte os criados levaram os jornaes com as noticias da vespera.

--Veiu algum recado de Andarahy? perguntou um.

--No, senhor.

Ainda quizeram ler, por alto, alguma cousa. No puderam; estavam
anciosos de sair de casa e saber noticias da noite. Posto levassem os
jornaes comsigo, no leram claramente nem seguidamente. Viram nomes de
pessoas prezas, um decreto, movimento de gente e de tropas, to confuso
tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de entender o que
houvera. Flora ainda vivia.

--Mame, a senhora est mais triste hoje que estes dias.

--No fales tanto, minha filha, acudiu D. Claudia. Triste estou sempre
que adoeces. Fica boa e vers.

--Fica, fica boa, interveiu Natividade. Eu em moa, tive uma doena
egual que me prostrou por duas semanas, at que me levantei, quando j
ninguem esperava.

--Ento j no esperam que me levante?

Natividade quiz rir da concluso to prompta, com o fim de a animar. A
doente fechou os olhos, abriu-os dahi a pouco, e pediu que vissem se
estava com febre. Viram; tinha, tinha muita.

--Abram-me a janella toda.

--No sei se far bem, ponderou D. Rita.

--Mal no faz, disse Natividade.

E foi abrir, no toda, mas metade da janella. Flora, posto que j mui
caida, fez esforo e voltou-se para o lado da luz. Nessa posio ficou
sem dar de si; os olhos, a principio vagos, entraram a parar, at que
ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando os passos,
trazendo recados e levando-os; fra, espreitavam o medico.

--Demora-se; j devia c estar, dizia Baptista.

Pedro era medico, propoz-se a ir ver a enferma; Paulo, no podendo
entrar tambem, ponderou que seria desagradavel ao medico assistente;
alm disso, faltava-lhe pratica. Um e outro queriam assistir ao
passamento de Flora, se tinha de vir. A me, que os ouviu, saiu  sala,
e, sabendo o que era, respondeu negativamente. No podiam entrar; era
melhor que fossem chamar o medico.

--Quem ? perguntou Flora, ao vel-a tornar ao quarto.

--So os meus filhos que queriam entrar ambos.

--Ambos quaes? perguntou Flora.

Esta palavra fez crr que era o delirio que comeava, se no  que
acabava, porque, em verdade, Flora no proferiu mais nada. Natividade
ia pelo delirio. Ayres, quando lhe repetiram o dialogo, rejeitou o
delirio.

A morte no tardou. Veiu mais depressa do que se receiava agora.
Todas e o pae acudiram a rodear o leito, onde os signaes da agonia se
precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rapidas, no tanto
que no faam ir doendo as saudades do dia; acabou to serenamente
que a expresso do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de
defunta que de esculptura. As janellas, escancaradas, deixavam entrar o
sol e o cu.




CAPITULO CVII


Estado de sitio


No ha novidade nos enterros. Aquelle teve a circumstancia de percorrer
as ruas em estado de sitio. Bem pensado, a morte no  outra cousa
mais que uma cessao da liberdade de viver, cessao perpetua, ao
passo que o decreto daquelle dia valeu s por 72 horas. Ao cabo de 72
horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver. Quem
morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria commettido
aquella moa, alm do de viver, e porventura o de amar, no se sabe a
quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras, que se no ajustam,
antes se contrariam. A razo  que no recordo este obito sem pena, e
ainda trago o enterro  vista...




CAPITULO CVIII


Velhas ceremonias


Aqui vae a sair o caixo. Todos tiram o chapeu, logo que elle assoma
 porta. Gente que passa, pra. Das janellas debrua-se a visinhana,
em algumas atopeta-se, por serem as familias maiores que o espao; s
portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que pegam nas
alas do caixo, Baptista, Santos, Ayres, Pedro, Paulo, Nobrega.

Este, posto j no frequentasse a casa, mandara saber da enferma, e
foi convidado a carregar o gracioso corpo. No carro, em que levava o
secretario, e era puxado pela mais bella parelha do prestito, quasi
unica, lembrava Nobrega ao secretario.

--No lhe dizia eu que ella era doente? Era muito doente.

--Muito.

No vou ao ponto de affirmar que teve prazer com a morte de Flora,
s por havel-o feito acertar na noticia da doena, estando ella
perfeitamente s. Mas que ninguem fosse seu marido, foi uma especie
de consolao. Houve mais; suppondo que ella o tivesse acceitado e
casassem, pensava agora no esplendido enterro que lhe faria. Desenhava
na imaginao o carro, o mais rico de todos, os cavallos e as suas
plumas negras, o caixo, uma infinidade de cousas que,  fora de
compr, cuidava feitas. Depois o tumulo; marmore, letras de ouro... O
secretario para o arrancar  tristeza, falava dos objectos da rua.

--V. Ex. lembra-se do chafariz que havia aqui ha annos?

--No, resmungava Nobrega.

Ainda uma vez, no ha novidade nos enterros. Dahi o provavel tedio dos
coveiros, abrindo e fechando covas todos os dias. No cantam, como os
de _Hamlet_, que temperam as tristezas do officio com as trovas do
mesmo officio. Trazem o caixo da cal e a colher para os convidados,
e para si as ps com que deitam a terra para dentro da cova. O pae
e alguns amigos ficaram ao p da cova de Flora, a ver cair a terra,
a principio com aquelle baque soturno, depois com aquelle vagar
canativo, por mais que os pobres homens se apressem. Enifim, caiu toda
a terra, e elles puzeram em cima as grinaldas dos paes e dos amigos:
_ nossa querida filha;-- nossa santa amiguinha Flora a saudosa
amiga Natividade;-- Flora, um amigo velho_, etc. Tudo feito, vieram
saindo; o pae, entre Ayres e Santos, que lhe davam o brao, cambaleava.
Ao porto, foram tomando os carros e partindo. No deram pela falta de
Pedro e Paulo que ficaram ao p da cova.




CAPITULO CIX


Ao p da cova


Nenhum delles contou o tempo gasto naquelle logar. Sabem s que foi de
silencio, de contemplao e de saudade. No digo, para os no vexar
agora, mas  possivel que chorassem tambem. Tinham um leno na mo,
enxugavam os olhos; depois com os braos caidos, as mos prendendo o
chapeo, olhavam apparentemente para as flres que cobriam a sepultura,
mas na realidade para a creatura que l estava embaixo.

Emfim, cuidaram de arrancar-se dalli, e despedir-se da defunta, no se
sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria egual.
Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a ideia de um aperto
de mo por cima da cova. Era uma promessa, um juramento. Juntaram-se
e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao porto, reduziram 
palavra o gesto das mos feito sobre a cova. Que juravam a conciliao
perpetua.

--Ella nos separou, disse Pedro; agora, que desappareceu, que nos una.

Paulo confirmou de cabea.

--Talvez morresse para isso mesmo, accrescentou.

Depois, abraaram-se. Gesto nem palavra traziam emphasis ou affectao;
eram simples e sinceros. A sombra de Flora de certo os viu, ouviu e
inscreveu aquella promessa de reconciliao nas taboas da eternidade.
Ambos, por um impulso commum, voltaram os olhos para ver ainda uma
vez a cova de Flora, mas a cova ficava longe e encoberta por grandes
sepulchros, cruzes, collumnas, um mundo inteiro de gente passada, quasi
esquecida. O cemiterio tinha um ar meio alegre, com todas aquellas
grinaldas de flres, baixo-relevos, bustos, e a cr branca dos marmores
e da cal. Comparado  cova recente, parecia um renascimento de vida,
que ficou deslembrada a um canto da cidade.

Custou-lhes sair do cemiterio. No suppunham estar to presos 
defunta. Cada um d'elles ouvia a mesma voz, com egual doura e palavras
especiaes. Tinham chegado ao porto e o carro veiu buscal-os. A cara do
cocheiro era radiosa.

No se explica esta expresso do cocheiro, se no porque, inquieto da
demora, no cuidando que os dous freguezes ficassem tanto tempo ao p
da cova, entrara a receiar que tivessem aceitado o convite de algum
amigo e voltado para casa. Tinha j resolvido esperar poucos minutos
mais, e ir embora; mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dr e o
amor; digamos, gemea.




CAPITULO CX


Que va


Assim como o carro veiu voando do cemiterio, assim voar este capitulo,
destinado a dizer primeira que a me dos gemeos conseguiu leval-os para
Petropolis. J no allegaram a clinica da Santa Caza nem os documentos
da Bibliotheca Nacional. Clinica e documentos repousam agora na cova
n... No ponho o numero, para que algum curioso, se achar este livro na
dita Bibliotheca, se d ao trabalho de investigar e completar o texto.
Basta o nome da defunta, que l ficou dito e redito.

Ve este capitulo, como o trem de Mau, serra acima, at  cidade do
repouso, do luxo e da galanteria. V Natividade com os filhos, e Ayres
com os trez. Em cima,  noite, voltando este  casa do baro, pde
ver os effeitos da paz jurada, a conciliao final. No sabia nada do
pacto dos dous moos. Pae nem me sabiam cousa nenhuma. Foi um segredo
guardado no silencio e no desejo sincero de commemorar uma creatura que
os ligra, morrendo.

Natividade vivia agora enamorada dos filhos. Levava-os a toda parte,
ou guardava-os para si, afim de os gostar mais deliciosamente, de os
approvar por actos, de auxiliar a obra correctiva do tempo. Noticias
e boatos do Rio de Janeiro eram objecto de conversao nas casas a
que estes iam, sem os convidar a sair da absteno voluntaria. As
recreaes pouco a pouco os tomaram, algum passeio de carro ou a
cavallo, e outras diverses os traziam unidos.

Assim chegaram ao tempo em que a familia Santos desceu, ainda que a
contra-gosto de Natividade. Ella temia que, mais perto do governo, a
discordia politica acabasse com a recente harmonia dos filhos, mas no
podia l ficar. A outra gente vinha descendo. Santos queria os seus
velhos habitos, e deu algumas razes boas, que Natividade ouviu depois
ao proprio Ayres. Podia ser um encontro de ideias, mas se estas eram
boas, deviam ser acceitas.

Natividade confiava ao tempo a perfeio da obra; Cria no tempo. Eu,
em menino, sempre o vi pintado como um velho de barbas brancas e foice
na mo, que me mettia medo. Quanto a ti, amigo meu, ou amiga minha,
segundo fr o sexo da pessoa que me l, se no frem duas, e os sexos
ambos,--um casal de noivos, por exemplo,--curiosos de saber como 
que Pedro e Paulo puderam estar no mesmo Credo... No falemos desse
mysterio.... Contenta-te de saber que elles tinham em mente cumprir o
juramento daquelle logar e occasio. O tempo trouxe o fim da estao,
como nos outros annos, e Petropolis deixou Petropolis.



CAPITULO CXI


Um resumo de esperanas


Quando um no quer, dous no brigam tal  o velho proverbio que ouvi
em rapaz, a melhor edade para ouvir proverbios. Na edade madura elles
devem j fazer parte da bagagem da vida, fructos da experiencia antiga
e commum. Eu cria neste; mas no foi elle que me deu a resoluo de no
brigar nunca. Foi por achal-o em mim que lhe dei credito. Ainda que
no existisse, era a mesma cousa. Quanto ao modo de no querer, no
respondo, no sei. Ninguem me constrangia. Todos os temperamentos iam
commigo; poucas divergencias tive, e perdi s uma ou duas amizades, to
pacificamente alis, que os amigos perdidos no deixaram de me tirar o
chapeo. Um delles pediu-me perdo no testamento.

No caso dos gemeos eram ambos que no queriam; parecia-lhes ouvir uma
voz de fra ou de alto que lhes pedia constantemente a paz. Fora
maior, portanto, e troca de formula: Se nenhum quer, nenhum briga.

Naturalmente os actos do governo eram approvados e desapprovados, mas
a certeza de que podia accender-Ihes novamente os odios fazia com que
as opinies de Pedro e de Paulo ficassem entre os seus amigos pessoaes.
No pensavam nada  vista um do outro. Divergencias de theatro ou de
rua, eram sopitadas logo, por mais que lhes doesse o silencio. No
doeria tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma
cousa. Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da me era a
paga de ambos.

A carreira differente ia separal-os depressa, comquanto a residencia
commum os trouxesse unidos. Tudo se podia combinar; os interesses
do officio serviriam a este effeito, as relaes pessoaes tambem, e
afinal o uso, que vale por muito. Vou aqui resumindo, como posso, as
esperanas de Natividade. Outras havia a que chamarei conjugaes; os
rapazes porm, no pareciain inclinados a ellas, e a me, quem lhe
apalpasse o corao sentiria j um anticipado ciume das noras.



CAPITULO CXII


O primeiro mez


Na vespera do dia em que se completou o primeiro mez da morte de Flora,
Pedro teve uma ideia, que no communicou ao irmo. No perderia nada em
fazel-o, porque Paulo teve a mesma ideia, e tambem a calou. Della nasce
este capitulo.

A pretexto de ir visitar um doente, Pedro saiu de casa, antes das
sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem pretexto algum. Pia leitora,
adivinhas que ambos fram ao cemiterio; no adivinhas, nem  facil
adivinhar que cada um delles levava uma grinalda. No digo que fossem
das mesmas flores, no s para respeitar a verdade, seno tambem para
afastar qualquer ideia intencional de symetria na aco e no acaso.
Uma era de myosotis, outra creio que de perpetuas. Qual fosse a de um,
qual a do outro, no se sabe nem interessa  narrao. Nenhuma tinha
letreiro.

Quando Paulo chegou ao cemiterio, e viu de longe o irmo, teve
a sensao de pessoa roubada. Cuidava ser unico e era ultimo. A
presumpo, porm, de que Pedro no levra nada, uma folha sequer,
consolou-o da antecipao da visita. Esperou alguns instantes;
advertindo que podia ser visto, desviou-se do caminho, metteu-se por
entre sepulturas, at ir collocar-se atraz daquella. Ahi esperou cerca
de um quarto de hora. Pedro no se queria arrancar dalli; parecia falar
e escutar. Emfim, despediu-se e desceu.

Paulo, vagorosamente, caminhou para a sepultura. Indo a depositar a
grinalda, viu alli outra posta de fresco, e entendendo que era do
irmo, teve impeto de ir atraz delle e pedir-lhe contas da lembrana e
da visita. No lhe leves a mal o impeto; passou immediatamente. O que
elle fez foi collocar a coroa que levava no lado correspondente aos
ps da defunta, para no a irmanar com a outra, que estava do lado da
cabea.

No viu, no adivinhou sequer que Pedro naturalmente pararia um
instante, para voltar a cara e mandar um derradeiro olhar  moa
enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmo, no mesmo logar
que elle, os olhos no cho, teve tambem o seu impulso de ir buscal-o
e trazel-o daquella cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os
gestos de piedade, quaesquer que fossem, elle os deu primeiro  querida
commum. Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora, falar-lhe, ouvil-a,
gemer com ella a separao eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se
della mais cedo.

Assim consolado, podia seguir caminho; Paulo, se saisse atraz delle,
e o visse, entenderia que fizera a sua visita em segundo logar, e
receberia um golpe grande. Deu alguns passos na direco do porto,
estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os gestos delle,
ver se rezava, se se benzia, para desmentil-o quando lhe ouvisse mofar
das ceremonias ecclesiasticas. Logo sentiu que era um erro; no iria
confessar a ninguem que o vira rezando ao p da cova de Flora. Ao
contrario, era capaz de o desmentir,--ou, quando menos, fazer um gesto
de incredulidade...

Emquanto estas imaginaes lhe passavam pela cabea, desfazendo-se
umas s outras, discursando sem palavras, acceitando, repellindo,
esperando, os olhos no se retiravam do irmo, nem este da sepultura.
Paulo no fazia gesto, no mexia os labios, tinha os braos cruzados,
o chapeo na mo. No obstante, podia estar rezando. Tambem podia
falar calado, para a sombra ou para a memoria da defunta. A verdade 
que no saiu do logar. Ento Pedro viu que a conversao, evocao,
adorao, o que quer que fosse que atava Paulo  sepultura, vinha sendo
muito mais demorado que as suas oraes. No marcra o seu tempo, mas
evidentemente o de Paulo era j maior. Descontando a impaciencia,
que sempre faz crescer os minutos, ainda assim parecia certo que
Paulo gastava mais saudades que elle. Deste modo, ganhava na extenso
da visita o que perdera na chegada ao cemiterio. Pedro,  sua vez,
achou-se roubado.

Quiz sair; mas, uma fora, que elle no sabia explicar, no lhe
consentia levantar os ps, nem tirar os olhos do gemeo. A custo, pde
emfim trazer a estes e fazel-os andar de volta pelas outras campas,
onde leu alguns epitaphios. Um de 1865 no se podia ler bem se era
tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar
j apagado o adjectivo. Tributo era, tinha a formula adoptada pelos
marmoristas, para poupar estylo aos freguezes. Notando que o adjectivo
estava comido do tempo, Pedro disse comsigo que o seu amor  que era um
substantivo perpetuo, no precisando mais nada para se definir.

Pensou outras cousas com que foi disfarando a humilhao. Fizera tudo
s carreiras. Se se demorasse mais, era o outro que estaria agora
 espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do irmo, e este
no arredava p. Emfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi para
rodeal-a, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o
melhor logar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.

Tudo feito, Paulo arredou-se, desceu e saiu, levando as maldies
de Pedro. Este teve uma ideia que desprezou logo, e tu farias o
mesmo, amigo leitor; foi tornar  sepultura e emendar ao tempo gasto
anteriormente outro pedao maior. Desprezada a ideia, vagou alguns
minutos, at que saiu, sem achar sombra de Paulo.



CAPITULO CXIII


Uma Beatriz para dous


Flora, se visse os gestos de ambos,  provavel que descesse do cu, e
buscasse maneira de os ouvir perpetuamente, uma Beatriz para dous. Mas
no viu ou no lhe pareceu bem descer. Talvez no achasse necessidade
de tornar c, para servir de madrinha a um duello que deixara em meio.

Quanto a este, se ia continuar, no era pela mesma injuria. No
esqueas que foi ao p daquella mesma campa que os dous fizeram as
pazes eternas, e, posto no lh'as desfizesse a campa,  certo que
accendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-has, e com apparencia de razo,
que, se enterrada ainda os separava, mais os separaria se alli descesse
em espirito. Puro engano, amigo. No comeo, ao menos, elles jurariam o
que ella mandasse.




CAPITULO CXIV


Consultorio e banca


Mezes depois, Pedro abria consultorio medico, aonde iam pessoas
doentes, Paulo banca de advogado, que procuravam os carecidos de
justia. Um promettia saude, outro ganho de causa, e acertavam
muita vez, porque no lhes faltava talento nem fortuna. Demais, no
trabalhavam ss, mas cada qual com um collega de nomeada e pratico.

No meio dos successos do tempo, entre os quaes avultavam a rebellio
da esquadra e os combates do sul, a fuzilaria contra a cidade, os
discursos inflammados, prises, musicas e outros rumores, no lhes
faltava campo em que divergissem. Nem era preciso politica.. Cresciam
agora mais em numero as occasies e as materias. Ainda quando
combinassem de acaso e de apparencia, era para discordar logo e de vez,
no deliberamente, mas por no poder ser de outro modo.

Tinham perdido o accordo, feito pela razo, jurado pelo amor, em honra
da moa defunta e da me viva. Mal se podiam ver, mal ou peor ouvir.
Cuidaram de evitar tudo o que o logar e a occasio ajustassem para
os separar mais. Desta maneira, a profisso torceu-lhes o caminho e
dividiu as relaes de ambos. Natividade apenas daria pela m vontade
dos filhos, desde que os dous pareciam apostados em lhe querer bem,
mas dava por ella, e tentava ligal-os apertadamente e de todo. Santos
folgava de se prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos.
S receiava que Paulo, dada a inclinao partidaria, buscasse noiva
jacobina. No ousando dizer-lhe nada a tal respeito, refugiava-se na
religio, e no ouvia missa que lhe no mettesse uma orao particular
e secreta, para obter a proteco do cu.





CAPITULO CXV


Troca de opinies


Se no quando, viu Natividade os primeiros signaes de uma troca de
inclinao, que mais parecia proposito que effeito natural. Entretanto,
era naturalissimo. Paulo entrou a fazer opposio ao governo, ao passo
que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava acceitando o regimen
republicano, objecto de tantas desavenas.

A acceitao por parte deste no foi rapida nem total; era, porm,
bastante para sentir que no havia entre elle e o novo governo um
abysmo. Naturalmente o tempo e a reflexo consummaram este effeito no
espirito de Pedro, a no admittir que tambem nelle vingasse a ambio
de um grande destino, esperana da me. Natividade, com effeito, ficou
deliciada. Tambem ella mudara, se havia que mudar na simples alma
materna para quem todos os regimens valiam pela gloria dos filhos.
Pedro, alis, no se dava todo, restringia alguma cousa s pessoas e
ao systema, mas acceitava o principio, e bastava; o resto viria com a
edade, dizia ella.

A opposio de Paulo no era ao principio, mas  execuo. No  esta
a republica dos meus sonhos, dizia elle; e dispunha-se a reformal-a em
trez tempos, com a fina flor das instituies humanas, no presentes
nem passadas, mas futuras. Quando falava dellas, via-se-lhe a convico
nos labios e nos olhos, estes alongados, como alma de propheta. Era
outro ensejo de se no entenderem os dous. D. Claudia tinha que era
calculo de ambos para se no juntarem nunca;--opinio que Natividade
acceitaria, finalmente, se no fra a de Ayres.

Tambem este notra a mudana, e estava prestes a acceitar a explicao,
por aquella razo de commodidade que achava em concordar com as
opinies alheias; no se canava nem aborrecia. Tanto melhor, se o
accordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porm, valeu a pessoa.

--No, baroneza, disse elle, no creia em propositos.

--Mas que pde ser ento?

Ayres gastou algum tempo na escolha das palavras, afim de lhe no
sairem pedantescas nem insignificantes; queria dizer o que pensava.
s vezes, falar no custa menos que pensar. Ao fim de trez minutos,
segredou a Natividade:

--A razo parece-me ser que o espirito de inquietao reside em Paulo,
e o de conservao em Pedro. Um j se contenta do que est, outro
acha que  pouco e pouquissimo, e quizera ir ao ponto a que no fram
homens. Em summa, no lhes importam formas de governo, comtanto que a
sociedade fique firme ou se atire para diante. Se no concorda commigo,
concorde com D. Claudia.

Ayres no tinha aquelle triste peccado dos opiniaticos; no lhe
importava ser ou no acceito. No  a primeira vez que o digo, mas
provavelmente  a ultima. Em verdade, a me dos gemeos no quiz
outra explicao. Nem por isso a discordia morreria entre elles, que
apenas trocavam de armas para continuar o mesmo duello. Ouvindo esta
concluso, Ayres fez um gesto affirmativo, e chamou a atteno de
Natividade para a cr do cu, que era a mesma, antes e depois da chuva.
Suppondo que havia nisto algo symbolico, ella entrou a procural-o, e o
mesmo farias t, leitor, se l estivesses; mas no havia nada.

--Tenha confiana, baroneza, proseguiu elle pouco depois. Conte com
as circumstancias, que tambem so fadas. Conte mais com o imprevisto.
O imprevisto  uma especie de deus avulso, ao qual  preciso dar
algumas aces de graas; pde ter voto decisivo na assembla dos
acontecimentos. Supponha um despota, uma crte, uma mensagem. A crte
discute a mensagem, a mensagem canonisa o despota. Cada cortezo toma
a si definir uma das virtudes do despota, a mansido, a piedade, a
justia, a modestia... Chega a vez da grandeza da alma; chega tambem a
noticia de que o despota morreu de apoplexia, que um cidado assumiu
o poder e a liberdade foi proclamada do alto do throno. A mensagem 
approvada e copiada. Um amanuense basta para trocar as mos  Historia;
tudo  que o nome do novo chefe seja conhecido, e o contrario 
impossivel; ninguem trepa ao solio sem isso, nem a senhora sabe o que 
memoria de amanuense. Como nas missas funebres, s se troca o nome do
encommendado,--Petrus, Paulus...

--Oh! no agoure meus filhos! exclamou Natividade.




CAPITULO CXVI


De regresso


--Ento foram eleitos deputados?

--Fram; tomam assento quinta-feira. Se no fssem meus filhos, diria
que os vem achar mais bellos do que os deixou, ha um anno.

--Diga, diga, baroneza; faa de conta que so meus filhos.

Ayres voltava de Europa, aonde fra com promessa de ficar seis mezes
apenas. Enganou-se; gastou onze. Natividade  que lhe pz um anno para
arredondar a ausencia, que sentira devras, como D. Rita. O sangue em
uma, o costume na outra, custou-lhes a supportar a separao. Elle fra
a pretexto de aguas, e, por mais que lhe recommendassem as do Brasil,
no as quiz experimentar. No estava acostumado s denominaes locaes.
Tinha esta impresso que as aguas de Carlsbad ou Vichy, sem estes
nomes, no curariam tanto. D. Rita insinuou que elle ia para ver como
estavam as moas que deixou, e concluiu:

--Ho de estar to velhas, como voc.

--Quem sabe se mais? O officio dellas  envelhecer, redarguiu o
conselheiro.

Quiz rir, mas no pde ir alm da ameaa. No era a lembrana da
propria velhice, nem da caducidade alheia, era a injustia da sorte que
lhe tomou a vista interior. As moas elle sabia muito bem que cediam
ao tempo, como as cidades e as instituies, e ainda mais depressa que
ellas. Nem todas iriam logo cedo, a cumprir a sentena que attribue ao
amor dos deuses a morte prematura das pessoas; mas viu algumas dessas,
e agora lhe lembrou a meiga Flora, que l se fra com as suas graas
finas... No passou da ameaa de riso.

Quizeram retel-o as duas, Santos tambem, que perdia nelle uma figura
certa das suas noites; mas o nosso homem resistiu, embarcou e partiu.
Como escrevia sempre  irm e aos amigos, dava a causa exacta da
demora, e no eram amores, salvo se mentia, mas passara a edade de
mentir. Affirmou, sim, que recuperara algumas foras, e assim o pareceu
quando desembarcou, onze mezes depois, no caes Pharoux. Trazia o mesmo
ar de velho elegante, fresco e bem posto.

--Mas ento eleitos?

--Eleitos; tomam assento quinta-feira.




CAPITULO CXVII


Posse das cadeiras


Quinta-feira, quando os gemeos tomaram assento na camara, Natividade
e Perpetua fram ver a ceremonia. Pedro ou Paulo arranjou-lhes uma
tribuna. A me desejou que Ayres fosse tambem. Quando este alli chegou,
j as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o presidente e
os deputados. Um destes falava sobre a acta,e ninguem lhe prestava
atteno. Ayres sentou-se um pouco mais dentro, e aps alguns minutos,
disse a Natividade:

--A senhora escreveu-me que eram candidatos de dous partidos contrarios.

Natividade confirmou a noticia; fram eleitos em opposio um ao
outro. Ambos apoiavam a Republica, mas Paulo queria mais do que ella
era, e Pedro achava que era bastante e sobeja. Mostravam-se sinceros,
ardentes, ambiciosos; eram bem acceitos dos amigos, estudiosos,
instruidos...

--Amam-se finalmente?

--Amam-se em mim, respondeu ella depois de formular essa phrase na
cabea.

--Pois basta esse terreno amigo.

--Amigo, mas caduco; amanh posso faltar-lhes.

--No falta; a senhora tem muitos e muitos annos de vida. Faa uma
viagem  Europa com elles, e ver que regressa ainda mais robusta. Eu
sinto-me duplicado, por mais que me custe  modestia, mas a modestia
perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes homens...

--Porque  que a politica os ha de separar?

--Sim, podiam ser grandes na sciencia, um grande medico, um grande
jurisconsulto...

Natividade no quiz confessar que a sciencia no bastava. A gloria
scientifica parecia-lhe comparativamente obscura; era calada, de
gabinete, entendida de poucos. Politica, no. Quizera s a politica,
mas que no brigassem, que se amassem, que subissem de mos dadas...
Assim ia pensando comsigo, emquanto Ayres, abrindo mo da sciencia,
acabou declarando que, sem amor, no se faria nada.

--Paixo, disse elle,  meio caminho andado.

--A politica  a paixo delles; paixo e ambio. Talvez j pensem na
presidencia da Republica.

--J?

--No... isto , sim; guarde segredo. Interroguei-os separadamente;
confessaram-me que este era o seu sonho imperial. Resta saber o que
far um, se o outro subir primeiro.

--Derrubal-o-ha, naturalmente.

--No graceje, conselheiro.

--No  gracejo, baroneza. A senhora cuida que a politica os desune;
francamente, no. A politica  um incidente, como a moa Flora foi
outro...

--Ainda se lembram della.

--Ainda?

--Foram  missa anniversaria, e desconfio que fram tambem
ao cemiterio, no juntos, nem  mesma hora. Se fram,  que
verdadeiramente gostavam della; logo, no foi um incidente.

Sem embargo do que Natividade lhe merecia, Ayres no insistiu na
opinio, antes deu mais relevo  della, com o proprio facto da visita
ao cemiterio.

--No sei se fram, emendou Natividade; desconfio.

--Devem ter ido; elles gostavam realmente da pequena. Tambem ella
gostava delles; a differena  que, no alcanando unifical-os, como
os via em si, preferiu fechar os olhos. No lhe importe o mysterio. Ha
outros mais escuros.

--Parece que vae entrar a ceremonia, disse Perpetua que olhava para o
recinto.

--Chegue-se para a frente, conselheiro.

A ceremonia era a do costume. Natividade cuidou que ia vel-os entrar
juntos e affirmarem juntos o compromisso regimental. Viriam assim
como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de os admirar
separadamente, Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e ouviu-lhes
c de cima repetira formula com voz clara e segura. A ceremonia foi
curiosa para as galerias, graas  semelhana dos dous; para a me foi
commovedora.

--Esto legisladores, disse Ayres no fim.

Natividade tinha os olhos gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo
que as acompanhasse  carruagem. No corredor acharam os dous recentes
deputados, que vinham ter com a me No consta qual delles a beijou
primeiro; no havendo regimento interno nesta outra camara, pde ser
que fossem ambos a um tempo, mettendo-lhes ella a cara entre as bocas,
uma face para cada um. A verdade  que o fizeram com egual ternura.
Depois voltaram ao recinto.




CAPITULO CXVIII


Cousas passadas, cousas futuras


Indo a entrar na carruagem, Natividade deu com a egreja de S. Jos, ao
lado, e um pedao do morro do Castello, a distancia. Estacou.

--Que ? perguntou Ayres.

--Nada, respondeu ella entrando e estendendo-lhe a mo. At logo?

--At logo.

A vista da egreja e do morro despertou nella todas as scenas e palavras
que l ficaram transcriptas nos dous ou trez primeiros capitulos.
No esqueceste que foi ao p da egreja, entre esta e a camara, que o
_coup_ esperou ento por ella e pela irm.

--Voc lembra-se, Perpetua? disse Natividade, quando o carro comeou a
andar.

--De que?

--No se lembra que foi alli que ficou o carro, quando fmos  cabocla
do Castello?

Perpetua lembrava-se. Natividade advertiu ques devia ser alli perto a
ladeira por onde subiram com difficuldade e curiosidade, at  casa da
cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia tambem. A casa era
 direita, tinha a escada de pedra...

Descana, amigo, no repito as paginas. Ella  que no podia deixar de
as evocar, nem impedir que viessem de si mesmas. Tudo reapparecia com
a frescura antiga. No esquecera a figurinha da cabocla, quando o pae
a fez entrar na sala: entra, Barbara. A ideia de estar agora madura e
longe, restituida ao Estado, que deixou Provincia, rica onde nasceu
pobre, no acudiu  nossa amiga. No, toda ella voltou quella manh
de 1871. A caboclinha era esta mesma creatura leve e breve, com os
cabellos atados no alto da cabea, olhando, falando, dansando... Cousas
passadas.

Quando a carruagem ia a dobrar a praia de Santa Luzia, ladeando a Santa
Casa, Natividade teve ideia, mas s ideia, de voltar e ir ter  ladeira
do Castello, subir por ella, a ver se achava a adivinha no mesmo logar.
Contar-lhe-hia que os dous meninos de mama, que ella predisse seriam
grandes, eram j deputados e acabavam de tomar assento na camara.
Quando cumpririam elles o seu destino? Viveria o tempo de os ver
grandes homens, ainda que muito velha?

A presidencia da Republica no podia ser para dous, mas um teria a
vice-presidencia, e se este a achasse pouco, trocariam mais tarde os
cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se lembrava das palavras que
ouviu  cabocla, quando lhe perguntou pela especie de grandeza que
caberia aos filhos. Cousas futuras! respondeu a Pythia do Norte, com
tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas
 illuso. Quando muito, so as rodas do carro que vo rolando e as
patas dos cavallos que batem: Cousas futuras! cousas futuras!




CAPITULO CXIX


Que annuncia os seguintes


Todas as historias, se as cortam em fatias, acabam com um capitulo
ultimo e outro penultimo, mas nenhum autor os confessa taes; todos
preferem dar-lhes um titulo proprio. Eu adopto o methodo opposto;
escrevo no alto de cada um dos capitulos seguintes os seus nomes de
remate, e, sem dizer a materia particular de nenhum, indico o kilometro
em que estamos da linha. Isto suppondo que a historia seja um trem de
ferro. A minha no  propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe
tivesse posto aguas e ventos, mas tu viste que s andamos por terra,
a p ou de carro, e mais cuidosos da gente que do cho. No  trem
nem barco;  uma historia simples, acontecida e por acontecer; o que
poders ver nos dous capitulos que faltam, e so curtos.




CAPITULO CXX


Penultimo


Este  ainda um obito. Ja l ficou defunta a joven Flora, aqui vae
morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha, porque li a certido de
baptismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem os cabellos
brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente  edade. A
elegancia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal
maneira que ella conservava, no digo a frescura, mas a graa antiga.

No morreu sem ter uma conferencia particular com os dous filhos,--to
particular, que nem o marido assistiu a ella. Tambem no instou por
isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos cantos; mal
poderia reter as lagrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os seus
finaes pedidos. Porquanto, os medicos j a haviam desenganado. Se eu
no visse nesses officiaes da sade os escrutadores da vida e da morte,
podia torcer a penna, e, contra a predico scientifica, fazer escapar
Natividade. Commetteria uma aco facil e rles, alm de mentirosa.
No, senhor, ella morreu sem falta, poucas semanas depois daquella
sesso da camara. Morreu de typho.

To secreta foi a conferencia della e dos filhos que estes no quizeram
contal-a a ninguem, salvo ao conselheiro Ayres, que a adivinhou em
parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte, pedindo-lhe silencio.

--No juraram calar?

--Positivamente, no, disse um.

--Juramos s o que ella nos pediu, explicou o outro.

--Pois ento podem contal-o a mim. Eu serei discreto como um tumulo.

Ayres sabia que os tumulos no so discretos. Se no dizem nada, 
porque diriam sempre a mesma historia; dahi a fama de discrio. No 
virtude,  falta de novidade.

Ora, o que a me fez, quando elles entraram e fecharam a porta do
quarto, foi pedir-lhes que ficasse cada um do lado da cama e lhe
estendessem a dextra. Juntou-as sem fora e fechou-as nas suas mos
ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos accesos apenas de
febre, pediu-lhes um favor grande e unico. Elles iam chorando e
calando, porventura adivinhando o favor.

--Um favor derradeiro, insistiu ella.

--Diga, mame.

--Vocs vo ser amigos. Sua me padecer no outro mundo, se os no
vir amigos neste. Peo pouco; a vossa vida custou-me muito, a criao
tambem, e a minha esperana era vel-os grandes homens. Deus no quer,
paciencia. Eu  que quero saber que no deixo dous ingratos. Anda,
Pedro, anda, Paulo, jurem que sero amigos.

Os moos choravam. Se no falavam,  porque a voz no lhes queria sair
da garganta. Quando pde, saiu tremula, mas clara e forte:

--Juro, mame!

--Juro, mame!

--Amigos para todo sempre?

--Sim.

--No quero outras saudades. Estas smente, a amizade verdadeira, e que
se no quebre nunca mais.

Natividade ainda conservou as mos delles presas, sentiu-as tremulas de
commoo, e esteve calada alguns instantes.

--Posso morrer tranquilla.

--No, mame no morre, interromperam ambos. Parece que a me quiz
sorrir a esta palavra de confiana, mas a bca no respondeu 
inteno, antes fez um tregeito que assustou os filhos. Paulo correu a
pedir soccorro. Santos entrou desorientado no quarto, a tempo de ouvir
 esposa algumas palavras suspiradas e derradeiras. A agonia comeou
logo, e durou algumas horas. Contadas todas as horas de agonia que tem
havido no mundo, quantos seculos faro? Desses tero sido tenebrosos
alguns, outros melancolicos, muitos desesperados, raros enfadonhos.
Emflm, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao
pranto ou ao silencio.





NDICE



  I --  Cousas futuras!
  II --  Melhor de descer que de subir
  III --  A esmola da felicidade
  IV --  A missa do _coup_
  V --  Ha contradices explicaveis
  VI --  Maternidade
  VII --  Gestao
  VIII --  Nem casal, nem general
  IX --  Vista de palacio
  X --  O juramento
  XI --  Um caso unico!
  XII --  Esse Ayres
  XIII --  A epigraphe
  XIV --  A lico do discipulo
  XV --  _Teste David cum Sibylla_
  XVI --  Paternalismo
  XVII --  Tudo o que restrinjo
  XVIII --  De como vieram crescendo
  XIX --  Apenas duas.--Quarenta annos. Terceira causa
  XX --  A joia
  XXI --  Um ponto escuro
  XXII --  Agora um salto
  XXIII --  Quando tiverem barbas
  XXIV --  Robespierre e Luiz XVI
  XXV --  D. Miguel
  XXVI --  A luta dos retratos
  XXVII --  De uma reflexo intempestiva
  XXVIII --  O resto  certo
  XXIX --  A pessoa mais moa
  XXX --  A gente Baptista
  XXXI --  Flora
  XXXII --  O aposentado
  XXXIII --  A solido tambem cana
  XXXIV --  Inexplicavel
  XXXV --  Em volta da moa
  XXXVI --  A discordia no  to feia como se pinta
  XXXVII --  Desaccordo no accordo
  XXXVIII --  Chegada a proposito
  XXXIX --  Um gatuno
  XL --  Recuerdos
  XLI --  Caso do burro
  XLII --  Uma hypothese
  XLIII --  O discurso
  XLIV --  O salmo
  XLV --  Musa, canta...
  XLVI --  Entre um acto e outro
  XLVII --  S. Matheus, IV, 1-10
  XLVIII --  Terpsichore
  XLIX --  Taboleta velha
  L --  O tinteiro de Evaristo
  LI --  Aqui presente
  LII --  Um segredo
  LIII --  De confidencias
  LIV --  Emfim, s!
  LV --  A mulher  a desolao do homem
  LVI --  O golpe
  LVII --  Das encommendas
  LVIII --  Matar saudades
  LIX --  Noite de 14
  LX --  Manh de 15
  LXI --  Lendo Xenophonte
  LXII --  Pare no D.
  LXIII --  Taboleta nova
  LXIV --  Paz!
  LXV --  Entre os filhos
  LXVI --  O basto e a espadilha
  LXVII --  A noite inteira
  LXVIII --  De manh
  LXIX --  Ao piano
  LXX --  De uma concluso errada
  LXXI --  A commisso
  LXXII --  O regresso
  LXXIII --  Um El-Dorado
  LXXIV --  A alluso do texto
  LXXV --  Proverbio errado
  LXXVI --  Talvez fosse a mesma!
  LXXVII --  Hospedagem
  LXXVIII --  Visita ao marechal
  LXXIX --  Fuso, diffuso, confuso...
  LXXX --  Transfuso, emfim
  LXXXI --  Ai, duas almas...
  LXXXII --  Em S. Clemente
  LXXXIII --  A grande noite
  LXXXIV --  O velho segredo
  LXXXV --  Trez constituies
  LXXXVI --  Antes que me esquea
  LXXXVII --  Entre Ayres e Flora
  LXXXVIII --  No, no, no
  LXXXIX --  O drago
  XC --  O ajuste
  XCI --  Nem s a verdade se deve s mes
  XCII --  Segredo acordado
  XCIII --  No ata nem desata
  XCIV --  Gestos oppostos
  XCV --  O	terceiro
  XCVI --  Retraimento
  XCVII --  Um Christo particular
  XCVIII --  O medico Ayres
  XCIX --  A titulo de ares novos...
  C --  Duas cabeas
  CI --  O caso embrulhado
  CII --  Viso pede meia sombra
  CIII --  O quarto
  CIV --  A resposta
  CV --  A realidade
  CVI --  Ambos quaes?
  CVII --  Estado de sitio
  CVIII --  Velhas cerimonias
  CIX --  Ao p da cova
  CX --  Que va
  CXI --  Um resumo de esperanas
  CXII --  O primeiro mez
  CXIII --  Uma Beatriz para dous
  CXIV --  Consultorio e banca
  CXV --  Troca de opinies
  CXVI --  De regresso
  CXVII --  Posse das cadeiras
  CXVIII --  Cousas passadas, cousas futuras
  CXIX --  Que annuncia os seguintes
  CXX --  Penultimo











End of the Project Gutenberg EBook of Esau e Jacob, by Machado de Assis

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